Livro Ciências na Educação
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Apresentar diferentes visões 
formuladas pela Sociologia e 
pela Antropologia da Ciência a 
respeito da construção
do conhecimento
científi co sobre a Natureza.
Os fenômenos da
Natureza e a construção 
dos conceitos científi cos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você 
seja capaz de:
 Descrever diferentes pontos de vista sobre o processo de 
construção do conhecimento científi co.
 Relacionar objetos científi cos com o ponto de vista da
Antropologia da Ciência sobre o processo de sua construção.
Pré-requisito 
Procure rever as Aulas 1 e 2 sobre os dife-
rentes modos de conhecer, pois será impor-
tante para a compreensão dos diferentes 
pontos de vista sobre o processo de constru-
ção do conhecimento científi co.
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2AULA
Meta da aula
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Ciências Naturais na Educação 2 | 
INTRODUÇÃO
A SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA E A CONSTRUÇÃO DO 
CONHECIMENTO CIENTÍFICO SOBRE A NATUREZA
De certo modo, na década de 1960, a partir de Thomas Kuhn 
muitos estudiosos da Ciência irão se apoiar na idéia de comunidade 
científi ca cunhada por ele. Segundo essa idéia, há conjuntos de \u201chomens 
que partilham um PARADIGMA\u201d (p. 17, 1978). Pierre Bourdieu (1983) 
retoma a questão e afirma que a noção de comunidade científica 
autônoma, formada por cientistas neutros e interessados somente no 
progresso de sua disciplina, como idealizou Kuhn, não é capaz de revelar 
a dinâmica das práticas científi cas na sociedade moderna. Para ele, a 
produção do conhecimento científi co é um caso especial da produção 
e distribuição capitalista de mercadorias. Ela é entendida, portanto, 
a partir da determinação social do seu conteúdo. Para Bourdieu, a 
noção de campo científi co pode revelar o que o discurso e o esforço 
desinteressado da \u201ccomunidade Kuhniana\u201d \u2013 em busca do progresso 
científi co \u2013 escondem.
Como você verá adiante com mais detalhes, o campo científi co 
é um espaço de lutas no qual cientistas buscam o monopólio da 
competência científi ca. Os confl itos, que ocorrem no e pelo domínio desse 
campo, ocorrem entre indivíduos que têm lugares socialmente prefi xados 
e interessados em maximizar e monopolizar a competência científi ca 
reconhecida pelos demais cientistas. Para Bourdieu, campo científi co é 
o espaço de uma competição na qual cada cientista almeja monopólio 
da autoridade científica. Esta autoridade pode ser definida como
a capacidade técnica reunida ao poder social, ou, de outra maneira, 
como o monopólio da competência científi ca. Pode ser considerado como 
PARADIGMA
Para Thomas Kuhn, é 
um trabalho científi -
co exemplar, que cria 
uma tradição dentro 
de uma área especia-
lizada da atividade 
científi ca, fornecendo 
soluções modelares.
Os fenômenos da Natureza e a construção dos conceitos científi cos
Uma parte da bibliografi a no campo da Sociologia e da Antropologia da 
Ciência dedica-se a analisar a base de organização e interação dos cientistas e 
suas implicações para o processo de produção do conhecimento científi co. É 
sobre essas análises que vamos falar nesta aula. Você terá uma visão geral do 
pensamento de autores importantes dessa área do conhecimento, como, por 
exemplo,Thomas Kuhn, Pierre Bourdieu e Bruno Latour. Cada um deles propôs 
uma análise do processo de produção do conhecimento. Há muito em comum 
entre eles, mas também diferenças. Vamos entender por que conhecer essa 
análise é importante para nós, professores e futuros professores.
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o espaço em que os cientistas lutam por fazer prevalecer sua capacidade 
técnica, reconhecida socialmente, por ter legitimidade incontestável de 
falar e agir em assuntos científi cos.
Entretanto, a proposta metodológica de Latour & Woolgar 
(1979) é uma reação tanto às análises que atribuem um lugar especial 
ao conhecimento científi co quanto aos críticos dessa postura que, ao 
analisarem sociologicamente o conhecimento científi co, acabaram por 
não atentar para a prática da Ciência, mantendo-a, em parte, como algo 
misterioso.
Latour e Woolgar sugerem substituir a sociologia dos cientistas, 
que aceita como dado o produto da prática científi ca, pela sua DESCRIÇÃO
ETNOGRÁFICA. Em vez de impor categorias e conceitos estranhos ao mundo 
das pessoas que são observadas, os autores defendem que o fenômeno 
deve ser analisado tendo em vista o que os participantes consideram como 
relevante. E são eles, e só eles, que podem validar a descrição (LATOUR 
WOOLGAR, 1979). A proposta desses autores é construir um relato 
baseado na experiência do contato íntimo e diário com cientistas de 
laboratório. Portanto, não há diferenças de status epistemológico entre 
a construção dos fatos pelo cientista e o relato desse processo, também 
uma construção, pelos sociólogos.
Dentre os autores citados, há os que reconhecem o Estado como 
agente importante, como representante da agência pública de fi nancia-
mento, negociando resultados e maneiras de pesquisa com os cientistas. 
Latour reconhece no Estado uma instância reguladora de propriedade 
intelectual \u2013 por exemplo, por meio da regulamentação e concessão 
de patentes \u2013, fator relevante na organização e interação de cientistas. 
Ele desenvolve esse tema na análise das relações do laboratório com a 
indústria em seu livro A vida de laboratório (1997).
Vamos aprofundar alguns pontos desse breve cenário?
DESCRIÇÃO
ETNOGRÁFICA
Descrição interpreta-
tiva dos valores, inte-
resses, modos de vida 
e trabalho, do modo 
de compreender a 
natureza e a saúde, 
em síntese, da visão 
de mundo de determi-
nado grupo cultural.
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Ciências Naturais na Educação 2 | 
ATIVIDADE 
1. As principais características dos diferentes pontos de vista apresentados 
fi caram bem claras para você? Então, responda à questão a seguir.
 Para Bourdieu, a noção de campo científi co pode revelar o que o discurso e 
o esforço desinteressado da comunidade kuhniana escondem, em busca do 
progresso científi co. Explique a noção de campo científi co de Bourdieu.
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RESPOSTA COMENTADA
Você constatou que o campo científi co é o espaço de uma competição. Nele, 
o que cada cientista quer conquistar é monopólio da competência científi ca. 
Você não deve ter tido difi culdade em defi nir que essa autoridade nada mais 
é que a capacidade técnica reunida ao poder social, ou, de outra maneira, o 
monopólio da competência científi ca. Não se esqueça de que o campo científi co 
pode ser considerado como o espaço no qual os cientistas lutam para fazer 
prevalecer sua capaciade técnica, reconhecida socialmente por ter legitimidade 
incontestável de falar e agir em assuntos científi cos.
Entendendo melhor algumas dessas visões sobre o fazer 
científi co
O projeto kuhniano que busca explicar o fazer científi co confere 
destaque à seguinte questão: é a comunidade especial que congrega os 
cientistas, que dá unidade mínima às atividades de seus praticantes, 
ou é a existência de um método, ainda que compartilhado, que gera a 
identidade peculiar dessa comunidade? 
Para Kuhn (1978), a Natureza e o conhecimento científi co exis-
tente sobre ela não são quaisquer coisas, e entendê-lo é conhecer as 
características dos grupos que o criam e utilizam. A partir de Kuhn, está 
dada a primazia, pelo menos