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Englund, Steven uma Biografia Política

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deviam	ser	(e	de	fato	eram)	incomparáveis.
Em	 poucas	 palavras,	 o	mais	 provável	 é	 que	 um	menino	 tão	 esperto	 e
ambicioso	 como	 Napoleão	 Bonaparte	 percebesse	 sua	 boa	 sorte	 e
contemplasse	com	entusiasmo	seu	 futuro	ao	chegar	ao	collège	 (segundo	 o
uso	 francês)	de	Autun,	 uma	das	mais	 antigas	 e	bem	conceituadas	 escolas
preparatórias	 da	 França.	 Ali	 ele	 passou	 o	 inverno,	 estudando	 francês;
depois,	 na	 primavera,	 transferiu-se	 para	 uma	 das	 12	 escolas	 militares
reais	 distribuídas	 pela	 França,	 a	 que	 se	 localizava	 em	 Brienne,	 56km	 a
leste	de	Paris,	na	região	da	Champagne.	Após	cinco	anos	(1779-84)	nessa
escola,	 completou	 seus	 estudos	 militares	 cursando	 a	 École	 Militaire	 em
Paris	 durante	 um	 ano.	 Nada	 disso	 aconteceu	 fácil	 ou	 naturalmente.	 Essa
conversa	 de	 collèges	 e	 estudos	 não	 nos	 deveria	 fazer	 esquecer	 que
Napoleão	não	passava	de	um	menino	nessa	altura,	um	menino	que	estava
sendo	obrigado	a	fazer	malabarismos	numa	língua	estrangeira,	que	falava
(e	 sempre	 falaria)	 com	 forte	 sotaque.	 Seu	 parco	 domínio	 do	 francês	 o
punha	em	permanente	desvantagem	nos	cursos	de	literatura,	obrigando-o
em	geral	se	esforçar	mais	que	os	outros.	Ademais,	era	o	mais	jovem	aluno
da	 sua	 turma.	 Tinha	 apenas	 16	 anos,	 por	 exemplo,	 quando	 recebeu	 sua
patente	na	Artilharia	Real	em	1785.
Por	 mais	 que	 fossem	 instituições	 severas,	 até	 draconianas,	 Autun,
Brienne	 e	 a	 Escola	Militar	 proporcionaram	 uma	 educação	 extraordinária
para	um	nobre	provinciano	empobrecido.	Apesar	disso,	a	experiência	teve
um	 lado	 sombrio	 para	 Napoleão.	 Nos	 registros	 de	 Autun,	 pode-se
encontrar	 a	 seguinte	 entrada	 na	 letra	 elegante	 de	 um	 dos	 padres-
professores:	 “M. 	 Néapoleonne	 de	 Bounaparte	 [sic]	 pour	 trois	 mois	 vingt
jours,	 cent	 onze	 livres,	 douze	 sols,	 huit	 deniers	 111,	 12,	 8.” 	 As	 palavras	 não
dizem	muito:	 só	que	o	 aluno	mencionado	passara	 três	meses	 e	 vinte	dias
no	 collège	 (que	 estava	 prestes	 a	 deixar)	 e	 devia	 dinheiro.	 Dois	 detalhes
ressaltam:	 Primeiro,	 a	 soma	 devida	 representa,	 por	 si	 só,	 10%	do	 salário
anual	de	Carlo	como	ϐiscal	do	condado	de	Ajaccio,	seu	principal	emprego.	A
família	 tinha	 outras	 fontes	 de	 renda,	 mas	 quando	 somamos	 o	 custo	 da
educação	 de	 Napoleão	 ao	 da	 dos	 outros	 ϐilhos,	 temos	 uma	 idéia	 da
grandeza	 relativa	 do	 investimento	 feito	 por	 Carlo	 na	 educação	 dos	 ϐilhos.
Ele	 estava	 sempre	 pedindo	 dinheiro	 emprestado	 para	 fazer	 face	 a	 esses
pagamentos.
Em	 segundo	 lugar,	 notamos	 o	 assassinato	 ortográϐico	 do	 nome	 de
Napoleão	por	um	professor	que	o	considerava	“esplêndido”.	É	um	sinal	de
que	alguma	coisa	andava	errado	em	Autun,	 e	 continuaria	a	 andar	errado
em	Brienne	e	na	École	Militaire.	O	sacerdote	em	questão,	o	admirado	padre
Chardon,	 talvez	 pronunciasse	 o	 nome	 de	 Napoleão	 corretamente,	mas	 os
colegas	 do	menino,	 não.	 Em	 suas	 caçoadas,	 “Napoleone”	 transformava-se
no	 tolo	 “paille	 au	 nez”	 (palha	 no	 nariz).	 Isso	 não	 surpreende	 muito.	 Um
provinciano	 de	 nove	 anos,	 proveniente	 de	 um	 território	 recém-
conquistado,	 chega	 num	 internato	 de	 elite	 num	 reino	 famoso	 pelo
esnobismo	e	um	rígido	sistema	de	classe.	Era	possível	adotar	uma	de	duas
estratégias	 gerais	 diante	 das	 provocações	 inevitáveis,	 que	 todos	 que
freqüentaram	um	internato	de	meninos	conhecem	bem.	Tentar	ganhar	as
boas	 graças	 dos	 colegas,	 ou	 isolar-se;	 misturar-se	 a	 eles	 e	 ganhar-lhes	 a
estima	ou	 sobressair	 e	 ser	notado.	 José	Bonaparte	 adotou	a	primeira.	Em
Autun,	onde	passou	seis	 anos,	 era	 respeitado	e	unanimemente	apreciado,
embora	 suas	memórias	 deixem	 claro	 que	 a	 experiência	 teve	 algum	 custo
para	ele	e	que	não	se	sentia	 tão	 feliz	ali	quanto	em	geral	se	diz.	Napoleão
adotou	a	segunda	opção.	Tornou-se	taciturno,	distante,	irascível,	fazendo-se
extremamente	malquisto	 e	 temido.	 O	 preço	 do	 caminho	 que	 escolheu	 foi
consideravelmente	mais	alto	que	o	de	José.
Embora	 todos	 os	 relatos	 dos	 contemporâneos	 que	 conheceram
Napoleão	 durante	 os	 anos	 que	 passou	 estudando	 na	 França	 tenham	 sido
escritos	 décadas	 depois,	 e	 reϐlitam	 os	 fortes	 sentimentos	 dos	 autores	 em
relação	a	ele,1	há	neles	alguma	relevância	por	coincidirem	não	só	entre	si
como	 com	 vários	 comentários	 que	 o	 próprio	 imperador	 teceu	mais	 tarde
sobre	Brienne.	Segundo	todos	eles,	Napoleão	foi	 infeliz	como	estudante	na
França,	e,	em	conseqüência,	tornava	ou	tentava	tornar	infelizes	as	pessoas
à	sua	volta.	Os	que	descrevem	o	adolescente	Napoleão	utilizam	em	geral	os
adjetivos	 usuais:	 “inadaptado,	 insociável,	 antipático	 e	 agressivo”,
“excessivamente	 carrancudo	 e	 colérico”,	 lançando	 “olhares	 penetrantes,
esquadrinhadores”	 etc.	 Com	 certeza	 não	 é	 diϐícil	 acreditar	 que	 Napoleão
fosse	 tudo	 isso.	 Podemos	 facilmente	 imaginá-lo	 em	Brienne,	 por	 exemplo,
como	 uma	 vez	 ele	 se	 descreveu,	 sentado	 à	 sombra	 de	 seu	 carvalho
predileto,	 macambúzio,	 sentindo	 uma	 pena	 desesperada	 de	 si	 mesmo,
acalentando	 seu	 amor-próprio	 ferido	 a	meditar	 sobre	 o	 quanto	 odiava	 os
colegas	franceses,	e	o	quanto	era	por	eles	odiado	(mais,	porém,	sobre	seu
próprio	 ódio),	 e	 sobre	 o	 “mal”	 que	 haveria	 de	 fazer	 um	 dia	 “àqueles
franceses”.
Mas	nem	tudo	era	comoção,	nem	tão	grave:	a	disposição	de	ânimo	e	os
humores	 de	 Napoleão	 não	 o	 conduziram	 a	 um	 impasse	 psicológico	 nos
cinco	 anos	 que	 passou	 em	 Brienne,	 nem	 o	 impediram	 de	 fazer	 amigos
(inclusive	um	genuíno	conϐidente,	Bourrienne)	ou	de	estudar	com	aϐinco	e
alcançar	 sucesso	acadêmico.	Napoleão	era	generoso,	 raramente	guardava
rancores	e	possuía	uma	imaginação	poderosa.	Sentiu	prazer	em	aprender
nas	várias	escolas	francesas	que	freqüentou,	em	especial	Brienne.	Bom	em
matemática	—	 ganhou	 um	 prêmio	 na	matéria	—,	 o	menino	 gostava	mais
ainda	 de	 história	 antiga.	 Realmente,	 é	 diϐícil	 subestimar	 o	 impacto	 do
modelo	 romano	 sobre	 a	 cultura	 política	 do	 Antigo	 Regime;	 ela	 mais	 ou
menos	 substituía	 o	 cristianismo	 como	 fonte,	 por	 excelência,	 de	 máximas
para	 os	 políticos.	 Nem	 as	 ordens	 católicas	 dedicadas	 ao	 ensino	 resistiam:
volta	 e	 meia	 seus	 monges	 destacavam	 as	 histórias	 e	 os	 personagens	 de
Plutarco,	Nepos	(autor	de	Sobre	homens	 ilustres), 	Lívio,	Virgílio,	Cícero	etc.,
ao	mesmo	tempo	em	que	despachavam	todas	essas	almas	pré-cristãs	para
o	 inferno	 ou	 o	 limbo	 (contradição	 que	 bastou	 para	 fazer	 o	 adolescente
Napoleão	perder	a	fé.)
Em	 Brienne,	 Napoleão	 provavelmente	 descobriu	 César,	 o	 que	 não	 é
nenhuma	 surpresa,	 dada	 a	 atenção	 que	 Plutarco	 dedica	 ao	 fundador	 do
Império	 Romano.	 Plutarco	 forneceu-lhe	 modelos	 que	 o	 mundo	 do	 século
XVIII	levava	muito	a	sério.	A	força	que	impele	a	narrativa	de	Plutarco,	cujo
efeito	é	apresentar	suas	grandes	ϐiguras	(Alexandre,	César,	Cícero,	Brutus
etc.)	 como	 heróis	 indiferenciados,	 deve	 ter	 deixado	 sua	 marca	 em
Napoleão.	 Como	 Plutarco,	 ele	 admirava	 tanto	 Brutus	 quanto	 César,	 sem
que	a	comparação	entre	um	e	o	outro	lhe	inspirasse	as	mesmas	prudentes
lições	morais	ou	políticas	que	aos	romanos.	O	que	importava	é	que	ambos
eram	viri	illustres:	grandes	homens.
Em	 suma,	 Brienne	 não	 foi	 apenas	 um	 suplício	 pessoal	 ou	 intelectual
para	Napoleão.	Ele	venceu	brilhantemente	grande	parte	dos	desaϐios	que
ali	deparou,	e	sabia	disso.	Como	observou	em	Santa	Helena:	“Eu	era	o	mais
pobre	 dos	meus	 colegas	 ...	 eles	 sempre	 tinham	uns	 trocados	 no	 bolso,	 eu
nunca.	 Mas	 eu	 era	 orgulhoso	 e	 fazia	 todo	 o	 possível	 para	 que	 ninguém
percebesse	 ...	 Nunca	 aprendi	 a	 rir	 e	 a	 brincar	 como	 os	 outros.”	 Muito
provavelmente,	 isso	 não	 foi	 dito	 com	 raiva,	 mas	 com	 certo	 grau	 de
merecida	 satisfação.	 Durante	 sua	 permanência	 em	 Brienne,