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LÍNGUA, CULTURA E DIVERSIDADE: BRASIL PLURAL, ESCOLA IGUAL. 
Maria Eneida da Silva1 
Débora Cristina Santos e Silva² 
 
 
RESUMO: A discussão do tema \u201clíngua, cultura e diversidade\u201d provém de reflexões 
advindas de revisão de literatura da pesquisa de mestrado que está em andamento intitulada 
Leitura e escrita no ensino médio: desafios do multiletramento, cujos objetivos são investigar, 
descrever e analisar quais os desafios enfrentados e quais as metodologias utilizadas no 
trabalho com a leitura e a escrita, com vistas ao multiletramento no ensino médio da rede 
pública estadual de educação do município de Luziânia, Goiás. A proposta deste artigo é 
promover reflexões sobre o ensino de língua portuguesa que saia da ênfase no ensino 
normativo para o reflexivo e que considere como imprescindível o aspecto sociolinguístico da 
língua, com foco na cultura e na diversidade de um país tão plural quanto o Brasil. Para tanto, 
contamos com os aportes teóricos sobre leitura e escrita (SAUSSURE, 1972; BAKHTIN, 
2000; CHARTIER, 1999, 2011); letramento (SOARES, 2004); as perspectivas críticas sobre o 
letramento(s) (ROJO, 2008, 2009; SOUZA); multiletramento(s) (ROJO; MOURA, 2012); 
multilinguismo e história da língua portuguesa no Brasil (GUIMARÃES, 2005); cultura e 
culturas híbridas (GARCÍA CANCLINI, 2008); ensino de língua portuguesa (ANTUNES, 
2009); sociolinguística (BOTONI-RICARDO, 2004); gênero textual e leitura (MARCUSCHI, 
2008; DIONÍSIO; VASCONCELOS, 2013) e diversidade comunicativa contemporânea 
(FISCHER, 2007; BELLONI, 2001). A partir da etapa inicial da pesquisa, será discutido o 
ensino de língua portuguesa na busca pela reflexão dos sujeitos de uma língua que é história, 
cultura e diversidade. 
PALAVRAS-CHAVE: Língua. Cultura. Diversidade. Multiletramento. Escola. 
 
1. INTRODUÇÃO 
O mundo do futuro, em que não existe mais de uma única língua, é 
também o mundo do esquecimento, sem museus, sem bibliotecas, sem 
livros [...] significa, assim, a perda da história, o desaparecimento 
das identidades e, finalmente, a destruição aprovada. 
(Roger Chartier) 
Neste trabalho, apresentaremos as teorias e conceitos de língua, cultura, diversidade, 
multiletramento(s), bem como abordaremos conceitos anteriores a este \u2013 letramento e 
letramentos. Discutiremos sobre leitura e escrita e as perspectivas em torno dos estudos sobre 
 
1 Professora Titular da Universidade Estadual de Goiás \u2013 UEG, Campus Universitário de Luziânia; graduada em 
Letras; aluna do Programa Stricto Sensu de Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias \u2013 
MIELT \u2013 da UEG Campus Anápolis; Bolsista do Programa Próprio de Bolsas da UEG. e-mail: 
eneida.ueg@hotmail.com 
² Professora Titular pós-doutora do Programa Stricto Sensu de Mestrado Interdisciplinar em Educação, 
Linguagem e Tecnologias \u2013 MIELT \u2013 da UEG Campus Anápolis e orientadora da pesquisa. e-mail: 
desants@uol.com.br 
 
mailto:eneida.ueg@hotmail.com
mailto:desants@uol.com.br
 
 
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educação linguística, com foco nos desafios e nas possibilidades de alcance do 
multiletramento, considerando a existência de novas tecnologias e novos espaços para seu 
desenvolvimento. 
A primeira seção apresenta um breve percurso teórico e histórico sobre a língua 
portuguesa no Brasil; a compreensão de língua, cultura e diversidade como indissociáveis no 
processo de historicidade individual e coletiva do homem. Trataremos da necessidade de que 
haja o alcance do multiletramento no ensino médio, preocupando-se com a inserção social e a 
valorização das diferenças linguísticas e culturais presentes em sala de aula. 
Em seguida, na segunda seção, traremos discussões acerca das diferenças da língua 
que se fala em casa, na rua e em outros locais e a que é ensinada na escola, levando-se em 
consideração as práticas sociais de leitura e escrita efetuadas que se ampliam e se modificam 
com a emergência das Tecnologias da Informação e Comunicação \u2013 TICs. Haverá, ainda, 
exposição e discussão de estudos que focam a aprendizagem de língua materna no trabalho 
com textos, considerando a diversidade textual presente na sociedade e que deve estar 
presente também na escola. 
Por fim, na terceira e última seção, traremos algumas argumentações embasadas na 
revisão de literatura, na busca por reflexões acerca do que pesquisas e mais pesquisas 
apontam como desafios para os multiletramentos, mas também, grandes possibilidades de 
ensino da leitura e da escrita aos jovens, não se esquecendo de que o mundo acontece também 
e, principalmente, fora da escola. 
A partir de reflexões acerca da língua e da grande diversidade linguística do Brasil, 
proporemos um olhar diferenciado sobre a língua portuguesa e seu ensino na escola, a fim de 
contribuir com a mediação pedagógica e com uma nova prática em que sejam valorizados os 
aspectos sociolinguísticos e não somente formais da língua. As discussões encaminhadas ao 
longo do texto objetivam contribuições que viabilizem a compreensão das diferenças dos 
papeis sociais, dos eventos de letramento, multiletramento e de oralidade com foco nas 
variações linguísticas e estilísticas que precisam ser destacadas, trabalhadas e valorizadas em 
sala de aula. Isso fará com que o aluno não sinta que sua língua é uma e a que a escola ensina 
é outra. É preciso valorizar a cultura e a diversidade em todos os domínios sociais 
(BORTONI-RICARDO, 2004), mas é no espaço escolar com todas as suas singularidades 
linguísticas que o esforço deve ser empreendido, visto que o Brasil se revela cada dia mais 
plural para um ensino de língua sempre igual. 
 
 
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2. LÍNGUA, CULTURA, DIVERSIDADE E O MULTILETRAMENTO 
 
Como falantes do português no Brasil, e mesmo como professores, 
estamos de algum modo, envoltos numa certeza: o Brasil tem uma 
língua: o português do Brasil. 
(Eduardo Guimarães) 
 
A história do Brasil teve por base uma grande diversidade de sujeitos históricos, 
considerando-se os colonizadores e os povos que aqui viviam ou que para cá vieram. Não se 
pode desconsiderar, pois, nos espaços de enunciação (GUIMARÃES, 2005) ou nos domínios 
sociais \u2013 que são os lugares onde as pessoas interagem, espaços em que a língua funciona 
ligada ao processo de identificação social do sujeito \u2013 as relações do português e as línguas 
indígenas; do português e as línguas africanas; do português e as línguas de imigração, pois 
tal relação é o resultado de histórias muito particulares da colonização e pós-colonização que 
produziram diferenças e efeitos importantes na estruturação e variação da língua no país. 
O espaço de enunciação do Brasil começa a ser modificado, segundo Guimarães 
(2005), quando Portugal direciona ações específicas para impor o português como língua 
oficial e o Marquês de Pombal proíbe, pelo Diretório dos Índios de 1757, o uso de línguas 
indígenas. Uma nova mudança desse espaço se dá tanto com a vinda da Família Real \u2013 em 
que cerca de 15.000 portugueses chegaram ao Rio de Janeiro, aumentando o número de 
falantes do português \u2013 quanto com a criação de duas instituições culturais, a Biblioteca 
Nacional e a Imprensa que usava oficialmente a língua portuguesa. 
A partir da independência, em 1822, há no parlamento brasileiro a decisão de que \u201co 
ensino da língua deve ser [...] através do uso da gramática da \u201elíngua nacional\u201f [...] [e esta era 
assim denominada] como forma de não nomear a língua da nova Nação pelo nome do antigo 
colonizador\u201d (GUIMARÃES, 2005, p. 15). Com o caráter de língua oficial e também 
nacional, estabelecer-se-iam relações conflituosas com as línguas indígenas e, mais tarde, com 
as línguas dos imigrantes. 
Ainda de acordo com Guimarães (2005), o idioma nacional passou a ser chamado de 
Língua Portuguesa quando, na Constituição de 1946, estabelece-se a obrigação do governo de 
constituir uma comissão de especialistas para tal fim. O argumento