A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
665 pág.
Englund, Steven uma Biografia Política

Pré-visualização | Página 26 de 50

o	 nome	 do	 cidadão	 Buonaparte,	 general-em-chefe	 de
artilharia,	um	oϐicial	de	mérito	transcendente.	É	 ...	um	homem	que	resistiu
aos	 afagos	 de	 Paoli,	 e	 que	 [por	 isso]	 teve	 sua	 propriedade	 destruída	 por
esse	 traidor.”3	 “Mérito	 transcendente”	era	uma	expressão	 forte;	era	mais
do	 que	 se	 disse	 sobre	 generais	 republicanos	 mais	 famosos	 e	 mais	 bem-
sucedidos	como	Hoche	ou	Masséna.
Com	o	apoio	de	Augustin,	Napoleão	e	suas	idéias	receberam	atenção	na
cúpula	 do	 regime	 jacobino	 durante	 seus	 últimos	 meses	 de	 vigência,
embora	 seja	 diϐícil	 avaliar	 a	medida	 exata	 da	 inϐluência	 que	 ele	 chegou	 a
ter,	 pois	 o	 Comitê	 de	 Salvação	 Pública	 estava	 concentrado	 sobretudo	 no
conϐlito	 político	 cruento	 e	 sem	quartel	 que	 assolava	 Paris,	 e	 as	 propostas
do	 general	 Bonaparte	 tinham	 a	 ver	 com	 estratégia	 militar.	 Ele	 nunca	 se
encontrou	com	o	Robespierre	mais	velho	e	recusou	o	único	posto	que	este
talvez	lhe	tenha	realmente	oferecido,	o	de	comandante	da	Guarda	Nacional
de	 Paris.	 O	 controverso	 Incorruptível	 caiu	 seis	 semanas	 depois,	 e	 é
improvável	 que	 mesmo	 Bonaparte	 pudesse	 têlo	 salvado.	 Se	 o	 tivesse
tentado	 e	 fracassado,	 isso	 lhe	 teria	 valido	 a	 guilhotina,	 como	 ele	 entendia
perfeitamente,	e	essa	foi	sem	dúvida	uma	razão	para	que	deixasse	passar
a	“oportunidade”.
O	que	Napoleão	de	fato	se	tornou	foi	um	“urdidor	de	planos”	(faiseur	de
plans)	para	o	teatro	do	norte	da	Itália	na	política	externa	do	regime.	E,	mais
importante,	 gozou,	 graças	 a	 seus	 freqüentes	 contatos	 com	 Augustin
Robespierre,	 de	 uma	 visão	 panorâmica	 do	 que	 estava	 transpirando	 em
Paris.	Napoleão	reϐletiu	intensamente	sobre	os	eventos	do	Ano	II	pelo	resto
de	 sua	 vida,	 e	 as	 idéias	 que	 desenvolveu	 sobre	 Robespierre,	 que	 tanto
chocaram	seus	convivas	em	Ancona,	são	interessantes	tanto	por	si	mesmas
—	 historicamente	 astutas,	 penetrantes	 —	 quanto	 pelo	 que	 nos	 dizem
sobre	ele.
Essencialmente,	Napoleão	via	os	 jacobinos	como	um	partido	moderado
no	 governo,	 como	 administradores	 conservadores	 de	 seu	 bem-amado
Estado.	 O	 Robespierre	 de	 Napoleão	 não	 era	 o	 radical	 apaixonado	 do
retrato	convencional,	mas	um	opositor	do	terror	e	do	facciosismo	—	acima
de	 tudo,	 um	 defensor	 do	 governo	 central	 forte.	 A	 democracia,	 para 	 esse
Robespierre,	 não	 era	 o	 “povo	 soberano”	 erguendo-se	 em	 massa	 e
pavoneando-se	 como	 “a	 nação”;	 era	 o	 império	 da	 lei	 e	 das	 instituições
representativas.	 O	 Comitê	 de	 Salvação	 Pública	 que	 ele	 dominava	 agia
audaciosamente	para	esmagar	as	facções	de	rua,	mandando	vários	de	seus
líderes	 para	 a	 guilhotina.	 Como	 Napoleão	 observou,	 foi	 enquanto
Robespierre	 esteve	 no	 leme	 do	 Estado	 que,	 “pela	 primeira	 vez,	 desde	 o
início	da	Revolução,	pessoas	 foram	sentenciadas	à	morte	por	serem	ultra-
revolucionárias,	 não	 por	 tentarem	 deter	 a	 revolução”.4	 Além	 disso,
Napoleão	 atribuía	 a	Robespierre	 um	vasto	 plano	para	 “regenerar	 tanto	 o
séculoquantoopaís”,paradotaraFrançaeomundodenovasinstituiçõesecostumes.
Em	 suma,	 via	 o	 Incorruptível	 como	um	homem	 sem	 ambição	 pessoal	 que
lutava	pelo	“triunfo	da	Revolução”,	o	que	para	Napoleão	signiϐicava	contê-
la,	consolidá-la	e	defendê-la,	mas	não	expandi-la.
Um	 apêndice	 curioso	 ao	 exposto	 acima	 foi	 a	 evolução	 de	Napoleão	 no
tocante	 à	 religião.	 Conhecemos	 sua	 idéia	 anterior	 de	 que	 a	 religião	 era
perigosa	pela	concorrência	que	 fazia	ao	Estado.	Mesmo	após	testemunhar
durante	vários	anos	os	golpes	que	a	Revolução	desfechava	no	cristianismo,
e	 o	 radicalismo	 destrutivo,	 gerador	 de	 discórdia,	 que	 acompanhava	 isso,
Napoleão	 foi	 levado	 a	 reconsiderar	 o	 valor	 da	 crença	 religiosa	 para	 a
conservação	 da	 ordem	 social	 e	 o	 refreamento	 dos	 impulsos	 dos	 homens.
Passou	 a	 perceber	 a	 verdade	 do	 preceito	 de	 Voltaire:	 “Se	 Deus	 não
existisse	seria	preciso	inventá-lo.”	Assim,	parte	considerável	da	admiração
que	alimentava	por	Robespierre	resultou	da	tentativa	que	ele	fez	de	sustar
o	 ataque	 à	 religião.	 Julgando	 a	 religião	 indispensável	 a	 uma	 sociedade
harmoniosa,	 Robespierre	 lançou	 um	 culto	 estatal	 do	 Ser	 Supremo	—	 do
qual,	 de	 fato,	 tornou-se	 praticamente	 o	 sumo	 sacerdote.	 Esse	 excêntrico
episódio	teve	poucos	admiradores	—	seja	na	época	ou	posteriormente	—,
mas	Napoleão	Bonaparte	foi	um	deles.
O	que	mais	deve	ter	chocado	os	que	se	sentaram	à	mesa	com	o	general
Bonaparte	 em	 Ancona,	 porém,	 foi	 sua	 visão	 sobre	 a	 dramática	 queda	 do
poder	 de	 Robespierre	 no	 9	 Termidor	 (27	 de	 julho)	 de	 1794.5	 Segundo
Napoleão,
Robespierremorrera“porterdesejadodeteraRevolução”,enquantoseusinterlocutores
viam	nele	um	ditador	encharcado	de	sangue,	que	galgara	merecidamente	o
mesmo	cadafalso	a	que	enviara	tantas	vítimas	inocentes.	Para	eles	a	morte
de	Robespierre	fora	a	salvação	da	França;	para	Napoleão,	fora	“um	grande
infortúnio”.
O	Termidor	resultou	em	morte	para	Robespierre	e	seus	colaboradores
mais	próximos,	 inclusive	seu	 irmão.	Resultou	também	em	punição	para	os
grandes	 e	 (por	 vezes)	 pequenos	 colaboradores	 do	 Incorruptível.	 Se
Napoleão	 fosse	 um	 oportunista,	 se	 tivesse	 se	 tornado	 jacobino	 por
interesse,	 teria	 abjurado	 sua	 fé	 no	pós-Termidor,	 como	 ϐizeram	 inúmeros
outros	jacobinos.	O	sucesso	dos	autodenominados	Brutus	que	conspiraram
contra	Robespierre	—	homens	não	menos	sanguinários	que	ele,	diga-se	de
passagem	—	residiu	em	convencer	o	maior	número	possível	de	pessoas	a
vê-los	 como	moderados	 e	 a	 seu	 adversário	 como	 um	 louco.	No	 Termidor,
pela	 primeira	 vez,	 “jacobino”	 tornou-se	 um	 termo	 de	 opróbrio,	 enquanto
multidões	 de	 linchadores	 bem	 vestidos	 substituíam	 o	 terror	 vermelho	 da
guilhotina.	 “O	Terror”,	 como	 Isser	Woloch	observou	argutamente,	 “mudou
o	destino	da	França	...	[pois]	desencadeou	um	ciclo	de	recriminação,	ódio	e
conϐlito	local	endêmico	que	tornou	muito	obscuras	as	perspectivas	futuras
de	 uma	 política	 democrática	 no	 país.	 O	 general	 Bonaparte	 representava
uma	 saída	 possível	 desse	 dilema,	 ou	 uma	 cura	 pior	 do	 que	 a	 doença,
dependendo	do	ponto	de	vista”.6
A	 queda	 de	 Robespierre,	 Napoleão	 reconheceu,	 “afetou-me	 bastante,
pois	 gostava	 muito	 dele”.	 Não	 foi	 nada	 que	 se	 comparasse	 à	 amarga
decepção	 que	 sofrera	 nas	 mãos	 de	 Paoli.	 Havia	 porém	 um	 toque	 de
idealismo	 político	 na	 apreciação	 que	 expressou	 obstinadamente	 sobre	 o
Incorruptível	—	mesmo	que	 não	 houvesse	 nela	 a	 coragem	 arrebatada	 (e
irrealista)	 do	 apoio	 de	 última	 hora	 que	 dera	 a	 Paoli	 no	 início	 de	 1793.
Como	 primeiro-cônsul,	 Napoleão	 concederia	 uma	 pensão	 à	 irmã	 de
Robespierre,	 Marie,	 e	 em	 Santa	 Helena	 declarou	 que,	 como	 imperador,
deveria	 ter	 mandado	 imprimir	 o	 discurso	 ϐinal	 dele	 à	 Convenção.	 Esse
pesar	 foi	 no	 máximo	 uma	 veleidade,	 e	 mais	 provavelmente	 uma
manifestação	de	hipocrisia,	mas	o	fato	é	que	havia	algo	de	Robespierre	em
Napoleão,	e	vice-versa.	Germaine	de	Staël,	perspicaz	observadora	da	cena
francesa,	 percebeu	 sob	 as	 aparências	 ideológicas	 o	homem	de	Estado	 (se
não	o	estadista)	em	Robespierre	e	em	Napoleão.	Pouco	depois	do	golpe	de
Estado	do	18	Brumário,	contemplando	o	primeiro-cônsul,	ela	o	denominou
Robespierre	a	cavalo.
Napoleão	 foi,	 em	 suma,	 um	 jacobino	 ϐiel	 à	 linha	do	partido	por	menos
tempo	 e	 com	 menos	 fervor	 do	 que	 fora	 um	 paolisto	 convencional.	 Seu
jacobinismo,	 se	 podemos	 chamá-lo	 assim,	 foi	 um	 prolongamento	 de	 sua
gratidão	à	Revolução	por	tê-lo	libertado	dos	efeitos	do	preconceito	de	casta
aristocrático.	Permanecer	franca	e	escancaradamente	leal	à	sua	versão	de
Robespierre	 foi	 uma	 maneira	 de	 não	 renegar	 a	 si	 mesmo,	 apesar	 das
decepções	de	1789-93	na	Córsega	e	do	9	Termidor	na	França.
Dez	meses	 após	 a	 detenção	 de	 Bonaparte,