A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
150 pág.
O que ha de errado com o mundo - G K Chesterton

Pré-visualização | Página 46 de 50

tribo de gigantes para serem
seus porteiros; que os cavalariços poderão nascer de pernas arqueadas e os alfaiates de
pernas cruzadas; que os perfumistas poderão ter narizes compridos e grandes e uma postura
humilhante, como a de cães farejadores; e que degustadores profissionais de vinho poderão já
nascer com a horrível expressão de alguém que prova vinho estampada no rosto. Qualquer que
seja a louca imagem sugerida, ela não se compara ao pânico da fantasia humana quando supõe
que a espécie fixa chamada “homem” poderia ser mudada. Se algum milionário quiser braços,
brotarão dez braços num porteiro, como os de um polvo; se ele quiser pernas, um mensageiro
correrá a atendê-lo com suas cem velozes pernas, como as de uma centopéia. No espelho
distorcido da hipótese, isto é, do desconhecido, os homens podem ver vagamente essas formas
malignas e monstruosas. O homem torna-se um olho ou um punhado de dedos, sem nada lhe
restar, exceto uma narina ou uma orelha. Eis o pesadelo com que nos ameaça a simples noção
de adaptação. Eis um pesadelo que não está lá tão distante da realidade.
Dir-se-á que não é o evolucionista mais imoderado quem realmente solicita que nos
tornemos inumanos de qualquer maneira, ou que imitemos outro animal. Desculpem-me, mas é
exatamente o que desejam não apenas os evolucionistas mais imoderados como também alguns
dos mais dóceis. Tem crescido bastante, nos últimos tempos, um importante culto que se
assemelha à religião do futuro – isto é, a religião daquelas poucas pessoas pusilânimes que
vivem no futuro. É característico de nossa época que ela tenha de procurar seu deus com um
microscópio; e nossa época tem assinalado uma precisa adoração do inseto. Como todas as
coisas que chamamos novas, naturalmente, ela não é de modo algum nova como idéia; é
apenas nova como idolatria. Virgílio leva as abelhas a sério, mas duvido que ele cuidaria
delas com o zelo com que escrevia sobre elas. O sábio rei mandou o preguiçoso observar a
formiga, um serviço fascinante – para um preguiçoso. Mas surgiu em nossa época um tom
bastante diferente. E mais de um grande homem, bem como inúmeros homens inteligentes, têm
sugerido atualmente que deveríamos estudar o inseto porque somos inferiores a ele. Os antigos
moralistas simplesmente tomaram as virtudes humanas e as distribuíram de um modo
completamente ornamental e arbitrário entre os animais. A formiga era quase um símbolo
heráldico da diligência, como o leão o da coragem, ou o pelicano o da caridade. Mas se os
medievais tivessem se convencido de que um leão não era corajoso, teriam deixado de lado o
leão e mantido a coragem; se o pelicano não fosse caridoso, eles diriam: “azar o dele”. Os
antigos moralistas permitiam que a formiga reforçasse e simbolizasse a moralidade humana,
mas jamais permitiriam que ela a frustrasse. Eles usavam a formiga para a diligência como a
cotovia para a pontualidade; eles olhavam para os pássaros batendo suas asas e para os
insetos rastejando em busca de uma simples lição. Nós, contudo, deparamo-nos com uma seita
que não olha para os insetos de baixo para cima senão de cima para baixo, e que basicamente
nos pede que façamos reverência e adoremos besouros, como faziam os antigos egípcios.
Maurice Maeterlinck é um homem de inconfundível inteligência, e o homem inteligente
sempre traz consigo lentes ampliadoras. No terrível cristal de suas lentes, vimos as abelhas
não como um pequeno enxame amarelo, mas antes como exércitos dourados e hierarquias de
guerreiros e rainhas. A imaginação perscruta e rasteja perpetuamente pelas vias e panoramas
dos tubos da ciência, e imaginam-se todas as frenéticas inversões de proporção: a lacraia
avançando a passos largos pela reverberante planície como um elefante, ou o gafanhoto
zunindo sobre nossos telhados como um imenso avião, enquanto salta de Hertfordshire para
Surrey. Parece que entramos num sonho, em um templo de entomologia gigante, cuja
arquitetura se baseia em algo mais selvagem do que os braços ou a coluna vertebral, no qual
as colunas em forma de costelas têm a aparência de obscuras e monstruosas larvas semi-
rastejantes, ou o domo a aparência de uma luminosa aranha horrivelmente pendente do vazio.
Há uma obra moderna da engenharia que provoca algo similar a esse inominável medo dos
exageros de um submundo. Trata-se da estranha arquitetura curva do metrô subterrâneo,
comumente chamado de Twopenny Tube (“tubo de dois pennies”)73. Aqueles grossos arcos,
sem qualquer barra ou pilar vertical, parecem ter sido construídos por minhocas gigantes que
nunca souberam suspender suas cabeças. É o próprio palácio subterrâneo da Serpente, o
espírito de forma e cor mutantes, que é inimigo do homem.
Mas não foi apenas por meio de tais estranhas inspirações estéticas que escritores como
Maeterlinck nos influenciaram nesse campo; há também uma dimensão ética nesse assunto. O
livro de Maeterlinck sobre as abelhas termina com uma confissão de admiração (ou, pode-se
dizer, de inveja) de sua espiritualidade coletiva, do fato de elas viverem apenas em função de
algo que ele chama de a “alma da colméia”. E essa admiração da moralidade comunitária dos
insetos manifesta-se em muitos outros escritores modernos de origens diversas e sob diversos
aspectos. Segundo a teoria do sr. Benjamin Kidd, vive-se apenas em função do futuro
evolutivo de nossa raça e o grande interesse que alguns socialistas têm pelas formigas, que
geralmente preferem às abelhas, deve-se – suponho – a não serem tão gloriosamente
coloridas. Não menos importantes entre as centenas de evidências em favor dessa vaga
insetolatria são as enxurradas de bajulações dirigidas pelos modernos àquela enérgica nação
do Extremo Oriente, da qual foi dito que o “Patriotismo é a única religião”; ou, em outras
palavras, que ela vive apenas em função da “alma da colméia”. Quando, ao longo de vários
séculos, a Cristandade se tornou fraca, mórbida ou cética, e a misteriosa Ásia começou a
mover em nossa direção suas sombrias populações e a despejá-las no Oeste num trevoso
movimento de massa, em tais casos tem sido muito comum comparar a invasão a uma praga de
piolhos ou a incessantes exércitos de gafanhotos. Os exércitos orientais de fato se
assemelhavam a insetos. Em sua ânsia cega e diligente por destruir, em seu perverso niilismo
de cunho pessoal, em sua detestável indiferença em relação à vida individual e ao amor, em
sua desprezível crença em simples números, em sua coragem pessimista e seu patriotismo
ateu, os viajantes e invasores74 do Oriente de fato se assemelham a todas as coisas rastejantes
da terra. Mas creio que os cristãos nunca chamaram um turco de gafanhoto, tomando-o como
elogio. Hoje, pela primeira vez, nós adoramos o que tememos e observamos com adoração
aquela enorme forma que avança de modo vago e indeterminado desde a Ásia, vagamente
discernível no meio de nuvens místicas de criaturas aladas pairando sobre terras destruídas,
invadindo os céus como o trovão e manchando os céus como a chuva: eis Belzebu, o Senhor
das Moscas.
Ao resistirmos a essa horrível teoria da “alma da colméia”, nós da Cristandade defendemos
não só nós mesmos, mas toda a humanidade, defendemos a essencial e inconfundível idéia
humana de que um homem bom e feliz é um fim em si mesmo, de que uma alma merece ser
salva. Mais ainda, segundo aqueles que gostam de tais fantasias biológicas, é bem possível
que se diga que resistamos como chefes e defensores de toda uma parte da natureza, príncipes
da casa cujo conhecimento é a espinha dorsal, defendendo o leite da mãe particular e a
coragem do filhote errante, representando o cavalheirismo patético do cão, o humor e a
perversidade dos gatos, a afeição do plácido cavalo, a solidão do leão. Mais concretamente,
porém, convém argumentar que essa simples glorificação da sociedade, tal como ocorre com
os insetos sociais, é transformação e dissolução de um dos contornos que foram
particularmente os símbolos do homem. Na confusa