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Englund, Steven uma Biografia Política

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ausência	 reduz	 as	 pequenas	 paixões	 e
expande	as	grandes,	como	o	vento	apaga	uma	vela	mas	atiça	o	fogo”,	como
disse	La	Rochefoucauld,	o	ciclone	da	Revolução	destruiu	em	Napoleão	todo
e	 qualquer	 resíduo	 de	 paixão	 pela	 Córsega.	 Muitos	 especulam	 que	 a
indiferença	 do	 imperador	 pelos	 assuntos	 corsos	 era	 um	 resultado	 direto
da	 derrota	 e	 da	 desilusão	 do	 capitão-de-artilharia.	 Certo	 dia,	 em	 Santa
Helena,	 Napoleão	 declarou	 a	 Gaspard	 Gourgaud:	 “De	 todas	 as
maledicências	 espalhadas	 sobre	 mim	 em	 libelos,	 aquela	 a	 que	 fui	 mais
sensível	 foi	ver-me	chamado	de	corso.”	É	verdade	que	em	outras	ocasiões
ele	 confessou	 que	 teria	 gostado	 de	 ouvir	 os	 sinos	 das	 igrejas	 de	 Santa
Helena	 tocarem	 o	 Angelus,	 como	 ouvia	 quando	 menino	 na	 Córsega.	 Mas
que	 tal	 se,	 em	 vez	 de	 insistirmos	 em	 tentar	 discernir	 se	 Napoleão
permaneceu	 corso	 e/ou	 se	 tornou	 francês,	 considerássemos	 que	 ele	 não
era	 uma	 coisa	 nem	 outra?	 César,	 nascido	 na	 aristocracia,	 foi	 um 	 outsider
por	opção;	Napoleão,	nascido	numa	família	boa	e	sem	fortuna	da	província,
foi	 um	 outsider	 nato.	 E	 foi	 como	 outsiders	 que	 ambos	 acabaram	 sendo
vistos.	Napoleão,	como	César,	não	permaneceu	criança	por	muito	tempo;	os
dois	 cresceram	 depressa	 porque	 precisavam	 fazêlo.	 E	 poderíamos
acrescentar	 que	 Napoleão	 tampouco	 possuiu	 alguma	 nacionalidade	 por
muito	tempo	(tal	como	Christian	Meier	afirma	sobre	César).26
As	 ações	 de	 Napoleão	 na	 Córsega	 no	 período	 de	 1789-93	 pouco
prometeram,	e	pouco	disseram,	sobre	seu	futuro.	Não	há	dúvida	de	que	ele
deu	mostras	de	 coragem	e,	 em	alguns	momentos,	de	 audácia,	mas	o	mais
das	 vezes	 revelou	 inconseqüência	 e	 imprevisão.	 Demonstrou	 um
irrealismo	 e	 deϐiciência	 de	 julgamento	 estranhos	 para	 um	 corso	 que
deveria	ter	um	conhecimento	melhor	dos	homens	e	de	várias	coisas	—	em
especial,	 que	 deveria	 se	 dar	 conta	 de	 como	 a	 Revolução	 Francesa	 estava
dividindo	 e	 destruindo	 sua	 bem-amada	 terra	 natal,	 de	 como	 seu	 aliado
mais	próximo	 (Saliceti)	 era	um	espécime	deplorável	de	 ser	humano,	 e	de
como	 seus	 dois	 irmãos	 estavam	 solapando	 suas	 próprias	 metas.	 Esses
foram	 defeitos	 da	 juventude	 e	 do	 idealismo;	 não	 foram	 sinais	 de	 que
grandes	coisas	estavam	por	vir.	Mesmo	em	termos	estritamente	militares,
o	 início	da	 carreira	de	Napoleão	 foi	no	mínimo	 irregular	—	marcado	 com
mais	freqüência	pela	derrota	(p.ex.,	as	insurreições	de	Ajaccio,	a	expedição
às	Madalenas)	do	que	pelo	sucesso.
Os	anos	que	Napoleão	passou	na	Córsega	só	têm	importância	intrínseca
pelo	 aprendizado	 político	 que	 lhe	 propiciaram.	 Quando	 deixou
deϐinitivamente	 a	 ilha	 em	 1793,	 ele	 estava	 se	 tornando,	 como	 César,	 um
cidadão	da	 república	 genérica	—	 isto	 é,	 da	res	 publica,	 ou	 “coisa	 pública”
em	geral	—,	não	de	alguma	versão	particular	(p.ex.,	“patriota”)	dela.	Estava
a	caminho	de	se	tornar	um	adepto	do	processo	político	—	ou	simplesmente
de	“o	político”	(le	politique),	como	o	denominam	os	franceses.	Ao	discutir	o
poder	 do	 mito	 sobre	 as	 mentes	 humanas,	 o	 escritor	 britânico	 C.S.	 Lewis
distingue	 entre	 verdade	 e	 realidade.	 “A	 verdade	 sempre	 diz	 respeito	 a
alguma	coisa”,	diz,	“mas	a	realidade	diz	respeito	ao	que	é	a	verdade,	e	por
isso	todo	mito	torna-se	o	pai	de	inúmeras	verdades	no	nível	abstrato”.27	A
Revolução	 Francesa,	 com	 suas	 cenas	 hediondas	 e	 desilusões	 profundas,
provou-se	 um	 mestre	 impiedosamente	 eϐiciente	 para	 Napoleão,
desvencilhando-o	de	 suas	 idéias	 sobre	 verdade	política,	 ao	mesmo	 tempo
em	que	o	manteve	fascinado	pelos	mitos	e	realidades	que	são	subjacentes
a	essas	idéias	e	as	geram.	Sua	paixão	pela	política	redobrou	à	medida	que
ele	 ganhou	 sabedoria	 e	 discernimento	 com	 relação	 ao	 modo	 como	 a
sociedade	distribuía,	usava,	outorgava	e	justificava	o	poder.
Em	meados	de	1793,	se	não	antes,	Napoleão	já	perdera	sua	virgindade
política,	que	era	seu	patriotismo	corso.	Esse	patriotismo	não	resistiu	à	sua
inserção	 na	 Revolução	 e	 à	 “transvaloração”	 de	 valores,	 para	 usar	 a
linguagem	de	Nietzsche,	que	a	Revolução	operou	na	política	do	Iluminismo.
Napoleão
passouavero“patriotismo”,entreaspas,comoosmodernosoteriamvisto—isto
é,	como	uma	forma	(uma	máscara),	entre	outras,	de	ação	pública.	Isso	não
causa	 enorme	 surpresa.	 O	 “patriotismo”	 era	 essencialmente	 a	 linguagem
da	oposição.	Como	expressaria	mais	tarde	um	primeiro-ministro	britânico:
“Todo	governo	é	deϐiciente	nele	[o	patriotismo],	toda	oposição	resplandece
com	 ele.”28	 Isso	 poderia	 não	 ter	 sido	 condizente	 com	 o	 estatizante	 que
estava	 brotando	 em	 Napoleão.	 “A	 França	 [sob	 o	 Antigo	 Regime]	 não	 era
um	 Estado”,	 ele	 costumava	 dizer.	 Depois	 que	 se	 tornou	 um,	 com	 a
Revolução,	Napoleão	gravitou	para	o	ponto	de	vista	do	Estado,	não	para	o
da	 oposição.	 Isso	 podia	 ocasionar,	 como	 veremos,	 algumas	 propensões	 e
alinhamentos	 políticos	 esquisitos,	 dependendo	 de	 quem	 encabeçava	 o
Estado.	De	todo	modo,	explica	por	que	Napoleão	viu	a	Revolução	Francesa,
de	maneira	tão	estável,	não	como	uma	insurreição	do	povo	contra	o	chefe
do	 Estado,	 o	 rei,	 mas	 como	 uma	 insurreição	 da	 classe	 média	 contra	 a
nobreza.	 Nessa	 versão,	 se	 Luís	 XVI	 fosse	 esperto,	 teria	 assumido	 a
liderança	da	revolta.
A	 evolução	 de	 Napoleão	 pode	 ser	 vista	 também	 em	 seus	 escritos.
Quanto	mais	político	o	tema,	melhor	ele	se	saía,	mais	rápido	e	forte	o	ritmo
do	 texto,	mais	 incisivas	 as	 imagens	 e	mais	 ϐluente	 a	 narrativa.	 É	 isso	 que
torna	 seus	 escritos	 políticos	 de	 1793	 em	 diante	 vigorosos	 e	 centrados,
dotados	 de	 uma	 força	 que	 empurra	 o	 leitor	 para	 diante.	 Falta-lhes	 o
idealismo	 opressivo	 das	 peças	 anteriores,	mas	 eles	 tampouco	 são	 cínicos.
Aqui	 está,	 por	 exemplo,	 uma	 carta	 que	 Napoleão	 escreveu	 não	 muito
depois	 que	 parou	 de	 tentar	 redigir	 ensaios	 dignos	 de	 prêmio	 sobre
abstrações	filosóficas:
A	Europa	está	dividida	entre	soberanos	que	comandam	homens	e	soberanos	que
comandam	gado	e	cavalos.	Os	primeiros	entendem	perfeitamente	a	Revolução,	estão
aterrorizados	com	ela,	e	fariam	de	bom	grado	sacrifícios	financeiros	para	contribuir
com	sua	destruição,	mas	jamais	lhe	rasgariam	a	máscara,	por	medo	de	que	ela	ateasse
fogo	em	seus	países	...	Quanto	aos	soberanos	que	comandam	cavalos,	eles	não
compreendem	a	Constituição;	desprezam-na;	acreditam	que	ela	é	um	amontoado	de
idéias	incoerentes	que	provocarão	a	ruína	do	Império	Francês.29
Vemos	que	Napoleão	passou	a	entremear	seu	Rousseau	com	doses	de
Maquiavel	 e	 Voltaire.	 Tem	 um	 ponto	 de	 vista,	mas	 não	 alimenta	 nenhum
sentimentalismo	em	relação	a	ele,	e,	em	todas	as	circunstâncias,	equilibra-o
com	 sua	 capacidade	 de	 observação	 e	 análise:	 “Não	 deveríamos	 julgar	 os
homens	numa	revolução	como	em	tempo	de	paz.	A	revolução	é	um	estado
de	 guerra	 ...	 Ademais,	 trata-se	 de	 vigiá-los,	 não	 de	 encolerizar-se	 ou	 de
falar	 como	alguém	que	pediu	 licença	da	 sua	 razão.”30	Ele	diria	 em	Santa
Helena:	“Meu	grande	talento,	o	que	melhor	me	caracteriza,	é	que	vejo	com
clareza	 em	 tudo	 ...	 Consigo	 ver	 o	 cerne	 da	 questão	 sob	 todos	 os	 seus
aspectos.”	Uma	opinião	que,	aliás,	não	primava	pela	modéstia.
Ao	navegar	de	Calvi	para	o	golfo	Juan,	Napoleão	tinha	mais	ou	mesmo	a
mesma	 idade	 que	 César	 ao	 ϐim	 da	 grande	 guerra	 civil	 movida	 por	 Sula.
Ambos	 aprenderam	 a	 mesma	 coisa	 de	 sua	 experiência	 na	 guerra	 e	 na
grande	 luta	 civil:	 a	 lição	 de	 que	 vale	 tudo.	 Podemos	 dizer	 de	 Napoleão	 o
que	Meier	diz	do	jovem	César:	ele	não	estava	“mais	preso	a	seu	ambiente”.
Ao	 contrário	 de	 seus	 opositores,	 não	 acreditava	 mais	 em	 suas	 próprias
justiϐicações,	 nem	 nas	 de	 quem	 quer	 que	 fosse.31	 Do	 ponto	 de	 vista	 do
verdadeiro	 crente	 —	 p.ex.,	 o	 de	 Luciano	 —	 isso	 fazia