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Englund, Steven uma Biografia Política

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o	uniforme
azul	 de	 cadete,	 com	 seus	 alamares	 prateados	 e	 toques	 de	 escarlate	 e
amarelo	nos	punhos.	Reconstruções	tardias	nada	revelam	do	 impacto	que
esse	adolescente	intoxicado	de	Plutarco	sentiu	ao	ver,	pela	primeira	vez,	as
pinturas,	 placas,	 estátuas	 e	 outros	 memoriais	 das	 glórias	 marciais	 da
monarquia	francesa	(e,	um	dia,	da	glória	do	Império).
Um	 lado	 positivo,	 admitido	 até	 por	Napoleão,	 foi	 que	 a	 École	Militaire,
diferentemente	 de	 Brienne,	 orgulhava-se	 de	 ter	 alguns	 professores
realmente	excelentes,	entre	eles	um	dos	mais	eminentes	cientistas	e	sábios
da	França:	o	marquês	de	Laplace,	astrônomo	e	matemático	renomado.	Na
École	 Royale	 Militaire	 Napoleão	 tomou	 gosto	 pela	 literatura,	 que	 não	 o
atraíra	 em	 Brienne.	 Seu	 professor,	 Domairon	 —	 o	 autor	 do	 mais
conceituado	manual	de	língua	e	literatura	—,	instilava	em	seus	pupilos	um
conhecimento	 seguro	 dos	 diferentes	 estilos	 literários	 e	 de	 suas	 regras
(inclusive	 o	 gênero	 “arenga	 para	 tropas”!),	 fornecendo	 os	 exemplos	mais
relevantes	 de	 cada	 um.	 Napoleão,	 que	 já	 gostava	 muito	 de	 ler,	 adquiriu
com	 Domairon	 um	mapa	 certeiro	 do	 vasto	 continente	 da	 literatura	 a	 ser
explorado	 (mais	 tarde,	 nomearia	 o	 ex-professor	 inspetor	 geral	 da
Universidade	 Imperial).	 Napoleão	 brilhou	 também	 em	 matemática	 e	 por
sua	prodigiosa	capacidade	de	concentração	no	 trabalho.	Valeu	a	pena:	 foi
um	 dos	 17	 rapazes	 escolhidos	 a	 dedo	 para	 prestar	 os	 exames	 ϐinais	 em
1785,	 após	 um	 ano	 apenas	 na	 École	 Royale	 Militaire	 em	 vez	 dos	 dois
usuais.	Classiϐicado	em	42o	 lugar	entre	56	alunos	de	escolas	militares	em
toda	a	nação,	 foi	um	dos	mais	 jovens	a	 ingressar	no	oϐicialato	na	condição
de	único	tenente	de	artilharia	corso.	A	ênfase	na	pouca	idade	de	Napoleão
ao	receber	a	patente	de	oϐicial	 leva	a	se	negligenciar,	 contudo,	o	quanto	o
rapaz	 tinha	 de	 “velho”	 em	 sua	 personalidade,	 quanta	 gravitas	 natural
exalava	—	“um	adulto	em	miniatura”,	como	Christian	Meier	diz	de	César.5
O	que	foi	uma	bênção,	porque,	como	César,	Napoleão	perderia	o	pai	aos	15
anos	e	dali	em	diante	teria	de	amadurecer	ainda	mais	depressa.
Ele	 deixou	 a	 École	 Royale	 Militaire	 com	 uma	 ambivalência	 das	 mais
agudas.	 O	 único	 ano	 que	 passara	 na	 escola	 mostrara-lhe	 a	 monarquia
francesa	sob	um	de	seus	aspectos	menos	atraentes.	À	medida	que	o	Ancien
Régime	 se	 aproximava	 da	 perdição,	 questões	 de	 “sangue”	 tinham
importância,	e	no	exército	mais	que	em	qualquer	outro	 lugar.	O	empenho
da	Coroa	em	bajular	a	alta	aristocracia	resultara	num	sistema	de	promoção
em	 que	 só	 as	 estirpes	 mais	 puras	 e	 mais	 antigas	 podiam	 aspirar
realisticamente	 a	 galgar	 os	 postos	 mais	 elevados.	 A	 Revolução	 viria	 por
muitas	 razões,	 mas	 essa	 questão	 do	 aguçamento	 da	 consciência	 da	 casta
nobre	—	 e	 seus	 efeitos	 sobre	 as	 classes	 inferiores	—	 não	 seria	 nem	 de
longe	a	última	da	lista.	Por	outro	lado,	mesmo	que	fosse	ϐilho	de	um	nobre
sem	eira	nem	beira,	o	jovem	Napoleão	não	deixava	de	ser	um	nobre.	Como	o
pai,	o	menino	não	contestava	as	bases	sociais	da	sociedade	francesa.	Como
o	 pai,	 não	 deixava	 de	 se	 orgulhar	 dessa	 condição.	 Na	 École	 Royale,	 como
antes	 em	 Brienne,	 fez	 boa	 amizade	 com	 um	 aristocrata:	 Alexandre	 des
Mazis.	 “O	 ϐiel	 Des	Mazis”	 era,	 como	 Bourienne,	 um	 nobre	 de	 velha	 cepa;
mais	 tarde	 tomaria	 partido	 contra	 a	 Revolução	 sem	 hesitar	 e	 emigraria
como	tantos	outros	oϐiciais	monarquistas	 formados	na	École.6	Em	suma,	o
Napoleão	que	emergiu	da	École	Royale	era	um	homem	dividido,	deslocado.
Isso	 não	 impedia	 que	 se	 tivesse	 tornado	 não	 só,	 bem	 ou	 mal,	 um	 oϐicial
(ainda	 tinha	muito	que	aprender	sobre	artilharia),	 como,	bem	ou	mal,	um
cavalheiro,	adornado	com	certo	grau	do	charme,	do	verniz	e	da	eloqüência
que	caracterizavam	a	elite	do	Ancien	Régime.
Família
A	história	de	Carlo	provoca	com	freqüência	a	zombaria	reservada	ao	burguês	de	uma
cidade	pequena	que	tenta	se	elevar	acima	de	sua	condição	...	É	preciso	admitir,	[contudo,]
que	seus	esforços	valeram	a	pena.	Se	um	dia	algum	homem	mereceu	ter	um	filho	como
Napoleão,	foi	ele.
DOROTHY	CARRINGTON7
Inquietações	 por	 causa	 da	 família	 perturbaram	 constantemente,	 até
estragaram,	 os	 últimos	 anos	 de	 Napoleão	 na	 escola.	 O	 imperador
expressou	isso	com	veemência:	“Elas	inϐluenciavam	meu	estado	de	espírito
e	 tornaram-me	grave	antes	do	 tempo	 ...”8	A	preocupação	do	 jovem	 já	era
clara	 antes	 que	 ele	 deixasse	Brienne,	mas	depois	 que	 ingressou	na	École
Royale	Militaire,	os	acontecimentos	produziram	nuvens	muito	mais	escuras
do	 que	 o	 pequeno	 problema	 da	 vocação	 de	 José.	 Os	 sonhos	 de	 sucesso
ϐinanceiro	alimentados	por	Carlo	Bonaparte	caíram	por	terra	rapidamente
em	seu	dois	últimos	anos	de	vida,	quando	vários	de	seus	esquemas	ruíram
(em	 especial	 o	 projeto	 de	 uma	 plantação	 de	 amoreiras	 numa	 terra	 de
propriedade	 da	 família	 na	 Córsega).	 Nada	 disso,	 é	 claro,	 levou	 Carlo	 a
parar	 de	 gastar	 dinheiro	 e	 de	 fazer	 viagens	 que	 não	 tinha	 como	 custear,
entre	 as	 quais	 uma	 com	 Letizia	 ao	 très	 chic 	 balneário	 de	 Bourbonne-les-
Bains,	onde	se	misturaram	à	ϐina	ϐlor	da	nobreza	—	sem	nada	lucrar	com
isso.	 A	 leitura	 das	 cartas	 patéticas	 de	 Carlo	 às	 autoridades	 francesas
reivindicando	 e	 implorando	 subsídios	 e	 pagamentos	 é	 deprimente.	 Ao
mesmo	 tempo,	 uma	 outra	 fonte	 de	 patrocínio	 retraiu-se:	 o	 conde	 de
Marbeuf	 ϐicou	 viúvo	 e,	 pouco	 depois,	 casou-se	 de	 novo	 em	 1783,
escolhendo	para	noiva	a	ϐilha	de	18	anos	de	uma	casa	de	alta	 linhagem.	O
conde	 continuou	 benevolente	 em	 relação	 aos	 Bonaparte,	 mas	 Carlo	 e
Letizia	tornaram-se	presenças	menos	freqüentes	em	suas	várias	casas.
O	 pior	 foi	 que,	 a	 essa	 altura,	 a	 saúde	 de	 Carlo	 deteriorou-se	 por
completo.	 Na	 virada	 de	 1784-85,	 quando	 as	 aulas	 de	 Napoleão	 na	 École
Militaire	já	haviam	começado,	o	pai	ouviu	dos	médicos	em	Montpellier	que
sua	doença	estomacal	era	terminal.	Em	face	da	morte,	o	cético	de	38	anos
apelou	 para	 o	 catolicismo	 de	 sua	 juventude.	 O	Napoleão	 de	 Santa	Helena
torna-se	 irônico	 ao	 avaliar	 o	 fervor	 tardio	 de	 Carlo:	 naquele	 momento,
“diante	da	morte,	não	havia	em	 toda	Montpellier	padres	 suϐicientes	 [para
apaziguá-lo]”.	 Na	 época,	 porém,	 seu	 ϐilho	 de	 15	 anos	 provou-se	 menos
insolente.	Numa	carta	ao	tio	Lucciano	escrita	logo	após	a	morte	do	pai,	ele
se	 refere	 cinco	 vezes	 à	 “vontade	 implacável”	 do	 “Ser	 Supremo”	 que	 “nos
priva	 do	 que	 nos	 é	 mais	 caro”.	 Nessa	 carta,	 apesar	 das	 expressões
estilizadas	 acrescentadas	 para	 satisfazer	 à	 direção	 da	 escola,	 que	 vigiava
toda	a	correspondência	dos	cadetes,	as	emoções	do	rapaz	soam	profundas,
ainda	 que	 castas;	 ele	 não	 esconde	 seu	 pesar	 por	 terem	 ele	 e	 a	 família
perdido	alguém	extremamente	importante.	A	carta	que	o	menino	escreveu
uma	 quinzena	 depois	 para	 Letizia,	 embora	 mais	 contida,	 também	 revela
estoicismo.	 Quando	 a	 École	 Royale	 Militaire	 prontiϐicou-se	 a	 lhe
proporcionar	os	serviços	de	um	padre,	em	seu	luto,	Napoleão	declinou.
Carlo	 Bonaparte	 morreu	 como	 vivera	—	 endividado	 até	 o	 pescoço.	 A
família	devia	a	médicos	e	boticários,	comerciantes	e	agentes	funerários,	e,	é
claro,	 às	 escolas	 de	 José,	 Luciano	 e	 Elisa.	 Foi	 nesse	 momento	 que	 o	 tio
Lucciano	 interveio	 e	 assumiu	 um	 importante	 papel	 na	 família	 Bonaparte.
Mas	 ela	 estava	 vivendo	 circunstâncias	 ϐinanceiras	 extremamente
apertadas	 e	 assim	 continuou	 até	 a	 morte	 do	 arquidiácono	 em	 1791,
quando	 herdou	 seu	 razoável	 patrimônio.	 Napoleão	 sobreviveu
exclusivamente	 de	 seu	 diminuto	 soldo	 de	 oϐicial	 (1.100	 francos	 por	 ano),
não	 pedindo	 nenhum	dinheiro	 à	mãe	 e	 tentando	 enviar	 algum	 para	 casa
quando	 podia.	 Apesar	 disso,