GUERRAS SANTAS
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GUERRAS SANTAS


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Introdução
Quem	Vocês	Dizem	Que	Eu	Sou?
Certa	 vez,	 Jesus	 perguntou	 a	 seus	 discípulos:	 \u201cQuem	 o	 povo	 diz	 que	 eu
sou?\u201d.	 Responderam	 que	 muitas	 histórias	 estavam	 circulando:	 que	 ele
era	um	profeta,	talvez	Elias	ou	João	Batista	de	volta	ao	mundo.	\u201cMas\u201d,	ele
perguntou	 em	 seguida,	 \u201cquem	 vocês	 dizem	 que	 eu	 sou?\u201d. 1	 Nos	 últimos
dois	mil	anos,	os	cristãos	deram	diversas	respostas	a	essa	questão.	Sim,	a
maioria	 acredita	 que	 Jesus	 era	 um	 ser	 humano,	mas,	 ao	mesmo	 tempo,
também	 era	 Deus,	 uma	 das	 três	 pessoas	 da	 Trindade.	 Era	 igualmente
Deus	e	homem.
Contudo,	 quando	 dizemos	 isso,	 suscitamos	 mais	 dúvidas	 do	 que
respostas,	 pois	 a	 fé	 básica	 em	 Jesus	 Cristo	 exige	 a	 combinação	 de	 duas
diferentes	categorias	de	ser.	Essa	transgressão	de	fronteiras	confunde	e
choca	os	 \u3d0iéis	das	outras	crenças,	em	especial	monoteístas	estritos	como
muçulmanos	e	judeus.	E	mesmo	os	cristãos	que	aceitam	o	conceito	básico
provavelmente	 não	 conseguem	 explicá-lo	 com	 algo	 parecido	 à	 precisão
demandada	 pelos	 primeiros	 concílios	 eclesiásticos.	 Por	 aqueles	 padrões
rigorosos,	 praticamente	 todos	 os	 não	 especialistas	 modernos	 (incluindo
numerosos	clérigos)	logo	cairiam	em	grave	heresia.2
A	 Bíblia	 não	 é	 nada	 clara	 a	 respeito	 da	 relação	 entre	 as	 naturezas
humana	e	divina	de	Cristo,	não	sendo	possível	conciliar	de	modo	razoável
suas	 várias	 a\u3d0irmações	 sobre	 essa	 questão.	 No	 Novo	 Testamento,	 Jesus
a\u3d0irma	 explicitamente	 que	 é	 idêntico	 a	 Deus:	 \u201cEu	 e	 o	 Pai	 somos	 um\u201d,
declara.	\u201cQualquer	um	que	me	viu,	viu	o	Pai.\u201d 3	O	Evangelho	de	João	relata
um	 encontro	 de	 Jesus	 com	 a	 multidão:	 \u201cVocês	 são	 de	 baixo,	 eu	 sou	 de
cima.	 Vocês	 são	 deste	 mundo,	 eu	 não	 sou	 deste	 mundo\u201d.	 E	 continua:
\u201cAntes	que	Abraão	existisse,	eu	sou\u201d.	Seus	ouvintes	\u3d0icam	estarrecidos,	e
não	 só	 porque	 isso	 parece	 ser	 uma	 arrogância	 ultrajante	 da	 extrema
velhice.	 As	 palavras	 que	 Jesus	 emprega	 para	 \u201cEu	 sou\u201d	 \u2013	 em	 grego, 	 ego
eimi	 \u2013	 lembram	 a	 declaração	 que	 Deus	 fez	 a	 Moisés	 na	 sarça	 ardente.
Poderíamos	 traduzir	 melhor	 isso	 como	 EU	 SOU.	 Jesus	 parece	 estar
dizendo	 que	 ele	 é	 o	mesmo	 Deus	 eterno	 que	 libertou	 Israel	 do	 Egito	 e
que	também	criou	o	mundo.	Previsivelmente,	a	multidão	tenta	apedrejá-
lo	por	blasfêmia.	Então,	para	os	leitores	posteriores	dos	Evangelhos,	Pai	e
Filho	devem	ser	a	mesma	coisa.4
No	entanto,	justamente	quando	estamos	absorvendo	esse	fato	incrível,
lemos	 à	 frente	 que	 Jesus	 pleiteia	 ser	 distinto	 de	 Deus,	 o	 Pai.	 \u201cO	 Pai	 é
maior	 do	 que	 eu\u201d,	 ele	 diz.	 Quando	 Jesus	 prevê	 o	 \u3d0im	 do	mundo,	 admite
que	o	momento	exato	é	desconhecido	para	o	Filho	ou	para	os	anjos,	e	que
somente	o	Pai	sabe	a	data	com	exatidão.	Se	o	Filho	sabe	menos	do	que	o
Pai,	os	dois	devem	ser	diferentes.5
O	que	signi\u3d0ica	dizer	que	Cristo	era,	ao	mesmo	tempo,	Deus	e	homem?
Certamente,	o	 Jesus	dos	Evangelhos	parece	completamente	humano:	ele
sangra,	 ama,	 \u3d0ica	 zangado,	 morre	 numa	 agonia	 grotesca.	 Contudo,	 de
alguma	forma	temos	de	conciliar	o	fato	com	a	doutrina	da	Encarnação.	As
palavras	 iniciais	do	Evangelho	de	 João	 identi\u3d0icam	Cristo	 com	o	Logos,	 a
Razão	Divina	ou	o	Verbo	criativo:
No	 princípio	 era	 o	 Verbo	 [Logos],	 e	 o	 Verbo	 estava	 com	 Deus,	 e	 o
Verbo	 era	Deus.	 Ele	 estava	 no	 princípio	 com	Deus...	 E	 o	 Verbo	 se	 fez
carne,	e	habitou	entre	nós.6
O	 Verbo	 se	 fez	 carne,	 e	 Deus	 se	 converteu	 em	 homem.	 Mas	 como
aquele	 Verbo	 se	 relaciona	 com	 um	 homem	 chamado	 Jesus?	 O	 que	 a
Epístola	aos	Colossenses	quer	dizer	quando	declara	que	toda	a	plenitude
de	Deus	vive	em	Cristo,	numa	forma	corpórea?7
Os	problemas	 e	 os	 paradoxos	 se	multiplicam.	Quando	 Jesus	 chegou	 a
Betânia	 e	 descobriu	 que	 seu	 amigo	 Lázaro	 havia	 morrido,	 ele	 caiu	 em
luto:	 soubemos	 que	 gemeu	 em	 espírito	 e	 \u3d0icou	 perturbado.	 Sofreu	 uma
tristeza	muito	 humana,	 e,	 conforme	 relata	 um	 dos	mais	 famosos	 versos
da	 Bíblia,	 \u201cJesus	 chorou\u201d. 8	 Casualmente,	 a	 fonte	 desse	 verso	 é	 o
Evangelho	de	João,	ou	seja,	o	mesmo	texto	que	fala	de	Jesus	e	o	discurso
de	arrepiar	do	EU	SOU.	Mas	vamos	 re\u3d0letir	 a	 respeito	desse	 texto.	 Jesus
chorou,	 então	 Cristo,	 o	 ungido,	 chorou	 \u2013	 e,	 portanto,	 devemos	 acreditar
que	Deus,	 criador	 e	 origem	de	 toda	 a	 existência,	 realmente	 chorou?	De
modo	mais	 incrível,	 como,	de	 fato,	Cristo	sofreu	na	cruz,	Deus	 realmente
morreu?	 Esses	 paradoxos	 não	 foram	 concebidos	 pelos	 teólogos	 cristãos
tardios,	trabalhando	muito	depois	das	crenças	supostamente	objetivas	da
era	apostólica.	Já	em	110,	enquanto	o	Novo	Testamento	ainda	estava	sob
elaboração,	Inácio	de	Antioquia,	o	grande	bispo	mártir,	proclamou	Cristo
como	\u201cDeus	feito	em	carne\u201d.	Inácio	se	dirigiu	aos	crentes,	cujos	corações
estavam	ardendo	no	\u201csangue	de	Deus\u201d.	Deus	chorando	é	uma	coisa,	mas
sangrando?	 Mesmo	 os	 católicos	 \u3d0iéis,	 que	 aceitam	 que	 a	 Eucaristia	 é
Corpus	Christi,	o	Corpo	de	Cristo,	não	ousam	dar	o	salto	que	proclamaria
isso	o	Corpo	de	Deus.	Deus	e	Cristo	são	diferentes.9
Nos	quatro	primeiros	séculos	do	cristianismo,	os	adeptos	procuraram
diversas	 maneiras	 de	 solucionar	 esses	 problemas	 das	 Escrituras
Sagradas	 e	 da	 lógica.	 Diferentes	 Igrejas	 \u2013	 pensadores	 e	 estudiosos
importantes	 \u2013	 variaram	 na	 ênfase	 que	 colocaram	 na	 humanidade	 de
Jesus	 ou	 na	 sua	 divindade,	 e,	 sem	 praticar	 muita	 inventividade	 ou
contorções	textuais,	encontraram	passagens	bíblicas	que	apoiaram	todas
essas	 opiniões.10	 Alguns	 dos	 primeiros	 cristãos	 achavam	 que	 Cristo	 era
tão	 dotado	 da	 qualidade	 do	 sagrado	 que	 sua	 natureza	 humana	 foi
eclipsada.	 Nesse	 sentido,	 deveríamos	 pensar	 sobre	 Cristo	 como	 uma
manifestação	 de	 Deus	 caminhando	 pelo	 mundo,	 vestido	 de	 forma
humana	como	um	disfarce	conveniente.	O	Verbo	se	 fez	carne	do	mesmo
jeito	 que	 posso	 vestir	 um	 sobretudo.	 Então,	 devemos	 acreditar	 que	 os
sofrimentos	 de	 Cristo,	 todas	 as	 lágrimas	 e	 todo	 o	 sangue,	 eram	 uma
espécie	de	representação	ou	ilusão?	Outros	viram	Jesus	como	um	grande
homem,	 subjugado	 pela	 consciência	 divina.	 De	 alguma	 forma,	 o	 espírito
de	 Deus	 desceu	 sobre	 ele,	 com	 seu	 batismo	 no	 rio	 Jordão	 sendo	 o
provável	 momento	 da	 transformação,	 mas	 as	 duas	 naturezas	 sempre
permaneceram	 distintas.	 Dessa	 perspectiva,	 Cristo	 permaneceu,	 acima
de	tudo,	humano.	Alguns	acharam	que	as	duas	naturezas	se	fundiram	de
maneira	 indissolúvel	 e	 eterna;	 outros	 acharam	 que	 a	 conexão	 foi	 só
parcial	ou	temporária.
Então	 Jesus	 foi	 Deus	 com	 comportamento	 humano	 ou	 homem	 com
comportamento	 divino?	 Entre	 esses	 dois	 pólos,	 existem	 diversas	 outras
respostas,	 que	 competiram	 intensamente	 durante	 os	 primeiros	 séculos
do	cristianismo.	Perto	do	ano	400,	a	maioria	dos	cristãos	concordava	que
Jesus	Cristo	era,	em	certo	sentido,	divino,	e	que	tinha	tanto	uma	natureza
humana	 (physis,	 em	 grego),	 quanto	 uma	 natureza	 divina.	 Contudo,	 essa
crença	permitiu	uma	grande	variedade	de	interpretações,	e	ainda	que	os
acontecimentos	 tenham	 se	 desenvolvido	 de	 maneira	 diferente	 \u2013	 e	 que
grandes	 concílios	 tenham	 tomado	 decisões	 diferentes	 daquilo	 que
realmente	vieram	a	 fazer	\u2013,	qualquer	uma	dessas	 inúmeras	abordagens
poderia	 ter	 se	 estabelecido	 como	 ortodoxia.	 No	 contexto	 da	 época,	 as
pressões	culturais	e	políticas	estavam	promovendo	com	 força	a	 ideia	de
Cristo	enquanto	Deus,	de	modo	que,	 só	com	real	di\u3d0iculdade,	a	memória
do	 Jesus	 humano	 conseguiu	 ser	 mantida.	 Historicamente,	 é	 bastante
notável	 que	 a	 ortodoxia	 de	 tendência	 predominante	 emergisse	 com
tamanha	força	em	favor	da	reafirmação	da	humanidade	plena	de	Cristo.
Mas	 ela	 fez	 exatamente	 isso.	 Quando	 as	 Igrejas	 mais	 modernas
explicam	 sua	 compreensão	 da	 identidade	 de	 Cristo