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Englund, Steven uma Biografia Política

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pelo	 amigo;	 as	 cartas	 do	 amor	 de	 sua	 vida	 rareiam,	 depois	 cessam	 por
completo.	 Ele	 decide	morrer,	mas	 antes	 escreve	 a	Eugénie	para	 lhe	dizer
que	“viva	contente,	sem	pensar	no	infeliz	Clisson”.	“Beija	[meus	ϐilhos]	por
mim”,	 pede;	 “possam	 eles	 não	 ter	 a	 alma	 ardente	 do	 pai,	 de	modo	 a	 não
serem	 vítimas	 dos	 homens,	 da	 glória	 e	 do	 amor.”	 Em	 seguida,	 carrega	 a
boca-de-fogo	e	cai	“perfurado	por	mil	rajadas”.
A	inocência	e	a	seriedade	desses	retratos	idealizados	parecem	tocantes
para	 alguns,	 entediantes	 para	 outros,	 mas	 é	 inegável	 que	 são	 banais.	 O
mesmo	se	pode	dizer	da	prosa;	tem-se	a	 impressão	de	que	o	autor	estava
aϐlito	demais	por	contar	a	história	para	se	preocupar	muito	com	estilo.	Tal
como	 escrito,	 Clisson	 et	 Eugénie	 é	 bem	 o	 que	 um	 jovem	 de	 inclinação
romântica,	 leitor	 de	 Rousseau	 e	 Plutarco,	 poderia	 ter	 destilado	 após	 seu
primeiro	 amor.	 A	 diferença	 é:	 o	 jovem	 comum	 não	 teria	 passado	 em
seguida	a	viver	essa	história	e	o	que	 impressiona	em	Clisson	 et	Eugénie	 é
seu	valor	profético.	Napoleão,	como	veremos,	permanecerá	à	sombra	dessa
fantasia	 quando,	 pouco	 depois,	 encontrar	 sua	 verdadeira	 Eugénie.	 A
realidade,	quando	ela	 se	apresentar,	não	 lhe	 trará	nesse	 sentido	nada	de
novo;	suas	previsões	se	transformarão	em	suas	coerções;	como	o	sino	para
Macbeth,	elas	o	convidarão	a	agir.	Seja	como	for,	será	graças	à	autoimagem
de	Napoleão	como	homem	traído	que,	um	dia,	um	certo	capitão	Hippolyte
Charles	escapará	da	morte	e	a	adúltera,	de	um	processo	de	divórcio.
Retornando	 a	 Mlle	 Clary,	 Napoleão	 a	 estava	 traindo	 claramente	 em
espírito,	 se	 não	 de	 fato,	 no	 verão	 e	 no	 outono	 de	 1795,	 e	 continuou	 a
cozinhá-la	 em	 fogo	 brando	 até	 começar	 a	 freqüentar	 os	 salões	 em	 que
conheceu	 uma	 certa	 viúva	 da	Martinica.	 Quando	 ϐinalmente	 rompeu	 com
Désirée,	 em	 janeiro	 de	 1796,	 o	 fez	 de	maneira	 vergonhosa.	 Sabendo	 que
ela	era	menor	de	idade,	escreveu-lhe	insistindo	em	que	se	casasse	com	ele
imediatamente.	A	menina	 só	podia	negar,	mas	 ϐicou	 inconsolável.	Quando,
alguns	meses	depois,	Napoleão	a	informou	bruscamente	de	seu	casamento
com	 Joseϐina,	 Désirée	 lhe	 escreveu	 uma	 carta	 que	 contém	 uma	 linha
notável	 tanto	 pelo	 pathos	 quanto	 pela	 veracidade:	 “A	 comparação	 que
deves	fazer	[entre	tua	esposa	e	mim]	só	poderia	me	ser	desvantajosa,	tua
esposa	 sendo	 superior	 em	 todos	os	 aspectos	 à	pobre	Eugénie,	 exceto	por
não	superá-la	em	sua	extrema	afeição	por	ti.”
Uma	rosa	por	algum	outro	nome
No	 dia	 15	 de	 agosto	 de	 1795,	 o	 general-de-brigada	 Napoleone
Buonaparte	 (como	 ele	 ainda	 se	 autodenominava)	 fez	 26	 anos.	 Era	 um
rapaz	 esbelto	 e	 pálido,	 de	 pele	 azeitonada.	 É	 verdade	que,	 com	1,60m	de
altura,	era	baixo,5	mas	não	extraordinariamente	para	a	época.	Em	meados
do	 século	 XVIII,	 a	 altura	 média	 dos	 soldados	 franceses	 era	 1,65m;	 o
arquiduque	Charles,	 o	melhor	general	da	Áustria	na	época,	media	1,52m.
Assim,	compreensivelmente,	nem	a	altura	de	Napoleão,	nem	sua	tendência
a	enϐiar	a	mão	direita	no	colete	(pose	nada	estranha	em	retratos	do	século
XVIII)	 chamavam	 a	 atenção	 de	 seus	 contemporâneos	 como	 chamaram	da
posteridade.	Ele	podia	 ser	brilhante	e	 loquaz;	 em	geral	 era	 simplesmente
taciturno	 e	 reservado,	 visivelmente	 tenso.	 Mas	 os	 retratos	 que	 dele	 se
traçam	 —	 então	 como	 agora	 —	 variavam	 segundo	 a	 opinião	 (em	 geral,
forte)	de	quem	o	contemplava.
Os	que	não	gostavam,	ou	passaram	a	não	gostar,	de	Napoleão	—	como
muitas	mulheres	da	aristocracia	(de	Chastenay,	de	Rémusat,	de	Staël	etc.)
—	enfatizavam	seu	cabelo	“gordurento”,	não	empoado	e	despenteado,	que
usava	na	altura	dos	ombros	 lembrando	“orelhas	de	cachorro”.	Notavam	o
chapelão	puxado	 até	 os	 olhos,	 o	 andar	 lépido	mas	 incerto,	 as	mãos	muito
magras	 e	 sujas,	 sem	 luvas;	 alguns	 o	 descreveram	 como	 magro,	 de	 faces
cavadas	e	uma	“palidez	de	fantasma”;	outros	o	qualiϐicaram	simplesmente
de	 “magricela”,	 acrescentando	 que	 suas	 pernas	 ϐinas	 ϐicavam	 engraçadas
em	suas	botas	grandes,	baratas	e	não	engraxadas	—	davam-lhe	um	ar	de
“Gato	 de	 Botas”,	 como	 Joseϐina	 o	 apelidou.	 Os	 maledicentes	 destacavam
ainda	uma	cabeça	desproporcionalmente	grande	para	o	corpo,	em	que	os
olhos	 eram	 o	 traço	 dominante;	 o	 olhar	 era	 penetrante,	 amedrontador,
pronto	a	expressar	desprazer.	A	boca,	diziam,	tinha	uma	expressão	natural
de	 escárnio,	 condizente	 com	 suas	 maneiras	 brutais	 e	 rudes.	 Finalmente,
comentavam,	aquele	corso	falava	francês	com	um	sotaque	italianado.
Os	 que	 admiravam	 ou	 gostavam	 de	 Napoleão,	 ou	 se	 impressionavam
com	 ele	—	 com	mais	 freqüência	 homens	 (o	 banqueiro	 Ouvrard,	 o	 poeta
Heine,	 os	 pintores	 Gros	 e	 David,	 os	 oϐiciais	 militares	 em	 geral)	 —
comparavam	 seu	 rosto	 às	 “cabeças	 de	 mármore	 dos	 gregos	 e	 dos
romanos”.	 Falavam	 de	 olhos	 grandes	 e	 amendoados,	 de	 uma
expressividade	quase	 feminina,	 emoldurados	por	 sobrancelhas	 largas;	 de
um	 nariz	 aquilino,	 maçãs	 do	 rosto	 altas	 e	 uma	 testa	 larga.	 Reconheciam
que	a	cabeça	era	grande	para	um	homem	pequeno,	mas	diziam	que	ela	o
tornava	 impressionante	 e	 sugeria	 inteligência.	 O	 lábio	 superior	 alongado,
nessa	 leitura,	 revelava	 uma	 boca	 sensível.	 No	 conjunto,	 um	 rosto
imponente,	 diziam	 seus	 admiradores,	 especialmente	 os	 olhos.	 Bonaparte
talvez	não	fosse	nenhum	Hoche	—	homem	de	rosto	aberto,	cabelo	anelado,
agradável	 e	 bonito	 como	 um	 ator	 —,	 admitiam,	 mas	 insistiam	 que	 era
imponente	e	vistoso	de	uma	maneira	não	convencional.
Quanto	às	maneiras,	o	que	parecia	assustador	aos	críticos	de	Napoleão
era	visto	pelos	devotos	como	interessante,	imponente.	Lembravam	que	sua
entrada	 numa	 sala	 era	 imediatamente	 percebida	 pelos	 que	 ali	 estavam.
Para	 eles	 o	 andar	 desajeitado	 era	 uma	marcha	 em	 grandes	 passadas	—
militar,	 enérgica,	 decidida.	 Historiadores	 favoráveis	 a	 Napoleão
observaram	 mais	 tarde	 como	 seu	 andar	 foi	 copiado	 por	 militares	 tão
diferentes	 dele	 quanto	 Patton.	 Se	 suas	 maneiras	 eram	 estudadas,
argumentam	 seus	 defensores,	 era	 porque	 esse	 homem	 precisava	 afastar
pessoas	 que	 nada	 tinham	 a	 lhe	 dizer	 e	 o	 fariam	 perder	 tempo.
Admiradores	 e	 críticos	 concordam	 que	 Napoleão	 era	 um	 homem
usualmente	 tenso,	 raramente	 relaxado;	 só	 que	 para	 os	 primeiros	 essa
faceta	era	expressão	de	pensamento,	orientação,	determinação.
Assim	é,	e	sempre	será,	quando	o	gosto	estético	se	curva	ao	julgamento
moral,	mas	 raras	 vezes	 as	 divergências	 são	 tão	 impressionantes	 como	no
caso	 de	 Napoleão	 Bonaparte,	 que	 quase	 inevitavelmente	 impressiona	 as
pessoas	como	bonito	ou	feio,	segundo	lhes	pareça	bom	ou	mau.
O	Napoleão	de	meados	de	1795	era	um	homem	agudamente	atento	ao
sexo	feminino.	Laure	Permon,	futura	mulher	do	general	Junot	(teria	o	título
de	 duquesa	 d’Abrantès),	 expressou	 isso	 bem	 quando	 ele	 chegou	 a	 Paris
naquela	primavera:	“Ele	está	apaixonado	por	todas	as	mulheres.”	As	cartas
que	escrevia	a	José	mencionavam	vez	por	outra	os	encantos	femininos	e	o
novo	 papel	 das	 mulheres	 na	 Paris	 do	 Termidor	 e	 do	 Diretório.
Excepcionalmente,	 sua	 misoginia	 corsa	 parecia	 contida,	 não	 estava
dominado	pela	reprovação	do	que	chamava	“o	 império	das	mulheres”	nos
negócios	sociais	e	públicos.	“Aqui,	o	único	entre	todos	os	lugares	da	Terra”,
escreveu	a	 José,	 “[as	mulheres]	parecem	segurar	as	rédeas	do	governo,	e
os	homens	fazem	papel	de	bobos	por	causa	delas,	só	pensam	nelas,	vivem
só	para	elas.”
A	 estrela	 de	 Désirée	 logo	 esmaeceu	 sob	 a	 luz	 de	 um	 sol	 muito	 mais
próximo	 e	 brilhante.	 Com	 sua	 ação	 no	 Vendemiário,	 Napoleão	 ϐicou	mais
famoso	 em	 Paris	 do	 que	 ϐicara	 no	 Midi	 graças	 a	 Toulon.	 Entre	 outros
beneϐícios,	 ela	 o	 transformou	 numa	 espécie	 de	 atração