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Englund, Steven uma Biografia Política

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com	 o	 anterior.	 O
Termidor	 proporcionou	 alívio	 sob	 vários	 aspectos	 decisivos:	 encerrou	 o
regime	de	emergência	e	do	Terror,	acabou	com	o	controle	dos	preços,	e	a
vida	 religiosa	 e	 a	 social	 ϐicaram	 mais	 intensas.	 A	 principal	 missão	 do
regime	 era	 escrever	 uma	 nova	 Constituição,	 e	 ele	 a	 cumpriu,	 mas	 o
governo	revelou	certa	ambigüidade	em	sua	natureza	e	irresolução	em	sua
política.	 Se	 as	 coisas	 mudaram	 em	 estilo	 e	 tom,	 institucionalmente	 o
Termidor	não	representou	mudança.	Os	membros	da	Convenção	Nacional
—	expurgada,	 é	 claro,	 de	Robespierre	 e	 companhia	—	 transformaram-se
em	 ex-jacobinos	 penitentes.	 O	 Termidor	 foi	 em	 parte	 um	 período	 de
hipocrisia,	 de	 revolucionários	 empenhados	 em	 se	 desconstruir	 no	 intuito
de	conservar	o	poder.
Napoleão	tinha	alguns	defensores	e	admiradores	 importantes	entre	os
termidorianos	 (Barras,	 Fréron	 e	 outros),	 mas	 não	 se	 deu	 ao	 trabalho	 de
tentar	 parecer	 um	 novo	 homem.	 Isso	 poderia	 lhe	 ter	 acarretado
problemas,	 não	 fossem	a	 relativa	modéstia	 de	 sua	 reputação	—	era	mais
conhecido	 no	 Sul	 que	 em	Paris	—	 e	 a	 grande	 qualidade	 de	 seu	 trabalho.
Apesar	 disso,	 os	 novos	 rostos	 no	 Comitê	 de	 Salvação	 Pública	 e	 o	 novo
ministro	da	Guerra,	Aubry,	viam	o	grupo	de	Robespierre	com	desconϐiança
e	não	conseguiram	chegar	a	uma	decisão	conseqüente	sobre	que	uso	fazer
do	 general-de-artilharia.	 No	 inverno	 de	 1795,	 Napoleão	 foi	 removido	 do
front	da	Riviera	 e	da	 Itália	 e	 encarregado	de	 fazer	planos	para	a	 invasão
da	 Córsega	 —	 projeto	 que	 foi	 cancelado	 quando	 ϐicou	 claro	 que	 os
franceses	não	tinham	como	desaϐiar	a	hegemonia	naval	britânica.	Em	maio,
Napoleão	 recebeu	 ordem	 de	 se	 apresentar	 ao	 Exército	 do	 Oeste,	 sob	 o
comando	de	Lazare	Hoche.
Diz	um	velho	ditado	latino	que	“os	franceses	se	atacam	uns	aos	outros
como	 lobos”.	 Talvez	 isso	 seja	 injusto	—	para	 os	 lobos,	 que	parecem	viver
bem	 em	 alcatéias.	 Poucos	 conϐlitos	 em	 toda	 a	 longa	 história	 da	 França
atestam	de	maneira	mais	deplorável	a	inimizade	mútua	dos	franceses	que
a	 guerra	 entre	 os	 exércitos	 camponeses	 (les 	 Chouans),	 muitas	 vezes
liderados	 por	 padres	 e
monarquistas,eosexércitosdecasacoazuldaRepública,quegrassounaVendéia
de	1792	a	1795.	Suas	vítimas	foram	tão	numerosas	quanto	as	do	Terror.	E
no	entanto	foi	um	francês,	Chateaubriand,	que	fez	a	fascinante	observação
de	que	“a	guerra	civil	é	menos	injusta	e	revoltante,	bem	como	mais	natural,
que	 a	 guerra	 externa”.	Há	 uma	 verdade	mais	 profunda	 e	mais	 purgativa
no	 conϐlito	 fratricida,	 em	 matarmos	 alguém	 que	 amamos	 por	 uma	 razão
que	nos	parece	inarredável,	do	que	em	matar	alguém	que	não	conhecemos
por	 ganhos	 territoriais	 que	 pouco	 signiϐicam	 para	 nós.	 Para	 um
comandante	militar,	o	conϐlito	civil	é	particularmente	arriscado	e	perigoso;
mas	 pode	 compensar.	 Assim,	 todos	 os	 louros	 ganhos	 por	 César	 em	 seus
oito	 longos	 anos	 de	 batalhas	 na	 Gália	 não	 tiveram	 o	 mesmo	 valor	 que	 a
única	vitória	que	obteve	em	Farsala	sobre	as	legiões	romanas	de	Pompeu.
Napoleão	 compreendia	muito	 bem	os	 dois	 aspectos,	 aterrador	 e	 atraente,
desse	tipo	de	conflito.
A	 única	 coisa	 boa	 que	 se	 poderia	 dizer	 sobre	 essa	 designação	 para	 a
Vendéia	é	que	ela	proporcionou	a	Napoleão	uma	brigada	própria,	pois	ele
estava	 ansioso	por	 sair	 de	 trás	de	uma	mesa.	Mas	 as	desvantagens	 eram
muitas.	 Além	 de	 servir	 na	 infantaria	 —	 ϐicando	 um	 degrau	 abaixo,	 em
status,	de	um	oϐicial-deartilharia	—,	teria	de	enfrentar	um	perigo	político	e
vencer	uma	aversão	pessoal.	O	próprio	general	Hoche	 tentara	evitar	uma
função	 que	 o	 obrigasse	 a	 fazer	 guerra	 a	 compatriotas,	 missão	 que
contrariara	 outros	 excelentes	 oϐiciais,	 como	 Kléber	 e	 Kellermann.	 Hoche,
como	 tantos	 colegas	 oϐiciais,	 enfrentara	 a	 prisão	 em	 conseqüência	 de
acusações	políticas	insignificantes,	tendo	numa	ocasião	escapado	por	pouco
da	 guilhotina.	 No	 início	 de	 1795,	 ele	 escrevera	 ao	 ministro	 da	 Guerra
queixando-se	do	grande	número	de	seus	oϐiciais	na	Vendéia	que	estavam
solicitando	 transferência.13	 Por	 ϐim	—	uma	 consideração	 não	 irrelevante
para	Bonaparte	—	na	 verdade	 a	 guerra	 no	 oeste	 já	 havia	 terminado,	 em
abril	de	1795,	quando	a	Paz	de	Prévalaye	fora	ϐirmada	entre	os	rebeldes	e
a	 República.	 Com	 isso,	 só	 restava	 a	 operação	 de	 limpeza	 a	 fazer.	 Os
inconvenientes	 do	 serviço	 na	 Vendéia	 proliferaram	 tanto	 que	 Marmont
qualiϐicou	 essa	 designação	 de	 “um	 golpe	 desastroso	 na	 carreira	 de
Napoleão”.
Ele	 próprio,	 no	 entanto,	 parece	 ter	 reprimido	 sua	 ambivalência	 e	 se
revestido	 de	 coragem	 para	 assumir	 o	 posto,	 embora	 ϐicasse	 adiando	 a
partida	 para	 a	 Vendéia.	 Ele,	 Junot	 e	Marmont	 demoraram-se	 em	 Paris	 e,
embora	 sem	 dinheiro,	 desfrutaram	 dos	 prazeres	 que	 a	 capital	 oferecia
nessa	 fase	 de	 alegria	 recobrada.	 Napoleão	 aproveitou	 a	 trégua	 para	 ir	 à
Ópera,	 visitar	 o	 Observatório	 e	 ouvir	 palestras	 de	 Lalande,	 o	 famoso
astrônomo.
O	 verão	de	 1795	 foi	 uma	 fase	 em	que,	 apesar	 das	 cartas	 escritas	 por
Napoleão	 e	 das	 memórias	 de	 outras	 pessoas,	 não	 podemos	 dizer	 com
certeza	a	quantas	andavam	sua	mente	ou	seu	coração.	Podemos	tomar	os
indícios	 pelo	 que	 aparentam	 ser:	 o	 homem	 parecia	 sereno,	 alegre	 e
otimista.	Mas	podemos	também	analisar	esses	mesmos	indícios	e	dizer	que
eles	 mentem:	 Napoleão	 estava	 internamente	 deprimido,	 melancólico,
inquieto.
A	 mim,	 impressiona	 a	 simples	 quantidade	 de	 espaço	 epistolar	 que
Napoleão	dedicou	então	aos	 irmãos	—	note-se	por	 exemplo	o	prazer	que
lhe	proporcionou	a	visita	a	Paris	de	Luís,	então	com	17	anos,	e	o	dissabor
que	 sentiu
comapartidadele(“Sintoaausênciadeletãoagudamente”,escreveuaJoséem	 6
de	setembro,	“foi	de	tanta	ajuda	para	mim”).	Tentou	organizar	uma	visita	a
Paris	para	Jerônimo,	de	dez	anos.	Escreveu	menos	sobre	Luciano,	embora
tenha	 se	 dado	 ao	 trabalho	 de	 fazer	 diligências	 para	 livrá-lo	 da	 prisão
(Luciano	 —	 também	 conhecido	 como	 Brutus	 Bonaparte	 —	 era	 jacobino
demais	para	o	gosto	termidoriano).	Quanto	à	sua	afeição	por	José,	ela	era	o
sentimento	 que	 deϐinia	 sua	 vida	 emocional	 até	 aquele	 momento.	 Estava
constantemente	 assegurandooirmãode“monamitié”,dizendo-
lheque“nãosepreocupassecomo	 futuro”	 (que	 ele,	 Napoleão,	 haveria	 de
garantir).	Numa	carta,	diz	que	seu	sentimento	pelo	irmão	é	tão	grande,	que
tem	de	parar	de	escrever.	As	cartas	a	José	constituem	a	espinha	dorsal	da
correspondência	de	Napoleão	nesse	período;	eram	noticiosas	e	descritivas,
cheias	de	tagarelice	sobre	festas,	mulheres	e	a	alegria	que	voltara	a	deϐinir
a	vida	na	capital	durante	o	Termidor.
Em	 suma,	 a	 leitura	 dessas	 cartas	 deixa	 o	 leitor	 com	 a	 imagem	 de	 um
Napoleão	 de	 grande	 autodomínio	 (talvez	 conquistado	 a	 duras	 penas),
embora	tivesse	motivos	para	se	sentir	ansioso	e	perturbado:	os	ganhos	de
1794	 na	 Riviera,	 em	 parte	 devidos	 a	 seus	 planos,	 haviam	 sido	 perdidos
para	 a	 contra-ofensiva	 austro-sarda;	 a	mulher	 que	 amava	—	ou	 pensava
amar,	 ou	 aϐirmava	 amar	 —	 não	 vinha	 respondendo	 às	 suas	 cartas	 com
suϐiciente	freqüência;	por	ϐim,	o	que	era	mais	grave,	seu	status	no	exército
continuava	ambíguo.	Oϐicialmente	deveria	 estar	na	Vendéia	 e,	 no	 entanto,
permanecia	 em	 Paris	 graças	 a	 várias	 licenças	 por	 doença	 e	 permissões
especiais.	 Curiosamente,	 queixava-se	 pouco	 de	 qualquer	 dessas	 coisas
(exceto	da	indiferença	da	mulher)	em	suas	cartas.
O	 que	 Napoleão	 revelava,	 em	 vez	 disso,	 era	 uma	 disposição
especulativa	 e	 ϐilosóϐica	 que	 levou	 alguns	 a	 questionar	 se	 estaria	 feliz.
Assim,	ele	escrevia	(12	de	agosto):	“Quanto	a	mim,	não	sou	especialmente
apegado	a	coisas.	Aproximome	da	vida	sem	cobiça.	Encontro-me	no	estado
de	 espírito