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Englund, Steven uma Biografia Política

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haviam	 lançado	 inexoravelmente	 um	 contra	 o	 outro.	 Fazer	 vista	 grossa
para	a	lógica	profunda	e	coercitiva	de	escolhas	e	dos	fatos	foi	um	erro	que
muitos	cometeram	na	Revolução	Francesa,	mas	surpreende	em	alguém	tão
astuto	quanto	Napoleão.	Ou	será	que	só	se	tornou	astuto	depois	da	grande
decepção	e	fracasso	da	sua	juventude?	Estaria	seu	“patriota”	corso	interior
ainda	em	conϐlito	com	seu	patriota	francês	aparente?	Ou	será	que	sonhava
que	Paoli	o	nomearia	seu	generalíssimo?23
Paoli	 defendeu-se	 com	 tranqüilidade.	 Numa	 declaração	 igualmente
eloqüente	enviada	à	Convenção,	reiterou	seu	próprio	compromisso	e	o	de
seus	 compatriotas	 com	 a	 França	 e	 a	 Revolução.	 Isso	 não	 fez	 diferença
alguma.	 As	 posições	 estavam	 presas	 à	 polaridade	 de	 revolução	 e	 contra-
revolução.	 Chegou	 então	 a	 Corte	 a	 notícia	 do	 discurso	 de	 Luciano	 em
Toulon.	 O	 costume	 corso	 do	 clã	 exigiria	 que,	 nesse	 momento,	 Napoleão
matasse	ou	 renegasse	Luciano,	 ou	endossasse	 suas	palavras	 e	deixasse	a
Córsega.	 Napoleão	 não	 hesitou	 em	 apoiar	 o	 seu	 sangue.	 Apesar	 disso,
escreveu	 ao	 ministro	 da	 Guerra	 francês,	 em	 quem	 conϐiava,	 admitindo
francamente	 que	 a	 presença	 de	 Luciano	 no	 sul	 da	 França	 era	 “perigosa
não	 só	 para	 ele,	 como	 para	 o	 bem	 público”	 e	 pedindo	 ao	 ministro	 que
despachasse	o	irmão	de	volta	para	a	Córsega.
Finalmente,	 após	meses	de	 tergiversação	e	hipocrisia,	 as	 adagas	eram
abertamente	 sacadas	 entre	 Napoleão	 e	 Paoli,	 assim	 como	 entre	 a
Revolução	 e	 a	 Córsega.	 Nessa	 altura,	 os	 Bonaparte	 viram	 seu	 pai	 ser
caluniado:	no	decreto	que	o	governo	paolista	emitiu	condenando	a	família	à
“morte	civil”	(perda	de	todos	os	bens	e	da	cidadania)	foram	feitas	alusões	à
rápida	 deserção	 da	 causa	 corsa	 por	 Carlo	 Bonaparte	 e	 às	 suas	 estreitas
relações	com	o	conde	de	Marbeuf.	 Ironicamente,	os	Bonaparte	sofreram	o
mesmo	 destino	 que	 os	 Buttafoco:	 a	 desgraça	—	 a	 expulsão	 de	 sua	 terra
natal	por	razões	políticas	—	e	sob	a	mesma	acusação:	traição	em	favor	da
“causa	francesa”.	A	casa	da	rua	Saint	Charles	foi	pilhada,	talvez	incendiada;
seus	 moradores	 esconderam-se	 e	 depois	 fugiram	 da	 ilha.24	 Não	 antes,
porém,	 que	 Napoleão,	 sob	 ordens	 de	 Saliceti,	 desfechasse	 um	 ataque
militar	 à	 fortaleza	 de	 Ajaccio,	 usando	 as	 tropas	 republicanas	 (legalistas
franceses)	 disponíveis.	 Foi	 um	 ϐiasco	 tão	 melancólico	 quanto	 o	 da
expedição	 às	Madalenas.	 Os	 Bonaparte	 embarcaram	 rumo	 à	 França	 e	 ali
aportaram	 no	 dia	 13	 de	 junho	 no	 golfo	 Juan,	 onde,	 no	 futuro,	 Napoleão
faria	um	famoso	desembarque.
Com	 sua	 paranóia,	 a	 Convenção	 promoveu	 a	 conϐirmação	 de	 seus
temores	na	Córsega.	Paoli	 foi	 impelido	a	fazer	o	que	seus	inimigos	haviam
suposto,	 erroneamente,	 que	 queria	 fazer	 o	 tempo	 todo:	 abrir	 a	 Córsega
para	 os	 ingleses.	 Era	 isso	 ou	 esperar	 sentado	 em	 Corte	 pela	 prisão	 e	 a
guilhotina.	O	regime	anglo-corso	do	rei	 Jorge	 III	 foi	estabelecido	em	1794;
sua	Constituição	monárquica	concedeu	a	Paoli	muito	menos	poder	do	que
ele	 tinha	 sob	 os	 franceses.	 O	Babbù	 se	 deu	 tão	mal	 com	 o	 vice-rei	 inglês
que	 foi	obrigado	a	partir	para	Londres	em	1795.	A	 ilha	 foi	retomada	pela
França	 em	 1796.	 Quando	 se	 tornou	 primeiro-cônsul,	 Napoleão	 teve	 a
esperança	de	persuadir	 Paoli	 a	 deixar	 o	 exílio	 para	 retornar	 à	 Córsega	 e
governá-la	para	a	França.	 Isso	não	haveria	de	acontecer,	embora	o 	Babbù
tenha	de	 fato	 se	 reconciliado	com	o	 imperador	antes	de	morrer	em	1807
(em	seu	testamento	—	ϐiel	até	o	 ϐim	a	seus	princípios	 iluministas	—,	Paoli
deixou	 dinheiro	 para	 a	 recriação	 de	 uma	 universidade	 em	 Corte).	 Os
homens	 que	 Napoleão	 escolheu	 para	 governar	 a	 Córsega	 foram,	 sem
exceção,	ex-paolisti.	Sua	missão:	tornar	a	Córsega	deϐinitivamente	francesa
—	 meta	 que	 nem	 eles,	 nem	 sucessivos	 governos	 franceses	 jamais
alcançaram	plenamente.
A	 ruptura	 com	 Paoli	 foi	 algo	 de	 que	 Napoleão	 se	 envergonharia	 e
passaria	o	resto	da	vida	tentando	explicar.	A	desculpa	que	inventou	foi	que
aquilo	era	inevitável	e	não	ocorrera	por	culpa	sua	(no	que	havia	certo	grau
de	 verdade).	 Em	 Santa	 Helena,	 Napoleão	 explicou	 o	 problema	 alegando
que	 Paoli	 fora	 o	 tempo	 todo,	 secretamente,	 um	 anglóϐilo	 e	 um	 contra-
revolucionário,	 ao	 passo	 que	 os	 Bonaparte	 eram	 leais	 à	 Revolução
Francesa.	 É	 claro	 que	 isso	 é	 parcialmente	 falso.	 Não	 há	 dúvida	 de	 que
Paoli,	diferentemente	de	Napoleão,	nutria	grande	afeição	e	admiração	pela
Inglaterra,	mas	ele	não	desejava	romper	com	a	França	e	com	a	Revolução.
Certa	 vez	 Napoleão	 escreveu	 que	 a	 única	 ação	 imperdoável	 na	 história
ocorria	 quando	 um	 homem	 empunhava	 armas	 não	 contra	 seu	 rei,	 mas
contra	 sua	 pátria	 —	 isto	 é,	 o	 que	 ocorreu	 quando	 Paoli	 voltou	 com	 os
ingleses	para	reivindicar	a	Córsega.	Mas	a	situação	real	era	mais	complexa
do	que	 isso	 sugere.	A	Revolução	Francesa	podia	 se	 alimentar	da	 idéia	de
pátria,	 mas	 ao	 mesmo	 tempo	 patenteava	 a	 ambigüidade	 da	 palavra	 e	 a
diϐiculdade	 de	 se	 seguir	 um	 programa	 patriótico	 coerente.	 Por	 muito
tempo,	Paoli	e	Napoleão	haviam	ambos	considerado	a	Córsega	sua	pátria.	A
França	 revolucionária	 surgiu	muito	 depois,	 criando	 uma	 situação	 em	que
os	dois	homens	acabaram	por	atacar	sua	pátria:	Napoleão	em	aliança	com
seus	antes	odiados	franceses;	e	Paoli	alinhado	com	seus	antes	bem-amados
ingleses.
De	 fato,	 se	 alguém	 evoluiu	 em	 sua	 compreensão	 do	 que	 a	 pátria
signiϐicava,	foi	certamente	Napoleão,	não	Paoli.	Uma	frase	num	relatório	de
auto-exoneração	que	Napoleão	escreveu	no	verão	de	1793	para	o	ministro
da	 Guerra	 francês	 demonstra	 isso.	 Ele	 observa	 que	 Saliceti	 e	 os	 demais
delegados	 franceses	 que	 haviam	 ido	 à	 Córsega	 “devem	 certamente	 ter
encontrado	 ali	 um	 grande	 número	 de	 bons	 patriotas”.25	 Embora	 fosse
uma	frase	inteiramente	casual,	ela	reϐletia	uma	virada	da	maré,	pois	o	que
o	autor	das	Lettres	de	Corse 	 entendia	 nessa	 altura	 por	 “patriota”	 não	 era
mais	 o	 corso	que	 lutava	pela	 liberdade,	mas	 alguém	que	 era,	 não	 apenas
pró-franceses	 —	 isso	 Paoli	 era	 —,	 mas	 pró-Convenção,	 pró-jacobino	 e
também	anti-Paoli.	Foi	esse	o	novo	signiϐicado	de	que	a	língua	e	a	lógica	da
Revolução	 dotaram	 a	 palavra,	 e	 que	 Napoleão	 veio	 a	 aceitar	 tão
inconscientemente	 quanto	 Luciano	 e	 José.	 A	 idéia	 sagrada	 da	 pátria,	 em
suma,	 ϐizera	 em	 sua	mente	 um	giro	 de	 180	 graus	 em	 relação	 ao	 que	 era
três	 anos	 antes.	 Para	 Napoleão,	 Saliceti	 e	 companhia,	 “pátria”	 deixara	 de
ter	uma	signiϐicação	em	grande	parte	irredentista	(“Córsega	independente
para	 sempre!”),	 para	 se	 tornar	 um	 elemento	 nuclear	 de	 uma	 política
complexa	de	revolução	democrática	e	agressão	imperial.
O	teor	do	relatório	ao	ministro	da	Guerra	consistia	em	recomendar	uma
incursão	 militar	 francesa	 a	 ϐim	 de	 retomar	 a	 Córsega	 para	 a	 Revolução.
Militarmente,	 isso	 seria	 fácil,	 aϐirma	o	autor.	Por	quê?	Bem,	porque	 “Paoli
encontra-se	sem	nenhum	general”.
A	superação	do	patriotismo
Lembrando	a	fraqueza	confessada	do	jovem	Napoleão,	sua	“consciência
demasiado	apurada	do	embotado	coração	humano”,	podemos	perguntar	se
seu	 entusiasmo	 juvenil	 não	 teria	 a	 essa	 altura	 “evaporado	 sob	 um
conhecimento	aguçado	dos	homens”.	A	nosso	ver,	ao	partir	de	Calvi	com	a
família	no	dia	11	de	junho	de	1793,	ele	era	um	homem	que	se	conhecia	a	si
mesmo	e	aos	“homens”	melhor	que	antes	—	talvez	melhor	que	desejasse.
Seu	tempo	de	kairos	terminara	mal	havia	começado.
Essa	 partida	 às	 pressas	 fez	 dele	 um	 corso	 ou	 um	 francês?	 É	 verdade
que	 Napoleão	 sempre	 conservou	 a	 tez	 morena	 de	 alguém	 “que	 foi
amamentado	 com	 azeite”,	 mas	 isso	 poderia	 caracterizar	 tanto	 um	 corso
quanto	 um	 francês	 do	 Sul.	 Se	 “a