(Encontro 2) O HERMENÊUTA E O DEMIURGO
33 pág.

(Encontro 2) O HERMENÊUTA E O DEMIURGO


DisciplinaTemas de Teoria do Direito69 materiais303 seguidores
Pré-visualização14 páginas
1 
O HERMENÊUTA E O DEMIURGO 
presença da alquimia no histórico da interpretação jurídica 
 
 
Wilson Madeira Filho 
Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense 
Professor do Programa de Pós-Graduação em Justiça Administrativa da UFF 
 
 
 
Nós somos tanto o centro como qualquer outro ponto do Universo 
(Giordano Bruno, 1591) 
1. Enxofre 
 
 
 
 
 A figura acima fez parte do primeiro Musaeum Hermeticum, surgido em Frankfurt 
em 1625, por meio do editor Lucas Jennis, um simpatizante da invisível Irmandade 
Luterana. Determinadas correspondências em sua interpretação poderão vir a enunciar 
questões no mínimo curiosas sobre os primórdios da hermenêutica jurídica. 
 Não se pretenda, contudo, encontrar no presente texto uma leitura de fundo místico 
e religioso, mesmo por respeito aos místicos, junto a cujo trabalho sequer se atreve 
qualquer comparação. Trata-se o ensaio antes de uma investigação de ordem semiológica, 
 2 
buscando compreender um pouco da natureza do discurso interpretativo, operando aspectos 
da semântica e da metalinguagem. À pecha de esoterismo e ingenuidade com colorido 
exótico, geralmente atribuída à boa parte dos estudos atuais em Alquimia \u2013 vale dizer, os 
mesmos argumentos que, desde o final do século XVI, buscam enfatizar a Ciência como o 
local por excelência do definição da Verdade -, poderia aqui resultar numa alegoria 
paradoxal: o discurso do Direito, por auto-validar suas verdades, não fugiria ao atribuído 
tom \u201creligioso\u201d e \u201cpseudo-científico\u201d. 
 Elementos, enfim, encontradiços, aos quais se irá retornando mais adiante, na 
medida em que forem chamados à cena esses diferentes aspectos 
Na gravura acima, as correspondências numéricas assinaladas nas pontas da estrela 
permitem que se estabeleça uma leitura gradativa1, partindo de uma unidade essencial, o 
número um, identificado com o centro da mandala, onde o próprio alquimista se apresenta, 
mesmo a indicar ser este o espaço onde a consciência deve postar-se, a integrar os 
elementos simbólicos ao redor. Vale dizer, aquele que interpreta não pode perder de vista 
que ele está no centro da interpretação. Tal assertiva não se imbui aqui de um caráter proto-
etnocêntrico, como enunciado em Protágoras, para quem \u201co homem é a medida de todas as 
coisas\u201d, mas antes como alerta de que o próprio homem deve interpretar-se no conjunto da 
investigação. 
O número dois salienta a reunião dos opostos, através dos arquétipos do masculino e 
do feminino, propulsores da Obra em Vermelho e da Obra em Branco. Nesse sentido, 
vemos, de um lado, o rei solar, montado sobre um leão, símbolo do domínio sobre a 
matéria-prima necessária para a constituição da Tintura Vermelha. E, do lado oposto, a 
rainha lunar, montada sobre uma baleia, em meio ao mar da procriação, dominando a 
matéria-prima necessária para a realização da Tintura Branca. A reunião de ambos na 
unidade do demiurgo traria a figura mitológica do hermafrodita \u2013 filho de Hermes e 
Afrodite \u2013, ideal de reunificação da completude do corpo humano, cingido quando da 
aventura humana para além do Uno primordial. 
O número três transparece no triângulo formado pela Alma solar, pelo Espírito lunar 
e pelo Corpo terreno (representado pelo cubo da Terra, cercado pelos cinco demais 
planetas). Aqui a leitura hermética já demonstra francamente sua influência rosa-cruciana, 
pelo consórcio dos saberes atribuídos a Hermes Trismegisto com a tentativa de tradução 
desse simbolismo para a atmosfera do cristianismo, propondo paralelos entre o triângulo 
alquímico e a Santíssima Trindade. Observa-se ainda que o sistema cósmico do Timeu de 
Platão (427-374 a.C.), consagrado, com leve alteração, no sistema de Ptolomeu (c. 100 \u2013 
160 d. C.), tendo a Terra como centro do Universo, cercada pelas sete esferas etéreas da 
Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno, já se encontra em controvérsia com 
outro sistemas, como o proposto em 1543 por Copérnico (1473-1543) - com o sol no centro 
do universo, descrevendo movimentos ascensionais da matéria desde seu estado mais 
impuro, vindo de Saturno-Chumbo até o Sol-Ouro - e o proposto em 1580 por Tycho Brahe 
(1546-1601), o último e o mais brilhante astrônomo a olho nu, para quem o sol giraria ao 
redor da Terra, sendo, por sua vez, o centro dos outros cinco \u201cplanetas\u201d. 
 
1 A ordem da presente leitura é tributária da interpretação da mesma gravura por Adam McLean no seu A 
mandala alquímica: um estudo sobre a mandala nas tradições esotéricas ocidentais. Tradução de Júlio 
Fischer. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997, pp. 40-42. 
 3 
O número quatro está simbolizado pela quadratura do círculo2, simbolizado pelo 
quadrado que envolve a gravura e que possui em suas quatro extremidades a salamandra de 
Fogo, a águia do Ar, a Terra e a Água: os quatro elementos formadores da vida, forças 
criadoras do Universo \u2013 cuja correspondência na literatura hesíodica demonstra a origem 
com Caos, Gaia, Tártaro e Eros. 
O número cinco, formado pelo pentágono do corpo do alquimista, aponta para a 
quintessência, o elemento transformador da Criação, aqui identificado com a própria busca 
do alquimista, em sua trajetória pela indagação. Seu pé direito encontra-se sobre a terra e 
seu pé esquerdo sobre a água, a pena na mão esquerda simboliza tanto o ar quanto a Tintura 
Branca, lunar, e a tocha na mão direita, simboliza a um tempo o fogo e a Tintura Vermelha, 
solar. A Tintura Branca, elemento formador da Obra em Branco, seria aquela, construída 
entre os homens, capacitando a variedade. A Tintura Vermelha, realizando a Obra em 
Vermelho, seria a da consagração do demiurgo3, entendido aqui como o próprio 
pesquisador alquimista em sua \u201ccolaboração\u201d para com a criação, não só desvendando os 
mistérios da natureza, mas participando ativamente da vida pulsante da consciência, em 
permanente processo de descoberta. Nesse sentido, a quintessência está simbolizada nas 
asas sobre a cabeça do alquimista, fazendo-o alçar o vôo espiritual. 
O número seis está simbolizado pela imbricação do triângulo externo com o 
triângulo interno formado pelos símbolos básicos da alquimia, o mercúrio lunar à esquerda, 
o enxofre solar à direita e o sal, correspondendo, respectivamente, ao Spiritus, a Anima e ao 
Corpus. Todavia essa disposição simbólica, através de obras correlatas de Jacob Boehme 
(1575-1624), permitem tomar todo o centro da figura como um símbolo estilizado do 
elemento mercúrio \u2013 versão romana do deus Hermes -, formado pelo círculo no centro, 
encimado pelas asas da fênix no topo e pela cruz saturnina em direção ao cubo terrestre. Do 
mesmo modo, frente a uma leitura comparada com a Cabala, os dois triângulos seriam os 
formadores da estrela de seis pontas, a Estrela de David, ou o Signo de Salomão, capaz de 
conter os espíritos sobrenaturais. 
Finalmente, o número sete aparece representado de várias formas. Uma delas é a 
estrela de sete pontas com os símbolos dos planetas. Nesse sentido, o caminho do um ao 
sete estaria a representar não apenas uma ascensão da busca do indivíduo que alcança uma 
geometria espiritual mais ampla, como também as dimensões da investigação, atuando 
tanto no microcosmos do investigador quanto no macrocosmos do Universo. 
Outra forma são as sete letras do acróstico da palavra VITRIOL, indicando o 
vitríolo, elemento químico elaborado pela demiúrgica, como representante terrestre do 
 
2 Segundo Michael Maier (1568-1622) \u201cos quatro elementos devem ser separados de todo o corpo simples (...) 
Através da transformação do quadrado num triângulo, mostram que o homem deve promover o espírito, o 
corpo e a alma, que surgem então em três breves cores antes do vermelho\u201d. Ao corpo corresponderá a cor 
preta saturnina, ao espírito a brancura lunar e à alma uma tonalidade citrina imaterial. \u201cQuando o triângulo 
atingir sua perfeição máxima, deve ser transformado de novo num círculo, ou