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Englund, Steven uma Biografia Política

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começado	 a	 ϐluir	 de	 volta	 para	 os
cofres	 —	 raramente	 vazios,	 mas	 nunca	 cheios	 o	 bastante	 —	 de	 jovens
generais	franceses	em	toda	parte, 	exceto	a	Itália.	Em	abril,	Jourdan,	com	30
anos,	 salvara	 a	 República	 em	 Fleurus,	 na	 Bélgica.	 Pichegru,	 de	 31	 anos,
passara	de	tenente	a	comandante	do	Exército	do	Norte	em	menos	de	dois
anos	 e	 estava	 famoso	 em	 toda	 a	 França.	Marceau,	 aos	 24	 anos,	 estava	 se
saindo	 brilhantemente	 como	 comandante	 do	 Exército	 do	 Oeste;	 Moreau,
aos	 29,	 acabara	 de	 ser	 promovido	 a	 generalde-divisão;	 e	 Desaix,	 25,	 era
general-de-divisão	no	Exército	do	Reno.	Dois	notáveis	oϐiciais	republicanos
—	Bernadotte,	30	anos,	e	Hoche,	25	—	eram	generais-de-divisão,	estando
este	último	prestes	a	se	cobrir	de	glórias	rechaçando	as	forças	combinadas
de	 ingleses	 e	 emigrés4	 no	 Quiberon.	 É	 verdade	 que	 Napoleão	 galgara	 a
condição	 de	 estrela	 com	 menos	 idade	 do	 que	 qualquer	 desses	 homens,
exceto	Marceau,	mas	estava	abaixo	deles	em	hierarquia	e	sucesso.	Por	ϐim,
diferentemente	deles,	não	tinha	um	comando	seu	nem	em	perspectiva,	pois
tudo	estava	tranqüilo	no	front	sul.	O	comandante	do	Exército	da	Itália	era	o
general	 Dumerbion,	 um	 soldado	 tarimbado,	 mas	 velho	 e	 doente.	 Na
primavera,	 o	 general	 sofreu	 grande	 pressão	 de	 seu	 comandante	 de
artilharia,	 Bonaparte,	 tanto	 diretamente	 como	 através	 das	 ligações	 que	 o
jovem	tinha	com	os	vários	deputados	em	missão	junto	ao	Exército	da	Itália,
sobretudo	Saliceti	e	Robespierre 	 le	 jeune.	Napoleão	 submetia-lhes	 estudos
e	 eles	 os	 passavam	 adiante,	 sob	 seus	 próprios	 nomes,	 ao	 Comitê	 de
Salvação	 Pública	 em	 Paris.	 Esses	 memorandos	 tinham	 de	 ser	 notáveis	 a
ponto	de	 impressionar	homens	que	 lidavam	diariamente	 com	um	mar	de
documentos.	Torneio	de	frases	e	estilo	polêmico	importavam	pouco;	o	que
contava	 era	 raciocínio	 meticuloso	 e,	 acima	 de	 tudo,	 a	 noção	 de	 como	 se
dirigir	 a	 políticos.	 As	 séries	 compactas	 e	 conectadas	 de	 observações,
considerações	 e	 deduções,	 ou	 conclusões,	 formuladas	 por	 Napoleão
alcançavam	seu	objetivo	brilhantemente.
A	melhor	delas	 foi	 a	 “Nota	 sobre	a	posição	militar	e	política	de	nossos
exércitos	do	Piemonte	e	Espanha”,	uma	jóia	de	1.500	palavras	em	que,	sob
a	 prosa	 mais	 comezinha,	 escondem-se	 idéias	 de	 alcance	 extraordinário.
Passo	a	passo,	o	autor	avançou	da	necessidade	trivial	de	mais	arreios	para
a	 cavalaria	 até	 a	 questão	primordial	 da	 “absoluta	necessidade,	 numa	 luta
imensa	como	a	nossa,	de	um	governo	revolucionário	e	de	uma	autoridade
central	 única”.	 Napoleão	 foi	 transpondo	 contradições,	 como	 se	 estivesse
numa	corrida	com	obstáculos.	Primeiro,	precisou	reiterar	o	mito	de	que	a
guerra	ali,	como	em	toda	parte,	é	de	natureza	primordialmente	defensiva,
para,	em	seguida,	passar	a	detalhar	uma	estratégia	 inteiramente	ofensiva.
Em	 segundo	 lugar,	 precisou	 despertar	 interesse	 pelo 	 front	 italiano	 num
momento	 em	 que	 outros	 —	 p.ex.,	 o	 da	 Espanha	 —	 estavam	 tendo	 um
sucesso	atrás	do	outro.	Ele	não	podia,	porém,	ignorar	o	fato	de	que	o	maior
inimigo	baseado	 em	 terra	da	França 	não	eram	 os	 sardos,	mas	 a	 potência
que	 se	 emboscava	 atrás	 deles:	 a	 Áustria	 (a	 Grã-Bretanha	 estava
financiando	os	exércitos	dos	Habsburgo).	Era	preciso	demonstrar,	portanto
que	 a	 campanha	 na	 Riviera	 e	 no	 norte	 da	 Itália	 produziria	 resultados
diretos	 na	 forma	 do	 enfraquecimento	 da	 Casa	 de	 Habsburgo.	 É	 verdade
que	uma	estratégia	desse	 tipo	 fora	outrora	uma	 linha	de	ataque	 francesa
clássica	 contra	 seu	 inveterado	 inimigo	 austríaco,	 mas	 nos	 últimos	 anos	 o
pensamento	 estratégico	 francês	 vinha	 se	 concentrando	 quase
exclusivamente	 na	 via	 principal	 para	 Viena,	 seja	 cruzando	 o	 Reno	 ou
atravessando	a	Alsácia	ou	a	Suíça.	Nada	resume	melhor	o	gênio	casuístico
da	“Nota”	de	Napoleão,	portanto,	que	a	frase:	“Golpear	a	Alemanha,	nunca
a	Espanha	e	a	Itália”,	que	é	seguida	por	detalhes	para	uma	campanha	na...
Itália.”11
Napoleão	raciocinava,	portanto,	que	o	Exército	da	Itália	era	o	mais	bem
situado	para	desferir	os	golpes	mais	eϐicientes	em	“nosso	mais	 implacável
inimigo”	 (a	 Áustria).	 Os	 franceses	 deviam	 introduzir	 uma	 cunha	 entre	 os
dois	 aliados	—	 os	 sardos	 e	 os	 austríacos	—,	 e	 depois	 tratar	 de	 liquidar
cada	um	de	ponta	a	ponta.	Uma	vez	que	o	rei	da	Sardenha	tivesse	ϐirmado
a	 paz	 com	 a	 França	 em	 separado,	 o	 Exército	 da	 Itália	 atacaria	 o	 Tirol,	 no
coração	da	Áustria.	Era	um	projeto	metódico,	 a	que	a	 “Nota”	de	Napoleão
dava	a	aparência	de	uma	ação	contínua,	em	que	cada	passo	levava	natural
e	 facilmente	 ao	 seguinte.	 Na	 verdade,	 é	 claro,	 tratava-se	 de	 uma
desbragada	fantasia.	Nenhum	general	francês	estacionado	no	teatro	do	Sul
—	 Dumerbion,	 Masséna,	 Scherer	 etc.	 —	 estava	 propondo	 planos	 tão
ousados	 como	 esse,	 apenas	 projetos	 para	 embates	 localizados	 com	 as
forças	sardas	na	Riviera	ou	em	suas	proximidades,	ou	na	costa	liguriana.
Assinado	por	Augustin	Robespierre	 e	 entregue	por	 ele	 ao	 irmão,	 esse
texto	 constituía	 também	 uma	 habilidosa	 mistura	 do	 político	 e	 do	 militar,
pois	o	autor,	antecipando	Clausewitz,	julgava	que	a	guerra	nada	mais	é	que
uma	extensão	da	política.	A	República	estava	comprometida	com	guerra	e
revolução,	 e	 uma	 devia	 impelir	 à	 outra.	 Napoleão	 fala	 de	 “governo
revolucionário”	 e	 defende	 a	 “derrubada	 do	 trono”	 [da	 Casa	 de	 Sabóia].
Tem	clara	consciência	de	que	seu	principal	 leitor	acalenta	o	sonho	radical
de	 revolucionar	 toda	 a	 Itália.	 Para	um	 jacobino	 arguto	 como	Robespierre,
Napoleão	pode	 ter	 parecido	 um	equivalente	militar	 de	 Saint-Just,	 seu	 leal
colaborador	e	ideólogo	do	Comitê.
Para	azar	de	Napoleão,	sua	“Nota”	só	chegou	à	mesa	de	Robespierre	no
máximo	uma	semana	antes	do	9	Termidor.	Com	a	queda	do	Incorruptível,
as	 idéias	do	general-de-artilharia	 foram	parar	nas	mãos	de	homens	como
Lazare	 Carnot,	 o	 maior	 estrategista	 militar	 e	 geopolítico	 da	 República,
muito	menos	propensos	a	mover	la	guerre	à	outrance.	De	fato,	para	Carnot,
um	 dos	 vários	 “crimes”	 de	 Robespierre	 fora	 seu	 desejo	 de	 levar	 adiante
uma	 guerra	 de	 agressão	 tão	 arriscada	 na	 Itália,	 expondo	 a	 República	 a
ataque	 e	 contra-ataque.	 O	 evangelho	 da	 guerra	 revolucionária,	 na
concepção	de	Carnot,	ditava	que	cada	centímetro	do	solo	nacional	devia	ser
protegido	—	uma	idéia	de	que	as	idéias	de	Napoleão	zombavam.12
Os	deputados	pós-Termidor	em	missão	no	Sul	 continuaram	receptivos
aos	 projetos	 belicosos	 de	Napoleão.	 Seus	 planos	 para	 a	 Itália	 passaram	 a
sugerir	 que	 se	 insuϐlasse	 o	 povo	 genovês	 contra	 seus	 governantes
oligárquicos	 e	 se	 distribuíssem	 cópias	 da	 correspondência	 diplomática
como	 um	 meio	 de	 obrigar	 os	 governantes	 a	 cumprir	 as	 ordens	 dos
franceses.	 De	 modo	 geral,	 contudo,	 depois	 da	 queda	 de	 Robespierre	 as
notas	de	Bonaparte	passaram	a	exalar	menos	odor	ideológico	—	seu	autor,
como	 sempre,	 estava	 avaliando	 os	 propósitos	 de	 seus	 leitores	 ao	mesmo
tempo	 em	que	 procurava	 promover	 os	 próprios.	 Com	 a	 saída	 de	 cena	 de
Robespierre,	a	moderação	de	Carnot	prevaleceu,	 ilustrada	pela	nomeação
de	generais	comandantes	hesitantes,	em	geral	mais	velhos,	para	o	Exército
da	 Itália.	 De	 um	 ponto	 de	 vista	 estritamente	 militar,	 os	 franceses	 sem
dúvida	perderam	uma	oportunidade	de	promover	operações	militares	com
êxito	 na	 Lombardia,	 mas	 ninguém	 compreendia	 melhor	 que	 o	 general
Bonaparte	 que	 a	 guerra	 tendia	 à	 política.	 De	 todo	 modo,	 nessa	 altura
outros	assuntos	lhe	exigiam	a	atenção.
Vendemiário,	ano	IV
O	 período	 de	 15	 meses	 decorrido	 entre	 a	 queda	 de	 Robespierre	 e	 a
criação	 do	 primeiro	 Diretório	 é	 oϐiciosamente	 conhecido	 como	 Termidor,
ou	 Reação	 Termidoriana,	 pelo	 contraste	 que	 fez