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Englund, Steven uma Biografia Política

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teriam	 sido	 divertidas,	 não	 fosse	 pelo	 dano	 que
provocavam:	 ele	 fala	 de	 si	 mesmo	 como	 “patriota	 sensível”	 e	 fervoroso
democrata;	está	convencido	de	possuir	“a	coragem	de	cometer	tiranicídio”,
e	de	que	 “morrerá	 com	uma	adaga	na	mão”.	Luciano	 idealizava	Napoleão
muito	 menos	 que	 Luís.	 Na	 verdade,	 de	 sua	 perspectiva	 como	 ideólogo,
Napoleão	 tornara-se	 um	 pragmatista.	 Luciano	 escreveu	 a	 José:	 numa
revolução,	é	essencial	ser	intransigente,	não	“seguir	o	vento”	ou	“mudar	de
lado	de	repente”.	Napoleão,	a	seu	ver,	era	capaz	das	duas	coisas:	“Há	muito
percebi	 nele	 uma	 ambição	 completamente	 egoísta	 que	 supera	 seu	 amor
pelo	 bem	 comum.	 Eu	 realmente	 acredito	 num	 Estado	 livre,	 ele	 é	 um
homem	perigoso.”
As	 observações	 de	 Luciano	 são	 constantemente	 citadas	 por
historiadores	e	biógrafos	de	Napoleão,	mas,	se	um	dia	seriam	conϐirmadas,
a	curto	prazo	mostraram-se	errôneas.	O	notável,	de	fato,	foi	o	grau	em	que
“o	homem	perigoso”	revelou-se	inabalável,	não	volúvel,	nos	meses	ϐinais	do
drama	corso.	No	ϐim	do	verão	Napoleão	estava	ansioso	por	regressar	à	sua
família	e	à	sua	terra.	Tendo	resolvido	seus	problemas	com	o	regimento	La
Fère,	manobrou	para	conseguir	mais	uma	licença,	apanhou	a	irmã	Elisa	em
seu	elegante	internato	e	chegou	de	volta	a	Ajaccio	em	meados	de	outubro.
Foi	 uma	 feliz	 volta	 ao	 lar,	 especialmente	 para	 Letizia:	 pela	 primeira	 vez,
tinha	todos	os	seus	filhos	juntos	na	casa	da	rue	Saint-Charles.
Partida	forçada	(1793)
É	 curioso	 ver	 a	 sinceridade	 com	 que	 Napoleão	 parece	 ter	 acreditado
que	podia	implementar	zelosamente	as	medidas	da	Revolução	e	manter	ao
mesmo	tempo	sua	relação	com	Paoli.	Quando	na	França,	aconselhara	José	a
“permanecer	ϐirme	ao	lado	de	Paoli”	apesar	de	tudo	que	acontecera.	“Ele	é
tudo	 e	 pode	 tudo.”	 Mas	 Paoli,	 além	 de	 bloquear	 a	 eleição	 do	 Bonaparte
primogênito	 para	 a	 Convenção,	 recusou	 um	 emprego	 a	 Luciano	 em	 seu
círculo.	 José	 resumiu	 a	 situação:	 Paoli	 estava	 “impressionado”	 com	 os
talentos	 de	 Luciano,	 “mas	 não	 quer	 se	 aliar	 a	 nós.	 Esse	 é	 o	 cerne	 da
questão”.	 Paoli	 chegou	 até	 a	 tentar	 impedir	 o	 retorno	 de	 Napoleão	 à
condição	de	coronel	da	Guarda	Nacional,	 forçando-o	a	 recorrer	à	pressão
política	parisiense.	Havia	muito	que	o	Babbù	se	aliara	a	outras	 famílias	—
notadamente	 com	 o	 clã	 rival	 dos	 Bonaparte,	 que	 ostentava	 o	 magníϐico
nome	“Pozzo	di	Burgo”	(poço	do	burgo).	Os	Pozzo,	como	os	Buttafoco,	eram
uma	antiga	família	corsa	com	mais	status	que	os	Bonaparte.	Charles-André
Pozzo	di	Burgo	tornou-se	o	braço	direito	de	Paoli	na	Córsega	—	e	o	maior
inimigo	de	Napoleão.	A	lógica	das	escolhas	de	Charles-André	não	demorou
a	 levá-lo	 para	 a	 causa	 contra-revolucionária,	 e	 ele	 faria	 uma	 eminente
carreira	em	Viena	e	São	Petersburgo,	lutando	contra	a	Revolução	e	contra
Napoleão	 e	 tomando	 o	 partido	 de	Wellington	 em	Waterloo.	 O	 imperador
perdoaria	Paoli	pela	ruptura	política	de	1793,	mas	Pozzo	nunca	teve	o	seu
perdão.
O	 acontecimento	 que	 desencadeou	 o	 drama	 ϐinal	 foi	 a	 expedição	 da
pequenina	Córsega	 contra	 algumas	 ilhas,	 as	Madalenas,	 situadas	 ao	 largo
da	 costa	 da	 Sardenha.	 A	 expedição	 de	 1793,	 em	 que	 Paoli	 nomeou
Bonaparte	 chefe	 de	 um	 batalhão	 de	 voluntários	 corsos,	 foi	 um	 desastre,
mas	 os	 indícios	 disponíveis	 não	 deixam	 claro	 por	 quê.	 Segundo	 alguns
historiadores,	 Paoli	 teria	 instruído	 secretamente	 o	 comandante	 da
expedição	 a	 fazê-la	 fracassar	 e	 “perder”	 Napoleão	 no	 processo.	 De	 fato,
Napoleão	quase	foi	abandonado,	com	sua	bateria	de	artilharia,	numa	praia
sob	 ataque.	 Outros	 historiadores	 isentam	 Paoli	 e	 põem	 a	 culpa	 na
comunicação	precária,	na	confusão	e	na	ação	do	inimigo.	O	fato	é	que	cabia
a	Paoli,	como	chefe	de	Estado,	a	responsabilidade	ϐinal	pelo	que	aconteceu,
e	 o	 resultado	 —	 qualquer	 que	 tenha	 sido	 a	 causa	 —	 provavelmente	 o
agradou.
Napoleão	 dirigiu	 uma	 queixa	 para	 o	 ministro	 da	 Guerra,	 pedindo	 a
punição	 dos	 culpados.	 Não	 citou	 o	 Babbù,	 mas	 a	 reputação	 deste	 na
Convenção,	 que	 já	 estava	 baixa	 graças	 a	 Saliceti,	 foi	 ϐinalmente	 liquidada
com	 o	 caso	 da	 expedição	 às	 Madalenas.	 Saliceti	 e	 dois	 outros	 deputados
foram	enviados	à	Córsega	com	plenos	poderes	para	 investigar	o	ocorrido.
De	 volta	 à	 sua	 terra	 natal	 no	 papel	 do	 ideólogo	 inϐlexível	 e	 do	 tirano
mesquinho,	 Saliceti	 encontrou	 “tendências	 contra-revolucionárias”	 e
aplicou	 uma	 justiça	 diabólica,	 fazendo	 prisões	 arbitrárias	 e	 agindo	 com
demagogia.
A	ruptura	iminente	entre	os	Bonaparte	e	Paoli	 foi	precipitada	por	José
e	 Luciano.	 Era	 sabido	 que	 o	 irmão	 mais	 velho	 estava	 malversando	 e
embolsando	 fundos	 públicos,	 provavelmente	 com	 a	 complacência	 de
Saliceti,	mas	sob	a	severa	reprovação	e	desgosto	do	nobre	Paoli.	Quanto	a
Luciano,	 era	 ele,	 não	 Napoleão,	 que	 estava	 se	 revelando	 o	 Bonaparte
volúvel.	 No	 curto	 espaço	 de	 um	 ano,	 deixou	 de	 idolatrar	 Paoli	 para
desprezá-lo	 e	 caluniá-lo.	 Agora	 Luciano	 despontava	 como	 imbatível	 no
papel	 de	 criador	 de	 problemas,	 e,	 se	 não	 dava	 a	 impressão	 de	 ser	 um
consumado	 egoísta,	 isso	 se	 deve	 apenas	 à	 confusão	 completa	 que	 fazia
entre	si	mesmo	e	“a	Revolução”.
Graças	à	inϐluência	de	Saliceti,	Luciano	Bonaparte	conseguiu	o	cargo	de
secretário	 de	 um	 graduado	 diplomata	 francês,	 condição	 em	 que	 viajou
para	o	continente.	Ali,	no	clube	 jacobino	de	Toulon,	seis	semanas	antes	de
completar	18	anos,	 fez	um	digressivo	discurso	de	duas	horas	de	duração,
estimulado	pelos	aplausos	da	audiência.	As	palavras	que	 jorraram	de	sua
boca,	impressas	e	promulgadas	por	toda	a	França,	eram	um	ataque	frontal
a	Paoli.	O	Babbù,	cujos	“carinhos”	o	haviam	“embriagado	de	prazer”	apenas
cerca	de	um	ano	antes,	era	agora	acusado	de	 todas	as	perϐídias,	 inclusive
de	 colaboração	 secreta	 com	 a	 Inglaterra.	 Nesse	 meio	 tempo,	 em	 Paris,	 a
Convenção,	 graças	 à	 ação	 preliminar	 de	 Saliceti,	 destituiu	 Paoli	 de	 seus
cargos	na	Córsega	e	o	convocou	a	comparecer	perante	seu	tribunal.	Ao	se
negar,	foi	destituído	de	seus	direitos	legais.
Um	 drama	 de	 família	 desdobrou-se	 então	 dentro	 do	 drama	 histórico.
Napoleão	não	 tivera	 conhecimento	do	discurso	de	Luciano,	mas	 soube	da
violenta	 investida	 que	 fora	 montada	 contra	 Paoli	 na	 França.	 Embora
tivesse	 colaborado	 na	 sua	 criação,	 a	 realidade	 o	 fez	 recuar.	 Duelar	 com
Paoli	na	política	corsa	era	uma	coisa,	outra	bem	diferente	era	ver	o	amigo
de	 seu	 pai,	 o	 grande	 herói	 de	 sua	 família,	 ser	 injustamente	 acusado	 de
crimes	 políticos	 hediondos	 que	 o	 levariam	 à	 guilhotina	 se	 a	 Convenção
pusesse	 as	 mãos	 nele.	 Napoleão	 sabia	 perfeitamente	 que	 Paoli,	 mesmo
após	a	morte	de	Luís	XVI,	continuava	favorável	ao	vínculo	com	a	França.
Assim,	 Napoleão	 Bonaparte	 pegou	 da	 pena	 e	 redigiu	 o	 que	 foi
provavelmente	 a	 mais	 eloqüente	 defesa	 de	 Paoli	 jamais	 escrita.	 Com
expressões	 contundentes	 e	 lógica	 implacável,	 demonstrou	 o	 absurdo	 que
era	para	a	Convenção	sustentar	que	“o	patriarca	da	liberdade,	o	precursor
da	 República	 Francesa”	 iria,	 aos	 70	 anos	 e	 com	 saúde	 precária,	 abjurar
uma	vida	de	dedicação	à	causa	da	democracia	e	tomar	o	partido	da	contra-
revolução.	 O	 fecho	 soa	 sincero:	 “Nós	 [corsos]	 lhe	 devemos	 tudo	 [a	 Paoli],
inclusive	 a	 felicidade	 de	 nos	 termos	 tornado	 cidadãos	 da	 República
Francesa.”	 Em	 seguida	 partiu	 para	 Corte	 para	 ϐicar	 ao	 lado	 de	 Paoli	 na
crise.
O	que	o	jovem	Napoleão,	ϐlagrado	nesse	último	e	dramático	lampejo	de
seu	 antigo	 patriotismo	 corso,	 parecia	 não	 estar	 entendendo	 era	 o	 quanto
essas	 especulações	 e	 declarações	 já	 estavam	 fora	 de	 hora:	 suas	 próprias
intenções	 e	 as	 de	 Paoli,	 engolidas	 no	 bojo	 da	 Revolução	 Francesa,	 os