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PAULO AMARANTE LIVRO - autobiografia de um movimento

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CAPES 
Centro de Aperfeiçoamento do Ensino Superior 
Edital Memórias Brasileiras: Biografias 
 
 
 
RELATÓRIO DE PESQUISA 
 
Projeto Memória da Reforma Psiquiátrica no Brasil 
 
 
 
 
Rio de Janeiro, março de 2020 
 
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Equipe de pesquisa 
 
Paulo Duarte de Carvalho Amarante – coordenador 
Pesquisadores: 
Ana Paula Freitas Guljor 
Eduardo Henrique Guimarães Torre 
Edvaldo da Silva Nabuco 
Ernesto Andrade Aranha 
Leandra Brasil da Cruz 
Luciene de Jesus Nery 
 
Alunos da pós-graduação: 
Francisco de Abreu Franco Netto 
Letícia Paladino Rezende 
Melissa de Oliveira Pereira 
Rui Lima Júnior 
 
Estagiários 
Ana Clara Von Borell 
Guilherme Lima 
Matheus Moreno Folly 
 
*** 
 
 
Autobiografia de um movimento: quatro décadas de Reforma 
Psiquiátrica no Brasil (1976-2016) 
 
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Autobiografia de um movimento: quatro décadas de Reforma 
Psiquiátrica no Brasil (1976-2016) 
 
 
 
Apresentação – Paulo Amarante 
 
Introdução: 
Reforma Psiquiátrica como processo social complexo e a 
dimensão teórico-conceitual 
A dimensão teórico-conceitual ou epistemológica 
 A dimensão técnico-assistencial 
A dimensão jurídico-política 
A dimensão sociocultural: a produção de um novo lugar social 
para o sofrimento psíquico 
 
A “Indústria da Loucura” é denunciada! O nascimento da reforma 
psiquiátrica brasileira 
 
Anos 80: da crítica institucional à “institucionalização” da Reforma 
Psiquiátrica, a Constituição Cidadã, os novos serviços, as novas 
tendências, e o advento do projeto de lei antimanicomial 
 
Final dos anos 80, da crítica institucional às práticas 
desinstitucionalizantes: o surgimento dos novos serviços de atenção 
psicossocial 
 O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) 
O NAPS no contexto da Rede Substitutiva de Santos 
O projeto do NAPS no âmbito da proposta santista 
 
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Encerrando a década de 1980: a importância do Projeto de Lei da 
Reforma Psiquiátrica e o Movimento Social Por Uma Sociedade sem 
Manicômios 
 
A rede de atenção integral à saúde mental substitutiva ao manicômio 
no Município de São Paulo na virada dos anos 1980 para os 1990 
 
Anos 90 – A Declaração de Caracas e a Reforma Psiquiátrica na 
Região Latino-americana 
 
A expansão da noção e do significado de redes e dos serviços de 
atenção psicossocial 
 
Avanços, inovações e problemas na Reforma Psiquiátrica – Os anos 
2000 em diante 
 
Um novo marco político: a RAPS 
 
Saúde Mental na Atenção Básica: a desinstitucionalização radical? 
 
A dimensão sociocultural: a produção de um novo lugar social para 
a loucura e o sofrimento mental. 
 Participação e controle social: o Movimento Nacional da Luta 
Antimanicomial (MNLA) e o surgimento da Abrasme 
 Conselhos e Conferências de Saúde. Apesar da potência a 
irregularidade e fragilidade dos Conselhos a (des)continuidade das 
Conferências 
 As Conferências Nacionais de Saúde Mental. 
A dimensão sociocultural no trabalho, geração de renda e 
economia solidária 
Os projetos da Reforma Psiquiátrica passam a ser incorporados 
nas políticas públicas culturais 
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Considerações e comentários finais 
 Reforma Psiquiátrica: o protagonismo e a potência de um 
movimento social 
Novos sujeitos de direitos: avanços na dimensão jurídico-
política 
 Dimensão técnico-assistencial: mais cuidado e cidadania, 
mais direitos e autonomia 
 
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“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha 
perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um 
continente”. Simão Bacamarte em O Alienista, de Machado 
de Assis. 
 
 
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Autobiografia de um movimento: quatro décadas de Reforma 
Psiquiátrica no Brasil (1976-2016) 
 
 
Apresentação 
 
 Este livro só foi possível graças ao apoio financeiro da Centro de 
Aperfeiçoamento do Ensino Superior (CAPES), em decorrência do Edital 
Memórias Brasileiras: Biografias de 2013. E não apenas este livro, mas 
também os produtos que foram viabilizados a partir do apoio do edital. 
Alguns destes produtos são uma página na internet 
(www.ensp.fiocruz.br), que contém uma grande quantidade e variedade 
de documentos (leis, portarias, relatórios, atas, fotos, cartazes, folders, 
bótons¸ projetos, teses, dissertações, monografias, e muitos outros), um 
acervo de memória, com todos estes documentos. Graças a este apoio, a 
pesquisa identificou, catalogou, acondicionou, higienizou e criou as 
condições para a preservação de todo o material, que agora está sendo 
disponibilizado no site, mas que já se encontra aberto para consulta e 
pesquisa na sede do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde 
Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) da Escola Nacional de Saúde 
Pública Sergio Arouca (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde 
o projeto foi desenvolvido. Foram realizados ainda dois vídeos, um sobre 
a história da Reforma Psiquiátrica no Brasil e um sobre os 10 primeiros 
anos da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o mais recente 
ator deste processo, e um dos mais atuantes nos últimos anos da 
conjuntura que encerra o período coberto pela pesquisa. Outros vídeos, 
com entrevistas de importantes protagonistas do processo foram 
realizados e também estão integralmente disponibilizados no site. 
 Criar este projeto, desenvolve-lo e constituir um centro de 
pesquisas e documentação da história da psiquiatria e da Reforma 
Psiquiátrica é um sonho antigo meu, quase uma obsessão. Desde meus 
primeiros anos como estudante e médico psiquiatra eu me dediquei a 
estudar e a escrever sobre a história da psiquiatria, mais precisamente 
http://www.ensp.fiocruz.br/
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sobre a constituição histórica do saber e da prática e instituições 
psiquiátricas. Logo após minha formatura fui ser médico “bolsista” no 
Centro Psiquiátrico Pedro II (CPP II), da Divisão Nacional de Saúde Mental 
(DINSAM), no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. A 
expressão bolsista está entre aspas para destacar a condição de contrato 
precário que deu origem a um movimento de reivindicações trabalhistas 
que se somou a denúncias de violências, mal tratos e desassistência dos 
pacientes internados na instituição. Este movimento se estendeu para 
outras unidades da DINSAM, mais de 260 profissionais foram demitidos 
e, bem...! Daí em diante, a história foi relatada em “Loucos pela vida. A 
trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil” (AMARANTE et al, 1995), 
livro que escrevi com meus colaboradores de uma pesquisa sobre as 
origens da Reforma Psiquiátrica no Brasil se encarrega de registrar e 
analisar, e este texto, suponho, vai contribuir para entender alguns 
aspectos e detalhar outros mais. Num certo sentido poder-se-ia dizer que 
o presente texto é uma continuação do Loucos pela vida que cobriu um 
período histórico que vai desde o início do processo da Reforma 
Psiquiátrica em meados dos anos 1970, até meados dos anos 1990 
quando foi publicado. Apesar de ter este longo e fértil período excluído do 
texto, o livro permanece em catálogo, surpreendentemente, por 25 anos! 
Isto nos levou a crer que seria necessária esta espécie de atualização de 
dados e de análise dos anos 1990 até 2016, completando assim quatro 
décadas de história da Reforma Psiquiátrica no Brasil. 
 Na “crise da DINSAM” - como ficou conhecido este momento 
histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira- em diante, eu passei a 
recolher e a guardar, todos os documentos. Cartazes de convocação, 
panfletos, atas de reunião, moções... tudo! Além de guardar, eu mesmo 
os arquivava em espécies de dossiês, como denominam os especialistas 
em história e arquivologia. É como se eu considerasse que um dia 
poderiam ter algum valor histórico... 
 Alguns anos depois retornei ao CPP II, do qual havia sido demitido 
em 1978, a convite do Ministro da Saúde, Waldir