Dor Orofacial desafios e evolução à Odontologia
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Dor Orofacial desafios e evolução à Odontologia


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Dor orofacial:
evolução e Desafios à oDontologia
José Tadeu Tesseroli de Siqueira
Sintoma ou doença? Eis o dilema da dor. Aprendemos que é um sintoma, mas 
parece que também pode ser uma doença. O enfoque principal durante a formação acadêmica 
é a dor aguda e pouco se discute sobre a dor crônica. Este capítulo discorre sobre esses temas, 
iniciando com o papel da cavidade oral e da face na história da dor humana. Também revê alguns 
tópicos históricos, como o panorama que envolvia os tratamentos dentários até o início do século 
XX e como o sofrimento vivido na extração dentária, por exemplo, motivou a procura, pelos 
dentistas, de alternativas para reduzir a dor do tratamento. Assim foi descoberta a anestesia por 
Horace Wells, em 1844. Esse dentista foi o primeiro anestesista da história e, curiosamente, ele 
foi seu próprio paciente. É possível que tenha percebido o impacto de sua descoberta sobre a 
humanidade, afinal, as cirurgias passaram a ser indolores.
Após essa conquista extraordinária do controle da dor operatória, ainda persistia o enigma 
de algumas dores, como a dor fantasma do amputado. A dor continuou sendo alvo de estudo da comunidade 
científica internacional, que gradativamente mostrou novas e interessantes descobertas capazes de influenciar 
profissionais de diferentes áreas e países. Entre nós, essas mudanças ocorreram inicialmente em centros 
multidisciplinares de ensino público e em hospitais universitários, contribuindo para formar uma nova imagem 
sobre dor, particularmente sobre a dor crônica. O curso de Odontologia Hospitalar, de onde vem a experiência 
deste livro, contribuiu para incluir o cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar e trouxe novos desafios, como a 
importância de internato e residência hospitalar em odontologia.
No Brasil, o representante mais antigo da odontologia foi, possivelmente, Tiradentes, que, 
independentemente do seu saber científico, destacou-se pela sua participação social e capacidade de liderança. 
Em 1929, a dor em odontologia foi discutida em um congresso latino-americano realizado 
no Rio de Janeiro, durante o qual o professor Henrique Carlos Carpenter mostrou profundo conhecimento sobre 
o complexo fenômeno da dor e discutiu as incompreensíveis manifestações clínicas das odontalgias e neuralgias 
faciais. Ele solicitava que a Saúde Pública autorizasse o uso de medicamentos internos (analgésicos) pelos dentistas 
brasileiros. Isso demorou, mas aconteceu. Porém, hoje temos os medicamentos, mas continuamos nos defrontando 
com dores faciais persistentes. Do que precisamos ainda?
Nesta década, houve a aprovação da especialidade Disfunção Temporomandibular e Dor 
Orofacial pelo Conselho Federal de Odontologia, fato que realça a importância e complexidade das dores faciais e, 
ao mesmo tempo, aumenta nossa responsabilidade nessa complexa área. Vivemos, portanto, novos tempos e desafios. 
capítulo 1
pesquisa, ensino e assistência
em dor orofacial1
Introdução
sintoma, ou a própria doença. Eis o enigma da dor! 
Como diferenciar?
A complexidade desta tarefa é reforçada por ser a dor 
subjetiva, em qualquer uma das situações acima descritas, 
e por nem sempre estar acompanhada de sinais visíveis 
que esclareçam sua origem, como feridas, alteração de 
cor ou aumento de volume da área envolvida. 
A linguagem básica da dor é o elo comum que une 
todos os profissionais da área da saúde, ou qualquer 
pessoa interessada nesse atraente e complexo assunto. 
A dor é corriqueiramente ensinada como sendo o mais comum e relevante dos sintomas. Assim, so-
mos treinados a procurar a doença que a provoca \u2013 pode 
ser uma cárie dentária, um tumor, uma fratura ou outra 
de inúmeras afecções possíveis e descritas na Classifica-
ção Internacional de Doenças (CID-10). Mais recentemente 
descobriu-se que a dor pode ser a própria doença Assim, 
na clínica, ao aplicarmos os conceitos de Semiologia, 
descobrimos que temos de fazê-lo a partir da queixa co-
mum, dor, que pode ser um mero, ou patognomônico, 
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Além disso, a palavra \u201cdor\u201d tem um signifi cado que não 
se restringe apenas às áreas da saúde, estando presente 
também na fi losofi a, nas artes e na teologia. \u201cDor\u201d faz 
parte do cotidiano da vida. Portanto, sempre é hora de 
reciclar conhecimentos e de discutir na prática clínica o 
signifi cado de ter dor.
por que estudar e tratar a dor?
Segundo o médico e professor John Bonica,1 um dos 
pioneiros em aplicar na clínica o princípio da multidis-
ciplinaridade no tratamento da dor:
como sempre, o tratamento da dor permanece uma 
das mais importantes preocupações da sociedade, e 
uma preocupação específi ca da comunidade científi ca 
e dos profi ssionais da saúde. esta importância deriva 
do fato de que dor aguda ou crônica afl ige milhões de 
pessoas anualmente; e em muitos pacientes com dores 
crônicas, e uma signifi cativa parcela daqueles com dor 
aguda, ela é inadequadamente aliviada. consequente­
mente dor é a mais frequente causa de sofrimento e 
incapacidade que compromete seriamente a qualidade 
de vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. nos 
eua, 15 a 20% da população tem dor aguda, e entre 25 
e 30% tem dor crônica.1
A sensação de que entendemos dor, por considerá-la 
sintoma comum para o diagnóstico de muitas doenças, 
não preenche toda a dimensão em que ela se expressa 
em cada paciente e no mesmo paciente ao longo dos 
anos. Também não explica a razão pela qual muitos pa-
cientes não têm alívio da dor a despeito dos tratamen-
tos recebidos e, tampouco, explica as alterações que 
ocorrem no indivíduo ou na sua vida, como alterações 
emocionais, depressão, distúrbios do sono ou perda do 
emprego.
Além disso, as \u201csequelas\u201d da dor independem da 
extensão da lesão ou do local do corpo humano onde 
ela se instalou, não isentando, portanto, nenhum pro-
fi ssional da área da saúde da sua responsabilidade de, 
no mínimo, entender a complexidade de tal fenômeno. 
Uma vez ciente de que a dor tem múltiplas dimensões, 
ele evita comentários depreciativos perante a queixa 
do paciente, pode agir mais rapidamente no sentido de 
compreender e encaminhar casos complexos de dor e, 
principalmente, não se prende ao mito de que a dor é 
\u201csó\u201d um sintoma e, portanto, deve ter uma relação de 
causa-efeito para poder ser explicada.
dor: a importância da patologia e da semiologia
Como a dor é, antes de mais nada, um sintoma, 
ela exige conhecimento de Patologia. Desta, decor-
re a necessidade de sólida formação em Semiologia, 
indispensável ao diagnóstico das doenças. Tommasi2 
lembra que: 
um bom conhecimento da patologia nos permite com­
preender as doenças que afl igem nossos semelhantes, 
valoriza os sinais e sintomas e permite uma adequada 
formulação de hipóteses diagnósticas. enfi m, de uma 
forma ou de outra, é no conhecimento da patologia e 
semiologia que se fundamenta a identifi cação da doen­
ça \u2013 o diagnóstico. 
Tratar dor exige sólida formação em Patologia e Se-
miologia, mas não basta conhecer os componentes físi-
cos da doença, ou a condição que a provoca. Existe um 
outro lado, ainda mal compreendido pela maioria dos 
profi ssionais da área da saúde, que engloba os aspectos 
emocional, cognitivo e comportamental dos pacientes 
com doenças crônicas; além disso, também existe o am-
biente familiar, as condições de trabalho e o aspecto so-
cial. Sem dúvida, a dor deve ser avaliada em um amplo 
aspecto biopsicossocial. As dores orofaciais não fogem 
a essa regra.3
É no conhecimento da patologia e da 
semiologia que se fundamenta a identifi cação da 
doença: o diagnóstico. 
dor: experiência e metáfora com 
conteúdo biopsicossocial
O que fazer quando a dor, além de ser o sintoma, 
parece ser também a própria doença? Além do indis-
pensável conhecimento de Patologia e Semiologia, 
teremos de ir além e conhecer melhor as repercussões 
da dor no organismo como um todo, tanto física como 
afetivamente. Afi nal, o quanto conhecemos