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Reflexão acerca da Personalidade Autoritária sob o olhar psicanalítico de Freud

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Carolina Cohen
RA00187635
Trabalho parcial para obtenção de nota
Disciplina: Personalidade autoritária
Professora: Mônica Carvalho
A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE AUTORITÁRIA: INFLUÊNCIAS DA PSICANÁLISE
[...]. Facilmente podem adivinhar que, quando levamos em conta o superego, estamos dando um passo importante para a nossa compreensão do comportamento social da humanidade - do problema da delinquência, por exemplo - e, talvez, até mesmo estejamos dando indicações práticas referentes à educação. Parece provável que aquilo que se conhece como visão materialista da história peque por subestimar esse fator. Eles o põem de lado, com o comentário de que as ‘ideologias’ do homem nada mais são do que produto e superestrutura de suas condições econômicas contemporâneas. Isto é verdade, mas muito provavelmente não a verdade inteira. [...] (FREUD, 1932-1936, pp. 47)
Diante das discussões em sala de aula sobre conteúdos e reflexões acerca da temática da personalidade autoritária, escolhi abordar o texto “Dissecção da personalidade psíquica” de Sigmund Freud. Essa decisão foi tomada a partir do conteúdo desenvolvido pelo autor e a relação deste com a formação da personalidade autoritária a partir da visão do materialismo histórico, posteriormente sintetizada por Adorno e diversos outros autores: a percepção da formação da personalidade do indivíduo e sua relação direta com o meio externo sintetizado e publicado por Freud em sua obra de 1932-1936 é o primórdio de uma visão materialista histórica pelo qual eu acredito que seja essencial em entender o que é uma personalidade autoritária e como ela se forma. Olhar para as condições econômicas e como elas influenciam no comportamento de uma sociedade é de suma importância, mas é insuficiente para explicar a ascensão de líderes autoritários. É nesse sentido que a psicanálise deve entrar para complementar uma abordagem materialista-histórica.
Nesse contexto, o texto escolhido foi publicado em 1932 e está inserido na obra Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos, no qual Freud explora diversos aspectos da mente e de transtornos mentais, expondo ao público diversas descobertas científicas da psicanálise. Essas descobertas se tornaram uma grande referência na construção do pensamento da escola de Frankfurt – uma vertente essencial dentro do campo materialista histórico marxista.
 O que chama grande atenção da obra em questão de Freud é a ausência da dicotomia bem x mal, mas sim moral x imoral. A partir dessa ausência, é possível entender que o ser humano é muito mais complexo que o que conseguimos enxergar “a olho nu” – e é a partir dessa visão que o autor explica as três esferas da mente humana e desconstrói a ideia de que um individuo é mentalmente consciente de tudo em relação a si e ao meio externo, analisando, assim, as partes inconscientes do ser humano. 
Dessa maneira, pode-se dizer que o argumento central da Dissecção da personalidade psíquica é que o “eu” não é algo dado, mas sim construído sob uma forte influência das normas sociais (a moralidade). Esta é um produto social e histórico, não existindo, assim, uma “moral em si”. Ela constrange e contém o que está atrelado à natureza em prol de uma civilidade e de um bem-estar social – ou seja, está atrelada diretamente à fatores externos do indivíduo, que por sua vez é ensinado sobre essa moralidade e a absorve quando começa a se reconhecer como um ser social.
A relação do ser humano com a moralidade imposta é constituída por Freud em três esferas que compõem a estrutura da personalidade: o superego, o ego e o id.
O superego é a esfera da personalidade psíquica do ser humano que absorve essa moralidade do meio externo (que foi passada para o indivíduo através de sua relação com seus pais e professores, por exemplo) e, portanto, um dos seus principais papéis é observar, julgar e censurar o “Eu”. É a mediação do “princípio de realidade”, que contém o papel do prazer. “Sinto-me inclinado a fazer algo que penso irá dar-me prazer, mas abandono-o pelo motivo de que minha consciência não o admite” (FREUD, 1932, p. 42) 
Nesse sentido e em termos supérfluos, o superego funciona como uma espécie de consciência moral do indivíduo.
	O id é como se fosse uma esfera oposta à função do superego – é justamente essa esfera que o superego reprime. É a parte que foi reprimida e escamoteada ao inconsciente: o id se manifesta através de pulsões associadas ao princípio instintivo do prazer, podendo refletir ou não em transtornos psíquicos na vida adulta (exemplo: necessidade enorme de praticar essas pulsões após ter as reprimido por tanto tempo).
[...] Descrevemo-lo como estando aberto, no seu extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica [...]Está repleto de energias que a ele chegam dos instintos, porém não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades instintuais, sujeita à observância do princípio de prazer. As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao id [...] id não conhece nenhum julgamento de valores: não conhece o bem, nem o mal, nem moralidade. [...] (FREUD, 1932-1936, pp. 45-46)
Por fim, o ego é o que chamamos de “Eu”. É a parte canalizadora que media o princípio do prazer e as restrições da hipernormatividade para com o mundo externo. Freud o descreve como uma parte do id “que se modificou pela proximidade e influência do mundo externo, que está adaptada para a recepção de estímulos, e adaptada como escudo protetor contra os estímulos. “ (FREUD, 1932, p. 52)
Pode-se dizer que o ego significa razão e bom senso (através do contato com o mundo externo).
“O ego, pressionado pelo id, confinado pelo superego, repelido pela realidade, luta por exercer eficientemente sua incumbência econômica de instituir a harmonia entre as forças e as influências que atuam nele. “ (FREUD, 1932, p .54)
A partir desses conceitos acerca da psique do ser humano, no que condiz à disciplina do curso, concluo que a personalidade autoritária através da visão psicanalítica é uma falha na mediação do ego para com o superego e o id. É uma personalidade que quer extravasar seus desejos, ultrapassando os valores morais que a personalidade absorve através do superego e não media as pulsões do id. Nesse sentido, pode ser visto como um desequilíbrio no que se refere aos campos mentais da consciência e inconsciência de um individuo, se enquadrando em uma forma de transtorno psíquico. 
Nesse sentido, é de suma importância esse elemento psicanalítico freudiano para compreender a personalidade autoritária, pois o desequilíbrio mental através dessa contradição de repressão da natureza pela hipernormatividade social é o ponto chave da abordagem materialista histórica que analisa um indivíduo potencialmente fascista, tendo como destaque Theodor W. Adorno em sua obra Estudos sobre a Personalidade Autoritária (1950).
Analisar a formação de uma personalidade autoritária é uma das tarefas mais desafiadoras da pesquisa. Não só pelo alto nível de complexidade do tema, mas principalmente pela fusão de áreas do conhecimento. A ascensão de um indivíduo fascista ao cargo de chefe de Estado de uma nação, por exemplo, não se explica somente através do desequilíbrio entre as esferas psíquicas de sua mente, pois este precisa de respaldo popular para chegar no poder – e é praticamente impossível que o que constitui a maioria da população de uma sociedade tenha algum tipo de transtorno psíquico. É nesse sentido que a sociologia colabora com fatores sócio econômicos. O que se pode concluir, portanto, é que a personalidade autoritária não é uma regra dentro da sociedade e muito menos uma exceção, mas sim um fenômeno: um objeto de pesquisa do campo da psicologia, sociologia, antropologia e filosofia, que nos cerca cotidianamente através de suas potencialidades.