Freud, S (1914) Recordar, repetir e elaborar
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Freud, S (1914) Recordar, repetir e elaborar


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RECORDAR,
REPETIR
E ELABORAR
(1914)
NOVAS RECOMENDAÇÕES
SOBRE A TÉCNICA
DA PSICANÁLISE II
TÍTULO ORIGINAL: \u201cERINNERN, WIEDERHOLEN
UND DURCHARBEITEN. (WEITERE RATSCHLÄGE
ZUR TECHNIK DER PSYCHOANALYSE II)\u201d.
PUBLICADO PRIMEIRAMENTE EM
INTERNATIONALE ZEITSCHRIFT FÜR ÄRZTLICHE
PSYCHOANALYSE [REVISTA INTERNACIONAL
DE PSICANÁLISE MÉDICA], V. 2, N. 6, PP. 485-91.
TRADUZIDO DE GESAMMELTE WERKE X,
PP. 126-36; TAMBÉM SE ACHA EM
STUDIENAUSGABE, ERGÄNZUNGSBAND
[VOLUME COMPLEMENTAR], PP. 205-15.
ESTA TRADUÇÃO FOI PUBLICADA
ORIGINALMENTE NO JORNAL DE PSICANÁLISE,
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
DE SÃO PAULO, V. 27, N. 51, 1994;
NA PRESENTE EDIÇÃO O TEXTO FOI REVISADO,
ALGUMAS NOTAS DO TRADUTOR FORAM
OMITIDAS E OUTRAS FORAM MODIFICADAS.
Não me parece desnecessário lembrar continuamente, àqueles que estudam a
psicanálise, as profundas alterações que a técnica psicanalítica sofreu desde o
início. Na primeira fase, a da catarse de Breuer, o foco era colocado sobre o
momento da formação do sintoma, e havia o esforço persistente em fazer se re-
produzirem os processos psíquicos daquela situação, para levá-los a uma
descarga mediante a atividade consciente. Recordar e ab-reagir, com o auxílio
do estado hipnótico, eram então as metas a serem alcançadas. Em seguida, de-
pois da renúncia à hipnose, impôs-se a tarefa de descobrir, a partir dos
pensamentos espontâneos* do analisando, o que ele não conseguia recordar. A
resistência seria contornada mediante o trabalho de interpretação e a comu-
nicação dos seus resultados ao doente; mantinha-se o foco sobre as situações
em que se tinham formado os sintomas e aquelas que se verificavam por trás
do momento em que surgira a doença, a ab-reação caía para segundo plano,
parecendo substituída pelo dispêndio de trabalho que o analisando tinha que
fazer, na superação da crítica a seus pensamentos espontâneos a que era obri-
gado (em obediência à regra \u3c8\u3b1* fundamental). Por fim se formou a técnica
coerente de agora, na qual o médico renuncia a destacar um fator ou problema
determinado e se contenta em estudar a superfície psíquica apresentada pelo
analisando, utilizando a arte da interpretação essencialmente para reconhecer
as resistências que nela surgem e torná-las conscientes para o doente. Verifica-
se então uma nova espécie de divisão de trabalho: o médico desencobre as res-
istências desconhecidas para o doente; sendo essas dominadas, com frequência
o doente relata sem qualquer dificuldade as situações e os nexos esquecidos. O
objetivo dessas técnicas permaneceu inalterado, sem dúvida. Em termos
descritivos: preenchimento das lacunas da recordação; em termos dinâmicos:
superação das resistências da repressão.
Temos que permanecer gratos à velha técnica hipnótica por nos ter
mostrado processos psíquicos da análise de modo isolado e esquemático.
Apenas assim pudemos adquirir o ânimo de criar nós mesmos situações com-
plicadas na terapia analítica e de mantê-las transparentes.
Naqueles tratamentos hipnóticos o recordar se configurava de forma bem
simples. O paciente se punha numa situação anterior, que não parecia jamais se
confundir com a presente, comunicava os processos psíquicos da mesma, até
onde haviam permanecido normais, e acrescentava o que podia resultar da
transformação dos processos antes inconscientes em conscientes.
Neste ponto farei algumas observações que todo analista vê confirmadas
em sua experiência. O esquecimento de impressões, cenas, vivências reduz-se
em geral a um \u201cbloqueio\u201d delas. Quando o paciente fala desse
\u201cesquecimento\u201d, raramente deixa de acrescentar: \u201cNa verdade, eu sempre
soube, apenas não pensava nisso\u201d. Não raro ele expressa desapontamento por
não lhe ocorrerem bastantes coisas que possa reconhecer como \u201cesquecidas\u201d,
em que nunca tenha pensado novamente desde que sucederam. No entanto,
também esse anelo é satisfeito, sobretudo nas histerias de conversão. O \u201ces-
quecimento\u201d sofre ainda limitação se apreciarmos as lembranças encobridoras,
de presença universal. Em não poucos casos tive a impressão de que a con-
hecida amnésia infantil, para nós tão importante teoricamente, é inteiramente
contrabalançada pelas lembranças encobridoras. Nestas se conserva não apen-
as algo essencial da vida infantil, mas verdadeiramente todo o essencial. É pre-
ciso apenas saber extraí-lo delas por meio da análise. Elas representam os anos
esquecidos da infância tão adequadamente quanto o conteúdo manifesto do
sonho representa os pensamentos oníricos.
O outro grupo de eventos* psíquicos que, como atos puramente internos,
podem ser contrapostos às impressões e vivências, as fantasias, referências,
sentimentos, conexões,** tem de ser considerado separadamente na sua relação
com o esquecer e o recordar. Nele sucede com particular frequência que seja
\u201clembrado\u201d algo que não poderia jamais ser \u201cesquecido\u201d, pois em tempo al-
gum foi percebido, nunca foi consciente e, além disso, parece não fazer nen-
huma diferença, para o decurso psíquico, se uma dessas \u201cconexões\u201d era con-
sciente e foi então esquecida, ou se jamais alcançou a consciência. A convicção
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que o doente adquire no curso da análise independe por completo de uma tal
recordação.
Em especial nas várias formas da neurose obsessiva, o esquecimento se lim-
ita geralmente à dissolução de nexos, não reconhecimento de sequências ló-
gicas, isolamento de recordações.
No caso de um tipo especial de vivências muito importantes, que têm lugar
nos primórdios da infância e que na época foram vividas sem compreensão,
mas depois, a posteriori,* encontraram compreensão e interpretação, em geral
não é possível despertar a lembrança. Através dos sonhos pode-se chegar a
conhecê-las, os motivos mais forçosos do conjunto da neurose* nos obrigam a
acreditar nelas, e podemos igualmente nos convencer de que o analisando,
após superar suas resistências, não invoca a ausência da sensação de lembrança
(sentimento de familiaridade) para se recusar a aceitá-la. Entretanto, esse tema
exige tamanha cautela crítica, e traz tanta coisa nova e surpreendente, que eu o
reservarei para um tratamento à parte, com material apropriado.
Aplicando a nova técnica restará muito pouco, com frequência nada,
daquele transcurso agradavelmente suave. Também surgem casos que até
certo ponto se comportam como na técnica hipnótica e somente depois di-
vergem; outros agem diferentemente desde o princípio. Se nos detemos nesse
último tipo para caracterizar a diferença, é lícito afirmar que o analisando não
recorda absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas sim o atua. Ele
não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente
sem saber que o faz.
Por exemplo: o analisando não diz que se lembra de haver sido teimoso e
rebelde ante a autoridade dos pais, mas se comporta de tal maneira diante do
médico. Não se lembra de que sua investigação sexual infantil não o levou a
nada, deixando-o perplexo e desamparado, mas apresenta uma quantidade de
sonhos e pensamentos confusos, lamenta que nada dá certo para ele, e vê como
seu destino jamais concluir um empreendimento. Não se lembra de ter se
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envergonhado bastante de certas atividades sexuais e ter sentido medo de que
fossem descobertas, mas mostra vergonha do tratamento a que se submete
agora e procura escondê-lo de todos etc.
Sobretudo, ele começa a terapia* com uma repetição desse gênero. Fre-
quentemente, ao comunicar a regra fundamental da psicanálise a um paciente
com uma vida cheia de eventos e uma longa história de doença, e solicitar que
ele diga o que lhe ocorrer, esperando que suas declarações fluam como uma
torrente, constatamos que ele nada diz. Guarda silêncio e afirma que nada lhe
ocorre. Isto não é outra coisa, naturalmente, que a repetição de uma atitude
homossexual que se evidencia como resistência contra qualquer recordação.
Enquanto ele permanecer em tratamento, não se livrará desta compulsão de re-
petição; por fim compreendemos que este é seu modo de recordar.
É natural que em primeira linha nos interesse a relação desta compulsão de
repetição