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Englund, Steven uma Biografia Política

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do	 Ocidente	 não	 previram)	 ou	 a
reuniϐicação	da	Alemanha;	ou	ainda	a	formação	da	União	Européia.	Mesmo
que	 tenhamos	 familiaridade	 com	 o	 cataclísmico,	 o	 surpreendente	 e	 o
auspicioso,	 desconhecemos	 o	 grau	 da	 esperança	 gerada	 pelo	 evento
extraordinário	 ocorrido	 no	 ϐinal	 do	 século	 XVIII:	 a	 Revolução	 Francesa
(1789-1815).2	 É	 essencial	 recobrar	 o	 sentido	 dessa	 esperança	 —	 na
realidade,	dessa	fé	—	se	quisermos	compreender	o	que	impeliu	Napoleão,
o	jovem.	Mas	isso	não	é	fácil,	pois	vivemos	em	meio	ao	colapso	de	grandes
eventos	desencadeados	por	1789	—	em	especial	a	Revolução	Bolchevique
de	19173	e	a	primeira	uniϐicação	da	Alemanha	—,	e	desenvolvemos	uma
carapaça	de	informações,	tanto	falsas	quanto	reais,	que	nos	põe	a	salvo	do
que	 chamaríamos	 de	 “credulidade”.	 Mas	 se	 essa	 carapaça	 nos	 protege
contra	 certa	 decepção	 e	 surpresa,	 ela	 também	 nos	 distancia	 do	 imenso
investimento	 emocional	 feito	 pelo	 “partido	 da	 esperança”	 (expressão	 de
Emerson)	do	ϐim	do	século	XVIII,	investimento	que	o	moto	latino	inscrito	na
nota	 de	 um	 dólar, 	 Annuit	 coeptis	 —	 “um	 novo	 começo	 é	 declarado”	 —,
expressa	 perfeitamente.	 Aquele	 era	 de	 fato	 um	 admirável	 mundo	 novo,
sem	querer	fazer	ironia	(ou	citação).	Como	disse	Wordsworth	em	palavras
famosas:	 “Era	 uma	 bemaventurança	 estar	 vivo	 naquela	 aurora/	Mas	 ser
jovem	era	o	próprio	Céu!”
Os	novos	começos	forjados	ou	tentados	pelos	franceses	nesse	quarto	de
século,	 o	 mais	 inusitado	 de	 sua	 improvável	 história,	 não	 envolveram
apenas	 a	 abolição	 do	 feudalismo	 ou	 a	 derrubada	 da	 mais	 importante
monarquia	 européia;	 não	 cessaram	 com	 a	 proclamação	 da	 República
Francesa	 e	 os	 subseqüentes	 julgamento	 e	 execução	 do	 rei	 francês,	 nem
com	 o	 exílio	 de	 grande	 parte	 da	 antiga	 classe	 dominante;	 foi	 além	 da
racionalização	econômica	de	um	país	que	tinha	ainda	mais	costumes	legais
do	 que	 queijos,	 além	 da	 expropriação	 do	maior	 latifundiário	 institucional
da	França	 (a	 Igreja)	e	da	venda	de	suas	 terras	 (cerca	de	20%	das	 terras
produtivas	do	país).	Aϐinal	de	contas,	essas	eram	medidas	de	que	uma	ou
outra	 das	 revoluções	 anteriores	 (inglesa,	 holandesa,	 americana	 ou	 corsa)
haviam	 pelo	 menos	 cogitado	 seriamente,	 ou	 até	 empreendido;	 não	 eram
pois	o	bastante	para	os	franceses	depois	de	sua	arrancada.
Não,	depois	que	1789	se	tornou	1792	e	levou	à	República	Jacobina,	em
seguida	 às	 medidas	 de	 1793	 e	 1794,	 os	 franceses	 se	 propuseram	 a
remodelar	 a	 paisagem	 social	 e	 psicológica:	 mudaram	 a	maneira	 como	 os
exércitos	 eram	 recrutados	 e	 comandados,	 como	 as	 guerras	 eram	 lutadas,
como	 jornais	 eram	 escritos	 e	 publicados,	 como	 as	 pessoas	 se	 vestiam	 e
falavam.	 Chegaram	 até	 a	 pensar	 em	 remodelar	 o	 tempo	 e	 o	 espaço.
Varreram	 as	 antigas	 províncias	 da	 França	 e	 as	 substituíram	 por	 83
departamentos	 de	 dimensões	 aproximadamente	 iguais;	 e	 não	 hesitaram
em	 abolir	 o	 calendário	 gregoriano	 (cristão)	 e	 trocá-lo	 por	 um
revolucionário	na	tentativa	de	eliminar	o	que	fora,	ao	longo	de	13	séculos,
a	 religião	 da	 França.	 Sob	 alguns	 aspectos,	 o	 catolicismo	 era	 o	 autor	 da
própria	 França	 —	 certamente	 da	 monarquia	 francesa	 —,	 e	 ali	 estava	 a
Igreja	 de	 Roma,	 vendo-se	 substituída	 pelo	 patriotismo	 e	 por	 cultos
seculares	organizados	pelo	Estado.
Em	 suma,	 a	 França	 propôs	 ao	 mundo	 um	 novo	 sentido	 secular,
efetivamente	destinado	a	substituir	aquele	signiϐicado	cósmico	que	Cristo	e
os	apóstolos	lhe	haviam	oferecido	no	século	I.	Descobrira-se	que	Deus	era
nada	 mais,	 nada	 menos	 que	 o	 próprio	 homem.	 Novus	 ordo	 seclorum
substituiu	Anno	 domini,	mas	 a	 um	 alto	 preço.	 Tão	 importante	 para	 nossa
história	 como	 o	 impacto	 das	 forças	 de	 mudança	 foi	 a	 reação	 dialética
provocada	 em	 termos	 de	 violência	 contra-revolucionária	 e	 terror,	 guiada
por	sua	própria	variante	das	ideologias	e	políticas	de	Glausbenkrieg.4	Como
Arno	 Mayer	 aϐirma	 com	 eloqüente	 insistência,	 a	 história	 de	 1789	 é
inelutavelmente	a	das	 fúrias	da	guerra	—	tanto	civil	quanto	entre	nações
—,	mais	cruel	e	violenta	do	que	todas	as	guerras	haviam	sido	até	então.
A	Revolução	Francesa	 fez	 uma	outra	 coisa	 que	 é	 diϐícil	 qualiϐicar	 hoje
de	 assombrosa,	 pois	 nos	 parece	 óbvia:	 ela	 “descobriu	 a	 política”,	 como
expressou	 um	 eminente	 historiador	 francês.5	 Poderíamos	 dizer	 que	 ela
promoveu	 “o
nascimentodeumanação”,entendendopelapalavra“nação”milhõesdecidadãos
(não	mais	súditos	reais)	que	passaram	por	um	rápido	aprendizado	do	que
era	 para	 eles	 uma	 nova	 dimensão	 da	 vida:	 o	 político.	 Nessa	 dimensão,
antigas	 injustiças	 sociais	 e	 econômicas,	 pânicos	 perenes,	 fomes	 e	 medos
foram	 transferidos	 para	 novos	 canais,	 que	 os	 transformaram	 em	matéria
de	 eleições,	 partidos,	 ideologias	 e	 representantes	—	 acima	 de	 tudo,	 uma
dimensão	em	que	a	consciência	coletiva	foi	remodelada	e	elevada	por	uma
difusão	 generalizada	 de	 novos	 símbolos	 (inclusive	 60.000	 “árvores	 da
liberdade”),	 e	 em	que,	 ϐinalmente,	para	que	 tudo	 ϐicasse	muito	 claro	para
todos,	 dúzias	 de	 “Rousseaus	 da	 imprensa	 sensacionalista”	 produziam
centenas	 de	 artigos	 e	 panϐletos	 populares	 para	 milhares	 de	 leitores
comuns	—	uma	verdadeira	plebe	intelectual	—,	para	lembrá-los,	por	assim
dizer,	 do	 que	 era	 politicamente	 correto.	 Em	 suma,	 a	 política	 como	 um
fenômeno	de	massa,	não	de	casta.
Assim	 a	 Revolução	 atingiu	 milhares,	 na	 verdade	 milhões,	 de	 vidas;
afetou	profundamente	 todas	as	classes	da	sociedade	em	toda	a	Europa	(e
não	só	nela).	Mais	do	que	qualquer	outro	grupo,	exceto	a	burguesia	liberal,
porém,	 ela	 feriu	 a	 pequena	 nobreza,	 de	 que	 Napoleão	 provinha.	 De
maneira	 mais	 especíϐica,	 desfechou	 um	 golpe	 retumbante	 no	 corpo	 dos
oϐiciais	das	Forças	Armadas,	empurrando	a	maior	parte	deles	para	o	exílio
e	 abrindo	 possibilidades	 quase	 ilimitadas	 para	 os	 poucos	 que	 restaram.
Num	nível	mais	pessoal,	a	Revolução	tocou	profundamente	jovens	soldados
(e	escritores)	 românticos,	 turbulentos,	 talentosos	e	ambiciosos	—	homens
enlevados	 por	 Ossian	 e	 Plutarco,	 que	misturavam	 política	 com	 literatura,
“suicídio”	 com	 patriotismo.	 E	 quanto	 ao	 (nessa	 altura)	 primeiro-tenente
Napoleão	 Bonaparte,	 sua	 vida	 foi	 transformada	 pela	 Revolução	 tão
drasticamente	 quanto	 ele,	 um	 dia,	 transformaria	 a	 Revolução.	 Isso	 não
pode	ser	dito	com	tanta	segurança	sobre	mais	ninguém.
A	 reação	 de	 Napoleão	 ao	 tumulto	 da	 primeira	 hora	—	 o	 que	Hannah
Arendt	 chama	a	 violência	 da	 revolta,	 antes	 ainda	que	 ela	 seja	 revolução6
—	foi	uma	irritação	de	oϐicial,	seguida	pela	dúvida	quanto	à	importância	de
longo	 alcance	 que	 aquelas	 revoltas	 poderiam	 ter.7	 Mas	 depois,	 quando
ϐicou	 claro	 que	 algo	 maior	 era	 iminente,	 veio	 o	 assentimento.	 Em	 certo
sentido,	 Napoleão	 Bonaparte	 já	 havia	 sido	 conquistado	 pela	 Revolução
desde	o	momento	em	que	um	aristocrata	arrogante	em	Autun	ou	Brienne	o
esnobara.	Mas	em	outro	sentido	—	o	de	tolerar	a	violência	popular	—,	ele
nunca	se	entusiasmara.	O	foco	de	sua	atenção	consciente	no	despontar	de
1789	 não	 foi	 o	 que	 a	 Revolução	 prometia	 para	 ele	 pessoalmente
(pensamento	 ignóbil	 para	 um	 patriota),	 mas	 para	 a	 pátria	 corsa.	 Havia
grandes	 razões	 para	 otimismo.	 Os	 homens	 que	 estavam	 se	 aϐirmando
rapidamente	 na	 França	 também	 se	 intitulavam	 patriotas.	 Em	 junho	 os
Estados	 Gerais	 se	 haviam	 autoproclamado,	 atrevidamente,	 como
Assembléia	 Nacional	 Constituinte,	 atribuindo-se	 a	 missão	 de	 esboçar	 a
Constituição	que	 transformaria	o	 regime	numa	monarquia	 liberal.	Mas	os
acontecimentos	 se	 sucediam	 numa	 rapidez	 que	 espantava	 a	 todos	 e,	 em
poucas	 semanas,	 a	 Assembléia	 estava	 na	 prática	 governando