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Englund, Steven uma Biografia Política

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“cidadãos”	que	hasteiam	a
bandeira	 tricolor,	 não	 realistas	 como	 os	 camponeses	 da	 Vendéia,	 e	 têm
razão	 para	 estar	 cansados	 do	 derramamento	 de	 sangue	 e	 do	 facciosismo
gerado	 por	 Paris.	 As	 respostas	 do	 oϐicial	 a	 argumentos	 desse	 tipo	 são
menos	esmagadoras	que	cumulativamente	persuasivas;	chamam	a	atenção
não	 para	 quem	 fala	 e	 para	 a	 doutrina	 jacobina,	 mas	 para	 considerações
materiais	 como	 a	 proteção	 da	 propriedade	 privada.	 Acima	 de	 tudo,	 ele
insiste	em	sua	demonstração	militar	de	que	Marselha	não	pode	se	erguer
contra	“toda	a	República”,	e	que	tentá-lo	é	fazer	o	jogo	dos	britânicos.
Em	 suma,	 “A	 ceia	 em	 Beaucaire”	 é	 uma	 peça	 rematada	 de	 polêmica
política,	 e	 não	 surpreende	 que	 a	 liderança	 jacobina	 tenha	 mandado
imprimi-la	e	distribuí-la.	Sentimo-nos	nas	mãos	de	um	escritor	plenamente
cônscio	da	dialética	da	“guerra	e	da	revolução”,	de	como	elas	se	alimentam
uma	 à	 outra	 e	 interagem.	 Assim,	 aparece	 no	 diálogo	 uma	 série	 de
percepções	 que	 não	 demorarão	 a	 se	 concretizar	 na	 realidade	 material,
quando	Napoleão	partir	para	a	guerra	de	maneira	menos	 literária.	Desde
já,	ele	compreende	as	vantagens	de	uma	guerra	de	movimento	sobre	uma
de	 linhas	 e	 posições,	 do	 ataque	 sobre	 a	 defesa.	 De	 fato,	 o	 argumento	 de
maior	peso	usado	pelo	militaire	foi	que	os	federalistas	estavam	lutando	não
apenas	por	uma	causa	errada,	mas	por	uma	causa	perdida.
Os	 fundamentos	 ideológicos	 de	 “A	 ceia	 em	Beaucaire”	 são	 de	 um	 teor
mais	 sutil	 que	 as	 chicotadas	 atrevidas	 do	 jacobinismo	 clássico:	 o	militaire
adota	 a	 perspectiva	 do	 Estado,	 a	 qual,	 segundo	 sua	 deϐinição,	 não	 é	 um
ponto	de	vista	político	—	leia-se,	faccioso	—,	mas	a	voz	do	bem	comum.	De
fato,	 facções	 são	 precisamente	 o	 que	 o	 militaire	 reprova	 e	 quer
deslegitimar.	 Em	 certa	 altura,	 ele	 sugere	 que	 talvez	 os	 adversários
girondinos	 não	 fossem	 realmente	 culpados	 de	 conspiração.	 O	 que
importava,	 contudo,	 não	 era	 um	 ideal	 abstrato	 de	 verdade,	 mas	 o	 fato
prático	de	que	haviam	sido	julgados	“culpados”	pelo	governo	em	tempo	de
guerra.	 O	 que	 o	 oϐicial	 defende,	 em	 suma,	 é	 a	 razão	 de	 Estado,	 embora
Napoleão	fosse	hábil	o	bastante	para	pôr	as	idéias	cruciais	não	na	boca	do
oϐicial,	mas	na	de	um	dos	quatro	negociantes,	chamado	à	razão	pela	 força
de	seus	argumentos.
A	 República	 recapturou	 Marselha	 em	 25	 de	 agosto,	 mas	 dois	 dias
depois	Toulon	se	abriu	para	a	frota	inglesa	do	almirante	Hood.
Reconhecimento
No	dia	16	de	setembro,	o	capitão	Bonaparte,	quando	escoltava	um	lento
comboio	 de	 carroças	 de	 pólvora	 de	 Marselha	 para	 Nice,	 fez	 uma	 pausa
para	apresentar	 seus	 respeitos	 a	 Saliceti	 em	Le	Beausset.	O	ex-procônsul
corso	 era	 agora	 um	 deputado	 em	 missão	 junto	 ao	 exército	 republicano
diante	 de	 Toulon,	 e	 tinha	 um	 problema.	 A	 força	 de	 sitiamento	 ϐicara	 sem
chefe	 de	 artilharia	 porque	 o	 tenente	 que	 ocupava	 o	 posto	 sofrera	 um
ferimento	 e	 se	 encontrava	 fora	 de	 combate.	 Reza	 a	 lenda	 que	 Napoleão
estava	por	 acaso	na	presença	de	 Saliceti	 no	momento	 crítico	 em	que	 isso
ocorreu	 e	 ϐicou	 com	o	 cargo,	mas	 é	mais	 provável	 que	 ambos	 estivessem
maquinando	 desde	 julho	 para	 que	 Bonaparte	 assumisse	 uma	 posição
importante	em	que	pudesse	trabalhar	com	e	para	Saliceti.
Toulon,	como	Marselha,	foi	mais	uma	prova	do	argumento	de	Napoleão
em	“A	ceia	em	Beaucaire”	de	que	o	que	começava	como	desobediência	civil
tornava-seinevitavelmentepartedaguerracircundante.ApopulaçãodeToulon
sem	dúvida	queria	 ser	deixada	em	paz	por	 todos	os	beligerantes	para	 se
governar	 livremente	 —	 por	 exemplo,	 a	 cidade	 estava	 permitindo	 um
recrudescimento	 da	 atividade	 religiosa	 católica,	 enquanto	 por	 toda	 a
França	jacobina	a	campanha	de	descristianização	chegava	ao	paroxismo.	O
povo	de	Toulon	não	era	majoritariamente	monarquista,	e	menos	ainda	pró-
ingleses,	 mas	 estava	 sob	 cerco,	 e	 portanto	 sem	 comida.	 A	 frota	 inglesa
prometia	víveres,	com	a	condição	de	que	a	cidade	acolhesse	seus	navios	e
reconhecesse	 Luís	 XVII,	 o	 ϐilho	 infante	 de	 Luís	 XVI.	 Após	 dias	 de
angustiante	 debate,	 o	 povo	 de	 Toulon	 aceitou	 relutantemente	 a	 proposta
de	 Hood.	 Foi	 um	 desastre	 para	 a	 República	 —	 uma	 derrota	 tão	 grave
quanto	 a	 lhe	 inϐligiram	 os	 ingleses	 em	 Trafalgar	 em	 1805	 —,	 pois	 os
britânicos	queimaram	12	navios	de	guerra	 franceses	e	 rebocaram	outros
nove,	sem	perderem	eles	mesmos	um	só	barco.	A	frota	britânica	passou	a
controlarasenseadasdeToulon,enquantoumacombinaçãodetropasdeToulon
e	algumas	tropas	espanholas	ocuparam	posições	entrincheiradas	em	terra
em	torno	do	porto.	Dispostas	em	ordem	de	batalha,	viam	formar-se	contra
eles	 um	 exército	 cada	 vez	 maior	 de	 tropas	 republicanas,	 enviadas	 de
vários	pontos	do	Sul.
Como	 foi	 em	 Toulon	 que	 Napoleão	 surgiu	 no	 palco	 mais	 amplo	 da
história,	 é	 importante	 compreender	 o	 que	 esteve	 envolvido	 nessa	 prova.
Para	 começar,	 o	que	a	 situação	exigia	não	era	 inteligência	 estratégica 	per
se,	 mas	 discernimento.	 Toulon	 não	 requeria	 um	 cerco	 em	 regra,	 como
acreditavam	 alguns	 líderes	 militares	 e	 políticos.	 O	 exame	 atento	 de	 um
mapa	com	relevo	mostra	que	a	chave	estratégica	para	o	porto	é	uma	colina
chamada	 L’Aiguillette,	 situada	 num	 promontório	 que	 se	 projeta	 na	 baía
interior	 logo	 ao	 sul	 do	 porto.	 Sob	 esse	 aspecto,	 aliás,	 o	 porto	 de	 Toulon
assemelhava-se	um	pouco	ao	de	Ajaccio,	dominado	pela	colina	Aspreto	—	o
que	 não	 deve	 ter	 passado	 despercebido	 a	 Napoleão.	 Se	 controlassem
L’Aiguillette,	 os	 republicanos	 poderiam	 pôr	 a	 artilharia	 em	 posição	 e
despejar	uma	chuva	contínua	de	 tiros	sobre	os	navios	 ingleses	ancorados
na	 enseada,	 forçando-os	 a	 evacuá-la,	 e	 com	 isso	 a	 cidade	 estaria	 perdida.
Depois	 que	 um	 ataque	 inicial	 de	 infantaria	 a	 L’Aiguillette	 foi	 repelido,	 os
britânicos	 construíram	 uma	 fortaleza	 para	 proteger	 a	 ponta.	 A	 estratégia
de	 Napoleão	 exigiu	 que	 as	 forças	 republicanas	 cavassem	 trincheiras	 e
desfechassem	 um	 prolongado	 bombardeio	 de	 artilharia	 no	 “petit
Gilbratar”,	como	os	franceses	batizaram	a	fortiϐicação	britânica,	e	só	depois
de	 abalá-la	 seriamente	 lançar	 outro	 ataque,	 mais	 determinado,	 de
infantaria.
O	que	 se	 impunha	na	ocasião	era	um	aumento	 constante	do	poder	de
fogo	 francês,	em	especial	da	artilharia,	 seguido	 ϐinalmente	por	um	ataque
por	terra	coordenado,	contínuo	e	certamente	oneroso.	O	desaϐio	soa	óbvio,
mas	 cabe	 lembrar	 que	 as	 forças	 da	 República	 não	 estavam	 em	mãos	 de
proϐissionais,	a	maioria	dos	quais	emigrara.	O	comandante	por	ocasião	da
chegada	 do	 capitão	 Bonaparte,	 por	 exemplo,	 era	 um	 ex-pintor	 da	 Corte,
absolutamente	 ignorante	 sobre	 guerra	 de	 cerco	 e	 compreensivelmente
receoso	 de	 que	 um	 desastre	 pudesse	 lhe	 custar	 a	 cabeça.	 O	 comando
mudaria	várias	vezes	antes	de	passar	para	um	soldado	(Dugommier)	com
experiência	em	cheϐia	militar.	Manter	a	atenção	ϐixada	em	L’Aiguillette	em
vez	de	fazer	um	ataque	geral	à	cidade	ou	cercá-la	por	 inteiro	não	foi	 fácil.
Como	 a	 República	 estava	 lutando	 em	 uma	 dúzia	 de	 linhas	 de	 frente,	 a
transferência	 de	 artilharia	 para	 esse	 setor	 não	 estava	 nem	 de	 longe
assegurada,	 pois	 todos	 os	 seus	 comandantes	 militares	 estavam
requisitando	reforços.
O	sucesso	em	Toulon	exigiu,	portanto,	mais	que	habilidades	analíticas	e
estratégicas;	 foi	 preciso	 sagacidade,	 capacidade	 de	 se	 impor	 em	 meio	 a
uma	 profusão	 de	 planos,	 exigências,	 vozes	 e	 necessidades	 concorrentes;
saber	 quem	 contatar	 entre	 várias	 autoridades	 militares	 e	 políticas,
localmente	 e	 em	Paris,	 saber	 como	 e	 quando	pressionar.	 Signiϐicou	 saber
como	resistir	eϐicazmente	à	 indecisão,	à	confusão	e	à	 incompetência	entre