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Englund, Steven uma Biografia Política

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sobre	a	natureza	humana.	No	fundo,	escreveu	Napoleão,
“o	 espírito	 natural	 do	 homem	 é	 o	 desejo	 de	 dominar”.15	 A	 visão
hobbesiana	 é	 inequívoca:	 “O	 homem	 na	 natureza	 não	 conhece	 outra	 lei
senão	 o	 interesse	 próprio:	 preservar-se,	 destruir	 os	 inimigos,	 esses	 eram
seus	deveres	diários.”16	A	conseqüência	de	uma	visão	tão	sombria	é	que	o
Estado	 (palavra	 que	 Napoleão	 escreve	 com	 inicial	 maiúscula,	 à	 maneira
francesa)	deve	ser	forte.
Mas	 nem	 todos	 os	 Estados.	 Napoleão,	 como	 Rousseau,	 tem	 coisas
ásperas	a	dizer	sobre	monarquias.	Em	1788	ele	escreveu	o	 início	de	uma
“Dissertation	 sur	 l’autorité	 royale”,	 que	 vê	 o	 poder	 monárquico
essencialmente	 como	 uma	 usurpação	 da	 soberania	 da	 sociedade	 (“foram
muito	poucos	os	reis	que	não	mereceram	ser	destronados”).17	Só	quando
representa	 a	 vontade	 geral	 o	 Estado	 possui	 soberana	 majestade	 e
grandeza.	 O	 fascínio	 de	 Napoleão	 pelo	 Estado	 emerge	 com	 inesperada
clareza	 num	 curioso	 documento	 que	 ele	 produziu	 em	 1788:	 o	 esboço	 de
uma	 “Constituição”	 para	 a	 sociedade	 dos	 oϐiciais	 novatos	 (chamada	 “la
calotte”)	 de	 seu	 regimento	—	 tarefa	 que	 solicitou.	 Seus	 colegas	 tenentes
acharam	graça	da	 seriedade	 com	que	 o	 Sólon	de	19	 anos	 entregou-se	 ao
trabalho	 de	 “legislador”,	 ϐicando	 bestiϐicados	 com	 a	 complexidade	 das
estruturas	 propostas	 por	 esse	 documento	 de	 4.500	 palavras.	 Em
conformidade	 com	 Rousseau,	 a	 Constituição	 de	 Napoleão	 estabelecia	 a
igualdade	 formal	de	 seus	membros	 e	o	 soberano	direito	que	 lhes	 assistia
de	 formar	 um	 grupo,	 mas	 em	 seguida	 mergulhava	 numa	 descrição	 mais
rebuscada	do	poder	 e	dos	 atributos	do	 “chefe”	 (o	 tenente	 veterano)	 e	de
seus	 dois	 subordinados	 (chamados	 “Infallibles”).	 O	 chefe	 é,	 “para	 cada
membro	individual	do	grupo,	o	órgão	de	opinião	pública.	A	noite	não	pode
possuir	 nenhuma	 escuridão	 para	 aquele	 que	 superintende,	 nada	 que
pudesse	comprometer	de	alguma	maneira	seu	posto	ou	sua	farda.	Os	olhos
penetrantes	 da	 águia	 e	 as	 cem	 cabeças	 de	 Argo	mal	 lhe	 bastariam	 para
desempenhar	 as	 obrigações	 e	 deveres	 do	 seu	mandato.”	 Ele	 só	 pode	 ser
deposto	por	nada	menos	que	o	voto	unânime	dos	membros!	Assim,	apesar
de	 todas	 as	 suas	 referências	 ao	 “bem	 comum”	 e	 à	 “prosperidade	 e
felicidade	 de	 nossa	 querida	 República”,	 essa	 Constituição	 é	 o	 projeto	 de
uma	liderança	fortíssima.
O	 Estado	 de	 Napoleão	 é	 ativista,	 se	 não	 francamente	 invasivo.	 Tem	 o
dever	de	dirigir	a	consciência	dos	cidadãos,	de	formar	e	educar	os	jovens	e
de	 impor	 justiça	 onde	 a	 injustiça	 prevalece:	 “A	meta	 do	 governo	 é	 dar	 a
mão	 aos	 fracos	 contra	 os	 fortes,	 permitindo	 a	 todos	 partilhar	 de	 doce
tranqüilidade,	 encontrar-se	 no	 caminho	 da	 felicidade.”18	 Por	 outro	 lado,
além	do	direito	básico	à	construção	do	Estado,	não	há	quaisquer	louvores	à
liberdade	 ou	 aos	 direitos	 humanos.	 Suas	 aϐirmações	 pressupõem	 ou
sugerem	a	 liberdade,	mas	nenhuma	 lhe	 tece	 loas,	nenhuma	a	desenvolve.
O	que	toma	o	lugar	da	liberdade	é	o	patriotismo,	ao	estilo	iluminista.
Numa	contestação	a	Roustan,	um	clérigo	suíço	que	refutou	a	crítica	de
Rousseau	 ao	 cristianismo	 em	 O	 contrato	 social, 	 Napoleão	 considera	 a
questão	 do	 Estado	 e	 da	 religião.	 Esse	 ensaio	 é	 uma	 de	 suas	 peças	 mais
originais.	 “Refutation	 de	 Roustan”	 foi	 escrito	 num	 jato,	 praticamente	 sem
mudanças,	 como	 se	 dessa	 vez	 o	 autor	 realmente	 soubesse	 o	 que	 queria
dizer,	 sem	 ser	 perturbado	 pela	 necessidade	 de	 imitar	 autores	 famosos	 e
gêneros	 estabelecidos.	 Napoleão	 não	 demonstra	 o	 mínimo	 interesse	 por
crenças	 e	 doutrinas	 religiosas,	 nem	 pelo	homo	 religiosus	 como	 fenômeno
antropológico.	A	questão	que	o	interessa	é	uma	só:	a	religião	de	Cristo,	sob
alguma	 de	 suas	 formas,	 atrapalha	 o	 bom	 governo?	 Sua	 resposta	 é	 um
retumbante	 “Sim!”	 Por	mais	 que	 Igrejas	 se	 proclamem	paciϐicadoras,	 que
aϐirmem	 pregar	 a	 obediência	 à	 autoridade,	 elas	 são	 na	 realidade
concorrentes	 do	 governo.	 “Suponhamos	 que	 um	 exército	 estrangeiro	 nos
pedisse	 permissão	 para	 entrar	 em	 nossa	 cidade,	 assegurando	 não	 ter
nenhuma	má	intenção...	nós	o	permitiríamos?”
O	 ideal	 de	 Napoleão	 é	 a	 Roma	 pré-cristã,	 onde	 a	 religião	 era	 um
assunto	 do	 Estado.	 Essa	 “unidade	 original”	 entre	 religião	 e	 política	 foi
rompida	 pela	 chegada	 do	 cristianismo,	 com	 a	 nociva	 distinção	 que
estabelece	entre	o	que	é	devido	a	Deus	e	o	que	é	devido	a	César.	Aos	olhos
de	Napoleão	isso	é	letal	e	foi	a	fonte	de	15	séculos	de	desavença,	divisão	e
guerra	 civil,	 para	 não	 mencionar	 a	 repulsiva	 competição	 entre	 clero	 e
governo.	 “O	 padre	 está	 sempre	 pronto	 a	 fomentar
arebeliãocontraainjustiçanoseiodopovo”,escreveu,comoseissofosseruim.
Censura	 os	 imperadores	 romanos	 que	 se	 converteram	 ao	 cristianismo	 e
sugere	 que,	 se	 o	 Ocidente	 pudesse	 substituir	 o	 cristianismo	 por	 credos
desenvolvidos	pelo	Estado,	sem	um	alto	custo	e	derramamento	de	sangue,
os	resultados	poderiam	ser	frutíferos.	Isso	não	é	mais	possível,	ele	admite;
mesmo	assim,	não	deveríamos	esquecer	que,	onde	a	religião	ϐloresce,	“dá-
se	adeus	à	pátria”.
Novamente,	 o	 lugar	 reservado	 a	 Deus	 ou	 à	 liberdade	 no	 coração	 de
muitos	 é	 ocupado,	 no	do	 jovem	Napoleão,	 pela	 obsessão	da	pátria.	 E	 aqui
vemos	 novamente	 aquela	 estranha	 combinação	 do	 corso	 e	 do	 francês.	 A
Córsega	 recebe	 mais	 atenção	 em	 seus	 primeiros	 escritos	 que	 princípios
políticos	ou	vociferações	anticlericais.	Duas	obras, 	Nouvelle	corse	 e	Lettres
de	 Corse,	 são	 lamentações	 acerca	 do	 que	 o	 autor	 percebe	 como	 os
elementos	 constitutivos	 da	 história	 de	 sua	 pátria:	 perϐídia,	 intriga,
assassinato,	 tortura,	 fome,	praga	e	vingança	—	acima	de	 tudo,	o	grito	por
vingança	(“Cidadãos,	se	a	luz	do	alto	não	golpeia	esses	malfeitores	e	vinga
os	 inocentes,	 é	 apenas	 porque	 o	 homem	 forte	 e	 justo	 está	 destinado	 a
desempenhar	esse	nobre	ministério”).19
Apesar	 dessa	 grandiloqüência	 operística,	 não	 temos	 nenhuma
diϐiculdade	 em	 perceber	 uma	 postura	 política	 por	 trás	 da	 emoção
exacerbada.	O	 jovem	Napoleão	pode	 ter	experimentado	 o	 patriotismo	 sem
aspas	 como	 o	 apelo	 profundo	 a	 amar	 e	 servir	 sua	 ilha,	 mas	 de	 sua
avalanche	 de	 adjetivos	 inebriados	 emergem	 conclusões	 políticas	 sobre	 a
Córsega	 que	 não	 são	 meras	 exclamações	 emocionais.	 Napoleão	 quer
transformar	 a	 Córsega	 numa	 espécie	 de	 Estado	 espartano	 ou	 romano.
Invectiva	 contra	 a	mansidão	 e	 a	 covardia	 dos	 ilhéus,	 sua	 corrupção	 pelo
luxo	francês,	seu	servilismo	e	falta	de	autocontrole,	sua	falta	de	heróis	e	de
sacriϐício	 heróico.	Os	 corsos	 claramente	 não	 são	 heróicos	 o	 bastante	 para
merecer	 o	 Estado	 com	 que	 sonha	 Napoleão.	 Nosso	 autor-Brutus	 nos
informa	que	correria	para	a	Córsega	e	 “cravaria	a	 lâmina	da	vingança	no
peito”	 do	 César	 francês,	 se	 ao	 menos	 a	 morte	 de	 um	 homem	 pudesse
bastar	 para	 inverter	 o	 lamentável	 estado	 de	 coisas,	 mas	 não	 poderia.
Assim,	 restam	 poucas	 opções:	 “[Quando]	 a	 pátria	 não	 existe	mais,	 o	 bom
patriota	 deve	morrer.”	Na	 falta	 da	morte,	 restavam	a	 escrita	 e	 o	 ativismo
político.
A	última	opção	deixava	o	 jovem	Napoleão	em	conϐlito	com	a	pureza	da
motivação.	Lidar	com	as	próprias	motivações	torna-se	perturbador	para	o
jovem	oϐicial.	Tome-se,	por	exemplo,	 “Sur	 l’amour	de	 la	patrie”,	um	ensaio
de	2.500	palavras,	 de	que	 temos	a	 sorte	de	possuir	 tanto	 a	 abertura	que
ele	rejeitou	como	a	que	usou.	Eis	a	primeira:
Mal	atingi	a	maioridade,	aqui	estou,	escrevendo	história.	Conheço	minha	fraqueza:	uma
percepção	demasiado	apurada	do	embotado	coração	humano,	embora,	para	o	que
escrevo	agora,	esse	talvez	seja	o	melhor	estado	de	espírito	e	alma.	Ainda