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2017
Semântica e estilística
Claudio Cezar Henriques
Todos os direitos reservados.
IESDE BRASIL S/A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Capa: IESDE BRASIL S/A.
Imagem da capa: klikk/istockphoto
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
H449s Henriques, Claudio Cezar
Semântica e estilística / Claudio Cezar Henriques. -- 1. ed. -- 
Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2017. 
188 p. : il. 
Inclui bibliografia
 ISBN: 978-85-387-6327-7
1. Semântica. 2. Linguística. 3. Língua portuguesa. I. Título.
17-41306 CDD: 401.43CDU: 81’37
© 2009-2017 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito 
dos autores e do detentor dos direitos autorais.
Apresentação
Nos estudos de Língua Portuguesa dedicamos uma boa parte do 
tempo aos conteúdos tradicionais da gramática, em especial a sintaxe, 
a morfologia e a fonologia. Além disso, temos sempre de nos atualizar 
quanto às questões da ortografia, fazer muitas leituras e redações. É, em 
suma, um grande aprendizado.
Quando juntamos todas essas informações e refletimos seriamente 
sobre nossa vida escolar, podemos fazer um balanço dos proveitos que 
tanto estudo nos trouxe. As aulas e as orientações devem ter deixado em 
cada um de nós a certeza de que estamos mais conscientes de nosso papel 
na sociedade e de nosso compromisso com a língua portuguesa.
De todas as ferramentas aprendidas após tantas aulas, as duas que 
fazem parte deste livro se sobressaem: a ferramenta estilística que se re-
fere à pragmática e a ferramenta semântica. Elas sintetizam, ou melhor, 
elas sublimam tudo que se estudou nas muitas disciplinas dos estudos 
linguísticos, desde as primeiras letras até estas Letras superiores.
A ciência da expressividade e a ciência das significações. Ambas 
percorrem este volume, chamando de volta aquelas aulas, pesquisas e 
conteúdos gravados nas nossas lembranças – e agora mais repisados, 
amadurecidos, disponíveis para uso e para uma mudança de posição no 
ato de aprender e ensinar.
A Estilística e a Semântica – o leitor confirmará – são disciplinas da 
vida acadêmica e da vida real, levando-nos em busca de um lugar expres-
sivo e significativo, compelindo-nos ao entendimento e à explicação, à 
indagação, cogitação, novas sendas filológicas, pragmáticas, discursivas.
Na estrutura deste livro, optamos por trabalhar em conjunto, sem-
pre que possível, o binômio estilística/semântica. Embora as separemos 
didaticamente na organização dos capítulos, uma e outra estarão muito 
perto nas explicações, comentários e propostas de atividades, imbrican-
do-se nos dois últimos capítulos, quando tratamos das características do 
texto ficcional e fazemos dele a matéria incisiva para a aplicação dos estu-
dos semântico-estilísticos.
Carpe librum!
Sobre o autor
Claudio Cezar Henriques
Pós-Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP); Doutor 
em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Mestre 
em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Licenciado e 
Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
6 Semântica e estilística
SumárioSumário
1 Estilística, a ciência da expressividade 9
1.1 A palavra “estilo” 9
1.2 As origens da Estilística 10
1.3 Principais correntes da Estilística 12
1.4 Aplicações da Estilística aos estudos do Português 15
2 Estilística fônica 23
2.1 Distinção entre letra e fonema 23
2.2 Expressividade das vogais e das consoantes 25
2.3 Relações expressivas entre a fala e a escrita 28
2.4 Figuras de linguagem 29
3 Estilística léxica 37
3.1 Conceituação de léxico 37
3.2 Palavras lexicais e palavras gramaticais 39
3.3 Neologismos lexicais e semânticos 41
3.4 Figuras de linguagem 43
4 Estilística sintática – I 53
4.1 Conceituação de sintaxe da frase 53
4.2 Organização das palavras na oração 56
4.3 Extensão das frases 58
4.4 Referenciação intrafrásica 59
4.5 Figuras de linguagem 61
5 Estilística sintática – II 67
5.1 Conceituação de sintaxe do período 67
5.2 Organização das orações (no período) 69
5.3 Referenciação interfrásica 71
5.4 Figuras de linguagem 74
Semântica e estilística 7
SumárioSumário
6 Estilística da enunciação 81
6.1 Adequação sintática e adequação semântica 82
6.2 As pessoas do discurso e as pessoas gramaticais 85
6.3 Tipos de discurso 87
7 Semântica, a ciência das significações 97
7.1 Significante e significado 97
7.2 Principais correntes da Semântica 99
7.3 Semântica do texto e do contexto 102
8 Relações Semânticas – I 111
8.1 Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia 111
8.2 Dicionários gerais e específicos 112
8.3 Sinonímia e antonímia 117
8.4 Homonímia e paronímia 118
9 Relações Semânticas – II 123
9.1 Campos associativos, conceituais e semânticos 123
9.2 Hiperonímia e hiponímia 125
9.3 Antonomásia e eponímia 128
10 Relações Semânticas – III 139
10.1 Paráfrase 139
10.2 Perífrase 142
10.3 Ambiguidade e polissemia 144
11 Características do texto ficcional 155
11.1 Ficção e verossimilhança 155
11.2 Narratividade, descritividade e argumentatividade 158
8 Semântica e estilística
Sumário
12 Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 169
12.1 Digressão 169
12.2 Intertextualidade 173
12.3 Estilística aplicada ao texto ficcional 176
Semântica e estilística 9
1
Estilística, a ciência da 
expressividade
O objetivo deste capítulo é conceituar os termos estilo e estilística e destacar a 
importância dos estudos estilísticos para a compreensão do funcionamento da língua 
portuguesa.
1.1 A palavra “estilo”
O termo estilo (registrado pela primeira vez em nossa língua no século XIV) pro-
vém do latim stilus: “qualquer objeto em forma de haste pontiaguda, ponteiro de ferro 
para escrever sobre tabuinhas enceradas”, definição que reúne as informações de 
duas obras homônimas, o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de J. P. Machado 
(1977), e o de A. Nascentes (1955).
De instrumento empregado para escrever, passou a significar, por um processo 
metonímico, a própria escrita e, depois, a linguagem considerada em relação ao que 
ela tem de característico. Por fim, expandindo seu campo de significação, estilo pas-
sou também a representar qualquer conjunto de tendências e características formais, 
estéticas, que identificam ou distinguem uma obra, artista, escritor, ou determinado 
período ou movimento, ou até mesmo um objeto.
Daí, é possível encontrarmos essa palavra acompanhada de muitas e variadas refe-
rências (poema em estilo parnasiano; móvel em estilo colonial; atriz com um estilo 
afetado; filme no estilo europeu) e, genericamente, como sinônimo de “maneira” e 
“elegância” (esse é o meu estilo de vida; ela não tem estilo).
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística10
Figura 1 – Estilo.
Estilo: qualquer obje-
to em forma de haste 
pontiaguda, ponteiro de 
ferro para escrever sobre 
tabuinhas enceradas.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Dessa palavra deriva, por exemplo, o substantivo estilete: utensílio com lâmina móvel 
e bastante afiada, protegido por invólucro de plástico, usado para cortar papelão, couro, 
borracha etc. Deriva também o substantivo estilística, tema que se aplica a variados campos 
de estudo, inclusive aos estudos linguísticos e literários.
Nos estudos de língua, pode-se definir estilo como o modo pelo qual um indivíduo usa 
os recursos fonológicos, morfológicos, sintáticos, lexicais, semânticos, discursivosda língua 
para expressar, oralmente ou por escrito, pensamentos, sentimentos, opiniões, etc.
Ou seja: nos estudos de língua portuguesa... estilo é escolha linguística. Essa escolha 
depende da capacidade e sensibilidade de cada usuário de responder a estas perguntas:
– O que tem a dizer?
– Para quem vai dizer?
– Como vai dizer?
– Quando vai dizer?
Por isso, não é exagero afirmar que:
• Quem não tem o que escolher não tem estilo... Tem cacoete.
• Quem tem o que escolher, mas escolhe mal, também não tem estilo... Tem mau gosto.
1.2 As origens da Estilística
As definições de Estilística variam conforme o recorte teórico a que pertence o analista, 
mas não se pode negar que sua existência tem uma conexão histórica e semântica com a Poética 
(enquanto “teoria geral das obras literárias”) e a Retórica (enquanto “teoria do discurso”).
As definições que seguem foram extraídas do Dicionário Houaiss:
• Poética – parte dos estudos literários que se propõe a investigar os processos que 
dizem respeito às normas versificatórias dos textos, os componentes teóricos de 
que se revestem, bem como os compêndios de poética que, desde Aristóteles até 
os nossos dias, abordaram o assunto (HOUAISS, 2004).
• Retórica – a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; a arte da palavra; con-
junto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da eloquência; oratória 
(HOUAISS, 2004).
Estilística, a ciência da expressividade
Semântica e estilística
1
11
A Estilística se baseia sobretudo em duas das três funções primordiais da linguagem 
depreendidas pelo alemão Karl Bühler (1879-1963): representação, expressão e apelo (BÜHLER, 
1934). A elas correspondem, respectivamente, as faculdades de inteligência, sensibilidade e 
desejo ou vontade, centrando-se a Estilística na expressão e no apelo.
Quadro 1 – As funções da linguagem segundo Karl Bühler.
• representação linguagem referencial denotativa
eixo sintagmático
(= posição no texto)
• expressão exteriorização psíquica de nossos anseios e sentimentos
denotativa /
conotativa
eixo paradigmático
(= posição no sistema)
• apelo exercício de influência sobre os interlocutores
denotativa /
conotativa
eixo paradigmático
(= posição no sistema)
Fonte: Elaborado pelo autor.
Exemplos:
1. “Jornalista é a pessoa que trabalha como redator, repórter, colunista ou diretor em ór-
gão da imprensa, ou programa jornalístico no rádio ou na televisão.” (HOUAISS, 2004)
2. “Jornalista é um homem que sabe explicar aos outros o que ele próprio não enten-
de.” (CARPEAUX, 1967)
3. “Jornalista, você tem uma missão importante na sociedade.” (Chamada publicitária)
Na prática, essas três funções se integram, tanto no texto informativo quanto no literá-
rio, embora possa ocorrer o predomínio de uma ou de outra, dependendo do gênero textual 
ou do tipo de discurso. Nas três frases dadas, cada uma exemplifica uma das funções do 
quadro, na ordem.
Seguindo o esquema das funções da linguagem de Karl Bühler, a Estilística é – como 
dissemos – a disciplina que estuda a língua nas suas funções expressiva e apelativa. Seu 
criador, Charles Bally (1865-1947), “pretendeu chamar a atenção para o lado afetivo do dis-
curso”, como explica Melo (1976, p. 16). Outros teóricos, sobretudo Karl Vossler (1872-1949) 
e Leo Spitzer (1887-1960), apontaram para uma linha diversa da Estilística.
Enquanto Bally, discípulo de Ferdinand de Saussure (1857-1913), buscava estudar a lín-
gua como expressão do pensamento que reflete determinada afetividade nos atos da fala, 
Vossler e Spitzer optaram por estudar as relações entre expressão e indivíduo. Podemos dizer 
que são duas concepções excludentes: uma centrada na langue (a de Bally), outra na parole.
Dessas duas origens depreendem-se obviamente dois perfis de comentários estilísticos: 
um que se aproxima, comparativa e contrastivamente, da gramática descritiva; outro que 
dela se afasta para se aproximar dos estudos específicos de literatura, e que chegou a ser 
chamado de Estilística genética. Com o passar do tempo, cada perfil foi recebendo adesões 
e adaptações, variantes de abordagem que percorreram vertentes estatísticas, estruturais, 
semióticas, psicanalíticas, sociológicas.
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística12
1.3 Principais correntes da Estilística
As duas grandes vertentes da Estilística são chamadas de “descritiva” e “idealista” e 
têm como principal diferença o enfoque dado ao objeto de seu estudo, ou seja, o texto.
1.3.1 A Estilística descritiva (Estilística linguística)
A Estilística descritiva volta-se para os aspectos afetivos da língua, os quais estão a 
serviço do homem de forma viva, espontânea, porém sujeitos a um sistema expressivo que 
pode ser descrito e interpretado.
Para exemplificar, vejamos uma frase citada por José de Alencar (1829-1877) no 
“Posfácio” de Iracema como expressão bem popular de sua terra:
4. “A mãe diz do filho que acalentou ao colo: Está dormindinho.”(ALENCAR, s.d., p. 273)
O vocábulo “dormindinho” não é o diminutivo de “dormindo”, mas uma forma nomi-
nal do verbo acrescida da ideia de afetividade e carinho expressada pelo sufixo -inho, assim 
interpretada estilisticamente pelo escritor cearense: “Que riqueza de expressão nesta frase 
tão simples e concisa! O mimo e ternura do afeto materno, a delicadeza da criança e sutileza 
do seu sono de passarinho, até o receio de acordá-la com uma palavra menos doce; tudo aí 
está nesse diminutivo verbal.” (ALENCAR, s/d, p. 273).
Nos estudos de língua portuguesa, podemos citar algumas obras que seguem essa cor-
rente, entre as quais merecem menção:
• Manuel Rodrigues Lapa – Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1945);
• J. Mattoso Câmara Jr. – Contribuição à Estilística Portuguesa (1.a ed. 1952);
• Gladstone Chaves de Melo – Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1976);
• José Brasileiro Vilanova – Aspectos Estilísticos da Língua Portuguesa (1.a ed. 1977).
O que a Estilística descritiva tem como alvo é a sistematização dos meios que a língua 
nos oferece para exteriorizarmos nossas necessidades afetivas, isto é, os elementos emocio-
nais que acompanham o enunciado.
Comparemos a expressividade dos versos de uma canção de Chico Buarque com a ob-
jetividade de uma variante referencial:
5. Dorme, minha pequena / Não vale a pena despertar / Eu vou sair / Por aí afora /
Atrás da aurora / Mais serena (“Acalanto para Helena”)
6. Dorme, minha filha, não precisa acordar. Eu vou sair para o trabalho.
Comentário estilístico: embora o conteúdo informativo seja idêntico, apenas o exemplo 
(5) mostra o sentimento e a densidade da cena, compartilhando com o leitor a escolha reve-
lada do sintagma “minha pequena” e a longa representação de sua “saída para o trabalho” 
(= eu vou sair por aí afora atrás da aurora mais serena).
Como se vê, ao se ocupar da descrição dos recursos expressivos da língua como um todo, 
independentemente de sua ocorrência em obras literárias, a Estilística descritiva não está voltada 
Estilística, a ciência da expressividade
Semântica e estilística
1
13
exclusivamente para a literatura e se desdobra em outras vertentes, sobretudo a chamada estilís-
tica funcional, que tem Roman Jakobson (1896-1982) como seu principal representante.
Jakobson examina, a partir do processo de comunicação, a participação do emissor, do 
contexto, da mensagem, do contato, do código e do destinatário. E cada um desses componen-
tes, conforme o caso, justifica a existência de funções predominantes ou concorrentes, a saber: 
emotiva ou expressiva (centrada no emissor), referencial ou informativa (no contexto), poética 
(na mensagem), fática (no contato), metalinguística (no código) ou conativa (no destinatário).
O processo básico da comunicação verbal envolve uma situação fundamental de cons-
trução, quepode ser exemplificada na seguinte simulação:
José pretende avisar a João que vai viajar.
Em tal situação, temos seis fatores envolvidos na comunicação verbal. Partindo da frase 
do exemplo, identificamos:
Quadro 2 – Comunicação verbal
A – José diz que vai viajar. Ele é o... ... emissor
B – A ideia que vai ser proferida por José é algo abstrato e só vai 
ser concretizada quando for dita por ele. Essa ideia abstrata é o... ... contexto
C – Ao concretizar o contexto, isto é, ao di-
zer: “Vou viajar”, José se vale da... ... mensagem
D - Esta mensagem, para ser entendida por João, precisa ser 
dita de uma forma que ele conheça, isto é, com elementos que 
sejam comuns a ambos, no caso, as palavras, que são o...
... código
E – José fala e João escuta. Isto representa o... ... contato
F – João é o objeto/alvo/indivíduo a ser alcançado por 
José na conversação; João é, portanto, o... ... destinatário
Fonte: Elaborado pelo autor.
A esquematização desses seis fatores pode ser estabelecida da seguinte maneira:
Figura 2 – Fatores da comunicação verbal.
EMISSOR DESTINATÁRIO
CONTEXTO 
MENSAGEM
CONTATO 
CÓDIGO
FUNÇÃO EMOTIVA FUNÇÃO CONATIVA
FUNÇÃO REFERENCIAL
FUNÇÃO POÉTICA
FUNÇÃO FÁTICA
FUNÇÃO METALINGUÍSTICA
Fonte: Elaborado pelo autor.
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística14
Em suma, a Estilística linguística pretende organizar e interpretar os dados expressivos 
“que se integram nos traços da língua e fazem da linguagem esse conjunto complexo e am-
plo” (CÂMARA JR., 1979, p. 15).
1.3.2 A Estilística idealista (Estilística literária)
A Estilística idealista parte da reflexão, de cunho psicológico, a respeito dos desvios 
da linguagem em relação ao uso comum e considera que qualquer afastamento do uso lin-
guístico normal decorre de alguma alteração do estado psíquico normal do escritor. Nesse 
sentido, a maneira pessoal de alguém se expressar é seu estilo, que reflete o mundo interior 
e a experiência de vida de quem escreve.
Voltada especificamente para a produção literária, a Estilística idealista considera que 
toda obra encerra um mistério cuja compreensão depende basicamente da intuição de quem 
se investe do desejo de desvendar “os mistérios de criação de uma obra e dos efeitos dessa 
obra sobre os leitores” (MARTINS, 1989, p. 9).
Essa dimensão serviu como argumento para que alguns estudiosos defendessem a 
complementaridade entre as duas correntes principais. Amado Alonso (1896-1952), por 
exemplo, chega a afirmar que a Estilística literária tem como base a Estilística linguística 
justamente porque é esta quem cuida do lado afetivo, imaginativo das formas da língua, 
encontráveis tanto na fala como na escrita, pois são esses indícios que se sobrepõem aos 
signos. A partir de tais elementos, a Estilística literária examinará como é constituída a obra 
literária e considerará o prazer estético que ela provoca no leitor. Como tudo se engloba no 
valor estético da obra, ela está impregnada do próprio prazer do autor ao criá-la e isso vai 
suscitar no leitor um prazer correspondente.
Entre as obras disponíveis em língua portuguesa que seguem a corrente idealista, me-
recem citação:
• Vítor Manuel de Aguiar e Silva – Teoria da Literatura (1.a ed. 1967);
• Eduardo Portella – Teoria da Comunicação Literária (1.a ed. 1970);
• Affonso Romano de Sant’Anna – Análise Estrutural de Romances Brasileiros (1.a ed. 1973);
• Luiz Costa Lima – Dispersa Demanda (1.a ed. 1981).
Eis alguns exemplos de comentários estilísticos sob o viés idealista:
Até o momento presente, os mais importantes estudos sobre o lirismo drum-
mondiano só trataram de aspectos parciais (temáticos ou formais) de sua obra, 
enquanto que a maior parte das visões de conjunto permanece excessivamente 
sintética. (MERQUIOR, 1975, p. 3)
No caso de Guimarães Rosa, embora sua obra seja das mais estudadas entre 
nós, o problema do magismo e de suas implicações com a apreensão estética da 
realidade parece completamente inexplorado. Isso propicia mal-entendidos, que 
mais se agravam se a ausência desta análise se combina a observações que, sendo 
válidas, sejam, no entanto, também tratadas parcialmente. (LIMA, 1991, p. 510)
Estilística, a ciência da expressividade
Semântica e estilística
1
15
A leitura do conjunto das obras de Rubem Fonseca nos leva a destacar a exis-
tência de dois grandes núcleos temáticos: a violência e a busca da verdade. 
Poderíamos mesmo dizer que a íntima relação estabelecida entre esses núcleos é 
fonte geradora de força da ficção do autor, na medida em que determina o tipo 
de tratamento que será dado aos temas e a consequente busca de soluções for-
mais adequadas. (FIGUEIREDO, 1994, p. 73)
Roger Fowler (1993, p. 237) nos dá uma boa definição do que se deve entender por 
Estilística literária, dizendo que ela é “uma subdivisão historicamente isolada da crítica com 
seus próprios princípios e métodos”, sendo “menos difusa, mais coerente, mais mecânica 
do que a crítica em geral”.
Em suma, a Estilística literária desvencilha-se às vezes da linguística e assume um as-
pecto quase genético, propondo-se a recuperar a gênese, a criação poética, convivendo desa-
fiadoramente com as relações entre forma e conteúdo, materiais e estrutura.
1.4 Aplicações da Estilística 
aos estudos do Português
“A Estilística vem complementar a gramática,” diz Mattoso Câmara Jr. (1979, p. 14). Por 
isso, para examinar que aplicações tem a Estilística nos estudos de uma língua, é preciso dei-
xar claros seus vínculos com a gramática, ou seja, com o léxico, com a sintaxe, a morfologia, 
a fonética e a fonologia. Daí falarmos em estilística fônica (fonoestilística), em estilística da 
palavra (morfoestilística), em estilística sintática e até em estilística da enunciação. Afinal,
[...] ler ou escrever um texto é muito mais do que apenas compreender ou organi-
zar palavras em frases e parágrafos. É algo que envolve um amplo mecanismo a 
partir do qual o pensamento e as pretensões comunicativas do autor se apresentam 
para reflexão e avaliação do leitor. Como se constroem esses textos? Com palavras, 
sintagmas, termos e orações – elementos que mantêm entre si um relacionamento 
interno de concordância, de regência, de atribuição. (HENRIQUES, 2008a, p. 15)
A Estilística é parceira de todos os componentes do texto, desde os fonemas que cons-
troem morfemas e palavras até os períodos e parágrafos que constroem a totalidade do 
texto. E a adequação gramatical de uma obra precisa estar “compatível com as pretensões 
e intuitos de seu autor, que – se assim julgar pertinente – procurará atingir o nível de exi-
gência da linguagem padrão praticada por escrito pela comunidade culta em que se insere” 
(HENRIQUES, 2008a, p. 16).
As relações dentro de um texto são micro ou macro, conforme o ponto de vista de quem 
examina o objeto de estudo. Nessa tarefa, caberá notar que tipo de expressividade se percebe, 
se descreve e se explica nas passagens escolhidas de um texto concreto, real – produto que 
se tem em mãos e aos olhos para com ele se estabelecer uma “negociação de entendimento”.
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística16
Para ilustrar essas considerações, vejamos dois trechos da canção intitulada “Cigarra”, 
escrita por Ronaldo Bastos e Milton Nascimento e interpretada por Simone. 
7. Porque você pediu uma canção para cantar / 
Como a cigarra arrebenta de tanta luz / E en-
che de som o ar / [...] Porque ainda é inverno 
em nosso coração / Essa canção é para cantar / 
Como a cigarra acende o verão / E ilumina o ar 
/ Si, si, si, si, si, si, si, si...
Os versos mostram uma expressiva identificação 
que começa na coincidência sonora que existe entre a 
primeira sílaba da palavra “cigarra” e do nome da can-
tora “Simone”. Seria coincidência, se não notássemos 
que a letra da músicafala de alguém que “pediu uma 
canção para cantar”, sendo lícito supor que a onomato-
peia que encerra a canção tanto poderia estar grafada 
com “c” como com “s” (si,si,si e ci,ci,ci).
SIMONE → CIGARRA → SI, SI, SI... CI, CI, CI...
Importa também observar que o verso inicial dos dois blocos tem uma estrutura sintá-
tica idêntica, com uma oração adverbial que faz uma espécie de eco à composição, talvez 
como esboço de um estribilho, reforçado na repetição do sintagma “para cantar” e do subs-
tantivo “canção”, reiterado morfológica e semanticamente com o verbo “cantar”.
Quadro 4 – Repetições e escolhas morfológicas.
Porque você pediu uma canção para cantar
Porque ainda é inverno em nosso coração Essa canção é para cantar
Fonte: Elaborado pelo autor.
Esses pequenos comentários comprovam como são determinantes para a compreensão 
do conteúdo da canção os elementos fônicos (si/ci), os aspectos sintáticos (porque...), a esco-
lha morfológica e lexical (canção + cantar), apenas para ficarmos nos que aqui focalizamos.
Podemos, então, concluir, concordando com Mattoso Câmara Jr. (1981, p. 110), que a 
Estilística é uma “disciplina linguística que estuda a expressão em seu sentido estrito de 
expressividade da linguagem, isto é, a sua capacidade de emocionar e sugestionar.” 
Em resumo:
Quadro 4 – Estilística x gramática.
Estilística → considera e analisa a linguagem afetiva.
Gramática → considera e analisa a linguagem intelectiva.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Fonte: Vanessa Lima.
Figura 3 – Simone.
Estilística, a ciência da expressividade
Semântica e estilística
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 Ampliando seus conhecimentos
As tarefas da Estilística 
(GUIRAUD, 1978, p. 149-151)
A tarefa mais urgente da Estilística é a de definir seu objeto, sua natureza, 
seus fins e seus métodos, começando pela própria noção de estilo.
Reduzidas ao seu denominador comum, as diversas concepções de estilo 
limitam-se à seguinte definição: O estilo é o aspecto do enunciado que 
resulta da escolha dos meios de expressão determinada pela natureza e 
intenções do indivíduo que fala ou escreve.
Definição muito ampla, que engloba a expressão, seu aspecto, o sujeito 
falante, sua natureza e suas intenções.
1. Os limites da expressão – As definições do estilo diferem, conforme se tome 
a expressão no sentido mais amplo da palavra ou numa acepção limitada:
a. A arte do escritor, que é o sentido tradicional, o emprego cons-
ciente de meios de expressão com fins estéticos ou literários.
b. A natureza do escritor, a escolha espontânea, mais ou menos 
inconsciente, através da qual se exprimem o temperamento e a 
experiência do homem.
c. A totalidade da obra, que transcende a simples forma verbal e com-
preende a atitude do homem na totalidade da sua situação.
2. Os limites dos meios de expressão – O estilo é o emprego dos “meios 
de expressão”, termo este que pode ser tomado num sentido mais ou 
menos restrito:
a. As estruturas gramaticais – sons, formas, palavras, construções.
b. Os processos de composição – forma dos versos, gêneros, descrição, 
narração.
c. O pensamento em sua totalidade – temas, visões do mundo, atitudes 
filosóficas.
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística18
3. A natureza da expressão – A comunicação linguística comporta dife-
rentes valores que se superpõem e traduzem, seja a atitude espontânea 
do sujeito, seja o efeito que este quer produzir sobre seu interlocutor:
a. Valores nocionais – o estilo pode ser claro, lógico, correto.
b. Valores expressivos – o estilo pode ser impulsivo, infantil, provincial.
c. Valores impressivos – o estilo pode ser imperioso, irônico, cômico.
4. As fontes da expressão – Numa perspectiva vizinha da precedente e 
que a confirma, poderemos distinguir:
a. Uma psicofisiologia da expressão – estilos segundo o temperamento, o 
sexo, a idade; estilo bilioso (mal-humorado) ou melancólico.
b. Uma sociologia da expressão – estilo das diversas classes e profis-
sões, estilos provincianos.
c. Uma função da expressão – estilo literário, administrativo, legal, 
oratório.
5. O aspecto da expressão – Da natureza e das fontes da expressão surge 
nova série de definições puramente descritivas e baseadas sobre:
a. A forma da expressão – estilo elíptico, metafórico, etc.
b. A substância da expressão, o pensamento – estilo terno, triste, enér-
gico, etc.t
c. O sujeito que fala e sua situação – estilo arcaico, poético, etc.
 Atividades
1. Os três comentários transcritos a seguir se referem à poesia de João Cabral de Melo 
Neto. Reconheça se eles se enquadram na vertente descritivista (linguística) ou na 
vertente idealista (literária) da Estilística. Justifique sua resposta.
a. Os instrumentos e meios de trabalho do projetista [João Cabral] revelam uma lúcida 
atividade mental que se vale da geometria como modelo de pensamento ativo, como 
metáfora de uma linguagem precisa que, projetando formas ideativamente puras, 
cria mundos paralelos às realidades concretamente dadas.
b. João Cabral de Melo Neto elegeu a pedra como símbolo maior do atrito, traço ao 
mesmo tempo formal e temático que perpassa obsessivamente sua poesia. O atrito 
Estilística, a ciência da expressividade
Semântica e estilística
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é adivinhado metonimicamente em seres, espaços e objetos de acidentada anato-
mia (esqueletos, corpos ossudos, paisagens escalavradas), evocado potencialmente 
em certos instrumentos (bisturi, espada, faca, forja), ou encaixado no discurso como 
nós ou arestas do texto (cacofonias, transgressões morfológicas, anomalias sintáticas).
c. Em relação às questões propostas pelas obras anteriores, a novidade [em O Enge-
nheiro] está na articulação que passa a existir entre a construção da imagem poética 
e a problematização da poesia. Ou seja, o tratamento da imagem poética passa a 
ser a estratégia pela qual o poeta problematiza o poema enquanto elemento de 
mediação entre ele e a realidade.
2. Leia atentamente o poema de João Cabral “Catar Feijão” (MELO NETO, 1994, p. 346-347) 
e assinale as alternativas que contêm comentários estilísticos coerentes a respeito do texto. 
Justifique suas respostas.
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
a. No verso 2, o pronome se tem função apassivadora e, por isso, obriga o verbo a estar 
na 3° pessoa do plural, para concordar com o sujeito “os grãos”.
b. O poema busca, na inter-relação de seus elementos fônicos, semânticos e sintáticos, 
a projeção significativa das ações de catar feijão e catar palavras.
c. A pedra do feijão e a pedra do papel são iguais porque são pedras e porque são, am-
bas, indigestas e imastigáveis.
d. A sequência de palavras com o fonema /g/ em “jogam-se os grãos na água do algui-
dar” marca o ritmo de leitura desse verso.
e. Os dois últimos versos empregam três verbos transitivos diretos dispostos em ordem 
lógica, direta.
05.
10.
15.
Estilística, a ciência da expressividade1
Semântica e estilística20
f. Os três últimos verbos do texto contêm uma gradação importante para a compreen-
são do poema, colocando o verbo “iscar” como culminante da ideia de “colher”, 
“captar” o sentido “mais vivo” da frase.
3. Considerando a vertente funcional dos estudos estilísticos e os componentesenvol-
vidos no processo de comunicação citados por Roman Jakobson, complete as lacu-
nas analisando corretamente a função da linguagem do trecho destacado.
a. No mercado de cerveja, o Brasil só perde, em volume, para a China (35 bilhões de 
litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Alemanha (10,7 bilhões de 
litros/ano). O consumo da bebida, em 2007, apresentou crescimento em relação ao 
ano anterior, totalizando 10,34 bilhões de litros.
 Função __________________: na totalidade do parágrafo.
b. Beba com moderação! Se for dirigir, não beba!
 Função __________________: no uso dos verbos no imperativo.
c. Eu bebo, sim, e vou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo [...]
 Função __________________: no uso da primeira pessoa.
d. Inventaram um verbo popular que é o mais lindo exemplo de criatividade sob o 
efeito do álcool: bebemorar.
 Função __________________: na explicação do neologismo.
e. Alô, garçom! Você está aí?! Alguém aí pode me trazer uma cerveja gelada?
 Função ______________: na tentativa de confirmação de que há um interlocutor.
f. Cerveja... rios e mares de cerveja... O rádio toca canções de amor, mas o telefone 
segue mudo e as paredes continuam no lugar. Cerveja... essa é a única coisa que há.
 Função _______________: na escolha e organização das palavras de modo original.
 Resolução 
1. Opções (a) e (c): Estilística literária.
 Justificativa: os dois comentários contêm reflexões de cunho psicológico a respeito da ma-
neira de João Cabral se expressar e de revelar seu mundo interior e experiência de vida.
 Opção (b): Estilística linguística.
 Justificativa: o comentário aborda uma questão do léxico, examina sua carga semântica 
na obra e destaca aspectos linguísticos objetivos para buscar a interpretação do texto.
2. As opções (a) e (e), embora corretas, não contêm comentários estilísticos, mas obser-
vações sintáticas objetivas, que não fazem nenhuma interpretação do texto.
 As opções (b), (d) e (f) apresentam comentários estilísticos baseados em questões 
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Semântica e estilística
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linguísticas e procuram interpretar a expressividade das escolhas do poeta.
 A opção (c) contém uma interpretação equivocada, pois o texto distingue “a pedra 
do papel” como a “que dá à frase o seu grão mais vivo”, ou seja, ela é inovadora, pois 
“açula a atenção” e é força criativa.
3. 
a. Função referencial (ou informativa).
b. Função conativa.
c. Função emotiva (ou expressiva) – Obs.: trecho de canção composta por Luiz Antônio.
d. Função metalinguística.
e. Função fática.
f. função poética – Obs.: tradução livre de uma estrofe do poema Beer, de Charles 
Bukowski.
Semântica e estilística 23
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Estilística fônica
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos fônicos no 
estudo estilístico da língua portuguesa.
2.1 Distinção entre letra e fonema
O estudo da Estilística fônica (ou fonoestilística, como alguns preferem) envolve 
necessariamente o conhecimento e domínio de um dos assuntos abordados nos estudos 
gramaticais, isto é, o fonema.
Por esse motivo, é preciso lembrar o tema da arbitrariedade do signo linguístico e 
também as vinculações entre a articulação das palavras e frases no português e a con-
venção gráfica praticada.
Estilística fônica2
Semântica e estilística24
Em resumo:
• Fonema é 
[...] considerado como o conjunto de articulações dos órgãos fonadores, seu efei-
to acústico estrutura as formas linguísticas e constitui o mínimo segmento dis-
tinto numa enunciação, o que também significa que o fonema é uma subdivisão 
da sílaba.(HENRIQUES, 2008b)
A imagem do aparelho fonador identifica partes do corpo humano que atuam na produção 
dos chamados “sons da fala”, oriundos da corrente expiratória proveniente de nossos pulmões. 
Figura 1 – Aparelho fonador.
fossas nasais
lábios
lábios
cordas 
vocais
laringe
língua
faringe
epiglote
cavidade bucal
véu palatino dentes
dentes
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
• Letra – “É um sinal gráfico com o qual se cons-
troem na língua escrita os vocábulos. Ao conjunto 
de letras de uma língua chama-se alfabeto.”(grifo 
do autor) (HENRIQUES, 2008b) – a foto ilustrati-
va mostra a capa da edição de 2009 do Vocabulário 
Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), publicado 
pela Academia Brasileira de Letras, obra reeditada 
com as novas normas ortográficas aprovadas em 
29 de setembro de 2008 e com efeito desde 1.o de 
janeiro de 2009.
Portanto, fonemas são sons da fala usados para estrutu-
rar as formas linguísticas, mas que isolados não têm signifi-
cação. Um som da fala só é fonema quando tem pertinência, 
ou seja, valor linguístico, como prova a comutação praticada 
na série de palavras seguinte:
Fonte: Divulgação ABL.
Figura 2 – Volp.
Estilística fônica
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1. [ ‘b r ã k a ] x [ ‘t r ã k a ]
 Comentário: a troca de [b] e [t] nos dá duas palavras (branca e tranca) e confirma 
que /b/ e /t/ são fonemas do português.
2. [ ‘ã d a ] x [ ‘õ d a ]
 Comentário: a troca de [ã] e [õ] nos dá duas palavras (anda e onda) e confirma que 
/ã/ e /õ/ são fonemas do português.
3. [‘d i v a ] x [ ‘dƷ i v a ]
 Comentário: a troca de [d] e [dƷ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pro-
núncias para uma única palavra (diva) e não confirma a pertinência de ambos como 
fonemas do português, mas de apenas um deles – neste caso, o /d/, que tem o [dƷ] 
como seu alofone (registra uma pronúncia típica de algumas regiões brasileiras).
Alofone = variante de fonema.
4. [ ‘k u s t a ] x [ ‘k u ʃ t a ]
 Comentário: a troca de [s] e [ʃ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis 
pronúncias para uma única palavra (custa) e não repete a pertinência de ambos 
como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “taça / taxa”) – nes-
se ambiente fonético de final de sílaba, os dois fonemas sempre se neutralizam e 
caracterizam o que se chama arquifonema.
Arquifonema = neutralização permanente da oposição de fonemas.
5. [ ‘p l ã t a ] x [ ‘p r ã t a ]
 Comentário: a troca de [l] e [r] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis 
pronúncias para uma única palavra (planta) e não repete a pertinência de ambos 
como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “mola / mora”) – os 
dois fonemas se neutralizam, neste exemplo, sem risco de confusão, mas caracte-
rizam um caso de debordamento (e não de arquifonema), porque se o par fosse 
“planto / pranto” a neutralização se mostraria ambígua.
Debordamento = neutralização eventual da oposição de fonemas.
O sistema ortográfico da língua, em sua versão oficial, reproduz as palavras de acordo 
com a convenção em vigor. Observar como acontecem as relações entre a ortografia e a sono-
ridade é a tarefa do estudioso da expressividade, ou seja, da Estilística.
2.2 Expressividade das vogais e das consoantes
Não obstante sejam portadores de um ou mais significados, os vocábulos (e seus com-
ponentes) se constituem de sons e ruídos e assim atuam no mundo físico, estando “sujeitos 
Estilística fônica2
Semântica e estilística26
às mesmas análises acústicas das notas musicais e dos produtos erráticos de vibrações irre-
gulares” (MELO, 1976, p. 57).
Os valores estilísticos podem ter uma natureza sonora e se expressam tanto no âmbi-
to das palavras como dos enunciados. Assim, além de sua concretização fonética, também 
atuam o ritmo, a intensidade e a entonação.
• Ritmo: é a distribuição de sons num enunciado, considerando de que modo eles 
se organizam ou se repetem a intervalos regulares, ou a espaços sensíveis quanto 
à duração e à acentuação.
• Intensidade: é o maior grau de força expiratória com que o som da fala é proferido, 
força que se manifesta acusticamente na maior ou menor amplitude de vibrações.
 Atenção! O acentocaracterístico da língua portuguesa é a intensidade, sendo cha-
mada de tônica a vogal ou sílaba sobre a qual recai a intensidade e de átona a vogal 
ou sílaba inacentuada. Além da intensidade, também atuam na articulação dos 
sons da fala o timbre (efeito acústico resultante dos diversos graus de abertura da 
cavidade bucal), a altura (sensação auditiva relacionada à intensidade do som) e a 
quantidade (duração da emissão de um som).
• Entonação: é a variação de tom (fenômeno caracterizado por variações de altura 
no corpo do vocábulo, resultantes da velocidade e vibração das cordas vocais) que 
tem como domínio a sentença (oração, período ou frase).
Tomemos como exemplo dessas referências à camada sonora o trecho abaixo, inédito:
Lá vai a bola, solitária e devagar, na direção da última linha do campo. Incerteza... 
A alegria subterrânea se mistura com a raiva recôndita. O orgulho, com o medo. 
A dor pode ser uma felicidade passageira, eterna. Suspense. Angústia. Prazer.
Por um breve momento, um único monossílabo pode conter todas as emoções: a 
palavra GOL. Ela tem três letras, mas pode ter quatro, dez… Dependendo do seu 
fôlego e da sua alegria, ela pode ter o tamanho do papel, pode até nem acabar:
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLL…
Figura 3 – Gol.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Estilística fônica
Semântica e estilística
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27
Imaginando vários modos de se narrar um gol num jogo de futebol, percebe-se que a 
intensidade da vogal “o”, sua duração e até sua musicalidade têm força expressiva poten-
cial, ainda mais se comungarmos com a emoção do locutor. Porém, mesmo que o gol não 
seja a nosso favor, por ser o gol de uma derrota indesejada, a sonoridade dessa palavra nos 
marcará, impregnando-nos de tristeza tanto quanto impregnará de alegria os corações dos 
torcedores favorecidos pela simples passagem da bola por sobre a linha que fica debaixo 
da baliza.
O comentário acima explica uma das possibilidades de a sonoridade da língua se mani-
festar. Mas há outras situações em que a massa sonora tem papel importante.
• Na rima de um poema ou de uma letra de música:
6. De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (MORAES, 1998)
7. Que jamais seja um sofrimento 
viciosamente cultivado 
para transformar-se em momento 
de verso, espúrio intento da arte. 
Mas a arte que, a cumprir seu fado, 
por força de sonho ou tormento 
se volva num momento dado 
coisa divina, imensa e à parte... (MEIRELES, 1993)
 Comentário: em (6) “pranto” e “branco”; “bruma” e “espuma” rimam simetri-
camente no esquema ABBA e causam um efeito de ritmo e musicalidade; já em 
(7) a rima não é simétrica (o esquema é ABACBABC), mas também há ritmo e 
musicalidade.
• Numa mensagem publicitária:
8. “Plá, plé, pli, pló, plus vita! Plus Vita! Na nossa mesa tem Plus Vita todo dia!”
 Comentário: a progressão vocálica em série cria um ambiente descontraído e 
apropriado para veicular o produto e causar uma reação favorável no destinatário.
• Na repetição de palavras ou de sílabas:
9. Eu quero a estrela da manhã 
Onde está a estrela da manhã? 
Meus amigos meus inimigos 
Procurem a estrela da manhã. (BANDEIRA, 1958)
 Comentário: a ênfase ocorre pela reiteração do sintagma “estrela da manhã”, demons-
trando a posição do “eu lírico” diante de sua (in)certeza.
 Na escolha estratégica de palavras com consoantes ou vogais iguais ou semelhantes:
10. “Acalanto e acalento. Calo e canto por encanto. Enquanto encontro o esquecimen-
to, conto a calma escuridão.” (Canção de Cezar de Souza e N. Bulhões)
Estilística fônica2
Semântica e estilística28
 Comentário: a sucessão de palavras paroxítonas com as vogais nasais e a consoan-
te /k/ traz um efeito especial que se encerra na palavra oxítona final.
• Na invenção de palavras imitativas ou carinhosas:
11. “É na boca do trabuco, é no té-retê-retém... E sozinhozinho não estou.” (ROSA, 1986)
12. “E a fonte a cantar, chuá, chuá; e a água a correr, chuê, chuê.” (Canção de Pedro Sá 
Pereira e Ary Pavão)
 Comentário: a observação dos sons da realidade serve como suporte para sua re-
produção ou para a afetividade de um trecho.
2.3 Relações expressivas entre a fala e a escrita
Uma sequência sonora realizada na emissão de uma frase se decompõe em grupos onde 
prevalece uma única pauta acentual (com uma sílaba tônica, uma ou mais sílabas átonas 
pré-tônicas ou pós-tônicas e, eventualmente, alguma sílaba subtônica).
Cada um desses grupos se chama “palavra fonológica”, e esta se forma em função da 
relação sintagmática de seus membros.
Na frase “Aquele quadro fez sucesso”, observam-se com nitidez duas palavras fonológi-
cas e quatro palavras ortográficas. As duas palavras fonológicas são:
13. [ a k e l i ’k w a d r u ] – a sílaba tônica é [kwa], as demais são átonas.
 Essa palavra fonológica se formou a partir de duas palavras ortográficas.
14. [ f e ʃ s u ’s ɛ s u ] – a sílaba tônica é [sɛ], a subtônica é [feʃ], as demais são átonas.
 Essa palavra fonológica também se formou a partir de duas palavras ortográficas.
Como se vê, a palavra fonológica é delineada por um contorno prosódico que parte de 
seu acento primário (no caso, das palavras quadro e sucesso). Ela representa, na hierarquia 
da prosódia, o primeiro nível de interação entre a fonologia e a morfologia, e ultrapassa os 
limites da palavra lexical.
Prosódia = o estudo da variação na altura, intensidade, tom, duração e rit-
mo da fala, vinculando-se pois à ortoepia, que estuda a pronúncia correta das 
palavras.
“A expressividade dos fonemas poderia passar despercebida, se os poetas não os repe-
tissem a fim de chamar a atenção para a sua correspondência com o que exprimem” , diz 
Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 38), e podemos estender a afirmação aos publicitários, aos 
compositores, aos jornalistas e a qualquer um dos usuários da língua, quando agimos no 
processo de comunicação com o intuito de criar harmonia no que falamos.
Estilística fônica
Semântica e estilística
2
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2.4 Figuras de linguagem
Os sons, como vimos, podem sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que 
dizemos. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. Diferentemente, a utilização 
inexpressiva ou caótica da massa sonora caracterizará desvios a que chamamos vícios de lin-
guagem. No campo da fonoestilística, esses recursos podem ter as seguintes denominações:
• Aliteração – é a repetição continuada dos mesmos sons consonantais, indepen-
dente da posição que ocupam nas palavras, distribuídas em sequência ou com 
proximidade.
15. “Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca como a chuvinha que vem vindo deva-
gar.” (ANDRADE, 2000).
 Comentário: o poeta utiliza intencionalmente em quatro palavras seguidas a con-
soante /v/, visando a criar um efeito expressivo, afetivo.
 Atenção! O vício de linguagem correspondente é a colisão: repetição desagradável 
de consoantes iguais – que pode até ter como finalidade o humor ou a estranheza 
do interlocutor.
16. Pela primeira pesquisa, percebeu-se por que as pessoas procuram o perigo.
17. Três trabalhadores tentaram trocar o turno do trabalho.
 Comentário: observa-se a gratuidade da repetição, sem nenhuma pretensão 
estilística.
• Assonância – é a repetição vocálica em sílabas tônicas.
18. “Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral.” (Canção de 
Caetano Veloso)
	 Comentário: o compositor utiliza intencionalmente uma série de palavras cuja vogal 
tônica é /a/, visando a criar um efeito sonoro e musical.
 Atenção! O vício de linguagem correspondente é o hiato: sucessão desagradável de 
vogais – que pode até ter como finalidade o humor ou a estranheza do interlocutor.
19. Ou há o aumento, ou há a autogestão.
 Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto darepetição, sem nenhuma 
pretensão estilística.
• Harmonia imitativa – ocorre quando a aliteração, combinada ou não com assonân-
cia, se associa à ideia que expressa.
20. Trovões trombeteavam pelas trevas, 
Trastes turvos tonitruantes 
De um turbilhão tortuoso 
Como a turba triste da morte. (SOUZA, 2005)
21. O vento varria as folhas, 
O vento varria os frutos, 
O vento varria as flores... 
Estilística fônica2
Semântica e estilística30
E a minha vida ficava 
Cada vez mais cheia 
De frutos, de flores, de folhas. (BANDEIRA, 1958)
 Comentário: a sonoridade das consoantes /t/ e /r/, em (20), e /v/, /f/ e /s/, em (21), tem 
relação coerente com a ideia da forte tempestade, acentuada pelas variadas possibi-
lidades articulatórias da consoante vibrante – em (20), e da ação do vento – em (21).
• Homeoteleuto – é a coincidência de terminação, sobretudo em pontos sensíveis da 
cadeia sonora.
22. “Ainda canto o ido o tido o dito o dado o consumido o consumado / Ato do amor 
morto motor da saudade... Diluído na grandicidade... / Idade de pedra [...]” 
(VELOSO; DUPRAT, 1969).
 Comentário: a escolha de palavras com sonoridade interligada (série 1: ido/ado 
+ t/d; série 2: ...mido/...mado; série 3: mor + t) cria um efeito de sentido, mas tem 
força sonora identitária.
 Atenção! Um dos vícios de linguagem correspondentes é o eco: repetição desagra-
dável de terminações iguais.
23. Na frente da gente, há somente um ambiente diferente.
24. O cadeado estragado foi consertado ao lado do mercado.
 Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto das sequências -ente e -ado, 
sem nenhuma pretensão estilística.
• Onomatopeia – é a imitação acústica de um som ou ruído ou da voz de um animal, 
e pode ser criada segundo três possibilidades:
25. tique-taque; zás-trás; bum; ploft; miau; cocoricó – onomatopeias puras.
26. tilintar; pifar; o cacarejo; grunhido – palavras onomatopaicas.
27. bem-te-vi; quero-quero; estou-fraco – onomatopeias interpretativas.
 Comentário: no primeiro grupo (25), as palavras são criadas a partir da utilização 
de fonemas que reproduzam o som; no segundo (26), há marcas morfológicas na 
construção de verbos, substantivos e adjetivos; no terceiro (27), palavras preexis-
tentes são agrupadas sem razão semântica para tentar reproduzir o som.
Figura 4 – Onomatopeias.
BAN
G!
zzz
zz
POU!
PLOFT!
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Estilística fônica
Semântica e estilística
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31
Percebe-se então que o objetivo de causar algum impacto expressivo pela escolha da 
camada sonora está carregado de subjetivismo e sensibilidade. Isso significa que o êxito na 
construção de uma determinada combinação de sons não é algo automático e garantido, pois 
sempre se corre o risco de produzir um efeito malsucedido, ou seja, um vício de linguagem, 
cabendo ainda citar os casos de:
• Cacoépia – é o erro de pronúncia (que vira cacografia na escrita).
28. *piscicologia, em vez de psicologia, ou *mortandela, em vez de mortadela.
• Cacófato – é o descuido no encadeamento de palavras, gerando um som obsceno 
ou vulgar.
29. *Entregue-me já o relatório porque essa resposta ele já havia dado.
• Cacofonia e parequema – é o descuido no encadeamento de palavras, gerando um 
som de significado concorrente ou desagradável.
30. *Já que tinha, na vez passada se interessado, apresentei-lhe uma prima minha.
31. *Deixa a chapa esquentar; *Comprei uma vaca cara; “Você fez a torta tarde”.
 Atenção! Como sempre, os vícios de linguagem podem ter como finalidade pro-
duzir um efeito de humor ou de estranheza/admiração no interlocutor.
 Na canção “Cálice”, de Chico Buarque e Milton Nascimento, observa-se a interes-
sante estratégia de escrever uma palavra, o substantivo “cálice”, e sugerir o en-
tendimento da exclamação “Cale-se!”, em versos que têm essa palavra fonológica 
como palavra-eco, como:
32. Quero perder de vez tua cabeça. [‘kalisi]
 Minha cabeça perder teu juízo. [‘kalisi]
 Quero cheirar fumaça de óleo diesel. [‘kalisi]
 Me embriagar até que alguém me esqueça. [‘kalisi]
 Comentário: no lugar onde transcrevemos a pronúncia, qual significação caberia 
melhor, a da taça de vinho ou a da ordem de silêncio? Ou ambas? Os autores, certa-
mente, trabalharam com a palavra fonológica única, contrastando-a com a duplici-
dade da palavra ortográfica (cale-se e cálice). O efeito é expressivo, sem dúvida.
Além das figuras de linguagem que aqui apresentamos, a exploração da massa sonora 
das palavras ainda pode produzir expressividade de muitas outras maneiras. Para nossos 
objetivos, basta mencionar por exemplo as questões inerentes à linguagem falada, em suas 
múltiplas variedades sociais e regionais, ou os temas específicos da arte poética ou musical, 
em que se pode trabalhar os conteúdos de versificação e de harmonia melódica. Enfim, as 
relações entre som e estilo são um caminho aberto à imaginação e arte, sempre a serviço da 
pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portugue-
sa na vida concreta.
Estilística fônica2
Semântica e estilística32
O vocábulo como massa sonora
(MELO, 1976, p. 79-80)
Começaremos por insistir numa distinção conhecida mas tantas vezes 
esquecida: a que se deve fazer entre vocábulo e palavra. No primeiro, con-
sideramos só a estrutura fônica. É uma sílaba, ou duas, ou mais, subordi-
nadas ao mesmo acento intensivo
Na cadeia da frase os vocábulos frequentemente se unem, fundindo-se a 
terminação de um no começo de outro, decorrendo daí fenômenos diver-
sos, que recebem nomes adequados, mas aqui dispensáveis. Assim, “ainda 
agora” ou “com uma semana de espera”, por exemplo, soam como ainda-
gora, cuma semana dispera. Há mesmo certos vocábulos que já perderam, 
ou ocasionalmente perdem a tonicidade, e, então, apoiam-se no acento do 
vocábulo anterior ou no do seguinte. Chamam-se clíticos, distinguindo-se 
em enclíticos, num caso, proclíticos noutro: chamou-me; o livro.
O mesmo vocábulo pode ser suporte de várias palavras, como se vê em 
rio, “curso d’água”, e forma do verbo rir; manga, “parte do casaco” e 
fruto. Para quem não conheça o significado de oscofórias ou de liço, estas 
duas formas são meros vocábulos.
Nos casos de polissemia, isto é, multiplicidade de significados por força de 
um natural desdobramento, não se pode falar, creio, em multiplicidade de 
palavras, porque um liame, mais ou menos estreito, une esses significados.
Normalmente, pois, a cada vocábulo corresponde um conceito ou um 
feixe de conceitos vizinhos. Tal correspondência é de si arbitrária e gra-
tuita, segundo o princípio maior, definidor da língua. Nenhuma rela-
ção natural existe entre o quadrúpede amigo do homem e a palavra cão, 
cachorro ou dog.
No entanto, estilisticamente se pode falar em adequação ou inadequação 
entre a massa sonora do vocábulo e o conteúdo significativo. Assim, grito 
é mais expressivo que brado. Entre “por muito pouco ele não morreu” e 
“por um tris ele não morreu”, é preferível a segunda solução, dado que 
estejamos preocupados com uma forma adequada. É que a massa sonora 
de tris sugere melhor a mínima dependência em que ficou a vida do 
Fulano. Se dissermos que alguém entrou solenemente no recinto, passo 
 Ampliando seus conhecimentos
Estilística fônica
Semântica e estilística
2
33
cadenciado e lento, sob os olhares reverentes e admirativos da multidão, 
teremos escolhido um vocábulo cuja massa sonora quadra bem ao efeito: 
pentassílabo paroxítono (ou grave), com tônica média e nasal e uma com-
binação de /l/ e /n/ muito apropriada.
Um vocábulo como abreviadamente é, com certeza, inadequado, maior, 
por assim dizer, do que o seu conteúdo. Arredondamento fica bem para 
o sentido que tem; é vocábulo adequado. Nesta sequência – grande, 
enorme, gigantesco – os três vocábulos traduzem a gradação do tamanho: 
cada sílabaa mais acrescenta, sensivelmente, uns quilates de intensidade.
Os poetas são muito sensíveis à adequação da massa sonora ao signifi-
cado, e é natural que assim seja, porque a poesia é essencialmente pala-
vra, é o esplendor da palavra. Muitas das correções que, sobretudo os 
parnasianos, inserem nas suas retomadas têm por base o ajuste da massa 
sonora. A propósito, é muito instrutiva a alteração feita por Raimundo 
Correia no último terceto de seu poema “Banzo”. Era assim a primeira 
versão, de 1885:
Dos monolitos cresce a sombra infame... 
Tal em minh’alma vai crescente o vulto 
Desta tristeza aos poucos, lentamente
A terceira (versão), que modifica levemente a segunda, de 1891, ficou assim:
Vai co’a sombra crescendo um vulto enorme 
Do baobá... E cresce n’alma o vulto 
De uma tristeza imensa, imensamente...
Além de ganhar em musicalidade e em cor local, com a substituição de 
“monolitos” por “baobá”, o fecho ainda se beneficiou muito com a dupla 
“imensa, imensamente”.
A massa sonora é adequada e há uma espécie de ilusão de ótica, digamos 
assim, que faz parecerem coordenadas as duas palavras, que na realidade 
não o são. Imensa é adjunto adnominal de “tristeza”, e imensamente é 
adjunto adverbial de “cresce”: a inteligência da frase deixa isso muito 
claro. No entanto, a sequência faz com que se tenha a impressão do cres-
cimento, do alongamento, de profundidade maior, de dor mais pungente.
Temos, portanto, um duplo efeito, um intelectual, outro sensível, produzido 
pela boa utilização da massa sonora. A síntese final seria esta: “cresce cada 
vez mais uma tristeza cada vez maior”, com sólido apoio no material fônico.
Estilística fônica2
Semântica e estilística34
 Atividades
1. Os três comentários transcritos a seguir se referem a trechos de poemas brasileiros. 
Reconheça se o recurso estilístico indicado está adequadamente interpretado. Justifi-
que sua resposta.
a. Quando lemos os versos de Guilherme de Almeida “O sol é uma bola de enxofre 
fervendo, pondo empolhas redondas como gemas de ovos entre as folhas das laran-
jeiras”, observamos a expressividade da assonância, construída a partir da sucessão de 
palavras com a vogal tônica O.
b. O compositor Paulo Ricardo começa uma de suas canções dizendo: “Virada do sécu-
lo, alvorada voraz, nos aguardam exércitos que nos guardam da paz (que paz?).” O 
aposto “alvorada voraz” utiliza as consoantes /v/ e /r/ que também estão presentes 
na primeira palavra da música. A repetição intencional dessas consoantes caracteriza 
uma figura de linguagem chamada onomatopeia.
c. Em “Pedro pedreiro, pedreiro esperando o trem que já vem, que já vem, que já vem, 
que já vem...”, Chico Buarque utiliza a massa sonora da expressão “que já vem” repe-
tidas vezes para enfatizar o cansaço de quem está à espera do trem na estação, o que 
constitui um exemplo de harmonia imitativa.
2. Leia atentamente o poema de Solano Trindade “Tem Gente com Fome” (s.d., p. 7-8) 
e assinale as alternativas que contêm comentários fonoestilísticos coerentes a respeito 
do texto. Justifique suas respostas. 
 Trem sujo da Leopoldina, 
 correndo, correndo, 
 parece dizer: 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome... 
 Piiiii!
 Estação de Caxias, 
 de novo a correr, 
 de novo a dizer: 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome...
 Tantas caras tristes, 
 querendo chegar 
 em algum destino, 
 em algum lugar...
 Só nas estações 
 quando vai parando, 
 lentamente 
 começa a dizer: 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Figura 5 – Fome.
05.
10.
15.
20.
Estilística fônica
Semântica e estilística
2
35
 dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
 Mas o freio de ar, 
 todo autoritário, 
 manda o trem calar: 
 Psiuuuuuuuuu......
a. A repetição do trecho “tem gente com fome” cria um ambiente de monotonia e té-
dio, incompatível com o movimento de um trem ao partir da estação.
b. A onomatopeia “Piiiii!” (v. 07) e a interjeição “Psiuuuuuuuuu......” (v. 33) estão con-
jugadas pela intensificação da vogal, o que permite entender a palavra que termina o 
poema como uma condensação entre a interjeição e a onomatopeia.
c. A maioria dos versos se constrói com duplas de palavras fonológicas (trensujo + 
daleopoldina // correndo + correndo // tengente + cunfome // estação + dicaxias // 
dinovo + acorrer // dinovo + adizer // sitengente + cunfome // dá + dicomer), man-
tendo um ritmo coeso que produz a harmonia imitativa predominante no poema.
d. Na estrofe final, a referência ao trem é substituída pela participação do freio de ar, o 
que justifica o uso da conjunção “mas”, adversativa.
e. Como a temática do poema é humana e social, é correto interpretar que as onoma-
topeias usadas como estribilho nas estrofes 1, 2 e 4 se valem de palavras preexistentes 
agrupadas sem razão semântica para tentar reproduzir o som do trem.
f. O advérbio “lentamente”, isolado no verso 20, tem uma massa sonora e um valor 
semântico que destoam expressivamente do restante do poema.
3. Assinale as alternativas que contêm recursos expressivos da Estilística fônica e iden-
tifique as respectivas figuras de linguagem.
a. “A gente almoça e se coça e se roça e só se vicia.” (Chico Buarque)
b. “Ouço o tique-taque do relógio: apresso-me então.” (Clarice Lispector)
c. “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quintana)
d. “Não serei o poeta de um mundo caduco.” (Carlos Drummond de Andrade)
e. Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços.” (Vinícius de 
Moraes)
f. “Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida,” (Renato Teixeira).
 Resolução
1. A opção (a) está correta, havendo erro na opção (b), pois a figura é a aliteração, e na 
opção (c), já que o intuito da harmonia imitativa é reproduzir o ruído dos freios do trem.
2. A opção (a) contém interpretação equivocada, pois repetir “tem gente com fome” não 
causa monotonia, e sim ideia de movimento. Também há erro de interpretação na 
25.
30.
opção (e), pois as palavras usadas nas onomatopeias como estribilho conservam seu 
valor semântico para confirmar a temática social. Por fim, há erro na opção (d), pois o 
comentário feito é de Estilística sintática.
3. As opções (b), (c) e (f) estão corretas.
 As alternativas (c) e (d) não contêm recursos de Estilística fônica. Nas demais opções, 
temos: (a) aliteração; (b) onomatopeia; (e) assonância; (f) homeoteleuto.
Semântica e estilística 37
3
Estilística léxica
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos lexicais no 
estudo estilístico da língua portuguesa.
3.1 Conceituação de léxico
O estudo da Estilística lexical (ou morfoestilística, como alguns preferem) envolve 
necessariamente o conhecimento e domínio de alguns dos assuntos abordados nos 
estudos de morfologia, isto é, as classes gramaticais e os morfemas.
A palavra léxico é sinônima de “vocabulário”, e indica portanto o repertório total 
de palavras existentes numa determinada língua, mas pode também ter uma signifi-
cação mais restrita, referindo-se, por exemplo, a uma relação de palavras usadas por 
um autor ou por um grupo social ou profissional. As obras que se dedicam ao estudo 
do léxico constituem dois campos de pesquisa bastante importantes para a sociedade: 
a lexicografia, ou seja, a técnica e o trabalho de elaboração de dicionários, vocabulários, 
glossários e afins; e a lexicologia, ou seja, o estudo do vocábulo quanto ao seu significado, 
estrutura morfológica e possibilidades flexionais, sua classificação em relação a outros 
vocábulos da mesma língua ou de outra, em perspectiva sincrônica ou diacrônica.
Estilística léxica3
Semântica e estilística38
Lexicografia e Lexicologia:estudo das palavras, a partir da 
observação de suas relações com a gramática e com a vida.
Como se pode depreender dessas explicações, a ferramenta fundamental com que tra-
balham os lexicógrafos e os lexicólogos é o dicionário, palavra que está assim definida no 
Dicionário Houaiss:
Dicionário – compilação completa ou parcial das unidades léxicas de uma língua 
(palavras, locuções, afixos, etc.) ou de certas categorias específicas suas, organi-
zadas numa ordem convencionada, geralmente alfabética, e que fornece, além 
das definições, informações sobre sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, 
classe gramatical, etimologia, etc. ou, pelo menos, alguns destes elementos. A ti-
pologia dos dicionários é bastante variada; os mais correntes são aqueles em que 
os sentidos das palavras de uma língua ou dialeto são dados em outra língua (ou 
em mais de uma) e aqueles em que as palavras de uma língua são definidas por 
meio da mesma língua. (HOUAISS, 2004)
Figura 1 – Dicionário Houaiss.
Fonte: Divulgação Editora Objetiva.
Como diz Correia (1995), 
[...] a propriedade geral da linguagem humana que melhor se aplica ao léxico 
de uma língua é a arbitrariedade, ou seja, o fato de os signos que constituem as 
línguas não serem icônicos, isto é, a relação que se estabelece entre eles e as en-
tidades da realidade que denotam ser meramente arbitrária ou convencional.
Por isso não se deve entender o léxico apenas como uma lista de palavras que está 
contida num dicionário. Afinal, uma observação mais atenta dos verbetes dessas obras de 
referência mostrará que os lexicógrafos, quando redigem as definições de cada componente 
da nominata, fazem uso das regularidades do léxico, adotando uma estrutura redacional 
quase sempre simétrica e coerente.
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
39
Nominata: relação de entradas de uma enciclopédia, dicionário, vo-
cabulário, glossário etc.; relação de nomes ou palavras; nomenclatura.
Outro ponto a considerar começará a delinear as relações mais estreitas que o léxico 
mantém com o estilo, pois sabemos que a língua oferece recursos para que qualquer pessoa, 
escolarizada ou não, fale sobre qualquer aspecto da realidade. A despeito disso, as palavras 
usadas para expressar a realidade vivida ou imaginada são arbitrárias e variam não apenas 
de língua para língua, mas de modalidade para modalidade e de uso para uso.
Portanto, o conhecimento lexical resulta não apenas da memorização de palavras, mas 
também de um princípio de economia na gestão desse acervo, pois cada falante se apropria 
de um vocabulário compatível com o seu grau de estudo e leitura, utilizando-o, em termos 
numéricos variados, conforme o empregue na oralidade ou na produção escrita.
No conjunto do léxico de uma língua existem certamente mecanismos que permitem 
alcançar a expressividade da comunicação, e devemos considerar que o princípio de econo-
mia linguística não é unicamente o princípio de contabilizar palavras, mas de reconhecer a 
forma mais adequada para se estabelecer o entendimento mais eficiente entre as pessoas.
3.2 Palavras lexicais e palavras gramaticais
O léxico, como vimos, é o conjunto de palavras de uma língua, mas é preciso distinguir 
nesse conjunto os elementos lexicais “plenos” e os elementos lexicais de natureza gramatical.
Tomemos duas pequenas listas de palavras do português:
1. certo, hoje, torre, ver.
2. com, os, quando, se.
Saberíamos explicar o que cada uma das palavras da série (1) significa? Ainda que pu-
desse haver algumas divergências na definição de palavras de significação mais ampla ou 
vaga, a resposta certamente seria “sim”. E quanto às palavras da série (2)? Provavelmente, 
as explicações ficariam restritas aos conhecimentos gramaticais de cada um, cabendo até 
retrucar: de que “os” ou de que “se” você está falando? 
A série (1) contém as chamadas “palavras lexicais”; a série (2) contém as chamadas 
“palavras gramaticais”. Na primeira, temos um adjetivo, um advérbio, um substantivo e 
um verbo; na segunda, temos uma preposição, um artigo, uma conjunção e um pronome. 
Na lista (1) poderíamos acrescentar quantos adjetivos, advérbios, substantivos e verbos? O 
número é aberto, pois a todo momento novas palavras lexicais podem ser formadas (taliba-
nizar? / argentinização? / palestra incomodacional? / chororosamente?).
O Globo: 29/10/2008
Palestra “incomodacional” é a novidade 
da vez de René Simões.
Técnico tricolor tem priorizado a conversa com os jogadores antes dos treinamentos.
Estilística léxica3
Semântica e estilística40
Já na lista (2) o conjunto é finito, sua dimensão é relativamente reduzida, enumerável 
em extensão e praticamente restrito – embora os processos de gramaticalização permitam 
que as palavras se “movimentem” entre os grupos. Assim, a conjunção “porque” pode se 
substantivar e virar “motivo” (Não entendi o porquê de sua dúvida); o substantivo “tipo” 
pode vir a se gramaticalizar como conjunção (Vocal feminino possante tipo Ivete Sangalo 
procura banda = como) ou como preposição (Passo na sua casa tipo meio-dia = perto de).
Figura 2 – Ivete Sangalo.
Fonte: Divulgação MK.
“As palavras gramaticais são pouco numerosas, mas de altíssima frequência nos enuncia-
dos, desempenhando funções de grande importância”, frisa Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 
72). Essas funções são elementos-chave na construção de um texto e, paradoxalmente, embora 
sejam desempenhadas por um contingente pouco numeroso, carregam a responsabilidade de 
dar à mensagem que se quer transmitir o exato valor pretendido pelo emissor – a quem com-
pete, em última análise, dominar plenamente o uso das palavras gramaticais.
Em síntese, elas servem para:
• relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os participantes 
da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá (são os dêiticos: eu, tu, e 
suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrativos referentes à primeira 
e à segunda pessoas etc.);
• substituir ou referir algum elemento presente no enunciado (são os anafóricos ou re-
presentantes: ele, demonstrativos não relacionados à primeira e à segunda pessoas etc.);
• atualizar os nomes, transformando-os de elementos do paradigma ou palavras 
de dicionário em termos da frase (são os determinantes: artigos definidos e 
indefinidos);
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
41
• relacionar palavras no sintagma (preposições) e orações na frase (conjunções e 
pronomes relativos);
• estabelecer coesão textual, seja dentro de uma frase, seja entre frases diversas (ana-
fóricos, conjunções, operadores argumentativos etc.).
Palavras lexicais: referem-se a processos ou objetos existentes no mundo real = 
verbos, nomes e advérbios. 
Palavras gramaticais: restringem-se ao âmbito interno da língua e de seus 
enunciados = artigos, preposições, conectivos e palavras dêiticas.
3.3 Neologismos lexicais e semânticos
A criação expressiva de palavras é uma prática bastante comum na língua portuguesa. 
Todos os dias observamos o emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras 
já existentes, e a atribuição de novos sentidos a palavras já existentes: “melancia” e “laranja” 
deixam de ser apenas os nomes de duas frutas e passam a funcionar como qualificador fe-
minino ou testa de ferro, respectivamente; o torcedor que vai para a geral dos estádios vira 
“geraldino”, a passarela do samba é o “sambódromo”... E assim a lista vai se expandindo dia 
a dia, propiciando que as situações da vida sejam retratadas pelo léxico. Se os neologismos 
serão duradouros ou efêmeros, nunca se sabe, pois tudo depende do uso que deles se fará.
Trataremos aqui de dois tipos de neologismos: os lexicais e os semânticos.
3.3.1 Neologismos lexicais
No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim definimos os neolo-
gismos lexicais (ouformais): 
Palavras novas, isto é, não dicionarizadas ou recém-dicionarizadas, que po-
dem ser objetivamente caracterizadas tomando-se como referência, no caso do 
Português do Brasil, o léxico oficial consignado no VOLP, embora os dicionários 
Aurélio, Houaiss e Michaëlis também possam ser fonte de consulta para esse fim. 
(HENRIQUES, 2008c, p. 138, grifos do autor)
Formados a partir de critérios muito variados, os neologismos lexicais podem consti-
tuir-se, num extremo, como a própria invenção de uma palavra, sem nenhuma lógica lin-
guística aparente, a não ser a simples junção de sons ou de letras. É o caso que Ieda Maria 
Alves (1990) denomina “neologismos fonológicos” (pela criação de um item lexical cujo 
significante é criado sem tomar como base nenhuma palavra preexistente).
No samba “Idioma Esquisito”, Nélson Sargento (1996) nos mostra com muita enge-
nhosidade uma série de palavras proparoxítonas cuja pretensão poderia ser resumida na 
discussão do seguinte slogan: “se beber, não componha”: 
Estilística léxica3
Semântica e estilística42
Fui fazer meu samba na mesa de um botequim, Depois de umas e outras, o 
samba ficou assim: Estrambonático, palipopético, cibalenítico, estapafúrdico, 
Protopológico, antropofágico, presolopépico, atroverático, Batunitétrico, prato-
finândolo, calotolético, carambolâmbolo, Posolométrico, pratofilônico, protopo-
lágico, canecalônico.
Os adjetivos que descrevem o samba feito “depois de umas e outras” se associam ao 
estado de embriaguez do eu poético. Alguns ainda conservam um vestígio de “lucidez 
vernacular”: antropofágico, cibalenítico (< cibalena, um comprimido para dor de cabe-
ça), atroverático (< atroverã, remédio para enjoo). Outros parecem pedaços cambaleantes 
de palavras: estrambonático (< estrambólico? + lunático?), prosolométrico (< ? + métrico), 
protopolágico (< proto? + ??), palipopético e presolopépico (< ???).
Neologismos que não deixam pistas morfológicas nem fonológicas nem semânticas são 
palavras perdidas, como os “gratifonísticos e os pseudoferilídicos que se tengam com frédios de 
antimalefania”, que agora inventamos. É compreensível então que o eu poético do samba de 
Nélson Sargento, ao final daquela estrofe, confesse: “É isso aí, é isso aí / Ninguém entendeu 
nada / Eu também não entendi / (Eu então vou repetir)[...]”(SARGENTO, 1996).
Podemos entretanto afirmar que os neologismos lexicais, na maior parte das vezes, são 
palavras que têm nítida inspiração em outra(s): bebemorar (para fazer par com comemorar) 
associa as ideias de beber e comer, embora a segunda não faça parte da estrutura do verbo 
(co+memorar); paitrocínio se baseia na aproximação fonética com a primeira sílaba da pala-
vra patrocínio. Caracteriza-se assim o que Ieda Alves (1990, 11-80) chama de “neologismos 
sintáticos” (criados a partir da combinação de elementos já existentes no idioma). Por essa 
denominação, só haverá neologismos sintáticos nos casos que envolverem o uso de afixos 
ou de combinação de radicais, ou seja, a derivação e a composição. Por esse motivo, a autora 
considera outro tipo de neologismo, de um lado, a conversão (ou derivação imprópria) e, de 
outro, os “processos menos produtivos” (a abreviação, a reduplicação e a regressão).
Um neologismo lexical pode, em alguns casos, gerar outros neologismos lexicais, pelos 
mesmos princípios. É o que ocorre em palavras geradas a partir da mencionada paitrocínio, 
como se vê nos exemplos (3) e (4):
3. E essa simplicidade é colocada pelo elenco como um dos méritos do sucesso. “Começou 
como de brincadeira, sem dinheiro. Conseguimos na época R$ 1 mil de ‘tiotrocínio’ (emprésti-
mo da família)”, conta a atriz Thaís Lopes da peça “Surto” (FM DIÁRIO, 2006).
4. Caro Diogo, não querendo acabar com a tua esperança, deixo-te a seguinte mensa-
gem que um piloto de automóveis me disse num desses fóruns de internet. Ele disse-me o 
seguinte: Em Portugal há três tipos de patrocínios: o paitrocínio ou tiotrocínio e o autotrocínio, 
a troca de favores (exemplo: eu patrocino-te porque a empresa do teu pai compra milhares 
de euros de material à minha!!!!). Por isso é melhor começares a contactar o teu familiotrocínio 
para poderes correr nesse troféu [...] (MOTONLINE, 2005) 
São situações criativas que podem testemunhar o início da gramaticalização de um radi-
cal “-trocínio” = “financiador”, embora caiba lembrar que o substantivo patrocínio contenha 
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
43
na sua etimologia a referência a “pai”, pois é formado pelo radical culto “patrocin-”, cuja 
raiz é “pater-”. Isso mostra como muitas vezes o usuário contemporâneo já não tem cons-
ciência da informação diacrônica acerca de um vocábulo ou expressão. 
Mas um neologismo lexical pode igualmente produzir uma segunda nova formação 
com vínculos mais fonológicos do que semânticos. Um exemplo muito utilizado pela mídia 
nos anos 2005 e 2006 ocorreu com a palavra valerioduto, popularizada pela imprensa para se 
referir a um dos muitos e grandes escândalos da política brasileira. Seu segundo componen-
te (-duto) serviu de base fonológica para a formação de valerioindulto, onde o novo radical 
adicionado dá mostras de que, apesar de o “condutor” ser réu confesso, os “conduzidos” 
nem sempre são condenados.
3.3.2 Neologismos semânticos
No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim definimos os neologis-
mos semânticos (ou conceituais): 
Incorporar significados novos a vocábulos já existentes é o que caracteriza 
a criação de neologismos semânticos, tomando-se como referência, no caso do 
Português do Brasil, obras como os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis, pois o 
VOLP é uma fonte que não tem o objetivo de registrar as acepções das palavras. 
(HENRIQUES, 2008c, p. 146, grifos do autor)
É bom frisar, porém, que os limites de identificação de valores semânticos novos como 
neológicos podem esbarrar com os do reconhecimento de valores metafóricos também no-
vos. Por exemplo, o neologismo semântico rato praticado em Portugal não foi adotado no 
Brasil, que preferiu incorporar o estrangeirismo mouse. É nítido aqui que a palavra “rato” 
(ainda que por uma relação metafórica) representa um novo significado, uma peça usada 
em computadores. A notícia de jornal que lamenta a existência de inúmeros ratos na política 
nacional serve também como exemplo de neologismo semântico? A datação desse signifi-
cado não é nova, mas não é isso apenas que exclui a resposta afirmativa. Certamente, a me-
táfora dos “dinossauros”, que é muito mais recente (está registrada no Dicionário Houaiss, e 
não no Dicionário Aurélio) nos servirá como dado representativo dessa fronteira nem sempre 
muito demarcada entre neologismo semântico e metáfora conceitual.
3.4 Figuras de linguagem
Tudo o que diz respeito à construção, ao uso e à escolha das palavras, como vimos, pode 
sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. Quando 
isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da morfoestilística, esses recursos po-
dem ser sintetizados a partir do estudo de duas figuras, a metáfora e a metonímia:
Estilística léxica3
Semântica e estilística44
Metáfora – estilisticamente, é a figura de pensamento que corresponde a uma compa-
ração de igualdade subentendida, atuando com as relações de similaridade, onde a base 
comparativa é o elemento implícito que admite a variedade interpretativa.
5. Teus olhos castanhos são estrelas fulgentes.
→ A base de comparação entre teus olhos castanhos e estrelas fulgentes está em aberto: 
ambos cintilam (são fulgentes), brilham, ou são tocantes, raros, lindos, ou são inspiradores 
de algum sentimento.
Figura 3 – Olhos fulgentes.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Didaticamente, é um procedimento bastante proveitoso explorar a riqueza metafórica 
da língua viva (presente em palavras lexicais)e exercitar as distinções entre metáforas já in-
corporadas à linguagem do dia a dia e aquelas que poderiam ser chamadas de “inventivas”.
Igualmente interessante é chamar a atenção para as metáforas conceituais, que se ba-
seiam numa visão cognitivista segundo a qual conceitos abstratos que subjazem ao pensa-
mento humano norteiam a linguagem e a maneira como nos referimos aos objetos que nos 
cercam (revelando, enfim, de que maneira vemos o mundo). As metáforas conceituais nada 
mais são do que uma espécie de denominador comum das muitas metáforas cotidianas so-
bre um mesmo tema.
Podemos, outrossim, tirar partido de outras figuras de linguagem como a prosopopeia, 
o eufemismo e a catacrese, que também têm base metafórica.
6. Para mim, és um anjo, uma flor, um doce ursinho. 
→ Metáforas “cotidianas” (?).
7. Nossos governantes são diafragmas. 
→ Metáfora “inventiva” (?).
8. Economize seu tempo! Invista seu tempo em coisas úteis! 
→ Metáforas conceituais (tempo = dinheiro).
9. O primo tem um alto astral, mas ele vive na fossa. 
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
45
→ Metáforas conceituais (alegria = “para cima” e tristeza = “para baixo”).
10. O vizinho entregou a alma ao Criador. 
→ Eufemismo (é um tipo de metáfora que tem o objetivo de suavizar uma ideia mais 
forte ou agressiva).
11. Nem seu travesseiro entenderia aquela proposta amarga.
→ Duas prosopopeias (é um tipo de metáfora que consiste em dar vida, ação, movimen-
to ou voz a seres inanimados).
12. Se embarcar nesse trem, finalmente verei o leito do Rio Amazonas? 
→ Duas catacreses (é um tipo de metáfora que supre, por semelhança, a ausência de 
uma palavra própria para representar um significado).
Metonímia (abrangendo a sinédoque) – atua com as relações de contiguidade, em que 
prevalece o entendimento de um vocábulo por outro porque ambos são postos no mesmo 
campo semântico denotativo. 
13. Presenciei o encontro entre um sem-terra e um sem-teto.
→ Tomou-se terra e teto (terra = propriedade rural; teto = moradia) mais amplamente do 
que em seu sentido literal.
14. O menino era a alegria da família.
→ Tomou-se alegria como substituto de “causa, responsável pela alegria”.
15. Bebemos várias garrafas de refrigerante.
→ Tomou-se garrafas como substituto de “líquido contido nas garrafas”.
Os exemplos mostram como as construções metonímicas se incorporam à linguagem 
do dia a dia, até distanciando o componente literal da mente do usuário ou do leitor. É o que 
se observa, por exemplo, com os nomes das equipes esportivas que representam um país, 
um estado, um bairro.
16. O Brasil ganhou da Alemanha na final da Copa de 2002.
→ Tomou-se Brasil e Alemanha como substitutos de “país representado por um time de 
futebol” ou “seleção de jogadores brasileiros” e “seleção de jogadores alemães”.
Assim, em resumo, devemos considerar como base interpretativa para o reconhecimen-
to dessas duas figuras as seguintes relações:
Metáfora – relação de similaridade semântica.
Metonímia – relação de contiguidade semântica.
Além dessas figuras, a exploração da carga expressiva das palavras também pode en-
volver temas ligados à flexão de gênero e número, à formação de palavras compostas ou 
derivadas e à própria desconstrução vocabular.
17. “Barato é o marido da barata.”
18. “Andando por esses Brasis é que entendemos o povo.”
Estilística léxica3
Semântica e estilística46
→ Flexões expressivas com intuito afetivo.
19. “Saiu agorinha mesmo.”
20. “Tens todíssima razão.”
21. “É uma data que não pode nenhumamente passar em branco.”
22. “Carnaval off-Sambódromo vai ser mais quente.”
→ Derivações expressivas com intuito enfático, em (19/20/21), e pretensioso, em (22).
23. “A rainha da bateria era a toda-toda Juliana Paes”.
24. “Depois dos pitboys, pitgirls, pitpais etc, veja o que dizia ontem o craque do 
Flamengo, comentando a ameaça do zagueiro do Vasco, de ‘quebrá-lo’ no segundo jogo da 
decisão no Rio: – É... já tem até pitzagueiro.”
→ Composições expressivas com intuito enfático (23) e irônico (24).
25. “Mó num patropi, abençoá por Dê.”
26. “Tomei um chafé com um brasiguaio que não sabe falar portunhol.”
→ Desconstrução (25) ou reconstrução (26) vocabular expressiva, com intuito artístico 
(25) ou irônico (26).
Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem em-
prega a língua portuguesa na vida concreta.
 Ampliando seus conhecimentos
Relações morfológicas entre palavras
(CORREIA, 1995)
As regularidades possíveis dentro do léxico são mais facilmente apreen-
síveis no domínio das palavras construídas, e em particular das palavras 
derivadas.
Neste contexto, é frequente fazer referência à produtividade e à recursi-
vidade das regras derivacionais, capazes de dar origem a longas séries de 
palavras, de várias categorias gramaticais, de significado relacionado e 
facilmente analisável porque regular. 
Exemplos:
nação 
(SUBST.)
→ nacional 
(ADJ.)
→ internacional 
(ADJ.)
→ internacionalizar 
(V.)
→ internacionalização 
(SUBST.)
nação 
(SUBST.)
→ nacional 
(ADJ.)
→ nacionalizar 
(V.)
→ nacionalização 
(SUBST.)
→ desnacionalização 
(SUBST.)
nação 
(SUBST.)
→ nacional 
(ADJ.)
→ nacionalizar 
(V.)
→ desnacionalizar 
(V.)
→ desnacionalização 
(SUBST.)
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
47
Mas estes mecanismos derivacionais não se limitam a construções de 
séries semelhantes à anterior. Efetivamente, muitas vezes o mesmo afixo, 
ao associar-se a uma série de bases de uma mesma categoria, mas com 
significados distintos, é capaz de “ler” as várias especificações semânti-
cas das bases, construindo os significados mais adequados às várias uti-
lizações dos derivados assim gerados. Por outras palavras, um derivado 
é em geral potencialmente polissêmico, devido a estas várias “leituras”, 
sendo as suas várias acepções, porque geradas por uma única RFP, perfei-
tamente regulares e, portanto, assimiladas e geridas intuitivamente, sem 
qualquer esforço suplementar da memória.
Tome-se como exemplo o caso do sufixo -ada. Esse sufixo permite formar 
substantivos denominais com significados distintos conforme as caracte-
rísticas semânticas das suas bases.
Assim, se a base designa um objeto com o qual é possível desferir um 
golpe, a paráfrase composicional do derivado será “golpe/marca dado/
feito com o nome-base” (ex.: martelo > martelada; faca > facada).
Porém, se a base denota um produto alimentar, a paráfrase composicio-
nal do derivado será “preparação feita com o nome-base” (ex.: marisco > 
mariscada; arroz > arrozada; marmelo > marmelada).
Se a base denota objetos contáveis, o derivado será parafraseável por 
“(grande) conjunto do nome-base”, logo o derivado será um nome cole-
tivo (ex: osso > ossada; mosquito > mosquitada).
Os nomes em -ada podem funcionar como aumentativos (ex: chuva > chu-
vada; asneira > asneirada; poeira > poeirada).
Finalmente, se a base denota uma entidade passível de funcionar como 
recipiente, o significado do derivado será “conteúdo do nome-base” (ex.: 
tacho > tachada; alguidar > alguidarada; ninho > ninhada).
Há palavras que servem de base a derivados em -ada que podem ter duas 
categorias diferentes, podendo ser substantivos ou adjetivos (ex.: chinês 
ou banana). Assim, derivados construídos com bases deste tipo são a prin-
cípio polissêmicos, apresentando de início pelo menos dois significados:
• chinesada (construído sobre chinês ADJ): “ato próprio de chinês”, 
sinônimo de chinesice; (construído sobre chinês SUBST): “grande 
quantidade de chineses”;
Estilística léxica3
Semântica e estilística48
• bananada (construído sobre banana ADJ): “ato próprio de banana”, 
sinônimo de bananice; (construído sobre banana SUBST): “grande 
quantidade de bananas”.Como banana, nome contável, designa um produto alimentar, bananada é 
também parafraseável por “preparação feita com base em banana”. 
Mas, considerando que o derivado, a partir do seu processo de derivação, 
adquiriu em potência todos os significados possíveis em função da base, 
do afixo e da RFP, novos contextos podem selecionar novas significações 
para a mesma palavra bananada. Considere-se o seguinte contexto, per-
feitamente gramatical:
1. Os dois vendedores de fruta, zangados, começaram a bater-se: um deles 
dava bananadas no adversário. [nesta frase, o mesmo derivado atualiza 
mais um dos significados possíveis produzidos no processo derivacional, 
a saber: “golpe desferido com o nome-base (banana)”.]
A partir desta análise, podemos concluir que as palavras derivadas são, em 
geral, potencialmente polissêmicas, isto é, no momento da sua construção, 
além do significado básico próprio da regra que as gera, estas palavras 
constroem outros significados potenciais resultantes das “leituras” múlti-
plas que o afixo em questão pode fazer da sua base. O falante, ao utilizar 
estes derivados, conjuga o seu conhecimento estritamente linguístico com 
o seu conhecimento do mundo para selecionar, entre os múltiplos signifi-
cados que essas palavras podem assumir, aquele que melhor se ajusta ao 
contexto produzido/recebido.
Os contextos linguístico e situacional desempenham, pois, um papel fun-
damental nesta atividade, ao eliminar, entre todas as possibilidades, as 
não adequadas à situação. De resto, os dados da psicolinguística pare-
cem confirmar esta hipótese teórica: segundo os modelos de produção e 
de percepção de linguagem, o falante vai reduzindo as possibilidades de 
escolha das unidades a usar ou identificar em função do contexto em que 
a unidade ocorre.
Um outro exemplo interessante é o do sufixo -eir(o/a), que permite cons-
truir substantivos denominais, que apresentam também significados dis-
tintos segundo as características semânticas da base, dos quais podemos 
destacar os que a seguir se discriminam.
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
49
Praticamente todos os nomes derivados em -eir(o/a) podem ser parafraseá-
veis por “indivíduo que exerce ofício (tem profissão) relacionado(a) com o 
nome-base” (ex.: arcabuz > arcabuzeiro; banana > bananeiro; peixe > peixeiro).
Esse ofício ou essa profissão podem concretizar-se sob diferentes formas 
de acordo com as características da entidade designada pela base: “cul-
tiva o nome-base” (bananeiro); “fabrica o nome-base” (arcabuzeiro, pas-
teleiro); “confecciona com o/a partir do nome-base” (peleiro); “arranja/
conserta o nome--base” (sapateiro); “conduz o nome-base” (carroceiro); 
“comercializa o nome-base” (retroseiro), etc.
Porém, se a base denota uma parte de planta suficientemente relevante 
para que essa planta seja cultivada para sua extração, o nome correspon-
dente em -eir(o/a), além de designar o profissional que cultiva/transporta/
vende essa (parte de) planta, passa a designar a planta que produz o 
nome-base (banana > bananeira; cacau > cacaueiro, coco > coqueiro). O 
gênero do derivado é determinado pelo gênero da base: base feminina > 
derivado feminino / base masculina > derivado masculino.
Se a base denota uma entidade passível de ser transportada em veículo 
especialmente concebido para o efeito, o derivado é parafraseável por 
“veículo próprio para transportar o nome-base” (ex.: banana > bananeiro; 
petróleo > petroleiro; bacalhau > bacalhoeiro).
Se a base denota uma entidade passível de ser guardada em recipiente 
ou local próprio para o efeito, o derivado pode ainda ser parafraseável 
por “recipiente/local próprio para guardar/armazenar o nome-base” (ex.: 
pimenta > pimenteiro; biscoito > biscoiteira; palha > palheiro). Aqui, ao 
contrário do que acontece com os nomes de plantas em -eir(o/a), o gênero 
dos substantivos parece não ser previsível.
Tal como fizemos para os derivados em -ada, poderemos fazer algumas 
experiências com derivados em -eir(o/a). Tomemos o caso dos nomes 
bananeir(o/a) e pasteleir(o/a). Em frases como 
2. A Joana pousou a *bananeira em cima da mesa e encheu-a. 
2’. A Joana pousou a *pasteleira em cima da mesa e encheu-a. 
Ambos os derivados podem ser parafraseáveis por “recipiente próprio 
para guardar o nome-base (bananas/pastéis)”.
Estilística léxica3
Semântica e estilística50
Tomemos agora uma pseudopalavra (sequência de sílabas que, embora 
não corresponda a nenhuma palavra da língua, tem uma estrutura 
fonológica compatível com a de uma palavra da língua), por exemplo, 
“barota”. Consideremos agora os seus “derivados” em -eir(o/a) inseri-
dos nas frases seguintes:
3. O baroteiro levantou-se cedo e começou a trabalhar.
4. Os baroteiros perderam a folha devido à geada.
5. O baroteiro construído nas traseiras da fábrica ardeu no domingo. 
Felizmente, encontrava-se vazio.
Em (3), baroteiro é parafraseável por “indivíduo que exerce atividade/tem 
profissão relacionada com barota” sendo barota entendido como “pro-
duto/objeto passível de estar na base de determinado ofício/profissão”. 
Já em (4), é lido como “parte relevante de planta”, designando o seu deri-
vado a “planta que produz barotas”. Em (5), baroteiro é parafraseável por 
“local destinado a guardar/armazenar barota(s)”.
Com este “jogo”, pretendemos demonstrar como cada processo derivacio-
nal atribui múltiplos significados aos seus produtos, em função do signi-
ficado da base envolvida. No caso da pseudopalavra em causa, o poder 
gerador de significações múltiplas do processo derivacional é ainda mais 
visível, dado que, não tendo a base qualquer significado, verifica-se que, 
ao ser associada a -eir(o/a) e em função dos contextos em que ocorre, ela 
se torna passível de assumir qualquer das significações básicas permitidas 
pelo sufixo e pela Regra de Formação de Palavras (RFP).
 Atividades
1. Observe os exemplos abaixo, com alguns gentílicos terminados em -ense (substanti-
vos ou adjetivos de dois gêneros), transcritos do Dicionário Houaiss: 
• angrense – relativo a Angra dos Reis (RJ) ou o que é seu natural ou habitante;
• berlinense – relativo a Berlim (Alemanha) ou o que é seu natural ou habitante;
• douradense – relativo a Dourados (SP) ou o que é seu natural ou habitante;
• joinvilense – relativo a Joinvile (SC) ou o que é seu natural ou habitante;
• kennediense – relativo a Pres. Kennedy (TO) ou o que é seu natural ou habitante;
• vienense – relativo a ou habitante de Viena (Áustria).
Estilística léxica
Semântica e estilística
3
51
 Um dos gentílicos dessa lista mostra uma pequena distorção redacional. Qual 
deles e por quê?
2. O trecho seguinte é de Nelly Carvalho (1999, p. 13-14). 
Linguistas como David Crystal dividem as palavras em: lexicais (ou plenas) e 
gramaticais (ou vazias). Plenas e vazia referem-se ao significado, mas contêm um 
erro conceitual: nenhuma forma é totalmente vazia.
A autora se refere às “palavras gramaticais” (artigos, preposições, conjunções etc.). 
Comente a crítica de Nelly Carvalho ao termo utilizado por Crystal.
3. Assinale as alternativas que contêm recursos de morfoestilística, explicando a ex-
pressividade de cada ocorrência.
a. “Minhoca, minhoca, me dá uma beijoca? / Não dou, não dou, não dou! / Minhoco, 
minhoco, tu tá ficando louco, / Você beijou errado: a cara é do outro lado.” (cantiga 
de roda)
b. “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quintana)
c. “Às vezes parece até que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só.” (Lenine)
d. “Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. (Chico Buarque)
 Resolução 
1. A silepse de número ocorre no trecho final (quando não encontram uma pessoa que 
possa tomar conta de sua filha pequena), cujo sujeito tem como antecedente o substan-
tivo “casal”, palavra singularcom significado plural (= eles). O distanciamento entre o 
verbo “encontrar” e o referente “casal” justifica a silepse como forma mais apropriada 
ao trecho, que correria algum risco se usasse o singular “quando não encontra uma 
pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena”.
2. Em “preciso aprender a ser só”, “só” significa “sozinho” (é adjetivo). Em “preciso 
aprender a só ser”, “só” significa “apenas” (é palavra denotativa de restrição). Como 
adjetivo, desempenha a função de predicativo do sujeito, devendo manter-se na po-
sição final da frase (sua antecipação, mesmo colocado entre vírgulas, poderia gerar 
ambiguidade). Como palavra denotativa, “só” não tem função sintática, podendo 
deslocar-se para outros pontos da oração, mas passaria a restringir outras palavras 
(na letra original, só restringe o verbo ser, sinônimo de existir). Pode-se dizer que a fi-
nalidade do autor foi fazer uma referência intertextual (com o citado samba-canção) 
vinculada ao argumento do combate à tristeza e à solidão.
Estilística léxica3
Semântica e estilística52
3. 
a. A silepse de pessoa se explica pela pretensão do autor de se incluir no sujeito “todos”.
b. A hipálage mostra a transferência de relação sintática de “amigos” – logicamente atri-
buído ao interlocutor, mas sintaticamente atribuído a “braços”.
c. O pleonasmo ocorre na duplicação do objeto direto de “admirar”. É uma forma de 
ênfase Estilística.
d. Na ordem direta, a frase seria “fazemos um pouco de tudo”. A inversão dá destaque 
ao indefinido “tudo” e não tem maior complexidade, o que caracteriza a anástrofe.
Semântica e estilística 53
4
Estilística sintática – I
O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito da oração, a expressividade dos 
aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa.
4.1 Conceituação de sintaxe da frase
O estudo da Estilística sintática envolve necessariamente o conhecimento de alguns 
dos assuntos abordados nas aulas e leituras de análise sintática, isto é, a estrutura da 
frase, começando pelo domínio a respeito do funcionamento dos termos na oração.
Para explicar como se alcança essa capacidade, retomo algumas das ideias que 
expus no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 15-16), 
com o objetivo de enfatizar a contribuição desse tipo de conhecimento em nossas esco-
lhas estilísticas.
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística54
O estudo da análise sintática é um dos pontos fundamentais na formação de quem se 
pretende um usuário competente de sua língua. Duas das habilidades principais de uma 
pessoa culta repousam nas atividades de ler e de escrever, ações que podem caracterizar não 
só nossas carreiras profissionais, mas também nossa vida como cidadãos.
Nesse sentido, sempre que pretendemos empregar a linguagem com vistas à comunica-
ção com nossos interlocutores nós o fazemos reunindo de modo organizado uma sequência 
de unidades lexicais (palavras), combinando-as coerentemente segundo nossas intenções 
comunicativas. Essa combinação é o que se chama de “relacionamento sintático”, pois a 
análise sintática é, em resumo, a análise das relações.
Sintaxe → Análise das relações
Na estrutura da oração, estudamos as relações que as palavras mantêm entre si na frase. 
Como sabemos, essas relações são binárias: sujeito e verbo; verbo e complemento; núcleo e 
adjunto... Por esse motivo, quando nos lembramos da tradicional prática de exercícios vol-
tados para o reconhecimento da função sintática de um termo, vemos que ela nem sempre 
alcança o real objetivo de sua aplicação. Afinal, não se pode dizer qual é a função sintática de 
um termo se não se encontrar o outro termo com o qual ele se relaciona. Ou seja, não se pode 
encontrar o sujeito de uma oração sem que se confirme sua relação de concordância com o 
seu “par” (o verbo); não se pode reconhecer que existe um objeto direto sem apresentar a 
“prova” (o verbo transitivo direto); não se pode afirmar que determinado termo é o agente 
da passiva sem que seu “parceiro” sintático seja revelado (o verbo na voz passiva). E assim 
sucessivamente com todos os termos da oração, pois cada um deles só tem a classificação 
que tem porque possui uma relação com outro termo – e cada uma dessas relações é única, 
e por isso são dez os termos da oração (neste caso não contamos o vocativo).
Sujeito, predicado, predicativo, objeto direto, objeto indireto, agente da pas-
siva, complemento nominal, adjunto adverbial, adjunto adnominal, aposto 
(e vocativo).
A sintaxe tem duas parceiras especiais. Uma é a Semântica (a ciência do significado), pois o 
entendimento de uma frase depende da sua estrutura e das sutilezas que envolvem a construção 
do sentido. Outra é a Estilística (a ciência da expressividade), já que compete ao autor da frase 
fazer as escolhas sobre como será sua organização, a partir do repertório que a língua lhe oferece.
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
4
55
Figura 1 – Parcerias.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Cabe, porém, um lembrete: o domínio da sintaxe do português tem como pré-requisito 
o domínio da morfologia. São dois assuntos interligados, a ponto até de a toda hora nos de-
pararmos com textos acadêmicos que empregam a palavra morfossintaxe.
Morfologia → Morfossintaxe ← Sintaxe
Como a morfologia é o estudo dos valores associativos das formas linguísticas (os vocá-
bulos) e a sintaxe é o estudo da inserção dessas formas linguísticas em enunciações lineares, 
é bastante pertinente a afirmação de Louis Hjelmslev (1971, p. 162), segundo a qual “malgra-
do todos os esforços, nunca se conseguiu separar completamente a morfologia da sintaxe”.
Isso significa que ter um bom conhecimento acerca das classes de palavras é fundamen-
tal para entender a estrutura de uma oração e de um período. Lembremo-nos, por exemplo, 
que estudamos verbos, substantivos, adjetivos e advérbios nos livros e aulas de morfologia 
– suas flexões, significações, particularidades. Depois, estudamos o verbo como elemento 
central da oração, o substantivo como núcleo de um termo, o adjetivo como um elemento 
periférico ou atributivo de outro, o advérbio como um determinante sobretudo dos verbos.
Tudo entrelaçado, interligado, no âmbito da palavra (morfologicamente) e da oração ou 
da frase (sintaticamente) para permitir que alcancemos a competência discursiva ou textual, 
que caracteriza o saber expressivo de que fala Eugenio Coseriu (1992):
Quadro 1 – Da competência linguística à competência discursiva.
Saber elocutivo competência linguística geral, isto é, a capacidade de falar
Saber idiomático competência linguística particular, isto é, a capa-cidade de falar em uma língua determinada
Saber expressivo competência discursiva ou textual, isto é, a capacida-de de construir textos em situações determinadas
Fonte: Elaborado pelo autor.
Ou seja, um uso linguístico deve estar adequado às situações e aos contextos em que 
se fala ou escreve. Assim, no nível do “saber expressivo”, o usuário competente necessita 
responder, antes de mais nada, a três perguntas: de que pretende falar?; com quem pretende 
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística56
falar?; em que contexto pretende falar? Com isso, importam-lhe não as noções de certo e 
errado, mas de adequado e inadequado, ainda que também essas definições sejam deveras dis-
cutíveis e numerosas, fixando-se em graus bastante diferentes.
Figura 2 – Saber expressivo.
De que pretendo falar? 
Com quem pretendo falar? 
Em que contexto pretendo falar?
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Por conseguinte, as escolhas estilísticas concretizadas num texto precisam estar com-
patíveis com o planejamento (ainda que intuitivo) do seu redator. Por isso é que conhecer a 
fundo os mecanismos sintáticos do português – inclusive quanto ao nível de exigência da 
linguagem padrão –é tarefa de toda pessoa que pretenda produzir um texto expressivo.
4.2 Organização das palavras na oração
Todas as línguas faladas pelo homem têm uma característica em comum: são feitas de 
palavras que se organizam em frases segundo determinadas características e relações. Se 
em inglês, por exemplo, só se pode colocar o adjetivo à esquerda do substantivo e não existe 
concordância entre eles, em português essa posição não é a mais usual e a concordância é 
obrigatória. Vejamos as séries (1) e (2) para exemplificar esse comentário.
1. sweetØ eyes (sim) / eyes sweet (não) / sweets eyes (não).
2. olhos doces (sim) / doces olhos (sim) / olhos doceØ (não) / doceØ olhos (não).
É o que se chama de sintaxe de colocação e de sintaxe de concordância, e cada língua 
tem suas próprias regras quanto a isso.
No português, há duas regras básicas de concordância:
• o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa;
• o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número.
E quanto à colocação? Chama-se ordem direta (ou lógica) a sequência em que o sujeito 
vem à esquerda do verbo, este precede os complementos e os circunstanciadores (o direto 
tem preferência sobre o indireto, e os objetos têm preferência sobre os adjuntos adverbiais), 
os determinantes vêm depois dos determinados, os termos acessórios se posicionam à di-
reita dos seus pares, os conectores e transpositores encabeçam os sintagmas ou orações por 
eles interligados...
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
4
57
A frase (3) mostra um desses casos.
3. “O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, quando uma senho-
ra de certa idade chegava a uma das janelas da casa, já então iluminada.” (ALENCAR, 1975, p. 2)
O trecho de Alencar exemplifica bem a ordem direta do português:
• a frase se inicia pelo sujeito (“o arrulhar destes dois corações virgens”) de “durava”;
• o núcleo do sujeito (“o arrulhar”) precede seu determinante (“destes dois corações 
virgens”);
• o determinante de “durava” (“até oito horas da noite”) está à direita do verbo;
• a conjunção “quando” encabeça a oração subordinada adverbial, que está posicio-
nada depois da oração principal;
• o sujeito da segunda oração (“uma senhora de certa idade”) precede o verbo que 
com ele concorda (“chegava”);
• o determinante de “chegava” (“a uma das janelas da casa”) está à direita do verbo;
• o determinado “casa” precede seu determinante (“já então iluminada”).
Esses são apenas alguns comprovantes de que o trecho de Alencar está construído rigo-
rosamente em ordem direta, mas isso não significa que se trata de uma ordem obrigatória no 
português. O mesmo trecho poderia ter sido escrito de outra maneira, sem nenhum prejuízo 
para sua estrutura, como vemos em (4) e (5), exatamente com as mesmas palavras:
4. Até oito horas da noite durava o arrulhar destes dois corações virgens, quando a uma 
das janelas da casa, já então iluminada, chegava uma senhora de certa idade.
5. Durava até oito horas da noite o arrulhar destes dois virgens corações, quando chega-
va uma senhora de certa idade a uma das janelas da casa, já então iluminada.
Não há diferença sintática entre as frases (3), (4) e (5), mas elas não são iguais do pon-
to de vista estilístico. Qual das três representa de modo mais adequado a expressividade 
pretendida pelo autor? O deslocamento de um sintagma para a posição inicial da frase 
(sua topicalização) é justificável? A resposta, certamente, gerará boa e saudável discussão de 
Estilística sintática.
Topicalização: termo usado para indicar o deslocamento de um sintagma de 
sua posição normal na frase para o início dela – o que geralmente se dá por 
razões de natureza discursivo-textual.
Façamos agora uma exemplificação ao contrário, tomando um outro trecho do próprio 
Alencar, extraído do mesmo romance A Viuvinha.
6. “Pouco depois desapareceram os adornos da cerimônia, e na sala ficaram apenas al-
gumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos dois 
corações.” (ALENCAR, 1975, p. 38)
Aqui, não há a rigorosa obediência à ordem lógica do português. Alencar privilegiou a 
ordem inversa, como destacamos nas seguintes passagens:
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística58
• o sujeito dos verbos “desaparecer” (“os adornos da cerimônia”) e de “ficaram” 
(“algumas pessoas”) está posposto;
• os determinantes de “desapareceram” (“pouco depois”) e de “ficaram” (“na sala”) 
estão antes dos verbos;
• o complemento do verbo “festejar” (“a felicidade dos dois corações”) está distan-
ciado dele pela antecipação do adjunto adverbial “em uma reunião de amigos e 
de família”.
Porém, essa opção estilística de Alencar como ficaria se reescrita na ordem direta?
7. Os adornos da cerimônia desapareceram pouco depois, e apenas algumas pessoas 
que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos dois corações fica-
ram na sala.
Observa-se que o sujeito “apenas algumas pessoas”, ao ser posicionado à esquerda de 
seu verbo (“ficaram”) teve de trazer consigo toda a oração subordinada que o secundava, 
pois afinal essa oração do verbo “festejar” é adjetiva, isto é, determinante de “pessoas” e se 
posiciona depois desse substantivo.
De novo cabe perguntar qual das maneiras se presta de modo mais adequado à expres-
sividade pretendida pelo autor. E outra vez veremos que também aqui a resposta gerará boa 
e saudável discussão de Estilística sintática.
De todo modo, uma conclusão se pode alcançar desde logo: a ordem direta ou lógica 
nem sempre é a mais recomendável ou a melhor. Cada situação discursiva, textual, é que 
dirá se a escolha mais apropriada é uma, outra ou mesmo um misto de ambas.
4.3 Extensão das frases
Diz Mattoso Câmara Jr. que a frase é uma
[...] unidade de comunicação linguística, caracterizada, como tal, do ponto de 
vista comunicativo – por ter um propósito definido e ser suficiente para defi-
ni-lo, e do ponto de vista fonético – por uma entoação, que lhe assinala nitida-
mente o começo e o fim. É assim a divisão elementar do discurso, mas pertence 
à estrutura linguística por obedecer a padrões sintáticos vigentes na língua, no 
seu sentido de sistema por que se pauta o discurso. (CÂMARA JR., 1981, p. 122)
E complementa que a frase só é integralmente linguística, ou seja, está em padrão de oração, 
quando contém linguisticamente em si todos os dados para a comunicação do seu assunto, sem 
que haja necessidade de completá-los com algum gesto ou e com uma situação concreta.
Decidir qual a melhor extensão para uma frase é, em resumo, uma tarefa que consiste 
em combinar a questão sintática com a escolha estilística, e esta levará em conta aquelas 
mesmas três perguntas que enumeramos há pouco, na busca do “saber expressivo” (de que 
pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar?).
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
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59
Observemos o exemplo (8), tirado de uma notícia de jornal:
8. “Foi um show dentro e fora de campo. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta 
olímpica de Felipe Massa, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 
a 2 na noite desta quarta-feira, de virada, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, 
no Distrito Federal”. (CLICRBS, 2008)
O texto começa com uma frase curta, marcada pela objetividade e síntese. A segunda 
frase contém quase três linhas e, apesar disso, só tem um verbo, uma oração. Topicalizada 
com o sintagma que fala de Pelé e de Felipe Massa, o período mostra o verbo “golear” segui-
do por seu complemento imediato (o objeto direto “Portugal”) e depois por um longo rol de 
adjuntos adverbiais. Se o redator optasse por equilibrar o tamanho das duas sentenças ou 
se preferisse escrever três períodos, talvez diminuísse o impacto que a primeira frase exerce 
sobre o leitor danotícia e talvez quebrasse o fluxo das circunstâncias que acompanham o 
verbo “golear”. Os resultados, para nossa reflexão, estão nos trechos (9) e (10):
9. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, no Estádio 
Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Com direito a pontapé inicial de 
Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a seleção goleou Portugal de forma convincente por 
6 a 2, de virada.
10. De virada, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2. O 
Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, no Estádio Bezerrão. 
Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, o jogo aconteceu na 
cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal.
Como avaliar as opções (8), (9) e (10) senão pela interpretação da expressividade preten-
dida pelo jornalista que redigiu a notícia?
4.4 Referenciação intrafrásica
A relação que existe entre uma expressão linguística e alguma coisa que ela seleciona 
no mundo real ou conceitual é o que se chama de referência. “Uma expressão linguística que 
refere ou aponta para alguma coisa no mundo não linguístico é uma expressão referencial” 
(TRASK, 2004, p. 251), mas os fenômenos referenciais, por se configurarem como práticas 
discursivas, são um caso expressivo da relação entre linguagem e realidade, algo que é reci-
procamente constitutivo.
Se considerarmos o texto a partir de uma perspectiva micro, diremos que se trata de 
uma reunião de frases e que estas não passam de uma reunião de termos, sintagmas e pala-
vras. Porém, por um ponto de vista macro, devemos admitir que um texto é um conjunto de 
unidades micro que se formam em busca de uma unidade sistêmica, organizada e construí-
da progressivamente com base em dois processos gerais, a sequencialidade e a topicidade.
A topicidade se refere ao assunto ou tópico discursivo (às vezes mais de um) tratado 
ao longo do texto. A sequencialidade é um componente da progressão referencial e se refere 
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística60
à apresentação, continuidade, identificação, preservação, retomada de referentes textuais e 
tidas como estratégias de designação de referentes.
Nesse sentido, a sucessão de palavras que forma um texto vai muito além da mera se-
quencialidade, pois é preciso que um entrelaçamento coerente aproxime esses componentes 
para lhes dar a mencionada unidade sistêmica de textualidade, isto é, promover sua coesão. 
Esta, por ser a representação linguística da coerência de um texto, concretiza-se nas relações 
entre elementos sucessivos (artigos, pronomes, adjetivos, verbos, advérbios), na organiza-
ção de períodos, de parágrafos, de cada uma das partes do todo, formando uma cadeia de 
sentido capaz de apresentar e desenvolver o que se pretendeu dizer sob a forma de texto.
Esses mecanismos linguísticos, que têm a função de estabelecer a conectividade e a re-
tomada entre as partes do texto, são chamados de referentes textuais.
Os referentes textuais podem se valer, conforme o caso, dos mecanismos léxico-semân-
ticos ou morfossintáticos (por meio de pronomes de terceira pessoa, de certos advérbios, 
conectivos, numerais ou por meio de substantivos e verbos cujo campo semântico permita o 
processo de substituição ou ainda pelo recurso da repetição enfática, da paráfrase, da restri-
ção, entre outros). A compreensão de um texto também se dá por elementos não explicitados 
nele, sendo possível considerar que há fatores de coesão implícita, apoiados no conhecimen-
to compartilhado que os participantes do processo comunicativo têm da língua que usam.
Por exemplo: uma pessoa que está num bar tomando um refrigerante chama o garçom 
e lhe diz a frase (11).
11. Meu copo está vazio. Pode me trazer outro guaraná?
Certamente essa pessoa não tem em mente a hipótese de que o garçom vá lhe trazer um 
guaraná diferente (outro guaraná = um guaraná diferente), mas que ele lhe trará o mesmo 
guaraná (outro guaraná = mais um copo do mesmo guaraná), apesar do aparente contras-
senso de “outro” ser equivalente de “mesmo”. O processo comunicativo, porém, poderá 
resultar no entendimento do que está explícito (outro = diferente) e numa resposta como a 
da frase (12).
12. Infelizmente não. Só temos essa marca.
Vejamos então, em dois parágrafos sucessivos (extraídos da Revista da Folha de S. 
Paulo, de 21/09/2008), outros exemplos de referentes textuais que atuam no interior da frase.
13. Com 240 mil veículos a mais nas ruas da capital nos últimos seis meses, que 
se juntaram a uma frota de seis milhões, o automóvel é cada vez mais prota-
gonista de um pesadelo urbano no qual os paulistanos se veem mergulhados 
diariamente.
14. Parado nos congestionamentos – o recorde chegou a 266km em maio – ou na dis-
puta inglória por uma vaga para estacionar, o carro virou um trambolho que co-
loca em xeque a própria sobrevivência da metrópole. “Não dá para todo mundo 
ter um carro hoje, a não ser que acabem com os espaços públicos e transformem a 
cidade em algo exclusivo para o automóvel”, ironiza a urbanista Raquel Rolnik. 
(SOLUÇÃO Radical, 2008)
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
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61
O parágrafo (13) possui apenas uma frase. Nela, “costuram” o interior frasal os prono-
mes relativos “que” (retomando “os veículos”) e “no qual” (retomando “o pesadelo urba-
no”), o pronome pessoal reflexivo “se” (em duas ocasiões: também retomando “os veículos” 
e “o pesadelo urbano”) e os substantivos “veículos”, “frota” e “automóvel” (e sua coerente 
hierarquia) e “capital” e “paulistanos” (também coerentes na seleção e enfatizados no adje-
tivo “urbano”).
Já em (14), em que há duas frases (uma do jornalista, outra em discurso direto), a coesão 
interna se dá com o pronome relativo “que” (retomando “trambolho”), o predicador “tram-
bolho” (substituto pejorativo de “carro”), na primeira delas. Na segunda, vemos a locução 
conjuntiva “a não ser que” (conector de exclusão) e os substantivos “carro” e “automóvel” 
(sinônimos) e “cidade” e “urbanistas” (também coerentes na seleção).
4.5 Figuras de linguagem
A decisão acerca do modo de se construir uma frase, como vimos, pode insinuar ou 
revelar um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. Quando isso acontece, te-
mos figuras de linguagem. No campo da Estilística sintática, entre as principais figuras, 
destacamos as seguintes:
• Anacoluto e Pleonasmo
Enquanto o pleonasmo sintático ocorre pela repetição enfática de um termo oracional, 
geralmente topicalizado, o anacoluto consiste numa topicalização que não tem sequência 
sintática concreta.
15. Os meus votos, os derrotados não os anularão nunca. → Pleonasmo
16. Aos eleitos, desejamos a eles um bom mandato. → Pleonasmo
17. Os corruptos, é preciso acabar com eles. → Anacoluto
18. Os tiranos, ainda há quem goste deles. → Anacoluto
Nas frases (15) e (16), os sintagmas topicalizados têm função sintática (“os meus votos” 
é objeto direto de “anularão”, e “aos eleitos” é objeto indireto de “desejamos”) e são repeti-
dos adiante, numa redundância sintática enfática (o pronome oblíquo “os” é o objeto direto 
pleonástico de “anularão”, e “a eles” é o objeto indireto pleonástico de “desejamos”). Como 
se vê, em cada oração houve a redundância sintática de dois termos.
Nas frases (17) e (18), os sintagmas topicalizados não têm função sintática, e sua repetição 
adiante não é sintática, mas apenas uma estratégia coesiva, pois afinal é preciso que o leitor 
entenda a frase e saiba que papel sintático deveriam fazer os sintagmas “os corruptos” e “os 
tiranos”. Os termos “com eles” e “deles” são objetos indiretos de “acabar” e “gostar”, mas 
em cada uma das frases só há um objeto indireto, pois “os corruptos” e “os tiranos” não têm 
função sintática em virtude da “quebra frasal” que caracteriza o anacoluto.
• Silepse
Uma daspossibilidades de concordância no português envolve o procedimento de re-
lacionar sintaticamente um elemento da frase ao que está implícito (em vez de explícito), 
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística62
descumprindo a regra básica de concordância entre verbo e sujeito ou entre adjetivo e subs-
tantivo. Chama-se por isso de concordância ideológica.
19. Todos os brasileiros (P6) sentimos (P4) na pele o que aconteceu.
20. Aquele discurso deixou a gente (f) aborrecido (m) com o candidato.
O sujeito da frase (19) é “os brasileiros” (= eles, P6), e o verbo poderia ser “sentiram”. 
Usar a forma “sentimos” (= nós, P4) significa incluir no sujeito a ideia da primeira pessoa – o 
que não poderia acontecer se o falante da frase fosse, por exemplo, um russo.
Na frase (20) o adjetivo “aborrecido” se relaciona com a palavra “gente”, feminina. A con-
cordância só pôde ser aceita porque “a gente” também se refere ao falante, no caso um homem.
• Hipálage
Pode-se justificar a associação de um adjetivo a um substantivo que não é, do ponto de 
vista lógico, o seu determinado.
21. O ambulante vendia as bandeiras felizes do grande campeão.
Observe-se como o adjetivo “felizes”, logicamente referido aos torcedores do time cam-
peão, transfere sua concordância para o substantivo “bandeiras”, em virtude da contiguida-
de semântica entre os seus determinados lógico e sintático.
• Assíndeto e Polissíndeto
A ausência ou a reiteração de uma “conjunção coordenativa” pode ter efeito expressivo.
22. Cheguei, olhei, abafei. → Assíndeto (ausência da conjunção “e”).
23. Era sempre assim: ou chorava, ou gritava, ou morria de amor. → Polissíndeto (reite-
ração da conjunção “ou”).
• Inversão (anástrofe, hipérbato e prolepse)
A alteração intencional e expressiva da ordem direta de uma oração ou frase caracteriza 
algum dos casos de inversão.
24. Agora você já perdeu o trem, meu caro. → Prolepse (topicalização refutadora).
25. Sobre o meu passado não falaria nada. → Anástrofe (inversão simples).
26. Assusta-me das águas o nível gigantesco. → Hipérbato (inversão complexa).
Na prolepse, além da inversão é necessário que se perceba uma possível refutação ao in-
terlocutor. Quando isso não ocorre, haverá a anástrofe. Outra figura de inversão é a sínqui-
se, que consiste em criar uma frase ambígua pela interpenetração sintática de seus termos 
(melhor seria dizer que se trata, então, de um vício de linguagem – e não de uma figura).
• Omissão (elipse e zeugma)
A omissão intencional de algum termo da oração também pode ser expressiva.
27. Sobre a cabeça, os aviões. → Elipse (de “estão” ou “há”).
28. Encontrei-a sozinha, um ar triste, o rosto pálido. → Elipse (de “tinha” ou “com”).
29. Peço venham todos à festa. → Elipse (de “que”).
30. Você falou verdades e eu, mentiras. → Zeugma (de “falei”).
31. Levei dois livros: um de contos e um de poesia. → Zeugma (de “livro”).
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
4
63
Na elipse, a palavra subentendida pode ter sido usada antes ou não. Na zeugma, a 
omissão é de uma palavra já empregada antes, sob forma gramatical diferente.
Além dessas figuras de linguagem que aqui apresentamos, a construção de frases pode 
ainda produzir expressividade de muitas outras maneiras. Tudo a serviço da pretensão criati-
va, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta.
 Ampliando seus conhecimentos
Qualidades do parágrafo e da frase em geral
(GARCIA, 1988, p. 253-254)
A correção gramatical é, sem dúvida, uma das mais importantes quali-
dades do estilo. Mas nem sempre a mais importante: uma composição 
pode estar absolutamente correta do ponto de vista gramatical e revelar-
-se absolutamente inaproveitável. Os professores topamos todos os dias 
com exemplos disso. É verdade que erros grosseiros podem invalidar 
outras qualidades do estilo. Mas a experiência nos ensina que os defeitos 
mais graves nas redações de alunos do curso fundamental – e até superior 
– decorrem menos dos deslizes gramaticais que das falhas de estrutura-
ção da frase, da incoerência das ideias, da falta de unidade, da ausência 
de realce. Quando o estudante aprende a concatenar ideias, a estabelecer 
suas relações de dependência, expondo seu pensamento de modo claro, 
coerente e objetivo, a forma gramatical vem com um mínimo de erros que 
não chegam a invalidar a redação. E esse mínimo de erros se consegue 
evitar com um mínimo de “regrinhas” gramaticais.
Isoladamente, unidade e coerência têm características próprias, mas quase 
sempre a falta de uma resulta da ausência da outra. A primeira pode ser 
em grande parte conseguida graças ao expediente do tópico frasal; a 
segunda depende principalmente de uma ordem adequada e do emprego 
oportuno das partículas de transição (conjunções, advérbios, locuções 
adverbiais, certas palavras denotativas e os pronomes).
Em síntese, a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo-
-se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante no 
parágrafo. Evitem-se, portanto, digressões descabidas e indiquem-se de 
maneira clara as relações entre a ideia principal e as secundárias.
A falta de unidade do parágrafo seguinte decorre da ausência de conexão 
entre os seus dois períodos.
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística64
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética 
para o regime comunista de Fidel Castro. A condecoração de “Che” 
Guevara, um dos colaboradores castristas, pelo ex-presidente Jânio 
Quadros, por afrontosa, escandalizou a opinião pública e contri-
buiu para a sua renúncia (redação de aluno).
Pergunta-se: qual é a ideia principal desse parágrafo? A chegada de refor-
ços, a condecoração, o escândalo da opinião pública ou a renúncia do 
presidente? Se é a chegada de reforços, que relação há – ou mostrou seu 
autor haver – entre esse fato e os restantes? Há, sem dúvida, uma relação 
implícita, histórica, ocasional, entre as três personagens referidas, mas não 
entre suas ações indicadas no trecho. Falta, pois, ao parágrafo qualquer 
traço de unidade, coerência e ênfase. Para consegui-lo, seria necessário 
dar-lhe uma nova estrutura. Uma das versões possíveis seria esta:
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para 
o regime comunista de Fidel Castro. Pois foi a um dos colaborado-
res castristas – “Che” Guevara – que o ex-presidente Jânio Quadros 
condecorou, escandalizando a população e contribuindo para a sua 
própria renúncia.
A partícula de transição “pois” (conjunção conclusiva) e a expletiva “foi... 
que” já denunciam certa relação com a chegada de reforços e o que se 
segue esse “pois” indica vestígios de um silogismo incompleto, cuja pre-
missa maior está implícita. O raciocínio que teria levado a essa estrutura 
deve ter sido mais ou menos o seguinte:
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética. 
Isso nos leva a admitir que o regime de Fidel Castro é comunista. 
Ora, os comunistas não devem ser condecorados sem que se escan-
dalize parte da opinião pública de país não comunista. Pois esse 
escândalo provocou-o a condecoração de “Che” Guevara pelo ex-
-presidente Jânio Quadros, escândalo que foi, provavelmente, uma 
das causas da sua renúncia.
Note-se, porém, que na versão proposta a ideia principal é “condecorar”; 
portanto, a “chegada de reforços”, sob a forma de tópico frasal, ilude o lei-
tor, que supõe ver aí a ideia predominante do parágrafo. Sugere-se então 
nova estrutura, de forma que as ideias secundárias assumam feição gra-
matical mais adequada: oração subordinada ou adjunto adverbial:
Estilística sintática – I
Semântica e estilística
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Com a chegada a Cuba de reforços militares da União Soviética 
para o regime comunista de Fidel Castro, a condecoração de “Che” 
Guevara pelo ex-presidenteJânio Quadros – gesto que talvez tenha 
contribuído para sua renúncia – torna-se ainda mais afrontosa à 
opinião pública.
Sob a forma de adjunto adverbial, a “chegada de reforços” passa a ser 
uma ideia secundária, permitindo que se dê maior realce à contida na 
oração principal (“a condecoração... torna-se ainda mais afrontosa”). A 
terceira ideia desse parágrafo, por ser também irrelevante, assume uma 
feição de subalternidade sob a forma de aposto: “gesto que...”
Assim, nesta última versão estão mais ou menos razoavelmente eviden-
ciadas as três principais qualidades do parágrafo (que no caso são tam-
bém do período):
a. unidade – uma só ideia predominante;
b. coerência – relação (no caso, de consequência) entre essa ideia predo-
minante e as secundárias;
c. ênfase – a ideia predominante não apenas aparece sob a forma de ora-
ção principal mas também se coloca em posição de relevo, por estar no 
fim ou próximo do fim do período-parágrafo.
 Atividades
1. Aqui no prédio há um casal que prestigia o nosso grupo de teatro e que só perde 
um ensaio quando não encontram uma pessoa que possa tomar conta de sua filha 
pequena.
 O trecho acima pode exemplificar por que, às vezes, a silepse é preferível à concor-
dância lógica? Explique.
2. “E quando escuta um samba-canção / Assim como ‘Eu preciso aprender a ser só’, / 
Reagir e ouvir o coração responder: / Eu preciso aprender a só ser.”
 A letra de Gilberto Gil faz uma inversão das palavras “ser” e “só” com que finalida-
de textual? Identifique suas diferenças semânticas e morfossintáticas e, depois, ex-
plique em que outras posições da mesma frase essa palavra poderia ser empregada 
e com que consequências.
Estilística sintática – I4
Semântica e estilística66
3. Assinale as alternativas que contêm recursos de Estilística sintática, explicando a 
expressividade de cada ocorrência.
a. Ah, se todos tivéssemos esse seu jeito especial de entender o coração humano!
b. Teus braços amigos estão sempre à minha disposição, eu sei.
c. Aqueles olhos azuis, cansei de admirá-los em vão.
d. Fazemos de tudo um pouco.
 Resolução 
1. A silepse de número ocorre no trecho final (quando não encontram uma pessoa que 
possa tomar conta de sua filha pequena), cujo sujeito tem como antecedente o subs-
tantivo “casal”, palavra singular com significado plural (= eles). O distanciamento 
entre o verbo “encontrar” e o referente “casal” justifica a silepse como forma mais 
apropriada ao trecho, que correria algum risco se usasse o singular “quando não 
encontra uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena”.
2. Em “preciso aprender a ser só”, “só” significa “sozinho” (é adjetivo). Em “preciso 
aprender a só ser”, “só” significa “apenas” (é palavra denotativa de restrição). Como 
adjetivo, desempenha a função de predicativo do sujeito, devendo manter-se na po-
sição final da frase (sua antecipação, mesmo colocado entre vírgulas, poderia gerar 
ambiguidade). Como palavra denotativa, “só” não tem função sintática, podendo 
deslocar-se para outros pontos da oração, mas passaria a restringir outras palavras 
(na letra original, só restringe o verbo ser, sinônimo de existir). Pode-se dizer que a fi-
nalidade do autor foi fazer uma referência intertextual (com o citado samba-canção) 
vinculada ao argumento do combate à tristeza e à solidão.
3. 
a. A silepse de pessoa se explica pela pretensão do autor de se incluir no sujeito “todos”.
b. A hipálage mostra a transferência de relação sintática de “amigos” – logicamente 
atribuído ao interlocutor, mas sintaticamente atribuído a “braços”.
c. O pleonasmo ocorre na duplicação do objeto direto de “admirar”. É uma forma de 
ênfase Estilística.
d. Na ordem direta, a frase seria “fazemos um pouco de tudo”. A inversão dá destaque 
ao indefinido “tudo” e não tem maior complexidade, o que caracteriza a anástrofe.
Semântica e estilística 67
5
Estilística sintática – II
O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito do período, a expressividade dos 
aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa.
5.1 Conceituação de sintaxe do período 
Assim como uma frase não é uma reunião aleatória de palavras ou de orações, um 
texto não é uma reunião aleatória de frases. As decisões de estilo, no que tange à sin-
taxe do período (simples ou composto) têm a ver, em primeiro lugar, com o domínio 
do funcionamento dos padrões frasais do português e das combinações que as orações 
mantêm umas com as outras dentro de uma frase verbal, a que denominamos período.
No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 95), 
tratei um pouco desse tema, cabendo aqui aproveitar minhas próprias palavras para 
discutir como importam as questões sintáticas da frase na qualificação de um texto, 
pois sua complexidade e expressividade se medem a partir de vários parâmetros. 
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística68
Não resta dúvida de que um deles repousa na observação da estrutura sintática de seus 
períodos e parágrafos. Nesse sentido, o estudo da sintaxe é uma das estratégias para desven-
dar os mecanismos composicionais escolhidos pelo autor de um texto, ainda que ele precise 
passar pelo caminho da nomenclatura e da fixação das regras básicas do relacionamento 
sintático para atingir seu alvo maior.
Um texto coeso e coerente se organiza a partir de princípios lógicos, entre os quais se 
incluem os processos relacionais, que partem de uma “relação-micro” como a que existe en-
tre o núcleo de um termo e seu adjunto adnominal, passam por uma “relação-midi”, como a 
que nos mostra que uma oração é principal porque outra é sua subordinada, e se encerram 
numa “relação-macro”, que confirma por exemplo que uma notícia de jornal ou uma crônica 
literária teve começo, meio e fim – o que só acontecerá de fato se tiverem sido seguidas as 
regras elementares de adição, oposição, reiteração, substituição e conclusão, entre tantas 
outras regras que se baseiam em ampliações dos mecanismos primários expressos pelos 
conectivos, conjunções, pronomes relativos, pessoais...
Figura 1– Microrrelações, midirrelações, macrorrelações = Sintaxe.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Nesse percurso do “mundo-micro”, feito com o estudo geral da estrutura da oração, 
para o “mundo-macro”, é preciso examinar como funciona a estrutura do período (o “mun-
do-midi”), relembrando que esses três “mundos” nada mais são do que uma repetição 
um do outro, em tamanhos e graus diferentes. É preciso, portanto, frisar que o estudo da 
Estilística sintática, no âmbito do período, é o estudo da expressividade, da pertinência e da 
coesão que existe no relacionamento que as orações mantêm entre si no enunciado.
Sintaxe do período → Análise das relações oracionais
Interessa-nos, então, examinar como um período ou frase verbal atua em suas relações 
discursivas e pragmáticas com o mundo que cerca o texto. É o segundo passo no caminho 
da almejada qualidade e expressividade textual.
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
5
69
5.2 Organização das orações (no período) 
Há em português dois tipos de orações, conforme sejam sintaticamente independentes 
ou dependentes. Se um período dispõe suas orações com independência sintática, dizemos 
que há coordenação entre elas. Se, porém, as orações mantêm no período uma relação de 
dependência sintática, falamos em subordinação.
Vejamos como acontecem essas relações, examinando algumas frases escritas por 
Graciliano Ramos no romance Angústia.
1. “Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante 
de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao alfaiate. Atracado 
aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.” 
(RAMOS, 1975, p. 53)
O trecho contém quatro frases, sendo a segunda um efeito retóricointerjectivo (equi-
valente muito mais expressivo do que “Era um velhaco”). A quarta frase também não tem 
um verbo lexicalizado, mas se entende algo como “Vivia atracado...”, de modo a deixar 
implícita a informação redundante para destacar a descrição relevante do tal amante de D. 
Mercedes. Considerando a inserção dos verbos, essas frases teriam orações independentes 
absolutas. Sem os verbos, são frases nominais (inseridas em um contexto ou situação).
Interessam-nos, porém, mais os períodos 1 e 3 do exemplo (1). Observemos a sequência 
de orações independentes de ambos: 
Período 1 
• oração 1: peguei um livro 
• oração 2: abri a porta
• oração 3: e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes.
Período 3:
• oração 1: devia nas lojas
• oração 2: devia nas mercearias
• oração 3: devia ao alfaiate
Nos dois períodos, a opção do escritor foi pela construção de orações independentes 
– tanto que até poderiam ter sido escritas com a separação por pontos, como temos em (2).
2. Peguei um livro. Abri a porta. E desci os degraus do quintal, furioso com o amante 
de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas. Devia nas mercearias. Devia ao alfaiate. Atracado 
aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.
É lícito concluir que Graciliano optou por estruturas integradas em frases desse tipo, 
pois preferiu privilegiar um determinado nível de informação e de descrição, associando-as 
a um certo ritmo pausado de leitura, típico de estruturas coordenadas.
Suponhamos, porém, que a escolha fosse pela construção com orações dependentes. Uma 
das possibilidades de reescritura (apenas dos períodos 1 e 3) do trecho nos daria o que está em 
(3); outra, buscando apenas os usos de estruturas dependentes, nos daria o que está em (4).
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística70
3. Depois que peguei um livro, abri a porta para, em seguida, descer os degraus do 
quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Tanto devia nas lojas, como devia 
nas mercearias e devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da 
Associação Comercial, numa adulação torpe.
4. Depois que peguei um livro, abri a porta para em seguida descer os degraus do quintal, 
furioso com o amante de D. Mercedes, porque o considerava um Velhaco, que tanto devia nas 
lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate, o que o obrigava a viver atracado aos usi-
neiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.
Vimos quatro maneiras de construir o mesmo momento da narrativa do romance 
Angústia, de Graciliano Ramos. Não resta dúvida de que a opção do escritor se mostra bas-
tante expressiva, mas sobre as outras três a única coisa inquestionável é que, sintaticamente, 
elas estão corretas, adequadas e bem-escritas. E estilisticamente? Cabe aqui uma boa e sau-
dável discussão a esse respeito.
Isso significa que estruturas sintáticas independentes são melhores do que as de-
pendentes? Ou que, num texto narrativo, elas são mais recomendáveis? Ou então que 
Graciliano Ramos é que tem um estilo em que predomina a coordenação sobre a subordina-
ção? Obviamente a resposta a essas perguntas é a mesma: não, necessariamente. É preciso 
relativizar todas essas coisas e examinar em que circunstância elas ocorrem.
Para comprovar essa “fragilidade dos dogmas sintáticos”, vejamos outras duas passa-
gens do mesmo autor, ainda em Angústia.
5. Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem vestida como 
se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos contraídos, o 
braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a 
impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. (RAMOS, 1975, p. 67)
6. Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a minha 
atenção se concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apre-
sentava à rua uma banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-me, aproximei-
-me da casinha e vi uma placa azul com letras brancas. (RAMOS, 1975, p. 157)
Os três períodos do trecho (5) contêm o predomínio de estruturas dependentes, com 
orações substantivas, adjetivas e adverbiais, com orações desenvolvidas e reduzidas. Já no 
trecho (6), observa-se uma combinação entre orações independentes e dependentes dentro 
do mesmo período: o primeiro contém apenas orações independentes; o segundo, apenas 
orações dependentes; o terceiro começa com uma oração dependente e prossegue com três 
independentes.
Algum dos trechos perdeu em expressividade? Claro que não. Isso nos permite con-
cluir que a decisão sobre as estruturas que devem figurar num período depende muito do 
conhecimento sintático, é claro, mas depende ainda mais da sensibilidade e da percepção 
estilística de quem escreve.
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
5
71
5.3 Referenciação interfrásica 
Todo emissor de uma mensagem faz uma representação mental (multidimensional) a 
respeito do referente do discurso que pretende elaborar. 
Referente: termo que denomina o componente do mundo real que é passível 
de argumentação, descrição ou relato por meio de palavras. 
Quando se dá a produção de um texto, essa representação mental toma uma forma con-
creta, que tem linearidade e temporalidade, pois deve se materializar (uma ação de tempo) 
em unidades linguísticas (um resultado linear) com o propósito de emitir uma informação.
Figura 2 – Operação cognitivo-linguística: do cérebro para o papel.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
A principal questão para quem redige é a que envolve essa transferência do modelo 
mental (não linear e impalpável) para a forma concreta da frase. O ponto é como compatibi-
lizar esses dois ambientes, como saber fazer essa passagem.
Podemos resumi-la a duas operações, que interagem durante essa transferência: 
a. seleção e ajuste dos itens lexicais (em outros termos: achar a palavra certa e 
posicioná-la na frase de modo adequado);
b. enquadramento das unidades linguísticas em relação aos enunciados que as 
precedem ou sucedem num texto (também chamados de cotexto).
Enquanto a operação A se presta mais para a construção da oração ou do período, a 
operação B é a que expressa de fato a materialização do texto, sua efetiva construção como 
uma unidade de sentido.
Observemos a notícia abaixo para vermos como se dão esses processos.
7. Ter autonomia para escolher o horário de início do trabalho – de manhã, à tarde, 
à noite ou de madrugada –, livrar-se dos imensos congestionamentos, que tiram 
o humor de qualquer pessoa, usar a roupa que achar mais confortável, decorar 
o ambiente com a sua cara e ser o seu próprio chefe. Quem nunca desejou pelo 
menos um desses privilégios? (GAZETA DO POVO, 2008)
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística72
O redator inicia seu parágrafo com uma frase que combina com simetria cinco infini-
tivos verbais (ter, livrar-se, usar, decorar e ser). Até aí estamos na operação A, que verifica 
a seleção e ajuste dos itens lexicais. Na frase final do trecho, há entretanto um sintagma 
que atua no processo B (um desses privilégios). O demonstrativo “esses” é anafórico e faz 
relação com o enunciado que o precede, e o substantivo “privilégios” condensa (também 
anaforicamente) a série liderada pelos cinco verbos no infinitivo, acrescentando um juízo de 
valor que o jornalista espera ser compartilhado pelos seus leitores, a saber: as ideias repre-
sentadas pelos cinco verbos no infinitivo podem ser consideradas positivas (= privilégio, no 
bom sentido).
Alternativamente, o jornalista poderia ter evitado o demonstrativo, mas precisaria de 
uma palavra anafórica de outra classe para dar coerência à frase final – é o que se vê em (8).
8. Quem nunca desejou pelo menos um dos privilégios citados?
Também poderia ter usadoum substantivo anafórico mais neutro – como em (9). Isso 
evitaria que algum leitor percebesse alguma sutil ironia ou inveja no uso do substantivo 
“privilégios”, por considerar que o repórter redator, provavelmente, não pode trabalhar 
apenas em casa.
9. Quem nunca desejou pelo menos uma dessas comodidades? 
Uma outra questão envolve as operações de enquadramento dos enunciados de um 
texto, ainda no que tange à conexão e à segmentação. Suas unidades fundamentais são os 
organizadores textuais e os sinais de pontuação, que têm a função de, primeiro, “costurar” 
os itens lexicais (selecionados e ajustados, como dissemos na operação A) e, depois, articular 
ao contexto essas unidades.
Quanto aos organizadores textuais, citemos alguns deles:
• os aditivos (e, além disso, igualmente, também);
• os alternativos (ou, ora);
• os argumentativos (mas, embora, porque, em última análise);
• os sequenciadores (primeiro, antes, por fim);
• os delimitadores de espaço, tempo ou fonte (naquela época, na nossa cidade, para 
os governistas, segundo Platão).
Já os sinais de pontuação são empregados, em especial, com a finalidade de demarcar 
ou segmentar as partes do texto por conta de seus termos, sintagmas, proposições, frases ou 
parágrafos. O sistema de pontuação faz parte de uma convenção gráfica, mas em síntese é 
um “sistema de reforço da escrita, constituído de sinais sintáticos, destinados a organizar 
as relações e a proporção das partes do discurso e das pausas orais e escritas” (CATACH, 
1994, p. 7). Sua utilização interage com outros níveis operacionais do enunciado, ou seja, 
esses sinais participam também de todas as funções da sintaxe: gramaticais, entonacionais, 
semânticas, discursivas e pragmáticas. A eles se acrescentam outros recursos gráfico-frasais, 
como o itálico, o negrito, a sublinha etc. 
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
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Sinais de pontuação [etc.] → vírgula / ponto e vírgula / ponto final, de 
exclamação e de interrogação / dois-pontos / reticências / aspas / travessão 
/ parênteses e colchetes / alíneas / negritos, itálicos e sublinhas / asteriscos.
Dois parágrafos de uma crônica de José Carlos Oliveira (2005, p. 72) nos servirão para 
interpretar algumas das explicações expostas neste capítulo.
Reaprendo o caminho da praia. Todos os meus conhecidos estão ficando casta-
nhos, renunciarei também aos banhos de estrelas e de luar. E assim me incluo, 
sábado, entre as centenas de corpos que na areia ou na água correm, cochilam, 
conversam, jogam frescobol, pegam jacaré, passam óleo na pele, tomam sorvete 
e repetem frases que é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir: “A água 
está geladíssima”; “se em outubro o sol já está assim, imagine em janeiro”; “este 
verão vai ser fogo”; “hoje as ondas estão brabas”; “amanhã não sei se venho, 
porque vai haver névoa seca”.
Perdão, não fui eu quem falou em névoa seca; apenas ouvi. Não sei quem disse. 
Quando ia dar um mergulho, alguém fez essa observação como quem diz uma 
coisa muito natural. Não vi quem falou. Mergulhei, fiquei um instante na areia 
olhando o belo mar, e de repente minha cabeça refletiu sozinha: “Névoa seca… 
Eu, hein, rosa!” Depois reparei que aquela frase não revelava pedantismo pro-
priamente; era mais sofisticação. E mergulhei novamente enquanto minha cabe-
ça, emérita especuladora, propunha a si mesma um problema simples, qual seja: 
“Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo sem mais nem 
menos?” Probleminha de fim de semana, creio eu. Na calada da noite é que me 
devem torturar as grandes dúvidas humanas, para as quais oferecerei resposta, 
segundo espero, nos livros que, segundo espero, vou começar a escrever ama-
nhã. Isto é: depois de amanhã; Domingo também não é dia de salvar o mundo 
– creio eu. Enfim, lá estava a cabeça a funcionar gratuitamente, sem prejudicar 
o sabor do momento; sentei-me na areia e sem óculos escuros olhei para o sol. A 
ofuscação me fez fechar os olhos, o que aproveitei para cochilar um pouquinho. 
José Carlos Oliveira materializa sua representação mental com unidades linguísticas 
selecionadas e enquadradas em enunciados concatenados. Recursos de estilo concretizam a 
construção coerente dos segmentos de orações, períodos e parágrafos, e o cronista exercita 
seu domínio sobre os instrumentos da língua – aqui examinados apenas em alguns organi-
zadores textuais e nos sinais de pontuação.
Organizadores textuais:
renunciarei também aos banhos de estrelas; E assim me incluo, sábado, entre as 
centenas de corpos; é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir; Depois re-
parei que aquela frase; Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer 
aquilo; para as quais oferecerei resposta, segundo espero; Isto é: depois de amanhã; 
domingo também não é dia; Enfim, lá estava a cabeça a funcionar;
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística74
Sinais de pontuação:
• dois-pontos introduzindo citações diretas (pessoais ou alheias) marcadas com aspas: 
 Exs.: É sempre agradável dizer e ouvir: “A água está geladíssima” / qual seja: “Que 
espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz?”
• dois-pontos introduzindo citação direta (pessoais ou alheias), sem aspas 
 Exs.: Isto é: depois de amanhã.
• travessões indicando separação de discurso direto: 
 Ex.: Não é dia de salvar o mundo – creio eu.
• reticências e exclamação revelando uma modalização do narrador: 
 Ex.: Névoa seca… Eu, hein, rosa!
• ponto e vírgula separando blocos oracionais:
 Ex.: Depois de amanhã; domingo também não é dia.
• ponto de interrogação caracterizando um recurso retórico:
 Ex.: Seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos?
Mais do que o simples levantamento dessas ocorrências, que por si só não levaria a 
nada, vale notar como a presença desses componentes dá sentido às escolhas lexicais de 
substantivos, adjetivos, verbos. É preciso, enfim, haver competência no manejo dos recursos 
da língua, pois com eles pode-se conseguir a expressividade textual.
5.4 Figuras de linguagem 
O estudo estilístico do período, obviamente, não deixa de ser também o estudo estilístico 
da oração, do parágrafo e do texto. E entre os elementos importantes da escolha consciente a 
ser feita no momento de produção de um texto, temos as referências fóricas. Essas unidades 
linguísticas englobam não apenas figuras de linguagem do campo da retórica (anáforas, epa-
náforas, epíforas, epístrofes), mas também os processos coesivos.
Fóricos: termo genérico que designa a propriedade de algumas unidades 
linguísticas (como alguns pronomes, advérbios, substantivos e verbos) de 
fazer referência a um componente do próprio texto ou ao contexto situacio-
nal, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós.
Vamos examinar aqui as possibilidades coesivas dessas unidades, recorrendo a alguns 
exemplos que incluímos no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 
2008a, p. 169-172).
10. Ela só faz isso quando está lá.
Para entender a frase (10), é indispensável que haja algum contexto que nos permita 
responder a três perguntas: Quem é ela? O que ela faz? Onde ela está quando faz isso?
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
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11. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Horizonte, 
na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma palha dentro 
de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, como a sogra é uma megera, 
ela só faz isso quando está lá.
Esclarecido o contexto em (11), teríamos então estas respostas:
12. Ela (Telma) só faz isso (arruma a própria cama) quando está lá (na casa da sogra). [Ou 
seja: Telma só arruma a própria cama quando está na casa da sogra.].
O emprego de palavras que, dentro de um contexto, fazemreferência a termos usados 
anteriormente – e evitam sua repetição – tem o nome de “anáfora”. No exemplo, as palavras 
anafóricas são: ela + faz isso + lá.
Quando a frase remete para uma unidade linguística que está adiante, o nome que se dá 
é “catáfora”. É o que encontramos em (13), reescritura de uma das frases do exemplo (11).
(13) Telma é uma mulher que tem um único defeito: não move uma palha dentro de 
casa. [Um único defeito → não mover uma palha dentro de casa].
Aqui o elemento catafórico é “um único defeito”, que está à esquerda de “não move 
uma palha dentro de casa” e tem a finalidade de apontar para essa ideia à direita. Mas, se 
invertêssemos os dois componentes, colocando “esse único defeito” à direita, ele apontaria 
para a ideia à esquerda e caberia ao demonstrativo “esse” fazer o papel anafórico. É o que 
mostra a frase (14).
14. Telma é uma mulher que não move uma palha dentro de casa, e esse é seu único 
defeito. [Não mover uma palha dentro de casa ← esse (único defeito)].
Essas relações fóricas (a anáfora e a catáfora) são chamadas de “endofóricas”, pois 
atuam na esfera do texto e se explicam nesse ambiente “interno” (endo- = para dentro). 
Quando as relações fóricas se explicam por componentes exteriores ao texto, elas se chamam 
“exofóricas” (exo- = para fora). 
Na língua falada, usa-se muito a menção às noções de tempo, espaço e pessoa sem as 
nominalizar no texto, mas apenas no cenário em que se transmite uma ideia. Se estou numa 
sala de aula da UERJ no último dia de aula do ano letivo de 2009 e digo “Eu espero ver vo-
cês aqui no ano que vem”, a frase não é autoexplicável, mas a situação identifica os valores 
concretos de “eu” (= Claudio), “aqui” (= na UERJ) e “no ano que vem” (= 2010). 
Para concluir, acrescentemos uma outra possibilidade que ocorre no trabalho com fra-
ses e textos. Referimo-nos àquelas situações em que há necessidade de se reiterar um concei-
to, reforçar um ponto de vista ou retomar a expressão de um pensamento, uma ideia, uma 
opinião. Fazer isso engloba uma série de aspectos da estrutura textual: a escolha de palavras, 
o domínio das estruturas sintáticas, a viabilidade da repetição expressiva, o conhecimento 
dos valores semânticos e a perícia Estilística.
Para desenvolver essa técnica, o redator é levado a um exame panorâmico do que planeja di-
zer e, a partir daí, deve fazer as escolhas seguras conforme sua intenção comunicativa. Ilustremos 
essas considerações com dois exemplos de paráfrase a partir dos seguintes fragmentos:
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística76
15. “Não há nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares e que 
ocorrem com frequência não atraírem e não prenderem a reflexão dos homens, mas serem 
admitidas sem exame e investigação das suas causas.” (Francis Bacon)
16. “Foi pelo trabalho que a mulher transpôs, em grande parte, a distância que a separava 
do macho; é só o trabalho que pode garantir-lhe uma liberdade concreta.” (Simone de Beauvoir)
As propostas de reescritura sinonímica para os textos acima poderiam ser:
17. Nenhuma coisa é tão nociva à filosofia quanto a falta de atenção e de consideração 
dos homens em relação aos acontecimentos familiares corriqueiros, que são aceitos sem que 
se examinem ou se investiguem suas origens.
18. As diferenças entre os sexos começaram a ser superadas a partir do momento em 
que a mulher começou a trabalhar. Para conseguir a liberdade completa, o que ela precisa 
fazer é continuar trabalhando. 
Chamamos a esse tipo de exercício “redação sinonímica”. Seu objetivo é manter a signi-
ficação global de um período ou de um parágrafo, a partir da alteração localizada de pala-
vras e expressões de linguagem.
Como em várias outras questões que envolvem a produção de texto, estas possibili-
dades também estão a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de 
quem emprega a língua portuguesa na vida concreta.
 Ampliando seus conhecimentos
Paralelismo rítmico e sintático
(GARCIA, 1988, p. 274-275)
A coerência consiste em ordenar e interligar as ideias de maneira clara e 
lógica e de acordo com um plano definido. Sem coerência é praticamente 
impossível obter-se ao mesmo tempo unidade e clareza. Ela é, por assim 
dizer, a “alma” da composição. Os organismos vivos, os próprios meca-
nismos, só funcionam quando suas partes componentes se ajustam, se inte-
gram numa unidade compósita. Podem-se reunir as mil e uma peças de 
um aparelho de televisão, mas o conjunto só funcionará quando todas 
estiverem adequadamente ajustadas e conectadas segundo o esquema de 
montagem. Onze excelentes jogadores de futebol, onze Pelés, pouco rendi-
mento obterão numa partida, se não se conjugarem as habilidades de cada 
um na sua posição e movimentação dentro do campo, segundo o plano 
do jogo e o objetivo do gol. Em outras palavras: assim como não basta 
encontrarem-se em campo onze Pelés que não se entendam, que não se 
articulem, assim também não é suficiente dispor de excelentes ideias que 
não se ajustem, não se entrosem de maneira clara, harmoniosa e coerente.
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
5
77
Em geral, escrevemos à medida que as ideias nos vão surgindo: mas, 
como nosso raciocínio nem sempre é lógico, ocorrem lapsos, hiatos e des-
locações extremamente prejudiciais à coerência e à clareza. Para evitar 
esse inconveniente, torna-se necessário planejar o desenvolvimento das 
ideias, pondo-as numa ordem adequada ao propósito da comunicação e inter-
ligando-as por meio de conectivos e partículas de transição. Ordem e transição 
constituem, pois, os principais fatores de coerência.
[...] A ordem de colocação é indispensável à coerência; mas não é suficiente. 
Urge cuidar também da transição entre as ideias, da conexão entre elas. Palavras 
desconexas são como fragmentos de um jarro de porcelana. É preciso “colá-
-las”, interligá-las para se obter uma unidade de comunicação eficaz.
É certo que na língua falada ou escrita, quando se traduzem situações sim-
ples, a inter-relação entre as ideias pode prescindir das partículas conecti-
vas mais comuns. A justaposição mostra como o liame entre orações e 
períodos muitas vezes se faz implicitamente, sem a interferência desses 
conectivos: uma pausa acentuada, uma entonação de voz podem ser sufi-
cientes para interligar e inter-relacionar ideias.
(1) Estou muito preocupado. Há vários dias que não recebo notícias de 
minha filha.
Temos aí dois períodos justapostos. A pausa e o tom da voz mostram que 
o segundo indica o motivo ou a explicação do primeiro. A ausência da 
conjunção explicativa (pois, porque) não impede que se perceba nitida-
mente essa relação.
Mas, em situações complexas, a presença dos conectivos e locuções de 
transição se torna quase sempre indispensável para entrosar orações, 
períodos e parágrafos.
Quanto mais civilizada é uma língua, quanto mais apta a veicular o racio-
cínio abstrato, tanto maior o acervo desses utensílios gramaticais. Alguns 
são legítimos conectivos: os intervocabulares, como, ocasionalmente, as con-
junções aditivas e, sempre, todas as preposições; e os interoracionais, como 
todas as conjunções, os pronomes relativos e os interrogativos indiretos. 
Outros seriam mais apropriadamente chamados palavras de referência: os 
pronomes em geral, certas partículas e, em determinadas situações, advér-
bios e locuções adverbiais. Em sentido mais amplo, até mesmo orações, 
períodos e parágrafos servem de transição no fluxo do pensamento. A uns 
e outros englobamos aqui na dupla designação de partículas de transição 
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística78
e palavras de referência, que, na sua maioria, têm valor anafórico (quando 
no texto relacionam o que se diz com o que se disse) ou catafórico (quando 
relacionam o que se diz ao que se vai dizer).Tal é a importância desses elementos, que muitas vezes todo o sentido de 
uma frase, parágrafo ou página inteira deles depende. Dois enunciados 
soltos, isto é, duas orações independentes e desconexas como “Joaquim 
Carapuça costuma vir ao Rio” e (ele) “Ganha muito dinheiro em São 
Paulo” assumem configuração muito diversa conforme seja a conexão que 
entre eles se estabeleça.
Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio (quando / enquanto / porque / se / 
e mbora) ganha/ganhe muito dinheiro em São Paulo.
 Atividades
1. Após consultar dicionários gerais ou de arte poética, explique o significado das figu-
ras de linguagem anáfora, epanáfora, epífora e epístrofe, dando exemplo.
2. Leia atentamente o parágrafo abaixo e escolha uma forma expressiva de preencher 
as lacunas frasais. Justifique sua escolha.
 Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Horizonte, 
na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma pa-
lha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, como a 
sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Assim, para manter as aparên-
cias, Telma prefere não dar chance para que ______________ encha de novo a cabeça 
______________ chamando-a de parasita, ou coisa que o valha.
3. “A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das bainhas 
das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastravam-se na 
roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome 
e descobriam entre as árvores cenas irreais.” (RAMOS, 1975, p. 174)
 Sem considerar o caso da expressão comparativa introduzida pelo conectivo “como”, o 
período de Graciliano Ramos, em Angústia, é composto por seis orações independentes.
 Parafraseie o fragmento acima (em um ou dois períodos) evitando orações coorde-
nadas e, depois, compare sua paráfrase com a versão original comentando a expres-
sividade de ambas.
Estilística sintática – II
Semântica e estilística
5
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 Resolução 
1. Anáfora – repetição de uma ou mais palavras no princípio de dois ou mais segmen-
tos sintáticos ou poéticos sucessivos.
 Exemplos: 
 “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” (Tom Jobim) 
 “Sonharei em Mariana, / sonharei no trem de ferro, / sonharei no acaba-mundo.” 
(Alphonsus de Guimaraens Filho)
 Epanáfora – tipo de anáfora que ocorre quando a repetição se dá no início de parágrafos 
ou estrofes sucessivas. Para alguns autores, epanáfora e anáfora são termos sinônimos.
 Exemplos:
 [“Tragédia no Mar”, que faz parte do poema O Navio Negreiro, de Castro Alves, tem 
suas quatro primeiras estrofes iniciadas pela expressão “‘Stamos em pleno mar”]
 [A letra da música “Construção”, de Chico Buarque, repete o início de cada um dos 
versos da primeira estrofe nas estrofes subsequentes, alterando apenas as palavras 
finais dos versos]
 Epífora – repetição de uma ou mais palavras no final de dois ou mais segmentos 
sintáticos ou poéticos sucessivos.
 Exemplos: 
 “Ninguém se lembra de nada. Estrelas ermas na altura, se brilham, não dizem nada.” 
(Emílio Moura)
 “A noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a 
utopia / e tudo acabou.” (Carlos Drummond de Andrade)
 Epístrofe – tipo de epífora que ocorre quando a repetição do termo ou expressão se 
dá em toda a estrofe ou em muitos segmentos sintáticos sucessivos. Para alguns au-
tores, epístrofe e epífora são termos sinônimos.
 Exemplos:
 “Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! de um sol assim!” (Olavo Bilac)
Estilística sintática – II5
Semântica e estilística80
 “Talvez isto realmente se desse... / Verdadeiramente se desse... / Sim, carnalmente se 
desse...” (Fernando Pessoa)
2. As sugestões são: na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” ou “Dona Maria”; na 
segunda lacuna, “de Anselmo” ou “do filho”.
 Na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” substitui perfeitamente a palavra “so-
gra” (empregada duas linhas antes) e evita uma repetição viciosa. A opção por “Dona 
Maria” também seria adequada, pois o contexto da segunda lacuna identificaria sem 
dúvida a que personagem se referiria. 
 Na segunda lacuna, “do filho” parece-nos mais conveniente do que a locução “de 
Anselmo”, embora aqui não esteja caracterizada a repetição viciosa porque a outra 
ocorrência de “Anselmo” está distante, no início do parágrafo.
 Em ambos os casos, porém, o redator teve de se valer de seu vocabulário pessoal 
para buscar os sinônimos adequados às suas necessidades e às do texto.
3. Eis uma reescritura possível:
 A gravata enrolava-se parecendo uma corda colocada por cima da camisa rasgada e 
suja, ao mesmo tempo em que apareciam fiapos nas bainhas das calças e nos cotove-
los puídos. A roupa estava cada vez mais empoeirada, combinando com a sola gasta 
dos sapatos e com o que fazia a fome com os meus olhos, que descobriam, entre as 
árvores, cenas irreais. [Dois períodos com orações apenas dependentes].
 O comentário, com essa reescritura, deve destacar que as duas redações são expres-
sivas, mas que há mais força descritiva no texto original do que na nova redação. A 
sucessão de orações independentes dá equilíbrio às imagens fortes e arrastadas que 
o narrador quis retratar.
Semântica e estilística 81
6
Estilística da enunciação
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos enunciativos no 
estudo estilístico da língua portuguesa. 
As definições de enunciado e enunciação variam muito, conforme o autor ou a cor-
rente de estudos a que está filiado. Basicamente, podemos dizer que a concepção que 
se faz dessas palavras oscila entre o ponto de vista discursivo e o ponto de vista lin-
guístico, mas que ambas são conciliáveis.
Sob o enfoque discursivo, a enunciação está vinculada ao contexto em seus incontá-
veis aspectos sociais e psicológicos. Sob o enfoque linguístico, indica o conjunto de ações 
que o emissor pratica para construir e produzir um enunciado, e este se define como 
uma “unidade de comunicação elementar, uma sequência verbal investida de sentido 
e sintaticamente completa” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 196), ou seja, 
um “fragmento de fala marcado de algum modo como unidade; por exemplo, por meio 
de pausas e pela entonação” (TRASK, 2004, p. 92), para ficarmos com definições que 
atendem a nossos objetivos aqui.
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística82
6.1 Adequação sintática e adequação semântica 
Chamamos adequação sintática a construção coerente de períodos e orações, observadas 
as relações existentes entre seus termos e a sua organização. A inadequação sintática pode 
gerar desde dificuldades localizadas de compreensão até a completa ausência de sentido. A 
esse vício de linguagem dá-se o nome de obscuridade.
A adequação semântica ocorre quando um texto demonstra competência na argumen-
tação (ou na descrição ou na narração ou na interpretação), evidenciada por seu autor a 
partir de uma seleção de opiniões, dados e fatos fundamentados no seu conhecimento de 
mundo. Mas é sempre oportuno lembrar que, embora recomendáveis para as situações re-
ferenciais da vida comum, os paralelismos semântico e sintático podem ser quebrados com 
arte e criatividade. É o que Thais Nicoleti de Camargo (2002) comenta no artigo “Falta de 
paralelismo semântico cria efeito de estilo”:
Preservar o paralelismo semântico é tão importante quanto preservar o paralelis-
mo sintático. Mas, na pena de um bom escritor, a quebra da simetria semântica 
pode resultar em curiosos efeitos de estilo. Não foi outra coisa o que fez Machado 
de Assis no conhecido trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que, irônica 
e amargamente, o narrador diz: “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos 
de réis”. No mesmo livro: “antes cair das nuvens que de um terceiro andar”.
O uso desse artifícioparece ser uma das marcas Estilísticas do autor. Na abertura de Dom 
Casmurro, o narrador diz: “encontrei um rapaz, que eu conheço de vista e de chapéu”.
No conto “O Enfermeiro”, ao anunciar que vai relatar um episódio, o narrador 
adverte que poderia contar sua vida inteira, “mas para isso era preciso tempo, 
ânimo e papel”. O elemento “papel”, disposto nessa sequência, surpreende o 
leitor e instala o discurso irônico. Ter ou não papel para escrever é algo prosai-
co. A falta de ânimo, um problema pessoal, está em outro patamar semântico. 
(CAMARGO, 2002)
Não foi o que aconteceu com a manchete de jornal ou com a placa do salão de beleza 
que estão reproduzidas a seguir. Ambas esbarram na falta de paralelismo, pois a escolha 
sintática não representa a intenção comunicativa, que só é compreendida porque o leitor 
reinterpreta o que vê para constituir a adequação inexistente no enunciado.
Figura 1 – Missa pela febre? Ou “Papa tem febre e cancela missa?”
Fonte: Divulgação Folha de São Paulo.
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
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No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 17-19) exem-
plifico os problemas de inadequação a partir do trecho de um anúncio publicado na Folha de 
S. Paulo em 17 de junho de 1998. Vale aqui repassar meus comentários.
Figura 2 – Exemplo de inadequação sintática e semântica.
JOSÉ DA PENHA SANTOS, depois 
de ter ultrapassado o pórtico de um sé-
culo de idade, no próximo dia 18 de ju-
nho, 98, a partir das 18h30, na LIVRARIA 
CULTURA, Av. Paulista, 2073, Conjunto 
Nacional, a quem o honrar com a sua pre-
sença, dará autógrafos da 4.a edição de 
CONHECIMENTO E VENTURA, muito 
ampliada, pois se a 3.a edição tinha 526 
páginas, tem esta 860 e 4 278 pensamentos 
dos maiores homens de todos os tempos.
Propagar esta obra, não é por vaida-
de do autor, mas cumpre o sagrado de-
ver de levar a desencantados corações o 
encanto de viver, conforme afirma o emi-
nente economista HENRY MAKSOUD: 
“O livro Conhecimento e Ventura está 
entre aqueles que se deve ter à mão como 
recurso nos momentos em que falta a es-
perança e os problemas parecem intrans-
poníveis. José da Penha Santos nos ofere-
ce a ponte sólida e amiga”.
Jornal
Fonte: Henriques (2008a, p. 17-19).
É claro que o objetivo principal do anúncio é o aviso sobre o lançamento de um livro. 
No entanto, suas múltiplas inadequações sintáticas, ainda que não impeçam a compreensão 
dos dados objetivos sobre local, data, horário, poderão comprometer o comparecimento do 
público ao evento e até mesmo a vendagem do livro anunciado. Afinal, se o anúncio tem tan-
tos problemas textuais, não será de estranhar que o livro citado (substituíram-se os nomes 
do livro e do autor) esteja no mesmo nível.
Vejamos alguns dos “problemas” sintáticos do texto:
• Há quase 40 palavras entre o sujeito “José da P. Santos” e o predicado “dará autó-
grafos”. Esse distanciamento tira a objetividade do trecho e prejudica a compreen-
são da mensagem.
• A sequência antecipada de expressões entre vírgulas nesse mesmo trecho é inade-
quada, pois mistura elementos de função diferente, a saber:
 ◦ “depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade” refere-se ao 
sujeito, mas a data que vem a seguir não é a do seu aniversário;
 ◦ a cadeia “no próximo dia 18 de junho, 98”, “a partir das 18h30” e “na LIVRARIA 
CULTURA” refere-se circunstancialmente ao sintagma “dará autógrafos”, e o 
número 98 entre vírgulas é supérfluo pois o texto já usara “próximo dia 18 de 
junho” (de 1998 – é claro!);
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística84
 ◦ “Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional” identifica uma circunstância de 
“Livraria Cultura”, por meio da ideia implícita de localização;
 ◦ “a quem o honrar com a sua presença” complementa o verbo “dar”.
• A expressão causal “pois se a edição [...] de todos os tempos”, que encerra o pri-
meiro parágrafo, é mal construída porque:
 ◦ o sujeito (com a palavra “edição” subentendida) está depois do verbo e há 
dois numerais seguidos (o primeiro com a palavra “páginas” subentendida);
 ◦ entre a palavra “pois” e o restante da expressão causal foi inserida uma oração 
condicional com apenas a vírgula da direita (toda inversão de oração circuns-
tancial deve ser marcada por duas vírgulas).
• O segundo parágrafo começa com três erros graves, a saber:
 ◦ a vírgula entre o sujeito “propagar esta obra” e o seu predicado “não é”;
 ◦ o emprego desnecessário da preposição “por” (o correto seria: “propagar esta 
obra não é vaidade do autor”);
 ◦ a oração adversativa “mas cumpre o sagrado dever [...]” não dá sequência ao trecho 
anterior (ou seja: propagar esta obra não é vaidade – verbo de ligação + substantivo 
–, mas cumpre – verbo transitivo?) = a coesão se daria se estivesse assim: “propagar 
esta obra não é vaidade do autor, mas é o cumprimento do sagrado dever de”.
Ora, se o redator do anúncio tivesse observado a ordem das palavras nas frases e consi-
derado a hierarquização das informações, teria produzido um texto mais objetivo e claro. Um 
dos resultados, procurando ao máximo respeitar as escolhas lexicais do original, poderia ser:
Figura 3 – Versão adequada sintática e semanticamente.
Depois de ter ultrapassado o pór-
tico de um século de idade, José da 
PENHA SANTOS dará autógrafos da 
4.a edição de CONHECIMENTO E 
VENTURA a partir das 18h30 do pró-
ximo dia 18 de junho, na LIVRARIA 
CULTURA (Av. Paulista, 2073, Conjunto 
Nacional), a quem o honrar com a sua 
presença. Muito ampliada, tem esta edi-
ção 860 páginas e 4 278 pensamentos dos 
maiores homens de todos os tempos, en-
quanto a 3.a tinha 526 páginas.
Propagar esta obra não é vaidade 
do autor, mas o cumprimento do sagrado 
dever de levar a desencantados corações o 
encanto de viver, conforme afirma o emi-
nente economista HENRY MAKSOUD: 
“O livro Conhecimento e Ventura está 
entre aqueles que se deve ter à mão como 
recurso nos momentos em que falta a es-
perança e os problemas parecem intrans-
poníveis. José da Penha Santos nos oferece 
a ponte sólida e amiga”.
Jornal
Fonte: Henriques (2008a, p. 17-19).
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
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Assim, falar em adequação sintática significa falar em “bom senso e critério nas escolhas 
sintáticas”, tanto no âmbito da frase como no âmbito do parágrafo e do texto. 
Fica evidente que a chamada adequação sintática é um instrumento em favor da adequa-
ção semântica, que outra coisa não é senão a realização coerente do que se pretende dizer. 
Por isso concordamos com Carlos Franchi (2006, p. 102) quando afirma que “a teoria gra-
matical visa a estabelecer a relação entre a forma das expressões e sua significação”, ou seja, 
que é necessário “mostrar as correlações entre a estrutura sintática e a estrutura semântica”.
6.2 As pessoas do discurso e 
as pessoas gramaticais 
Entre os temas que envolvem a produção de um texto, precisamos incluir as decisões a 
respeito da forma linguística a ser usada nas referências à pessoa que escreve e também, se 
for o caso, às pessoas que a circundam no texto. Numa das hipóteses, o texto tem um leitor, 
um destinatário a quem o emissor se refere nos enunciados: uma carta, uma convocação, 
uma circular, por exemplo. Noutra das hipóteses, o texto menciona pessoas (ou seres) em 
seus enunciados e apresenta relatos ou considerações acerca das ações praticadas por essas 
pessoas (ou seres): um relatório, uma ata, um conto, uma novela, por exemplo.
Por isso, o entendimento e o estudo dos mecanismos que giram em torno das “pessoas”, 
tanto no campo do discurso como no campo da gramática, são fundamentais para seguir-
mos na interpretação estilística dos textos.
Todo texto emerge de um gênero e de um tipo de discurso, e a complexidade da cena 
de enunciação, nesse caso, deve ser igualmente considerada,pois as várias facetas do “eu” 
enunciador podem agir com complexidade na articulação entre o plano linguístico (as frases 
propriamente ditas) e o plano textual.
Como diz Benveniste (1991, p. 248), é preciso procurar saber “como cada pessoa se 
opõe ao conjunto das outras e sobre que princípio se funda a sua oposição”, tendo em vista 
que não podemos chegar a elas a não ser pelo que as diferencia. E isso vale, obviamente, 
nas escolhas específicas que fazemos de verbos, pronomes, advérbios – em suma, todas as 
palavras que representam no âmbito da frase concretamente dita ou escrita as pessoas e 
coisas do mundo. Sim, porque as coisas também são representadas por pronomes pessoais 
(a caneta = ela) e por pessoas verbais (a caneta quebra = P3, 3.a p.sg.).
Resumidamente, os dois quadros abaixo mostram como isso funciona no português.
Quadro 1– Pessoas do discurso e pessoas gramaticais.
Pessoas do discurso (e seus pronomes de referência)
1.a → quem fala = eu e nós (a gente*)
2.a → com quem se fala = tu e vós (você* e vocês*)...
3.a → de quem(que) se fala = ele, ela e eles e elas...
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística86
Pessoas gramaticais
1.a pessoa do singular (P1) e do plural (P4)
2.a pessoa do singular (P2) e do plural (P5)
3.a pessoa do singular (P3) e do plural (P6)
Obs.: “a gente” leva o verbo à P3; “você” e “vo-
cês” levam o verbo à P3 ou à P6.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Nas combinações entre os dois quadros, é preciso observar bem o que ocorre com os 
pronomes pessoais e, consequentemente, com as demais classes envolvidas (verbos e prono-
mes possessivos, demonstrativos). Nunca é demais repetir que os usos linguísticos variam 
com o tempo, o espaço e a situação comunicativa, mas isso não significa a defesa da subver-
são do normativismo, e sim sua atualização, como diz Carlos Alberto Faraco (2006, p. 26):
A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns 
desavisados, o abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma-padrão. 
Refletir sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social é ativi-
dade auxiliar indispensável para o domínio da fala e da escrita. E conhecer a 
norma-padrão é parte integrante do amadurecimento das nossas competências 
linguístico-culturais.
Portanto, não se pode deixar de considerar algumas informações essenciais quanto aos 
usos das “pessoas” em enunciados.
A primeira delas é sobre a escolha entre os pronomes “tu” e “você(s)”, que pode ser de-
terminada pela noção afetiva de proximidade ou intimidade entre emissor e destinatário. O 
tratamento de 2.a pessoa mais usual no território brasileiro é “você”; em Portugal predomina 
o tratamento “tu”. Porém, em áreas não bem delimitadas do Sul e Norte do país, o pronome 
“tu” também tem uso corrente. Além disso, pode ser identificado como marca sociodialetal. 
1. “Você passa e não me olha, mas eu olho pra você.”
2. “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa.”
Nas regiões do Brasil onde o pronome “tu” está em desuso, emprega-se o pronome de 
tratamento “você” no trato com pessoas de nível hierárquico igual ou inferior ou com jovens 
e crianças; para o tratamento formal ou respeitoso usam-se formas como “o(s) senhor(es)”, 
“a(s) senhora(s)”.
3. “Você está convidado a comparecer e vibrar com nossos atletas.”
4. “Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar.”
A segunda é sobre o pronome “você”, que se refere à segunda pessoa do discurso, mas leva 
o verbo à terceira pessoa, divergindo da concordância que se faz com o pronome “tu”, que leva 
o verbo à segunda pessoa (embora na língua popular ambos levem o verbo à P3). Há, ainda, 
sobretudo no registro oral, o emprego do pronome “você” com valor indefinido, quando não se 
refere à pessoa com quem se fala, mas a um ser indefinido, genérico (= qualquer pessoa).
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
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5. “Você se lembra? Foi isso mesmo que se deu comigo.”
6. “Morena linda, onde é que tu tava, onde é que tava tu?”
7. “Pois é! Quando você (= uma pessoa, se) perde o emprego, tudo fica difícil.” 
A terceira é sobre o pronome “vós”, que nos dias de hoje é pouco usado tanto no Brasil 
quanto em Portugal, estando restrito a situações de extremo formalismo, ou à linguagem religio-
sa (8), quando se refere a Deus ou a Nossa Senhora. No entanto, o possessivo “vosso” continua 
em uso na linguagem corrente lusitana (9) e se refere à segunda pessoa (= “seu”, “de você”).
8. “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.”
9. “Então, como está o vosso sobrinho?”
A quarta é sobre os pronomes de tratamento mais formais (Vossa Senhoria, Vossa 
Excelência), que podem ser construídos com “Vossa” (abreviatura: V.) e com “Sua” (abre-
viatura: S.): na forma “Vossa+Nome” se refere a “com quem se fala”; “Sua+Nome”, a “de 
quem se fala”. O pronome de tratamento exige verbo e pronome na P3, bem como silepse de 
gênero com o adjetivo e o particípio, como temos em (10) e (11).
10. Prezado cliente, V.S.a foi indicado a participar da promoção...
11. Sr. Ministro, V.Ex.a está apreensivo? 
A última é sobre o pronome de tratamento “a gente”, exclusivo da linguagem informal 
brasileira (12).
12. “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer.”
Na linguagem formal é obrigatória a uniformidade de tratamento, mas em textos literá-
rios, musicais, jornalísticos nem sempre isso acontece. 
13. Eu gostaria de falar contigo (P2) ainda hoje. Você (P3) pode me esperar?
14. Vem (P2) pra Caixa você (P3) também.
15. A gente (P3) sempre acha que a nossa (P4) casa é o melhor lugar.
Recomenda-se, então, que essas informações sejam devidamente consideradas pelo 
usuário da língua sempre que a situação comunicativa assim o exigir. Isso certamente in-
cluirá uma apurada revisão do emprego de verbos no imperativo e dos pronomes oblíquos 
(átonos e tônicos), em especial os da P3 e P6: o, a, os, as, lhe, lhes e si, consigo.
6.3 Tipos de discurso 
Como destaca Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 122), um dos assuntos mais importantes 
para os estudos da Estilística da enunciação “é o da intertextualidade, do aproveitamento ou 
citação de enunciados por um falante”. Ela e muitos outros autores têm se dedicado a observar 
as maneiras e os efeitos que ocorrem quando um discurso inclui “de forma explícita ou implí-
cita, perceptível ou velada, palavras, expressões, enunciados tomados a outros discursos”. O 
tema da intertextualidade se conecta com o da polifonia. Não é o caso de enveredarmos aqui e 
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística88
agora por esses dois temas, bastando-nos lembrar que ambos se referem às possíveis combi-
nações que podem ser feitas entre textos e entre vozes. 
Por conta dessas combinações, uma característica muito comum nos textos é a possibi-
lidade de um mesmo enunciado ser reproduzido, reduplicado entre os usuários da língua. 
“Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz o provérbio. Com essa citação, não apenas 
reexplico o que está na primeira frase deste parágrafo, mas também a tomo como exemplo 
de um uso intertextual concreto. Afinal, esse provérbio não foi criado por mim, que apenas 
o incorporei ao texto por razões didáticas discursivas.
Ao nos referirmos a outros locutores e a seus enunciados, podemos usar os procedi-
mentos disfarçados de reprodução de vozes, opiniões, sentidos que pairam no imaginário 
da sociedade (é o que se chama polifonia), mas também podemos ter a pretensão de repro-
duzir o que foi dito – pelo menos é isso que se presume. A língua oferece modos concretos 
de se fazer isso, e seu estudo acontece no capítulo que fala do discurso direto e do discurso 
indireto, os quais serão explicados a partir de um texto de Millôr Fernandes (1972, p. 196), 
abaixo reproduzido.
Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, 
conta-se aqui uma história altamentemoral sobre a inutilidade da primeira en-
quanto se economiza o segundo.
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do 
seu negócio: “Nesta casa se vende ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou 
ao pintor que bolasse uma figura, qualquer alegoria referente ao ramo. E per-
guntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros. Cinquenta 
mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais des-
valorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não 
vale, disse então o negociante. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em 
sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir 
um pouco? arriscou o negociante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir 
a figura e os dizeres. Como assim? disse o negociante. Olha, explicou o pintor, 
pra começo de conversa, não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o 
senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não 
é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave 
faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o 
negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora, também 
não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: Se vende ovos 
frescos já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa do lado, não 
é mesmo? Certíssimo! exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por 
que colocar Se vende? Se o freguês potencial lê Ovos Frescos já sabe que se vende. 
Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos 
ou apenas para expô-los, right? É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. 
Quanto aos Frescos, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de 
boa psicologia usar essa palavra. Frescos lembra sempre a hipótese contrária, a 
de ovos velhos. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de 
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
6
89
que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também 
o frescos! Certíssimo! berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado 
com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas ovos. Por favor, desenhe aí 
só essa palavra, bem bonita, bem clara: ovos! Só ovos, ovos tout-court, ovos em si 
mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu ini-
mitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o 
pincel voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, 
amigo – pensando bem, por que vender ovos?
Em Comunicação em Prosa Moderna (1988, p. 129-151), Othon M. Garcia apresenta minucio-
so estudo sobre o aproveitamento ou citação de enunciados, que acontece quando retransmi-
timos o pensamento expresso por outra pessoa (real ou fictícia). Nesse caso, o narrador pode 
servir-se do discurso direto ou do discurso indireto, e, às vezes, de uma contaminação de ambos, 
o chamado discurso indireto livre (também chamado misto ou semi-indireto).
Aqui, combinaremos alguns dos ensinamentos da obra de Garcia com passagens da 
crônica transcrita, interpretando a expressividade de cada construção. Millôr conta uma his-
tória que envolve um vendedor de ovos e um pintor de placas. Para contá-la, o cronista nos 
apresenta como se passou o diálogo entre ambos. 
Observa-se na crônica uma interessante variação no uso das formas básicas de reprodu-
ção da fala (nesse caso, dos dois personagens). Millôr recorre ao discurso direto (a oratio recta 
do latim) para reproduzir textualmente as palavras (a fala) dos dois profissionais:
16a. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante.
17a. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor.
Porém, contrabalança essa possibilidade com a do discurso indireto (a oratio obliqua do 
latim), incorporando na sua linguagem a fala dos personagens, transmitindo-nos apenas a 
essência do pensamento a eles atribuído:
18a. E perguntou quanto era.
19a. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros.
A título de comparação, vejamos de novo essas quatro frases empregando os discursos 
direto e indireto de modo invertido:
16b. O negociante indagou de que natureza eram os cinquenta mil.
17b. O pintor disse que eram cinquenta mil cruzeiros.
18b. E perguntou: Quanto é?
19b. O pintor disse: Ficará em 50.000 cruzeiros.
Para construir ambos os discursos, Millôr fez uso de verbos que constituem o núcleo 
do predicado da oração principal (disse, perguntou, indagou), aquela que explicita no nível 
do enunciado a integralidade da estrutura sintática. Esses verbos são chamados verbos de 
elocução, dicendi ou declarandi, e sua principal função é indicar que o interlocutor está com a 
palavra (na crônica de Millôr, o negociante ou o pintor).
Mas, além desses, há uma classe bastante numerosa de verbos de elocução, que não 
são propriamente “de dizer” mas “de sentir”, e que, por analogia, podem ser chamados 
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística90
sentiendi: gemer, suspirar, lamentar(-se), queixar-se, explodir, encavacar, e outros, que ex-
pressam estado de espírito, reação psicológica da personagem, emoções, enfim. Na crônica, 
Millôr também os empregou (arriscar = dizer com receio / espantar-se = dizer com espanto):
20. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante.
21. É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante.
O curioso é que, embora possamos considerar que a lista de verbos dicendi do português 
está praticamente fechada (Garcia aponta nove áreas semânticas para eles), a relação de ver-
bos sentiendi não tem limite, aberta à criatividade do escritor e do falante, metafórica e me-
tonimicamente, como vemos na linguagem contemporânea, onde alfinetar, destilar, tricotar é 
o mesmo que “dizer com maldade” (e variantes), festejar é “dizer com alegria”, contabilizar 
é o mesmo que “dizer com números”. 
Uma outra função dos verbos dicendi é permitir a utilização de expressões modalizadoras 
(adverbiais ou predicativas) e de orações adverbiais (quase sempre reduzidas de gerúndio) com 
as quais o narrador sublinha a fala das personagens, anotando-lhes a reação física ou psíquica. 
22. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda 
mais desvalorizada do que o cruzeiro.
23. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em 
sua economia.
24. Quanto aos “frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa 
psicologia usar essa palavra.
Convenhamos também que a reprodução de uma conversa, se tivesse todas as suas 
falas marcadas pela presença explícita de verbos de elocução, ficaria cansativa para o leitor. 
Por isso, é uma prática comum omiti-los nas falas curtas entre apenas dois interlocutores, 
desde que a disposição gráfica do texto o permita. Millôr optou por não usar parágrafos e 
travessões para separar as falas e preferiu colocar a oração do verbo de elocução no fim da 
fala ou no meio dela. Por isso, sua crônica registra um altíssimo número de verbos dicendi, 
característica que ficaria minimizada se as frases fossem apresentadas num formato mais 
convencional, como mostra o trecho abaixo, com parágrafos e travessões. No formato que 
vemos em (25), não haveria problema se todas as orações com o verbo “dizer” fossem su-
primidas, pois a alternância indicada pelos travessões bastaria para que soubéssemos quem 
está com a palavra.
25.
— Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda 
mais desvalorizada do que o cruzeiro.
— Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. 
— Ah, não vale, disse então o negociante. 
— Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em 
sua economia. 
— O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. 
— Claro que posso, disse o pintor, possoreduzir a figura e os dizeres.
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
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— Como assim? disse o negociante. 
— Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar figura ne-
nhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha 
pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave 
faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. 
— É certo, concordou o negociante. 
— Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos.
Como já se pôde depreender por estas explicações, as opções pelo discurso direto ou 
pelo indireto representam também compromissos com a escolha de palavras, com a ade-
quação sintática e com as formas gramaticais a serem empregadas (que incluem a conjunção 
integrante como o conectivo prototípico). Os tempos verbais, os advérbios de tempo ou 
de lugar, as pessoas gramaticais e do discurso, tudo está envolvido na escrita da fala que 
se quer reproduzir. Se voltarmos às frases (19a) e (19b), veremos que o discurso indireto 
levou ao futuro do pretérito o verbo que, no discurso direto, estava no futuro do presente. 
Expandindo-se essa mesma frase, podemos concluir mais algumas coisas a respeito dessas 
mudanças gramaticais.
26. DD: O pintor disse: “Essa placa custará, hoje, 50.000 cruzeiros”.
27. DI: O pintor disse que aquela placa custaria, naquele dia, 50.000 cruzeiros.
Além da variedade de possibilidades quanto ao uso do discurso direto e do discurso in-
direto, há ainda um tipo de discurso, muito utilizado na narrativa de ficção, que consiste na 
associação dos já existentes, combinando valores estilísticos de um e de outro. É o discurso 
indireto livre, no qual o enunciado reproduzido não é introduzido por um verbo de elocu-
ção nem por uma conjunção integrante, misturando-se às vezes com a palavra do próprio 
narrador, o que permite ao autor explorar os recursos psicológicos no trato da narrativa.
Mattoso Câmara Jr. faz um estudo primoroso sobre esse tipo de discurso no arti-
go “O Discurso Indireto Livre em Machado de Assis”, publicado em Ensaios Machadianos 
(1977, p. 25-41). Diz o autor: “O traço mais curioso desse tipo sintático é que ele conserva 
as interrogações sob a sua forma originária” (p. 29), embora mantenha as transposições 
gramaticais típicas do discurso indireto estrito. E acrescenta que o discurso indireto livre 
não reduz as interrogações “a uma incolor forma assertiva” e mantém “as exclamações e a 
espontânea reprodução de palavras e locuções do personagem”, como mostra um trecho 
de Machado em Dom Casmurro (1971, p. 826):
Minha mãe foi achá-lo à beira do poço e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice 
era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação 
menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de 
família, imitar a mulher e a filha...
O comentário estilístico de Mattoso Câmara (1977, p. 29), que aqui resumimos, destaca 
a série que começa no segundo período, onde se tem, em discurso indireto livre, um apanha-
do de palavras da mãe do narrador, D. Glória, cujo assunto fora sintetizado pelo romancista 
na oração integrante anterior (“intimou-lhe que vivesse”). Surge aí diante do leitor uma 
interrogação exclamativa e a locução textual “Não, senhor [...]”, apresentada com unidade 
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística92
no todo da frase, porque o discurso indireto livre, ao contrário daquele em que há elo subor-
dinativo, mantém espontaneamente os elementos afetivos do discurso.
Tem razão Mattoso ao falar dos elementos espontâneos do discurso. Imagine-se como 
transferir do discurso direto para o indireto uma frase como “Caramba!” ou “Valha-me Deus!” 
– de tão difícil transporte como o peremptório “Não, senhor [...]” do trecho machadiano.
O discurso indireto livre (não apenas na linguagem ficcional, mas sobretudo nela) dá 
mais espaço ao personagem, que parece ocupar por vezes o lugar do narrador. Daí surgem 
outras formas de escritura, que abrem caminho para o monólogo interior, para o monólogo 
entrecruzado e para o fluxo da consciência, tudo envolvendo de que forma e em que grau 
acontece a participação da voz do personagem ou (em textos jornalísticos mistos) dos seres 
reais que nos circundam na vida em sociedade.
Não se deixe de considerar por fim que, na combinação da frase do autor com a frase 
que ele quer reproduzir, é ele (o relatante) quem decide qual o verbo de elocução a usar 
(ou se vai omiti-lo). É ele, em última análise, quem escolhe as palavras que, supostamente, 
teriam sido proferidas pela pessoa relatada. Assim, se o porta-voz de um enunciado (o nar-
rador, o jornalista, o eu lírico, o remetente...) é quem nos apresenta a versão de um fato, não 
devemos nunca esquecer que aquela é apenas a sua versão, apresentada segundo sua manei-
ra de ver o mundo ou seus interesses particulares.
 Ampliando seus conhecimentos
Língua, discurso e texto 
(AZEREDO, 2007, p. 18-19)
A aptidão humana para a comunicação através de símbolos é condição 
indispensável à vida na dimensão cultural. A manifestação mais ampla e 
versátil dessa aptidão constitui o que chamamos de língua. A atividade 
comunicativa por meio de uma língua constitui o discurso. E os objetos por 
meio dos quais essa atividade se desenrola se chamam textos. É por meio de 
textos, básica e universalmente orais, mas em muitas sociedades também 
escritos, que os conteúdos ou informações circulam entre as pessoas.
Materialmente falando, os textos são entidades construídas por meio de 
palavras. Mas, quando chamamos um objeto verbal qualquer de texto, 
não levamos em consideração apenas sua face material, representada 
nas palavras e construções. Mais que isso, os textos são objetos linguís-
ticos investidos de função social no amplo e complexo jogo das intera-
ções humanas. Não são meros instrumentos, mas partes essenciais dos 
acontecimentos que dinamizam as relações sociais e fazem a história das 
sociedades, a própria face do relacionamento humano. Há uma íntima 
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
6
93
integração entre as funções sociocomunicativas dos textos e a respectiva 
formatação (gênero, modo de organização, registro, vocabulário, gramá-
tica). E mesmo a eventual supressão do discurso – o silêncio – não consti-
tui sua negação, mas uma de suas expressões.
Os conteúdos e informações veiculados nos textos têm um certo “valor 
interlocutivo” no mercado das trocas verbais. Esse valor interlocutivo 
lhes é conferido pelas coordenadas do contrato de comunicação vigente em 
cada evento interativo. Uma receita médica, por exemplo, detém em nossa 
sociedade um valor interlocutivo bem distinto do que comumente se atri-
bui a um horóscopo. O contrato de comunicação que rege cada um desses 
textos só confere o status de uma prescrição ao primeiro.
Certos textos são “caminhos de mão única”: o manual do Imposto de 
Renda, as instruções de uso de eletrodomésticos, as receitas médicas, as 
convenções de condomínio. Estes são, em geral, textos utilitários, de viés 
institucional ou normativo, típicos das práticas discursivas caracterizadas 
por uma assimetria dos papéis discursivos – e por consequência das prer-
rogativas de fala – desempenhados pelos interlocutores.
Outros textos, porém, têm “sentido flutuante”, de acordo com as expe-
riências e interesses das pessoas que se comunicam. Nesses casos, pode-
mos dizer que os sentidos não dependem apenas daquilo que a pessoa 
que fala ou escreve “quer ou tem a dizer”; eles tendem a ser elaborados 
numa espécie de negociação dialética entre o autor e o leitor. Essa hete-
rogênea classe de textos compreende as obras a que o leitor responde 
basicamente com a reflexão. São os textos “formadores”, que veiculam 
valores de toda ordem – estéticos, morais, místicos, ideológicos, etc. – eque inspiram ações por opção de seus leitores. Aí se incluem os textos de 
ficção, de opinião, humorísticos, filosóficos, os poemas.
Podemos ainda conceber uma terceira classe: a dos textos construídos com 
a finalidade explícita de criar ou influenciar comportamentos. É o caso 
do horóscopo. E também os textos publicitários e de propaganda, alguns 
textos religiosos, didáticos, as “correntes” e as “simpatias”. Esta catego-
ria abriga ainda textos como o do seguinte recado, que se vê afixado em 
tantas portas de garagem: “Entrada e saída de veículos.” A mensagem é 
apenas um disfarce para amenizar o verdadeiro recado: “Não estacione!”
Contribuir e atribuir sentido é a síntese do processo que chamamos de 
“interação humana” e que codificamos em sinais de toda espécie, como 
gestos, desenhos, cores, sons, palavras. Esse processo envolve múltiplos 
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística94
fatores de ordem afetiva, cultural, sociocultural, psicossocial e ideológica. 
Um dado, porém, é por si só evidente e embasa qualquer tentativa de 
compreender e explicar o evento comunicativo: a comunicação entre as 
pessoas se processa num contexto sociocomunicativo. Este não se resume 
no cenário físico e social objetivo, mas corresponde, principalmente, ao 
condicionamento mental ou psicológico que nos predispõe ao compor-
tamento discursivo adequado e pertinente. É claro que o cenário físico e 
social faz parte desse condicionamento, mas nem sempre é seu compo-
nente mais decisivo. O componente crucial é a imagem que os interlo-
cutores fazem um do outro, o papel social que cada um atribui ao outro 
enquanto atores do evento comunicativo em curso.
A atuação discursiva dos interlocutores no respectivo contexto socio-
comunicativo é necessariamente sensível, portanto, a um conjunto de 
convenções constitutivas do contrato de comunicação, segundo uma ter-
minologia já corrente. Este corresponde, em última análise, a um acordo, 
não necessariamente consciente, entre os interlocutores sobre cinco pontos: 1) 
os respectivos papéis sociointerativos, 2) as estratégias comunicativas a serem 
empregadas, 3) os conteúdos oportunos, 4) a variedade de língua utilizada e 5) 
as formas de discurso (tipos, gêneros e modos de organização) pertinentes.
 Atividades
1. Observe a letra da música “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo, e comente o 
tema “formas de tratamento” no português contemporâneo brasileiro.
 Em vez de você ficar pensando nele
 Em vez de você viver chorando por ele 
 Pense em mim, chore por mim 
 Liga pra mim, não liga pra ele, pra ele
 Não chore por ele
 Se lembre que eu há muito tempo te amo 
 Quero fazer você feliz 
 Vamos pegar o primeiro avião 
 Com destino à felicidade 
 A felicidade pra mim é você 
 Pense em mim, chore por mim 
 Liga pra mim (etc.)
Estilística da enunciação
Semântica e estilística
6
95
2. Reescreva o trecho de Fernando Sabino (“Reunião de Mães”) empregando apenas o 
discurso indireto.
— Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos – em que turma você está? Na 
12 ou na 13?
— Na 14 – ele respondeu distraído. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra 
maneira, não era isso mesmo?
— Fico satisfeito de saber – comentei apenas.
Ele não perdeu tempo.
— Então eu queria te pedir um favor – aproveitou-se logo – Que você mandasse ao 
Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura. 
3. A notícia abaixo contém problemas textuais localizados, causados por algumas ina-
dequações sintáticas e semânticas. Reescreva-a de modo claro e adequado.
Notas de R$1,00 somem e os comerciantes reclamam das dificuldades na hora do 
troco e dos prejuízos nas vendas. Os comerciantes contam que moedas em geral 
e, principalmente as de um real, sumiram praticamente. A escassez de moedas 
também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos de real. “A nota 
de R$1,00 já estava faltando, mas as moedas resolviam o problema. Mas hoje as 
moedas estão sumindo também”, reclama Júlia Roberta, caixa de uma loja que 
fica no centro da cidade, de bolsas e acessórios. 
 Resolução 
1. Na letra da música, o eu lírico faz uma proposta à sua amada, que no discurso ocupa 
a posição da 2.a pessoa (com quem se fala). A letra, no entanto, emprega de modo irre-
gular as formas de tratamento de P2 e P3 gramaticais quando se refere a essa pessoa. 
Comprovam essa afirmação os pronomes “você” (4 ocorrências) e “te” (1 ocorrência) e 
os verbos no imperativo: pense, chore, não chore e (se) lembre (P3) e liga, não liga (P2) 
– embora o imperativo negativo não tenha a forma “não liga” na variante padrão. Essa 
flutuação é típica da oralidade do português brasileiro contemporâneo.
2. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original:
 Perguntei, ansioso, a meu filho, assim que saímos, em que turma ele está, se na 12 ou na 13. 
Ele me respondeu distraído que está na 14. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra ma-
neira, não era isso mesmo?
 Comentei apenas que ficava satisfeito de saber. Ele não perdeu tempo e logo se aproveitou 
para dizer que queria então me pedir um favor. Queria que eu mandasse ao Padre-Diretor um 
bilhete dizendo que ele não pode comer verdura. 
Estilística da enunciação6
Semântica e estilística96
3. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original:
 Notas de R$1,00 somem, e comerciantes reclamam das dificuldades no troco e dos prejuízos nas 
vendas. Eles contam que as moedas, em especial as de um real, praticamente sumiram. A escas-
sez também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos. “As notas de R$1,00 já 
estavam faltando, mas as moedas resolviam o problema. Hoje até elas estão sumindo”, reclama 
Júlia Roberta, caixa de uma loja de bolsas e acessórios que fica no centro da cidade.
Semântica e estilística 97
7
Semântica, a ciência das 
significações
Este capítulo tem por objetivo conceituar os termos significante e significado, apre-
sentar as principais correntes da Semântica e destacar a importância dos estudos 
semânticos para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa.
7.1 Significante e significado 
Para Bernard Pottier (1992, p. 11), a Semântica se preocupa com “mecanismos e ope-
rações relativos ao sentido, através do funcionamento das línguas naturais [...]”, ten-
tando “explicitar os elos que existem entre os comportamentos discursivos num dado 
envolvimento, constantemente renovado, e as representações mentais que parecem 
ser partilhadas pelos usuários das línguas naturais”. Essa reflexão traça um “percurso 
entre o individual e o universal, através do cultural” e procura conciliar “a extensão e 
a variedade das manifestações linguísticas e a necessidade de uma apresentação rela-
tivamente simples dos funcionamentos profundos da língua”.
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística98
Por esse motivo, podemos entender a Semântica como o estudo do significado das ex-
pressões das línguas naturais, para ficarmos com uma definição bem objetiva, escrita por 
Gennaro Chierchia (2003, p. vii). Todos os dias, nas situações mais comuns de nossas vidas, 
“praticamos” a semântica, pois sempre estamos buscando entender o significado de pala-
vras e de frases: a manchete de um jornal, o trecho de uma música, a fala de um personagem 
na novela, a gíria ou o xingamento que alguém disse perto de nós... 
Figura 1 – Língua e semântica.
Minha pátria é 
minha língua!
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
A Semântica examina como funciona o sistema de signos empregado pelas pessoas de 
uma comunidade idiomática para se comunicar. O signo linguístico é a associação conven-
cional de uma palavra ou expressão (a que chamaremos significante) com o seu valor comu-
nicativo (a que chamaremos significado).
Experimentemos juntaros pares de significante + significado dos grupos abaixo e vere-
mos que só é possível completar as tabelas quando conseguimos estabelecer os elos signifi-
cativos entre as duas colunas.
Quadro 1– Significante e significado.
Grupo I:
Significante é um... Significado
Ronaldinho Gaúcho cantor de MPB
Raimundo Fagner linguista brasileiro
William Bonner jogador de futebol
Mattoso Câmara apresentador de telejornal
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
99
Grupo II:
Significante é um... Significado
Aldo Boaventura Lins ??????????
Percival Dias Lopes ??????????
Igor Resende Gomes ??????????
Manuel Abel de Lima ??????????
Grupo III:
Significado é um... Significado
?????????? lutador de caratê
?????????? cineasta português
?????????? dono da cantina da escola
?????????? patrão do seu marido
Fonte: Elaborado pelo autor.
Se não sabemos qual o significado ou se não reconhecemos qual o significante, não po-
demos compreender o signo linguístico. Quando isso acontece, não podemos participar do 
processo de comunicação, pois não sabemos do que ou de quem se está falando.
7.2 Principais correntes da Semântica 
Maria Helena Marques (1990, p. 7) diz no primeiro parágrafo de seu livro Iniciação à Semântica:
A semântica é um dos domínios da linguagem que tem apresentado sérias di-
ficuldades para a investigação científica. Essas dificuldades estão intimamen-
te ligadas à amplitude e à complexidade inerentes aos fenômenos relativos ao 
significado e decorrem do tipo de tratamento que a semântica tem recebido nos 
estudos linguísticos.
A reflexão evidencia o que ela mesma chama de “pluralidade e diversidade das diretri-
zes teóricas e metodológicas propostas para o tratamento do significado” (p. 8). Talvez seja 
isso uma consequência natural da busca de atribuir à palavra significado uma explicação 
“científica” que dê conta de sua importância na faculdade humana da linguagem. Revela, 
por outro lado, a indiscutível necessidade de examinar os mecanismos gramaticais das lín-
guas e suas relações com os processos semânticos de veiculação do sentido.
Pode-se atribuir a Michel Bréal o emprego da palavra “semântica” como “ciência das sig-
nificações”. É dele um artigo publicado em 1883, no qual se lê (apud MARQUES, 1990, p. 33):
O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a re-
ceber um nome. A preocupação da maioria dos linguistas tem-se voltado sobretudo 
para a análise do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de 
sentidos, à escolha de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram 
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística100
deixadas à margem ou apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do 
mesmo modo que a fonética e a morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos 
semântica (do verbo semaínein), isto é, a ciência das significações. 
Bréal toca no ponto essencial dos interesses da Semântica, pois fala de estudos que ana-
lisam “o corpo e a forma das palavras” (estes não são semânticos) e de estudos cuja preocu-
pação seja com a “alteração dos sentidos”, a “escolha de novas expressões”, o “nascimento 
e a morte das locuções” (estes são semânticos). O termo generalizou-se e foi amplamente 
difundido, tendo sido utilizado pela primeira vez no Brasil num livro de Manuel Pacheco 
Silva Jr., publicado em 1903, Noções de Semântica. 
Os estudos semânticos tiveram, como não poderia deixar de ser, repercussões em tra-
balhos realizados por especialistas do campo da estilística, da etimologia, da sintaxe – e 
de muitos outros, como da pragmática e da análise do discurso. Não é exagero dizer que a 
visão dos estruturalistas teve grande influência sobre os rumos que a semântica seguiu após 
a divulgação, na primeira metade do século passado, das ideias de Ferdinand de Saussure 
(a partir de 1906, na França) e Leonard Bloomfield (a partir de1914, nos Estados Unidos).
Saussure propõe que se investigue a maneira como, em determinado ponto do tempo, 
as formas e os sentidos estão inter-relacionados num determinado sistema linguístico. Ele 
define a tarefa da linguística como o estudo de signos por meio dos quais se exprimem 
ideias. Dentre os princípios que defende podemos citar:
• A distinção entre língua (langue) e fala (parole):
A língua é um produto social, um conjunto de convenções.
A fala é o uso individual, concreto.
• A conceituação de língua como um sistema de relações:
A língua é um sistema de signos que se relacionam e cujos valores de-
pendem da coexistência entre eles.
• A definição de signo linguístico e suas noções de significante e significado, que 
incluem os conceitos de significação e valor, forma e substância, e as relações sin-
tagmática (combinatória) e paradigmática (associativa):
A substância é o elemento abstrato que atua no plano do conteúdo e da 
expressão. A forma se concretiza na dicotomia significante + significado 
(ex.: “Como expressar a noção de criança do sexo masculino” x menino).
Duas formas linguísticas podem ter uma mesma significação e valores di-
ferentes (ex.: cadeira e cátedra).
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
101
As relações paradigmáticas se organizam fora do discurso e se constroem 
a partir das associações que se podem fazer entre os signos linguísticos 
(ex.: os três paradigmas dos verbos).
Nas relações sintagmáticas, as combinações se baseiam no encadeamen-
to de duas ou mais formas consecutivas num enunciado (ex.: a relação 
sujeito-predicado).
• As características de arbitrariedade e de linearidade do signo linguístico:
A relação que existe entre o significante e o significado é arbitrária. Os 
signos linguísticos estão dispostos linearmente no plano das dimensões 
espaciais, isto é, na linha do tempo. 
• As perspectivas sincrônica e diacrônica no tratamento dos fatos linguísticos:
A sincronia aborda os fatos da língua sob uma perspectiva estática e os 
analisa como ocorrem num dado momento histórico.
A diacronia aborda os fatos da língua numa perspectiva evolutiva, com-
parativa. A descrição diacrônica é, em síntese, uma comparação entre 
sincronias.
Bloomfield, embora sob outra perspectiva, também valorizou os estudos históricos da 
linguagem e publicou trabalhos que favoreceram o desenvolvimento dos estudos semân-
ticos. Para ele (1961, p. 140), o significado de uma forma linguística se define a partir da 
combinação de dois componentes: 
A situação em que o falante enuncia a forma linguística;
e
A resposta que ela provoca no ouvinte. 
Por isso, defende que a descrição linguística não pode ser meramente física, pois deve 
demonstrar, de preferência, os fatos estruturais, ou seja, o papel que os sons/fonemas repre-
sentam no funcionamento da língua.
Na segunda metade do século XX, um tipo de estudo semântico que esteve em voga 
tinha como foco o campo vocabular, examinando possibilidades de análise para o léxico 
e estudando os “campos semânticos” e a esfera conceitual das palavras. Hjelmslev (1971), 
por exemplo, ao retomar a noção saussuriana de que a língua é forma e distinguir, no signo 
linguístico, uma expressão e um conteúdo, tendo ambos forma e substância, não se afasta da 
maior fonte para os semanticistas.
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística102
Não nos parece totalmente desviada desse foco no léxico a chamada teoria gerativista 
(ou transformacional), pois afinal também lida com as sentenças que se podem formar a par-
tir de regras dominadas pelos falantes quando fazem uso da língua. A diferença principal é 
que o gerativismo investiga regras subjacentes, as estruturas invariantes (ou profundas) que, 
por supressão, acréscimo ou permuta de constituintes, definem as estruturas superficiais.
Na versão inicial de suateoria, Chomsky reconhece a existência de correlações 
sistemáticas entre forma e sentido, mas, em face da complexidade das ques-
tões semânticas e da alegada independência do plano sintático em relação ao 
semântico, declara ser possível deixar o estudo do significado “para depois”. 
(MARQUES, 1990, p. 52)
Certamente por isso, a pergunta que Chomsky (2002, p. 93) faz, “Como se pode cons-
truir uma gramática que não apele para o significado?”, é mostrada adiante por ele como 
uma questão malformulada, pois o correto seria indagar “Como se pode construir uma gra-
mática?”. Sua conclusão, depois de dizer que não está seguro para apresentar um propósito 
rigoroso e específico quanto ao uso da informação semântica na construção de uma gramá-
tica, é direta: gramática e significado são autônomos e independentes. A despeito disso, é 
inegável que as correspondências entre “estruturas superficiais” e “estruturas profundas” 
giram em torno de entendimentos e equivalências de significados entre palavras, sintagmas 
e expressões. A gramática gerativa, em qualquer de suas fases, não foge portanto do trabalho 
com o significado, ainda que se possa concordar com sua recomendação de que o interesse 
pela semântica precisa ser acompanhado de um aprofundamento nos estudos da sintaxe.
7.3 Semântica do texto e do contexto
O estudo da significação recebe muito pouca atenção nas aulas de língua portuguesa. 
Rodolfo Ilari (2001, p. 11) considera essa uma das características do empobrecimento no 
ensino. E argumenta:
O tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gas-
ta com “problemas” como a ortografia, a acentuação, a assimilação de regras 
gramaticais de concordância e regência, e tantos outros, que deveriam dar aos 
alunos um verniz de “usuário culto da língua”.
Esse descompasso, prossegue Ilari, é “problemático quando se pensa na importância 
que as questões da significação têm, desde sempre, para a vida de todos os dias”, isso sem 
falar no peso que se atribui às questões de interpretação de textos como instrumento de ava-
liação em exames importantes para ingresso em cursos superiores.
Para identificar e descrever as questões de semântica, uma boa estratégia é utilizar ati-
vidades que abordem “fatos de semântica”, que familiarizarão o estudante com a nomen-
clatura básica que faz referência a esse tipo de análise – com a ressalva de que a ênfase na 
discussão terminológica, nesse âmbito, é desmotivadora e prejudicial ao conhecimento do 
que é realmente importante no estudo dos significados.
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
103
Por exemplo, pode-se tomar como objetivo buscar a interpretação de frases ou textos 
utilizando-se versões lógicas que ajudem a captar determinados aspectos do significado. 
Outra estratégia é confrontar os princípios de verdade e de falsidade em relação ao signifi-
cado. Também se pode tentar explicar as relações entre a forma linguística de um enunciado 
e as situações ou ainda o contexto em que ele ocorre.
No exame de 2008 (Enade), uma das questões de múltipla escolha usava a expressão 
“relações semânticas” no seu enunciado. As alternativas nos mostram que a banca aprovei-
tou o farto material à disposição da ciência do significado para incluir nas mencionadas “re-
lações” elementos morfológicos, sintáticos e lexicais, pois obviamente é com esses elementos 
(mas não só) que se faz a construção do sentido.
A questão 12 queria saber qual “a opção incorreta a respeito das relações semânticas do 
texto verbal”, transcrito a seguir com a imagem alusiva que o acompanhava na prova:
Figura 2 – Galhos.
Fonte: Divulgação O Estadão.
Shirley Paes Leme tem no desenho a alma de sua obra. Os galhos retorcidos e 
enegrecidos pela fumaça são seus traços a lápis, que ela articula ora em feixes 
escultóricos, ora em instalações. Produz também delicados desenhos com a si-
nuosidade da fumaça. Para fazer a peça em homenagem à companhia de dança 
goiana Quasar, Shirley conta ter se inspirado na grande concentração de energia 
no espaço necessária para que um espetáculo de dança se realize. “A ideia da 
coreografia só consegue ser concretizada com movimento porque todos ficam 
antenados para um trabalho conjunto”, diz. A obra de Shirley tem linhas-ga-
lhos que se movem em tempos diferentes, impulsionadas por motores ocultos. 
(TERRITÓRIO Expandido, 1999, p. 12-13. Adaptado.)
As cinco alternativas confirmam uma das dimensões universais da linguagem, a se-
manticidade. Afinal, como lembra E. Bechara (1999, p. 29), “na linguagem tudo significa, 
tudo é semântico”. 
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística104
a. Mudando-se o foco da ênfase, que está na autora, “Shirley Paes Leme” (linha 1), para 
a ênfase na obra, “desenho” (linha 1), a alteração da primeira oração do texto ficaria 
adequada da seguinte forma: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme.
b. Na linha 3, a preposição “com” tem a função semântica de introduzir uma caracte-
rística para “delicados desenhos”.
c. Depreende-se do emprego do conector “ora [...] ora” em “ora em feixes escultó-
ricos, ora em instalações” (linha 2), que “feixes escultóricos” se transformam em 
“instalações” e “instalações” se transformam em “feixes escultóricos”.
d. A noção de reflexividade, ou seja, a de que agente e paciente de um verbo repor-
tam-se ao mesmo referente, está presente tanto em “Shirley conta ter se inspirado” 
(linha 5) como em “linhas-galhos que se movem” (linha 8).
e. O desenvolvimento do texto permite depreender o significado da palavra “linhas-
-galhos” (linha 8) a partir dos significados de galho e de linha.
[A resposta correta está na letra C]
A opção (A) fala em foco da ênfase, algo que pode nos lembrar o fenômeno da topicali-
zação, pois consiste em identificar o componente frasal que está à frente do enunciado. No 
texto original, o primeiro sintagma é o sujeito da oração, fato normal quando se escreve em 
ordem direta. A alteração proposta é que o foco passe a ser a palavra “desenho”, resultando 
na frase oferecida na alternativa, que coloca o foco no predicado: Está no desenho a alma da 
obra de Shirley Paes Leme.
A opção (B) sugere que há uma conexão entre “delicados desenhos” e “com a sinuosi-
dade da fumaça”, pois considera que o objeto direto e seu verbo formam um conglomerado 
semântico do qual depende o adjunto adverbial: A desenhista produz (alguma coisa, isto é, 
delicados desenhos) com a sinuosidade da fumaça.
A resposta a ser marcada está na opção (C), pois os dois componentes da série alterna-
tiva (os feixes escultóricos e as instalações) são autoexcludentes e não podem se transformar 
mutuamente um no outro. Pelo contrário, quem se transforma em feixes escultóricos ou em 
instalações são os traços a lápis da artista.
Na opção (D), fala-se em noção de reflexividade, algo que nos dois trechos transcritos 
se confirma pela presença do pronome “se”. Os verbos “inspirar + se” e “mover + se” estão 
construídos na chamada “voz reflexiva”, sim. Uma simplificação bem banal mostraria que 
significam, respectivamente, “Shirley tinha inspirado Shirley” (= Shirley tinha se inspirado) e 
“as linhas movem as linhas” (= linhas-galhos que se movem).
Por fim, na opção (E), afirma-se que o significado do substantivo composto neológico 
“linhas-galhos” pode ser depreendido a partir dos significados de cada um de seus mem-
bros, o que de fato se confirma pela leitura do texto, onde as palavras “galhos” e “linhas” 
estão empregadas em seu sentido literal.
Para concluir, retomamos novamente as palavras de Ilari (2001, p. 12), que enfatiza: “as 
atividades voltadas para a significação não são contra outras práticas pedagógicas”, o que se 
deseja é que o professor saiba combiná-las de modo adequado e proveitoso.
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
105Ampliando seus conhecimentos
Relação linguagem e conhecimento
(MARCUSCHI, 2004, p. 263-268)
Parece que entre as contribuições mais importantes da linguística con-
temporânea para o estudo da relação entre língua e conhecimento está 
justamente a descoberta de que a língua funciona como um sistema de 
conhecimento estreitamente ligado ao ser humano em todos os aspectos. 
Assim, caberia discutir e analisar relações tais como:
• linguagem e mente (processos cognitivos na relação com a língua);
• processos referenciais e sua relação com a noção de verdade;
• formação de categorias, prototipicidade e constituição de conceitos; 
metáforas, metonímias (espaços mentais de um modo geral).
Sem negar que a língua se porta por regras e que obedece a determinações 
específicas e precisas para sua organização morfossintática, a abordagem 
experiencial da linguagem, proposta por Lakoff e boa parte da linguís-
tica funcionalista atual, acentua o aspecto prático do uso diário que as pes-
soas fazem da língua. Por exemplo: se alguém pede para descrever o que 
nos vem à mente quando ouvimos a palavra “carro”, podemos dizer que 
se trata de um objeto do tipo de um grande caixão, com portas, janelas, 
assentos, motor, freio, mudanças, freios, pneus, etc. Mas podemos tam-
bém mencionar que se trata de um veículo confortável, prático, rápido, 
que dá mobilidade, e que dá status ao seu dono, ou então associar “carro” 
a certas experiências, como o primeiro caso de amor ou algum acidente, 
se tivermos tais experiências. Há mais “legitimidade” em alguma dessas 
associações do que em outras?
É deste modo que a experiência entra nas categorias que com a língua 
vamos construindo e nos seus usos. E os conhecimentos partilhados pelas 
pessoas que vivem em culturas similares permitem que se consiga intera-
gir sem maiores problemas. Mas isto exigirá ir além dos aspectos lógicos 
da língua, ou seja, exigirá que nos voltemos também para os usos ditos 
figurativos e metafóricos como modos naturais de operar com a língua.
Suponha-se que alguém chega a nós e diz: “Meu carro quebrou.”
Mesmo não sabendo com certeza o que ocorreu (o que foi que pifou no 
carro), sabemos que o carro não anda mais; também sabemos que ele não 
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística106
quebrou do mesmo modo que uma cadeira quebra, ou que a ponta do 
lápis quebra e assim por diante. A transferência de experiências no uso 
de itens lexicais de um espaço mental estável para outro emergente é feita 
sem problemas. Fauconnier (1997) mostra isso com elegância suficiente. 
Assim, podemos usar o verbo “quebrar” para uma série de situações 
mesmo que a quebra não seja caracterizada pelo mesmo tipo de ação. 
Por exemplo:
– quebrar um copo (destruir fisicamente algo)
– quebrar um juramento (romper um compromisso)
– quebrar um recorde (ultrapassar um dado limite anterior)
– quebrar um banco (levar uma instituição à falência)
– quebrar a cabeça (tentar resolver um problema difícil)
– quebrar a cara (dar-se mal em alguma iniciativa)
Além desses, podemos fazer muitos outros usos desse verbo, todos pos-
síveis e inteligíveis, desde que saibamos ordenar as experiências de que 
tratam. Isto é interessante, pois tem relevância nos usos diários da lín-
gua. Aquilo que damos a entender com nossos usos linguísticos não está 
previsto de uma vez por todas no sistema da língua e sim nas formas de 
vida. Talvez, como lembra Ariel (2002), seja este aspecto aquele mínimo 
que constitui o “sentido literal” e que deve ser visto sempre dentro de um 
formato de produção.
[...] Já não é irrelevante indagar-se quais as relações entre experiência e lín-
gua. Contudo, as respostas vão variar muito, pois há quem negue que a 
experiência entre na língua (por exemplo, os gerativistas em geral); e outros 
afirmam que a língua está intimamente ligada à experiência (por exemplo, 
Lakoff). Mas há os que julgam que a língua é um organizador da expe-
riência e que nossos sentidos só são responsáveis pela sensação primária. 
Também há a posição de Austin (1962), para quem o mundo da sensação e 
da experiência é incorporado como uma instância de decisões pragmáticas, 
de modo que eu posso fazer certas asserções com base em conteúdos míni-
mos. Suponhamos, com Austin, que uma certa tarde estamos reunidos na 
casa de um amigo e de repente ouvimos um estampido e sem que se tenha 
qualquer outra informação além desse som, o dono da casa diz: 
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
107
- É a terceira batida de carro nesta semana nessa esquina.
De onde ele tirou essa conclusão? Que informações ele usou? Como se 
relacionam conhecimentos sensoriais e conhecimentos linguísticos? O 
conhecimento linguístico é um estado mental, como quer Chomsky, ou é 
um estado sociocultural também?
[...] Segundo a posição de G. Lakoff (1977), “não há propriamente nenhuma 
habilidade puramente linguística”, já que todas elas são permeadas e 
mediadas pela experiência em vários níveis de modo integrado. [...] Mas 
pretendo ressaltar um aspecto fundamental: o século XX dedicou-se como 
nenhum outro ao estudo das relações entre linguagem e conhecimento. 
Cada vez mais, no século XX, a linguística foi se aproximando de ques-
tões cognitivas. Neste século XXI parece claro que trabalhar linguagem é 
trabalhar um fenômeno essencialmente cognitivo. Isso veio se firmando 
de tal modo que já é comum ouvir-se que a linguagem é um empreendi-
mento sociocognitivo.
Assim, pode-se dizer que a contribuição da linguística contemporânea 
para a compreensão da atividade cognitiva e para o próprio processo de 
produção e recepção do conhecimento se dá precisamente no entendi-
mento da natureza cognitiva da linguagem.
 Atividades
1. Preencha as lacunas convenientemente.
 Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguístico, que inclui as noções 
de _____________________________ e significado, de ___________________________ 
e substância, as relações sintagmática e ____________________________ e o conceito 
de __________________________ e linearidade do signo, o que implica saber fazer a 
distinção entre os enfoques _______________________ e diacrônico.
2. Os quatro textos transcritos a seguir podem ser classificados a partir das suas rela-
ções de sentido (internas e externas). Reconheça qual deles (A) contém coerência, 
mas não tem coesão; (B) contém coesão, mas não tem coerência; (C) contém coesão e 
coerência; (D) não contém nem coerência nem coesão.
 Primeiro texto ( ):
a. Tenho uma casa em Santos. O meu bisavô era português. Gosto muito do Rio de 
Janeiro. Na infância eu tomava banho quente. Quando os carros dos bombeiros pas-
Semântica, a ciência das significações7
Semântica e estilística108
sam, uma nuvem estava ontem no céu. Conheço bem a Filomena. Sempre tive um 
fascínio pelos bailes populares. Foi mesmo um susto!
 Segundo texto ( ):
b. Manuel comprou um pastel. O pastel é feito com massa. A massa é uma substância 
mole e pastosa que se põe no fogo. Se onde há fumaça, há fogo, também onde há 
fogo há fumaça. Aliás, dizem que inalar fumaça pode até matar uma pessoa. Mas a 
gente não conhece uma pessoa só nesta vida. Por outro lado, a vida que a gente leva 
pode nos marcar para sempre. Mas isso é um tema que pode nos levar a falar em 
eternidade – aí eu desisto.
 Terceiro texto ( ):
 Ouvi falar de uma bicicleta elétrica que usa uma bateria de íon e pode ser recarregada 
em apenas 30 minutos. Cada carga tem autonomia suficiente para quase 50km de 
uso, e o melhor de tudo é que ela pode ser recarregada em qualquer tomada elétrica. 
Ela também funciona como uma bicicleta comum, com câmbio de 8 marchas e um 
corpo de alumínio.
 Quarto texto ( ):
c. O jogo. O ingresso. A vontade. O amigo. O empréstimo. A fila. A compra. A camisa. 
A corneta.O Maracanã. A arquibancada. A entrada em campo. A charanga. Os gols. 
A goleada. O êxtase. O delírio. O pós-jogo. Quanta emoção! Epa, o dia seguinte...
3. Leia atentamente a letra de Cazuza “Codinome Beija-Flor” (1985) e assinale as alter-
nativas que contêm afirmações corretas a respeito das relações semânticas do texto.
 Pra que mentir, fingir que perdoou, 
 Tentar ficar amigos sem rancor? 
 A emoção acabou, que coincidência é o amor: 
 A nossa música nunca mais tocou
 Pra que usar de tanta educação 
 Pra destilar terceiras intenções, 
 Desperdiçando o meu mel, devagarzinho flor em flor, 
 Entre os meus inimigos, Beija-Flor 
 Eu protegi seu nome por amor, 
 em um codinome Beija-Flor 
 Não responda nunca meu amor, nunca 
 pra qualquer um na rua Beija-Flor 
 Que só eu que podia, 
 Dentro da tua orelha fria, 
 Dizer segredos de liquidificador.
 Você sonhava acordada 
 Um jeito de não sentir dor, 
 Prendia o choro e aguava o bom do amor. 
 Prendia o choro e aguava o bom do amor.
05.
10.
15.
Semântica, a ciência das significações
Semântica e estilística
7
109
a. ( ) A primeira estrofe da canção fala do início e do fim de um romance. Para isso, as-
socia as palavras “amor” e “música” e se vale dos significados que ambas assumem 
no texto.
b. ( ) Os dois primeiros versos da segunda estrofe empregam a preposição “para” com 
valores idênticos e afirmativos quanto aos objetivos da pessoa recém-separada.
c. ( ) Ao dizer “protegi teu nome por amor” fica claro que a necessidade de resguardar 
a identidade da pessoa amada tinha o amor como uma concessão. 
d. ( ) No trecho final da canção, a ênfase está na pessoa amada, como mostra o foco na 
palavra “você” no verso 16.
 Resolução 
1. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguístico, que inclui as 
noções de significante e significado, de forma e substância, as relações sintagmática e 
paradigmática e o conceito de arbitrariedade e linearidade do signo, o que implica saber 
fazer a distinção entre os enfoques sincrônico e diacrônico.
2. A marcação correta é: (D), (B), (C), (A).
3. As opções (a) e (d) estão corretas; a opção (b) é falsa, pois no verso 5 a preposição in-
troduz uma interrogação (o poeta quer saber qual a finalidade de “usar tanta educa-
ção”); também é falsa a opção (c), pois o amor é mostrado como a causa da proteção 
da pessoa amada.
Semântica e estilística 111
8
Relações Semânticas – I
Partindo dos conceitos de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia, este capítulo 
tem o objetivo de identificar características semânticas do léxico, examinando os casos 
de sinonímia, antonímia, homonímia e paronímia.
8.1 Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia
Para se começar a fazer qualquer estudo semântico que focalize o léxico em suas 
incontáveis possibilidades de significação, é indispensável conhecer as disciplinas 
que lidam com ele de modo sistemático e científico. São três as ciências do léxico: a 
Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia.
Vamos examiná-las a partir de perguntas e respostas disponíveis na página do 
GTLex (Grupo de Trabalho de Lexicografia, Lexicologia e Terminologia da Associação 
Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística [ANPOLL]).1 Selecionamos alguns 
trechos, com pequenas adaptações aos nossos objetivos neste capítulo. 
1 As respostas são dos colegas de GT Adriana Zavaglia, Herbert Welker, Magali Duran, Patrícia Chittoni Reuillard, 
Gladis Maria de Barcellos Almeida e Margarita Correia. O acesso ao GTLex está em: <www.mel.ileel.ufu.br/gtlex/> 
(para os três links).
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística112
• O que é léxico?
Léxico é o conjunto das palavras de uma língua, também chamadas de lexias. As 
lexias são unidades de características complexas cuja organização enunciativa é in-
terdependente, ou seja, a sua textualização no tempo e no espaço obedece a certas 
combinações. Embora possa parecer um conjunto finito, o léxico de cada uma das 
línguas é tão rico e dinâmico que mesmo o melhor dos lexicólogos não seria capaz 
de enumerá-lo. Isso ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as 
preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalismos, passan-
do pelas terminologias, pelas gírias, expressões idiomáticas e palavrões.
• O que é Lexicologia?
Lexicologia é uma disciplina que estuda o léxico e a sua organização a partir de 
pontos de vista diversos. Cada palavra remete a particularidades diversas relacio-
nadas ao período histórico ou à região geográfica em que ocorre, à sua realização 
fonética, aos morfemas que a compõem, à sua distribuição sintagmática, ao seu 
uso social e cultural, político e institucional. Desse modo, cabe à Lexicologia dizer 
cientificamente em seus variados níveis o que diz o léxico, ou seja, a sua signifi-
cação. Ao lexicólogo, especialista da área, incumbe levar a termo essa tarefa tão 
complexa sobre uma ou mais línguas.
• O que é Lexicografia?
Lexicografia é uma disciplina intimamente ligada à Lexicologia. Ela se ocupa da 
descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência, 
principalmente dicionários (em formato impresso ou eletrônico) e bases de da-
dos lexicológicas. Dessa lexicografia prática distingue-se a lexicografia teórica, ou 
metalexicografia, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários (história, 
problemas de elaboração, análise, uso).
• O que é Terminologia?
A palavra terminologia pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se ao 
conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional, 
como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, do Direito, da 
Música etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de práticas e métodos 
utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação dos termos de uma de-
terminada linguagem de especialidade (= terminologia enquanto atividade), como 
também o conjunto de postulados teóricos necessários para dar suporte à análise de 
fenômenos linguísticos concernentes à comunicação especializada, incluídos aí os 
termos, evidentemente (= terminologia enquanto teoria).
8.2 Dicionários gerais e específicos
Há dicionários de todos os tipos, desde os que chegam às nossas mãos nos primeiros 
momentos de nossa vida de leitores (geralmente os encontramos em casa e nas escolas sob 
Relações Semânticas – I
Semântica e estilística
8
113
a forma de minidicionários ou pequenos dicionários) até os mais sofisticados (muitos se 
assemelham a enciclopédias).
Para falar de dicionários, é preciso primeiro lembrar que chamamos de verbete cada um 
dos itens que nos dão informações sobre uma palavra. Outro termo importante no manuseio 
de um dicionário é o que se chama de entrada, ou seja, a própria palavra que é incluída na 
abertura de um verbete. O conjunto de verbetes recebe o nome de nominata.
Os dicionários variam muito quanto ao número de verbetes e quanto às finalidades. 
Também variam quanto à temática ou ao modo de apresentar o léxico. Há os dicionários 
gerais, assim denominados porque seu objetivo é apresentar as palavras sem qualquer dis-
tinção quanto ao campo semântico (são monolíngues, bilíngues, trilíngues ou multilíngues) 
e os específicos, que podem tratar de qualquer assunto em particular (sinônimos, termos 
jurídicos, publicidade, palavras cruzadas, filosofia, verbos, gírias etc.).
Alguns são verdadeiros tesouros lexicais (às vezes com mais de cem mil entradas); ou-
tros prestam apoio didático (dicionários pedagógicos) e cultural (dicionários enciclopédicos, 
normalmente ilustrados).
A maioria dos dicionários se estrutura no modelo “palavra por palavra” (chamam-se 
semasiológicos ou alfabéticos), mas há os que são organizados no modelo “ideia por ideia” 
(chamam-se analógicos ou onomasiológicos). Como o hábitodas pessoas é saber qual o 
significado de uma palavra, a prática comum é consultar os dicionários alfabéticos. Os di-
cionários de ideias têm como principal diferença o fato de que o consulente pode recorrer a 
eles quando está à procura de uma palavra que não sabe qual é.
Vejamos a seguir como se organizam normalmente os verbetes dos dicionários alfa-
béticos. Para isso, reproduzimos o conteúdo do verbete “cada”, da edição eletrônica do 
Dicionário Aurélio (vrs. 5.0):
cada
[Do gr. katá, ‘conforme’, ‘segundo’, pelo lat. tard. cata.]
Pronome indefinido de dois gêneros.
1. Palavra com que se designa uma unidade num grupo de pessoas, animais 
ou coisas de que é parte, ou um conjunto, constituído de duas ou mais 
partes, desse grupo:
 “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. / Cada sentido é um dom divino” 
(Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, p. 20);
 “Receitou xarope, uma colher cada duas horas.” (Dalton Trevisan, Novelas 
nada Exemplares, p. 10);
 Em cada 10 alunos, um revelava inteligência acima do normal.
2. Também é us. com valor intensivo:
“Estou contente com a minha [roseira]; / Cada botão! cada rosa!” (Alberto de 
Oliveira, Poesias, 3ª série, p. 36);
Na praia se vê cada pequena!
• Cada qual. 1. Cada um (1).
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística114
• Cada um. 1. Todo homem; cada qual:
Cada um puxa a brasa para sua sardinha. 2. Uma unidade, um conjunto:
Comprou os livros e teve de examinar cada um separadamente.
Na primeira linha a entrada do verbete.
Na segunda linha, uma informação etimológica (a origem da palavra), que poderia ser 
acrescida da sua datação na língua portuguesa (quando foi registrada por escrito pela pri-
meira vez em nosso idioma).
Na terceira linha, a classe gramatical e o gênero.
Nas linhas seguintes, apresentam-se as informações semânticas, separadas por acepção 
(neste caso há duas acepções). As acepções são ilustradas por exemplos abonados (com au-
toria) ou não.
Ao final, duas locuções em que a palavra “cada” está presente, também com suas 
 acepções e exemplos. 
Figura 1 – Dicionário Mais.
Fonte: Divulgação Lisboa Editora.
Observemos agora uma das maneiras como se pode organizar um dicionário analógico. 
O exemplo que escolhemos é do Dicionário Mais: da ideia às palavras. Escaneamos a página 
518, onde destacamos o verbete “sapato”. Num dicionário alfabético comum, encontraría-
mos os significados desse substantivo. Aqui, o que se encontra são as palavras do cam-
po semântico de “sapato”, incluindo uma ilustração que ajuda a identificar o vocabulário 
específico desse tipo de calçado, seja por um determinado uso (mocassim, sabrina, escar-
pim, sapatilha, tênis, tamanco, soca, chanca, chinelo, chinela, alpercata, alpergata, alparcata, 
alpargata, galocha, botina, patim, cáliga, sandália, botas de neve, babucha, soco, coturno, 
borzeguim), um dado relativo a ele (biqueira, gáspea, pala, palmilha, sola, tacão, atacador, 
salto, encospas, encóspias, alargadeira, forma, empenha, pomada, lustro, verniz, sapateira, 
sapateiro) ou uma expressão idiomática em que apareça (desconfiar = ter a pedra no sapato).
Relações Semânticas – I
Semântica e estilística
8
115
Figura 3 – Página de dicionário.
Fonte: Divulgação Lisboa Editora.
Assim, qualquer que seja o resultado da obra elaborada pelo lexicógrafo (nome que se 
dá ao especialista da área), um dicionário tem o objetivo de levar ao seu leitor informações 
desconhecidas ou esquecidas. Por isso, elaborar e publicar dicionários é realizar um traba-
lho de utilidade pública, que serve ao homem comum e ao intelectual, ao estudante e ao 
pesquisador, disseminando o conhecimento e a cultura.
O primeiro dicionário de que se tem notícia foi feito há mais de 4 mil anos, como conta 
Mauro Villar. Isso aconteceu
[...] no tempo em que os amoritas dominavam a Babilônia e a Mesopotâmia, e 
no Egito o Médio Império florescia. A biblioteca em que foi encontrado pertencia 
aos reis de Ebla, cidade bíblica cujo fastígio se deu na Idade do Bronze, e que, 
destruída pelos hititas em 1600 a.C., só em 1968 seria redescoberta no Norte da 
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística116
Síria. A biblioteca é formada por cerca de 17 mil tabletes de argila e fragmentos, 
e o dicionário, bilíngue, eblaíta-sumeriano, foi compilado entre 2350 e 2300 a.C.
Os gregos, a partir do século I de nossa, fizeram dicionários, assim como houve 
lexicógrafos escolásticos durante a Idade Média. Mas qual a afinidade dos primi-
tivos dicionários com os atuais. Como nasceram os dicionários modernos?
Sua gênese está ligada a dois fenômenos. Em primeiro lugar, ao estabelecimento 
dos romanços como línguas nacionais, processo que se inicia seguramente já no 
fim do século IV, com a fixação posterior de sua gramática e seu levantamento 
lexical em relação ao latim. Em segundo lugar, com a prática das chamadas ano-
tações interlineares (glosae) nos cimélios medievais (a partir do século VII), glosas 
essas que acabaram por grupar-se no final dos livros e posteriormente tornaram-se 
livros autônomos (glosarii). Os primeiros dicionários dessa nova fase, assim como 
acontecia com a maior parte dos da Antiguidade, eram bilíngues, geralmente con-
frontando o latim com as línguas vernáculas. Seu público-alvo eram, não só os 
estudantes, mas viajantes, comerciantes, evangelizadores, diplomatas, etc.
O primeiro dicionário do português é considerado o do bacharel formado 
em Cânones e poeta Jerônimo Cardoso – uma obra bilíngue: Hieronymi Cardosi 
Lamacensis Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem. Ulissipone: Ex offic. Joannis 
Alvari 1562. Houve antes do seu aparecimento alguns glossários, mas obras peque-
nas, pouco importantes. Cardoso foi professor de Humanidades na Universidade, 
quando esta tinha sede em Lisboa e morreu nessa cidade em 1569. Este seu famoso 
dicionário teve diversas edições, até 1694. (VILLAR, 2002, p. 195-196)
Para seguirmos com essa história até chegarmos aos dicionários brasileiros, vamos dar 
um pequeno salto no tempo, sem deixar de dizer que, no século XVIII, foi publicado em 
Portugal um trabalho monumental, em dez volumes (dois eram suplementos), o Vocabulário 
Português e Latino, do padre Rafael Bluteau (primeiro tomo no ano de 1712, e o décimo tomo 
em 1728). Embora seja um dicionário bilíngue, a parte relativa à nossa língua é praticamente 
uma descrição do léxico português daquela época.
Essa referência é importante porque é a obra de Bluteau que dá origem ao mais conhecido 
dicionário brasileiro do século XIX, o Dicionário de Morais, de Antônio de Morais Silva, natu-
ral do Rio de Janeiro (onde nasceu em 1757). O livro foi publicado (com a autoria principal 
atribuída a Bluteau) em Portugal em 1789 e, por isso, muitos não o consideram o primeiro 
dicionário brasileiro. A segunda edição (de 1813) já estava inteiramente sob a responsabilidade 
de Morais, que também é o autor das edições de 1823 e de 1831 (póstuma), e é nesta que en-
contramos um argumento para defender a ideia de que Antônio Morais Silva é sim o autor do 
primeiro dicionário brasileiro, como explica Gladstone Chaves de Melo (1947, p. 14):
Entretanto, o velho Morais prosseguia na sua penosíssima faina de vocabularis-
ta, “no sertão de Pernambuco”, como nos informam os referidos editores, e, ali, 
“em horas furtadas à vida rústica, tornava a ler e conferir os autores capitais da 
Língua Portuguesa e ainda achava que recopilar deles artigos que não vêm nos 
dicionários mais amplos” (Prólogo dos editores da 4.a edição).
Relações Semânticas – I
Semântica e estilística
8
117
O Morais, como ficou conhecido, teve depois disso sucessivas reedições, as quais foram 
sendo desvirtuadas por seus editores e reorganizadores. Gozou, porém, de alto prestígio, 
como atesta o seguinte comentário de Machado de Assis sobre uma palavra cujo uso ele 
defendiasob a alegação de que “lá a pôs no seu dicionário o nosso velho patrício Morais” 
(Bons Dias!, 22 mar. 1889).
Entre os principais dicionários gerais brasileiros contemporâneos, podemos citar os 
Dicionários Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete1, Michaëlis e Borba.
8.3 Sinonímia e antonímia
Relações semânticas entre palavras podem ter muitas facetas a explorar. Duas das mais 
conhecidas são a sinonímia e a antonímia, que podem ser definidas a partir da propriedade 
que dois termos têm de serem empregados como substitutos um do outro.
Se, a princípio, esse emprego não causar prejuízo no que se pretende comunicar, dire-
mos que há sinonímia entre eles. Se a substituição, porém, resultar em significações opostas, 
haverá antonímia entre eles.
Sinonímia = equivalência semântica
Antonímia = oposição semântica
Vamos exemplificar os dois casos imaginando a situação do diretor de uma firma que vai 
sortear passagens aéreas entre os funcionários por ocasião dos festejos de fim de ano. Se ele es-
colher qualquer das frases seguintes, nada mudará na sua comunicação para os empregados:
1. Amanhã é dia de fazer o sorteio das duas passagens para Salvador.
2. Amanhã é dia de realizar o sorteio das duas passagens para Salvador.
3. Amanhã é dia de proceder ao sorteio das duas passagens para Salvador.
Os verbos “fazer”, “realizar” e “proceder”, nesse contexto, são intercambiáveis, são si-
nônimos. O chefe diz que vai fazer/realizar/proceder (a)o sorteio, mas escuta um dos funcio-
nários comentar, desconfiado:
4. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele desfazer o sorteio e entre-
gar as duas passagens para algum puxa-saco?
5. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele melar o sorteio e entregar 
as duas passagens para algum puxa-saco?
1 O dicionário Caldas Aulete só existe na versão on-line (não possui uma versão impressa). É instalado 
gratuitamente nos computadores de qualquer usuário da internet. Por ser permanentemente atualiza-
do, constitui-se num extraordinário banco de dados da língua portuguesa. Para baixá-lo, basta entrar 
na página: <www.lexikon.com.br/colaboracao/convide.aspx> e clicar em “download”.
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística118
6. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele anular o sorteio e entre-
gar as duas passagens para algum puxa-saco?
Agora, o trio de verbos é outro. Também são intercambiáveis e, nessa situação, servem 
como sinônimos entre si. No entanto, também servem como antônimos dos três anteriores, 
haja vista que, no primeiro caso, o sorteio “tem validade” e, no segundo, “fica inválido”.
As relações de antonímia e de sinonímia podem acontecer no âmbito da morfologia, 
com a troca dos significantes (fazer = realizar) ou com o acréscimo de algum morfema (fazer-
Xdes+fazer), mas também podem se expressar por meio de estruturas sintáticas diferentes. É 
o que temos nas duas frases seguintes:
7. Assassinaram o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O carangue-
jo levou preso o tubarão.
8. Alguém assassinou o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O tu-
barão foi levado preso pelo caranguejo.
Em (7) estão transcritos os três primeiros versos do samba “O Assassinato do Camarão”, 
de Zerê e Ibraim. Na reescritura (8), a sinonímia acontece por substituição sintática, alteran-
do-se o tipo de sujeito ou a voz do verbo, mas mantendo-se a significação original.
8.4 Homonímia e paronímia
Duas outras relações semânticas importantes que se estabelecem entre palavras são a 
homonímia e a paronímia, que acontecem em decorrência da propriedade que dois termos têm 
de se aproximarem em virtude de sua composição fonológica.
Se as duas palavras tiverem uma estrutura fonológica idêntica, diremos que há homonímia 
entre elas, mas se suas pronúncias forem apenas semelhantes, haverá paronímia entre elas.
Homonímia = identificação fono-ortográfica
Paronímia = aproximação fono-ortográfica
Os vocábulos que se pronunciam da mesma forma, mas cujos sentidos e grafias são dife-
rentes são chamados homônimos homófonos, como nos casos de “cessão” (= ato de ceder), “se-
ção” (= repartição) e “sessão” (= espaço de tempo) ou de “coser” (= costurar) e “cozer” (= cozinhar).
Palavras que se escrevem com as mesmas letras, mas cujas pronúncias e significados 
são diferentes são chamadas homônimas homógrafas, o que não deixa de ser uma contra-
dição quanto à definição, pois nesse caso não há estrutura fonológica idêntica, mas apenas 
ortográfica. De todo modo, a tradição gramatical assim classifica pares como “consolo” (ô) e 
“consolo” (ó) ou “gelo” (ê) e “gelo” (é).
Os vocábulos de significado diverso que se pronunciam e se escrevem do mesmo modo 
são homônimos perfeitos: “cedo” (advérbio) e “cedo” (presente de “ceder”); “manga” (fruta) 
e “manga” (parte do vestuário). Nesses exemplos há homonímia, que não deve ser confundida 
Relações Semânticas – I
Semântica e estilística
8
119
com a polissemia (propriedade semântica de uma única palavra recobrir mais de uma signi-
ficação, como “anjo”: ser espiritual ou pessoa boa). Repita-se: na homonímia há duas palavras 
(e dois significados), e na polissemia há apenas uma palavra (e mais de um significado).
Homonímia – duas ou mais palavras, cada uma com a sua significação
Polisssemia – uma única palavra com dois ou mais sentidos
E os vocábulos de significado e pronúncia diversos que se distinguem graficamente 
apenas pela acentuação gráfica são homógrafos imperfeitos: “convém” e “convêm” (do ver-
bo convir); “camelo” (animal) e “camelô” (vendedor ambulante)
Há paronímia quando os vocábulos são diferentes, mas sua pronúncia e grafia são se-
melhantes. É o que ocorre em “ratificar” (confirmar) e “retificar” (corrigir) ou “segmento” 
(pedaço de um todo) e “seguimento” (continuidade).
A homonímia e a paronímia são fenômenos que acontecem nas fronteiras das distinções 
fonológica e semântica e, por isso, é um procedimento didático natural redobrar a atenção 
contra os perigos de se empregar um homônimo ou um parônimo pelo outro.
 Ampliando seus conhecimentos
Diferenças entre sinônimos
(ULLMAN, 1964, p. 291-295)
“As palavras”, observou certo dia o Dr. Johnson, “raras vezes são exata-
mente sinônimas”. Macaulay exprimiu a mesma ideia em termos que se 
recomendam por si próprios ao linguista moderno: “Modifica a estrutura 
da oração, substitui um sinônimo por outro; e todo o efeito será destru-
ído.” Na linguística contemporânea tornou-se quase axiomático que a 
completa sinonímia não existe. Segundo as palavras de Bloomfield, “cada 
forma linguística tem um significado constante e específico. Se as formas 
são fonemicamente diferentes, supomos que os seus significados são 
também diferentes... Supomos, em resumo, que não há sinônimos reais.” 
Muito antes de Bloomfield, Bréal tinha falado de uma “lei de repartição” 
na linguagem, segundo a qual “palavras que deveriam ser sinônimas, e 
que o eram efetivamente, tomaram, entretanto, sentidos diferentes e não 
mais ser empregadas uma por outra” (1925 e 1992, p. 33).
Embora haja de fato uma grande dose de verdade em tais afirmações, 
seria errôneo negar a possibilidade de completa sinonímia. Bastante para-
doxalmente, encontra-se onde menos seria de esperar: nas nomenclaturas 
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística120
técnicas. O fato de os termos científicos serem precisamente delimitados e 
emocionalmente neutros permite-nos averiguar de modo absolutamente 
definido se dois deles são completamente permutáveis, e a sinonímia 
absoluta não é, de modo algum, pouco vulgar. Estudos recentes sobre 
a formação de terminologias industriais mostraram que vários sinôni-
mos surgirão por vezes em torno de uma nova invenção, até que, even-
tualmente, se separam. Tal sinonímia pode mesmo persistir durante um 
período indefinido.[...] Em fonética, consoantes como s e z são conheci-
das como espirantes ou fricativas e o mesmo escritor pode empregar ambos 
os termos sinonimamente. A própria semântica tem um sinônimo um tanto 
deselegante em semasiologia, que é agora pouco usada em inglês e em fran-
cês, mas que está firmemente estabelecida nalgumas outras línguas. [...]
No entanto, é perfeitamente verdade que a absoluta sinonímia vem con-
tra o nosso modo habitual de considerar a linguagem. Quando vemos 
palavras diferentes, supomos que deve haver também alguma diferença 
no significado, e, na vasta maioria dos casos, há de fato uma distinção, 
muito embora ela possa ser difícil de formular. Muito poucas palavras são 
completamente sinônimas no sentido de serem permutáveis em qualquer 
contexto, sem a mais leve alteração do significado objetivo, do tom senti-
mental ou do valor evocativo.
W. E. Collinson (1939, p. 61-2) fez uma interessante tentativa de esque-
matizar as diferenças mais típicas entre sinônimos. Distingue nove 
possibilidades1:
Um termo é mais geral que outro – recusar – rejeitar.
Um termo é mais intenso que outro – repudiar – rejeitar.
Um termo é mais emotivo que outro – declinar – rejeitar.
Um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto o outro é 
neutro – despida – nua – pelada.
Um termo é mais profissional que outro – óbito – morte.
Um termo é mais literário que outro – descansar – morrer.
Um termo é mais coloquial que outro – marrento – zangado.
1 Os exemplos foram adaptados ou atualizados para este capítulo.
Relações Semânticas – I
Semântica e estilística
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121
Um termo é mais local ou dialetal que outro – farol – semáforo.
Um dos sinônimos pertence à linguagem infantil – dindinha – madrinha.
 Atividades
9. Reconheça se as afirmativas são verdadeiras (V) ou falsas (F), corrigindo-as confor-
me o caso.
a. ( ) O estudo do léxico segundo suas peculiaridades históricas, geográficas, gramati-
cais, sociais, culturais e políticas é tarefa da Lexicologia.
b. ( ) A Lexicografia tem como objeto de estudo a descrição do léxico de uma ou mais 
línguas, a fim de produzir obras de referência, principalmente dicionários.
c. ( ) Um dos objetivos da Terminologia é reunir um conjunto vocabular próprio de 
uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional.
d. ( ) O conjunto de entradas de um dicionário chama-se verbete ou nominata, indi-
cando cada um dos itens que nos dão informações sobre uma palavra.
e. ( ) Os dicionários gerais se estruturam num modelo alfabético, diferindo dos dicio-
nários específicos, que são organizados por ideias.
10. O poema a seguir se chama “Manhã” e é de autoria de Murilo Mendes (1972, p. 128).
 Preencha as lacunas com as palavras que, do ponto de vista semântico, lhe pareçam 
as mais apropriadas ao texto, justificando sua escolha. Identifique se há palavras que 
não podem preencher as lacunas coerentemente.
As estátuas sem mim não podem mover os ________ (braços / seios)
Minhas antigas namoradas sem mim 
não podem amar seus ___________ (maridos / esposos)
Muitos versos sem mim não poderão ____________ (viver / existir).
É inútil deter as aparições da ________________ (divindade / musa)
É difícil não amar a __________________ (existência / vida)
Mesmo explorado pelos outros ___________ (indivíduos / homens)
É absurdo achar mais realidade na lei que nas ____ (estrelas / sereias)
Sou poeta ______________ (irrefutavelmente / irrevogavelmente).
Relações Semânticas – I8
Semântica e estilística122
11. Reescreva o texto abaixo, corrigindo os empregos equivocados das palavras homô-
nimas e parônimas.
 Nossos colegas pediram despensa do serviço porque já se sabe que infrigiram o re-
gulamento. Por não terem comprido o disposto, colocaram em xeque suas carreiras 
e por hora vão espiar suas culpas numa xácara longínqua.
 Resolução 
1. São verdadeiras as afirmações (a), (b) e (c). Na letra (d) é o conjunto de verbetes que 
se chama “nominata”. Na letra (e), tanto os dicionários gerais como os específicos 
podem ser estruturados num modelo alfabético, ou seja “palavra por palavra”.
2. A transcrição correta do poema é a que segue: “As estátuas sem mim não podem mover 
os braços / Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus maridos / Muitos ver-
sos sem mim não poderão existir. // É inútil deter as aparições da musa / É difícil não amar a 
vida / Mesmo explorado pelos outros homens / É absurdo achar mais realidade na lei que nas 
estrelas / Sou poeta irrevogavelmente.”
 A única palavra que parece não se ajustar ao texto é “seios” (1.o verso), tendo em vista 
se relacionar com o verbo “mover” (apesar disso, a ideia de “mover os seios” não é de 
todo incoerente). No penúltimo verso, não haveria incoerência dizer “sereias” em vez de 
“estrelas”, pois o poeta também poderia, de alguma forma, comparar a realidade da lei 
com a das sereias. Nos demais versos, a substituição não mudaria o significado do verso, 
mas poeticamente talvez houvesse variações de expressividade.
3. O parágrafo, reescrito com as correções, ficará assim: Nossos colegas pediram dispensa do 
serviço porque já se sabe que infringiram o regulamento. Por não terem cumprido o disposto, 
colocaram em cheque suas carreiras e por ora vão expiar suas culpas numa chácara longínqua.
Semântica e estilística 123
9
Relações Semânticas – II
Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, exa-
minando os casos de hiperonímia, hiponímia, eponímia e antonomásia.
9.1 Campos associativos, conceituais e semânticos 
A imagem empregada por Ferdinand de Saussure (1972, p. 146) para explicar as 
associações que as palavras mantêm entre si sugere que cada uma delas é como se 
fosse o centro de uma constelação, “o ponto para onde convergem outros termos coor-
denados cuja soma é indefinida”.
Figura 1 – Constelação da palavra cruzamento. 
cruzamento
interseção fumacento
cruzar isolamento
esquina suculento
cruzador fechamento
etc.
etc. etc.
etc.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística124
A associação entre palavras pode ser feita a partir de ligações de sentido, mas também 
pode acontecer por razões puramente formais ou até por uma combinação entre forma e signi-
ficado. A “constelação” da palavra “cruzamento” mostra quatro linhas, assim justificáveis:
• linha 1 – “cruzamento / interseção / esquina”: associação semântica;
• linha 2 – “cruzamento / cruzar / cruzador”: associação morfossemântica externa 
(identidade do radical, fator determinante para reconhecer palavras cognatas, 
também chamadas palavras da mesma família etimológica);
• linha 3 – “cruzamento / isolamento / fechamento”: associação morfossemântica 
interna (identidade do sufixo formador de substantivo abstrato);
• linha 4 – “cruzamento / fumacento / suculento”: associação fonológica (identidade 
das terminações). 
Como Saussure diz que “a soma é infinita”, a título de ilustração poderíamos pensar em 
fazer outras associações a partir dessa palavra.
Por exemplo, uma linha 5 nos levaria a uma série como “cruzamento / trânsito / auto-
móveis” ou a outra como “cruzamento / chute / gol”, se as associações fossem feitas consi-
derando o cruzamento de duas ruas ou o cruzamento como uma jogada numa partida de 
futebol. Aqui, teríamos também associações exclusivamente semânticas.
Mas uma linha 6 talvez nos mostrasse uma série de palavras com quatro sílabas e dez 
letras: “cruzamento / flamejante / supertinta” (associação fono-ortográfica). E assim outras 
“linhas” poderiam ser formadas mediante outras hipóteses coerentes.
Como se percebe, as associações não são feitas apenas nas relações gramaticais, pois se 
constroem a partir do raciocínio humano e, portanto, não há limites para elas. A razão para 
o surgimento do verbo “bebemorar”(incorporado recentemente aos dicionários portugue-
ses) é o verbo “comemorar”. A associação semântica que serviu de base para essa criação é 
morfologicamente infundada: “comemorar” é derivado de “memorar” e não de “comer”. 
Apesar disso, as duas primeiras sílabas fazem uma homonímia com o verbo “comer” e por 
esse motivo, “comemorar” pode dar origem a “bebemorar” (e – por que não? – a fumamorar 
ou a dormimorar...), se pensarmos na coerência da aproximação de “comer” com “beber”.
Como a Lexicologia procura definir os campos linguísticos, é preciso distinguir os tipos 
de relações associativas entre as palavras e, para isso, usaremos as expressões campo asso-
ciativo, campo conceitual e campo semântico.
• Campo associativo – expressão genérica que permite reunir palavras a partir de qual-
quer associação coerente (semântica ou não) que exista ou se faça entre elas: nos seis 
exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, todas as “linhas” são de campos associativos.
• Campo conceitual – expressão que se refere ao contingente de palavras que se 
agrupam, ideologicamente, por meio de uma rede de associações e interligações 
de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, apenas as “linhas” 
1 e 5 são de campos conceituais.
• Campo semântico – expressão que se refere ao contingente de palavras que se 
agrupam, linguisticamente, por meio de uma rede de associações e interligações 
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
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de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, apenas as “linhas” 
2 e 3 são de campos semânticos.
Por esse raciocínio, a teoria dos campos conceituais (que alguns autores também chamam, 
por comodidade didática, de campos associativos) considera os agrupamentos de palavras 
para construir os esquemas representacionais da sociedade. Já a teoria dos campos semânticos 
privilegia a estrutura lexical como um todo. Convém, porém, advertir que é uma prática 
comum usar a expressão campo semântico genericamente, com o mesmo sentido que aqui 
demos apenas para campo associativo.
9.2 Hiperonímia e hiponímia 
Nos estudos do léxico, as relações semânticas podem ser estabelecidas por meio de um 
critério que conjuga as ideias de “parte” e “todo”. Durante a redação de um texto, quando 
precisamos evitar a repetição de uma palavra, temos à disposição uma ferramenta coesiva 
importante: os hiperônimos e os hipônimos.
Uma definição bem simples para essas palavras dirá que o hipônimo é a palavra particu-
larizadora e que o hiperônimo é a palavra generalizadora.
Hiperonímia = do significado geral para o específico.
Hiponímia = do significado específico para o geral.
Por exemplo: se nos pedirem uma pequena lista com o nome de quatro animais, talvez 
nossas lembranças imediatas recaiam sobre aqueles com os quais convivemos, como o ca-
chorro, o gato, o cavalo e o papagaio. Talvez nos venham ideias menos óbvias e a lista seja 
feita de animais nada amistosos, como o lobo, o jacaré, o orangotango e o urubu. Quem sabe, 
poderíamos fazer um rol apenas com os nomes daqueles que, quando se aproximam, nós 
é que ficamos hostis, como a barata, o rato, o mosquito e a lacraia. Mas nada impediria que 
uma preferência “politicamente correta” nos levasse a fazer uma lista-denúncia, com nomes 
de animais já extintos ou em extinção, como o dinossauro, o mamute, o auroque e o dodó 
(extintos) ou o panda, o tucano, a ariranha e o mico-leão (em extinção).
Todos esses substantivos são específicos, se considerarmos que os tomamos pensando 
num termo genérico dado: a palavra “animal” é o hiperônimo, e cada bichinho citado é um 
dos hipônimos.
Hipo- (prefixo grego): posição inferior, subordinada (= sob, sub)
Hiper- (prefixo grego): posição superior, elevada (= sobre, super)
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística126
No entanto, essa relação entre o termo geral e o termo específico pode ser outra. Uma 
palavra específica como “dinossauro”, hipônimo em relação ao conjunto “animais”, seu hi-
perônimo, pode fazer parte de um outro conjunto, onde assume o papel de termo genérico. 
É o que mostra a figura abaixo, com o agora hiperônimo “dinossauros” e os hipônimos que 
listam alguns de seus tipos: o braquiossauro, o diplodoco, o camptossauro, o ancilossauro, 
o hadrossauro, o tiranossauro, o estegossauro e o celófise.
Figura 2 – Hiperônimo “dinossauros” e seus hipônimos.
Fonte: Divulgação Lisboa Editora e Siebenaler.
Vamos examinar um texto de informação científica sobre um desses dinossauros, mar-
camos em itálico todas as palavras ou expressões substantivas que se referem especifica-
mente aos celófises. O objetivo é verificar como o redator colocou em uso as relações de 
hipo- e hiper(o)- nímia que esse termo possui.
(1) Em 1947, em uma expedição ao Ghost Ranch, no Novo México, EUA, paleon-
tólogos fizeram uma grande descoberta: um grande número de fósseis de dinos-
sauros, mais tarde denominados celófises. Esses fósseis eram todos parte de um 
grupo provavelmente devastado por uma inundação no período triássico tardio. 
Os animais variavam de filhotes recém-saídos do ovo a adultos com pouco mais 
de dois metros de comprimento.
O corpo do celófise tinha uma cauda longa e esguia. Suas mandíbulas eram dota-
das de dezenas de dentes afiados. O celófise era um predador incomum, pois vi-
via em grandes rebanhos, algo que não acontece no mundo atual. Animais como 
o caribu ou o gnu, que se alimentam pastando, vivem em rebanhos, mas o mes-
mo não ocorre com os predadores, que não vivem em grandes grupos. Áreas piso-
teadas em torno do Ghost Ranch sugerem que os rebanhos de celófises migravam.
As patas traseiras do animal eram fortes e ágeis. Ele tinha pés com três dedos lon-
gos e um curto, e saltava rapidamente para escapar de predadores de maior por-
te, como o phytossauro, um animal semelhante ao crocodilo. As patas dianteiras 
do celófise eram pequenas e provavelmente não eram usadas para caminhar. O 
mais provável é que fossem usadas para recolher alimentos. A cabeça do animal 
era grande, com um focinho pontudo e olhos grandes. O celófise era um mestre 
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
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da emboscada. É possível que esse predador com cerca de 45 quilos se alimentasse 
de peixes e, por isso, vivesse à margem de rios, caminhando entre a vegetação 
rasteira e sempre atento a inimigos. Também comia insetos, répteis semelhantes 
a lagartos e outros pequenos dinossauros.
Além dos esqueletos do Ghost Ranch, no Novo México, foram encontrados celófi-
ses no Painted Desert do Arizona. Os troncos petrificados encontrados lá, muitos 
com comprimento superior a 30 metros, mostram que aparência tinham as flo-
restas pelas quais esses dinossauros corriam. 
Eles estão entre os mais antigos (se não são os mais antigos) dinossauros da 
América do Norte. O nome celófise quer dizer “forma oca”, em referência aos 
ossos ocos de suas pernas, que se assemelhavam aos ossos dos pássaros, desen-
volvidos para ter o mínimo de peso com o máximo de força. A única espécie 
conhecida é o Coelophysis bauri. 
Nas caixas torácicas de dois adultos encontrados no Ghost Ranch havia esquele-
tos de jovens celófises. Eles eram grandes e desenvolvidos demais para que fos-
sem bebês ainda não nascidos. Isso sugere que os celófises podem ter sido cani-
bais e que a presa teria sido engolida inteira. 
Os parentes do celófise incluem o podoquessauro; o halticossauro e o protocomp-
sógnato, da Alemanha; e o sintarso do Zimbábue e Arizona. (CELÓFISE, 2008)
Sem incluirmos na contagem as ocorrências em que o nome do animal foi substituído 
por outros processos coesivos (como os pronomes retos, oblíquos e possessivos ou a elipse), 
o texto empregou por dezenove vezes uma forma substantiva que nos informa algo sobre os 
celófises, sendo onze as passagens em quea opção foi pela própria palavra “celófise”. Mas 
o redator também usou os hiperônimos “animal” (três vezes), predador e dinossauro (duas 
vezes cada um) e o hipônimo sinônimo Coelophysis bauri (uma vez). A estratégia mostra 
que, em cada parágrafo, o substantivo principal foi usado comedidamente, a saber: uma vez 
no 1°; três vezes no 2°; duas vezes no 3°; uma vez no 4°; uma vez no 5°; duas vezes no 6° e 
uma vez no 7°. 
O terceiro parágrafo, que é o maior do texto, tem sete informações sobre o celófise. Duas 
delas aparecem com o próprio hipônimo, duas com o hiperônimo “animal”, uma com o 
hiperônimo “predador” e duas (indiretas) com as expressões que sublinhamos “predadores 
de maior porte” (o que mostra o celófise como um predador de menor porte) e “outros pe-
quenos dinossauros” (o que confirma que o celófise não é de grande porte).
A conclusão a que se chega é que o autor do artigo organizou adequadamente esse jogo 
alternativo entre o hipônimo e seus hiperônimos (mais de um, como vimos pela explicação). 
Afinal, nessa relação entre o específico e o geral, uma regra de três se reproduz quando 
pensamos na progressão: assim como todo celófise é um dinossauro, todo dinossauro é um 
predador, e todo predador é um animal. A recíproca (partindo do geral para o específico), 
porém, é falsa, pois nem todo animal é predador, nem todo predador é um dinossauro e 
nem todo dinossauro é um celófise.
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística128
9.3 Antonomásia e eponímia 
Um outro tipo de relação semântica que se pode examinar no estudo do léxico é o que 
costuma ocorrer nos intercâmbios funcionais entre substantivos próprios e comuns, ainda 
conjugando as ideias de “parte” e “todo”. Se escrevemos um texto sobre uma pessoa ou 
sobre um lugar, é provável que tenhamos de pensar em algo que nos faça evitar a repetição 
desse nome próprio – caso em que entra em cena a antonomásia. Numa outra situação, o que 
está à nossa disposição não é uma palavra substituta, mas um substantivo próprio transfor-
mado metonimicamente em comum – caso da eponímia.
Pode-se dizer, então, que esses dois recursos estão interligados por uma espécie de 
cruzamento morfossemântico.
A antonomásia faz parte de um grupo de termos (epítetos, cognomes, apelidos e alcu-
nhas) e consiste no emprego de substantivos comuns (ou expressões substantivas) tomados 
a partir de uma motivação metonímica ou metafórica – conhecida ou desconhecida – como 
substitutos de um nome próprio e, em decorrência disso, às vezes redigidos também como 
substantivos próprios.
Ilustram o que dissemos acima as referências que se fazem a alguns escritores, ao longo 
do tempo, utilizando-se um sem-número de antonomásias, algumas das quais ultrapassam 
gerações e se mostram como “sinônimos” perfeitos para suas matrizes semânticas. Estão 
neste caso expressões como “Boca do Inferno”, “Poeta dos Escravos”, “Águia de Haia” e 
“Poetinha”, que podem ser empregadas como identificadoras dos nomes dos autores no lu-
gar dos quais se põem, com pouca margem de risco quanto a uma possível incompreensão.
Figura 3 – Antonomásia: “poetinha” substitui na manchete o antropônimo Vinicius de Moraes.
Fonte: Divulgação O Estado de São Paulo.
Mas as antonomásias não são recursos exclusivos dos antropônimos. Também os nomes 
de lugar (topônimos) podem ser substituídos, como vemos em “Veneza Brasileira” (em lu-
gar de Recife), “Cidade Maravilhosa” (em lugar de Rio de Janeiro) ou “Princesa do Sertão” 
(Feira de Santana).
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
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Figura 4 – Recife, a Veneza brasileira (antonomásia com motivação metafórica por causa dos ca-
nais que passam por dentro das duas cidades).
Fonte: Domínio público
Lugares famosos, vilarejos perdidos no mapa, pessoas comuns, personagens da histó-
ria, políticos, artistas, atletas e escritores – todo substantivo próprio se enquadra da mesma 
forma nesse processo de combinação entre nome qualificado e qualificador do nome. 
Um estádio de futebol pode ser conhecido como o Caldeirão do Boca tanto quan-
to uma praia pode ser a Princesinha do Mar. Se um bairro fica famoso como o Berço do 
Samba, por que não dizer que a minha cidade é o Túmulo do Funk? Alguém pode ser o 
Fenômeno, o Matador, o Patriarca da Independência, o Mestre do Suspense, o Deus da 
Raça, a Namoradinha do Brasil, a Musa do Verão, o Nazareno, o Careca do 302, a Garota de 
Ipanema. Tudo se admite nessa relação, desde que se estabeleça alguma coerência entre os dois 
componentes: de um lado o substantivo próprio, de outro o seu “apelido”, sua antonomásia. 
De todo modo, sempre que se usa uma expressão em vez de uma única palavra para se 
fazer essa substituição, diz-se que a antonomásia é também uma perífrase (pois substitui o que 
poderia ser expresso por um menor número de palavras). Isso quer dizer que esses dois ter-
mos, embora não sejam sinônimos, às vezes coincidem. Por exemplo, os ex-jogadores Romário 
e Edmundo têm antonomásias (ou apelidos, epítetos, cognomes) muito conhecidas, “Baixinho” 
e “Animal” (não há perífrase em nenhum dos dois casos). Mas chamar Pelé de “Rei do Futebol” 
e Zico de “Galinho de Quintino” é o que caracteriza uma antonomásia perifrástica.
Os dois trechos seguintes mostram o emprego da antonomásia como elemento de coesão 
textual: o primeiro é o recorte de uma notícia de jornal; o segundo reproduz os dois parágra-
fos iniciais de um texto acadêmico. Ambos se referem a Machado de Assis.
(2) Há três meses, o Ministério da Cultura anunciou que 2008 será o Ano Nacional 
de Machado de Assis. Em setembro, completam-se 100 anos da morte do escritor 
carioca. As editoras se apressam e colocam nas prateleiras, ainda em 2007, os pri-
meiros lançamentos da comemoração. 
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística130
A humildade em tom de elegância, cortesia da mentalidade ainda romântica que 
o escritor cultivava, soa irônica às vésperas do centenário de sua morte. Hoje, 
quem declarar o carioca como o maior escritor da Literatura Brasileira vai encon-
trar poucas pessoas dispostas a discordar. Ao que parece, o Bruxo aprontou mais 
uma das suas. Adivinhou seu futuro e escondeu sua profecia sob o véu da ironia. 
(O ANO DO BRUXO, 2007)
(3) O jogo intertextual é um dos traços mais fascinantes da prosa de Machado de 
Assis. E, se é verdade que todo grande escritor é, antes de tudo, um leitor contu-
maz, isto se aplica perfeitamente ao nosso Bruxo, cujo intercâmbio com a literatura 
universal é um fator constituinte da natureza de seus escritos.
Há, na ficção de Machado, uma enorme enciclopédia literária, a que ele faz alu-
sões, de que faz citações (literais ou não), sempre pressupondo no leitor um 
parceiro à altura, capaz de decifrar-lhes as significações. O repertório é imenso. 
Desde Contos Fluminenses, publicado em 1869, até o último romance, Memorial 
de Aires, cuja primeira edição é de 1908, ano da morte do escritor, Machado é um 
citador incansável. (SENNA, 2008, p. 7)
Machado tem um dos epítetos mais difundidos da literatura brasileira. Talvez seja mui-
to difícil encontrar um texto sobre ele que não recorra à antonomásia “Bruxo do Cosme 
Velho” ou apenas “Bruxo”. Observe-se porém que, para quem escreve, esse apelido é uma 
alternativa a mais para se evitar a repetição do nome do romancista. Aliás, como devemos 
agir ao escrever um texto longo sobre Machado. Quais os limites para se usar o seu nome? 
E para substituí-lo? Machado e suas anáforas: “escritor carioca”, “o romancista”, “o criador 
de Capitu”, “o autor de Brás Cubas”, “o fundador da Academia”...
Por fim, vamos falar da eponímia. Passagem de antropônimo a substantivo comum, 
o epônimo costuma ser apresentado como resultado de um processo metonímico que se 
baseia numa relação de contiguidade entre nomes de pessoas e significações que não têm 
uma palavra própria para exprimi-las oupara as quais se propõe uma nova denominação. 
Essa passagem a substantivo comum não caracteriza mudança de classe, mas de subcategoria 
(substantivo próprio > substantivo comum).
Há epônimos sincrônicos, os que têm vínculos referenciais ainda muito nítidos com o 
antropônimo que lhes deu origem (amélia, arquibaldo, barbie, belzebu, camões, cupido, drácula, 
he-man*, quixote, sansão, tarzã...), e há epônimos diacrônicos, os que só podem ser assim iden-
tificados mediante uma informação histórica que contextualize sua criação a partir de um 
antropônimo (baderna, carrasco, gandula, gari, gilete, winchester...). Em ambos os casos, todas 
as palavras dos exemplos representam nomes de pessoas que viraram nomes de coisas, sen-
do pertinente falar-se que, numa língua, assim como existe o processo de “personificação” 
(exs.: o Hino Nacional, a Pátria), há também o processo de “coisificação”:
A palavra baderna, de acordo com o dicionário de Macedo Soares (apud Houaiss), 
tem origem no antropônimo Marieta Baderna, dançarina italiana que esteve no 
Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson”. Seus admiradores eram 
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
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chamados de “os badernas”; daí, por extensão, seu principal significado em nos-
sa língua: situação em que reina a desordem; confusão, bagunça. 
Já o vocábulo gandula está datado no dicionário Houaiss como de 1975. A origem 
do termo é o antropônimo Bernardo Gandulla, futebolista argentino que atuou 
num clube do Rio de Janeiro no final da década de 1930 e que tinha o hábito de 
buscar as bolas que saíam de campo. O termo expandiu-se do uso restrito do 
jogo de futebol e, hoje, se refere àquele que apanha e devolve aos jogadores as 
bolas que saem do campo durante uma partida, sobretudo de futebol. 
Finalmente, o substantivo gari, inspirado no nome Aleixo Gary, pessoa respon-
sável pela empresa à qual esteve confiado o serviço público de limpeza das ruas, 
no Rio de Janeiro. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra foi empregada pela 
primeira vez na revista Careta, em 1909. Notícia publicada no Jornal do Brasil em 
1.o de setembro de 1892 dá conta de que “foi rescindido o contrato assinado com 
os Srs. Aleixo Gary & C. para a limpeza da cidade.” (HENRIQUES, 2008c, p. 146)
As relações entre a eponímia e a antroponímia têm uma condição que as limita, pois a 
transposição de substantivo próprio para substantivo comum só ocorre mediante a atribui-
ção de um sentido impessoal ao nome próprio. E só se pode fazer essa “ponte” tomando-se 
uma certeza ou suposição a respeito do ser humano real. Assim, ao princípio metonímico 
norteador da criação de um epônimo, devemos acrescentar a possibilidade de uma interpre-
tação metafórica que justifique sua existência ou emprego.
Os epônimos, no entanto, não são criados apenas a partir de pessoas reais. Há também 
os que se inspiram em seres fictícios, como é o caso da palavra amélia (= mulher amorosa, 
passiva e serviçal), significação extraída do contexto do samba Ai! que saudades da Amélia, de 
autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago, de 1942. A canção fala de uma “mulher de verdade”, 
que “às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / Mas, quan-
do me via contrariado, dizia: Meu filho, que se há de fazer!”.
Nesses casos de epônimos de base ficcional incluem-se as referências a personagens de 
obras do cinema, do teatro, da televisão, da literatura e até da indústria de consumo. Esses 
epônimos dependem da repercussão e permanência, na cultura e/ou imaginário da socie-
dade, dos antropônimos que os originaram. Muitos têm vida curta e saem de cena tão logo 
cesse sua presença na mídia.
E, como nas relações semânticas tudo pode acontecer, a roda das significações não para 
de girar. Nosso último exemplo focaliza a possibilidade de uma palavra mudar sucessiva-
mente de sentido, primeiro por antonomásia, depois por eponímia.
Esse caso, normalmente, acontece pela situação habitual de o traço físico de alguém ser 
usado para denominá-lo (como os personagens infantis Bolinha, Cascão, João Bafo de Onça, 
Capitão Gancho...). Por causa das famosas pernas tortas de seu dono, o substantivo “garrin-
cha” eponimizou-se exatamente com esse sentido, nas referências coloquiais a pessoas que 
têm algum tipo de arqueamento nas pernas. Acontece que o jogador Garrincha recebeu esse 
apelido porque gostava de caçar passarinhos, e não porque tinha as pernas tortas. De posse 
dessas informações semânticas, fechamos o círculo:
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística132
Figura 5 – Relações semânticas do nome Garrincha.
1. garrincha
4. “garrincha” 3. pernas do 
Garrincha
2. Garrincha
Fonte: Domínio Público, divulgação UFPA e Carlos Vieira.
(1) garrincha (subst. comum = passarinho) > (2) Garrincha (subst. próprio = Manuel 
Francisco dos Santos + (3) o “craque das pernas tortas” > (4) “garrincha” (gíria, subst. co-
mum = pessoa com as pernas tortas).
1 > 2 por antonomásia 2+3 > 4 por eponímia
 Ampliando seus conhecimentos
Desenvolvimento de novas marcas
(PINHO,1996, p.19-21)
Apesar das importantes funções que o nome de marca desempenha, pouca 
atenção é dada ao seu desenvolvimento. Normalmente, a empresa dirige 
seus maiores esforços e cuidados para o planejamento de novos produtos, 
o desenvolvimento da embalagem, o estabelecimento de canais de distri-
buição, e só mais tarde acaba por descobrir que a escolha de um nome não 
apropriado pode trazer sérias dificuldades para a companhia ou até mesmo a 
retirada do produto do mercado. Por exemplo, o lançamento do cigarro Peter 
Stuveysant no Brasil fracassou devido à pouca familiaridade do consumidor 
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
9
133
com a pronúncia do nome do produto, o que não mereceu o devido cuidado 
no programa de comunicação. Outro problema comum é o nome ser ade-
quado para o mercado nacional, mas mostra-se incoveniente em outros paí-
ses, como o modelo Nova, da General Motors, que no México teve o nome 
original alterado para Caribe, pois soava em espanhol como “Não funciona”. 
Portanto, o desenvolvimento de nomes para novos produtos deve obe-
decer a um planejamento criterioso e cuidadoso. Murphy (1987: 88 – 94) 
sugere quatro etapas distintas, mas intimamente relacionadas, no pro-
cesso de desenvolvimento de marcas nominais. São elas: a definição de 
uma estratégia de marca, a determinação de temas de criação, a geração 
de nomes e a seleção final. 
1.ª Etapa – A definição da estratégia do nome de marca
A estratégia de desenvolvimento de nomes de marcas é similar ao pro-
cesso de desenvolvimento de novos produtos ou ao estabelecimento de 
estratégias de posicionamento e de propaganda. Ela envolve o levanta-
mento de informações sobre produtos e o mercado, a determinação do 
papel específico a ser cumprido pela marca registrada e o estabelecimento 
dos objetivos da marca nominal, que são essenciais para orientar toda a 
sequência de desenvolvimento de um nome forte e apropriado.
Produto – as informações dizem respeito ao conceito de produto, especi-
ficações, propriedades e formas de uso; posição no mercado; satisfações 
que vão proporcionar ao usuário e as necessidades que vão atender; sua 
relação com os produtos concorrentes; os planos de distribuição e de 
mídia; os pontos-de-venda; e o relacionamento do produto com a marca 
da companhia e com marcas registradas de produtos similares existentes.
Mercado – dados qualitativos e quantitativos de mercado, se o papel do novo 
produto e o ambiente em que será lançado são claramente compreendidos.
Marca registrada – envolve a descrição dos países, língua e culturas onde 
o regristro da marca será efetuado, para determinar se é ou não apro-
priada para os diferentes mercados; a mensagem ou mensagens que a 
marca nominal deve comunicar; a existência de marcasconcorrentes; as 
restrições ao tamanho do nome; e os atributos e qualidades fonéticas e 
gráficas que a marca deve preencher.
Objetivo do nome de marca – o gerente de produto, a alta administração, 
a agência de propaganda e o designer de embalagem devem estabelecer 
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística134
em comum os objetivos a serem cumpridos pela marca, que vão funcionar 
como elementos unificadores na escolha de um nome.
2.ª Etapa – A determinação dos temas de criação
Os temas constituem enfoques a partir dos quais serão geradas as suges-
tões de nomes para o produto ou serviço. No caso, de um automóvel, 
os nomes podem estar associados a temas como desempenho, potência, 
tecnologia, sofisticação e estilo de vida. Qualquer que seja o tema esco-
lhido, ele exercerá uma grande influência na personalidade da marca e no 
programa de comunicação a ser desenvolvido para o produto.
3.ª Etapa – A geração de nomes de marca
A partir dos temas escolhidos, o estágio seguinte é criar palavras, analo-
gias e ideias, tarefa geralmente confiada à equipe de criação, cujos par-
ticipantes serão selecionados por sua atividade, habilidades e domínio 
da língua e capacidade de trabalhar em grupo. A geração de nomes por 
computador também pode ser empregada, com base em bancos de dados 
e dicionários, já que os programas existentes para criação de nomes por 
permutação de vogais, consoantes e sílabas geram milhões de nomes, mas 
em sua maioria totalmente inúteis. 
4.ª Etapa – A seleção do nome de marca
Nesta etapa tem lugar um cuidadoso processo de seleção. Primeiramente, 
são eliminadas as palavras que apresentem dificuldades de pronúncia em 
todas as línguas, de legibilidade ou de memorização, e aquelas que não 
permitem o registro legal, sejam parecidas com as marcas dos concorren-
tes ou tenham um tamanho excessivo. A relação deve então ser submetida 
a uma checagem e comparação com as palavras de todas as línguas envol-
vidas no projeto, para verificar se não apresentam significações obscenas, 
ofensivas ou negativas.
O próximo passo é a busca de uma eventual concessão de regristro a nomes 
iguais ou similares nos países e mercados onde se pretende comercializar 
a nova marca. Todos os nomes devem ser pesquisados pelos advogados 
locais em um primeiro país a ser designado, os remanescentes seguem 
para uma busca no próximo país e assim por diante. No entanto, não é 
incomum defrontar-se no caminho com objeções aparentes, que devem 
ser checadas. Às vezes, os proprietários devem ser contatados e, em certos 
casos, é necessário negociar acordos comerciais ou conduzir investigações 
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
9
135
sigilosas para verificar se uma marca registrada está sendo usada e em 
que classes de produtos e serviços.
Neste ponto, a relação provavelmente vai estar reduzida a alguns poucos 
nomes, que devem ser testados com consumidores e hierarquizados de 
acordo com as preferências. Pode ser descrito o conceito de produtos e 
a seguir solicitado que os consumidores expressem, para cada nome em 
exame, a sua aprovação (“Gosto” ou “Não gosto”) ou que eles explicitem 
associações mais profundas, do tipo forte versus fraco, masculino versus 
feminino, caro versus barato. Por se tratar de produto ainda não disponí-
vel no mercado, é importante levar em conta as ponderações de Murphy 
(1990: 79) quanto à subjetividade das técnicas atualmente em uso: 
O teste de nomes potenciais para produtos ou serviços ainda não 
existentes é excepcionalmente difícil. Na situação da pesquisa, existe 
o perigo real de os consumidores atribuírem escores mais altos para 
nomes que soem mais familiares, rejeitando assim aqueles que são mais 
inovadores. (Tem-se discutido que, se Steve Jobs tivesse empregado 
técnicas convencionais de teste de nomes, a Apple Computadores teria 
sido chamada IRG Corporation, Compumax ou algum outro nome 
similar, pouco excitante. Também se a Revlon tivesse pesquisado a 
marca Charlie, poderia ter rejeitado este grande nome em favor de um 
nome como Fleurs de Paris ou Arc de Triomphe).
No momento da decisão final, o profissional de Marketing deve basear 
seu julgamento na sua familiaridade com o mercado, nas informações 
provenientes dos testes com consumidores, na assistência de profissionais 
de marcas e patentes e também na sua própria intuição.
 Atividades
1. Observe a letra da canção “Amor e Sexo” (RITA LEE, 2003), de Rita Lee, Roberto de 
Carvalho e Arnaldo Jabor, e faça uma tabela com duas colunas, uma para a palavra 
“sexo”, outra para a palavra “amor”. Transcreva da canção as palavras ou expres-
sões usadas pelos autores para caracterizar cada uma das duas. Ao final, interprete 
os dados recolhidos, tanto do ponto de vista conceitual quanto semântico, e respon-
da qual dos dois substantivos é apresentado de modo mais favorável na canção.
 Amor é um livro. Sexo é esporte
 Sexo é escolha. Amor é sorte
 Amor é pensamento, teorema
Relações semânticas – II9
Semântica e estilística136
 Amor é novela. Sexo é cinema
 05. Sexo é imaginação, fantasia
 Amor é prosa. Sexo é poesia
 O amor nos torna patéticos
 Sexo é uma selva de epiléticos
 Amor é cristão. Sexo é pagão
 10. Amor é latifúndio. Sexo é invasão
 Amor é divino. Sexo é animal
 Amor é bossa nova. Sexo é carnaval
 Amor é para sempre. Sexo também
 Sexo é do bom. Amor é do bem
 15. Amor sem sexo é amizade.
 Sexo sem amor é vontade.
 Amor é um. Sexo é dois 
 Sexo antes. Amor depois
 Sexo vem dos outros e vai embora.
 20. Amor vem de nós e demora.
2. Tomando por base a imagem de uma constelação que Ferdinand de Saussure empre-
gou para explicar as associações que as palavras mantêm entre si, parta da palavra 
“brancura” e forme duas séries de cinco palavras: uma apenas por razões formais, 
outra por razões morfossemânticas.
3. Complete os espaços abaixo coerentemente:
a. A palavra “eletrodoméstico” é um hiperônimo destas cinco palavras: ____________
______________________________________ .
b. Juquinha, Marina, Pedro, Tonhão e Luciana são hipônimos de ________________
_________________________________________ .
c. Meu time é conhecido pela antonomásia _________________________________
____________________________________________.
d. A definição é “a saliência da cartilagem tireoide”, o nome popular é “gogó”, mas o 
epônimo é ________________________________.
 Resolução 
1. A coluna da palavra “amor” terá os seguintes elementos: livro + sorte + pensamento 
+ teorema + novela + prosa + torna patético + cristão + latifúndio + divino + bossa 
nova + para sempre + do bem + amizade + um + depois + vem de nós + demora.
Relações semânticas – II
Semântica e estilística
9
137
 A coluna da palavra “sexo” terá: esporte + escolha + cinema + imaginação + fantasia 
+ poesia + selva de epiléticos + pagão + invasão + animal + carnaval + para sempre + do 
bom + vontade + dois + antes + vem dos outros + vai embora.
 Nenhum dos dois grupos contêm palavras que representem, necessariamente, uma 
ideia de inferioridade ou negatividade – tanto do ponto de vista conceitual quanto 
semântico. Os autores trabalharam com pares opositivos alternativos (p. ex.: esporte 
x cultura; novela x cinema; cristão x pagão; bossa nova x carnaval) e, mesmo quando 
ao final dizem que “o amor vem de nós e demora” e que “o sexo vem dos outros e vai 
embora”, nem aí é possível garantir a supremacia de um dos campos sobre o outro. 
Parece que o intuito é fazer com que nossa conclusão seja pela combinação dos dois, 
pois afinal “sexo sem amor é vontade” e “amor sem sexo é amizade”, ou seja, sexo não 
é amizade e amor não é vontade, como quem diz: melhor é amor com sexo e sexo com amor...
2. [Sugestões] Série formal, apenas com palavras que rimam com “brancura”: dentadura,formosura, segura, tortura, loucura // série morfossemântica, com palavras da mesma 
família etimológica: branco, branquear, esbranquiçar, branqueamento, branqueador.
3. 
a. [Sugestão] Geladeira, televisão, liquidificador, batedeira e enceradeira.
b. [Sugestão] Crianças.
c. [Sugestão] O Mais Querido do Brasil.
d. Pomo de adão.
Semântica e estilística 139
10
Relações Semânticas – III
Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, exa-
minando os casos de paráfrase, perífrase, ambiguidade e polissemia.
10.1 Paráfrase
Ocorre paráfrase quando um enunciado possui a mesma informação que outro 
enunciado no qual ele se inspira. Geralmente, quem parafraseia uma sentença, um 
parágrafo (ou mesmo um texto) executa uma tarefa de reescritura no âmbito do léxico 
e da morfossintaxe, e não deveria comprometer o teor informativo, descritivo ou opi-
nativo do texto original.
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística140
Para- (proximidade) + Frase (elocução)
É, no entanto, improvável que uma paráfrase não deixe de apresentar alguma marca 
estilística ou ideológica de seu autor, que escolhe novos verbos, adjetivos, procura sinôni-
mos, inverte sintagmas, muda os focos dos enunciados. Tudo isso tem alguma consequência 
pragmática, discursiva, sendo possível inclusive que o texto parafraseado fique melhor do 
que o original.
Os dois pequenos parágrafos abaixo contêm um texto de divulgação. Um deles é o ori-
ginal, o outro é a paráfrase:
1. Às vésperas de completar 36 anos, Júlia decide ser mãe solteira. Assim começam 
nove meses de estudos, pesquisas e leitura de publicações especializadas. Em Perto 
do Ninho, Lídia Zoitman, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, mos-
tra que domina a arte do romance de humor e que conhece bem a alquimia do riso.
2. Júlia resolve ser mãe solteira quando está prestes a completar 36 anos. Serão nove 
meses estudando, pesquisando e lendo matérias especializadas no assunto. Lídia 
Zoitman, um dos destaques da literatura atual, mostra em Perto do Ninho que o 
romance de humor é uma de suas especialidades e que a química do riso está na 
sua veia de escritora.
Qual é o original? Qual é a paráfrase? Não é preciso responder, pois o objetivo aqui 
é mostrar que o trabalho de reescrever/repetir o que outra pessoa já disse é uma operação 
comum – e não representa falsidade ideológica, pois nos casos científicos e acadêmicos o 
recurso precisa estar devidamente acompanhado dos créditos de autoria (segundo Bakhtin... 
de acordo com Bechara... para Fiorin...).
Agora, voltemos ao parágrafo do exemplo e imaginemos que a tarefa é reescrever a 
mesma informação para publicar numa revista jovem. A paráfrase vai ter de ser diferente, 
escolhendo palavras que pareçam mais adequadas aos leitores da revista:
3. Júlia já passou dos 35 e quer arranjar um filho numa produção independente. Vai 
ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar sobre gravidez e parto. Essa é a 
história que Lídia Zoitman escreveu em Perto do Ninho. Ela é uma fera da literatura 
atual, saca tudo de romance de humor e escreve de um jeito bem maneiro.
Os exemplos (1-3) mostram que há variados recursos a serem empregados cumulativa 
e simultaneamente na construção de trechos, períodos ou parágrafos inteiros parafraseados. 
Como mostra Ilari (2001, p. 140-61), uma parte desses recursos consiste em aplicar transfor-
mações de caráter sintático, e outra parte depende do conhecimento do léxico e da capacida-
de de percepção das equivalências de palavras e construções.
Vamos examinar, resumidamente, algumas das estratégias de redação contidas nos 
exemplos dados:
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
141
Quadro 1 – Estratégias de redação.
Exemplo (1) Exemplo (2) Exemplo (3)
Às vésperas de com-
pletar 36 anos prestes a completar 36 anos já passou dos 35
Júlia decide ser mãe solteira Júlia resolve ser mãe solteira
Júlia quer arranjar um 
filho numa produ-
ção independente
Assim começam nove 
meses de estudos, pes-
quisas e leituras
Serão nove meses estudan-
do, pesquisando e lendo
Vai ter que ralar nove meses 
traçando tudo que pintar
um dos grandes nomes da 
literatura contemporânea
um dos destaques da 
literatura atual uma fera da literatura atual
Fonte: Elaborado pelo autor.
As mudanças podem ser apenas de palavra por palavra (decide X resolve) ou de locução 
por locução (às vésperas de X prestes a), mas também podem ser morfossintáticas (meses de 
estudo, pesquisas e leituras X meses estudando, pesquisando e lendo) ou simplesmente sintáticas (o 
exemplo 1 começa com o predicador da idade de Júlia X os exemplos 2 e 3 começam com o sujeito da 
oração). No caso do texto (3), o dado que se sobressai tem ainda um outro componente, a que 
chamaremos de “tom”. A paráfrase, nesse caso, depende do domínio de um outro recurso, 
além dos dois mencionados por Ilari. A equivalência de palavras e construções, em (3), é 
léxico-semântica e morfossintática, mas não é pragmático-discursiva, já que o vocabulário 
agora é mais coloquial, íntimo, jovem. Ele precisa estar adequado ao público a que se destina 
a informação sobre o livro escrito por uma “fera” da literatura – observe que, na minha frase, 
a palavra está entre aspas, mas no parágrafo hipotético da revista, ela não precisaria desse recurso 
gráfico, pois ali a gíria da juventude e o coloquialismo são o tom de redação esperado.
A paráfrase também pode ser usada como um elemento de sequenciação textual e tem 
por finalidade repetir com outras palavras o que o próprio texto disse. Nesse caso, a língua 
oferece certas expressões introdutórias típicas, como “isto é / ou seja / quer dizer / em outras 
palavras / em resumo / em síntese / em suma / ou melhor / explicando melhor”.
(4) A cultura da elite engrandece personagens que na sua maioria não significaram 
nada para o país, mas que, por um fato considerado importante pela elite do-
minante, passou a ser um herói. Em outras palavras, a elite cria heróis ou fatos 
culturais que atendam às suas necessidades e que conduzam o povo a uma falsa 
admiração. (FOLHA DE IRATI, 2008)
(5) Nos lares, nas ruas, nas cidades, por todos os lugares triunfam as nulidades, 
prospera a desonra, reina a corrupção, crescem as injustiças, multiplica-se a vio-
lência bestial, agiganta-se o poder dos maus. Em resumo, o mal está vencendo o 
bem de mil a zero. Só não vê quem não quer. (KHAREIS, 2008)
(6) Um sinal de que a situação econômica das famílias está se degradando é o fato 
de que também aumentam as situações em que o casal trabalha sem que seu ren-
dimento mensal seja suficiente para suportar as despesas de habitação, alimen-
tação e educação dos filhos. Em suma, a situação econômica de algumas famílias 
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística142
está piorando, e os serviços públicos preveem que no próximo ano letivo aumen-
tem os pedidos de auxílio econômico escolar. (JORNAL DA BATALHA, 2008)
Os três recortes de matérias de jornal mostram como o trecho que está à direita da expressão 
destacada repete (por condensação, reiteração ou reajuste informacional) o que foi dito antes.
10.2 Perífrase
Ao se escrever um texto, eventualmente é preciso praticar uma ação de prolongamento 
frasal. Esse recurso pode ser empregado por uma simples necessidade retórica de “não se 
ir direto ao assunto”, mas também pode ser um vício de linguagem, caracterizando um 
uso excessivo de palavras na construção de um enunciado que não chega a ser expresso 
totalmente ou com clareza. Nesse caso, o efeito vira defeito, e o que poderia ser uma boa 
estratégia de redação se transforma num fiasco, chamado na linguagem polida de “rodeio” 
e popularmente de “enchimento de linguiça”.
Peri- (em torno de) + Frase (elocução)
Quando a técnica é bem-sucedida, dizemos que há uma perífraseexpressiva; quando é 
um problema textual, dizemos que há uma perífrase viciosa ou um circunlóquio. Vejamos 
alguns exemplos:
7. Convidamos a redação dos cadernos de cultura desse prestigioso jornal para um 
projeto intercultural de teatro contemporâneo em nossa cidade. Buscando a visibi-
lidade como instrumento de nossa sustentabilidade, pedimos o apoio fundamental 
da imprensa.
8. Na sua multipluralidade significativa, a unidade da língua escrita situada entre 
dois espaços em branco muitas vezes vacila ao posicionar-se definitoriamente na 
conceituação que expõe numa folha de papel.
Há um circunlóquio na segunda frase do exemplo (7), que poderia dizer apenas: 
“Pedimos o seu apoio na divulgação”, ou seja, “Divulguem senão vai ser um fracasso”. O 
mesmo acontece em (8). Será que “a unidade da língua escrita situada entre dois espaços em 
branco” não poderia ser apenas “palavra”? No caso de “multipluralidade significativa”, o 
interessante é uso hiperbólico do prefixo multi-, pois “pluralidade” já é algo múltiplo. Por 
fim, “ao posicionar-se definitoriamente na conceituação que expõe numa folha de papel” 
ficaria bem mais claro se fosse apenas “ao tentar definir um conceito”.
9. Hoje, às oito horas, terá início, em todo o território nacional, a colheita de votos na 
maior e mais importante consulta popular de toda a história republicana. Dos 11 
milhões de eleitores inscritos esperam os partidos que compareçam às urnas um 
mínimo de 8 milhões, em todo o país. Observadores extrapartidários consideram, 
entretanto, esses cálculos com algum pessimismo, levando em conta, sobretudo, a 
circunstância de não ter sido declarado feriado o dia de hoje.
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
143
10. A obra ceciliana é, ao mesmo tempo, universal e atemporal, porque pertence ao 
seleto grupo de autores que se sobrepõem ao seu tempo e a todos os tempos, e sua 
obra se eterniza. Emprega o português clássico e usa com o mesmo desembaraço 
metros e rimas variados.
11. Não falte com a verdade, menina. Não é porque seu pai entregou finalmente a alma 
ao Criador que vamos esquecer que ele enriqueceu por meios ilícitos.
12. Quero que o senhor indique qual é o lado maior desse triângulo retângulo.
O exemplo (9) é a transcrição de uma notícia publicada no dia 3 de outubro de 1950, 
data em que haveria “a colheita de votos” (eleição) “na maior e mais importante consulta po-
pular de toda a história republicana” (para Presidente da República). A linguagem jornalística 
da época era dada a perífrases, como também se percebe no longo objeto direto que encerra 
o parágrafo. Em (10), o texto acadêmico enaltece as qualidades de Cecília Meireles com um 
texto de tamanho ampliado. Se fosse para dizer o mesmo em poucas palavras, bastaria es-
crever “Cecília Meireles é uma ótima escritora, e sua obra é eterna”.
Em (9-10), a perífrase expressiva foi usada para valorizar o texto, mas há casos em que 
ela pode ocorrer para suavizar uma ideia mais forte, como em (11), onde as três perífrases 
são por eufemismo: Não minta, menina. Não é porque seu pai morreu que vamos esquecer que ele 
foi um ladrão. Ou para tornar mais claro o entendimento, como em (12), onde não se usou o 
termo técnico “hipotenusa”.
Vimos até aqui exemplos de perífrase lexical, em que o conceito a ser transmitido acon-
tece por meio de uma expressão ou frase inteira, mas há também a perífrase morfológica, 
apresentada sob a forma de locução. Nesse caso, o vocábulo da esquerda é o auxiliar grama-
tical, e o vocábulo principal concentra o significado lexical. As conjugações perifrásticas (lo-
cuções cujo auxiliar não conserva sua significação verbal), as locuções adjetivas e as locuções 
adverbiais são alguns desses casos.
13. Lecionei numa escola do subúrbio, mas gostava de ver como os alunos estudavam 
com empenho.
Em (13), empregou-se a locução adjetiva “do subúrbio” em lugar de “suburbano” e 
a locução adverbial “com empenho” em lugar de “empenhadamente”. O exemplo mostra 
que, as perífrases morfológicas têm uma finalidade diferente da que vimos nas perífrases 
lexicais, pois não há nenhuma das três mencionadas justificativas que vimos em (9-12).
Quanto às conjugações perifrásticas, basta que nos lembremos dos seguintes tipos de 
locuções verbais do português:
• verbo ter ou haver + particípio = tempo composto [tinham ou haviam saído];
• verbo ser ou estar + particípio de verbo transitivo direto = voz passiva [era, estava 
ou ficava cercado pelos alunos];
• verbo ir + infinitivo = aspecto aproximativo de ação ou estado [ia falar / vai ser];
• verbo estar + gerúndio (ou preposição “a” + infinitivo) = aspecto durativo [estou 
escrevendo ou a escrever];
• verbo ir (sem indicar ação) + gerúndio = aspecto durativo [vou escrevendo].
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística144
Os casos descritos excluem as locuções cujo auxiliar conserva sua significação verbal. 
Não há perífrase em locuções como “fomos conversando até o aeroporto”, “preciso sair”, 
“temos de conversar” etc.
10.3 Ambiguidade e polissemia
A ambiguidade ocorre quando há duplo sentido. Isso significa que ela não é necessaria-
mente um vício de linguagem, pois muitas vezes a usamos intencionalmente. Os textos de 
humor e de publicidade, por exemplo, lidam com a ambiguidade para atingir seus objetivos.
14. Quando eu era criança, todo mundo na minha casa tinha medo de “untar”. Era só 
chegar “untar” de cobrador que a tristeza tomava conta da tropa.
15. Pare de reclamar. Nunca mais você verá o seu carro sujo... Ele acaba de ser roubado!
16. Vende-se cama de solteiro dobrável... Depois que a pessoa casa, fica mais difícil de dobrar.
17. 
— Pedrinho, diga quanto é o dobro de dois mais dois?
— É oito, professora.
— É seis, Joãozinho.
— Como assim, professora?.
— O dobro de dois é quatro; mais dois dá seis. Vê se presta mais atenção da pró-
xima vez!
18. Conselho útil: A sua mãe disse que o seu jantar vai ser servido na mesa do seu quar-
to? Nessa hora só me resta perguntar: quem tem uma mesa no quarto, você ou ela?
19. “LINDA E SEM ROUPA”, diz a frase principal de um comercial de máquina de 
lavar roupa.
Figura 1 – Comercial de lavadora.
Fonte: Domínio público.
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
145
20. “De manhã... cedo; de tarde... cedo; de noite... cedo. Eu também estou solidário com 
a campanha de educação no trânsito” é a legenda de um prospecto do Departamento 
de Trânsito, cujo slogan é “Dirija sem violência, tenha fair-play ao volante”.
21. “O mundo todo só fala nele” – é a chamada de um comercial de telefone celular.
Como lembra Ullmann (1964, p. 323), “a ambiguidade é uma situação linguística que 
pode surgir por vários modos”, mas que do ponto de vista puramente linguístico pode ocor-
rer por razões fonéticas, gramaticais ou lexicais – mas acrescentamos: sempre no ambiente 
pragmático-discursivo.
A ambiguidade fonética, obviamente, restringe-se à língua falada e ocorre geralmen-
te pelas coincidências que podem existir entre palavras fonéticas e palavras ortográficas, 
como se vê em (14), onde “untar” é combinação de “um+tal”. Na ambiguidade gramatical, é 
possível encontrar uma combinação de palavras apta a gerar dupla interpretação, como em 
(15-17), ou então ocorrer um emprego de palavra que, por admitir mais de uma referência 
gramatical, também pode criar confusão, como se vê em (18) com o possessivo ambíguo. Na 
frase (19) a duplicidade de compreensão não é concomitante, pois a chamada do comercial 
parece associar os dois sintagmas a uma figura de mulher. Porém, como no português o 
gênero feminino não é prerrogativa de seres humanos, o entendimento inicial fica diluído 
quando se lê a frase seguinte, revelando que linda é a máquina de lavar.
Os exemplos (19-21) mostram a ambiguidade lexical, feita em virtude da existência decasos de homonímia (20) e de polissemia (21) na língua. No caso de “cedo”, explorando-se a 
homonímia entre o advérbio de tempo e o indicativo do verbo. O recurso tem sucesso por-
que a frase do comercial começa com um par de termos que admite a duplicidade de com-
preensão: de manhã cedo X de manhã, eu cedo. Nos dois trechos seguintes, isso não é possível, 
pois não se diz o advérbio “cedo” junto das locuções “de tarde” e “de noite”. Na frase (21), 
“falar” é a fonte da ambiguidade, pois tanto pode ser usado literalmente (= conversar, fazer 
ligações telefônicas) como em sentido figurado (= comentar com intensidade).
Para que haja homonímia, é preciso haver mais de uma palavra (como em “cedo”, o ad-
vérbio de tempo e a flexão do verbo). Para que haja polissemia, só pode haver uma palavra 
(como em “falar”, com dois significados interligados a partir de uma única base semântica). 
Com isso chegamos a uma outra questão que envolve a polissemia, a continuidade de senti-
dos que uma palavra pode assumir (na homonímia, há descontinuidade).
Ullmann (1964, p. 331) diz que “a polissemia é um traço fundamental da fala humana, 
que pode surgir de maneiras múltiplas” e cita as fontes que poderiam explicitar esse fenô-
meno em uma língua. Adaptando-as um pouco à língua portuguesa, ei-las:
• Mudanças de aplicação – um determinado item lexical pode expandir sua quanti-
dade de sentidos graças ao emprego que ele abarca num determinado contexto de 
uso. Às vezes essas ramificações semânticas ocorrem em função do funcionamento 
da palavra na frase, como ocorre muito com os adjetivos. Em português podemos 
dizer que o adjetivo “belo” é sinônimo de “lindo” e significa “dotado de formas 
e proporções esteticamente harmônicas”, tendo como antônimo o adjetivo “feio”. 
Mas, quando dizemos que uma pessoa apareceu um belo dia na nossa casa ou que 
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística146
vamos receber um belo aumento de salário, não haverá risco de alguém pensar que 
“belo dia” é o mesmo que “bonito dia” ou que um “belo aumento” é o contrário 
de “feio aumento”.
• Especialização num meio social – um item lexical pode adquirir um certo número 
de significados específicos, cada qual aplicável em determinado campo de ação 
e atuação. A palavra “cadeira”, num ambiente acadêmico, não significa apenas 
“peça do mobiliário”, mas pode ser um sinônimo de “disciplina”, palavra que 
também tem um sentido restrito ao meio escolar, onde quer dizer “matéria de en-
sino”, diferente do significado comum de “obediência às regras e aos superiores”.
• Linguagem figurada – um item lexical pode assumir um ou mais sentidos figura-
dos, que coexistem lado a lado sem se confundirem e sem haver a perda do seu 
significado original. Aqui as novas acepções ocorrem por ação da metáfora ou 
da metonímia, figuras fundamentais para a atividade da língua. Na linguagem 
contemporânea, a palavra “monstro” assumiu o papel de qualificador positivo 
(liquidação monstro, comício monstro), e o verbo “chutar” expandiu seu uso no jargão 
esportivo e pode ser usado quando um jogador de basquete arremessa (= chuta) 
uma bola para a cesta: ambos por metáfora. Uma acepção nova, por metonímia, 
aconteceu com a palavra “trilha”, usada para representar a música que toca num 
filme ou numa novela: a “trilha” e o “trilho”, confundidos com os sulcos dos an-
tigos discos de vinil, passam a representar a música que passa por esses trilhos, 
trilhas ou sulcos.
• Parônimos reinterpretados – dois itens lexicais de som semelhante e de significação 
diferente (de fato ou supostamente) tendem a ser considerados uma única palavra 
com dois sentidos ou então passam a ser duas palavras com uma única pronúncia. Ou 
seja, mudam do grupo da paronímia para o da polissemia (uma palavra com dois sen-
tidos) ou o da homonímia (duas palavras com uma pronúncia), conforme o caso. É o 
que se chama “etimologia popular”. Assim, “fusível” vira “fuzil”, “fígado” vira “figo” 
(criando homonímias, pois os significados não são aproximáveis) e o verbo “soltar” 
assume o significado de “soltar” quando uma pessoa diz que vai “soltar do ônibus” 
(nesse caso, há polissemia, pois a significação dos dois verbos é aproximável).
• Influência estrangeira – um item lexical já existente na língua sofre influência da 
importação do significado de uma palavra estrangeira, o que cria a coexistência 
dos dois significados, o antigo e o novo, e origina a polissemia. O substantivo 
“cachorro” é, hoje, no português, sinônimo de um tipo de sanduíche de salsicha, 
acepção oriunda da importação do anglicismo “hot-dog”.
De todo modo, pode-se dizer que a polissemia é um fenômeno bastante comum numa 
língua, servindo como um fator de economia e de flexibilidade para o léxico. Como lembra 
Ilari (2002, p.151), a polissemia “afeta a maioria das construções gramaticais”. Seu exem-
plo mostra o caso do aumentativo dos nomes, como acontece com a palavra “Paulão”. As 
razões para que alguém seja assim chamado podem ser muitas: “porque é alto, porque é 
grande, porque é grosseiro, porque é desajeitado, porque é uma pessoa com quem todos 
se sentem à vontade.” Como conclui Ilari, é mesmo “difícil dizer até que ponto vale cada 
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
147
uma dessas explicações”, já que “da ideia de tamanho passa-se à de um certo modo de ser 
e de relacionar-se.”
Se procurarmos no âmbito morfossintático, também encontraremos a polissemia, res-
ponsável por alterações na regência de alguns verbos. Foi a aproximação dos sentidos de 
verbos como “demorar”, “custar” e “faltar” que fez com que se identificassem suas regên-
cias, pelo menos na linguagem do cotidiano.
22. (Ela) demorou a fazer um sinal para nós.
23. (Ela) custou a fazer um sinal para nós [em vez de Custou-lhe fazer um sinal para 
nós./ Custou a ela fazer um sinal para nós].
24. (Ela) faltou fazer um sinal para nós [em vez de Faltou-lhe fazer um sinal para nós / 
Faltou a ela fazer um sinal para nós].
Os três verbos parece que assumiram os significados uns dos outros, ou seja, cada 
um ganhou uma nova acepção, a qual está em processo de incorporação à língua padrão 
(HENRIQUES, 2008c, p. 49). Como mostram esses exemplos,
[...] uma análise voltada para a variação dos meios ou dos modos de expressão de 
significados semelhantes leva à percepção de que os fenômenos de transferência 
de significado envolvem tanto a seleção lexical quanto a seleção de estruturas dis-
cursivas que são utilizadas metáforas ou metonímias. (MARQUES, 1990, p. 158)
A conclusão a que se chega nos estudos semânticos é que, dentro dos mecanismos em 
uso na estruturação da língua, as redes de significação do léxico geral estão sempre em con-
dições de estabelecer uma conexão de sentido. Cabe ao falante colocar em funcionamento 
esse sistema que está à disposição de todos os membros de uma comunidade idiomática. Ao 
estudioso compete observar, descrever, interpretar e analisar – semanticamente também.
 Ampliando seus conhecimentos
De quando o povo modifica o povo: a 
etimologia popular influenciando a vida de 
toda uma comunidade 
(SIQUEIRA, 2008, p. 1)
Cidade Ocian é um dos trinta e dois bairros do município de Praia Grande 
(SP). O local como hoje se conhece tem suas origens datadas da década de 
1950, impulsionadas pela construção de 22 prédios, num total de aproxi-
madamente 1 600 apartamentos e é hoje um dos bairros mais importantes 
de Praia Grande, com mais de 10 mil moradores, cerca de 4% da atual 
população do município que, em 2008, tinha cerca de 250 mil habitantes.
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística148
Esta grandiosa obra, inaugurada em 27 de maio de 1956, quando Praia 
Grande ainda pertencia a São Vicente (desmembrou-se em 19 de janeiro 
de 1967), foi considerada até 1960, ano de fundação de Brasília, “a cidade 
mais bem planejada” e “a estrutura urbanamais moderna do Brasil”, 
como afirma o número 28 do Informativo Cultural da Associação Centro 
de Estudos Amazônicos de Praia Grande, de abril de 1980.
Figura 1 – Edificações.
Fonte: Prefeitura Municipal de Praia Grande.
O conjunto de edificações (figura 01) e, por consequência, todo o bairro 
ganharam a alcunha de “Cidade Ocian” devido à infraestrutura, que não 
era encontrada nem mesmo em cidades emancipadas, e à sigla OCIAN da 
empresa responsável pela execução da obra, a Organização Construtora e 
Incorporadora Andraus (figura 2).
Figura 2 – Transporte.
 
Fonte: Prefeitura Municipal de Praia Grande.
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
149
A Cidade Ocian tinha – e ainda tem, mais de 50 anos depois de sua inaugu-
ração – como seu símbolo-maior a estátua de Netuno, localizada (figura 3) 
defronte à atual praça Roberto Andraus e ao Espaço Ocian.
[...] O tempo passa, os mais velhos se vão e deixam seus lugares aos mais 
jovens. Muitas vezes, nessas idas e vindas, a história se perde. Alguns anos 
depois de sua fundação, o bairro passou a ser grafado, nos mais diversos 
locais, como Cidade Ocean ou, simplesmente, Ocean (figuras 4 e 5).
Temos aí um caso típico de etimologia popular, que se deu no âmbito 
vocabular, pois a alteração se concretiza apenas na grafia e não na foné-
tica. As razões estão intimamente ligadas à forte presença da estátua de 
Netuno – marco que presenciou a comemoração de muitas conquistas 
do município, como a vitória do plebiscito pró-emancipação político-ad-
ministrativa, em 1963, quando muitas pessoas se reuniram em volta do 
Netuno, festejando o fato entusiasticamente. Além disso, trata-se de um 
bairro praiano (é bom lembrar que “ocean” significa “oceano”, em inglês).
Figura 3 – Netuno.
Fonte: Domínio público.
Há ainda de se ressaltar que o nome de um dos logradouros mais impor-
tantes da Cidade Ocian é a Rua Oceânica Amábile (figura 6), situada para-
lelamente às avenidas D. Pedro II e Vicente de Carvalho, principal corre-
dor comercial do bairro.
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística150
Figura 4 – Banca Ocean.
Fonte: Domínio público.
Figura 5 – Grafia.
Fonte: Domínio público.
[...] A grafia “Ocean” também é encontrada em muitas propagandas e 
anúncios (figura 5), sendo curioso observar como são detectadas as duas 
formas num mesmo impresso comercial, o que permite deduzir que há 
uma convivência entre elas e que ambas permitem plenamente a mesma 
recepção. [...] A presença maciça da grafia com “e” em vez de “i” (Ocean) 
é bastante percebida em websites, chats e páginas de relacionamento da 
internet. Muito provavelmente, isso se deve ao fato de os internautas 
moradores de Ocian desconhecerem a história oficial do bairro, ou terem 
sofrido influência, desde a infância, da variante irregular, só reconhe-
cendo essa grafia por julgarem-na padrão.
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
151
Figura 6 – Mapa.
Fonte: Google Maps.
Mesmo com o esforço do poder público de, ao longo dos anos, vir substi-
tuindo placas grafadas erroneamente, com o intuito de divulgar o nome 
e a história oficiais da Cidade Ocian, só o tempo poderá elucidar qual a 
forma que haverá de prevalecer, com Netuno a espreitar a sucessão de 
acontecimentos desse dilema.
 Atividades
1. Por não existir como reproduzir a entonação, frases imperativas podem gerar mal-
-entendidos. Redija quatro frases que exemplifiquem o emprego do modo impera-
tivo exprimindo ideias de ordem, conselho, convite, pedido. Depois interprete cada 
uma delas e explique as possíveis ambiguidades discursivo-pragmáticas.
2. Complete as lacunas coerentemente.
a. “Palmeiras joga com o Bahia no seu campo” – a manchete do jornal contém ambi-
guidade porque ___________________________________________________
_______________________________________________________________ .
b. O jornalista recebe a tarefa de escrever uma coluna para a revista. O espaço é limita-
do em algo equivalente a uma folha de caderno, mas o tema é amplo: A História da 
República no Brasil… Uma das coisas que, com certeza, o jornalista vai fazer é evitar 
as perífrases, pois __________________________________________________
________________________________________________________________
_______________________________________________________________ .
Relações Semânticas – III10
Semântica e estilística152
c. Uma frase solta como “vou deitar e rolar” pode servir para ilustrar a diferença entre 
a linguagem literal e a linguagem __________________________________ . Na 
primeira hipótese, a expressão significa __________________________________
__________________________________ ; na segunda, ___________________
_______________________________________________________________.
d. O jornal diz: “O escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio 
Nobel de literatura em 1982, publicará antes do fim de 2008 um novo livro sobre o 
amor.” Se quiséssemos reescrever essa frase aumentando consideravelmente seu tama-
nho, um dos resultados poderia ser: _____________________________________
________________________________________________________________
_______________________________________________________________ .
3. Para Barbosa (1996, p. 245-249), um item lexical polissêmico é aquele que preserva 
uma unidade de significado, isto é, a sua unidade é garantida pelo núcleo semântico 
comum aos múltiplos setores de traços semânticos. Com efeito, esse núcleo comum 
é que permite ao falante identificar um único signo linguístico em suas diferentes 
realizações no discurso.
4. A partir dessas considerações, reconheça, entre as frases abaixo, aquelas que contêm 
no par destacado um exemplo de polissemia.
a. Não beberei suas palavras nem brindarei às suas ideias.
b. Parto sem dor para fazer o parto do meu amor.
c. Não me compete decidir quem poderá competir nas Olimpíadas.
d. A roupa de quem está no xadrez não devia ser listrada, mas xadrez.
e. À noite, não use o farol alto quando passar por algum cruzamento com farol.
f. “Sonhei que estava sonhando e que no meu sonho havia um outro sonho esculpido”. 
(Drummond)
g. “A morte não existe para os mortos.” (Drummond)
h. “Esse amanhecer mais noite que a noite.” (Drummond) 
 Resolução 
1. [Resposta-guia] Ordem: Saia da minha frente imediatamente! / Conselho: Tenha cui-
dado quando falar com ela. / Convite: Venha e traga sua família. / Pedido: Por favor, 
leve a mochila da sua irmã.
 As frases sugeridas minimizaram os riscos de ambiguidade porque continham ele-
mentos auxiliares que favoreciam a compreensão da ordem, do conselho, do convite 
ou do pedido. Mas nada impede que uma frase que comece com “por favor” seja dita 
num tom de voz autoritário e signifique na prática uma ordem e não um pedido. Ou 
que a frase “Saia da minha frente”, em vez de ordem contenha um apelo desespera-
do de alguém que corre em busca de socorro num hospital.
Relações Semânticas – III
Semântica e estilística
10
153
2. 
a. ... porque o possessivo tanto pode se referir ao campo do Palmeiras como ao do Bahia.
b. ... pois o conteúdo proposto é excessivo e não haverá necessidade de “esticar” o tamanho 
das frases.
c. ...diferença entre a linguagem literal e a linguagem coloquial. Na primeira hipótese, 
“vou deitar e rolar” pode se referir a alguém que está numa praia e brinca de deitar e rolar 
na areia; na segunda, é sinônimo de aproveitar bastante alguma coisa.
d. [sugestão] O renomado e conhecido escritor e pensador colombiano Gabriel García 
Márquez, autor do aclamado romance Cem Anos de Solidão e ganhador do prêmio 
Nobel de literatura em 1982, publicará antes do final do ano de 2008 um novo livro 
sobre o amor, que irá se juntar a outros títulos como O Amor nos Tempos do Cólera e 
Do Amor e Outros demônios.
3. a) (não)verbos diferentes, embora do mesmo campo conceitual / b) (não) palavras 
homônimas / c) (sim) competir = caber (1) e concorrer (2) / d) (sim) xadrez = cadeia 
(1) e com desenhos quadriculados (2) / e) (sim) farol = lanterna de automóvel (1) e 
sinal de trânsito (2) / f) (não) verbo sonhar = visualizar, durante o sono, imagens, pes-
soas (1) e (2) // (não) substantivo sonho = ação de sonhar (3) e (4) / g) (não) palavras 
diferentes, embora da mesma família etimológica. / h) (sim) noite = desesperança, 
escuridão (1) e espaço de tempo entre o ocaso e o nascer do sol (2).
Semântica e estilística 155
11
Características do texto 
ficcional
Este capítulo tem por objetivo apresentar as características do texto ficcional e 
explicar os conceitos de narratividade, descritividade e argumentatividade.
11.1 Ficção e verossimilhança
A palavra ficção se opõe à palavra realidade.
No nosso dia a dia, usamos a palavra ficção não apenas para nos referirmos às 
manifestações artísticas que têm natureza ficcional, como filmes, novelas, contos e 
romances. Também a usamos com os significados de:
• Ficção:
 Ato ou efeito de fingir; simulação, fingimento. 
 Criação ou invenção de coisas imaginárias; fantasia. (FERREIRA, 2004)
Por outro lado, a palavra realidade nos remete a fatos concretos e tem os signifi-
cados de:
• Realidade:
 Qualidade do que é verdadeiro. 
 Aquilo que existe efetivamente. (FERREIRA, 2004)
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística156
O adjetivo ficcional, quando aplicado a textos literários, não tem nenhuma carga pejorati-
va, pois se trata de um termo técnico usado nos estudos de literatura. Além disso, essa dicoto-
mia entre ficção e realidade não é excludente. Quantas vezes não vivemos em nossa realidade 
situações tipicamente fictícias? E na literatura ou no cinema quantas vezes não nos deparamos 
com histórias criadas a partir de situações, fatos e indivíduos extraídos da vida real?
Mas, para se compreender um texto, há um pressuposto elementar: é preciso identificar 
o que se lê, e esse processo de identificação só pode ser feito a partir das experiências de 
mundo que o leitor possui. Por esse motivo, mesmo no tipo de texto literário que se chama 
“ficção científica”, por mais fantasiosa e incrível que a obra se apresente, ela terá sempre 
traços da realidade. Afinal, não é possível se contar uma história que não tenha nem um 
componente do mundo real.
Se os personagens representam pessoas, “pessoas” remete ao mundo real. Se os perso-
nagens não são pessoas, certamente eles se comunicam por meio de palavras, gestos ou pen-
samentos, o que também remete ao mundo real. Se existe algum cenário na obra de ficção 
ou se não existe cenário, isso também remete ao mundo real pelas visões e conhecimentos 
de mundo que são pré-requisitos para que se compreenda um texto.
No texto ficcional, o autor cria um mundo na sua imaginação. Um trecho do quinto ca-
pítulo do romance O Ateneu, de Raul Pompeia (1976, p. 85), pode nos ajudar a explicar isso 
mais objetivamente.
Íamos à missa aos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o diretor os visse 
atentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me o espírito para o alto e ade-
rir à abobada como as decorações sagradas, ajustar-me estreitamente aos detalhes 
da arquitetura do templo como o ouro sutil dos douradores, conservar-se lá em 
cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso do céu como a baforada dos turíbulos.
Havia acessos comunicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não tossia. 
Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal dominadas por um olhar 
de Aristarco, de joelhos à frente do colégio, e mãos cruzadas sobre o castão do 
unicórnio, como certa vez que um cão brejeiro e sem princípios, mesmo ao ele-
var-se a santa Partícula, entrou e escapou-se com o casquete de um fiel contrito. 
Eu resistia ao riso.
Em O Ateneu, Sérgio é o nome do narrador em primeira pessoa que nos conta a história 
dos dois anos que foi obrigado a passar num internato por determinação de seu pai. A cena 
transcrita descreve alguns acontecimentos das missas dominicais e mostra traços dos perso-
nagens, como o autoritarismo do professor Aristarco, diretor do colégio, e o comportamento 
das crianças.
O romance de Raul Pompeia tematiza o drama da solidão e o desajuste de um indiví-
duo em relação ao meio em que vive. É uma obra de ficção com características apegadas à 
realidade e exemplifica o que se pode chamar de verossimilhança do texto ficcional.
Verossímil = vero (verdadeiro) + simil (semelhante)
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
157
Podemos falar em duas modalidades ou formas principais de verossimilhança. Uma 
delas acontece no interior do próprio texto literário, a partir da observação de que há coerên-
cia interna entre as partes constitutivas da narrativa (verossimilhança interna). Outra exami-
na as eventuais relações que há entre a estrutura do discurso narrativo e os demais discursos 
encontráveis na sociedade (verossimilhança externa). Em outras palavras, pode-se dizer que 
nem toda verossimilhança interna corresponde necessariamente a uma verossimilhança ex-
terna, pois existe uma realidade imaginada pelo escritor não necessariamente reduplicadora 
da realidade existente no mundo concreto e exterior à literatura.
Podemos exemplificar isso com um trecho do conto “Os Cavalinhos de Platiplanto”, de 
José J. Veiga (1972, p. 34).
Os cavalos não podiam sair dali, ninguém tinha poder para tirá-los. Se alguém 
algum dia conseguisse levar um para outro lugar, ele virava mosquito e voltava 
voando. Passamos o portão e entramos num pátio parecido com largo de cava-
lhada, até arquibancadas tinha, só que no meio, em vez de gramado, tinha era 
uma piscina de ladrilhos de água muito limpa.
De repente a assistência soltou uma exclamação de surpresa, como se tivesse 
ensaiado antes. Meninos pulavam e gritavam, puxavam os braços de quem esti-
vesse perto, as meninas levantavam-se e sentavam batendo palminhas. Do meio 
das árvores, iam aparecendo cavalinhos de todas as cores, pouco maiores do 
que um bezerro pequeno, vinham empinadinhos marchando, de vez em quando 
olhavam uns para os outros como para comentar a bonita figura que estavam 
fazendo. Quando chegaram à beira da piscina estacaram todos ao mesmo tem-
po como soldados na parada. Depois um deles, um vermelhinho, empinou-se, 
rinchou e começou um trote dançado, que os outros imitaram, parando de vez 
em quando para fazer mesuras à assistência. O trote foi aumentando de veloci-
dade, aumentando aumentando, e daí a pouco a gente só via um risco colorido 
e ouvia um zumbido como de zorra. Isso durou algum tempo, até eu pensei que 
os cavalinhos tinham se sumido no ar para sempre, quando então o zumbido foi 
morrendo, as cores foram se separando, até os bichinhos aparecerem de novo.
O mundo que o autor do texto ficcional cria na sua imaginação pode ser um misto de 
verossimilhança e de inverossimilhança. No caso do conto de José J. Veiga, a criança narra uma 
história mágica, que envolve a realidade numa auréola de sonhos. Os cavalinhos de plati-
planto que o narrador descreve participam de ações compatíveis com a realidade interna e 
externa. Embora não sejam eles (os cavalinhos que podiam virar mosquitos) verossímeis se 
encarados sob o prisma externo ao texto, são verossímeis internamente no conto.
Esse tipo de texto ficcional, que trabalha com crenças, ritos e lendas e os faz conviver 
numa atmosfera de realidade social, psicológica, humana, consagrou-se com a denominação 
“realismo fantástico”, expressão bastante apropriada para o que vimos buscando explicar 
acerca das relações entre ficção e realidade.
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística158
11.2 Narratividade, descritividade 
e argumentatividade 
Na tipologia do texto ficcionaltrabalha-se com a clássica tripartição utilizada para o 
ensino da redação escolar, que divide os textos em três tipos:
• o narrativo, definido como “sequência de fatos”;
• o descritivo, definido como uma “sequência de aspectos”;
• o argumentativo-expositivo, definido como “sequência de opiniões”.
Essa tripartição pode não ser a ideal. Luiz Antônio Marcuschi (2002) fala que os modos 
de organização do texto podem ser cinco, subdividindo o terceiro da lista clássica e acrescen-
tando o injuntivo (como o praticado na redação dos manuais de instruções, receituários etc.).
É evidente, no entanto, que essas categorias não dão conta da imensa variedade 
de “tipos” de textos orais e escritos existentes nas mais variadas culturas. Faltava 
algo a essa classificação. Como classificar, por exemplo, uma carta comercial, um 
ofício, um memorando, um soneto, um editorial, etc.?
A resposta é que uma tipologia textual necessita de no mínimo dois critérios – 
um estritamente textual (referente à estrutura do texto) e um situacional, que o 
associe com a situação comunicativa em que é produzido e interpretado, dentro 
de um ramo da atividade humana: jornalístico, empresarial, didático, literário, 
etc. (OLIVEIRA, 2004, p. 184)
Aqui, vamos focalizar os três tipos que interessam à ficção.
Vivemos num mundo de narrativas. O ser humano é um contador e recontador de his-
tórias. Ele registra, relata, expõe, diz, narra para si mesmo e para seus interlocutores cotidia-
nos ou ocasionais as situações, ações e experiências que viveu, que viu ou soube que alguém 
viveu, que supôs ou inventou que alguém viveu. 
A narratividade é, por excelência, o tipo de texto que se espera encontrar na obra literá-
ria classificada como ficcional. Em geral, uma história se conta num texto em prosa, mas há 
muitos exemplos de histórias contadas e cantadas em versos.
Exemplo 1:
Os Lusíadas, de Luís de Camões, tem como assunto central a viagem de Vasco da Gama às 
Índias. É um poema épico que narra as perigosas viagens do herói português “por mares nunca 
dantes navegados” e seus encontros com povos e costumes diferentes. Exalta o navegador, sol-
dado, aventureiro, cavaleiro e amante Vasco da Gama e mostra o sentimento heroico e conquis-
tador dos portugueses, algo bastante apropriado para a época antropocêntrica do Renascimento.
A obra de Camões tem um cunho enciclopédico e conta não apenas a descoberta do 
caminho marítimo para as Índias. Fala da história de Portugal, de seus reis, de seus heróis e 
de suas batalhas, destacando as grandes navegações e a conquista do Império Português do 
Oriente. Para contá-la, Camões cria uma ação mitológica, onde deuses pagãos atuam como 
defensores dos portugueses (Vênus e Marte) e como seus opositores (Baco e Netuno).
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
159
Figura 1 – Os Lusíadas: ficção (em diálogo com a História) contada em versos.
 
Fonte: Domínio público.
Exemplo 2:
Na música “Domingo no Parque”, Gilberto Gil nos conta uma história dominical de 
amor, traição e morte (em versos):
O rei da brincadeira (ê, José) 
O rei da confusão (ê, João) 
Um trabalhava na feira (ê, José) 
Outro na construção (ê, João)
A semana passada, no fim da semana 
João resolveu não brigar 
No domingo de tarde saiu apressado 
E não foi pra Ribeira jogar capoeira 
Não foi pra lá pra Ribeira, foi namorar
O José como sempre no fim da semana 
Guardou a barraca e sumiu 
Foi fazer no domingo um passeio no parque 
Lá perto da Boca do Rio 
Foi no parque que ele avistou Juliana 
Foi que ele viu, foi que ele viu 
Juliana na roda com João 
Uma rosa e um sorvete na mão 
Juliana, seu sonho, uma ilusão 
Juliana e o amigo João 
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística160
O espinho da rosa feriu Zé 
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa (ô, José) 
A rosa e o sorvete (ô, José) 
Oi dançando no peito (ô, José) 
Do José brincalhão (ô, José) 
O sorvete e a rosa (ô, José) 
A rosa e o sorvete (ô, José) 
Oi girando na mente (ô, José) 
Do José brincalhão (ô, José) 
Juliana girando (ô, girando) 
Oi, na roda gigante (ô, girando) 
Oi, na roda gigante (ô, girando) 
O amigo João (ô, João) 
O sorvete é morango (é vermelho) 
Oi, girando e a roda (é vermelha) 
Oi, girando, girando (é vermelha) 
Oi, girando, girando...
Olha a faca! (Olha a faca!) 
Olha o sangue na mão (ê, José) 
Juliana no chão (ê, José) 
Outro corpo caído (ê, José) 
Seu amigo João (ê, José) 
Amanhã não tem feira (ê, José) 
Não tem mais construção (ê, João) 
Não tem mais brincadeira (ê, José) 
Não tem mais confusão (ê, João)
Figura 2 – “Domingo no parque”: ficção (com base na realidade) contada em versos.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
161
O texto de “Domingo no Parque” conta-nos (na voz de um narrador-cantor) um acon-
tecimento que envolve personagens num determinado lugar e momento (espaço e tempo). 
João, José e Juliana formam o trio amoroso, no qual os dois amigos disputam a mesma 
mulher. As ações dramáticas transcorrem num parque de diversões e se misturam com o 
ambiente lúdico da roda gigante, do sorvete. A história que Gil compôs é, como Os Lusíadas, 
um texto inspirado em fatos verossímeis, narrado em versos.
Exemplo 3:
Observemos agora um trecho do romance As Três Marias, de Rachel de Queiroz (2000, p. 73).
No outro dia o vi. Chamava-se Raul. Passávamos diante dum café, e ele lá estava 
numa mesa, sozinho, entre as nuvens do seu cigarro.
De dia me pareceu mais velho, mais cansado. E também mais romântico e miste-
rioso, prometendo grandes momentos.
Maria José, que ia comigo, viu-o quando me cumprimentou. Também o conhe-
cia. Era pintor e fazia farras medonhas. Diziam até que tomava cocaína. Um boê-
mio sem eira nem beira, que conhecia metade da Europa e todos os cafés de 
artistas de Paris. Quase morrera num hospital, em Nápoles, de onde conseguira 
se repatriar com um falso passaporte de emigrante. Num dos acasos do seu voo, 
arribara aqui, anos atrás, e, ninguém sabe por que, aqui casara, carregando de-
pois a mulher consigo pelos apartamentos de luxo, nos tempos bons, pelas pen-
sõezinhas de terceira ordem, nas vacas magras.
Voltara agora, emergindo de nova crise, pedindo hospitalidade ao sogro para 
descansar um pouco. Começou a pintar, a vender os quadros, arranjou alunos, ia 
ficando há mais de um ano. Chegava em casa de madrugada, a mulher brigava, 
os vizinhos ouviam. Um perdido. 
Ouvi a biografia sem surpresa; era a única história que se harmonizaria com ele 
e com o que eu dele imaginara.
O café era na esquina e nós dobramos a rua, contornando o canto. Tornei a vê-lo, ele 
se ergueu um pouco e os seus olhos fundos me sorriram, saíram da sua névoa. Sorri 
também, atraída pelas terríveis promessas das histórias de vício e de aventura. 
Nessa noite dormi pensando em Raul.
As Três Marias têm as mesmas características de narratividade dos dois exemplos an-
teriores, com a diferença formal de estar escrito em prosa, como normalmente se espera de 
uma história contada por escrito. Guta é a narradora e encarna uma heroína jovem e ingênua 
que se apaixona por um pintor casado, interessado apenas em tê-la como amante. No trecho 
transcrito, ela está acompanhada de sua amiga Maria José quando vê Raul sentado numa 
mesa de bar. Contado em primeira pessoa, pois quem narra a história é um personagem 
(neste caso, a própria protagonista), o romance de Rachel de Queiroz faz uma investigação 
dos conflitos da individualidade do ser humano e, como no poema épico de Camões e na 
canção de Gil, também se inspira em fatos verossímeis.
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística162
Se fizermos, porém, a releitura dos textos transcritos até aqui neste capítulo, obser-
varemos que, além de haver“uma história sendo contada”, há passagens descritivas e 
argumentativo-expositivas.
Na verdade, só se nos abstrairmos do material palpável que é o texto escrito é que con-
seguiremos pensar nesses tipos classificatórios separadamente.
Um texto nunca é apenas narrativo, descritivo ou argumentativo.
Falta a essa denominação didática o advérbio “predominantemen-
te”, que sempre deveria precedê-la.
Voltando então às transcrições dos textos, notamos que em todos predomina a nar-
ratividade do ato de se contar uma história. Porém, descrevem-se personagens, cenários, 
ambientes, emoções, movimentos. Fazem-se considerações, julgamentos sobre modos de 
agir, falar, sobre a temperatura, a época. Expõem-se opiniões próprias e alheias. Tudo em 
função dos objetivos de quem prepara o texto para seu leitor – e este, por sua vez, atuará 
na recepção do que se pretendeu apresentar e avaliará esse produto segundo a ótica de sua 
experiência como “leitor”. 
Observemos adiante algumas descrições extraídas de textos de ficção. Nessas novas 
passagens perceberemos que a narrativa está desacelerada, pois a intenção do escritor é 
apresentar informações que ele julga importantes para o que ainda vai contar. Os exemplos 
também nos servirão para mostrar como a descrição pode ser explorada na elaboração do 
texto ficcional, seja pela especificação das ações dos personagens, seja pela identificação de 
traços estáticos da narrativa.
No começo havia somente aquela igrejinha pobre, caiada de branco, debaixo do 
coqueiral. Casa de palha pela beira do mar, caiçaras por onde os pescadores dor-
miam a sesta e guardavam as jangadas no descanso.(REGO, 1987, p. 87).
Comentário: Descrição de uma praia de pescadores, contendo traços estáticos do pre-
sente da narrativa e referências ao passado dos personagens.
A rua em que estava situada sua casa desenvolvia-se no plano e, quando chovia, 
encharcava e ficava que nem um pântano; entretanto, era povoada e se fazia ca-
minho obrigado das margens da Central para a longínqua e habitada freguesia 
de Inhaúma. Carroções, carros, autocaminhões que, quase diariamente, andam 
por aquelas bandas a suprir os retalhistas e gêneros que os atacadistas lhes for-
necem, percorriam-na do começo ao fim. (BARRETO, 2001, p. 639).
Comentário: Descrição parcialmente estática de uma rua, sem referência aos personagens.
É sol de maio, que já brilha pelas devesas floridas do Tinto. Sob a cúpula diáfana 
de um céu de primavera, tudo é luz, graça e harmonia. Os esplendores da tarde 
douram as veigas e adiamantam as águas. Flores, sorrisos do prado, e sorrisos, 
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
163
flores dos lábios, desabrocham por toda a parte, e engastam-se onde quer que 
aparece um rosal perfumado ou um rosto mimoso. Vão de envolta nas asas da 
brisa, trinos das aves, rumores do campo, e os ledos descantes de rústico trava-
dor.(ALENCAR, 1958, p. 651).
Comentário: Descrição do campo, com referências ao tempo e à paisagem e sem men-
ção aos personagens.
Logo na quina da rua, então chamada de Vala e agora da Uruguaiana, a Rua do 
Ouvidor apresentava ao lado esquerdo a casa de três pavimentos, que ainda hoje 
se vê, e que abre a porta e corredor de entrada para aquela tendo defronte na 
quina do lado direito casa de dois pavimentos ou sobrado de um só andar, como 
atualmente se conserva.
Ambos esses tetos devem guardar, senão importantes, ao menos curiosas recor-
dações. (MACEDO, 1963, p. 152-153).
Comentário: Descrição estática de uma casa, sem referência aos personagens.
Fora, chovia a cântaros. André de Belfort sorria fatigado. Godofredo de Alencar 
fumava. Hortênsio Gomes parecia entre o pesar e uma vaga e tênue alegria. 
Alexandre estava abatidíssimo. Os quatro acabavam de jantar, no imenso salão 
deserto do mais elegante e mais detestável hotel da cidade. Ninguém poderia ex-
primir o sorriso do barão André. Era impossível definir a atitude de Godofredo. 
Hortênsio tinha o aspecto do revelador. O pobre Alexandre parecia um trapo de 
paixão. E aos sucessivos cigarros de Godofredo, embebidos em essência oriental, 
uma densa nuvem aromática os envolvia. (RIO, 1995, p. 18)
Comentário: Descrição de ações dos personagens, com inclusão de referências ao tem-
po e ao cenário.
Madalena batia no teclado da máquina. Seu Ribeiro escrevia com lentidão trêmu-
la, às vezes se aperreava procurando a régua, a borracha, o frasco de cola, que se 
ausentavam, porque d. Glória tinha o mau costume de mexer nos objetos e não os 
pôr nunca onde os encontrava. Eu me danava com essa desordem, fechava a cara, 
dava ordens secas rapidamente e saía para não estourar. (RAMOS, 1980, p. 111)
Comentário: Descrição de ações e reações secundárias dos personagens, sem outras 
referências.
Vamos agora exemplificar a presença predominante do tipo argumentativo-expositivo. 
Nessa hipótese, a narrativa também se desacelera, em virtude da decisão de dar voz ao nar-
rador para que ele opine ou exponha a opinião de algum personagem. Essa possibilidade, 
por vezes, se interpenetra com a própria narrativa.
Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um instante de estupefação. 
Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles; mas 
o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou 
à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse incli-
nada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu 
nestes termos alevantados:
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística164
— Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas 
só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e 
com eles a salvação de Itaguaí.
Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era 
a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na 
abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, 
mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão 
urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas ou correndo pela rua fora, 
conseguiram escapar; mas a maioria ficou bufando de cólera, indignada, animada 
pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas estava iminente quando um 
terço dos dragões – qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram – 
passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos 
Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os sol-
dados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um 
foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das 
coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente contra 
uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio, declarou-se 
vencido e entregou a espada ao barbeiro. (ASSIS, 1974, p. 273)
Comentário: Argumentação do narrador pela sua própria ótica ou pelo ponto de vista 
do protagonista Simão Bacamarte, como justificativa para ações narradas no trecho.
Não é bem do meu gosto remexer essas coisas que considero mortas, se bem que 
nem todas tenham sido convenientemente esclarecidas, e nem tudo signifique 
uma acusação aos entes que delas participaram. Além do mais, acredito que uma 
família, como a dos Meneses, que tanto lustre deram à história de nosso muni-
cípio, tenha direito ao silêncio que vem buscando através dos anos, e que não 
consegue, pela violência dos fatos que viveu – e que no entanto só nos merecem 
compreensão e esquecimento. Pesa-me a consciência, no entanto, ocultar fatos 
que poderiam elucidar alguns daqueles mistérios que na época tanto abalaram 
nosso povoado. Pensando bem, este é o motivo por que me encontro aqui, rea-
justando sobre o passado essas lentes, que apesar detrêmulas só procuram servir 
à verdade. Naturalmente não me é fácil desenterrar essas figuras, pois elas se 
acham visceralmente presas ao que eu próprio fui, às minhas emoções daquele 
tempo. E apesar disto, o que se passou é tão vivo ainda, que parece recente: os 
cenários se erguem com facilidade e a casa reponta perfeita do sono que desde 
então a circunda.
Não me lembro mais se foi pela segunda ou terceira vez que um fato insólito me 
chamou à Chácara, e digo insólito porque já fora lá várias vezes, mas era real-
mente a primeira ou a segunda que ia a chamado daquilo que poderia chamar de 
ocorrência fora da órbita banal.(CARDOSO, 1979, p. 143)
Comentário: Exposição de argumentos do narrador em primeira pessoa, como prepa-
ração para as ações a serem narradas adiante.
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
165
Num texto ficcional, as passagens onde predomina o tipo descritivo ou o tipo argumen-
tativo-expositivo devem estar a serviço da sua principal finalidade, que é a narratividade. 
A despeito disso, a criatividade e a arte dos escritores podem lhes permitir qualquer tipo de 
organização do texto ficcional – inclusive contrariando a expectativa do leitor de encontrar 
uma narrativa.
 Ampliando seus conhecimentos
Estilo e heterogeneidade
(DISCINI, 2003, p. 67-70)
É por meio de perguntas e respostas, entre vozes que se cortam e se atra-
vessam, na interseção de linhas quebradas e não retas, que se constitui o 
diálogo no discurso. É um diálogo entre uma enunciação, que reconstrói o 
mundo, e um mundo que a coage, para que nele se possa inserir. Assim se 
perpetuam, no estilo, convergências e polêmicas, de vozes, de pontos de 
vista. Assim vai-se sedimentando a direção ideológica de uma totalidade.
A totalidade de estilo é homogênea e heterogênea. O fato de estilo garante 
essa homogeneidade, já que pressupõe uma semelhança de procedimen-
tos na construção do sentido que, por sua vez, constrói o ator da enuncia-
ção, efeito de individuação de uma totalidade. É heterogênea, pois supõe 
uma relação dialógica entre a grandeza inteira e discreta, o unus, com 
outras unidades integrais, num desdobramento do diálogo do discurso 
com as formações ideológicas de uma cultura. É do diálogo que falamos, 
ao pensar numa heterogeneidade constitutiva de um estilo, que não se 
mantém fechado em si mesmo, aprisionado nos próprios limites que o 
definem. Esta definição de limites, que aponta para o eu que fala por meio 
de uma totalidade, se faz exatamente pela relação com o não limite, com 
o não eu, com o outro. A homogeneidade do sentido, condição para a uni-
dade do estilo, é, portanto, constitutivamente diversificada, mesmo por-
que em cada enunciação pressuposta a cada totalidade já se pressupõem 
dois sujeitos. Só assim esta ou aquela totalidade pode se constituir como 
signo, pode significar. O signo, no estilo, longe de se fechar em si mesmo, 
salta para o exterior de si, onde encontra o outro, constituindo-se assim 
ideologicamente. Ideologia é signo e a recíproca é verdadeira, também em 
se tratando de estilo.
O fato de estilo, portanto, se permanecesse apenas coincidente com a pró-
pria natureza, não significaria, não seria uma realidade sígnica. Ultrapassa, 
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística166
pois, a si mesmo, porque reflete e retrata a “realidade”, construindo outra 
“realidade”, no interior do próprio discurso.
[...] Ao considerar o estilo como efeito do discurso, pressupomos o estilo 
como fato ideológico. A constituição interdiscursiva, unidade constituinte 
do discurso do estilo, conjunto de micronarrativas resultante de um conglo-
merado de núcleos temáticos e de núcleos figurativos, variações temáticas e 
variações figurativas, constitui, por sua vez, instrumento de uma “refração 
ideológica verbal”, tomando a expressão de Bakhtin (1988, p. 38).
Mas essa configuração interdiscursiva resulta de uma colocação recor-
rente em discurso de valores sociais e individuais, em relação de (re)cons-
trução mútua. Tais valores se apoiam, por sua vez, em universais, como 
vida/morte, natureza/cultura, convocáveis e realizáveis de maneira própria, 
na construção de uma totalidade.
[...] Na virtualidade do sentido, a homogeneidade; na atualização e reali-
zação, a heterogeneidade. Assim se demarca o estilo, sempre lembrando 
que homogeneidade e heterogeneidade são interdependentes.
 Atividades
1. Utilize o texto da canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e faça uma transpo-
sição da narrativa para o formato em prosa.
2. Leia atentamente o trecho transcrito de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo (1981, p. 59-60) 
e identifique passagens descritivas, narrativas e argumentativo-expositivas.
Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e 
pouco calor.
As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabulei-
ros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte pelos 
filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato 
limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor. 
Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem; agora 
as portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as bra-
sileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos negros um ramalhete de 
dois vinténs; aquelas trancavam no ombro xales de lã vermelha, e estas de cro-
chê, de um amarelo desbotado. Viam-se homens de corpo nu, jogando a placa, 
com grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma árvore, 
conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os filhos 
Características do texto ficcional
Semântica e estilística
11
167
pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhes murros, a praguejar, 
e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona es-
tava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio; a velha gritava, gritava 
Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras saíam cantos ou sons de instru-
mentos; ouviam-se harmônicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era 
de vez em quando interrompida por um ronco forte de trombone.
Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam das 
gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômo-
dos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assen-
tados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um declamava em voz alta 
versos de Os Lusíadas, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia 
neles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas 
fumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca fervendo ao fogo. Do 
sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam abertas e, pela escada 
que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas servi-
das. Sentia-se naquela quietação de dia inútil a falta do resfolegar aflito das má-
quinas da vizinhança, com que todos estavam habituados. Para além do solitário 
capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, 
em compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem 
e à entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem 
passava; ao lado delas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engomado 
ao pescoço, entretinha-se a chupar balas de açúcar, que comprara ali mesmo ao 
tabuleiro de um baleiro freguês do cortiço.
3. A narradora de Verão no Aquário, de Lygia Fagundes Telles (1993, p. 26) é a protagonista 
do romance. O trecho transcrito contém uma descrição estática ou dinâmica? Explique.
Revolvi papéis e livros de minha mesa. Abri gavetas. Por onde andariam meus 
retratos? Era preciso mostrá-los a André, ele precisavame ver menina, nem o 
inimigo resiste ao retrato da infância. Ele tinha que me conhecer com aquela 
perplexidade, com aquela inconsciência diante do futuro escondido dentro da 
máquina fotográfica. Vi um retrato assim do meu pai: um menino débil e louro 
na sua roupa de marinheiro, a mão direita pousada na mesinha com uma toalha 
de franja e um vaso de flores em cima, a mão esquerda na cintura, os olhos gra-
ciosamente imobilizados pelo fotógrafo, “vamos olhe nesta direção!...” O olhar 
ainda limpo do rancor pela bem-amada que havia de traí-lo um dia, pela mãe 
falhando no momento em que não podia falhar, pelo amigo que não era amigo, 
por Deus que não apareceria para salvá-lo quando ele próprio se erguesse para 
ferir o próximo assim como foi ferido também. Os ídolos ainda estão inteiros. O 
menino então sorri e nem o inimigo mais feroz resistirá a esse sorriso de quem 
se oferece tão sem defesa.
Características do texto ficcional11
Semântica e estilística168
 Resolução 
1. [Livre] Espera-se que o texto produzido inclua os personagens, ações e ambientes ci-
tados na canção, admitindo-se eventuais acréscimos, desde que não descaracterizem 
a versão original. É indispensável que a resposta seja escrita em parágrafos.
2. [Sugestão] O texto é predominantemente descritivo, mas é possível observar que, 
mesmo nas frases desse tipo, há eventuais intervenções opinativas do narrador. Por 
exemplo, em “Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril”, há 
juízo de valor em “alegre” e em “bom”. As descrições são dinâmicas, pois mostram 
a movimentação dos personagens e figurantes da narrativa. A ação motivadora do 
romance não está presente nesse trecho, mas as informações apresentadas compõem 
um panorama importante para a narrativa.
3. A descrição começa dinâmica, pois se refere às ações de busca de uma fotografia sua, 
mas é interrompida para uma reflexão argumentativa da narradora. A partir dessa 
reflexão, a descrição é estática e se concentra nas lembranças dos pormenores de 
uma fotografia de seu pai. 
Semântica e estilística 169
12
Estudo semântico-estilístico 
de texto ficcional
Este capítulo tem por objetivo apresentar os conceitos de digressão e intertextua-
lidade e aplicar os conhecimentos de Semântica (a ciência da significação) e Estilística 
(a ciência da expressividade) ao estudo do texto ficcional.
12.1 Digressão
Suponha que, antes de explicarmos o que é digressão, em vez de entrar no assunto 
para dizer o que significa essa palavra e dar exemplos de sua ocorrência, começássemos 
a dissertar sobre a importância da objetividade na vida humana. Ou então que resolvês-
semos falar da literatura brasileira ou da redação de textos argumentativos. Poderíamos 
disfarçar um pouco melhor, talvez: desandaríamos a comentar como a Semântica e a 
Estilística prestam relevante contribuição para os estudos de língua portuguesa.
Pronto! Tudo o que se dissesse durante o tal percurso de rodeios e subterfúgios até 
se entrar propriamente na explicação do que é e para que serve a digressão teria sido 
um excelente exemplo de digressão.
Digressão = Desvio do assunto ou “desconversação”
As estratégias de produção de um texto, em especial o narrativo, podem justificar 
o emprego de digressões, e há autores consagrados que dela fizeram uso com perícia, 
como Machado de Assis e Eça de Queiroz, para dar apenas dois exemplos.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
Semântica e estilística170
A interrupção da narrativa pode se prestar para introduzir reflexões, especulações, co-
mentários do narrador ou do próprio personagem, mas pode também ser apenas uma forma 
de corte na história que está sendo contada – até para inserir outra história na principal.
Vejamos um exemplo de digressão em que o narrador faz o seu próprio elogio, fala da 
marcha da civilização e de D. Quixote, entre outros temas:
Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, brilhante, 
de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, 
para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da 
moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as im-
prensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie. 
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de 
moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto 
se não sabe explicar. 
É um mito porque – porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamente ao 
benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência 
de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa 
séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais bro-
churinhas dos boulevards de Paris.
Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que escreveu uma 
obra sobre a marcha da civilização, do intelecto – o que diríamos, para nos enten-
derem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: 
o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com 
os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que 
pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, 
D. Quixote – o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que 
não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-
-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão aves-
sos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora 
outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas 
progredindo sempre. 
E aqui está o que é possível ao progresso humano. 
E eis aqui a crônica do passado, a história do presente, o programa do futuro. 
Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. 
Depois há de vir D. Quixote. 
O senso comum virá para o milênio, reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas 
divinas promessas – como el-rei de Prússia prometeu uma constituição; e não faltou 
ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse quando. 
Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progres-
so social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lembrar 
de vez em quando, porque receio muito que se esqueça. 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
Semântica e estilística
12
171
Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila Nova da Rainha, que é o 
mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol arde 
como ainda não ardeu este ano. (GARRETT, 1997, p. 42-44)
Comentário: O trecho é o que inicia o segundo capítulo do romance. A narrativa propria-
mente dita só se inicia no último trecho que se transcreveu, após onze parágrafos de digressão.
A digressão entra como uma estratégia de variados matizes: uma sutil provocação com 
o leitor, uma revelação de pensamentos, divagações. Mas pode ser uma ruptura mais radi-
cal, como a que vemos no desdobramento do exemplo seguinte:
Isabel tinha bastante senso de humor para (mais uma vez) sorrir da frase. Mas, 
como sabia que não há nada mais sério que uma graça, levou a sério a graça e a 
frase, e retomou sua posição contrária à contratação de uma babá para Einstein.
Era o que tínhamos a dizer neste final de capítulo, deixando a frase com o leitor 
para traduzi-la. Se o leitor vai ou não achar graça nela, o problema é unicamente 
dele. Não é de Isabel, nem é do autor. (SALES, 1983, p. 109-113)
Comentário: A frase que o leitor poderá traduzir encerra o antepenúltimo parágrafo do 
capítulo: “Ne croyez pas trop à ce que l’homme dit, sourtoutquand il le dit dans les réclames.1” O 
último parágrafo é o que contém a digressão-interlocutória, citando o leitor como terceira 
pessoa do discurso, mas fazendo-lhe uma provocação. Não bastasse isso, o romance pros-
segue com duas páginas de intervalos comerciais, uma na página 111 (ver imagem) e outra 
na página 113, com uma lista das obras de Herberto Sales e o aviso: “Estes livros não são 
encontrados nas livrarias dos aeroportos brasileiros”. Feito o intervalo comercial, a narrativa 
retorna, na página 115, como se nada tivesse acontecido.
Figura 1– Intervalo comercial como digressão.
Por amor da coerência, sugere-se ao leitor que, depois de ler o 
texto-aviso acima, se esforce no sentido de mentalmente repro-
duzir aquele indefectível sorriso com que em circunstâncias 
semelhantes os locutores de televisão brindam a curiosidade 
malograda dos telespectadores.
Fonte: Digital Juice.
1 Tradução livre: Não acredite muito no que o homem diz, sobretudo se ele diz durante os comerciais.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
Semântica e estilística172
Às vezes as digressões desempenham uma função metaficcional, ou seja, referem-se ao 
próprio ato de narrar, sendo enfim uma metalinguagem da narrativa, como os dois exem-
plos anteriores fazem, cada qual a seu modo. Porém, as digressões também podem ser inter-
rupções hipertextuais, à semelhança do que acontece durante uma consulta a um endereço 
virtual, onde a leitura de uma página pode remeter a outra e a outra, sucessivamente. A 
diferença é que, na internet, a página inicial de consulta pode ser esquecida, mas no texto de 
ficção a história precisa ser retomada em algum momento – espera-se.
No próximo exemplo, temos uma passagem que mostra uma digressão funcionando 
como hipertexto.
Capítulo CXVII
A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, 
vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das 
Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catás-
trofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho 
que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma 
choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava 
o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar 
um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso es-
tar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! 
– Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos 
anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos 
outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da proprie-
dade – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo 
ideias consoladoras. Bom padre Chagas! (ASSIS: 1974, p. 743-744).
Comentário: O trecho reproduz na íntegra o capítulo, que começa falando da história 
do casamento de uma personagem secundária do romance. Porém, sob o pretexto da lem-
brança de uma epidemia das Alagoas, o narrador pede licença para nos dar “um contozi-
nho” que ouviu em criança. A narrativa estaca, e ficamos sabendo do caso do respeito que o 
bêbado “tinha ao princípio da propriedade”, uma micronarrativa dentro da macronarrativa.
Qualquer que seja o formato da digressão, sempre será desejável manter a participação do 
leitor, nem que seja pela sua perplexidade, como a que temos na ruptura da seguinte digressão:
CAPÍTULO CXXXIX
De como não fui ministro d’Estado
.......................................................................................................................
.......................................................................................................................
.......................................................................................................................
......................................................................................................................
Fonte: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis: 1974, p. 627.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
Semântica e estilística
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Comentário: O capítulo tem apenas o título. A ele se segue uma digressão de cinco 
linhas pontilhadas. No capítulo seguinte, uma digressão-justificativa explica que “há coisas 
que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior”.
Informado sobre esta e outras técnicas adotadas na narrativa, o leitor deixará de lado a 
expectativa ingênua de que uma história só pode ser contada em estruturas convencionais e 
horizontais. O que importa é fazer da leitura um diálogo permanente entre o leitor e o texto.
12.2 Intertextualidade
Todo texto se constrói como mosaico de citações. Todo texto é absorção e transforma-
ção de um outro texto. Com essas palavras e apropriando-se das ideias da Bakhtin, Julia 
Kristeva (1974, p. 64) introduziu e definiu a intertextualidade, palavra fundamental no cam-
po da Linguística Textual e que nos interessa em especial no estudo do texto ficcional.
Esse “mosaico de citações” é, na verdade, um passaporte para se fazer qualquer tipo de 
referência (pequena, mediana ou enorme), implícita ou explícita, na forma ou no conteúdo, 
a outros textos. E o que se deve entender por texto, nesse caso, é algo bem amplo – eu diria 
que nem há um limite para o seu entendimento.
Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os 
quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva. Cada 
enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados 
precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma, completa, ba-
seia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta. 
(BAKHTIN, 2003, p. 297)
Intertextualidade = “diálogo” entre textos
Há muitos hipônimos para a palavra intertextualidade: polifonia, dialogismo, hetero-
geneidade, citação, paródia, paráfrase, estilização, apropriação, plágio, pastiche. Cada um 
desses nomes (e outros mais que se queira acrescentar) se enquadra num viés próprio. E, 
se quisermos olhar de novo para os degraus dessa escada Semântica, ainda podemos fa-
lar da interdiscursividade, que não implica a intertextualidade mas é implicada por esta. 
Pergunto: todo discurso não é um texto? Todo texto não é um discurso?
Interdiscursividade = “diálogo” entre discursos
Nas discussões de Análise do Discurso certamente não haverá unanimidade quanto a uma 
dupla resposta afirmativa. Mas, se o texto for considerado como algo que está acima da sua ma-
terialidade linguística, então ele será também um discurso... Talvez aí haja consenso quanto a um 
duplo sim e, depois disso, quem sabe não aparece alguém para dizer que interdiscursividade, 
intertextualidade, polifonia e dialogismo são, no fundo, no fundo, a mesma coisa…
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
Semântica e estilística174
presença simultânea de várias “vozes” no enunciadoPolifonia =
Não está nos objetivos deste capítulo enveredar por essa polêmica. Basta-nos chamar a 
atenção para o fato, a fim de que sempre se procure saber qual o ponto de vista do estudioso 
que se está consultando.
A rigor, a intertextualidade no texto ficcional em nada difere da que se pode praticar 
no momento mais trivial de nosso cotidiano. Pensemos, por exemplo, na figura de um vi-
zinho sempre bem-humorado que todo dia de manhã, ao sair para o trabalho, tem o hábito 
de cumprimentar a quem ele encontra na garagem de seu prédio usando um repertório in-
tertextual bem variado: “Que a Força esteja com você, vizinho!” ou “Ave, César!”ou “Deus 
ajuda a quem cedo madruga, vizinho!” ou “Alô, alô, marciano!” – cada citação-saudação 
devidamente selecionada conforme seu grau de intimidade com o condômino interlocutor.
Figura 2 – Intertextualidade no cotidiano.
Ave, César!
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
Figura 3– “Quem não pratica a intertextualidade que atire a primeira pedra!”
Que a força esteja 
com você, vizinho!
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
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Na literatura, além das incontáveis possibilidades de ocorrências intertextuais, também 
pode existir o diálogo de uma obra literária com outra. Quando esse diálogo se constrói 
entre obras de escritores diferentes, configura-se um caso de intertextualidade externa. Se, 
diferentemente, o escritor dialoga com sua própria obra, estamos diante do que chamamos 
de intertextualidade interna ou intratextualidade. 
Vejamos nos trechos abaixo alguns exemplos:
Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de 
Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência que ali aparece, mendigo, 
herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. (ASSIS, 1974, p. 644)
Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a um persona-
gem e a um livro do próprio Machado.
O leitor deve estar lembrado de crise semelhante, que o assaltou, anos antes, 
quando era pouco mais que um adolescente, também numa igreja, ou, mais pre-
cisamente, na capela do seminário em Mariana. Mas daquela feita o choro era 
fruto de suas meditações, ao passo que agora decorria de constatação nascida 
da mesma dúvida que o levara, em menino, a interpelar o padre Limeiro em Rio 
Acima: meditar em quê? (SABINO: 1979, p. 149)
Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a uma passa-
gem anterior do próprio livro. 
Por isso mesmo não era da conta de ninguém. Muito menos daquele Comissário 
safado. Se não tivera sequer a felicidade original de conhecer pai, nem tão pouco 
de nascer rica, a culpa não era sua. Quem teria a faculdade de escolher pai e o 
lugar de nascer! Lição até mesmo dada por Cristo, o maior Homem do mundo. 
Ele, que foi um Deus na terra, o mais sábio dos sábios, nasceu de pais pobres e 
numa estrebaria. (IBIAPINA, 2002, p. 23)
Comentário: Intertextualidade externa, referência explícita do narrador à vida de Cristo.
Pode também a intertextualidade ser explícita, confessada pelo escritor como vimos aci-
ma, ou ser implícita, o que significa que dependerá unicamente do leitor o reconhecimento 
do “diálogo”. Caso ele não reconheça/recupere a intertextualidade praticada pelo escritor, a 
compreensão do trecho se fará apenas na esfera daquela narrativa, não tendo como estabe-
lecer o diálogo pretendido pelo escritor. É o que temos no exemplo abaixo:
A casa que o Viajante escolhera para habitar em sua estada no Rio de Janeiro, du-
rante o ano de 1993, era conhecida na vizinhança da rua Duquesa de Bragança, e em 
todo o bairro do Grajaú, como casa da Maria Joana. (HENRIQUES, 1999, p. 23)
Comentário: Intertextualidade externa, referência implícita do narrador ao parágrafo 
inicial de Os Maias, de Eça de Queirós (1997, p. 1041), onde se lê: “A casa que os Maias 
vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. 
Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou sim-
plesmente o Ramalhete”.
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Cérebro, coração e pavio
Um mês após, um homem trajando violentas polainas demi-saison subia calma-
mente a Avenue des Champs Elyseés em Paris.
Os leitores já terão adivinhado que era Serafim Ponte Grande. (ANDRADE, 
1980, p. 65)
Comentário: Intertextualidade externa no título do capítulo, que faz referência implíci-
ta ao título do romance de Camilo Castelo Branco Coração, Cabeça e Estômago.
Uma outra classificação diz respeito mais ao conteúdo e à forma sob a qual ocorre a 
intertextualidade. Entre elas, enumeram-se as seguintes:
• intertextualidade de conteúdo (por exemplo, textos literários que se referem a per-
sonagens, temas ou assuntos contidos em outros textos.);
• intertextualidade formal (por exemplo, a “imitação” da tipologia textual: uma can-
tiga de amigo escrita hoje, um conto escrito em linguagem bíblica, jurídica ou de 
funk; outro exemplo: a “imitação” do estilo de um autor ou de uma obra); 
• intertextualidade corrente (consiste no uso de frases ou expressões consagradas 
pela tradição cultural de uma comunidade, como provérbios, ditos populares, ci-
tações desgastadas, clichês etc.) 
12.3 Estilística aplicada ao texto ficcional
Capitu sou eu
(TREVISAN, 2003) 
Figura 4 – Ilustração do conto “Capitu sou eu”.
Fonte: IESDE BRASIL S/A.
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A professora de Letras irrita-se cada vez que, início da aula, ouve no pátio os 
estampidos da maldita moto.
Aos saltos de três ou quatro degraus, lá vem ele na corrida, atrasado sempre. 
Esbaforido, se deixa cair na carteira, provocante de pernas abertas. Mal se descul-
pa ou nem isso. Ela reconhece o tipo: contestador, rebelde sem causa, beligerante.
O selvagem da moto é, na verdade, um tímido em pânico, denunciado no rubor 
da face, que a barba não esconde. E, aos olhos dela, o torna assim atraente, um 
cacho do negro cabelo na testa.
Na prova do curso, o único que sustenta a infidelidade de Capitu. Confuso, na 
falta de argumentos, supre-os com a veemência e gesticulação arrebatada: infiel, 
a nossa heroína, pela perfídia fatal que mora em todo coração feminino. Insiste 
na coincidência dos nomes: Ca-ro-li-na, da mulher do autor (com os amores du-
vidosos na cidade do Porto), e o da personagem Ca-pi-to-li-na...
A traição da pobre criatura, para ele, é questão pessoal, não debate literário ou 
análise psicológica. Capitu? Simples mulherinha à toa. “Mulherinha, já pensou?”, 
ela se repete, indignada. “Meu Deus, este, sim, é o machista supremo. Um mons-
tro moral à solta na minha classe!” E por fim: “Ai da moça que se envolver com 
tal bruto sem coração...”
Na prova escrita os erros graves de sintaxe e mera ortografia já não são disfar-
çados pelo orador com pedrinhas na boca. E por que, ao sublinhá-los na caneta 
vermelha, tanto a perturbam as garatujas canhestras?
Nas aulas, por sua vez, ela que o confunde: sadista e piedosa, arrogante e singela. 
Sentada no canto da mesa, cruza as longas pernas, um lampejo da coxa imacu-
lada. E, no tornozelo esquerdo, a correntinha trêmula – o signo do poder da do-
madora que, sem chicotinho ou pistola, de cada aluno faz uma fera domesticada. 
Elegante, blusa com decote generoso, os seios redondos em flor – ou duas taças 
plenas de vinho branco?
Finda a aula, deparam-se os dois no pátio, já desaba com fúria o temporal. 
Condoída, oferece-lhe carona de carro, não moram no mesmo bairro? No veí-
culo fechado, o seu toque casual a estremece, perna cabeluda à mostra com o 
bermudão e botinas de couro. A cabeleira revolta não esconde, agora de perto, o 
princípio de calvície.
Ao clarão do poste, as gotas de chuva lá fora desenham no rosto da professora 
fios tremidos de sombra. Com susto, o moço descobre que, sim, é bela: as boche-
chas rosadas pedem mordidas, sob a coroa solar dos grandes cachos loiros. Sem 
aviso, inclina-se e beija-a docemente. Para sua surpresa, em vez de se defender, a 
feroz inimiga lhe oferece a boquinha pintada, com a língua insinuante.
Dia seguinte ela telefona, propõe irem ao teatro, já tem os convites. Essa, a norma no 
futuro: tudo ela paga – o ingresso, o sorvete na lanchonete, a conta do restaurante.
Na volta, ela comenta o espetáculo. Ele ouve apenas. Silêncio inteligente? Ou não 
tem mesmo o que dizer? No carro, mais beijo, mais amasso.Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
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Para ler o texto na íntegra, acesse o site da Revista Trópico, disponível em: http: <//
www.revistatropico.com.br/tropico/html/textos/1737,1.shl>. Acesso em: 28 dez. 2016.
Uma análise dos recursos estilísticos empregados em um texto inclui a observação das 
figuras de linguagem mais representativas, da temática e dos recursos de estruturação, com 
o objetivo de mostrar a expressividade do texto. A isso se associa o estudo dos elementos 
semânticos, verificando o escopo da significação tanto no âmbito lexical quanto discursivo.
O conto “Capitu Sou Eu”, de Dalton Trevisan, é o primeiro dos vinte e um contos lança-
dos em 2003 no livro homônimo. Intertextual no título, utiliza o nome da mais famosa per-
sonagem de Machado de Assis para narrar uma história de amor e sexo entre a professora 
de Letras e seu aluno motoqueiro.
Os dois personagens nos são apresentados em plena prova de Literatura, na qual ele é 
o único aluno a sustentar “a infidelidade de Capitu”. A prova deve ser oral, pois o exami-
nado não tem argumentos e “supre-os com a veemência e gesticulação arrebatada”. Na sua 
opinião, a heroína de Machado é infiel porque, como toda mulher, tem uma perfídia fatal 
que mora em seu coração. Além disso, há um argumento fônico que a incrimina e, mais, leva 
a suspeição de infidelidade ao próprio lar do escritor: Ca-pi-tu-li-na e Ca-ro-li-na não são 
apenas uma rima, mas uma dupla de mulheres infiéis, pois a mulher do autor teria tido seus 
“amores duvidosos na cidade do Porto”, antes de mudar-se para o Brasil.
A professora não aceita o epíteto “mulherinha à toa” atribuído a Capitu e, por considerar 
seu aluno “um bruto sem coração”, ainda lamenta a sorte da moça que com ele se envolver.
Não bastasse a inexistência de debate literário ou de análise psicológica durante o exame 
oral, há ainda as informações que o narrador nos transmite sobre o pífio desempenho do rapaz 
na prova escrita. Dessa feita, “erros graves de sintaxe e mera ortografia” caem sobre os seus 
ombros. É nesse momento da narrativa que o narrador começa a revelar os pensamentos dos 
personagens. Oscilando no uso do discurso interior e do discurso indireto livre, o narrador pa-
rece passar a voz primeiro para o rapaz e depois, prioritariamente, para ela. Continua, porém, 
usando a terceira pessoa, como no trecho em que, ao final da aula, quando desaba com fúria 
um temporal, “condoída, oferece-lhe carona, não moram no mesmo bairro?”.
O narrador prossegue na técnica do discurso indireto e do discurso interior para mos-
trar como se prepara o esperado envolvimento emocional/sexual/sentimental (não se sabe 
ainda direito) dos dois personagens. Mas o beijo trocado no carro logo revela que o envolvi-
mento de ambos será o mote da narrativa doravante. O rapaz é “um babuíno iletrado, que 
coça o joelho e odeia Capitu”, pensa a professora que lembra ter um filho.
Após mais algumas descrições de outros encontros, o narrador passa a palavra aos 
personagens. Estrategicamente, os diálogos em discurso direto passam a predominar, o teor 
das falas parece mais propício e explícito para mostrar o calor dos amantes.
Na intertextualidade implícita dessas passagens, o leitor pode começar a juntar as pistas 
do escritor: o enigma aparente do título do conto parece desfeito, as falas da mulher-amante 
contrastam com as da mulher-professora. Mas a relação se desgasta. O jovem parece en-
joar-se da mulher mais velha, que sofre e se desespera. Não há como escapar de sua sina. O 
recurso do discurso interior, usado em boa parte da narrativa para mostrar os pensamentos 
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da mulher, fica balanceado. Agora “a tia bem o sufoca” e exige “votos de eterno amor antes, 
durante e depois do amor efêmero”, paradoxo que serve como senha para a frase hiperbóli-
ca “Adeus, gorda grotesca da coxa grossa!”
O narrador retoma a palavra e não emprega mais o discurso direto com travessões. 
Revela-nos que ela está arrependida, embora seja um arrependimento inútil, pois não muda 
sua atitude “neocapitu” de mulherinha à toa tentando reconquistar o amante: faz vista gros-
sa para sua péssima prova, gradua-o “por média, com distinção em Literatura” e publica na 
Revista de Letras “um artigo em que sustenta a traição de Capitu”.
Na frase final do conto, vemos a apropriação dos adjetivos “sonsa, oblíqua e perdida” 
para atribuí-los a Capitu, “essa mulherinha à toa” – a personagem consagrada ou a profes-
sora do conto? Eis um novo enigma para a próxima aula de Literatura.
 Ampliando seus conhecimentos
A importância de um bom final
(GIOSTRI, 2006, p. 79-80)
Se há um ponto de partida, há um de chegada. O final é o desfecho da 
ação; é nele que se revelam todos os conflitos que foram apresentados e 
esticados durante a trama.
O final de uma trama é fundamental para seu entendimento e para o 
próprio convencimento. Nele, o autor deve amarrar todas as ferramentas 
que apresentou ao longo do desenvolvimento. Para isso é primordial que 
tenha traçado uma narrativa funcional com personagens e diálogos bem 
desenvolvidos, além das passagens de tempo, que são as que dialogam 
com o ritmo do todo.
Ora, na trama o autor apresenta o início dos fatos, as personagens, estabe-
lece os núcleos em que se dará a ação de cada um, apresenta os conflitos 
internos e externos, liga-os de modo que os fios de condução fiquem evi-
dentes à plateia, apresenta indiretamente aonde quer chegar e impõe os 
obstáculos que impedirão e contribuirão para o desenvolvimento. Amarra 
tudo, leva a trama ao ápice e inicia o fim da trajetória, que é a solução de 
tudo que foi apresentado. E nisso se inclui a solução de todos os núcleos, 
todas as personagens, da trama em si. Apresentada a reta final, o autor vai 
pincelando os conflitos, condenando quem deve ser condenado, absol-
vendo quem merece seu perdão e pondo as pedras sobre os conflitos solu-
cionados. Resolvido tudo que foi apresentado e desenvolvido, verificada 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
Semântica e estilística180
a questão da verossimilhança interna e externa da estrutura, o autor fina-
liza sua obra.
[...] O final não é o simples desfecho; a solução barata. O autor deve pen-
sar um final elaborado, de preferência que surpreenda os espectadores/
leitores e que, de um modo ou de outro, já esteja no inconsciente coletivo.
A questão do inconsciente coletivo não é complicada. Uma vez que o autor 
elabora o que quer contar e aonde quer chegar para preparar as ferramen-
tas que conduzirão os espectadores/leitores a absorver possíveis conclu-
sões subjetivas sobre a trama apresentada, para, a partir delas, no plano 
do inconsciente, abrir portas subjetivas que possibilitarão a aceitação e 
identificação através da verossimilhança proposta na estrutura interna da 
narrativa. É o que se pode dizer do ato de surpreender.
O espectador/leitor quer ser surpreendido pelo autor, mas não quer ser 
enganado. Nesse sentido, o autor deve dosar sua arquitetura para não 
ultrapassar essa linha que é fina e delicada. É como se o autor fizesse um 
paralelo entre a mentira e a omissão e o transferisse para o jogo da sur-
presa e da enganação. Sua escrita deve amparar-se do lado da omissão e 
da surpresa.
O autor, quando apresenta alguns fatos em sua trama, oferece ao espec-
tador/leitor algumas explicações/justificativas que, naquele momento, 
se empenham apenas em amparar dramaticamente seu ato na escrita e 
o ato na ação. No entanto, essa “dica dramática” serve apenas para criar 
expectativa e curiosidade sobre o que está sendo apresentado. O desen-
volvimento da ação mesma deve ser elaborado em seus mínimos detalhes, 
pois é através dessas “dicas dramáticas” que o autor conduzirá a trama e 
a levará até o final juntodos espectadores/leitores, que estarão abarcados 
na trama e repletos de dúvidas e certezas.2
2 As opiniões e recomendações do autor do artigo se referem a um protótipo de leitor/especta-
dor e de texto ficcional. Em muitos casos, o bom final de uma narrativa é exatamente o oposto 
desse protótipo.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
Semântica e estilística
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 Atividades
1. No trecho transcrito de Os Maias, de Eça de Queiroz (1997, p. 1151-2), o narrador 
em terceira pessoa apresenta a perspectiva do personagem Tomás Alencar, poeta 
romântico que combate o Realismo/Naturalismo. O narrador se vale de estratégias 
redacionais que incluem a digressão, a alusão, a ironia, o discurso indireto livre para 
revelar suas próprias convicções sobre o Realismo/Naturalismo. Quais são elas?
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um roman-
ce... Isto levou logo a falar-se do Assommoir, de Zola e do realismo: – e o Alencar 
imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não 
discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali todos eram ho-
mens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse o excremento!
Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a mi-
lhares de edições; essas rudes análises, apoderando-se da Igreja, da Realeza, da 
Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutalmente e 
mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão 
precisos e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitação mesma 
da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, chamava a Ideia nova) caindo 
assim de chofre e escangalhando a catedral romântica, sob a qual tantos anos ele 
tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o 
desgosto literário da sua velhice. Ao princípio reagiu. “Para pôr um dique defi-
nitivo torpe maré”, como ele disse em plena Academia, escreveu dois folhetins 
cruéis; ninguém os leu; a “maré torpe” alastrou-se, mais profunda, mais larga. 
Então Alencar refugiou-se na moralidade como numa rocha sólida. O naturalis-
mo, com as suas aluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? 
Pois bem, ele, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. 
Então o poeta das Vozes d’Aurora, que durante vinte anos, em cançoneta e ode, 
propusera comércios lúbricos a todas as damas da capital; então o romancista de 
Elvira que, em novela e drama, fizera a propaganda do amor ilegítimo, represen-
tando os deveres conjugais como montanhas de tédio, dando a todos os maridos 
formas gordurosas e bestiais, e a todos os amantes a beleza, o esplendor e o gênio 
dos antigos Apolos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as confissões 
autobiográficas da Flor de Martírio) passava ele próprio uma existência medonha 
de adultérios, lubricidades, orgias, entre veludos e vinhos de Chipre – de ora em 
diante austero, incorruptível, todo ele uma torre de pudicícia, passou a vigiar 
atentamente o jornal, o livro, o teatro. E mal lobrigava sintomas nascentes de rea-
lismo num beijo que estalava mais alto, numa brancura de saia que se arregaçava 
de mais – eis o nosso Alencar que soltava por sobre o país um grande grito de 
alarme, corria à pena, e as suas imprecações lembravam (a acadêmicos fáceis de 
contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar teve uma destas revelações 
que prostram os mais fortes; quanto mais ele denunciava um livro como imoral, 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional12
Semântica e estilística182
mais o livro se vendia como agradável! O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o 
autor de Elvira encavacou... 
2. Comente os valores estilísticos dos diminutivos em -inho empregados por Dalton 
Trevisan no conto “Capitu Sou Eu”.
 Resolução 
1. Há, na verdade, uma inversão de impressões, pois o narrador caracteriza o Rea-
lismo/Naturalismo sob a perspectiva de Tomás Alencar, mas deixa transparecer as 
convicções do escritor realista Eça de Queirós sobre o Romantismo.
2. A relação de diminutivos é bem grande. Alguns deles fazem parte de expressões ou 
cristalizadas (sai de mansinho, quietinho); outros são típicos da linguagem infantil 
(mãezinha, chinelinho); e outros são denotativos (pedrinhas, chicotinho, correnti-
nha). A maior parte deles, porém, envolve usos subjetivos, ora para indicar carinho 
(professorinha, mãozinha, cabecinha, [dedos] fofinhos, olhinho, agradinhos, ternu-
rinhas, euzinha), ora para insinuar sensualidade (boquinha, linguinha poliglota, , 
cadelinha, [você] todinha), ora para indicar desprezo (barzinho, coleguinhas, Maria-
zinha, mulherinha).
Semântica e estilística 183
Referências
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184 Semântica e estilística
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