aoAcaso
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Ao Acaso 
(Crônicas da Semana) 
 
 
Texto-fonte: 
Obra Completa, Machado de Assis, 
Rio de Janeiro: Edições W. M. Jackson,1937. 
 
Publicado originalmente no Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, de 12/06/1864 a 16/05/1865. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 DE JUNHO DE 1864. 
 
Também o folhetim tem cargo de almas. 
 
É apóstolo e converte. 
 
Fácil apostolado, é certo. Não há terras inóspitas ou áridos desertos, aonde levar a palavra da 
verdade; nem se corre o risco de ser decapitado, como S. Paulo, ou crucificado, como S. Pedro. 
 
É um apostolado garantido pela polícia, feito em plena sociedade urbana. Em vez de pisar areias 
ardentes ou subir por montanhas escalvadas, tenho debaixo dos pés um assoalho sólido, quatro 
paredes dos lados e um teto que nos abriga do orvalho da noite e das pedradas dos garotos. E por 
cúmulo de garantia ouço os passos da ronda que vela pela tranqüilidade do quarteirão. 
 
É cômodo, e nem por isso deixa de ser glorioso. 
 
Deste modo o folhetim faz de ânimo alegre o seu apostolado. Entra em todo o lugar, por mais grave e 
sério que seja. Entra no senado, como S. Paulo entrava no areópago, e aí levanta a voz em nome da 
verdade, fala em tom ameno e fácil, em frase ligeira e chistosa, e no fim do discurso tem conseguido, 
também como S. Paulo, uma conversão. 
 
O Sr. Barão de S. Lourenço foi o meu Dionísio. 
 
S. Excia. veio reconciliar-se com as musas. 
 
Foi para isso que ocupou a tribuna terça-feira passada, e tão francamente o fez que se dignou 
responder indiretamente aos períodos que lhe consagrei no folhetim de domingo. 
 
É verdade que o meio, empregado pelo ilustre senador, foi um meio já sediço no parlamento. S. Excia. 
explicou-se. Não se deu por vencido; achou que o interpretei mal, e veio explicar o sentido das suas 
palavras. Seja como for explicar um erro é sempre honroso. 
 
S. Excia. alegou que não desconhece aptidão nas musas para os cargos públicos; e que os reparos 
feitos tinham por fim somente poupá-las para que elas possam conservar o brilho. Quer que os poetas 
sejam aproveitados, mas não quer que a circunstância de conversar com as musas seja suficiente para 
dar-lhes recomendação. 
 
E acrescentou ainda que as musas não podem pensar mal de S. Excia., visto que S. Excia. também 
possui estro, faltando-lhe somente o talento da rima. 
 
O ilustre senador lamentou também que eu lhe profetizasse a ausência dos poetas na ocasião em que 
S. Excia. partir desta para a melhor. Enfim (para terminar a parte do discurso que me toca) S. Excia. 
sentiu que, com o seu discurso, ficassem as musas assanhadas. 
 
Esta última expressão causaria estranheza se não fosse transparente o fim com que o ilustre barão a 
empregou. Pareceu-lhe engraçada, e S. Excia. não pôde conter-se: soltou-a. S. Excia. adquiriu já uma 
fama de bom humor e deseja conservá-la a todo o custo. 
 
Mais adiante ei de mostrar o custo desta fama. 
 
Mas, sinceramente ou não, é certo que o ilustre senador veio reconciliar-se com as musas. As musas 
não são intolerantes e recebem com galhardia as explicações parlamentares. Pode ficar certo o ilustre 
senador de que há mais alegria no Parnaso por um pecador que se arrepende, do que por um justo 
que nunca pecou. 
 
O folhetim aplaude-se com a conversão.
 
O sentimento de contrição do ilustre senador já se havia revelado antes, por meio de uma 
correçãozinha feita no discurso que se publicou segunda-feira passada. 
 
É o que há de ficar impresso. 
 
Este meio de corrigir \u2014 alterando ou suprimindo \u2014 é muito do uso de alguns oradores. Será útil que a 
civilização acabe com esse uso de andar de jaqueta diante dos contemporâneos e aparecer de casaca 
à posteridade. 
 
Convertido o ilustre barão, ficaria terminado o incidente, se uma das musas assanhadas não me 
houvesse remetido duas linhas para publicar. 
 
A musa, ignorando se S. Excia. está ou não sinceramente convertido, hesitou se devia escrever em 
prosa ou em verso. Uma terceira forma, que não fosse nem verso nem prosa, resolvia a questão, mas 
essa só o ilustre barão ou Mr. Jourdain no-la poderia indicar. 
 
Achei um meio termo. Descosi os versos da referida musa, e arranjei a obra, de modo que pode ser 
indistintamente verso ou prosa. 
 
Hei de publicá-la depois. 
 
Agora passo a mostrar quanto custa a fama de bom humor e jovialidade. 
 
Expressões ouvidas no parlamento esta semana: 
 
Um Representante da Nação: \u2014 Não aceito as proposições que vão de encontro às minhas opiniões... 
do momento! (Risadas). 
 
Outro Representante: \u2014 Confesso que se o governo me demitisse, fazia bem. Eu sou, realmente, um 
mau funcionário; se não fora o chefe do estado-maior tudo iria por água abaixo! (Hilaridade). 
 
O mesmo Representante: \u2014 Seja franco o nobre ministro; deite uma taboinha para cá e verá como eu 
passo para lá! (Hilaridade). 
 
Há outras expressões, do mesmo jaez, de que me não recordo agora. 
 
O efeito é certo; rompe a hilaridade; adquire-se a fama de jovial e bom humor; mas avalie-se o custo 
desta fama... 
 
Tenho outra expressão parlamentar desta semana. É de um novo La-Pallisse: 
 
Um Representante (tom de lente ou diretor de faculdade: \u2014 Não, não há dúvida: a destruição é a 
antítese da conservação! 
 
Un quart d'heure avant sa mort 
Il était encore en vie. 
 
N. B. Rogo aos representantes, a quem tenho colhido estes pedacinhos de ouro, hajam de não 
suprimí-los na publicação dos discursos. Já não se trata de ir à posteridade \u2014 de casaca ou de 
jaqueta; \u2014 trata-se de irem nus. 
 
Do parlamento geral ao parlamento provincial é um passo. Vamos ao Maranhão. 
 
Chegou àquela província o corpo de João Francisco Lisboa. 
 
É inútil dizer o que foi João Francisco Lisboa, uma das nossas glórias nacionais, filho de uma das 
províncias mais ilustradas do império, que nos deu Gonçalves Dias, Sotero dos Reis, Odorico Mendes e 
tantos outros. 
 
J. F. Lisboa, como se sabe, faleceu em Portugal há um ano, e só agora pôde chegar o seu corpo à terra 
natal. 
 
Que fez a assembléia provincial? Esqueceu nesse dia as nomeações policiais; não tomou conhecimento 
das lutas seculares, dos Aquiles e dos Heitores de campanário; levantou-se à altura da perda que o 
país sofrera e da imortalidade que irradiava daquele nome; e foi em corporação assistir ao funeral do 
ilustre morto. 
 
Este ato foi praticado por iniciativa do deputado Sotero dos Reis. 
 
Já no dia anterior, a mesma assembléia votara uma quantia destinada à impressão das obras de J. F. 
Lisboa; e a câmara municipal resolvera abrir uma exceção, dispensando o cadáver da jazida comum e 
marcando-lhe um templo para ser sepultado. 
 
A assembléia provincial não parou no que fez, elegeu uma comissão para ir dar os pêsames à viúva de 
J. F. Lisboa. 
 
E para completar a resenha das demonstrações feitas nesse dia, acrescentam os jornais do Maranhão 
que os donos e consignatários dos navios surtos no porto de S. Luiz, apenas constou a chegada do 
navio em que ia o cadáver, mandaram cruzar-lhe as vergas em sinal de funeral, desde o dia da 
chegada até o do desembarque. 
 
Estas demonstrações honram uma província e fazem amá-la, como uma irmã que compreende o valor 
das glórias nacionais e sabe honrar, como deve, os seus mortos ilustres. 
 
Que os interesses estreitos e mesquinhos dos grupos locais sofressem embora. É um dia que se tomou 
na longa soma dos dias destinados às lutas estéreis. A política nesse dia devia curvar a cabeça a uma 
das maiores capacidades literárias do país. 
 
Isto vai \u2014 ao acaso \u2014 e conforme os assuntos me vão ocorrendo, sem curar do efeito que possa 
causar a contigüidade de um assunto alegre. 
 
Prometi domingo passado dizer o que pensasse da nova companhia lírica. Mas o folhetinista põe e a 
empresa dispõe. A semana passou e não houve espetáculo algum. Cantou-se ontem, é verdade, o