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Livro Eletrônico Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) Leonardo Ribas Tavares 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 2 AULA 02 AÇÃO PENAL E AÇÃO CIVIL EX DELICTO SUMÁRIO 1. Ação penal ......................................................................................................................... 5 1.1 Distinções prévias ....................................................................................................... 5 1.2 Conceito ........................................................................................................................ 6 1.2.1 Teorias da ação ..................................................................................................... 7 1.2.2 Conceito no processo penal .............................................................................. 10 1.3 Natureza jurídica das normas sobre ação penal................................................... 12 1.4 Características do direito de ação penal ................................................................ 14 Doutrina Complementar............................................................................................ 17 2. Condições da ação penal ............................................................................................... 20 2.1 Condições genéricas da ação penal ........................................................................ 25 2.1.1 Pela teoria geral do processo ............................................................................ 25 2.1.2 Justa causa ........................................................................................................... 37 2.1.3 Como categorias próprias do processo penal ................................................ 42 2.2 Condições específicas da ação penal ...................................................................... 43 Doutrina Complementar............................................................................................ 50 Jurisprudência pertinente .......................................................................................... 54 3. Classificação das ações penais ..................................................................................... 54 3.1 Classificação das ações penais de acordo com o processo penal ................... 55 Doutrina Complementar............................................................................................ 58 Jurisprudência pertinente .......................................................................................... 60 4. Princípios da ação penal ............................................................................................... 60 4.1 Princípio da obrigatoriedade da ação penal pública ........................................... 60 4.2 Princípio da oportunidade da ação penal de iniciativa privada ........................ 62 4.3 Princípio da indisponibilidade da ação penal pública ........................................ 63 4.4 Princípio da disponibilidade da ação penal de iniciativa privada .................... 64 4.5 Princípio da (in)divisibilidade da ação penal pública ......................................... 64 4.6 Princípio da indivisibilidade da ação penal de iniciativa privada .................... 65 4.7 Princípio da intranscendência ................................................................................. 66 4.8 Princípio da oficialidade .......................................................................................... 67 4.9 Princípio da autoritariedade ................................................................................... 68 Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 3 4.10 Princípio da oficiosidade ....................................................................................... 68 Doutrina Complementar............................................................................................ 68 Jurisprudência pertinente .......................................................................................... 72 5. Ação penal pública incondicionada ........................................................................... 73 Doutrina Complementar............................................................................................ 75 6. Ação penal pública condicionada ............................................................................... 76 6.1 Representação ............................................................................................................ 76 6.1.1 Forma e natureza jurídica ................................................................................. 77 6.1.2 Destinatário da representação.......................................................................... 79 6.1.3 Titularidade ou legitimidade para o oferecimento ....................................... 80 6.1.4 Prazo da representação ..................................................................................... 81 6.1.5 Retratação da representação............................................................................. 83 6.1.6 Extensão e eficácia ............................................................................................. 84 6.1.7 Retratação da representação na Lei Maria da Penha .................................... 84 6.2 Requisição .................................................................................................................. 85 Doutrina Complementar............................................................................................ 86 Jurisprudência pertinente .......................................................................................... 89 7. Ação penal privada ........................................................................................................ 90 7.1 Ação penal exclusivamente privada ...................................................................... 92 7.2 Ação penal privada personalíssima ....................................................................... 92 7.3 Ação penal privada subsidiária da pública .......................................................... 93 7.3.1 Atuação do Ministério Público ........................................................................ 94 7.4 Extinção da punibilidade e ação penal de iniciativa privada ............................. 94 7.4.1 Decadência .......................................................................................................... 94 7.4.2 Perempção ........................................................................................................... 96 7.4.3 Renúncia .............................................................................................................. 97 7.4.4 Perdão do ofendido ........................................................................................... 98 Doutrina Complementar............................................................................................ 99 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 102 8. Ação penal popular ...................................................................................................... 103 Doutrina Complementar.......................................................................................... 105 9. Ação penal adesiva ...................................................................................................... 105 Doutrina Complementar.......................................................................................... 106 10. Ação de prevenção penal .......................................................................................... 106 11. Ação penal secundária ..............................................................................................106 Doutrina Complementar.......................................................................................... 107 12. Ação penal nas várias espécies de crimes ............................................................. 107 12.1 Ação penal nos crimes contra a dignidade sexual ........................................... 107 12.1.1 Direito intertemporal ..................................................................................... 109 12.2 Ação penal nos crimes contra a honra de servidor público ........................... 110 12.3 Ação penal nos crimes de lesão corporal leve e culposa com violência doméstica...................................................................................................................................... 111 Doutrina Complementar.......................................................................................... 112 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 113 13. Peça acusatória ............................................................................................................ 115 13.1 Denúncia e queixa-crime ..................................................................................... 115 Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 4 13.2 Requisitos da peça acusatória ............................................................................. 115 13.2.1 Exposição do fato criminoso com todas as suas circunstâncias .............. 116 13.2.2 Qualificação do acusado ............................................................................... 117 13.2.3 Classificação do crime ................................................................................... 118 13.2.4 Rol de testemunhas ....................................................................................... 118 13.2.5 Endereçamento da peça acusatória ............................................................. 119 13.2.6 Redação na língua oficial .............................................................................. 119 13.2.7 Subscrição do Ministério Público ou do advogado do querelante ......... 119 13.2.8 Procuração da queixa-crime e custas processuais ..................................... 120 13.3 Prazo para oferecimento da peça acusatória .................................................... 121 Doutrina Complementar.......................................................................................... 122 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 125 14. Questões diversas ...................................................................................................... 127 14.1 Denúncia genérica e crimes societários ............................................................. 127 14.2 Cumulação de imputações .................................................................................. 128 14.3 Imputação implícita .............................................................................................. 129 14.4 Imputação alternativa .......................................................................................... 129 Doutrina Complementar.......................................................................................... 130 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 132 15. Aditamento à denúncia ............................................................................................. 134 15.1 Aditamento próprio e impróprio ....................................................................... 136 15.2 Aditamento espontâneo ou provocado ............................................................. 138 15.3 Recebimento do aditamento ................................................................................ 139 15.4 Interrupção da prescrição .................................................................................... 139 15.5 Recurso cabível no indeferimento ...................................................................... 140 15.6 Aditamento da queixa-crime .............................................................................. 141 Doutrina Complementar.......................................................................................... 143 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 146 16. Ação civil ex delicto ................................................................................................... 146 16.1 Definição e sistemas ............................................................................................. 146 16.2 Prejudicialidade - suspensão da ação civil ........................................................ 151 16.3 Legitimidade .......................................................................................................... 152 16.4 Eficácia preclusiva e força vinculatória ............................................................. 157 16.4.1 Em caso de condenação ................................................................................ 158 16.4.2 Em caso de absolvição ................................................................................... 167 Doutrina Complementar.......................................................................................... 175 Jurisprudência pertinente ........................................................................................ 179 17. Referências bibliográficas ........................................................................................ 180 18. Questões ...................................................................................................................... 183 18.1 Questões com comentários .................................................................................. 183 18.2 Questões sem comentários .................................................................................. 213 18.3 Gabarito .................................................................................................................. 222 19. Resumo ........................................................................................................................ 223 19.1 Ação penal ......................................................................................................... 223 19.2 Condições da ação penal .................................................................................. 223 Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 5 19.3 Classificação das ações penais ........................................................................ 224 19.4 Princípios da ação penal .................................................................................. 225 19.5 Ação penal pública incondicionada ............................................................... 225 19.6 Ação penal pública condicionada................................................................... 225 19.7 Ação Penal Privada ........................................................................................... 226 19.8 Ação penal popular .......................................................................................... 227 19.9 Ação penal adesiva ........................................................................................... 228 19.10 Ação de prevenção penal ............................................................................... 228 19.11 Ação penal secundária ................................................................................... 228 19.12 Ação penal nas várias espécies de crimes................................................... 228 19.13 Peça acusatória ................................................................................................ 228 19.14 Questões diversas ........................................................................................... 229 19.15 Aditamento à denúncia .................................................................................. 229 19.16 Ação Civil ex delicto ......................................................................................... 231 1. Ação penal 1.1 DISTINÇÕES PRÉVIAS Antes de falarmos de ação penal, convém trazer algumas concepções prévias, de forma breve, em relação a institutos entrelaçados no processo penal. Pois bem. Relação processual penal: “compreende o direito de ação do autor, o direito de defesa do réu e o poder do Estado de se impor a ambos” (Tornaghi, 1987). Jurisdição: CHIOVENDA define como “função do Estado que tem por escopo a atuação da vontade concreta da lei, por meio da substituição, pela atividade de órgãos públicos, da atividade de particulares ou de outros órgãos públicos, já no afirmar a existência da vontade da lei, já no torná-la praticamente efetiva” (Tornaghi, 1987). “Como poder jurídico, a jurisdição é manifestação da soberania do Estado e tem por contraposto o status subjetionis do indivíduo”. Corolário da organização jurídica das sociedades, aparece o poder do Estado de se reservar a solução dos conflitos juridicamente relevantes. Sem ele, a ordem jurídica não poderia subsistir. E o Estado não alcançaria prescindir dele sem se negar a si mesmo. Estado sem poder de resolver conflitos de interesses e de normas não preencheria a própria finalidade. Mas, além de necessária à conservação e aperfeiçoamento do Estado. A jurisdição, enquanto jurisdição penal, encontra ainda outro motivo para se reservar ao Estado; é o de que o delito produz sempre, em qualquer caso, um dano mediato ou imediato, a todos os consócios da comunhão civil que, dessarte, são parte no conflito (Tornaghi, 1987). JORGE DE FIGUEIREDO DIAS: O princípio do monopólio estatal da função jurisdicional constitui hoje um alicerce inatacável de todas as sociedades; o que não significa, no entanto, total exclusão da autodefesa, mas reconhecimento da sua admissibilidade só em casos muito excepcionais, rigorosamente delimitados pela lei e subordinados à ideia da impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais, para evitar a inutilização prática do direito (Dias, 1974). Punibilidade: na visão de HELENO CLÁUDIO FRAGOSO, seria a consequência jurídica correspondente à prática do crime. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 6 Crime é ação ou omissão típica, antijurídica e culpável. Como regra geral, em consequência, pratica crime, e deve sofrer a consequência jurídica correspondente, quem transgride a norma que lhe impõe proibição ou mandado, atuando ou omitindo-se de forma ilícita e reprovável. Há, todavia, casos em que a punibilidade depende de condições objetivas exteriores à conduta (condições objetivas de punibilidade) e casos em que ela se exclui tendo em vista condições pessoais do agente ou seu comportamento posterior (escusas absolutórias). Atende-se, em tais casos, à ocorrência de elementos ou circunstâncias exteriores ao fato que, por motivos de política criminal, condicionam sua ilicitude penal ou sua punição (Fragoso, 1993). “É a possibilidade jurídica de o Estado impor uma sanção penal ao responsável (autor, coautor ou partícipe) pela infração penal. Não é seu elemento, razão pela qual o crime e a contravenção permanecem íntegros com a superveniência da causa extintiva da punibilidade. Desaparece do mundo jurídico somente o poder punitivo estatal [...]” (Masson, 2014). Segundo DE PLÁCIDO E SILVA: Formado de punir, no concerto jurídico, assim se diz o direito de punir, isto é, o direito de aplicar a pena ao caso em espécie, inclusive o de impor o cumprimento de que é imposta pela condenação. Nesta razão, não ocorre a punibilidade quando não se mostra punível o ato praticado, ou a pena que lhe era imposta foi afastada. Assim, a punibilidade encerra sentido mais amplo que sanção penal, que se mostra a regra, onde se impõe a pena, pois que significa o direito de aplicar a pena e de exigir a efetividade dela ou o respectivo cumprimento. A punibilidade vai da efetividade da sanção penal à punição ou cumprimento da pena (Silva, 2005). Pretensão punitiva: segundo GUSTAVO HENRIQUE BADARÓ, seria o “poder do Estado de exigir de quem comete um delito a submissão à sanção penal”. Através da pretensão punitiva o Estado-Administração procura tornar efetivo o ius puniendi, com o exigir do autor do crime, que está obrigado a sujeitar-se à sanção penal, o cumprimento dessa obrigação, que consiste em sofrer o delinquente as consequências do crime e se concretiza no dever de abster-se ele de qualquer resistência contra os órgãos estatais a que cumpre executar a pena. Porém, tal pretensão não poderá ser voluntariamente resolvida sem um processo, não podendo o Estado impor a sanção penal, nem o infrator submeter-se à pena. Assim sendo, tal pretensão já nasce insatisfeita. (Correlação entre acusação e sentença. 2ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009. P. 68) (Lima, 2018). 1.2 CONCEITO Começamos aqui, neste ponto, tentando trazer a você a definição do que seja ação penal e direito de ação penal. Se, no Direito, normalmente já é difícil e controverso conceituar e atribuir natureza jurídica aos mais diversos institutos – aqui a dificuldade atravessa gerações. Já era assim ao tempo de JOSÉ FREDERICO MARQUES: Dizia SABATINI que a ação penal, pelas dificuldades e controvérsias que sugere, é tema verdadeiramente escabroso. E JOÃO MENDES JÚNIOR, tratando do problema da ação, teve de adentrar-se, como anotou COUTURE, nos domínios transcendentes da metafísica escolástica, tal a relevância e complexidade da matéria (Marques, 1997). De qualquer modo, vamos aqui fazê-lo compreender o direito de ação penal de uma forma mais simples e objetiva, observada a doutrina mais ortodoxa e dominante1. Por essa forma de pensar, concluímos que a definição de ação que temos lá da teoria geral do processo é, basicamente, a mesma aqui na área penal. Ao largo das controvérsias, como já dizia 1 Suficiente para você encarar as questões dos mais variados concursos públicos. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 7 TORNAGHI, referindo-se à ação, “uma coisa é certa: o conceito é o mesmo tanto no cível quanto no crime” (Tornaghi, 1977). E para ilustrar a concepção cível sobre o direito de ação, trazemos a lição de ninguém menos do que LUIZ GUILHERME MARINONI, para quem o direito de ação “pode ser utilizado conforme as necessidades funcionais dos direitos fundamentais”, em outras palavras, “os direitos fundamentais materiais dependem, em termos de efetividade, do direito de ação”. Nessa condição “o direito de ação é um direito fundamental processual, e não um direito fundamental material, como são os direitos de liberdade, à educação e ao meio ambiente. Portanto, ele pode ser dito o mais fundamental de todos os direitos, já que imprescindível à efetiva concreção de todos eles”. Para o mestre, “a ação é a contrapartida natural da proibição da tutela privada, ou seja, é o instrumento de que o particular passou a fazer uso diante da eliminação da ‘justiça de mão própria’”. O direito de ação aparece exatamente no momento em que o Estado proíbe a tutela privada ou o uso da força privada para a realização e a proteção dos direitos. A partir daí o Estado assume o monopólioda solução dos conflitos e da tutela dos direitos e, por conseqüência lógica, dá ao privado o direito de acudir a ele. Esse último direito, antes denominado de direito de agir e agora chamado de direito de ação, é a contrapartida da proibição da realização privada dos direitos e, portanto, é devido ao cidadão como um direito à proteção de todos e quaisquer direitos. Ou seja, é um direito fundamental não apenas à tutela dos direitos fundamentais, mas sim à proteção de todos os direitos [...] (Marinoni, 2006). 1.2.1 Teorias da ação Muitas teorias, ao longo da história, tentaram definir um conceito de ação. A maior parte delas já foi descartada, tendo apenas valor histórico. Para maior clareza no tema, importante que pontuemos algumas, as mais importantes. a) Teoria imanentista – a ação seria imanente (no sentido de inerente, inseparável) ao direito material; uma coisa estaria umbilicalmente relacionada à outra; sem direito material, fulminado estaria o próprio direito de ação. SAVIGNY consolidou a teoria imanentista (teoria civilista ou concepção clássica) em 1840. Foi a primeira teoria, no direito moderno, que tentou estabelecer o conceito de ação processual. Defendia a ideia de que para cada direito material era imanente uma ação, em analogia à concepção original dos romanos (legis actionis). O direito material era indissociável, não autônomo, ao direito de movimentar a jurisdição. A ação e o direito subjetivo material constituíam uma só coisa, eram sinônimos, quer dizer, não há ação sem direito e não há direito sem ação. Partia do conceito de ação dado pelo jurista romano Celso: Nihilaliud est actioquamius quod sibidebeatur, indiciumpersequendi (A ação nada mais é do que o direito de perseguir em juízo o que nos é devido). WINDSCHEID demonstrou que essa actio não correspondia à ação processual moderna. O conceito seria mais adequado à pretensão de tutela jurídica estatal. Existiam quatro condições da ação: existência do direito, qualidade de parte, capacidade processual e interesse. Chegou a ser adotada por GARSONNET, MATTIROLO, JOÃO MONTEIRO, JOÃO MENDES JÚNIOR, CLÓVIS BEVILÁQUA e CÂMARA LEAL. Na crítica mais central, essa teoria não consegue explicar, por exemplo, as ações que são propostas e, ao final, são improcedentes. Ora, se são improcedentes é porque o direito material não existia – não existindo este, como a ação pôde ser exercida? A famosa polêmica entre Windscheid e Muther levou à conclusão de que o direito de ação era outro, diferenciado do direito material, teria autonomia – seriam realidades distintas. Por volta de 1850, houve disputa entre os juristas alemães WINDSCHEID e MÜTHER no sentido de conceber, ou não, a ação como direito autônomo, distinto do direito material. BERNHARD WINDSCHEID publicou, em Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 8 1856, obra intitulada A ação do direito civil romano do ponto de vista do direito atual, em que demonstra que o conceito romano de actio não coincidia em absoluto com o conceito de ação (Klage) daquele direito germânico. THEODOR MÜTHER, em 1857, publica Sobre a teoria da actio romana, do moderno direito de queixa, da litiscontestação e da sucessão singular nas obrigações, em revide a WINDSCHEID. Ele procurou demonstrar que havia uma perfeita coincidência entre a actio romana e a Klage germânica. No mesmo ano, WINDSCHEID respondeu a MÜTHER na obra intitulada A actio réplica ao Dr. THEODOR MÜTHER, acolhendo muitas das ponderações de seu opositor. Duas correntes doutrinárias surgiram a partir daí, ambas baseadas na autonomia. b) Teoria da ação como direito autônomo e concreto – a ação estaria condicionada à existência do direito material; a ação seria um direito subjetivo, público e autônomo a uma decisão favorável. WACH (1860) acresceu à disputa a ideia de direito a uma sentença favorável: tem direito de ação quem tem razão, ou seja, direito de ação só existe se reconhecido concretamente em juízo. Nascia a teoria concreta da ação. Fundava-se a ideia de direito autônomo e público da ação. WACH dizia que ação é um direito público contra o Estado que deve garantir os direitos do autor contra o réu. Seguiram WACH, MÜTHER e HELLWIG. Alguns autores inserem CHIOVENDA, pois seu conceito de ação é idêntico ao de WACH, qual seja, ação é poder atribuído ao titular do direito subjetivo material. Esse titular invoca a proteção do Estado para tornar efetivo seu direito contra o obrigado. CHIOVENDA, assim como WACH, também tentou demonstrar a autonomia do direito de ação ao subordinar o direito de ação à existência de um direito para o autor. A existência do direito é pressuposto da ação. Devem concorrer, ainda, duas condições: legitimidade e interesse, sendo que o julgamento das condições da ação é o julgamento do mérito. A concepção é duramente criticada por não explicar o direito de ação declaratória negativa que visa reconhecer a inexistência de uma relação jurídica, esvaziando o conceito concreto de ação. OSKAR VON BÜLOW (1868) concebeu o processo como relação jurídica. Quanto à ação, posicionou-se como concretista, seguindo, pois, as teorias de MÜTHER e WACH. Doutrinava que a ação é o direito a uma sentença justa, mas só ocorre após a demanda. Anterior ao juízo, não existe. c) Teoria da ação como direito autônomo e abstrato – a ação estaria completamente desvinculada do direito material, configurada como o direito abstrato de buscar a tutela jurisdicional, não dependendo, por conseguinte, da existência do direito material. Coube a DEGENKOLB, na Alemanha, e PLÓSZ, na Hungria, em 1877, desenvolver a teoria da ação como direito público, eminentemente autônomo e abstrato. Conceberam, assim, a ação como direito incondicionado de movimentar a jurisdição, pouco importando o reconhecimento do direito material alegado. Essa teoria, abstrata da ação, define a ação como direito autônomo completamente desvinculado de qualquer direito subjetivo material. O direito à ação é abstrato porque outorgado pela ordem jurídica a quem invoca proteção jurisdicional. Ação é, assim, direito geral e abstrato a uma sentença favorável ou desfavorável. A partir de 1877, desvincula-se o direito de ação do direito subjetivo invocado e da análise de ser o direito material favorável ou não. Diferencia-se, de uma vez por todas, direito material de direito processual. A existência do direito material torna-se irrelevante para o direito de ação. Seguiram a concepção CARNELUTTI, COUTURE, ALFREDO ROCCO, ZANZUCCHI dentre outros. KÖHLER dizia que acionar é um direito individual decorrente da personalidade. Essa tese não vingou, por se adequar mais à Psicologia do que ao Direito, apesar de GOLDSCHMIDT ter suavizado a crítica ao referir-se ao conceito de ação como direito da personalidade. CHIOVENDA, em 1903, profere na Universidade de Bolonha conferência intitulada A ação no sistema dos direitos, concebendo a ação como "o poder de criar a condição para a atuação da vontade da lei". Integra, assim, a ação na categoria dos chamados direitos potestativos (poderes de produzir efeitos jurídicos determinados). Para CHIOVENDA, a ação é um poder puramente ideal, quer dizer, o poder de produzir determinados efeitos jurídicos (atuação da lei), mas ação é direito autônomo. Essa teoria da ação como direito potestativo é inserida no grupo da concepção concreta, pois a ação, para CHIOVENDA, não pressupõe necessariamente um direito subjetivo, mas só existe direito de ação quando a sentença é favorável ao autor. Ação é direito potestativo, de poder jurídico (kannRechte), a quem tem razão Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 9 contra quem não a tem. Não se propõe contra o Estado, mas contra o adversário, porqueo Estado é que tem interesse da escolha da razão; por isso provê juízes. A vitória na demanda seria uma condição da ação sendo ele o primeiro processualista a formular a teoria das condições da ação. Conceitua-as como condições necessárias para se obter um pronunciamento favorável. Para CHIOVENDA, as condições da ação são questões de mérito, por isso é considerado adepto à concepção concreta do direito de ação, que seria autônoma, mas que estaria sempre voltada à realização efetiva do direito substantivo da parte. De forma que não faz uma separação nítida entre as condições da ação e o mérito. Diz ele que os pressupostos processuais são "condições para a obtenção de um pronunciamento qualquer, favorável ou desfavorável, sobre a demanda". Já as condições da ação seriam "condições de uma decisão favorável ao autor". Para CHIOVENDA, pois, a falta de condição da ação leva à rejeição do pedido do autor produzindo sempre coisa julgada, como decisão de mérito. É dizer: o julgamento das condições da ação é o julgamento do mérito. As condições da ação são condições de mérito. Seguiram CHIOVENDA, WEISMANN, REDENTI, ELIÉZER ROSA, CELSO AGRÍCOLA BARBI. CALAMANDREI também seguiu CHIOVENDA. Para ele, a ação era direito subjetivo autônomo (existia por si mesmo). Daí dizer que havia um direito processual e outro material. CARNELUTTI definiu a ação como "o direito subjetivo processual das partes". Também dizia que o interesse individual do autor é diferente do interesse da ação. Aquele pretende a solução favorável do litígio; esse, a composição do litígio. CARNELUTTI é criticado por falar que a ação é contra o juiz, porque o juiz e o Estado não podem ser separados. Já EDUARDO COUTURE, jurista uruguaio, definiu a ação como "o poder jurídico que tem todo o sujeito de direito de recorrer aos órgãos jurisdicionais para reclamar deles a satisfação de uma pretensão". Seguindo a linha do tempo, UGO ROCCO define ação como "o direito de pretender a intervenção do Estado e a prestação da atividade jurisdicional, para a confirmação ou realização coativa dos interesses (materiais ou processuais) protegidos em abstrato pelas normas de direito subjetivo". ZANZUCCHI defende a teoria abstrata da ação, segundo a qual, além de ser um direito autônomo frente ao direito material controvertido - conceitualmente -, independe a ação da própria existência de tal direito subjetivo. Ele assume perante o problema das condições da ação posição bem diferente da de CHIOVENDA. Seu entendimento é que as condições da ação, os pressupostos processuais e o mérito da causa são categorias distintas. As condições da ação são "os requisitos do poder de agir" diante do caso concreto, a fim de alcançar o provimento final a que tende a ação. d) Teoria eclética – a ação existe ainda que o exercente não seja titular do direito material que afirma existir, mas ele terá de cumprir as condições da ação para que haja o exame do mérito. O direito só existirá se o autor preencher essas condições. LIEBMAN lança bases para a teoria eclética da ação. Para o processualista, ação é direito de provocar o exercício da função jurisdicional, direito subjetivo que consiste no poder de criar situação a que o exercício desta função está condicionado. É dirigida contra o Estado, a fim de que esse dê provimento jurisdicional. Para isso, a ação depende de requisitos constitutivos (as condições da ação). "Só se estiverem presentes essas condições é que se pode considerar existente a ação, surgindo para o juiz a necessidade de julgar o pedido, para acolhê- lo ou rejeitá-lo". O direito de ação é um agir contra o Estado, em sua condição de titular do poder jurisdicional, i.e., direito de ação é direito à jurisdição. Não há ação sem jurisdição e vice-versa. Nisso concordam também os adeptos da teoria abstrata. Para ENRICO TULLIO LIEBMAN, só há jurisdição quando ultrapassada a fase de averiguação prévia. Se há alguma condição prévia não presente para que o juiz possa decidir sobre o mérito da causa, a decisão que encerra o processo não é verdadeiramente jurisdicional e não haverá exercício de ação. O direito de ação é direito a sentença de mérito favorável ou não ao autor, sendo necessário as condições da ação que se apresentam como pré-requisitos à apreciação do mérito da causa. Na terceira edição de seu manual, retirou a possibilidade jurídica do pedido dentre as condições da ação, subsumindo-a ao interesse de agir. Paradoxalmente, o legislador brasileiro passou a adotar, naquele momento, a primeira posição do professor italiano, pelo art. 267, VI, do CPC. Com LIEBMAN, deu-se sentido próprio à expressão carência da ação, fazendo surgir a teoria do trinômio: pressupostos processuais, condições da ação e mérito da causa. É a teoria mais aceita. FAZZALARI faz a revisão do conceito de ação tomando como critério a legitimação para agir, que não pode ser atribuída apenas ao autor, mas se estende a todos os sujeitos do processo, o que é perfeitamente lógico, pois sem a legitimação para agir não se poderia compreender o fundamento jurídico de seus atos (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 10 A última corrente é majoritária e acolhida pelo Código de Processo Civil. Tem sido aprimorada por autores que sustentam, basicamente, que as condições da ação são requisitos para o legítimo exercício do direito que é assegurado na Constituição Federal. Por essa mais moderna concepção, a carência de ação está mais para um abuso do direito de ação do que para a inexistência desse mesmo direito. 1.2.2 Conceito no processo penal O direito de ação se caracteriza numa prerrogativa subjetiva e abstrata de invocar a tutela jurisdicional. Segundo a conclusão mais enxuta de HÉLIO TORNAGHI, na obra A relação processual penal, “a ação é o direito subjetivo público que tem qualquer pessoa de exigir do Estado a prestação jurisdicional” (Tornaghi, 1987). Nas diferentes palavras de vários mestres: JOSÉ FREDERICO MARQUES: A ação penal é o direito de agir exercido perante os juízes e tribunais da justiça criminal. [...] O direito de agir, em seu aspecto geral, é o direito à jurisdição. [...] Se o Estado deve atribuir justiça e tem para isso o aparelhamento judiciário adequado, aqueles que necessitem da atividade jurisdicional, para a resolução de situações contenciosas, devem ter o direito de levar à apreciação dos tribunais suas causas e litígios (JOSÉ ALBERTO DOS REIS). [...] A ação penal é o direito de invocar-se o Poder Judiciário para aplicar o direito penal objetivo; e, como dela se serve o Estado para tornar efetivo o seu ministério penal, a ação é também um momento da persecução criminal [...]. É o direito que tem o Estado-Administração, em face do Estado-juiz, ao julgamento sobre o mérito de uma pretensão punitiva regularmente deduzida na acusação (Marques, 1997). HÉLIO TONAGHI, afastando a ideia – calcada na linguagem imperativa dos artigos 24 e 42 do CPP – de que a ação penal seria um poder-dever, assevera: Mas cumpre não esquecer que o titular da ação pública é o Estado; o Ministério Público é apenas um órgão dele. O Estado tem, realmente, disponibilidade da ação. Isso fica manifesto ao considerar-se que ele pode (por seus órgãos competentes) conceder anistia e, desse modo, embora por via oblíqua, dispor do direito de ação. O dever de agir do Ministério Público existe perante o Estado, de que ele é órgão. Enquanto o Estado não dispuser de seu direito, é claro que o Ministério Público não tem como arrogar-se o poder de fazê-lo. Dizer que a ação pública não é um direito, apenas porque o Ministério Público dela não pode abrir mão, é o mesmo que afirmar: a propriedade privada, nos regimes capitalistas, não é um direito subjetivo porque dela não podem dispor os prepostos, gerentes, administradores ou empregadosdo proprietário. [...] mesmo no Direito italiano, o fato de o Ministério Público não poder motu proprio, arquivar o inquérito, não significa que o Estado não possa dispor da ação penal (que lá é sempre pública). O Estado, não o Ministério Público! O direito é daquele, não desse que é apenas seu órgão. Em outras palavras: o Estado abre mão de seu direito por via de um órgão e o exerce por meio de outro. Consequentemente, esse tem o dever de exercê-lo. Mas o fato de não lhe competir dispor do direito não significa que ele inexista, ou que não possa ser objeto de renúncia por via de outro órgão. [...] é insofismável que se trata de autêntico direito subjetivo. [...] No cível, como no crime, a ação é direito a uma decisão judicial (Tornaghi, 1977). MAGALHÃES NORONHA, referindo-se à ação penal: [...] é o direito do Estado-Administração de pedir ao Estado-Juiz a aplicação da lei. Como escreve CANUTO MENDES DE ALMEIDA: “O aparelho judiciário é, geralmente, inerte. Seu funcionamento depende de solicitação exterior; a jurisdição só se move mediante esse impulso. Essa solicitação ou impulso, que à lei incumbe determinar, é a ação: uma atividade de pessoas que querem ou que devem garantir pela coação do poder público a efetividade de um direito e que, nos termos legais, constitui condição do procedimento jurisdicional”. Conceituou-a JOÃO MENDES DE ALMEIDA JÚNIOR como “o direito de invocar a jurisdição do juiz; é um atributo do autor; é direito de requerer em juízo aquilo que é devido ao autor Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 11 [...]”. Em síntese, a ação, de que se cogita, é o direito de invocar-se o Poder Judiciário para aplicação do direito objetivo (Noronha, 1995). GUILHERME DE SOUZA NUCCI: É o direito do Estado-acusação ou do ofendido de ingressar em juízo, solicitando a prestação jurisdicional, representada pela aplicação das normas de direito penal ao caso concreto. Por meio da ação, tendo em vista a existência de uma infração penal precedente, o Estado consegue realizar a sua pretensão de punir o infrator. Trata-se do “poder jurídico de promover a atuação jurisdicional a fim de que o julgador se pronuncie acerca da punibilidade dos fatos que o titular da demanda reputa constitutivos do delito”. Na ótica de ROGÉRIO LAURIA TUCCI, ação é a “atuação correspondente ao exercício de um direito abstrato (em linha de princípio, até porque, com ela, se concretiza), autônomo, público, genérico e subjetivo, qual seja o direito à jurisdição”. Como bem anota JOÃO MENDES DE ALMEIDA JÚNIOR, “a ação é sempre um movimento e todo o movimento parte de um princípio e tende a um fim. Não há movimento infinito”. RENATO BRASILEIRO chama a atenção para a distinção entre o direito de ação com a ação, propriamente dita: “direito de ação é o direito de se exigir do Estado o exercício da jurisdição. Ação, todavia, é o ato jurídico, ou mesmo a iniciativa de se ir à justiça, em busca do direito, com efetiva prestação da tutela jurisdicional, funcionando como a forma de se provocar o Estado a prestar a tutela jurisdicional” (Lima, 2018). PAULO RANGEL recorre à etimologia para a conceituação: O vocábulo ação vem da expressão em latim actio, que significa agere, que, como nos informa ENRIQUE VÉSCOVI, “no direito primitivo o autor devia atuar, isto é, reproduzir mimicamente, perante o tribunal, o fato fundamental de sua reclamação” (Teoría general del proceso. 2. ed. Bogotá: Temis, 1999. p. 64; tradução nossa). Diante de todo o quadro acima exposto, podemos definir o direito de ação como sendo um direito subjetivo de se invocar do Estado a prestação jurisdicional, pois, havendo o Estado monopolizado a administração da Justiça, deve dar a cada um o que lhe é devido. [...] Na medida em que o Estado proibiu o fazer justiça pelas próprias mãos (cf. art. 345 do CP), assumindo, por inteiro, o monopólio da Justiça, mister se faz dar ao cidadão um instrumento para que ele possa reclamar o que é seu. Este é o direito de ação (Rangel, 2018). AURY LOPES JÚNIOR, assim define: Concebemos a “ação” como um poder político constitucional de acudir aos tribunais para formular a pretensão acusatória. É um direito (potestativo) constitucionalmente assegurado de invocar e postular a satisfação da pretensão acusatória. [...] a ação processual penal é um direito potestativo de acusar, público, autônomo e abstrato, mas conexo instrumentalmente ao caso penal (Júnior, 2018). PACELLI e FISCHER bem arrematam: Do ponto de vista processual, a ação é o ato de ir a juízo, submetendo ao Poder Judiciário uma dada pretensão, qualquer que seja ela. Uma vez que a tarefa de dizer o direito é atribuída aos órgãos do Estado, integrantes do Poder Judiciário, que, para isso, exercem a chamada função jurisdicional (de jurisdição), devem esses órgãos se manifestar sobre os pedidos a eles apresentados pelos jurisdicionados. E de tal dever resulta uma obrigação, qual seja a de prestar jurisdição, ou, da prestação jurisdicional. Note-se que a expressão “prestação” tem precisamente a finalidade de revelar uma obrigação, de tal maneira que, com ela, se consiga chegar sem maiores dificuldades à ideia de uma relação jurídica, na qual uma parte, o autor, pode exigir do Estado (Poder Judiciário) um pronunciamento sobre determinada questão. Nessa ordem de ideias, o autor exerceria um direito de ação em face do Estado, que, por sua vez, seria devedor de uma prestação jurisdicional. Por seu turno, o réu de uma ação se encontraria em uma posição de submissão (à ação), no sentido de que não lhe seria cabível recusar a ação contra si proposta. Nesse aspecto, se, em direito ação jurisdição Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 12 relação ao Estado (Poder Judiciário), o autor da ação exerce direito, exigindo-lhe a obrigação da jurisdição devida, já em relação ao réu, a natureza dessa ação assemelha-se mais a um verdadeiro exercício de poder, ao qual este (réu) se acha submetido, já que não se lhe faculta a opção de ser ou não acionado. No fim das contas, no que se refere ao exame da questão sob a perspectiva da chamada Teoria Geral do Processo, adequada ao processo civil mas não ao processo penal (exceção feita à ação penal privada), aquele que se julga em condições de exigir de outra pessoa um comportamento, uma omissão, ou ainda uma prestação de outra natureza, tem o direito de provocar a atuação do Poder Judiciário – direito de ação – que, por seu turno, deve necessariamente se manifestar sobre a pretensão deduzida, ainda que seja para repeli-la integralmente. Sob essa perspectiva, a ação é um direito subjetivo público, exercido contra o Estado, abstrato, porque independe da procedência ou não da pretensão. Esta é a concepção acolhida pela grande maioria da doutrina nacional (Pacelli, et al., 2018). Podemos encontrar a base normativa para o direito de ação na Constituição Federal, art. 5º: XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito; Compreenda-se, por essa norma, que todos nós temos o direito, quando nos sentirmos lesados e usurpados em nossas prerrogativas e garantias, de levarmos ao Poder Judiciário essas questões para ‘apreciação’ (não necessariamente, portanto, ‘procedência’). Nenhuma lei pode excluir esse nosso direito – princípio da inafastabilidade da jurisdição ou cláusula de acesso à justiça. 1.3 NATUREZA JURÍDICA DAS NORMAS SOBRE AÇÃO PENAL Além dessa previsão constitucional, nossos códigos também têm disposições que disciplinam a ação penal. O Código Penal faz isso nos artigos 100 a 106, ao passo que o Código de Processo Penal regulamenta o instituto nos artigos 24 a 62. Interessante notar, portanto, que a ação está prevista emambos os Código, o que pode traduzir a seguinte dúvida: estamos diante de um instituto jurídico de direito processual (adjetivo) ou material (substantivo)? A dúvida é relevante, com respostas que geram consequências na interpretação das normas (como sabemos). Na visão de FREDERICO MARQUES, a ação penal é “um instituto de processo, e não de direito material. [...] se insere no processo e está subordinada à mesma regulamentação normativa que disciplina atos processuais, isto é, ao direito processual. O titular da ação tem por isso mesmo, um direito subjetivo de caráter processual” (Marques, 1997). No mesmo sentido caminha PAULO RANGEL: Não temos dúvida em afirmar que a norma que trata e regula o direito de ação é norma puramente processual. O direito é previsto em norma material (cf. art. 5º, XXXV, da Constituição Federal), porém a disciplina e a regulamentação deste direito encontram-se no direito processual. Hodiernamente, a autonomia do direito processual é plenamente reconhecida, pois foi o tempo em que o direito processual era um complemento do direito material. O fato de a ação estar prevista tanto no CP como no CPP (cf. arts. 100 do CP e 24 do CPP) não pode levar o intérprete a pensar em uma natureza mista. Não. Pois, na medida em que demonstramos a autonomia e a abstração do direito de agir, inclusive que este direito preexiste à prática do delito, claro nos parece que a natureza da norma é, exclusivamente, processual. Aliás, já se disse, alhures, que o caráter processual da norma “se infere não da sua localização – que constitui um dado de identificação importante, mas, certamente, não vinculante –, e, sim, do objeto, do seu conteúdo, da sua finalidade” (cf. TOURINHO FILHO. Processo penal. 18. ed. v. I, p. 299). A identificação dessa natureza não é mero deleite doutrinário, pois, à medida que tratarmos da Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 13 representação na ação penal pública condicionada, teremos que enfrentar a retroatividade ou não do art. 88 da Lei no 9.099/1995 [...]. Portanto, o “processo é uma garantia outorgada pela Constituição da República à efetivação do direito (subjetivo material e público) à jurisdição, ou seja, à tutela jurisdicional do Estado” que somente pode ser exercida através da ação, que, por sua vez, independe da existência do direito material violado ou ameaçado de violação. Neste caso, sua natureza processual é patente (TUCCI, Rogério Lauria. Teoria do direito processual penal: jurisdição, ação e processo penal – estudo sistemático. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 202). MAGALHÃES NORONHA diz que “a ação, como direito, encontra sua sede própria no Código Penal; o de Processo regula o exercício desse direito. Essa razão por que ambos os estatutos se ocupam da ação”. TORNAGHI assim explica: No que respeita à colocação das normas sobre ação penal, as legislações se dividem em dois grupos: - o primeiro segue o modelo francês que trata do assunto exclusivamente na lei de processo: a princípio no Code d’Instruction Criminelle, de 1808, e, atualmente, no Code de Procédure Pénale, de 1957; - o segundo afasta- se desse modelo e contém regras sobre a ação penal na lei substantiva e na processual. É o seguido no Brasil e entendo que o mais correto; - ação é um direito objetivo como outro qualquer. Da mesma forma que o Código Civil disciplina o nascimento, as transformações e a extinção dos direitos civis (p. ex., propriedade, crédito, direitos sobre coisas alheias etc.), assim também cabe ao Código Penal regular o aparecimento, as vicissitudes e a morte do direito de ação. É matéria de Direito substantivo a titularidade do direito, sua constituição, seu perecimento; - ao contrário dos demais direitos, entretanto, o de ação somente pode ser exercido em juízo, no processo. Consequentemente são de Direito Processual as normas sobre o exercício do direito de ação; - observe-se que os códigos civis contêm sempre inúmeros preceitos sobre o direito de ação, exatamente aqueles que respeitam à titularidade, à constituição, às transformações e à perda do direito subjetivo de ação (Tornaghi, 1977). BRASILEIRO defende a natureza mista: “não obstante sua previsão no CPP, como a ação penal tem estreita relação com o direito de punir do Estado, não deixa de ter também caráter penal”. Referido autor ainda exemplifica algumas consequências concretas da distinção, que merecem transcrição: A constatação de sua natureza mista tem extrema importância quando nos deparamos com as recentes leis que introduziram modificações quanto às espécies de ação penal. Basta ver, nessa linha, o exemplo da Lei nº 12.015/09, que transformou os crimes sexuais, pelo menos em regra, em crimes de ação penal pública condicionada à representação (CP, art. 225, caput). Fosse o direito de ação considerado de natureza estritamente processual, aplicar-se-ia o art. 2º do CPP, com a regra do princípio da aplicação imediata. Porém, a partir do momento em que se constatam os reflexos que o exercício do direito de ação produz em relação ao ius puniendi, não se pode deixar de aplicar a regra da irretroatividade da lei mais gravosa, ou da retroatividade da lei mais benéfica. Exemplificando, se determinado crime era de ação penal pública incondicionada e passa a ser de ação penal de iniciativa privada, forçoso é concluir que se trata de lex mitior. Afinal, a partir do momento em que determinado crime passa a ser de ação penal de iniciativa privada, maior será a possibilidade de incidência de causas extintivas da punibilidade, como a decadência, a renúncia, o perdão e a perempção. Por outro lado, se determinado delito era de ação penal de iniciativa privada e uma lei nova o transforma em crime de ação penal pública condicionada à representação – veja-se o exemplo da Lei nº 12.033/09, que alterou a natureza da ação penal do crime de injúria racial, antes de ação penal de iniciativa privada, hoje de ação penal pública condicionada à representação – cuida-se de evidente novatio legis in pejus, não podendo retroagir. De fato, a partir do momento em que o crime passa a ser de ação penal pública condicionada à representação, não serão mais cabíveis a renúncia, o perdão e a perempção como causas extintivas da AÇÃO mista processualmaterial Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 14 punibilidade, subsistindo apenas a possibilidade de decadência do direito de representação. Evidente, portanto, tratar-se de lei nova prejudicial ao acusado, logo, irretroativa (Lima, 2018). 1.4 CARACTERÍSTICAS DO DIREITO DE AÇÃO PENAL A doutrina costuma trazer algumas características da ação penal ou do direito de ação. Embora procuremos separar uma de outra, elas estão muito relacionadas. Vejamos: a) Direito público: a atividade que se invoca com o seu exercício é pública (jurisdição); mais que isso, o seu titular é o Estado e “mesmo nas hipóteses em que o Estado transfere ao ofendido a possibilidade de ingressar em juízo (v.g. em regra, nos crimes contra a honra), tal ação continua sendo um direito público, razão pela qual se utilizada expressão ação penal de iniciativa privada – vide exemplo do art. 100, §§ 2º e 3º, do Código Penal” (Lima, 2018). Lembremos, ainda, que é um “direito de agir exercido perante juízes e tribunais da justiça criminal” (Marques, 1997), de maneira que, por todos ângulos que analisemos o instituto, sua natureza pública é evidente. b) Direito subjetivo: “o titular do direito de ação penal pode exigir do Estado-Juiz a prestação jurisdicional, relacionada a um caso concreto” (Lima, 2018). “A ação é, pois, um direito subjetivo (posto que inerente a cada indivíduo)” (Pacelli, et al., 2018). c) Direito autônomo e abstrato:“não se confunde com o direito material que se pretende tutelar” (Lima, 2018). Direito material é uma coisa e direito de ação é outra! Façamos uma indagação para retratar mais concretamente a diferença: ação penal e pretensão punitiva/direito de punir (jus puniendi) são a mesma coisa? NÃO; “a ação penal não surge do crime e basta a suspeita de ter sido praticada uma infração para que ela tenha cabimento. O que nasce do crime é a pretensão punitiva” (Tornaghi, 1977). Do crime não nasce a ação penal. Esta, “como um dos momentos da persecução ao crime, precede ao delito, é a este anterior. O que decorre do crime é a pretensão punitiva. O direito de agir para pôr em movimento os órgãos de jurisdição penal, o Ministério Público o possui em abstrato, pela só razão de não ser auto- executável o direito de punir” (Marques, 1997). Enquanto no processo civil, a pretensão, traduzida no desejo de subordinação de um interesse alheio ao próprio, diz respeito, em regra, a questões econômicas, patrimoniais, ou, de todo modo, que permitam a individualização do interesse do autor (mesmo nas ações civis coletivas e/ou difusas o interesse pode ser individualizado), no processo penal a pretensão, do ponto de vista processual, isto é, da solução judicial requerida, é punitiva (Pacelli, et al., 2018). BRASILEIRO destaca que “no processo penal costuma-se trabalhar com o que se convenciona chamar de pretensão punitiva, que significa a pretensão de imposição da sanção penal ao autor do fato tido por delituoso. Pretensão, por sua vez, deve ser compreendida como a exigência de subordinação do interesse alheio ao próprio”. PACELLI e FISCHER têm uma visão diferenciada sobre o ‘direito’ de punir, encarando- o, em verdade, como um poder-dever: Jus puniendi?: Vistas assim as coisas, não há como acolher secular doutrina no sentido da existência de um jus puniendi, ou, no vernáculo, de um direito de punir. Ora, todo Estado politicamente organizado reivindica a si o exercício de uma soberania legiferante, no sentido de reservar-se competência e poderes para a regulamentação da vida social e coletiva. Dentro dessa competência é que se encontraria também a Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 15 competência legislativa penal, de alta complexidade, porquanto submetida a princípios constitucionais específicos (vedação de excesso, como proibição da insignificância ou da bagatela; legalidade, e, em consequência, anterioridade da lei penal, legalidade estrita, não só como exigência de lei para a incriminação, mas de lei com descrição taxativa da matéria proibida etc.). Então, o que se pode afirmar é a existência de um poder de incriminação ou de criminalização de condutas, desde que destinada à proteção contra graves violações aos direitos fundamentais (tutela da vida, da integridade física e psíquica, das liberdades pessoais – sexual, de locomoção, de religião, de opinião, da fé pública, da Administração Pública, do Erário etc.). Trata-se de poder, consectário da manifestação da soberania estatal em relação à ordem jurídica interna. No plano da ação penal, portanto, o seu exercício implica atuação por dever de aplicação da lei penal e não por direito de punição (Pacelli, et al., 2018). De qualquer modo, não há se confundir o direito de ação com o direito material. Do crime nasce a pretensão punitiva estatal (direito material), mas não o direito de ação (direito processual), que preexiste à prática da infração penal, aliás, como demonstra o direito constitucional (art. 5º, XXXV, CF). É justamente a pretensão (tender à atuação de um direito) de punir do Estado que fará movimentar a ação penal (Nucci, 2018). Como diz AURY LOPES JÚNIOR, “a ação é um direito dos que têm razão e também dos que não a têm. Haverá ação ainda que, ao final, o réu seja absolvido” (Júnior, 2018). JOSÉ FREDERICO MARQUES, didaticamente, assim consolida: Não se confunde assim, a ação penal com o direito punitivo material do Estado, da mesma forma que se apresentam distintos os direitos subjetivos privados e a ação civil. Depois que a doutrina da ação, em consequência de laboriosas e fecundas especulações técnico-jurídicas, separou o direito de agir do direito subjetivo material, aceito ficou que o jus actionis é autônomo e independente. Quem propõe em juízo uma causa, onde é pleiteado o pagamento de uma dívida, está exercendo o direito de ação; mas, se julgado improcedente o pedido, por inexistir o crédito reclamado, houve o exercício do jus actionis, apesar de declarado inexistente o direito subjetivo material consubstanciado no crédito litigioso. É o que também acontece no processo penal, porque mesmo que proposta a ação penal, pode a sentença declarar que não houve crime; e então, apesar de faltar o jus puniendi, nem por isso deixou de existir a ação penal, que foi plenamente exercida. Infere-se dessas considerações que a ação, antes de mais nada, é um direito abstrato que investe seu titular da faculdade de invocar o poder público, por meio de seus órgãos judiciários, para aplicar a norma legal objetiva e solucionar um litígio de interesses em conflito. Este é o primeiro aspecto do direito de ação, e que, como diz LIEBMAN, se projeta em cheio no campo do Direito Constitucional, como um dos direitos fundamentais do indivíduo. JELLINEK, por isso, conceituava a ação como um direito subjetivo público, emanado do status civitatis, exercido contra o Estado para exigir deste uma prestação jurisdicional. O conceito de ação como direito abstrato de agir, depois de ter ganho os domínios do processo civil, é também hoje o entendimento vitorioso no processo penal, abraçando-o, dentre outros, os nomes insignes de ERNEST V. BELLING, F. GRISPIGNI, G. LEONE e ALCALÁ-ZAMORA (Marques, 1997). Mais que pertinente, novamente, a lição de TORNAGHI, inclusive com gráfico de sua autoria: Conclusão. Do ligeiro escorço apresentado, vê-se logo que a ação está longe de ser mero aspecto do direito ou mesmo outro direito decorrente da lesão do primeiro. Os exemplos da ação declaratória e da ação em que o autor sucumbe por improcedência do pedido estão a mostrar que pode haver ação sem que haja qualquer direito ferido ou ignorado. Em outras palavras: evidenciam a autonomia do direito de ação, sua existência independente, per se. E, por outro lado, a evolução sofrida pelo conceito, mercê da organização judiciária do Estado, demonstra que a ação é movida pelo autor contra o Estado, que ela é o direito subjetivo público de exigir do Estado que faça justiça, e, pois, não é relação entre autor e réu (a antiga ação direta), mas, exclusivamente, relação entre autor e Estado. [...] Ao contrário, sendo o direito de ação pertinente ao particular, sendo direito pré-processual, existe pelo simples fato de o Estado proibir a justiça privada e de se impor o dever de justiça pública. Neste sentido é que se deve realmente entender o caráter abstrato do direito de ação [...]. De tudo quanto foi dito se infere: a ação é o direito subjetivo Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 16 público que tem qualquer pessoa de exigir do Estado a prestação jurisdicional. Essa definição convém a todos os tipos de ação. No arcabouço da relação processual, a ação ocupa somente um dos lados: aquele que liga autor e Estado (juiz), por um direito do primeiro e um dever do segundo. Paralelo a esse direito, mas em sentido oposto, figura o poder jurisdicional do Estado, a que o autor está sujeito (status subiectionis). Mas a relação é angular. O outro lado do ângulo é também formado por dois vetores paralelos e em sentido oposto: o direito de defesa do réu e o poder jurisdicional do Estado sobre ele. d) Direito instrumental: na medidaem que a ação serve de meio para se alcançar uma finalidade – a aplicação do direto material ao caso concreto (jurisdição). A ação, disse-o LIEBMAN, é um direito ao meio, e não um direito ao fim. Se a ação penal fosse um direito concreto à condenação, não haveria o jus actionis, se absolvido o réu [...]. A ação penal é o instrumento de aplicação do direito penal objetivo, no tocante a uma situação concreta consubstanciada na pretensão punitiva. A ação penal não é consequência dessa pretensão, e sim o instrumento ou meio para que os órgãos jurisdicionais profiram uma decisão sobre a acusação formulada em juízo (Marques, 1997). e) Direito conexo: no sentido de estar relacionado a uma pretensão de direito material. No campo da Justiça criminal, esse nexo se estabelece entra a ação penal e a pretensão punitiva, sem embargo de não depender o direito de agir do direito de punir. [...] é “um direito subjetivo instrumentalmente conexo a uma situação concreta”. O direito de agir está coordenado a uma pretensão punitiva, que, em juízo, é deduzida por meio da acusação, a qual se torna, assim, o objeto da ação penal (Marques, 1997). BRASILEIRO fala em direito determinado e direito específico em relação a essa última característica2. Aliás, referido autor, com propriedade, destaca que a concepção clássica de CARNELUTTI quanto à lide (conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida) deve ser evitada no processo penal. Em primeiro lugar, porque não haveria um conflito de interesses, já que o interesse na preservação da liberdade individual também é um interesse público, uma vez que interessa ao Estado, na mesma medida, a condenação do culpado e a tutela da liberdade do inocente. No processo penal, o Estado pretende apenas 2 Talvez não sejam as melhores definições para as características. Para não haver confusão, melhor a didática de JOSÉ FREDERICO MARQUES. d ir e it o d e a çã o público subjetivo autônomo e abstrato instrumental conexo Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 17 a correta aplicação da lei penal. Ademais, mesmo que o imputado esteja de acordo com a imposição da pena, com o que não haveria qualquer resistência de sua parte ao pedido condenatório, ainda assim a defesa técnica será indispensável no processo penal, valendo lembrar ser inviável a aplicação de pena sem a existência de processo em que sejam assegurados o contraditório e a ampla defesa (nulla poena sine judicio) (Lima, 2018). Doutrina Complementar GUSTAVO BADARÓ (Processo penal, 3ª ed., São Paulo – RT, 2017): O direito de ação previsto na Constituição (art. 5.º, XXXV) não assegura apenas o mero direito de ingresso em juízo. Na verdade, assegura o direito à efetiva e adequada tutela jurisdicional. O direito de ação não corresponde somente ao ato inicial de demandar (ingresso em juízo), compreendendo também o exercício de direitos, poderes e faculdades ao longo de todo o desenvolvimento do processo (direito de ação analítico), para se obter um provimento de mérito (direito de ação liebmaniano), conferindo uma adequada tutela jurisdicional (direito à tutela jurisdicional). As teorias sobre o direito de ação podem ser agrupadas em três grandes classes: as teorias imanentistas do direito de ação, as teorias (autonomistas) concretas do direito de ação e as teorias (também autonomistas) abstratas do direito de ação, com destaque, nestas, para a teoria de LIEBMAN. Para as teorias imanentistas, não há autonomia do direito de ação em relação ao direito subjetivo material reclamado em juízo. [...] A principal crítica a tais teorias é que os processos com sentenças de improcedência (o autor não tem o direito alegado) seriam processos sem ação! Também na tutela meramente declaratória negativa, em que o autor pede que seja declarada a inexistência de uma relação jurídica (por exemplo, declarar a nulidade de um contrato), a procedência significa a inexistência do direito material, o que significaria que no caso também não havia o direito de ação. [...] Para as teorias autonomistas, o direito de ação (processual) não se confunde com o direito subjetivo (material) debatido no processo. Todavia, trata-se de teorias concretas do direito de ação, dado que este somente existe se, no caso posto em julgamento concretamente também existir o direito material. [...] O máximo grau de separação entre o direito de ação (processual) e o direito material é atingido pelas teorias abstratas do direito de ação. O direito de ação não se confunde com direito subjetivo (material) debatido no processo. A ação é um direito abstrato, posto que existe abstração feita da própria existência do direito material debatido. Desenvolvidas na Alemanha por DEGENKOLB e na Hungria por PLÓSZ, as teorias abstratas defendem que o direito de ação independe da efetiva existência do direito material invocado. Há direito de ação mesmo que o processo tenha terminado com uma sentença de improcedência (contrária ao direito do autor), ou com uma sentença injusta (concede direito a quem realmente não o tem), ou, ainda, com uma sentença que não julgue o mérito (sentença terminativa). Outra característica de tais teorias é que o direito de ação é movido contra o Estado, pois ele tem o poder-dever de exercer a jurisdição. [...] A teoria de LIEBMAN não deixa de ser uma teoria abstrata do direito de ação, posto que há o direito de ação, mesmo quando o provimento jurisdicional não é favorável ao autor. O direito de ação não é o direito a uma sentença favorável, mas o direito ao julgamento do mérito. Para LIEBMAN, o direito de ação é um direito público subjetivo, instrumentalmente conexo a uma pretensão material. O direito de ação é o direito a uma sentença de mérito, favorável ou desfavorável ao autor. A “conexão com a pretensão material” é representada pelas condições da ação: possibilidade jurídica do pedido, legitimidade de partes e interesse de agir. O direito de ação é abstrato, mas se liga ao direito material. Os críticos da teoria de Liebman afirmam que ela não deixa de ser uma teoria concreta do direito de ação, na medida em que a existência da ação depende de que haja as condições da ação, e, portanto, elementos do direito material debatido. Com isso, estaria sujeita a todas as críticas anteriormente formuladas. Todavia, as críticas não se sustentam. A teoria de LIEBMAN não deixa de ser uma teoria abstrata da ação, posto que a existência do direito de ação independe da existência do direito material debatido em juízo. No caso de uma sentença de mérito de improcedência, terá existido o direito de ação, embora não haja o direito material. Tal postura é incompatível com as teorias concretas, não permitindo a inclusão da teoria liebmaniana entre as concretistas. Por outro lado, a principal vantagem de tal teoria foi ter buscado um ponto de equilíbrio entre as teorias concretas e abstratas da ação: o direito de ação não é só o direito de ingresso em juízo, mas também não é um direito que existe somente no caso de uma sentença de procedência. O direito de ação está presente em qualquer sentença de mérito, favorável ou desfavorável”. WARLEY BELO (As Condições da Ação Penal e o Julgamento de Mérito Abusivo, artigo: www.editoramagister.com/doutrina): “Ação é o bater à porta do Poder Judiciário. É o direito de invocar, de pedir a tutela jurisdicional. O Estado chamou para si a tarefa de administrar a Justiça através do Poder Judiciário ficando impossibilitados, os particulares, de auto-executarem seus direitos, salvo os casos em que a lei permita Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 18 a autodefesa. Dessa forma, da violação danorma penal nasce a pretensão punitiva do Estado (ius puniendi), que se opõe à pretensão de liberdade (ius libertatis) do possível infrator. A pretensão punitiva, por sua vez, só pode ser atendida mediante a sentença judicial, que só é alcançável validamente por intermédio do processo (nulla poena sine judicio). O processo é sempre indispensável; é dogma do Estado Democrático de Direito. E o direito de pedir o provimento jurisdicional é a própria ação. O Estado, portanto, por intermédio do órgão do MP ou de particular (ação penal condenatória de iniciativa privada), exerce a ação a fim de ativar a jurisdição penal. Dessa forma, a ação provoca a jurisdição que se exercita por meio do processo, importante alicerce do Estado Democrático de Direito. [...] Ação vem de actio, do verbo latino agere, significando, processualmente, ação judicial. Na linguagem forense, empregou-se agere, no sentido de pleitear. É, pois, o direito de provocar o Poder Judiciário a uma decisão sobre relação de direito. Diz-se da ação penal quando visa a aplicação da lei penal, assim entendida em sua inteireza de imposição de pena ao delinquente, prova do delito, acusação do autor de infração penal, busca pela verdade do fato considerado delituoso. Ação é faculdade ou dever (no caso das ações penais públicas) e meio próprio que tem toda pessoa capaz, com interesse e legitimidade de exercitar em juízo um direito subjetivo de que é titular. É meio legal de reivindicar ou defender em juízo um direito subjetivo pretendido, ameaçado ou violado ou simples interesse. É o direito de invocar o Poder Judiciário. Diz- se que ela é pública, mesmo a ação penal condenatória de iniciativa privada, pois o que se faz valer é o direito de punir do Estado (ius puniendi) e não o direito de ação (ius accusationis). Caracteriza-se por ser indivisível, pois abrange todos os que participaram do delito, e indisponível, visto que o órgão do MP não pode desistir da ação iniciada e as partes não podem transacionar sobre o objeto do processo ou fixar e delimitar o objeto de acordo com seus interesses pessoais, como ocorre no processo civil. A ação é dirigida apenas contra o Estado (tanto na esfera civil como na penal), embora, uma vez apreciada pelo juiz, vá ter efeitos na esfera jurídica de outra pessoa: o réu ou o executado. Nega-se, portanto, que ela seja exercida contra o adversário isoladamente, contra esse e o Estado ao mesmo tempo, ou contra a pessoa física do juiz. Modernamente, há uma tendência a considerar como ação penal uma série de pedidos feitos em juízo penal e que não têm caráter condenatório, como a prisão preventiva, a homologação de sentença estrangeira, a fiança, o habeas corpus, a revisão criminal etc. Por isso, utilizamos sempre a expressão ação penal condenatória, porque existem ações penais não condenatórias”. PAULO RANGEL (Direito processual penal, 26ª ed., São Paulo: Atlas, 2018): “Acerca da teoria que logrou êxito em conceber a natureza jurídica do direito de ação penal, expõe o autor: “Por último, foram Degenkolb e Plòsz que identificaram a verdadeira natureza da ação como a de um direito abstrato, ou seja, um direito que serve de instrumento para se exigir do Estado a prestação jurisdicional, independentemente da existência ou não do direito material que irá se discutir em juízo. A ação é um direito autônomo. Não está ligado a outro, não decorre de outro e pode conceber-se como abstração de qualquer outro. Para eles, a ação é a razão de ser do processo, pouco importando que o autor tenha ou não tenha razão. Assim, à luz da teoria abstrata, o direito de ação pertence mesmo àqueles que não possuem o direito material que irá se discutir em juízo. Pois o réu pode obter a improcedência do pedido, mas não pode impedir o ingresso em juízo do autor. O direito de ação existe por si só”. Sobre o conceito desse direito, sustenta: “(...) podemos definir o direito de ação como sendo um direito subjetivo de se invocar do Estado a prestação jurisdicional, pois, havendo o Estado monopolizado a administração da Justiça, deve dar a cada um o que lhe é devido”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Assim, aquele que promover a acusação, para obter guarida à sua pretensão punitiva, será obrigado a provocar a manifestação do órgão encarregado do exercício da jurisdição (em regra, o Poder Judiciário). Dessa forma, o direito de ação constitui o direito (ou poder) que tem o acusador de, dirigindo um pedido ao Poder Judiciário, provocar sua manifestação sobre esse pedido”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016), acerca do conceito e natureza do direito de ação, sintetiza a discussão doutrinária a esse respeito: “A doutrina diverge ao conceituar o direito de ação: “São, basicamente, duas as correntes: 1) a primeira entende, como nós, que a ação é direito público subjetivo, conexo a uma pretensão. A ação penal é direito que tem natureza jurídica híbrida, mista ou eclética, ou seja, é de natureza preponderantemente processual, mas tem também, natureza de direito material, haja vista que o não exercício da ação, notadamente aquelas de iniciativa privada ou mesmo de ação penal pública condicionada à representação, tem repercussão na esfera punitiva do estado. Em outras palavras, a inatividade do particular para deflagrar a persecução penal no prazo legal é prevista em lei como causa extintiva da punibilidade. De outro lado, as alterações legislativas que repercutem na iniciativa da ação penal pública nem sempre são aplicadas nos termos do art. 2º, do CPP, que preconiza o princípio do tempus regit actum (que Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 19 determina que a lei processual penal tem aplicabilidade imediata para incidir sobre os fatos vindouros). Em alguns casos, visualizando-se possibilidade de tratamento mais gravoso para o imputado (acusado ou indiciado), deve ser invocado o princípio da irretroatividade da lex gravior ou irretroatividade em prejuízo do réu. A título de exemplo, temos as modificações introduzidas pela Lei nº 12.015/2009, no capítulo do Código Penal que trata dos delitos contra a dignidade sexual. No caso, as hipóteses de ação penal privada exclusiva foram alteradas para, em regra, crimes de ação penal pública condicionada à representação. Como a primeira espécie de ação penal (privada) enseja maiores chances ao acusado de ser beneficiado com causas extintivas de punibilidade (especialmente, perempção por abandono da causa), devemos concluir que a nova lei só se aplica aos fatos cometidos em período compreendido pela sua vigência, mesmo no ponto referente à iniciativa da ação penal (instituto processual e material). 2) a segunda posição sustenta que ação não é direito. O Direito subjetivo existente é o direito à tutela jurisdicional ou mesmo o direito de petição. A ação processual seria simplesmente conduta ou o agir em juízo, coisa diversa de direito. A ação seria então a expressão dinâmica de um direito subjetivo público que lhe prece e no qual se lastreia. [...] A ação teria, sob essa perspectiva, natureza só processual”. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “É o direito de pedir ao Estado-Juiz a aplicação do direito penal objetivo a um caso concreto. É também o direito público subjetivo do Estado- Administração, único titular do poder-dever de punir, de pleitear ao Estado-Juiz a aplicação do direito penal objetivo, com a consequente satisfação da pretensão punitiva”. PAULO RANGEL (Direito processual penal, 26ª ed., São Paulo: Atlas, 2018): “A ação é, pois, um direito subjetivo (posto que inerente a cada indivíduo), autônomo (pois não se confunde com o direito subjetivo material, que irá se deduzir em juízo), abstrato (pois independe de o autor ter ou não razão ao final doprocesso), instrumental (serve de meio para se alcançar um fim que é o acertamento do caso penal, através do processo) e público (porque se dirige contra o Estado e em face do réu)”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016): “As características atinentes ao direito de ação levam ao reconhecimento de que este é: a) autônomo: não se confunde com o direito material. Tem força e brilho próprio. O direito de ação é preexistente à pretensão punitiva do Estado, que surge com a ocorrência da infração penal. b) abstrato: independe do resultado do processo. Mesmo que a demanda seja julgada improcedente, o direito de ação terá sido exercido. c) subjetivo: o titular do direito é especificado na própria legislação, sendo como regra o Ministério Público (art. 257, inc. I do CPP) e excepcionalmente a própria vítima ou seu representante legal. d) público: a atividade provocada é de natureza pública, sendo a ação exercida contra o próprio Estado. e) instrumental: é o meio para se alcançar a efetividade do direito material”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017): “Como principais características do direito de ação, é possível apontar tratar-se de: (1) um direito público, visto que a prestação jurisdicional perseguida é atividade de natureza pública, exercida pelo Poder Judiciário, que é órgão público; (2) um direito subjetivo, pois qualquer pessoa pode formular sua pretensão em juízo e reclamar do Estado a correspondente prestação jurisdicional; (3) um direito autônomo, pois o direito de movimentar a máquina jurisdicional do Estado não se confunde com o direito material cuja tutela o autor da ação busca alcançar; (4) um direito abstrato, na exata medida em que preexiste à prática da infração e não guarda vinculação com o resultado do processo (procedente ou não a ação; acolhida ou não a pretensão exposta em juízo, o direito de ação foi exercitado) (...)”. [...] O autor, ainda, complementa: “Verificado o fato ensejador do ajuizamento da ação, é possível falar, ainda, tratar-se de (1) um direito determinado, porquanto indissociável de um caso concreto, e por isso (2) específico, delimitado pelo mesmo fato”. AURY LOPES JR. (Direito processual penal, 15ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “(...) toda ação processual tem caráter público, porque se estabelece entre o particular e o Estado, para realização do direito penal que é público. É autônomo e abstrato, pois independe da relação jurídica de direito material. Contudo, no processo penal, não se admite a plena abstração, pois, para a acusação ser exercida e admitida, dando início ao processo, é imprescindível que fique demonstrado o fumus commissi delicti”. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 20 2. Condições da ação penal Como já se viu, o direito de ação não é um instituto exclusivo do processo penal. Foi a doutrina do processo civil que elaborou o conceito de condições da ação. Conceito que, em muitas situações, vai revelar impropriedades e inconsistências na seara criminal (e isso não é culpa do intérprete). Por isso mesmo, é comum divergência doutrinária na caracterização dessas condições nas mais variadas hipóteses legais e na casuística. Numa mesma situação concreta, por exemplo, há quem diga que uma acusação deve ser rejeitada por falta de uma específica condição da ação, enquanto outros a encaixam em outra ou, até mesmo, a entendem como hipótese de mérito que deve ser analisada como motivo de absolvição sumária (art. 397 do CPP) ou em sentença. Os códigos são diversos e os processos civil e penal têm premissas diferenciadas; não é de estranhar essas impropriedades e inconsistências. O estudo das condições da ação penal, não obstante isso, revela importância. O próprio Código de Processo Penal sempre fez referência a elas: primeiro no inciso III do art. 43 (estabelecia a rejeição da denúncia quando for manifesta a ilegitimidade da parte ou faltar condição exigida pela lei para o exercício da ação penal); agora, com o advento da Lei 11.718/2008, no artigo 395: Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; Não podemos, portanto, nos eximir de enfrentar o assunto condições da ação. Pois bem. “Para os que seguem a teoria do direito concreto da ação (WEISSMAN e CHIOVENDA) elas seriam condições de existência do direito de ação. Para os que se filiam à corrente do direito abstrato de agir3, elas são condições do exercício regular do direito de ação” (Tornaghi, 1977). No mesmo sentido e, mais recentemente, PAULO RANGEL: [...] adotando a teoria do direito abstrato, estas condições são para o regular exercício do direito de agir e não para a sua existência, pois, independentemente de estarem presentes, o direito de ação existe. Ele lhes é anterior. Assim, a colocação correta é de que as condições não são da ação e, sim, para o seu regular exercício, pois, independentemente de existirem (as condições), o autor tem o direito de ação. Portanto, se nos filiarmos, conforme o fizemos, à teoria do direito abstrato, diremos que as condições são para o regular exercício do direito de agir. Porém, se nos filiarmos à teoria do direito concreto, elas serão condições de existência deste direito. Entendemos que elas são condições para o regular exercício do direito de agir (Rangel, 2018). Para LIEBMAN, que tanto influiu na formação dos processualistas brasileiros, “a ação é direito abstrato e contra o Estado, ligado pela causa petendi a uma situação objetiva e declarada pelo autor”. O exercício desse direito depende da ocorrência das condições da ação. É direito cívico, genérico, de ir a juízo. É direito meramente instrumental. Para LIEBMAN, não é o fato de o autor ter razão que lhe dá o direito de agir; a razão do autor apenas torna a ação fundada (em minha opinião nem isso acontece: o que torna a ação fundada é a circunstância de a lei conceder a ação. O fato de o autor ter razão torna o pedido fundado, procedente; não a ação) (Tornaghi, 1987). Na lição de FREDERICO MARQUES: 3 Nosso CPP parece seguir essa linha ao referir “condição para o exercício da ação penal” no art. 395, II. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 21 O direito de ação, embora autônomo e abstrato, está conexo, instrumentalmente, a uma pretensão, pelo que se liga a uma situação jurídica concreta sobre a qual deve incidir a prestação jurisdicional invocada. Por esse motivo, o jus actionis subordina-se a condições que se relacionam com a pretensão a ser julgada. Chamam-se condições da ação os elementos e requisitos necessários para que o juiz decida do mérito da pretensão, aplicando o direito objetivo a uma situação contenciosa. As condições da ação nada tem a ver com as condições de decisão favorável ao autor; e também não se confundem com os denominados pressupostos processuais. Antes de decidir do mérito, para julgar procedente ou improcedente a pretensão, o juiz examina se o processo está regular e se estão atendidos os pressupostos da relação processual. Em seguida passa a examinar, se regular o processo, as condições do direito de ação. A falta de pressupostos processuais torna inadmissível o julgamento do mérito, o mesmo sucedendo com a ausência de condições da ação. No primeiro caso, nula está a relação processual, e no segundo é o autor carecedor do direito de ação. Admissível que seja o julgamento de mérito, por existentes as condições da ação, nem por isso a pretensão necessita ser julgada procedente. Uma vez que deve proferir decisão de meritis, o juiz passará a examinar da espécie, a fimde aplicar a norma jurídica cabível, para resolver da procedência ou improcedência do pedido do autor. Uma coisa, portanto, é o julgamento das condições da ação (actionen esse fundatam) e outra a decisão do pedido (actionem esse probatam) (Marques, 1997). GUILHERME DE SOUZA NUCCI diz que condições da ação: [...] são os requisitos exigidos pela lei para que o órgão acusatório, por meio da ação penal, obtenha do Poder Judiciário uma análise da imputação formulada na denúncia ou na queixa, proferindo decisão de mérito, acolhendo ou rechaçando a pretensão punitiva estatal. [...] O conteúdo da denúncia ou queixa [...] é uma imputação, ou seja, a atribuição a alguém da prática de um crime ou contravenção. Para que o juiz possa colher provas e decidir acerca da imputação – se correta ou incorreta, verdadeira ou falsa – torna-se indispensável que analise, previamente, os requisitos para o ajuizamento da ação penal” (Nucci, 2018). TORNAGHI diz que “importa não confundir essas ‘condições’, que são os requisitos para o exercício regular, legítimo, do direito de ação, com os pressupostos processuais, que dizem respeito ao processo e não à ação. E muito menos com os fundamentos do Direito Substantivo (razões) em que o autor baseia seu pedido” (Tornaghi, 1987). O direito de invocar o Poder Judiciário exige a presença de condições, requisitos para a existência não abusiva e de efetivo exercício da ação penal. "É como a situação de quem embarcasse em trem, sem bilhete de passagem. Depois de algum percurso, verifica-se que ele não tem direito ao transporte, nem meios de adquiri-lo. É posto para fora da composição. Não consegue a finalidade com que entrou no carro". [...] o primeiro processualista a formular a teoria das condições da ação foi CHIOVENDA. Conceituava-as como condições necessárias para se obter um pronunciamento favorável. Para CHIOVENDA, as condições da ação são questões de mérito (concepção concreta). Tal posicionamento é, coloquemos assim, vencido atualmente pela concepção abstrata. Tal constatação é de suma importância para diferenciarmos as consequências, limites e fundamentos da carência da ação. Somente quando presentes as condições da ação é que se pode dizer que existe ação tecnicamente regular, surgindo para o juiz a obrigação de julgar o pedido procedente ou não. As condições da ação no processo penal são três: possibilidade jurídica da acusação, interesse de agir e legitimação para agir (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). BRASILEIRO bem lembra que o Código de Processo Civil “consagrou expressamente a concepção eclética sobre o direito de ação, segundo a qual o direito de ação é o direito ao julgamento do mérito da causa – é irrelevante se favorável ou desfavorável –, que fica condicionado ao preenchimento de certas condições, aferíveis à luz da relação jurídica material deduzida em juízo. São as chamadas condições da ação, desenvolvidas na obra do processualista italiano ENRICO TULLIO LIEBMAM”. Pela teoria eclética a existência do direito de ação não depende da existência do direito substantivo, mas sim do preenchimento de certos requisitos formais chamados de condições da ação. “Segundo essa concepção, as condições da ação não se confundem com o mérito, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 22 ainda que sejam aferidas à luz da relação jurídica de direito material discutida no processo, sendo analisadas preliminarmente e, quando ausentes, geram uma sentença terminativa de carência de ação” (Lima, 2018), nos termos do Código de Processo Civil: Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: [...] VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual; Em isso ocorrendo, não haverá coisa julgada material, o que permite que a demanda seja renovada, nos termos da lei processual civil: Art. 486. O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não obsta a que a parte proponha de novo a ação. § 1o No caso de extinção em razão de litispendência e nos casos dos incisos I, IV, VI e VII do art. 485, a propositura da nova ação depende da correção do vício que levou à sentença sem resolução do mérito. Por outro lado, quando presentes as condições da ação haverá julgamento do mérito, oportunidade em que o juiz poderá acolher ou rejeitar o pedido do autor. Dentro dessa teoria eclética, as condições da ação refletem matéria de ordem pública, por isso não precluem. A qualquer momento do processo, e com qualquer grau de cognição, “o juiz deve extinguir o processo sem resolução de mérito por carência de ação se entender ausente uma das condições da ação” (Lima, 2018), nos termos do art. 485 do Código de Processo Civil: § 3º O juiz conhecerá de ofício da matéria constante dos incisos IV, V, VI e IX, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito em julgado. Mais recentemente surgiu no processo civil a teoria da asserção (in statu assertionis), também denominada de teoria dela prospettazione, segundo a qual “a presença das condições da ação deve ser analisada pelo juiz com base nos elementos fornecidos pelo próprio autor em sua petição inicial, que devem ser tomados por verdadeiros, sem nenhum desenvolvimento cognitivo”. Assim deve ser feito inclusive para diferenciar condições da ação de questões de mérito. “As condições da ação exercem, pois, uma clara função de filtro processual” (Lima, 2018). Veja-se, mais uma vez, a pertinente lição de WARLEY BELO: A aferição das condições da ação deve ser feita antes do recebimento. Após o recebimento, não é possível declarar o autor carecedor de ação. Poderá ocorrer, no caso, nulidade (art. 564, II, III, a, do CPP) ou se chegar ao mérito (art. 386 do CPP). Na decisão preliminar de recebimento, contrariando CHIOVENDA, não é possível fazer paralelos ao exame do mérito. A chamada teoria da asserção relaciona as condições da ação com a profundidade da cognição. No exame preliminar (quando do recebimento) não há uma análise aprofundada, mas tão-somente superficial, de modo que as condições da ação resultam da simples alegação do autor (ut si vera sint exposita). Todas as condições da ação devem, assim, ser averiguadas. Mas como? Como saber se há possibilidade jurídica da acusação? Como saber da legitimação ad causam ou do interesse de agir? Simplesmente observando o que afirmou o autor. O juiz deverá aceitar, provisoriamente, as afirmações do autor. A cognição sumária, portanto, não deve se confundir com o exame do mérito. Esse sim, necessariamente de cognição aprofundada no processo de conhecimento. Se, prima facie, se observa a inviabilidade da pretensão do autor, não se tratará de julgamento de mérito, mas da falta, v.g., de uma das condições da ação, tratar-se-á de carência. Se presentes essas condições, nesse juízo de prelibação, só então estará autorizado, o juiz, a decidir o mérito, ou seja, se o pedido é procedente ou improcedente. E se o juiz tiver dúvidas sobre uma das condições? Simplesmente deverá receber a peça vestibular (in dubio pro societate). É que qualquer necessidade de cognição não-sumária indica a exigência de instrução, e isso se traduz em análise do mérito. Se há exigência de averiguação mais aprofundada é caso de recebimento. Daí podemos concluir que as condições da ação sempre serão analisadas em tese. Ou seja, se há possibilidade jurídica em tese, legitimação para agir em tese, interesse de agir em tese. Deve-se analisar, sempre, a Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 23 probabilidade positiva de veracidade das alegações do autor. Certo é que a ausência de qualquer uma das condições induz à carência de ação, mas se averiguado no recebimento. Após, só se poderá tratar de declaraçãode nulidade absoluta ou exame de mérito abusivo (ou não, caso adentre no mérito observando a ausência referente à condição). Após o recebimento, não há possibilidade de se considerar o autor carecedor da ação. Na primeira oportunidade concedida ao réu após o recebimento, qual seja a defesa prévia, a inépcia da ação deverá ser alegada pelo réu, pois o seu silêncio acarreta preclusão, evidenciado sua capacidade de se defender. Nesse caso, há a possibilidade de se considerar inepta a ação penal após o recebimento, mas somente até a primeira fala do réu. Após a apresentação da defesa prévia, não existirá consequência jurídica, salvo se demonstrada a nulidade absoluta. Já com a carência da ação é diferente. Uma vez recebida a ação penal, não há mais como considerar a carência, tecnicamente. Nem se o réu a alegar na defesa prévia. Após o recebimento, o instituto carência é impossível de ocorrer. A carência, tecnicamente, só pode existir até o recebimento da ação penal. É dizer que, presente a carência da ação, deve, o juiz, obrigatoriamente, não receber a ação penal. Se a receber, todavia, não poderá no curso do processo ou em sentença apontar a sua existência sob essa alcunha, senão apontar nulidade ou enfrentar o mérito. E por que no recebimento é que o juiz deverá declarar o autor carente? É porque é esse o momento procedimental para se averiguar as condições da ação. A falta das condições da ação não impede - de maneira absoluta - o julgamento do mérito, pois, como já dissemos, poderá haver uma ação penal abusiva (ou seja, sem alguma condição da ação), e nesse caso poderá haver o julgamento do mérito - também abusivo (porque a ação não possuía uma das condições da ação). Não é verdade que existe a possibilidade legal de revisão dos processos findos de sentença "contrária ao texto expresso da lei"? Decorrência desses pensamentos é que a carência da ação nunca será, tecnicamente, fundamento para a sentença. BUZAID põe as condições da ação como questões preliminares. São preliminares ao exame do mérito, porque são condições da admissibilidade do provimento sobre a demanda, ou seja, como condições essenciais para o exercício não abusivo da função jurisdicional em face do caso concreto. Haverá, sim, exercício da ação. Poderá haver julgamento, e de mérito, mas poderá ser abusivo se as condições não estiverem presentes. Essas condições referem-se ao exercício regular (não à existência) da ação penal. Não se confundem com os pressupostos processuais, que dizem conta - aqui, sim - da existência do processo e da validade da relação processual. Por isso mesmo, ausente uma das condições da ação, é possível ao autor (outrora carecedor) renovar o pedido. Portanto, os julgamentos sobre os pressupostos processuais, sobre as condições da ação e sobre o pedido (mérito) não se confundem. O juiz, ao receber a ação penal, deve observar, na ordem, os pressupostos processuais, após as condições da ação, e, ao final, o mérito. Faltando os pressupostos processuais ou as condições da ação penal ou havendo julgamento de mérito abusivo, estar-se-á contrariando a lei processual e a Carta Magna. Haverá abuso e ilegalidade do poder- dever jurisdicional nessa persecutio criminis (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). O Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça acolheram a teoria da asserção, como se pode ver dos seguintes acórdãos: Ementa: [...] 4. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM. A legitimidade para a causa, segundo a teoria da asserção adotada pelo ordenamento jurídico brasileiro para a verificação das condições da ação, é aferida conforme as afirmações feitas pelo autor na inicial. No caso, depreende-se do acórdão que a ré foi indicada pelo autor para figurar no polo passivo da ação, em razão de ser considerada devedora do crédito pleiteado nestes autos, do que resulta sua legitimidade passiva ad causam. (ARE 713211 AgR, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 11/06/2013, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-121 DIVULG 24-06-2013 PUBLIC 25-06-2013) CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. [...] QUESTÃO PREJUDICIAL. EXTINÇÃO DO PROCESSO COM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. ART. 269, I, DO CPC/73. [...] 2. Cinge-se a controvérsia a definir se a primeira recorrente possuiria legitimidade para se insurgir contra a arrecadação de imóvel procedida em processo falimentar, tendo em vista a declaração de nulidade do título de sua propriedade sobre esse bem. 3. As condições da ação são averiguadas de acordo com a teoria da asserção, razão pela qual, para que se reconheça a legitimidade ativa, os argumentos aduzidos na inicial devem possibilitar a inferência, em um exame puramente abstrato, de que o autor pode ser o titular da relação jurídica exposta ao juízo. 4. Se, com o aprofundamento da instrução probatória, for constatado que o autor não é o titular da relação jurídica deduzida na lide, o processo deverá ser extinto com a resolução do mérito, nos termos do art. 269, I, do CPC/73, pois o juiz, nessa hipótese, deverá rejeitar o pedido do autor. (REsp 1605470/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/11/2016, DJe 01/12/2016) Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 24 CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. CAUSA DE PEDIR. [...] TEORIA DA ASSERÇÃO. RECURSO DESPROVIDO. [...] 2. As condições da ação, incluídos o interesse de agir e a possibilidade jurídica do pedido, são aferidas à luz das afirmações deduzidas pelo autor da demanda na petição inicial, com a aplicação da denominada "Teoria da Asserção". 3. No caso concreto, os pedidos formulados na petição inicial não revelam, a partir das alegações autorais e em um exame puramente abstrato, falta de interesse de agir ou impossibilidade jurídica. (REsp 1314946/SP, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 09/08/2016, DJe 09/09/2016) Essa ideia erigida pela teoria da asserção não é completamente nova. Vejamos o que TORNAGHI ensinava, com exemplo do processo penal, sobre ‘o exame das condições da ação pelo juiz’: Ao apreciar as condições da ação, o juiz deve partir da suposição de que o alegado pelo autor é verdadeiro (ut si vera sint exposita). A questão que elas suscitam nada tem que ver com o mérito. Assim, por exemplo, equivocar-se-ia quem pensasse que só é parte legítima quem tem o direito que quer ver protegido. Parte legítima é aquela a quem a lei concede o direito de ação pressupondo a veracidade dos fatos alegados. Quem se considera e se afirma difamado é parte legítima para mover ação penal por difamação. Se realmente, em concreto, a difamação existiu é matéria de mérito, diversa da referente à condição para ser autor em ação penal. A condição da ação se relaciona com a premissa maior do silogismo judicial (todo aquele que se reputa difamado é parte legítima para mover a ação penal); o mérito concerne à premissa menor (Tício foi realmente difamado). Continuando no exemplo da legitimidade de parte: o juiz, para dizer se as partes são legítimas, deve raciocinar assim: na hipótese de serem verdadeiros os fatos alegados pelas partes, é a elas que a lei concede legitimidade para, respectivamente, propor ou contestar a ação? Para decidir sobre as condições da ação, portanto, o juiz toma como ponto de partida questões de Direito: suposta a veracidade dos fatos argüidos pelo autor, é a esse que a lei dá ação? Tem ele interesse processual? Há possibilidade jurídica? Para dizer se a norma invocada vigora ou não, se é excluída por outra, se os fatos narrados estão nela configurados, o juiz não precisa da prova dos fatos. Exatamente o oposto, como se verá adiante, acontece na apreciação do mérito, para a qual é necessário em primeiro lugar resolver a questão de fato, questão de prova, para depois decidir a de Direito, a da aplicação da lei ao fato provado. (Tornaghi, 1987). RENATO BRASILEIRO,é muito feliz ao trazer situações e exemplos: Se o juiz constatar a ausência de uma condição da ação mediante uma cognição sumária, deverá extinguir o processo sem resolução do mérito por carência de ação (art. 485, VI, do novo CPC); se houver necessidade de uma cognição mais aprofundada para a análise da presença das condições da ação, a carência de ação passa a ser analisada como mérito, gerando uma sentença de rejeição do pedido do autor (art. 487, I, do novo CPC), com formação de coisa julgada formal e material. Num exemplo tradicionalmente citado pela doutrina processual penal, supondo que, ao final do processo, reconheça o juiz que a denúncia fora oferecida em face de acusado inocente, entende-se que, ao invés de reconhecer sua ilegitimidade passiva ad causam, extinguindo o processo sem a apreciação do mérito, incumbe ao magistrado proferir sentença absolutória, com enfrentamento do mérito, hipótese em que a decisão fará coisa julgada formal e material. Outro exemplo interessante diz respeito à ausência de justa causa, pelo menos para aqueles que a consideram como espécie de condição da ação penal. Verificada sua ausência por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória, incumbe ao magistrado rejeitá-la, nos termos do art. 395, III, do CPP, hipótese em que a decisão fará apenas coisa julgada formal. Logo, surgindo novos elementos probatórios, nova peça acusatória poderá ser oferecida, enquanto não extinta a punibilidade. Todavia, iniciado o processo, não se pode admitir que o próprio juiz que recebeu a denúncia determine sua extinção sem apreciação do mérito por ausência de justa causa. Nesse caso, ao final do processo, cabe ao juiz proferir sentença de mérito, absolvendo o acusado com fundamento no art. 386, incisos I, II, IV, V, VI, ou VII, hipótese em que a decisão estará protegida pelo manto da coisa julgada formal e material. Em sede processual penal, a presença dessas condições da ação deve ser analisada por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória. A denúncia ou queixa deve ser rejeitada pelo magistrado quando faltar condição para o exercício da ação penal (CPP, art. 395, II). Se, no entanto, isso não ocorrer por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória, é perfeitamente possível o reconhecimento de nulidade absoluta do processo, em qualquer instância, com fundamento no art. 564, inciso II, do CPP — o dispositivo refere-se apenas à ilegitimidade de parte, mas, por analogia, também pode ser aplicado às demais condições Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 25 da ação penal. Há quem entenda que também seria possível a extinção do processo sem julgamento do mérito, aplicando-se, por analogia, o disposto no art. 485, VI, do NCPC. (Lima, 2018). Pois bem. No processo penal as condições da ação são divididas: condições genéricas - aquelas que deverão estar presentes em toda e qualquer ação penal; condições específicas/de procedibilidade4 – pontuais em relação a determinadas infrações penais, considerando a natureza do crime ou a pessoa do acusado. Quanto às condições genéricas da ação penal, grande parte da doutrina entende que são aplicáveis ao processo penal as mesmas condições da ação tradicionalmente trabalhadas pelo processo civil – à luz da sistemática do novo Código de Processo Civil, legitimidade e interesse de agir –, sendo que há controvérsias quanto à verdadeira natureza jurídica da justa causa. Outra corrente (minoritária) entende que, diante da necessidade de se respeitar as categorias jurídicas próprias do processo penal, as condições genéricas da ação penal devem ser buscadas dentro do próprio processo penal: prática de fato aparentemente criminoso, punibilidade concreta, legitimidade de parte e justa causa (Lima, 2018). Repare-se que a controvérsia se estabelece diante de lacuna legal. Nosso Código de Processo Penal, embora fale em condições para o exercício da ação penal, não explicita quais são elas. Isso, aliado ao fato de não termos uma ‘teoria geral do processo’ construída e pensada para a área criminal, leva à indefinição doutrinária no tema. 2.1 CONDIÇÕES GENÉRICAS DA AÇÃO PENAL 2.1.1 Pela teoria geral do processo Neste momento, o conhecimento da teoria geral do processo nos facilita muito a compreensão. Por essa corrente (não há uniformidade no pensamento doutrinário, como já pontuamos), aqui no processo penal teríamos, essencialmente, as mesmas condições da ação que estudamos no processo civil: a) possibilidade jurídica do pedido; b) interesse de agir; d) legitimação para agir. a) Possibilidade jurídica do pedido - está presente “quando a pretensão do autor refere-se à providência admissível pelo direito objetivo”. Nas palavras de GALENO LACERDA, “só será titular do direito subjetivo público de ação se, em tese, o direito objetivo material admitir o pedido” (Marques, 1997). “A ação só existe [...] se a lei previr, em tese, a providência que o autor pede, na hipótese. [...] não se trata de saber se, na hipótese, o autor tem realmente o direito, o que é matéria de mérito a ser decidida na sentença, mas de saber se os fatos que enuncia em seu pedido são típicos, isto é, adequados à descrição legal de um direito” (Tornaghi, 1977). Um exemplo servirá para ilustrar: existe possibilidade jurídica de pedir ao Judiciário a resposta de uma consulta em tese? NÃO, em matéria penal, civil, comercial processual: O Judiciário, aí, não é órgão de consulta. Não haveria, por exemplo, a possibilidade jurídica de ação para pedir ao tribunal que dissesse se o crime de extorsão (Código Penal, art. 158) é formal ou material. Já o mesmo não ocorre no âmbito da Justiça Eleitoral, à qual a lei dá poderes para responder a indagações em abstrato (Tornaghi, 1987) A admissão ou (de uma forma mais abrangente) a não proibição da pretensão, verificáveis de uma forma sumária e pelos fatos e razões expostos em tese, é que caracterizam essa condição para o exercício da ação penal. 4 O nome condição de procedibilidade parece ter sido cunhado por aqueles autores os quais sustentam que ela não faz parte do tipo, não é elemento do crime, mas é exigida para que se possa mover a ação penal (Tornaghi, 1987). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 26 Haverá possibilidade de acusação se a causa de pedir se fundar em fato previsto como delito e o pedido for previsto e não defeso em lei. No processo civil, diz-se que a pretensão sobre dívida de jogo, v.g., é expressamente vedada, dizendo-se impossível juridicamente o pedido. Mas, o pedido, tecnicamente, é possível, qual seja, condenação a pagamento de quantia certa. Assim, a impossibilidade jurídica reside, precisamente, na causa de pedir e não no pedido em si. Faltando a previsão legislativa sobre o pedido - ou a causa de pedir -, no processo civil, não é causa de impossibilidade jurídica do pedido, pois o juiz decidirá mesmo assim. No processo penal, a ordem jurídica deve prever a providência pretendida pelo interessado. A possibilidade jurídica da acusação é uma questão de tipicidade a ser observada no recebimento. Se há previsão, a causa de pedir - e não o pedido - é juridicamente perfeita e, atendendo-se às outras condições, é possível que se alcance a decisão de mérito. O pedido seria juridicamente impossível se pretendesse a prisão perpétua ou a pena de morte, por exemplo, já que vedadas pelo ordenamento (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). Evidentemente, essa condição da ação acaba se relacionando bastante com o direito material e, na seara criminal, ao crime em tese cometido. Tanto que a doutrina mais ortodoxa (JOSÉ FREDERICO MARQUES, porexemplo) já dava como exemplo de impossibilidade jurídica do pedido a situação de que o fato narrado evidentemente não constitui crime (art. 397, III, CPP). No processo civil, a possibilidade se define negativamente (impossibilidade jurídica) quando o ordenamento jurídico não veda, em tese, o pedido (ex.: testamento de pessoa viva, contrato sobre dívida de jogo etc.). No processo penal, somente é possível o provimento se expressamente permitido, expressamente admitido, tanto no que tange a causa de pedir (típica, em tese) quanto ao pedido (típico e não vedado). No âmbito penal, o princípio da legalidade (nullum crimen nulla poena sine praevia lege scripta, stricta et certa) é reinante e absoluto, e não se faz juízo negativo, mas positivo. Isso porque essa condição da ação penal refere-se à pretensão expressamente prevista no ordenamento jurídico (causa de pedir). Assim, matar alguém é crime (art. 121 do CP). O órgão do MP denuncia pretendendo a aplicação da pena cabível e não proibida (pedido). Logo, há possibilidade jurídica da acusação e não, tão-somente, do pedido. Assim, se alguém comete um ato incestuoso próprio, haverá impossibilidade jurídica da acusação, levando o autor a ser carecedor da ação. Tal sistemática decorre mesmo da função garantidora do tipo penal, donde se conclui que a inexistência de possibilidade jurídica da acusação acarreta a carência da ação. A fim de se evitar persecuções levianas, infundadas, dando ensejo a processos penais temerários, deve se analisar se a imputação formulada na peça acusatória leva a alguma providência prevista no direito objetivo. Em observância ao princípio da legalidade (CF, art. 50, XXXIV, c/c art. 1º do CP), atendendo, ademais, à função de garantia dos tipos penais, para que o pedido seja juridicamente possível no processo penal, é imprescindível a existência de norma jurídica definindo a conduta imputada ao acusado como infração penal, estabelecendo a respectiva sanção. Como se vê, essa condição da ação guarda relação com a possibilidade de o juiz pronunciar, em tese, a decisão pleiteada pelo autor, consoante o que dispõe a ordem jurídica de forma abstrata. De modo a não se confundir a análise dessa condição da ação com a do mérito, a apreciação da possibilidade jurídica do pedido deve ser feita sobre a causa de pedir (causa petendi), considerada em tese, desvinculada de qualquer prova porventura existente. Analisa-se o fato tal qual narrado na inicial, sem se discutir se é ou não verdadeiro, a fim de se concluir se o ordenamento material lhe comina, em abstrato, uma sanção (Lima, 2018). TORNAGHI procurava distinguir: Problema interessante é o da falta de tipicidade. É mérito? É condição da ação? Cumpre distinguir a ausência de tipicidade em tese e a falta de tipicidade na hipótese. Assim, por exemplo: o fato de não pagar dívida é atípico, em tese. Uma denúncia por inadimplemento dessa obrigação seria absurda e o juiz deveria rejeitá-la, pela impossibilidade jurídica de processar alguém criminalmente por não haver solvido o débito. Pense-se, entretanto, no caso de alguém ser denunciado por furto. O juiz aceita a denúncia. Em meio ao processo o réu prova que a coisa era sua e não alheia e que portanto aquele fato concreto não é típico. Daí advém a absolvição com fundamento no art. 386, III, do Código de Processo Penal. No primeiro caso a questão não era de mérito. Assim, por exemplo, não é questão de mérito e sim de possibilidade jurídica, a de saber se pode ser movida ação penal por falta de pagamento. No segundo, a questão é de mérito. É possível a ação penal se um fato se apresenta, prima facie, como crime de furto. Mas impede a Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 27 condenação a circunstância de o furto não estar caracterizado. A rejeição da denúncia na primeira hipótese não é julgamento antecipado da lide (Tornaghi, 1987). Os típicos exemplos dessa categoria são a cobrança de dívida de jogo ou o pedido de dissolução de vínculo conjugal em algum país que não consagra essa possibilidade. Exemplos cíveis justamente em razão de a categoria ter sido elaborada na respectiva área. Difícil lembrar de exemplos na área criminal que não estejam muito ligados à tipicidade e à própria existência do crime, matérias de mérito. São exemplos de impossibilidade jurídica do pedido tradicionalmente citados pela doutrina processual penal, que autorizam a rejeição da peça acusatória com fundamento no art. 395, II, do CPP, ou, se recebida, ensejarão o trancamento do processo por meio de habeas corpus: a) oferecimento de denúncia e/ou queixa com a imputação de conduta atípica; b) peça acusatória oferecida a despeito da presença de um fato impeditivo do exercício da ação (v.g., ausência de decisão final do procedimento administrativo de lançamento nos crimes materiais contra a ordem tributária); c) peça acusatória oferecida sem o implemento de condição específica da ação penal (v.g., ausência da representação do ofendido); d) denúncia oferecida em face de menor de 18 (dezoito) anos, a ele imputando a prática de crime e, por isso, requerendo a imposição de pena privativa de liberdade, contrariando, assim, o quanto disposto na Constituição Federal, que prevê que são penalmente inimputáveis os menores de 18 (dezoito) anos (CF, art. 228) (Lima, 2018). BRASILEIRO bem destaca que é impossível distinguir ou separar completamente essa condição da ação do mérito da causa, fato que acabou justificando a exclusão dela pelo novo Código de Processo Civil e, por consequência, do processo penal que, doravante, deverá trabalhar só com o interesse de agir e com a legitimidade. Vejamos o que diz o novo Código de Processo Civil: Art. 17. Para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade. Art. 337. Incumbe ao réu, antes de discutir o mérito, alegar: [...] XI - ausência de legitimidade ou de interesse processual; Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual; Na visão do autor, o próprio LIEBMAN reformulou seu entendimento original: [...] passando a defender que a possibilidade estaria contida no interesse de agir — se o pedido é juridicamente impossível, não há necessidade de o processo prosseguir, ante a absoluta impossibilidade de o juiz emitir um provimento final conforme pedido pelo autor —, de forma que, ao final de seus estudos, restaram somente duas condições da ação, quais sejam, legitimidade e interesse de agir. Outros doutrinadores processuais civis negam que a impossibilidade jurídica do pedido seja distinta do julgamento do mérito de improcedência. Em outras palavras, ainda que no início do processo, e mesmo que com base em uma cognição superficial, quando o juiz considera o pedido juridicamente impossível, estaria, na verdade, julgando o mérito improcedente. Louvável, portanto, a sistemática adotada pelo novo diploma processual civil, que deixa de fazer referência à "possibilidade jurídica do pedido" como hipótese que leva a uma decisão de inadmissibilidade do processo. Consolida-se, assim, o entendimento praticamente majoritário até então no sentido de que o reconhecimento da impossibilidade jurídica funciona como decisão de mérito, e não de inadmissibilidade (Lima, 2018). Com muito acerto, ainda acrescenta: A transposição da possibilidade jurídica do pedido como condição da ação penal ignora, por completo, uma premissa básica do processo penal, segundo a qual o pedido é de todo irrelevante numa ação penal condenatória, já que o acusado defende-se dos fatos que lhe são imputados, pouco importando o pedido formulado pelo acusador. Exemplificando, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima28 ainda que conste da peça acusatória o pedido de imposição de uma pena vedada pelo ordenamento jurídico, a exemplo da pena de morte para crime comum (CF, art. 5º, XLVII, "a"), tal vício não terá o condão de ensejar rejeição da peça acusatória. Noutro giro, ainda que o pedido de imposição de determinada sanção não corresponda efetivamente àquela prevista na cominação legal pertinente ao fato imputado ao agente, nada impede o recebimento da denúncia ou queixa e o regular processamento do feito, haja vista a possibilidade de emendatio libelli por ocasião da sentença (CPP, art. 383). Na mesma linha, se uma denúncia pela prática de crime doloso contra a vida for oferecida perante o Juiz Sumariante com pedido de condenação, que, como é sabido, tem autorização apenas para pronunciá-lo, já que o juiz natural para eventual decreto (condenatório ou absolutório) é o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri, também não há falar em rejeição da denúncia em virtude de suposta impossibilidade jurídica do pedido. Cuida-se de mera irregularidade, incapaz de produzir qualquer vício, porquanto o acusado defende-se da imputação que recai sobre sua pessoa, e não do pedido constante da denúncia. Para além disso, sob a ótica da teoria eclética, para que se possa falar em impossibilidade jurídica do pedido como condição da ação, sua ausência deveria dar ensejo a uma sentença terminativa de carência de ação (art. 485, VI, do novo CPC), é dizer, sem a formação de coisa julgada material. No entanto, se a possibilidade jurídica a ser investigada no processo penal diz respeito à causa de pedir, ou seja, à imputação de um fato típico, ilícito e culpável, fica difícil sustentar que a análise desta condição da ação não esteja relacionada ao mérito, produzindo, pois, coisa julgada formal e material. Basta pensar no exemplo da rejeição da denúncia em virtude da atipicidade (formal ou material) da conduta imputada ao acusado. Ora, se um simples arquivamento o inquérito policial com base na atipicidade funciona como decisão de mérito, com a formação de coisa julgada formal e material, como negar semelhantes efeitos à decisão proferida no limiar do processo, reconhecendo, por exemplo, a atipicidade material da conduta em virtude do princípio da insignificância? Do ponto de vista da profundidade da cognição, mesmo em se tratando de um exame superficial, o reconhecimento da atipicidade no início do processo pode ser considerado um verdadeiro julgamento do mérito, por não haver controvérsia fática. Portanto, se, por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória, reconhecer o juiz ser possível a aplicação do princípio da insignificância, com o consequente reconhecimento da atipicidade material da conduta, não se trata de sentença de carência de ação em face da impossibilidade jurídica do pedido, mas sim de verdadeira decisão de mérito, à semelhança da absolvição sumária prevista no art. 397, III, do CPP, logo, acobertada pela coisa julgada formal e material. Em síntese, se a atipicidade, descriminante, exculpante (salvo inimputabilidade), ou causa extintiva da punibilidade estiverem cabalmente demonstradas no momento do juízo de admissibilidade da peça acusatória, e desde que haja um juízo de certeza acerca de sua presença, pouco importando se, para tanto, foi necessária uma cognição superficial (prima facie) ou macroscópica, deve o juiz absolver sumariamente o acusado desde logo com fundamento no art. 397 do CPP. Se o novo Código de Processo Civil autoriza o reconhecimento liminar da improcedência do pedido quando for dispensável a instrução probatória e se revelarem presentes uma das hipóteses listadas nos incisos do art. 332, não há justificativa razoável para não se aplicar idêntico raciocínio ao processo penal, autorizando, por conseguinte, a prolação de um decreto liminar de absolvição sumária por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória, independentemente da citação do acusado e apresentação da resposta à acusação. Em todos esses casos, o que menos importa é o momento procedimental em que houver o reconhecimento de uma das hipóteses do art. 397 do CPP. Como há efetiva análise do mérito em todas elas, a decisão fará coisa julgada formal e material, nos mesmos moldes do que ocorre, por exemplo, com o arquivamento do inquérito policial com base na atipicidade da conduta delituosa (Lima, 2018). Repare que o ensinamento do referido doutrinador responde à seguinte questão: pode o juiz, quando recebe a denúncia, verificando que o fato narrado não é crime, absolver sumariamente o denunciado? Entende ele que SIM e que essa decisão faz coisa julgada material5. Existe corrente divergente, como verificamos nas palavras de WARLEY BELO: 5 Uma decisão que rejeita denúncia, portanto sem processo ainda, implicando em absolvição e coisa julgada material... Estranho, não? Ora, se os tribunais superiores (como vimos em outra aula) já reconhecem coisa julgada até no arquivamento de inquérito policial, aqui, então, nada de anormal. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 29 O recebimento da denúncia (ou queixa) importa em cognição sumária; ou seja, o juiz não deve aprofundar no exame do mérito, pois seria verdadeiramente um julgamento antecipado. Todavia, caso o fato narrado evidentemente não constitua crime, i.e., a prima facie já se nota a atipicidade, desnecessário o processo, e a peça inaugural não deverá ser recebida e nem haverá julgamento do mérito. É somente no julgamento meritocrático que se analisarão os fatos provados. No juízo de prelibação, o juiz deverá renunciar a esse exame detido. Se há impossibilidade jurídica da acusação constatada no recebimento, o juiz deverá declarar o autor carecedor da ação (art. 395 do CPP, modificado pela Lei 11.719/2008). É impensável que, por exemplo, um cidadão seja denunciado por fato atípico, e o juiz julgue o mérito em pleno juízo de prelibação, e, o pior, já se sabendo que, na hipótese, não poderia ter sido pedida a aplicação da sanção penal (já que se trata de conduta atípica). Se o juiz, num momento de dúvida, recebe a ação penal, que pede a condenação por fato atípico, temos aí uma nulidade. Se, persistindo o processo, alcançar a sentença tratar-se-á de decisão de mérito (art. 386, III, do CPP). Ao juiz cumpre indeferir a inicial por carência, se averiguada no recebimento. Deve declarar extinto o processo sem julgamento de mérito, por nulo que é, se averiguada, a impossibilidade, entre o recebimento e a sentença. Há, todavia, julgamento de mérito se averiguada na sentença. Uma coisa é o julgamento das condições da ação (actionem esse fundatam) e outra a decisão do pedido (actionem esse probatam). Por todos esses motivos, a inicial que é recebida, sendo a acusação impossível juridicamente, está a contrariar a legislação constitucional e infraconstitucional. Haverá flagrante abuso do poder-dever de acusar. O caminho do réu poderá ser dois: impetrar habeas corpus para trancar a ação penal por nulidade ou aguardar a decisão de mérito e pleitear absolvição com base no art. 386, III, do CPP. b) Interesse de agir – existirá quando o autor depender da tutela jurisdicional para a providência que pretende. “Para que haja interesse de agir, é necessário que o autor formule uma pretensão adequada, ou seja, um pedido idôneo a provocar a atuação jurisdicional” (Marques, 1997). “A doutrina francesa sustenta que há interesse onde há proveito; a italiana é mais exigente e só vê interesse onde existe necessidade de recorrer ao judiciário. É matéria de fato que deve ser examinada em cada caso” (Tornaghi, 1977). “A ideia de interesse de agir ou de interesse processual está relacionada à utilidade da prestação jurisdicional que se pretende obter com a movimentação do aparato judiciário” e há quem a considereno binômio composto pela necessidade e adequação (Lima, 2018). “É o interesse-necessidade de se recorrer ao Judiciário, que no processo penal é presumida, tendo em vista a impossibilidade de aplicar pena sem processo (nulla poena sine iudicio)” (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). O interesse de agir decorre sempre da necessidade de ir a juízo para obter algo que, de outra maneira, não se poderia alcançar. Para isso o Estado assume o dever de prestar a jurisdição. Alguns autores contestam que o interesse tenha de ser legítimo. Parece-me que eles incidem na confusão entre o interesse de agir e o interesse em litígio. Constitui matéria irrelevante para o assunto saber se o interesse em litígio é legítimo. Mas é importante verificar se o autor é movido pelo ilegítimo interesse de usar o Poder Judiciário como instrumento de vingança, de arbítrio, de fantasia, de extravagância. Os tribunais não se fizeram para servir ao capricho ou à vindita de quem quer que seja. Também não é legítimo o interesse meramente científico, teórico: a justiça não foi estabelecida para resolver dúvidas em tese. Muito menos é legítimo o interesse de quem é movido pelo delírio persecutório. (Tornaghi, 1977) O interesse de agir é configurado na relação entre a situação antijurídica denunciada e a tutela jurisdicional requerida. Disto resulta que somente há interesse quando se pede uma providência jurisdicional adequada à situação concreta a ser decidida. É preciso que se examine em que termos é formulada a exigência que se contém na pretensão para que se verifique da existência do interesse de agir. Donde a seguinte lição de LIEBMAN: ‘A existência do interesse de agir é assim uma condição do exame do mérito, o qual seria evidenciadamente inútil se a providência pretendida fosse por si mesma inadequada a proteger o interesse lesado ou ameaçado, ou então quando se demonstra que a lesão ou ameaça que é denunciada, na realidade não existe ou não se verificou ainda. É claro que reconhecer a subsistência do interesse de agir não significa, ainda, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 30 que o autor tenha razão quanto ao mérito; isto tão-só quer dizer que pode tê-la e que sua pretensão se apresenta digna de ser julgada’. (Marques, 1997) WARLEY BELO pontua: É perda de tempo o exame de mérito em pedidos que podem ser satisfeitos por outros modos que não uma ação judiciária ou que não revelam nenhum prejuízo ou resistência do réu na satisfação do direito que se lhe exige. Assim é no processo civil. No campo penal, é impensável aplicar pena sem o devido processo legal. Demandas que invocam leis em tese, questões acadêmicas, dentre outros exemplos, são questões que revelam a falta de interesse processual de agir. Antes de saber quem tem razão, o juiz tem de verificar se a demanda se justifica, independentemente do direito que as partes alegam ter, e se o tipo de processo pretendido é o adequado para a situação concreta. Exsurgem do conceito os requisitos da necessidade, utilidade (uso das vias) e adequação (ao procedimento em contraditório), a fim de se atingir o interesse de agir. Para a maioria doutrinária, porém, quando observada pelo juiz, por exemplo, uma causa de extinção da punibilidade, haverá carência da ação por falta de interesse de agir, se observada no recebimento nos termos do art. 43, II, do CPP. Tal se impõe até mesmo em obediência ao princípio da economia processual, pelo qual o processo deve ter o máximo de efetividade com o mínimo de procedimento e gasto financeiro. Assim, se já se sabe da impossibilidade de se aplicar pena a alguém pelo processo ser desnecessário ou inútil (interesse-utilidade), não deverá nem ao menos ser recebido, tal é o caso da prescrição retroativa. Desse modo, as causas extintivas da punibilidade (perempção, litispendência, coisa julgada, prescrição, decadência, dentre outras) se ligam ao interesse de agir. Há carência da ação, mas por falta de interesse, e não por impossibilidade jurídica da acusação. A extinção da punibilidade faz a causa de pedir inútil e sem necessidade. BRASILEIRO destaca o seguinte: Segundo parte significativa da doutrina, o interesse de agir deve ser analisado sob três aspectos distintos: a necessidade de obtenção da tutela jurisdicional pleiteada; a adequação entre o pedido e a proteção jurisdicional que se pretende obter; e a utilidade, que se traduz na eficácia da atividade jurisdicional para satisfazer o interesse do autor. A necessidade estará presente sempre que o autor não puder obter o bem da vida pretendido sem a devida intervenção do Poder Judiciário. Esse raciocínio só é correto para as situações em que se pretende exercitar, pelo processo, direitos a uma prestação, pois há a possibilidade de cumprimento espontâneo da prestação. Portanto, quando não houver meios para a satisfação voluntária, há necessidade de jurisdição. E é exatamente isso o que ocorre com a pretensão punitiva. No âmbito processual penal, essa necessidade é implícita na ação penal condenatória, já que, em virtude do princípio do nulla poena sine judicio, nenhuma sanção penal poderá ser aplicada sem o devido processo legal, ainda que o acusado não tenha interesse em oferecer qualquer resistência. A ação penal é, por conseguinte, uma ação necessária. Logo, o exame da necessidade para a verificação do interesse de agir é dispensável, pois está in re ipsa. Com efeito, no âmbito processual penal, em face do princípio nulla poena sine judicio, ter-se-á uma pretensão insatisfeita, vez que, para solucionar a demanda penal, é sempre necessário o processo, pois o Estado não pode aplicar a norma penal de imediato, mesmo que haja concordância de quem cometeu o delito. Para que as regras punitivas atuem concretamente, torna-se imprescindível o processo, pois a pena não pode ser imposta diretamente ao autor do crime, sem prévia apuração de sua responsabilidade. Afinal, o jus puniendi é de coação indireta em face da exigência de que a pena só seja imposta após regular processo. A ressalva à possibilidade de aplicação de pena sem processo no âmbito processual penal fica por conta da transação penal no âmbito dos Juizados Especiais Criminais (Lei nº 9.099/95, art. 76). Presentes os pressupostos objetivos e subjetivos, deverá o titular da ação penal formular proposta de aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou de multa. Nesse caso, ainda não há processo. O ato compositivo ocorre por ocasião da audiência preliminar, logo, antes do oferecimento da denúncia. Por adequação entende-se o ajustamento da providência judicial requerida à solução do conflito subjacente ao pedido. Se essa adequação é assaz importante no processo civil, é interessante perceber que, em uma ação penal condenatória, tal condição não ostenta grande relevância, já que não há espécies distintas de ações penais condenatórias. De fato, sempre que o órgão ministerial ou o querelante pleiteiam a aplicação do direito de punir, o fazem por meio de uma ação penal condenatória. Em se tratando de ações penais não condenatórias, todavia, é mais fácil visualizar a importância do interesse- adequação. Basta pensar no exemplo de persecução penal em andamento por conduta manifestamente Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 31 atípica à qual seja cominada apenas pena de multa. Em tal hipótese, o habeas corpus não será instrumento adequado para se buscar o trancamento do processo, já que o referido remédio constitucional está ligado à proteção da liberdade de locomoção (CF, art. 5º, LXVII). Logo, como o não pagamento de multa não mais autoriza sua conversão em pena privativa de liberdade (CP, art. 51, com redação determinada pela Lei nº 9.268/96),o instrumento adequado será o mandado de segurança. A propósito, diz a súmula no 693 do STF que "não cabe habeas corpus contra decisão condenatória a pena de multa, ou relativo a processo em curso por infração penal a que a pena pecuniária seja a única cominada". Na mesma linha, se, durante o trâmite de um habeas corpus, o juiz ou tribunal verificar que já cessou a violência ou coação ilegal, julgará prejudicado o pedido, nos termos do art. 659 do CPP. Em tal hipótese, a extinção do processo sem a apreciação do mérito se dará pelo desaparecimento superveniente do interesse de agir, porquanto teria deixado de existir ameaça à liberdade de locomoção. A utilidade por sua vez, consiste na eficácia da atividade jurisdicional para satisfazer o interesse do autor. Só haverá utilidade se houver possibilidade de realização do jus puniendi com eventual aplicação da sanção penal adequada (Lima, 2017). A justa causa já foi relacionada com essa condição da ação pela doutrina ortodoxa (Marques, 1997). Hoje essa correlação não á apropriada, compreendendo-se a justa causa como o ‘suporte probatório mínimo’ que toda ação penal deve ter6. A prescrição em perspectiva ou prescrição virtual, mais atualmente, está relacionada com essa condição da ação (interesse de agir). Ela ocorre com a análise prospectiva da inutilidade do processo, considerando que, numa determinada situação concreta, a eventual pena aplicada já estaria fulminada pela prescrição da pretensão punitiva retroativa. O exemplo e o detalhamento, no ponto, são trazidos por RENATO BRASILEIRO: Imagine-se o seguinte exemplo: em data de 12 de maio de 2008, o Ministério Público tem vista de autos de inquérito policial relativo a suposto crime de furto simples ocorrido em 25 de outubro de 2005. À época do delito, o investigado era menor de 21 (vinte e um) anos, além de ser primário e portador de bons antecedentes. Nesse caso concreto, ainda não houve prescrição da pretensão punitiva abstrata. De fato, tal espécie de prescrição leva em consideração o máximo da pena cominada ao delito — no exemplo, 4 (quatro) anos de reclusão; considerando que o lapso prescricional seria de 8 (oito) anos, nos termos do art. 109, IV, do CP, contado pela metade — 4 (quatro) anos —, por se tratar de acusado menor de 21 (vinte e um) anos ao tempo do crime, resta evidente que não transcorreu lapso temporal superior a 4 (quatro) anos entre a data do crime — 25 de outubro de 2005 — e a data em que o Ministério Público teve vista dos autos (12 de maio de 2008). Porém, se ainda não ocorreu a prescrição da pretensão punitiva abstrata, já se pode visualizar, no caso concreto, a presença da prescrição em perspectiva. O delito de furto simples tem pena de reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos; tendo em conta que o acusado é primário, portador de bons antecedentes, mesmo antes de instaurado o processo penal, o Promotor de Justiça já pode visualizar que, se acaso proferida sentença condenatória, a pena a ser imposta ao acusado seria de 1 (um) ano. Pois bem, supondo-se que a pena imposta pelo juiz fosse de 1 (um) ano, dar-se-ia a prescrição da pretensão punitiva retroativa em 04 (quatro anos), prazo este que é contado pela metade, logo, em 02 (dois) anos, por se tratar de acusado menor de 21 anos (CP, art. 115). Ora, entre a data do crime — 25 de outubro de 2005 —e a data em que o Ministério Público teve vista dos autos — 12 de maio de 2008 —já transcorreu lapso temporal superior a 02 (dois) anos. Portanto, o órgão ministerial já pode visualizar, antecipadamente, que o processo está fadado à prescrição da pretensão punitiva retroativa, porquanto, mesmo que o acusado seja condenado no futuro, haverá o reconhecimento da prescrição pretensão punitiva retroativa. Em tal hipótese, o que deve fazer o Promotor de Justiça: oferecer denúncia ou requerer o arquivamento do inquérito policial? Requerendo o arquivamento do inquérito, qual deve ser o fundamento: extinção da punibilidade pelo advento da prescrição ou ausência de interesse de agir? A nosso ver, com a quantidade avassaladora de processos criminais que lotam os fóruns criminais, não faz sentido dar início a um processo penal fadado à prescrição. Em outras palavras, qual seria a utilidade de um processo penal, com grande desperdício de atos processuais, de tempo, de trabalho humano, etc., se, antecipadamente, já se pode antever que não haverá resultado algum? Como já se pode visualizar que, fatalmente, a pena a ser 6 Falaremos da justa causa mais adiante. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 32 aplicada acarretaria a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva retroativa, e, portanto, que a sentença penal condenatória seria ineficaz quanto aos seus efeitos penais e civis, pensamos que não há qualquer utilidade em tal demanda. Não se trata de requerer o arquivamento com base em causa extintiva da punibilidade, já que a prescrição em perspectiva não tem amparo legal. Cuida-se sim, de requerer o arquivamento do inquérito policial com fundamento na ausência de interesse de agir condição sine qua non para o regular exercício do direito de ação. Afinal, qual a utilidade de se levar adiante um processo penal em que já se pode visualizar, antecipadamente, a superveniência da prescrição? Se, porventura, o processo já estiver em andamento, e a prescrição em perspectiva for visualizada, também não faz qualquer sentido levar-se adiante o feito. Deve-se, pois, extinguir o processo sem a apreciação do mérito, aplicando-se subsidiariamente o quanto disposto no art. 485, VI, do novo CPC, ou anular o processo, com fundamento no art. 564, II, do CPP, aplicável por analogia já que ausente uma das condições da ação — o interesse de agir. Apesar de o reconhecimento antecipado da prescrição ser uma rotina no dia-a-dia de fóruns criminais, contando com o respaldo de respeitada parte da doutrina processual penal, convém destacar que a jurisprudência dos Tribunais Superiores tem se posicionado contrariamente a ela, sob argumento de que referida espécie de prescrição não tem amparo no ordenamento jurídico pátrio, além de contrariar o princípio da presunção de não culpabilidade, já que parte do pressuposto de que o acusado será condenado ao final do processo. Nessa esteira, em Questão de Ordem em Repercussão Geral em Recurso Extraordinário, o Plenário do Supremo assim se manifestou quanto ao tema: “É inadmissível a extinção da punibilidade em virtude de prescrição da pretensão punitiva com base em previsão da pena que hipoteticamente seria aplicada, independentemente da existência ou sorte do processo criminal”. Com entendimento semelhante ao do Supremo Tribunal Federal, vale a pena prestar atenção ao enunciado da Súmula no 438 do STJ: "É inadmissível a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva com fundamento em pena hipotética, independentemente da existência ou sorte do processo penal" Uma observação final deve ser feita quanto à prescrição em perspectiva: com o advento da Lei nº 12.234/10, será cada vez menos comum a sua aplicação. Explica-se: a Lei no 12.234/10 revogou o § 2º do art. 110 do Código Penal, o qual previa que a prescrição, depois da sentença condenatória com trânsito em julgado para a acusação, ou depois de improvido seu recurso, regulava-se pela pena aplicada, podendo ter por termo inicial data anterior à do recebimento da denúncia ou queixa. Além disso, deu nova redação ao art. 110, § 1º, do CP, que passou a dispor: “A prescrição depois da sentença condenatória com trânsito em julgado para a acusação ou depois de improvido seu recurso, regula-se pela pena aplicada, não podendo, em nenhuma hipótese, ter por termo inicial data anterior à da denúncia ou queixa". Como se vê, apesar de o art. 1º da Lei no 12.234/10 dizer que a mesmateve por objetivo excluir a prescrição retroativa, pôs-se fim apenas à prescrição da pretensão punitiva retroativa entre a data do fato e a data do recebimento da peça acusatória. Subsiste, todavia, a possibilidade de prescrição retroativa, levando-se em conta a pena aplicada, porém apenas no tocante ao lapso temporal compreendido entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a data da publicação de condenatória recorrível. Como, na grande maioria dos casos, a prescrição antecipada levava e leva em consideração a virtual prescrição da pretensão punitiva retroativa entre a data do fato delituoso e a data do recebimento da peça acusatória, haja vista a lentidão na conclusão de inquéritos policiais, é evidente então que a Lei nº 12.234/10 também produzirá reflexos no reconhecimento da prescrição em perspectiva, cuja incidência tende a ser cada vez mais incomum. De fato, em regra, ao receber os autos do inquérito policial, levando em conta o lapso temporal entre a data do fato delituoso e a data de eventual recebimento da peça acusatória, o Promotor de Justiça já se manifestava no sentido do arquivamento dos autos com base na ausência de interesse de agir (prescrição em perspectiva). Com o fim da possibilidade de se reconhecer a prescrição retroativa levando-se em conta termo inicial ao do recebimento da denúncia ou queixa (CP, art. 110, § 1º, com redação dada pela Lei nº 12.234/10), significa dizer que a referida lei também produzirá reflexos quanto ao reconhecimento da prescrição antecipada. Porém, é bom que se advirta que, tratando-se de novatio legis in pejus, já que extingue hipótese de prescrição da pretensão punitiva, é evidente que a Lei nº 12.234/10 só se aplica aos crimes cometidos após a sua vigência (06 de maio de 2010). Portanto, aos crimes cometidos até o dia 5 de maio de 2010, ainda é possível o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva retroativa entre a data do fato delituoso e a data do recebimento da peça acusatória, assim como eventual reconhecimento da prescrição antecipada quanto a esse período. (Lima, 2018) c) Legitimidade para agir – ou legitimatio ad causam “diz respeito à titularidade ativa e passiva da ação: é a pertinência subjetiva da ação, como, com propriedade, ensina ALFREDO BUZAID”. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 33 A ação somente pode ser proposta por aquele que é titular do interesse que se afirma prevalecer na pretensão e contra aquele cujo direito de liberdade possa ser subordinado, no caso em foco, ao interesse punitivo do Estado. Quando o autor não é titular da pretensão ajuizada, falta-lhe legitimação para agir. É o que ocorreria se o Ministério Público propusesse a ação em crimes em que esta é exclusivamente da iniciativa do ofendido. Falta legitimação passiva ad causam quando sanção penal alguma pode ser imposta no delito que a acusação descreve, à pessoa a quem se atribui a sua prática. É o que ocorre com os casos de imunidade parlamentar, e com os fatos típicos praticados por menores de dezoito anos (Marques, 1997). A legitimidade configura-se por uma “situação prevista em lei que permite a um determinado sujeito propor a demanda judicial e a um determinado sujeito ocupar o polo passivo dessa mesma demanda” (Lima, 2018). Há legitimidade de partes quando o autor afirma ser titular do direito subjetivo material demandado (legitimidade ativa) e pede a tutela em face do titular da obrigação correspondente àquele direito (legitimidade passiva) (Badaró, 2017). Vejamos o que diz o Código de Processo Civil quanto a essa condição: Art. 17. Para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade. No processo penal, os crimes de ação pública, que são a grande maioria, têm sua legitimidade resolvida pelo disposto no art. 129 da Constituição Federal: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei; Por outro lado, no que diz respeito às ações penais privadas, regra geral, o legitimado é a vítima ou seu representante legal. Daí a grande importância de se saber de determinado delito é de ação penal pública ou de ação penal de iniciativa privada. Afinal, se o delito e de ação penal de iniciativa privada (v.g., em regra, crime de calúnia), e o Ministério Público oferece denúncia em relação a ele, há de se reconhecer a falta de legitimatio ad causam do órgão ministerial, com a consequente rejeição da peça acusatória (CPP, art. 395, II). Caso o processo já esteja em andamento, a ilegitimidade ad causam será causa de nulidade absoluta do processo, tal qual prevê o art. 564, II, do CPP. Por outro lado, em se tratando de crime de ação penal pública (v.g., crime contra a honra praticado durante a propaganda eleitoral, o qual é crime eleitoral e, portanto, de ação penal pública incondicionada), não se pode admitir o oferecimento de queixa-crime pelo ofendido ou por seu representante legal, salvo se caracterizada a inércia do órgão ministerial, hipótese em que a própria Constituição Federal ressalva o cabimento da ação penal privada subsidiária da pública (art. 5º, LIX). (Lima, 2018). No polo passivo, a legitimidade se dá em relação ao provável autor do fato, observada a imputabilidade, nos termos da Constituição Federal: Art. 228. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial. Uma ação movida contra um adolescente, por exemplo, deveria ser rejeitada ou extinta por ilegitimidade de parte. Outro exemplo se daria em caso de ação movida contra pessoa errada, que tenha o mesmo nome (homônimo): [...] AÇÃO PENAL - LEGITIMIDADE PASSIVA - IDENTIFICAÇÃO DATILOSCOPICA - IMPRESSÕES DIGITAIS DISCREPANTES. Exsurgindo descompasso entre as impressões digitais constantes do boletim de identificação criminal alusivo ao delito e as do acusado via denúncia, impõe-se a conclusão sobre a ilegitimidade passiva, declarando-se nulo o processo a partir, inclusive, da peça primeira, ou seja, da denúncia. (HC 72451, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Segunda Turma, julgado em 27/02/1996, DJ 19-04-1996 PP-12213 EMENT VOL-01824-02 PP-00264) BRASILEIRO, pontualmente, lembra sobre a questão que envolve a pessoa jurídica: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 34 Quanto à legitimação da pessoa jurídica no processo penal, dúvidas não há quanto a sua legitimação ativa. De fato, supondo-se que uma pessoa jurídica seja vítima de um crime de difamação, o que é plenamente possível, já que referido ente é dotado de honra objetiva, sendo possível a imputação de fato ofensivo a sua reputação, poderá figurar no polo ativo de queixa-crime por ela proposta em face do suposto autor do delito. Em relação à legitimação passiva da pessoa jurídica, tem-se admitido o oferecimento de denúncia em face da pessoa jurídica pela prática de crimes ambientais, desde que haja a imputação simultânea do ente moral e da pessoa física que atua em seu nome ou em seu benefício, já que não há como se compreender a responsabilização do ente moral dissociada da atuação de uma pessoa física, que age com elemento subjetivo próprio. E a denominada teoria da dupla imputação (Lima, 2018). O mesmo autor ainda relembra distinções importantes em relação a institutos que podem ser confundidos: Legitimidade ad causam não se confunde com legitimatio ad processum, fenômeno relacionado à capacidade de estar em juízo, tida como pressuposto processual de validade. Essa capacidade processual refere-se à capacidade de exercer direitos e deveres processuais, ou seja, de praticar validamente atos processuais. É o que ocorre com um ofendido menor de 18 (dezoito) anos, que não tem capacidade processual para oferecerqueixa-crime, razão pela qual sua incapacidade é suprida por seu representante legal. Esse representante processual age em nome alheio na defesa de interesse alheio, não sendo considerado parte no processo, mas mero sujeito que dá à parte capacidade para que esteja em juízo. Capacidade processual, por sua vez, não se confunde com capacidade postulatória, assim compreendida a aptidão para postular perante órgãos do Poder Judiciário. Supondo, assim, o ofendido que não seja advogado inscrito nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, o ajuizamento da queixa-crime deverá ser feito por advogado com poderes especiais (CPP, art. 44). Como se vê, a incapacidade postulatória é suprida por meio da representação voluntária necessária. Por fim, não se pode confundir o conceito de legitimidade ad causam com o de capacidade de ser parte, pressuposto de existência de um processo. A capacidade de ser parte deriva da personalidade, consistindo na capacidade de adquirir direitos e contrair obrigações (CC, art. 1º). No âmbito processual penal, além de pessoas físicas e jurídicas, é interessante perceber que alguns “entes” também são considerados como pessoas formais. É o que ocorre, por exemplo, com as entidades e órgãos da administração pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos pelo Código de Defesa do Consumidor, a quem o CDC atribui legitimidade não só para figurar como assistente do Ministério Público, como também para ajuizar queixa-crime subsidiária, se a denúncia não for oferecida no prazo legal (Lei nº 8.072/90, art. 82, III, c/c art. 80) (Lima, 2018). Fala-se em legitimidade ordinária e extraordinária e essa classificação provém, essencialmente, do disposto, hoje, no art. 18 do Código de Processo Civil: Art. 18. Ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico. Regra geral, portanto, a parte só poderá pleitear em nome próprio direito que seja de sua titularidade ou interesse que seja seu e a isso se dá o nome de legitimidade ordinária. É o que ocorre, por exemplo, quando o Ministério Público intenta uma ação penal pública. A exceção, que pode ocorrer, fica por conta de eventual autorização legal, conforme parte final do art. 18 do Código de Processo Civil. Nesse sentido, havendo essa autorização do ordenamento jurídico, alguém pode pleitear, em nome próprio, direito alheio – legitimidade extraordinária. “A doutrina costuma citar como exemplo a ação penal de iniciativa privada”. O Estado seria o titular do direito de punir ou da pretensão punitiva e transferiria a legitimidade para a propositura da ação penal à vítima ou ao seu representante legal; seria o ofendido agindo, em nome próprio, na defesa de um interesse alheio (Lima, 2018). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 35 No processo penal, há uma legitimação genérica do MP. Somente quando a lei expressamente estabelece que a legitimação é do ofendido ou seu representante é que temos a legitimação extraordinária. Sendo as ações penais classificadas de acordo com critério subjetivo (diferentemente do processo civil, cujo critério é o objetivo), leva-se em consideração a titularidade do direito de ação penal condenatória, que poderá ser de iniciativa pública ou de iniciativa privada. Na primeira, o titular é o Estado; na segunda, o titular também é o Estado, mas o exercício da ação é concedido ao ofendido ou ao seu representante (legitimação extraordinária). Não pode o MP oferecer queixa em ação penal condenatória de iniciativa privada (salvo exceções) e nem o particular denunciar, salvo no caso da ação penal de iniciativa privada subsidiária da pública (art. 5º, LIX c/c art. 129, I, da CF/88) (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). GUSTAVO BADARÓ tem um pensamento diferente em relação a isso: A partir da transposição dos conceitos processuais civis para o campo penal, afirma-se que, no caso de ação penal de iniciativa pública, o Ministério Público seria o legitimado ordinário; no caso da ação penal privada, haveria uma hipótese de legitimação extraordinária, sendo o querelante seu substituto processual, porque a legitimidade seria conferida a quem não é o titular do ius puniendi. Discorda-se de tal posicionamento. No direito processual civil, a legitimação para a ação é extraída da situação de direito material. Em regra, o titular do direito material terá legitimidade para, em juízo, buscar tutela jurisdicional ao tal direito, lesado ou ameaçado. Em suma, o conceito de legitimação ordinária decorre da análise da titularidade da relação material. A pertinência subjetiva da ação é um reflexo da pertinência subjetiva do direito material. Tal construção, contudo, não se adequa ao direito processual penal. O Ministério Público não é o titular do direito de punir, que pertence ao Estado. Ao Ministério Público se confere, apenas, a titularidade ou legitimidade para a propositura da ação penal. Tal poder, porém, decorre simplesmente da lei, independentemente da titularidade do “direito material” debatido em juízo, no caso, o “direito de punir”. Assim, somente no sentido de ser o titular da pretensão processual posta em juízo é que se pode considerar o Ministério Público um “legitimado ordinário”. Entretanto, nesse conceito, na ação penal de iniciativa privada, em que, excepcionalmente, o poder de perseguir em juízo é conferido à vítima, ela também seria um “legitimado ordinário”. E, diante de tal quadro, concluir-se-ia que, se ambos são legitimados ordinários, não existiria situação de “legitimado extraordinário” ou substituto processual, pelo que a distinção entre legitimação ordinária e extraordinária seria destituída de todo e qualquer significado no processo penal (Badaró, 2017). WARLEY BELO elucida sobre a legitimidade passiva, trazendo o seu posicionamento no que diz respeito à análise de mérito e à formação da coisa julgada no processo penal: A legitimatio ad causam passiva refere-se ao acusado, ao réu, a quem se imputa o fato, que pode até mesmo ser uma pessoa jurídica, conforme for o caso. Se a parte for ilegítima, diz o art. 395 do CPP (modificado pela Lei 11.719/2008), a denúncia ou queixa será rejeitada. Na prática, como já dito, o juiz fará uma cognição sumária da legitimatio ad causam passiva, pois a grande questão é saber se o imputado é ou não autor do fato delituoso. Se o indiciado não participou da infração, não deve ser denunciado. Todavia, se a primeira dúvida persiste - "Será que o indiciado não participou mesmo do crime?" -, ou seja, havendo maior probabilidade de que a peça acusatória seja verídica, temos a legitimatio. Na doutrina e na jurisprudência temos exemplos de casos de ilegitimatio passiva ad causam: a denúncia contra a testemunha ou contra o perito ou contra suspeito que se identificou com cédula de identidade que não era sua (STF, HC 74.941-1/SP). No caso, o juiz - consciencioso - deverá rejeitar a denúncia quanto a esses, pois numa cognição sumária, percebe-se que eles não participaram do fato. E essa decisão de rejeição da denúncia quanto à falta desta condição: é decisão de mérito? No processo civil, muitos entendem a decisão da ilegitimidade ad causam como mérito. O juiz deverá, na decisão de prelibação do recebimento e, evidente, antes de receber a peça introdutória, verificar a presença dos pressupostos processuais e das condições da ação. Se o juiz verifica que o autor é carecedor da ação, não irá receber a ação. Não deverá analisar o mérito, pois: a) o próprio ordenamento processual determina a rejeição da denúncia quando "faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal" (art. 395, II, do CPP); e b) a teor do art. 564, II, do CPP, o processo será passível de nulidade. Não se podefalar em lacuna no caso. Pode até parecer estranho, por exemplo, que o órgão do MP denuncie equivocadamente o perito e que o juiz tenha que excluí-lo antes do recebimento, mas a verdade é que o perito não poderá alcançar sentença de mérito na oportunidade do Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 36 recebimento, que não comporta cognição aprofundada. Teria de esperar, o perito, até o final da sentença para alcançar o julgamento de mérito, tentar inovar no processo penal, pedindo o julgamento antecipado da lide penal, ou impetrar HC, se o juiz, equivocadamente, houvesse recebido a ação penal. Observe-se, novamente, a melhor adequação abstrativista. Os defensores da teoria concreta certamente não concordarão com o posicionamento. Todavia, é preciso lembrar que quando discordamos dos civilistas estamos com olhos postos no processo penal. É claro que pela disposição do art. 267, VI, do CPC (1973) há a consequência - lá - do julgamento do mérito. No processo penal, entretanto, não se pode dar guarita à corrente que liga as condições da ação à situação de fato, que só pode ser afirmada e comprovada no processo após a instrução e a avaliação das provas. O art. 395 do CPP desvincula a legitimidade das partes do direito material. Por outra, antes do recebimento da denúncia ou queixa não há processo e o juiz decide que, por falta da condição da ação, não poderá julgar o mérito. Sentenças que julgam o mérito sobre o fundamento de que há carência da ação não reflete técnica processual, pois o que existe é juízo de inadmissibilidade. A procedência ou não do pedido só é possível se presentes todos os pressupostos processuais e condições da ação. A carência, por sua vez, só existe, tecnicamente, até o recebimento . Claro que já nos posicionamos pela teoria abstrata da ação e por isso seguimos esse entendimento. Na análise das condições, tem-se cognição sumária, tanto que no art. 395 do CPP, diz-se que se rejeitará a denúncia ou a queixa se ausente qualquer condição da ação. Já no mérito: cognição exauriente. O problema é de intensidade, verticalidade, profundidade da cognição. Se ocorrer o recebimento da denúncia nos casos de réu injustamente denunciado, só restará impetrar HC para trancar a ação penal por nulidade (art. 564, II), segundo dispõe o CPP, ou aguardar sentença onde, só aí, se alcançará o mérito. De qualquer maneira, é-nos evidente que o problema da ilegitimatio ad causam passiva, como capaz de gerar a carência da ação, já estará superado para o juiz do processo de conhecimento, após o recebimento. Temos, pois, por impossível a absolvição com julgamento do mérito (art. 386, IV, do CPP) no recebimento. Se falta um dos pressupostos, inexiste processo. Não se impede a ação que pode ser proposta em outro processo. Quando se fala em carência da ação, é porque falta uma das condições da ação. Se averiguada no momento processual adequado (no recebimento), ocorrerá a carência; caso contrário, poderá haver alegação e reconhecimento pelo juiz de nulidade ou a impetração de HC para trancamento. De todas as maneiras, é certo que a falta de pressuposto ou condição contraria o devido processo legal. Por isso mesmo, há abuso e ilegalidade do poder-dever de acusar (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). Devemos saber diferenciar a legitimação extraordinária (substituição processual) da sucessão processual: Há sucessão processual quando um sujeito sucede outro no processo, assumindo a sua posição processual. Há, portanto, uma troca de sujeitos no processo, uma mudança subjetiva da relação jurídica processual. A propósito, consoante disposto no art. 31 do CPP, no caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de oferecer queixa ou prosseguir na ação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. Por outro lado, na legitimação extraordinária (substituição processual), não há troca de sujeitos. Na verdade, não há qualquer alteração da relação processual, pois um sujeito tem o poder (legitimidade) de estar legitimamente em um processo defendendo interesse de outrem (Lima, 2018) . Agora que se falou das três conhecidas condições da ação, aquelas que são aproveitadas da teoria geral do processo, cumpre trazer a lição e o exemplo didático de TORNAGHI (em sua obra A Relação Processual Penal, 1987) para diferenciá-las, observando as fases da ação penal e consolidando o aprendizado: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 37 2.1.2 Justa causa Estudaremos aqui justa causa, mas é importante que inicialmente se diga que, para muitos, ela não é uma condição da ação. Estamos, mais uma vez, diante de um instituto jurídico controvertido. O conceito da justa causa, assim como sua natureza jurídica, é tema polêmico na doutrina pátria, mesmo quando se trata de averiguarmos no restrito estudo das condições da ação. Faria parte do interesse de agir? Seria uma condição genérica da ação, um conjunto dessas condições ou uma quarta e autônoma condição? Seria mérito ou um controle prévio da admissibilidade do mérito? Etimologicamente, a palavra justa tem sua origem no latim, do adjetivo justus ou iustus. Diz-se daquilo que é equitativo, daquilo que é legal. Já a palavra causa vem também do latim causa-ae (ou com variações para caussa e kaussa) e é um vocábulo filosófico e científico obscuro. No direito, esse vocábulo, possui inúmeros sentidos: motivo determinante, fim imediato, lide, ação etc. O Código de Processo Penal, embora tome a locução em várias oportunidades, acaba por não esclarecer exatamente o seu sentido. Vejamos algumas passagens nas quais é referida como o ‘motivo fundado’ para determinados atos ou abstenções: Art. 277. O perito nomeado pela autoridade será obrigado a aceitar o encargo, sob pena de multa de cem a quinhentos mil-réis, salvo escusa atendível. Parágrafo único. Incorrerá na mesma multa o perito que, sem justa causa, provada imediatamente: Art. 278. No caso de não-comparecimento do perito, sem justa causa, a autoridade poderá determinar a sua condução. Art. 458. Se a testemunha, sem justa causa, deixar de comparecer, o juiz presidente, sem prejuízo da ação penal pela desobediência, aplicar-lhe-á a multa prevista no § 2o do art. 436 deste Código. Em outra passagem, o CPP faz referência à justa causa como tradutora da ilegalidade de uma coação para efeito de viabilizar o hábeas corpus: Art. 648. A coação considerar-se-á ilegal: I - quando não houver justa causa; propositura ͻ "quem se reputa ofendido na honra é parte legítima para mover a ação (CP, art. 145); tem interesse processual em fazê-lo (não confundir com o interesse de fato), pois que sem o processo não há como obter a condenação do ofensor; ͻ e tem a possibilidade de fazê-lo, pois a punição do ofensor, que o ofendido pede na hipótese, está prevista na lei em tese; sentença ͻ se o juiz atende à pretensão do ofendido condenando o ofensor no grau pretendido por aquele, ele continua sendo parte legítima para responder a qualquer recurso interposto pelo segundo, ͻ mas desaparece o interesse de recorrer; recurso ͻ se a lei considera irrecorrível (hipótese rara, sobretudo no processo penal dos países civilizados) a sentença de primeiro grau, a parte que sucumbe, ainda que legítima e interessada na reforma da sentença, ͻ não tem possibilidade jurídica de consegui-la". Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 38 Por fim, a justa causa como um dos motivos determinantes para a rejeição da acusação: Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando:III - faltar justa causa para o exercício da ação penal. Assim, como adverte WARLEY BELO, “há quem conceitue a justa causa como causa legal, motivo legal, segundo os preceitos da lei, o motivo legítimo, o impedimento de evidente necessidade, o que está conforme a Justiça, a razão, o motivo para processos ou proceder etc.”. O tema é muito bem explorado no artigo do referido autor, de maneira que merece transcrição com os destaques apropriados: Autores há, por outro lado, que identificam na justa causa uma quarta condição da ação penal. É o caso de AFRÂNIO SILVA JARDIM, entendendo que às três condições clássicas da ação - possibilidade jurídica do pedido, interesse de agir e legitimidade ad causam - "acrescenta-se uma quarta: a justa causa, ou seja, um suporte probatório mínimo em que se deve lastrear a acusação, tendo em vista que a simples instauração do processo penal já atinge o chamado status dignitatis do imputado. Tal lastro probatório nos é fornecido pelo inquérito policial ou pelas peças de informação, que devem acompanhar a acusação penal (arts. 12, 39, § 5º, e 46, § 1º, do CPP). Alguns autores identificam o conceito de justa causa com aquilo que é legal ou conforme ao direito. Adotam, assim, um posicionamento mais amplo quanto ao conceito. É de se ver que tal identificação não pode ser tida como equivocada. Explicita e individualiza a natureza do instituto como um paladino, um fiscal, um equilíbrio entre os institutos processuais penais e a própria lei penal e constitucional. MARIA THEREZA ROCHA DE ASSIS MOURA conceitua o termo como "a causa conforme o ordenamento jurídico, ou secundumius", ressaltando que é inviável definição absoluta, mas possível um conceito-limite. Demonstrado, assim, o que temos apontado: o tema é amplo, complexo e longe de ser pacificado. Todavia, como parece claro e inconteste, a acusação não pode e não deve ser ilegal, abusiva, temerária ou leviana. Daí ter de vir lastreada em elementos probatórios (fumus delicti). Mas, isso, por si só, não erige, em absoluto, a justa causa a autônoma condição da ação. Tanto é assim que, em uma análise mais criteriosa - e a crítica aqui é construtiva e científica, não procurando desconsiderar os pensamentos destoantes -, o que se releva como quarta condição da ação seria a soma da possibilidade jurídica da acusação e do interesse de agir. A justa causa está em todas as condições da ação, e isso não a faz autônoma, senão mais vinculada. Por tudo isso, ainda ficamos com JOSÉ BARCELOS DE SOUZA quando afirma que a justa causa não é e nem pode ser erigida à quarta condição da ação. Faltando uma das condições para o exercício regular da ação penal, falta a justa causa. A justa causa expande-se em importância e realidade além das condições da ação a ponto de a conceituarmos como um pré-requisito universal da persecutio criminis. É que o iuslibertatis é valioso. Procedimentos fundados em devaneios ou em conjecturas abstratas, ilegalidades ou, ainda, em insuficiência investigatória contrariam o ordenamento jurídico. A ação penal, v.g., só pode e deve ser utilizada quando de sua real necessidade; caso contrário, afrontar-se-ia a CF e de nada valeria consagrar princípios reitores que protegem a liberdade individual. A finalidade da persecutio criminis deve ter uma justa causa provável, sempre, tanto no inquérito quanto no processo, ou na medida cautelar ou execução. Portanto, a justa causa não se limita às condições da ação. A discussão se a justa causa estaria na possibilidade jurídica da acusação ou no interesse de agir ou se seria condição autônoma já é ultrapassada. A jurisprudência, inclusive, já está em outras discussões. Defende-se que a justa causa não se restringe mais ao interesse de agir ou à quarta condição de ação. É pré-requisito universal da persecutio criminis. O primeiro direito do indivíduo suspeito de crime é o direito de preservação de sua dignidade humana. Tanto a ação do Poder Executivo quanto do Poder Judiciário é limitada pela lei, essa mesma lei que protege a dignidade humana. Não se admite mais arbitrariedades - nem grandes, nem pequenas, nem sobre o manto cego do tecnicismo jurídico de diferenciar processo de procedimento e nivelar a liberdade do indivíduo por esse aspecto. Esse direito de preservação da dignidade humana protege substancialmente nós cidadãos contra investigações irregulares sobre nossas pessoas e pertences. O que estamos defendendo é que a linha que separa o que é considerado legal - à luz da necessidade de investigar o crime em benefício da comunidade - do que é ilegal - à luz do direito de preservação da dignidade humana - é demarcada pela justa causa. Sem a probabilidade de que a causa seja justa, haverá Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 39 espoliação do status dignitatis do acusado. É dizer que, sempre, deve haver uma prisão necessária, um inquérito necessário, uma ação necessária, um processo necessário, uma medida cautelar necessária, um libelo-crime necessário e uma execução necessária, sendo certo que é a ação penal um grande filtro (a priori ou a posteriori) desses eventos. Quando o Estado inicia a persecutio criminis, necessita, antes de mais nada, respeitar a liberdade e a dignidade moral do acusado. Sob esse aspecto, uma série de transigências viáveis foram sendo feitas através dos séculos, e hoje alcançam grandeza constitucional. Todavia, essas garantias não impedem a atuação do poder-dever de punir. Não impedem, mas limitam e exigem pré-requisitos. Uma vez estabelecido que é provável que a causa seja justa, pelo conjunto de elementos probatórios, as relações entre o acusado e o Estado alcançam o seu ponto crítico. É tão crítico que não é possível um julgamento válido sem defesa em nosso sistema acusatório misto. A justa causa está para a persecutio criminis assim como o processo penal está para o Estado Democrático de Direito. Analogamente ao que disse GRISPIGNI quanto ao bem jurídico, dizemos que a justa causa é a alma da persecutio criminis, o espírito de liberdade vivo no nosso Estado Democrático de Direito. A justa causa está presente além das condições da ação. É o próprio motivo para agir, seja em que quadrante do processo ou procedimento penal estejamos. É o escudo contra qualquer tipo de abuso do poder-dever de acusar ou qualquer ilegalidade. Como destacado pelo mesmo autor, o significado dessa expressão vai além das condições da ação e, nas mais variadas situações do processo penal, é o fundamento maior para a prisão, para o inquérito policial, para a medida cautelar e até mesmo para a execução penal. Quem já não ouviu falar de trancamento do inquérito policial, por exemplo, por falta de justa causa? Estamos diante de um tema próprio do processo penal, não há figura correlata no processo civil. Estamos à frente de um ‘filtro’ de fundamento jurídico que ganha corpo, dentro de uma persecução penal concreta, por meio do conjunto probatório que lhe dá embasamento. E assim acontece no processo penal justamente porque aqui o elemento probatório, fático, é o que legitima a atuação estatal. Em outras palavras: se há um mínimo de provas, não é abusiva a atuação do Estado, seja na investigação seja no processo; se não há esse suporte probatório mínimo (locução mais utilizada para definir o instituto), toda e qualquer atuação do Estado é potencialmente arbitrária. O fumus comissi delicti, a plausibilidade da imputação são institutos correlacionados com a justa causa. WARLEY BELO assim expressa quanto à natureza jurídica – que entende bastante ampla – do instituto: A natureza jurídica da justa causa, da mesma forma, estimula grande discussão, e pelos mesmos motivos. Como se percebe, a expressão justa causa - ou falta de justa causa - é dotada de grande amplitude. Seu conceito doutrinário flutua de acordo com a percepção de cada autor. As variantessão muitas. Onde há acusação, em seu sentido mais lato, deve estar presente a justa causa como pré-requisito a uma acusação não abusiva. A cada prova produzida, a cada passo procedimental, há de se justificar o porquê da constrição imposta à liberdade do acusado. Há a necessidade de se prever um controle sobre a justa causa, pois abusos ou ilegalidades devem ser evitados na imposição de qualquer tipo de restrição à liberdade do acusado, seja em sede de inquérito policial ou de processo ou de execução. A justa causa vem apresentada como uma ideia de garantia para a liberdade do cidadão e de limitação da intervenção estatal. Não se trata de pontuarmos a legalidade estrita, pois essa já existe nas letras da lei; trata-se de pontuarmos a eficácia legal, a existência prática e real de proteção no mundo real, e não no mundo das ideias. A justa causa, como entendemos, é a eficácia prática e amplificada do princípio da legalidade. Quando dizemos que a justa causa se liga à legalidade e ao não-abuso do poder-dever de acusar, temos um conceito tão amplo quanto os casos em que caibam HC. É um ponto de partida, mas não definitivo, já que a enumeração do art. 648 do CPP não é exaustiva, e o conceito de justa causa deve ser até mais amplo, pois se liga à própria concepção de dignidade do acusado. PONTES DE MIRANDA, FREDERICO MARQUES e PIMENTA BUENO também Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 40 dão ao tema a mais ampla extensão conceitual. Se faltam, pois, pressuposto processual, condição da ação, se não há prova material ou de autoria, se cabe HC, ou seja, se abarca o amplo e irrestrito conceito de ilegalidade ou abuso de poder ou de direito - ou do poder-dever -, diz-se que há falta de justa causa para a prisão, ou o inquérito, ou a ação etc. É nesse aspecto que, deveras, mais coadunam com o espírito da CF as hipóteses ampliativas que surgem na jurisprudência e os cultuados juristas retro-mecionados (As condições da ação penal e o julgamento de mérito abusivo). BRASILEIRO bem resume as correntes que tratam da natureza jurídica da justa causa: Não há consenso na doutrina acerca da natureza jurídica da justa causa. Vejamos as diversas correntes acerca do assunto: a) justa causa como elemento integrante do interesse de agir: doutrinadores como FREDERICO MARQUES, por exemplo, sustentam que a justa causa se identifica com o fumus boni iuris, que caracteriza o legítimo interesse para a denúncia; b) justa causa como condição da ação penal autônoma: ao lado das demais condições da ação (legitimidade e interesse de agir) — lembre-se que a possibilidade jurídica do pedido perdeu esse status com a vigência do novo CPC —, a justa causa funciona como verdadeira condição para o regular exercício da ação penal condenatória. Nessa linha, como destaca AFRÂNIO SILVA JARDIM, “torna-se necessário ao regular exercício da ação penal a demonstração, prima facie, de que a acusação não é temerária ou leviana, por isso que lastreada em um mínimo de prova. Este suporte probatório mínimo se relaciona com os indícios da autoria, existência material de uma conduta típica e alguma prova de sua antijuridicidade e culpabilidade. Somente diante de todo este conjunto probatório é que, a nosso ver, se coloca o princípio da obrigatoriedade da ação penal pública”; c) justa causa como fenômeno distinto das condições da ação penal: como as condições foram concebidas, inicialmente, com base nos três elementos da ação — partes (legitimidade ad causam), pedido (possibilidade jurídica do pedido), e causa de pedir (interesse de agir), revela-se inviável a transposição do conceito processual civilístico de condições da ação para justificar a verdadeira natureza jurídica da justa causa. Esse entendimento ganhou força com a reforma processual de 2008, já que, ao tratar das causas de rejeição da peça acusatória, o art. 395 do CPP distingue as "condições da ação" da "justa causa", colocando-a em inciso diverso. O inciso II do art. 395 do CPP aponta como causa de rejeição da peça acusatória a falta das “condições para o exercício da ação penal". O inciso III do art. 395, por sua vez, dispõe que a denúncia ou queixa deve ser rejeitada quando faltar justa causa para o exercício da ação penal. Colocada em inciso diverso, fica a impressão de que o CPP considera a justa causa fenômeno distinto das condições da ação penal, que não se enquadraria nem no interesse de agir, nem poderia ser considerada uma terceira condição da ação penal, ao lado da legitimidade e do interesse de agir (Lima, 2018). Independentemente da tese que adotemos, da ‘roupagem’ jurídica, uma coisa é certa: uma ação penal não pode vingar sem que haja justa causa. É hipótese expressa de rejeição da acusação, nos exatos termos do art. 395, III do Código de Processo Penal. Note que, não obstante a relativa complexidade e divergência do tema, ele é objeto de cobrança nos concursos públicos. Olha o que foi cobrado na prova dissertativa do Concurso de 2018 para a magistratura paranaense: Questão 7 - Diferencie as condições da ação penal sob a ótica da concepção eclética e sob a teoria da asserção, considerando a justa causa como espécie de condição da ação, discorrendo sobre os efeitos da absolvição sumária bem como da rejeição da peça acusatória. ESPELHO RESPOSTA - DIREITO PROCESSUAL PENAL Concepção Eclética sobre o direito de ação: o Código de Processo Civil consagrou expressamente a concepção eclética sobre o direito de ação, entendida como o direito ao julgamento do mérito da causa, sendo irrelevante se favorável ou desfavorável, condicionando ao preenchimento de certas condições aferíveis à luz da relação jurídica material deduzida em juízo, às quais ENRICO TULLIO LIEBMAN chamou de Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 41 condição da ação. Segundo esta teoria, o direito de ação não depende da existência do direito material, mas do preenchimento de certos requisitos formais chamados de condições da ação, que não se confundem com o mérito. Quando ausentes, geram uma sentença terminativa de carência da ação (art. 485, VI, do novo CPC), sem a formação de coisa julgada material, o que em tese permite que nova demanda seja renovada, em havendo correção do vício que deu ensejo à sentença sem resolução do mérito (CPC, 486, § 1º). Tratando-se de matéria de ordem pública, não há preclusão, concluindo os defensores desta teoria, que a qualquer momento do processo e com qualquer grau de cognição o juiz deve extinguir o processo sem resolução de mérito por carência da ação, se entender ausente uma das condições da ação. Teoria da Asserção ou teoria da prospettazione: mais recentemente surge esta teoria, defendida por ALEXANDRE FREITAS CÂMARA, segundo a qual a presença das condições da ação deve ser analisada pelo juiz com base nos elementos fornecidos pelo próprio autor em sua inicial, os quais devem ser tomados como verdadeiros, sem nenhum desenvolvimento cognitivo, ou seja, o exame deverá ser feito in statu assertionis. Se o juiz constatar a ausência de uma condição da ação mediante cognição sumária, deve extinguir o processo sem resolução do mérito por carência de ação (art. 485, VI do NCPC), quando houver necessidade de cognição mais aprofundada para análise da presença das condições da ação, a carência de ação passa a ser analisada como mérito, gerando uma sentença de rejeição do pedido do autor com formação de coisa julgada formal e material. Justa causa para a ação penal: o artigo 395 do Código de Processo Penal prevê expressamente que a denúncia ou queixa será rejeitada quando: “faltar justa causa para o exercício da ação penal” (inciso III). Exige-se da acusação lastro probatório mínimo de existência materialde um fato penalmente punível e indícios suficientes de autoria para invocar a tutela jurisdicional, normalmente colhidos no inquérito policial ou de outras peças de informação. Sob a ótica da concepção eclética, evidenciada ausência de justa causa para ação penal, deverá o juiz rejeitá-la, fazendo a decisão apenas coisa julgada formal. Iniciada a ação penal, por se tratar de matéria de ordem pública, não haverá preclusão e a decisão não fará coisa julgada material. No âmbito do processo penal, sob a perspectiva da teoria da asserção, ainda que se analise as condições da ação, com base no que foi narrado na denúncia ou queixa, deverá o juiz aferir se há justa causa, apreciada em cognição superficial, evitando-se denúncia ou queixa infundadas. Para os que consideram a justa causa como espécie de condição da ação penal, verificando a sua ausência por ocasião do juízo de admissibilidade da peça acusatória, deve o magistrado rejeitá-la, nos termos do art. 395, III do Código de Processo Penal, fazendo a decisão apenas coisa julgada formal. A ausência de justa causa após apresentação da resposta do acusado, mediante cognição profunda, implicará na absolvição sumária com base no artigo 397, inciso III, do Código de Processo Penal, com julgamento de mérito, fazendo coisa julgada formal e material. A doutrina ainda faz alusão à justa causa duplicada. O termo teria origem no crime de lavagem, conforme Lei 9.613/1998: Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. Aqui haveria a necessidade de lastro probatório tanto para a ocultação ou dissimulação dos capitais como para a proveniência deles do crime. Mais especificamente, olha o que diz a Lei no art. 2º: § 1º A denúncia será instruída com indícios suficientes da existência da infração penal antecedente, sendo puníveis os fatos previstos nesta Lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a punibilidade da infração penal antecedente. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 42 Exige a lei, portanto, “lastro probatório mínimo quanto à lavagem e quanto à infração precedente” (Lima, 2018). A doutrina chama isso de justa causa duplicada. 2.1.3 Como categorias próprias do processo penal Até agora vimos as condições genéricas da ação, considerando a teoria geral do processo civil. Todavia, parte da doutrina compreende que o processo penal tem categorias próprias, diferentes daquelas que já estudamos. Isso se deve às diferenças essenciais entre esses ramos do Direito, conforme já pontuamos. O ponto de partida, para aqueles que referem a condições da ação exclusivas do processo penal, também aproveitando o art. 395, é o revogado art. 43 do Código de Processo Penal, que dizia: Art. 43. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: I – o fato narrado evidentemente não constituir crime; II – já estiver extinta a punibilidade, pela prescrição ou outra causa; III – for manifesta a ilegitimidade de parte ou faltar condição exigida pela lei para o exercício da ação penal. Assim, as condições da ação seriam: prática de fato aparentemente criminoso, punibilidade concreta, legitimidade de parte e justa causa. Já falamos sobre as duas últimas, de maneira que agora vamos explicar somente as duas primeiras. a) prática de fato aparentemente criminoso: essa condição é especificamente trazida, a contrario sensu, do antigo e revogado inciso I do art. 43 (que falava da rejeição da denúncia), disposição reproduzida praticamente igual, hoje, no inciso III do art. 397 do CPP (que trata da absolvição sumária). Art. 397. Após o cumprimento do disposto no art. 396-A, e parágrafos, deste Código, o juiz deverá absolver sumariamente o acusado quando verificar: [...] III - que o fato narrado evidentemente não constitui crime; [...] É a “criminalidade aparente”, como diz BRASILEIRO: Só se pode admitir o oferecimento de peça acusatória se a conduta delituosa atribuída ao acusado for, em tese, típica, ilícita e culpável. Se da própria peça acusatória já se pode constatar a ausência de um dos elementos do conceito analítico de crime – tipicidade, ilicitude e culpabilidade –, independentemente de qualquer dilação probatória, não se pode admitir a instauração de um processo penal contra alguém (Lima, 2018). Mas se a hipótese é motivo de rejeição da acusação por falta de condição da ação (pelo artigo 395, II, CPP) e também de absolvição sumária, nos termos do inciso III do art. 397 do CPP, como deve ser analisada? Em outras palavras: verificando a excludente, de forma manifesta (em caso de dúvida deve se resolver pela continuidade da ação), o juiz deve rejeitar a denúncia ou absolver sumariamente o réu? A resposta vem nas palavras de AURY LOPES JR.: Em suma, a questão deve ser analisada da seguinte forma: a) se a causa de exclusão da ilicitude ou culpabilidade estiver demonstrada no momento em que é oferecida a denúncia ou queixa, poderá o juiz rejeitá-la, com base no art. 395, II (falta uma condição da ação penal, qual seja, a prática de um fato aparentemente criminoso); b) se o convencimento do juiz (sobre a existência da causa e exclusão da ilicitude ou da culpabilidade) somente for atingido após a resposta do acusado, já tendo sido a denúncia ou queixa recebida portanto, a decisão será de absolvição sumária (art. 397). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 43 b) Punibilidade concreta: essa apontada condição da ação (observada a corrente doutrinária que estamos estudando) também estava no revogado artigo 43, II (antes transcrito), hoje substituído pelo art. 395 do CPP (que trata da rejeição da denúncia). Assim, para que uma ação penal seja viável, a infração penal nela tratada tem de ser passível de punição; ou, em outras palavras, não pode ter se operado uma causa de extinção da punibilidade. Na esteira do art. 395, II do CPP, parte final, quando o juiz constatar a presença manifesta de alguma causa de extinção da punibilidade, deverá ‘rejeitar’ a denúncia ou a queixa. Ocorre, mais uma vez, que essa hipótese (de extinção da punibilidade), além de traduzir uma condição da ação, também está prevista como motivo para absolvição sumária: Art. 397. Após o cumprimento do disposto no art. 396-A, e parágrafos, deste Código, o juiz deverá absolver sumariamente o acusado quando verificar: [...] IV - extinta a punibilidade do agente. E aí, novamente a mesma indagação: o juiz deve rejeitar a acusação ou absolver sumariamente caso verifique essa hipótese? Deve o juiz rejeitar a denúncia ou queixa quando houver prova da extinção da punibilidade. A decisão de absolvição sumária fica reservada aos casos em que essa prova somente é produzida após o recebimento da denúncia (ou seja, após a resposta escrita do acusado). Quando presente a causa de extinção da punibilidade, como a prescrição, decadência e renúncia (nos casos de ação penal de iniciativa privada ou pública condicionada à representação), a denúncia ou queixa deverá ser rejeitada ou o réu absolvido sumariamente, conforme o momento em que seja reconhecida (Júnior, 2018). RENATO BRASILEIRO traz um exemplo e manifesta sua opinião no sentido de que em ambas as situações haveria formação de coisa julgada material. Em outras palavras, se o magistrado formou sua convicção acerca da presença de uma causa extintiva da punibilidade por ocasião do oferecimento da peça acusatória, verificando o juiz, por exemplo, que o ofendido teria decaído do direito de queixa, já que a ofereceu nove meses após saber quem seria o autor do crime, deve rejeitar a exordial acusatória, com fundamentono art. 395, inciso II, do CPP, hipótese em que referida decisão fará coisa julgada formal e material. Se, no entanto, se convencer da presença de causa extintiva da punibilidade somente após o recebimento da peça acusatória, a citação do acusado e a apresentação e sua resposta à acusação, o caminho natural será a absolvição sumária, com base no art. 397, inciso IV, do CPP, que também fará coisa julgada formal e material. (Lima, 2018). 2.2 CONDIÇÕES ESPECÍFICAS DA AÇÃO PENAL Bom, até agora vimos, por uma e outra corrente doutrinária, as condições genéricas da ação penal; passaremos a analisar as específicas. Em determinadas situações, a lei erige requisitos pontuais (que não aplicam a todos os casos) que acabam por condicionar o exercício da respectiva ação penal – são as condições de procedibilidade. “Na verdade, se refletirmos bem, as condições específicas da ação penal não passam de uma particular possibilidade jurídica do pedido” (Pacelli, 2018). No processo penal, em determinadas situações, a lei exige o preenchimento de determinadas e específicas condições para o exercício da ação penal. [...] A doutrina, de modo geral, considera as condições de procedibilidade condições específicas da ação penal (porque somente exigíveis para determinadas ações), enquanto as demais, comuns a qualquer ação (interesse, legitimidade e possibilidade jurídica), seriam as condições genéricas da ação penal. Acompanhando a doutrina de AFRÂNIO SILVA JARDIM (1999, p. 98), parece-nos que as chamadas condições de procedibilidade da ação podem ser perfeitamente conduzidas à categoria da possibilidade jurídica do pedido, e aí efetivamente como condições da ação. No ponto, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 44 vale a pena transcrever lição de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, para quem “[...] o cotejo do pedido com o direito material só pode levar a uma solução de mérito, ou seja, à sua improcedência, caso conflite com o ordenamento jurídico, ainda que a pretensão, prima facie, se revele temerária ou absurda [...] impõe-se restringir a possibilidade jurídica do pedido a seu aspecto processual, pois só assim estaremos diante de uma verdadeira condição da ação, como requisito prévio de admissibilidade do exame da questão de mérito. [...] Com efeito, o pedido que o autor formula ao propor a ação é dúplice: 1º, o pedido imediato, contra o Estado, que se refere à tutela jurisdicional; e 2º, o pedido mediato, contra o réu, que se refere à providência de direito material. A possibilidade jurídica, então, deve ser localizada no pedido imediato, isto é, na permissão, ou não, do direito positivo a que se instaure a relação processual em torno da pretensão do autor [...]” (Pacelli, 2018). O raciocínio em relação ao reconhecimento da sua inexistência é o mesmo para as condições genéricas: dará ensejo à rejeição da denúncia (art. 395, II); se reconhecida posteriormente, pode resultar em nulidade, nos termos do art. 564, II do CPP (aplicado em analogia); e, ainda, extinção do processo, sem julgamento do mérito, nos termos do art. 485, VI do Código de Processo Civil (por aplicação analógica). Exemplos comuns que a doutrina traz: representação da vítima (nos crimes em que é exigida); requisição do Ministro da Justiça (nos crimes em que é exigida); provas novas em relação à retomada de inquéritos já arquivados, nos termos da Súmula 524 do STF7, e também em relação à impronúncia, conforme parágrafo único do art. 414 do CPP. Temos mais exemplos. Laudo pericial nos crimes contra a propriedade imaterial: Art. 525. No caso de haver o crime deixado vestígio, a queixa ou a denúncia não será recebida se não for instruída com o exame pericial dos objetos que constituam o corpo de delito. Autorização da Câmara dos Deputados, nos termos da Constituição Federal: Art. 51. Compete privativamente à Câmara dos Deputados: I - autorizar, por dois terços de seus membros, a instauração de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado; Trânsito em julgado da sentença anulatória de casamento, para o crime de induzimento a erro essencial e ocultação do impedimento, conforme previsto no Código Penal: Art. 236 - Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Parágrafo único - A ação penal depende de queixa do contraente enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento. Repare que toda vez que, de uma forma ou de outra, a Constituição ou as leis trouxerem condicionantes para o exercício da ação penal, para o recebimento da acusação ou para a instauração do processo (de um modo geral), poderemos estar diante de uma condição específica da ação penal – condição de procedibilidade. BRASILEIRO distingue de condição de prosseguibilidade: Condição da ação (ou de procedibilidade) é uma condição que deve estar presente para que o processo penal possa ter início. A título de exemplo, verificando-se a prática de crime de lesão corporal leve ocorrido em data de 20 de janeiro de 2010, temos que a representação é uma condição de procedibilidade, porquanto, sem o seu implemento, não será possível o oferecimento de denúncia em face do suposto autor 7 Como analisado na aula anterior. Súmula 524: arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem novas provas. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 45 do delito, já que o art. 88 da Lei nº 9.099/95 dispõe que o crime de lesão corporal leve depende de representação. Condição de prosseguibilidade (ou condição superveniente da ação) é uma condição necessária para o prosseguimento do processo. Em outras palavras, o processo já está em andamento e uma condição deve ser implementada para que o processo possa seguir seu curso normal. Exemplo interessante é aquele constante do art. 152, caput, do CPP. De acordo com tal dispositivo, se se verificar que a doença mental do acusado sobreveio à infração, o processo permanecerá suspenso até que o acusado se restabeleça. Como se percebe, a necessidade de o agente recobrar sua higidez mental no caso de insanidade superveniente é uma condição de prosseguibilidade do processo; sem o seu implemento, o processo fica paralisado, com a prescrição correndo normalmente, o que é denominado pela doutrina de crise de instância. (Lima, 2018). Ou seja: a distinção entre uma e outra diz respeito ao fato da condicionante atuar em relação ao início ou à continuidade/prosseguimento da ação penal – e o nome, nesse sentido, nos ajuda a fixar a distinção. Há diferença, também, em relação a escusa absolutória e condição objetiva de punibilidade, essas que dizem respeito não ao processo, mas sim ao Direito Penal. HELENO CLÁUDIO FRAGOSO esclarece: Crime é ação ou omissão típica, antijurídica e culpável. Como regra geral, em consequência, pratica crime, e deve sofrer a consequência jurídica correspondente, quem transgride a norma que lhe impõe proibição ou mandado, atuando ou omitindo-se de forma ilícita e reprovável. Há, todavia, casos em que a punibilidade depende de condições objetivas exteriores à conduta (condições objetivas de punibilidade) e casos em que ela se exclui tendo em vista condições pessoais do agente ou seu comportamento posterior (escusas absolutórias). Atende-se, em tais casos, à ocorrência de elementos ou circunstâncias exteriores ao fato que, por motivos de política criminal, condicionam sua ilicitude penal ousua punição (Fragoso, 1993). A lei penal brasileira não tem disposição geral expressa em relação às condições objetivas de punibilidade. São objetivas porquanto independem de culpa ou dolo e normalmente são determinadas por razões de política criminal, “entendendo o legislador que sem elas não se justifica a punibilidade do fato, pela ausência de dano efetivo ao interesse tutelado ou por outra razão de oportunidade ou conveniência”. É a “circunstância de que depende a punibilidade”, “o antecedente indispensável para que ocorra a punibilidade do fato”; “acontecimentos exteriores ao tipo, que a lei estabelece como indispensáveis à punibilidade do fato”; “elementos suplementares ao tipo, mas não se incluem no mesmo, caracterizando-se precisamente pela circunstância de serem exteriores” (Fragoso, 1993). Já falamos, ao começo da aula, que punibilidade seria a consequência do crime. Por vezes, por mais que uma conduta seja típica, a lei cria condições que impedem a sua punição. “São condições exigidas pelo legislador para que o fato se torne punível e que estão fora do injusto penal”; traduzem um “acontecimento futuro e incerto” e funcionam como “fatos externos ao tipo penal, que devem ocorrer para a formação de um injusto culpável punível” (Lima, 2018). Existe divergência na doutrina quanto à natureza jurídica: Conforme LUIZ RÉGIS PRADO, a exata definição das condições objetivas de punibilidade é questão tormentosa. Por um lado, parte da doutrina considera-as como acontecimentos futuros e incertos, cuja realização é indispensável para a integração jurídica do delito. Admitindo-se a punibilidade como elemento do conceito de crime, argumenta-se estar fora de dúvida não haver delito enquanto não se verifique a ocorrência da condição. Faltaria, aqui, um elemento que, no caso específico, é pressuposto para a existência de um requisito essencial do delito. De outra parte, defende-se que as condições objetivas de punibilidade integram a noção de tipo penal em sentido amplo, isto é, aquele que engloba não apenas os Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 46 elementos que fundamentam positivamente o injusto, mas também os que condicionam sua punibilidade. As condições objetivas de punibilidade pertenceriam, pois, ao tipo penal porque condicionariam sua objetiva relevância penal. Além disso, uma terceira posição, diversa das anteriores, entende que as condições objetivas de punibilidade pressupõem um delito completo em todos os seus elementos constitutivos, funcionando, portanto, como condicionantes da aplicação concreta da pena. Segundo essa corrente de pensamento, tais condições não constituem requisitos do delito – como postulam aqueles para os quais a punibilidade é elemento do crime –, mas dizem respeito à imposição da sanção penal, visto que o crime já estaria perfeito em todos os seus elementos estruturais. Logo, a função dessas condições não seria certamente a de permitir a punibilidade de um delito pelo seu concurso ao aperfeiçoamento do mesmo, mas sim a de, excepcionalmente, suspender a punibilidade, submetendo-a à ocorrência de um evento ulterior e extrínseco de um delito já perfeito (KALINCA DE CARLI. Condições objetivas e causas extintivas da punibilidade do autor do delito, 2013)8. Exemplo haveria nos crimes falimentares da Lei 11.101/2005: Art. 180. A sentença que decreta a falência, concede a recuperação judicial ou concede a recuperação extrajudicial de que trata o art. 163 desta Lei é condição objetiva de punibilidade das infrações penais descritas nesta Lei. As escusas absolutórias também são condições de punibilidade, “mas diferem radicalmente das que acima analisamos, porque são condições negativas de punibilidade do crime. Subsiste aqui a ilicitude, ocorrendo apenas causas pessoais de exclusão de pena. Não beneficiam aos coautores ou partícipes a que não se refiram” (Fragoso, 1993). Perceba: o crime se configura por uma conduta típica, antijurídica e culpável, mas o agente estará isento de pena. Exemplos do Código Penal, em relação a crimes contra o patrimônio praticados sem violência: Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste título, em prejuízo: I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal; II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou natural. Também em relação ao crime de favorecimento pessoal: Art. 348 - Auxiliar a subtrair-se à ação de autoridade pública autor de crime a que é cominada pena de reclusão: Pena - detenção, de um a seis meses, e multa. [...] § 2º - Se quem presta o auxílio é ascendente, descendente, cônjuge ou irmão do criminoso, fica isento de pena. “Em tais casos, o fato não perde o seu caráter delituoso, declarando-se, porém, a isenção de pena por motivos de oportunidade ou política criminal” (Fragoso, 1993). Em dada oportunidade (19/08/2013), numa rede social, assim se pronunciou GUILHERME NUCCI quanto à diferença entre os institutos analisados: As condições objetivas de punibilidade são as condições exteriores à conduta delituosa, não abrangidas pelo elemento subjetivo, que, como regra, estão fora do tipo penal, tornando-se condições para punir. São causas extrínsecas ao fato delituoso, não cobertas pelo dolo do agente. Ex.: sentença declaratória de falência em relação a alguns casos de crimes falimentares (art. 180, Lei 11.101/2005). As condições negativas de punibilidade são as escusas especiais e pessoais, fundadas em razões de ordem utilitária ou sentimental, que não afetam o crime, mas somente a punibilidade. Têm efeito idêntico ao das condições objetivas de 8 http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,condicoes-objetivas-e-causas-extintivas-da-punibilidade-do-autor-do-delito,45549.html Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 47 punibilidade, mas natureza jurídica diversa. Ex.: art. 181, I e II, ou art. 348, § 2.º, do Código Penal (crimes contra o patrimônio e favorecimento pessoal, respectivamente)9. BRASILEIRO diz que há diferenças (Lima, 2018): condições objetivas de punibilidade escusas absolutórias Eventos futuros e incertos; Antecipam-se ao momento consumativo da infração; excluem a imposição de pena desde o começo; apresentam-se se modo positivo, ou seja, sua presença autoriza a punibilidade do crime; formuladas de maneira negativa, representando condições negativas de punibilidade; quando ausentes, impossibilitam a punição dos coautores e partícipes. não se comunicam com coautores e partícipes, são causas pessoas de isenção de pena. Mais didático ainda é o gráfico comparativo trazido por NORBERTO AVENA: 9 https://www.facebook.com/guilhermenucci2/posts/226233440864068 Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 48 Existe discussão sobre o esgotamento da via administrativa e o que essa exigência configuraria (sua natureza jurídica) em relação aos crimes tributários. A discussão entra muito no direito material, mas vale a pena, ao menos, trazer a lição de PACELLI acerca do assunto: Nas edições anteriores deste Curso, e em atenção à dimensão constitucional da questão, deitamos falação acerca de uma suposta condição de procedibilidade em matéria de crimes contra a ordem tributária (e previdenciária), apontada em alguns setores da doutrina e da jurisprudência. Trata-se da exigência, ou não, do esgotamento da via administrativa para o início da persecução penal, ou, de outro, se existiria ou não essacondição de procedibilidade. No entanto, parece-nos desnecessário prosseguirmos no tema. É que a Suprema Corte já consolidou seu entendimento sobre a matéria, entendendo existir, não uma condição de procedibilidade, mas, mais que isso, uma condição objetiva de punibilidade. Uma condição de procedibilidade é uma questão processual; a condição objetiva de punibilidade, ao contrário, diz respeito CONDIÇÕES GERAIS DA AÇÃO a)Possuem caráter geral e devem estar presentes em qualquer ação penal. b) Consistem: b.1) Possibilidade jurídica do pedido: viabilidade de condenação, o que implica tipicidade da conduta. b.2) Interesse de agir: indícios de autoria e prova da existência do crime. b.3) Legitimidade: b.3.1) ativa: Ministério Público, na ação penal pública; e o ofendido, na ação penal privada. b.3.2) passiva: indivíduo maior de 18 anos. CONDIÇÕES ESPECIAIS DA AÇÃO OU DE PROCEDIBILIDADE a) São específicas, sem caráter geral, vinculando o exercício da ação penal em apenas alguns casos. b) Referem-se, unicamente, à instauração do processo e não envolvem diretamente aspectos pertinentes ao mérito. c) Como exemplos destas condições, as hipóteses em que a lei exige a representação do ofendido ou a requisição do Ministro da Justiça para que possa o Ministério Público ingressar com ação. CONDIÇÕES OBJETIVAS DE PUNIBILIDADE a) Trata-se de circunstâncias exteriores ao crime, não integrantes do tipo e de acontecimento futuro e incerto, ou seja, o agente não sabe se acontecerá ou não esta condição à época do crime. b) Exemplo típico encontra-se no art. 180 da Lei 11.101/2005 ao dispor que a sentença que decreta a falência, é condição objetiva de punibilidde das infrações penais descritas naquela lei. ESCUSAS ABSOLUTÓRIAS a) Trata-se de causas contempladas na parte Especial do CP, que fazem com que um fato típico e antijurídico, apesar da culpabilidade do agente, não conduza a aplicação da pena por motivos de política criminal. b) Exemplo: Furto praticado por descendente contra ascendente menor de 60 anos (art. 181, II c/c o art. 183, III, do CP), em que, pela condição do agente (filho da vítima), permanece isento de pena. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 49 ao Direito Penal. Por isso, deixamos apenas registrada a polêmica, atualmente encerrada com a Súmula Vinculante 24, do STF: “Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, I a IV, da Lei 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo.” A Suprema Corte, bem se vê, ressalva a situação dos delitos formais, ou de mera conduta, tal a hipótese daqueles elencados no art. 2º da mesma Lei nº 8.137/90, para os quais não existiria a necessidade de esgotamento da via administrativa. Mas note- se que nem mesmo ali há convergência conceitual sobre a matéria. No HC nº 81.611-SP, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, fixou-se orientação no sentido de se reconhecer uma condição objetiva de punibilidade – fora do tipo, pois – na apreciação da questão (tributo devido ou não) pela Administração Fazendária. Já no julgamento do HC nº 84.555-0/RJ, Rel. Min. CEZAR PELUSO, 14.9.2007, 2ª Turma, o que se decidiu foi pela subordinação do Ministério Público aos órgãos fazendários, dado que “ser devido ou não” o tributo seria um elemento normativo do tipo, de modo que a manifestação da Fazenda não seria condição de punibilidade. A consequência de tal decisão é da maior gravidade: entendeu-se que quando estiver presente a decadência do tributo (prazo de cinco anos) não restará tipo penal algum! E no Superior Tribunal de Justiça, então, sequer se adotou a distinção da citada Súmula Vinculante de nº 24. Veja-se, por exemplo, decisão proferida pela 5ª Turma do STJ, HC nº 97.789-SP, Rel. Min. NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, julgado em 3.12.2009, na qual se vislumbra condição objetiva de punibilidade também para crimes tributários formais. Com isso, de nada mais adiantaria discutir a independência entre a instância administrativa, responsável pela constituição do crédito tributário, e a judiciária. Parece desimportante, portanto, a titularidade do parquet para a ação penal. Nos crimes tributários, ela dependerá do procedimento administrativo. Não aderimos a essa orientação: nos chamados crimes materiais, cuja consumação exige não só resultado, mas a prática de ação fraudulenta (no tipo penal), nada poderia impedir o Ministério Público de examinar a matéria, independentemente da posição da Receita Federal, sobretudo porque, ainda que não devido o tributo, poder-se-ia encontrar crime remanescente – falsidade material, por exemplo. Note-se que ali, hipóteses do art. 1º, I a IV, há a previsão de condutas fraudulentas nos tipos penais. São estes os caminhos percorridos na discussão da matéria, ora sob a perspectiva de suposta ausência de condição objetiva de punibilidade (condição ou circunstância que se encontra fora do tipo penal), ora no campo da própria tipicidade (a consumação dependeria de ser devido o tributo), ambos no âmbito do Direito Penal, e até mesmo no campo processual, de suposta ausência de condição de procedibilidade para a ação penal tendo por objeto crime contra a ordem tributária. A existência do tributo e do crime dependeria, portanto, nessa linha de raciocínio, da manifestação final da Administração Fazendária. No julgamento do leading case da questão, HC nº 81.611/DF, no Supremo Tribunal Federal, em que foi Relator o eminente Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Sua Excelência, cujo voto foi seguido pela maioria – vencidos os Mins. JOAQUIM BARBOSA, CARLOS AYRES e a Min. ELLEN GRACIE –, acolheu a ausência de justa causa para a ação, cuidando, porém, de sustar o curso do prazo prescricional, enquanto não resolvida a matéria no âmbito fazendário. Em um ponto o ilustre e então Min. PERTENCE tinha e tem razão: a possibilidade de extinção da punibilidade pelo pagamento do tributo – e também pelo parcelamento, com o respectivo reconhecimento do débito – pode funcionar como instrumento de inibição ao contribuinte, relativamente ao eventual questionamento, administrativo e judicial, do débito. Quanto a isso, pode-se objetar, porém, que a solução mais adequada não seria o reconhecimento da ausência de justa causa para a ação, quando não resolvida definitivamente a matéria administrativa, mas, sim, a suspensão do processo penal, se demonstrada a relevância da questão, a ser revelada, por exemplo, com a decisão judicial (cível) de suspensão da exigibilidade do tributo. Aplicar-se-ia, portanto, o disposto no art. 93 do CPP, que cuida da chamada questão prejudicial heterogênea. Nesse caso, a suspensão do processo teria prazo certo, no curso do qual não correria a prescrição (art. 116, I, CP). De todo modo, o aspecto mais problemático da questão se encontra na mencionada decisão da 2ª Turma do STF no HC nº 84.555-0-RJ, Rel. Min. CEZAR PELUSO, no sentido de que a fluência do prazo decadencial da constituição do crédito tributário implicaria a impossibilidade de realização do tipo penal relativo à conduta tendente a suprimir ou reduzir tributo devido. No mesmo sentido, STJ – HC nº 77.986-MS, Rel. Min. ARNALDO ESTEVES LIMA, julgado em 13.9.2007. Ora, na hipótese de decadência tributária, quando a constituição do crédito tributário não se opera por razões absolutamente independentes da existência ou não do crédito, e da existência ou não de crime, não se pode recusar a intervenção penal, desde que ainda não prescrito o delito. Fazer decorrer da decadência tributária, matéria de política fiscal, uma modalidade de causa extintiva da punibilidade constitui indevida ingerência no âmbito da política criminal. Indevida e sem previsão legal. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado)www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 50 Fazer o Ministério Público depender da presteza dos órgãos fazendários na constituição do crédito não nos parece juridicamente justificado (Pacelli, 2018). Doutrina Complementar PAULO RANGEL (Direito processual penal, 26ª ed., São Paulo: Atlas, 2018): “As condições para o regular exercício do direito de agir estão intimamente ligadas ao caso penal deduzido em juízo pelo autor, independentemente de haver ou não o direito que ele alega. Ou seja, não podemos vincular estas condições ao direito material discutido. [...] As condições para o regular exercício do direito de agir podem ser as que são exigidas, normalmente, para todo e qualquer tipo de ação penal e que chamamos de genéricas (legitimidade, interesse, possibilidade jurídica e justa causa) e as que somente em determinados casos são exigidas pela lei e que chamamos de específicas (representação do ofendido na ação penal pública condicionada; laudo prévio na Lei de entorpecentes; novas provas no caso do art. 409 do CPP, dentre outras)”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017): “A existência das condições da ação deve ser analisada pelo juiz, portanto, já no momento em que proferir decisão de recebimento ou rejeição da inicial acusatória, quando então declarará o autor carecedor do direito de ação, caso ausente qualquer delas, mas, ainda que ultrapassado esse momento sensível da instância penal, caberá a extinção do processo sob tal fundamento, a qualquer tempo, inclusive em segundo grau de jurisdição. A ausência de qualquer das condições da ação torna a imputação temerária e inviabiliza a marcha procedimental, de modo a determinar a extinção do processo sem julgamento do mérito, daí afirmarmos que a presença de todas constitui condictio sine qua non para o exercício do direito de ação”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Conquanto a expressão ‘condições da ação’ tenha enorme aceitação na doutrina do direito processual como um todo, é certo que o direito de ação, em si, não é condicionado, conforme já mencionado. Qualquer pessoa do povo, bem como os órgãos do Ministério Público, podem livremente ajuizar ações perante o Poder Judiciário, após o que o órgão provocado estará obrigado a conceder ao autor uma resposta, ainda que seja para negar seguimento à ação ajuizada. Por isso, ao contrário do que ensinava a doutrina tradicional, não é propriamente o exercício do direito de ação que é condicionado, mas sim o direito de que o movimento desencadeado pelo ajuizamento da ação se desenvolva, por meio do processo, em direção a um julgamento de mérito. Nesse sentido, a definição de Liebman, segundo a qual as condições da ação constituem as ‘condições essenciais para o exercício da função jurisdicional com referência à situação concreta deduzida em juízo’”. Condições genéricas da ação FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018), a respeito das condições genéricas da ação, pontua: “Possibilidade jurídica do pedido. Se no processo civil o conceito de possibilidade jurídica é negativo, isto é, ele será juridicamente admissível desde que, analisado em tese, o ordenamento não o vede, no processo penal seu conceito é aferido positivamente: a providência pedida ao Poder Judiciário só será viável se o ordenamento, em abstrato, expressamente a admitir. Nesse passo, a denúncia deverá ser rejeitada quando o fato narrado evidentemente não constituir crime. Essa hipótese poderá, após oferecida a defesa dos arts. 396 e 396-A do CPP, dar causa à absolvição sumária do agente (CPP, art. 397, III). [...] Analisa-se o fato tal como narrado na peça inicial, sem se perquirir se essa é ou não a verdadeira realidade, a fim de se concluir se o ordenamento penal material comina-lhe, em abstrato, uma sanção. [...] Interesse de agir. Desdobra-se no trinômio (i) necessidade e (ii) utilidade do uso das vias jurisdicionais para a defesa do interesse material pretendido, e (iii) adequação à causa, do procedimento e do provimento, de forma a possibilitar a atuação da vontade concreta da lei segundo os parâmetros do devido processo legal. A necessidade é inerente ao processo penal, tendo em vista a impossibilidade de se impor pena sem o devido processo legal. [...] A utilidade traduz-se na eficácia da atividade jurisdicional para satisfazer o interesse do autor. Se, de plano, for possível perceber a inutilidade da persecução penal aos fins a que se presta, dir-se-á que inexiste interesse de agir. [...] É o caso, e. g., de se oferecer denúncia quando, pela análise da pena possível de ser imposta ao final, se eventualmente comprovada a culpabilidade do réu, já se pode antever a ocorrência da prescrição retroativa. [...] Por fim, a adequação reside no processo penal condenatório e no pedido de aplicação de sanção penal. Legitimação para agir. [...] Cuida-se, aqui, da legitimidade ad causam, que é a legitimação para ocupar tanto o polo ativo da relação jurídica processual, o que é feito pelo Ministério Público, na ação penal pública, e pelo ofendido, na ação penal privada Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 51 (CPP, arts. 24, 29 e 30), quanto o polo passivo, pelo provável autor do fato, e da legitimidade ad processum, que é a capacidade para estar no polo ativo, em nome próprio, e na defesa de interesse próprio (CPP, arts. 33 e 34)”. FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO (Processo penal, vol. 1, 32ª ed., São Paulo: Saraiva, 2010), concebendo as condições genéricas como sendo a legitimidade e o interesse de agir, assevera: “A) Legitimatio ad causam. [...] Ela é, como diz Buzaid, a pertinência subjetiva da ação. Somente o titular do interesse em lide é que pode promovê-la. Assim, como na lide penal, informada da pretensão punitiva e do direito de liberdade, o Estado tem sempre interesse, visto que titular do direito de punir e, de consequência, da pretensão punitiva, segue-se que, no campo repressivo, é ele, por meio do seu órgão competente, que é o Ministério Público, sempre par te legítima para agir, para promover a ação penal. [...] Somente as partes que têm interesse no conflito é que são legítimas: a que pode promover a ação e aquela em relação a quem esta deve ser proposta. Daí as duas legitimações: legitimação ativa (paia promovê-la) e legitimação passiva (em relação a quem deve ser proposta). Somente quem tem legitimação ativa é que pode iniciar a ação penal, e, por outro lado, esta deve ser promovida em relação àquele que tem legitimação passiva, vale dizer, em relação ao genuíno autor da infração. [...] B) Interesse de agir. [...] Em face do princípio do nulla poena sine judice, não se concebe a aplicação da pena senão por meio do Juiz. Logo, não podendo o Estado conseguir aquele ‘interesse substancial ou primário’ que descansa na repressão à infração, com a inflição da pena, senão por meio do Juiz, o interesse de agir estará implícito em toda acusação, em toda e qualquer ação penal. Todavia e a despeito desse raciocínio lógico, quem quer que se detenha na análise do CPP chegará à conclusão inarredável de que o legitimo interesse, embora implícito em toda acusação, exige um plus. Quando se conceitua o interesse de agir como necessidade de se valer do órgão jurisdicional sob pena de se sofrer um prejuízo, está claro que se supõe existente um estado de fato antijurídico, porque, se não houver tal situação de fato contrária ao direito, ninguém pode exercitar o direito de ação, que, como vimos, é instrumentalmente conexo a um caso concreto. Só existe o direito de ação como realidade processual quando há um interesse emergente de um estado de fato contrário ao direito e interesse que se possa fazer valer por meio da via jurisdicional”.NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016), sobre a ‘justa causa’ como eventual quarta condição genérica da ação penal, sustenta: “Justa causa: a ação só pode ser validamente exercida se a parte autora lastrear a inicial com um mínimo probatório que indique os indícios de autoria, da materialidade delitiva, e da constatação da ocorrência de infração penal em tese (art. 395, III, CPP). É o fumus commissi delicti (fumaça da prática do delito) para o exercício da ação penal. Como a instauração do processo já atenta contra o status dignitatis do demandado, não se pode permitir que a ação seja uma aventura irresponsável, lançando-se no polo passivo, sem nenhum critério, qualquer pessoa. [...] A justa causa, todavia, não é pacificamente aceita como quarta condição da ação. Alguns a integram ao interesse de agir, ou mesmo como requisito ao desenvolvimento do procedimento, ‘e não à propositura da demanda’”. AURY LOPES JR. (Direito processual penal, 13ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018), sustentando visão contrária e minoritária, critica a migração de conceitos provenientes do processo civil para o processo penal: “Quanto às condições da ação, a doutrina costuma dividi-las em: legitimidade, interesse e possibilidade jurídica do pedido. O problema está em que, na tentativa de adequar ao processo penal, é feita uma verdadeira ginástica de conceitos, estendendo-os para além de seus limites semânticos. O resultado é uma desnaturação completa, que violenta a matriz conceitual, sem dar uma resposta adequada ao processo penal. Vejamos por que: a) Legitimidade: esse é um conceito que pode ser aproveitado, pois se trata de exigir uma vinculação subjetiva, pertinência subjetiva, para o exercício da ação processual penal. [...] b) Interesse: para ser aplicado no processo penal, o interesse precisa ser completamente desnaturado na sua matriz conceitual. Lá no processo civil, é visto como utilidade e necessidade do provimento. Trata-se de interesse processual de obtenção do que se pleiteia para satisfação do interesse material. CRÍTICA: Pensamos que se trata de categoria do processo civil que resulta inaplicável ao processo penal. Isso porque o processo penal vem marcado pelo princípio da necessidade, algo que o processo civil não exige e, portanto, desconhece. Se o interesse, civilisticamente pensado, corresponde à tradicional noção de utilidade e necessidade do provimento, não há nenhuma possibilidade de correspondência no processo penal. O princípio da necessidade impõe, para chegar-se à pena, o processo como caminho necessário e imprescindível, até porque o Direito Penal somente se realiza no processo penal. [...] c) Possibilidade Jurídica do Pedido: quanto à possibilidade jurídica do pedido, cumpre, inicialmente, destacar que o próprio LIEBMAN, na terceira edição do Manuale di diritto processuale civile, aglutina possibilidade jurídica do pedido com o interesse de agir, reconhecendo a fragilidade da separação. [...] Superada essa advertência inicial, o pedido da ação penal, no processo penal de conhecimento, será sempre de condenação, exigindo um Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 52 tratamento completamente diverso daquele dado pelo processo civil, pois não possui a mesma complexidade. Logo, não satisfaz o conceito civilista de que o pedido deve estar autorizado pelo ordenamento, até porque, no processo penal, não se pede usucapião do Pão de Açúcar... (típico exemplo dos manuais de processo civil). [...] CRÍTICA: Na verdade, o que se verifica é uma indevida expansão dos conceitos do processo civil para (ilusoriamente) atender à especificidade do processo penal”. [...] Diante das duras críticas que tece a respeito dessa intervenção conceitual do processo civil no processo penal, o autor sugere: “Agora, diante da necessidade de respeitarem-se as categorias jurídicas próprias do processo penal, devemos buscar as condições da ação dentro do próprio Processo Penal, a partir da análise das causas de rejeição da acusação. Assim, do revogado art. 43 e do atual art. 395, sustentamos que são condições da ação penal: prática de fato aparentemente criminoso – fumus commissi delicti; punibilidade concreta; legitimidade de parte; justa causa”. Condições específicas da ação EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Também chamadas de condições de procedibilidade, são condições exigidas pela lei para o exercício da ação penal em determinados casos. Entre as principais, a doutrina destaca: a) representação do ofendido ou de seu representante; b) requisição do Ministro da Justiça; c) ingresso do agente em território nacional, em crimes praticados fora do território nacional (extraterritorialidade da lei penal). Diante do rol, vê-se logo que essas condições nem sempre devem ser satisfeitas para que se afigure admissível o ajuizamento da ação penal. De fato, a representação do ofendido ou de seu representante, ou a requisição do Ministro da Justiça, apenas condicionam o exercício da ação penal naqueles casos em que a própria lei determina que o exercício da ação penal fica obstado sem sua ocorrência. Se nada for dito a respeito, assume-se que não existe o condicionamento. [...] Diante da inexistência, no caso concreto, de qualquer das condições da ação penal, o juiz deverá decretar a carência da ação, anulando o processo ‘ab initio’, extinguindo-o sem proceder ao julgamento do mérito, que, no processo penal, é a pretensão punitiva do Estado. O exame acerca do atendimento, em cada caso concreto, dessas condições pode ser realizado a qualquer momento durante o processo. Caso seja verificada a ausência de condição da ação no momento do oferecimento da exordial acusatória, deve o magistrado rejeitá-la com fulcro no art. 395, II, do CPP. Não obstante esse controle prévio acerca das condições da ação, caso o processo continue indevidamente, a qualquer tempo poderá ser decretada a nulificação do feito, com base no art. 564, II, do CPP”. FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO (Processo penal, vol. 1, 32ª ed., São Paulo: Saraiva, 2010): “Ao lado dessas condições genéricas, sempre exigidas, a lei penal ou processual penal, em determinadas hipóteses, faz subordinar o exercício da ação penal a outras condições. Até há pouco tempo, estas eram denominadas ‘condições de procedibilidade’ ou de perseguibilidade. Com essa denominação, procurava-se extremá-las das condições genéricas. Hoje, contudo, a melhor doutrina considera tanto aquelas quanto estas simplesmente condições para o exercício da ação penal”. A respeito da diferença entre as condições genéricas e específicas, assevera: “Para distingui-las, consideramos aquelas exigidas sempre condições genéricas, e as exigidas num ou noutro caso, condições específicas. Específicas, repita-se, porque a lei as exige em alguns casos. Uma vez exigida pela lei, sua ausência torna inadmissível o jus actionis”. Pontualmente sobre as condições específicas, o autor elenca uma miríade de exemplos: “Sem a pretensão de querer indicar todas, procuramos mostrar as mais comuns: a) A representação, exigida para algumas infrações penais, conforme tivemos oportunidade de ver. b) A requisição do Ministro da Justiça. c) A entrada do agente no território nacional. Nos crimes cometidos fora do território nacional, de que tratam as letras a e b do inc. II do art. 7º do CP, bem como na hipótese do § 3° do art. 7º do mesmo estatuto, a aplicação da lei penal brasileira fica condicionada à ‘entrada do agente no território nacional’. Logo, tal condição é de procedibilidade. [...] d) O trânsito em julgado da sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento (cf. CP, art. 236, parágrafo único). e) A autorização da Assembleia Legislativa, pelo voto de 2/3 dos seus membros, para ser instaurado processo contraGovernador de Estado, seja nos crimes comuns, seja nos de responsabilidade (art. 49 da Constituição paulista, entre outras). f) A autorização da Câmara dos Deputados para poder ser instaurado processo, por crime comum ou de responsabilidade praticado pelo Presidente, Vice- Presidente da República e Ministros de Estado (CF, art. 51, I). g) As novas provas a que se refere o parágrafo único do art. 414 do CPP. h) O exame pericial de que trata o art. 525 do CPP. i) A prova nova exigida pelo parágrafo único do art. 414 do CPP. j) A conclusão do procedimento administrativo para apuração de débito tributário nos crimes contra a ordem tributária etc.”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016), agrupando as diversas condições específicas (lato sensu) em diferentes categorias, sustenta: “As condições específicas da ação penal – entendidas como as que precisam ser providas para, a par das condições gerais da ação penal, autorizar o Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 53 desencadeamento da ação penal – podem ser assim agrupadas: e.1) condições de procedibilidade (requisição do Ministro da Justiça ou representação da vítima, a exemplo do que ocorre nos crimes de ação penal pública condicionada: lesão corporal leve – art. 129, caput, do CP); e.2) condições específicas constitucionais (admissão da acusação pela Câmara dos Deputados para o início de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República, bem como contra os Ministros do Estado, a teor dos artigos 51, I, e 86, caput, CF); e.3) condições específicas legais (juntada de laudo pericial nos casos de crime contra a propriedade imaterial que deixe vestígios, em compasso com o art. 525, do CPP; trânsito em julgado da sentença cível nos autos da ação anulatória de casamento, quando se tratar de crime do art. 236, do CP – crime de induzimento a erro essencial e de ocultação de impedimento –, de acordo com o parágrafo único do mesmo artigo); e.4) condições específicas jurisprudenciais (surgimento de novas provas, nas hipóteses de impronúncia do acusado por suposto delito doloso contra a vida de competência do júri ou de arquivamento do inquérito policial por insuficiência de provas – Súmula 524, STF; o lançamento definitivo do tributo, para a tipicidade dos crimes tributários previstos no art. 1º, I a IV, da Lei nº 8.137/1990, exigindo-se o prévio exaurimento das vias administrativas para que a ação penal possa ser proposta, diante do que dispõe a Súmula Vinculante nº 24, do STF, evitando-se que a demanda penal se torne forma de cobrança tributária)”. Condições da ação e condições de prosseguibilidade. HIDEJALMA MUCCIO (Curso de processo penal, vol. 1, 1ª ed., São Paulo: EDIPRO, 2000): “A lei prevê ainda, em alguns casos, que a ação só pode prosseguir se satisfeita uma condição exigida depois de seu início. É o que ocorre com os crimes contra a honra. Nesses crimes, oferecida a queixa-crime, o Juiz, antes de recebe-la, promoverá entre as partes (querelante e querelado), depois de ouvi-las em separado, desde que ache provável a reconciliação, o entendimento entre eles, a sua presença. Se houve a reconciliação, a queixa será arquivada depois de assinado pelo querelante o termo de desistência. A ação só prosseguirá se resultar infrutífera a reconciliação. Logo, essa audiência chamada de reconciliação, prevista no art. 520 do CPP, é exemplo de condição de prosseguibilidade”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016): “Condições de prosseguibilidade: esta seria uma condição para a continuidade da ação já deflagrada. Ex: nos crimes inafiançáveis de competência do Júri, após a pronúncia, o processo só prosseguia após a intimação pessoal do réu daquela decisão. Enquanto isto não ocorria, o feito ficava paralisado. Era a crise de instância, pela pendência de um ato processual sem o qual o processo não podia prosseguir. Com a nova previsão do art. 420, parágrafo único do CPP, imprimida pela Lei nº 11.689/2008, se o pronunciado solto não for encontrado, será intimado por edital, ilidindo-se assim a paralisação do procedimento. Pode-se cogitar, entretanto, como condição de prosseguibilidade, a necessidade do agente recobrar a higidez mental nas hipóteses de insanidade superveniente, pois, enquanto isso não ocorre, o processo fica paralisado, e a prescrição corre normalmente. É mais um caso de crise de instância (art. 152, caput, CPP)”. Condições da ação, condições objetivas de punibilidade e escusas absolutórias. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016): “Condições objetivas de punibilidade: são condições necessárias para o exercício do jus puniendi, aferidas em momento subsequente à instauração do processo. No caso, nada impede que a ação penal seja exercida validamente, diante da presença das condições gerais e específicas para seu ajuizamento. Há óbice, contudo, à prolação de sentença condenatória, enquanto não preenchido o pressuposto punitivo, sendo autêntica questão prejudicial para o julgamento do mérito da demanda penal. É o que ocorre com as hipóteses: de ingresso no País, do autor de crime praticado no estrangeiro (diante da dicção do art. 7º, §§ 2º, “a” e “b”, e 3º, do CP); e de sentença que decreta a falência, concede a recuperação judicial ou extrajudicial, nas infrações falimentares, nos termos do previsto no art. 180, da Lei de Falência e Recuperação Judicial”. VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012), diferenciando as figuras das condições de procedibilidade e punibilidade, pontua: “As condições de procedibilidade distinguem-se das condições de punibilidade. Estas referem-se ao mérito e extinguem a pretensão punitiva, ainda que posteriores ao início da ação penal, porque quebram a relação natural existente entre a prática de uma infração penal e a imposição da pena. Todavia, se o fato extintivo da punibilidade (CP, art. 107) ocorre antes da instauração da ação penal, ele se torna uma condição negativa de procedibilidade, de modo que a própria ação penal fica proibida. O entendimento desta situação é importante para a compreensão das duas figuras que nesse momento se confundem quanto às consequências. A condição de procedibilidade, positiva ou negativa, impede sempre Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 54 e a qualquer tempo o exercício da ação penal, que não pode ser proposta ou admitida. As condições de punibilidade, também positivas ou negativas, podem aparecer após o exercício válido da ação penal, e, se reconhecidas, provocarão uma sentença de mérito, mas se essas causas surgirem anteriormente à ação também proíbem esta última devido à correlação necessária entre ação, processo penal e sanção penal. Assim, condições extintivas da punibilidade anteriores à ação penal tornam-se condições negativas de procedibilidade”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012) muito bem sintetiza as diferenças entre as condições da ação, de punibilidade e as escusas absolutórias: “Não há confundir as condições, genéricas ou específicas, da ação com as chamadas condições objetivas de punibilidade. Os institutos não têm qualquer relação, a despeito de a nomenclatura ser semelhante. As condições da ação constituem fatos relacionados ao direito processual e que são necessários para que o exercício da ação penal possa originar validamente um processo penal. Já as condições objetivas da punibilidade são institutos contidos no plano do direito material. São fatos, externos ao tipo penal, que devem ocorrer para que a prática do tipo penal constitua fato punível. Constitui condiçãoobjetiva de punibilidade, por exemplo, a ocorrência de prejuízo no caso de crime de introdução ou abandono de animais em propriedade alheia. Também é necessário se estabelecer uma distinção entre as condições da ação e as escusas absolutórias, que atingem diretamente o direito de punir do Estado, fazendo com que a pena deixe de ser imposta por circunstâncias pessoais do agente. Como exemplos de escusas absolutórias temos a imunidade parlamentar (prevista no art. 53 da Constituição Federal) e aquelas previstas nos arts. 181 e 348, § 2º, do Código Penal”. Jurisprudência pertinente Súmula Vinculante 24: Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo. Súmula 438, STJ: É inadmissível a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva com fundamento em pena hipotética, independentemente da existência ou sorte do processo penal. Supremo Tribunal Federal [...] AÇÃO PENAL - LEGITIMIDADE PASSIVA - IDENTIFICAÇÃO DATILOSCOPICA - IMPRESSÕES DIGITAIS DISCREPANTES. Exsurgindo descompasso entre as impressões digitais constantes do boletim de identificação criminal alusivo ao delito e as do acusado via denúncia, impõe-se a conclusão sobre a ilegitimidade passiva, declarando-se nulo o processo a partir, inclusive, da peça primeira, ou seja, da denúncia. (HC 72451, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Segunda Turma, julgado em 27/02/1996, DJ 19-04-1996 PP-12213 EMENT VOL-01824-02 PP-00264) Esta Corte, em sede de repercussão geral, fixou entendimento de ser inviável o reconhecimento da prescrição em perspectiva (virtual, antecipada) – RE 602.527 QO-RG, CEZAR PELUSO, DJe 18.12.2009. [...] (HC 125777, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 21/06/2016, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-159 DIVULG 29-07-2016 PUBLIC 01-08-2016) Superior Tribunal de Justiça É assente na jurisprudência desta Corte que o crime de descaminho é de natureza formal, sendo prescindível, portanto, a conclusão do processo administrativo-fiscal para a sua caracterização. Não há como aplicar o mesmo entendimento jurisprudencial aos crimes descritos nos arts. 334 do Código Penal e 1º da Lei n. 8.137/1990, visto que possuem objetividade distinta. [...] (AgRg no REsp 1488692/PR, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 03/08/2017, DJe 16/08/2017) A assinatura do termo de ajustamento de conduta, firmado entre o Ministério Público estadual e o suposto autor de crime ambiental, não impede a instauração da ação penal, pois não elide a tipicidade penal. Ademais, há independência entre as esferas administrativa, cível e penal. [...] (REsp 1154405/MG, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 18/05/2017, DJe 25/05/2017) 3. Classificação das ações penais Existem duas formas de classificar as ações penais: uma delas tomando por base a teoria do processo civil; outra, inerente ao processo penal, considerando a legitimação ativa. Pela primeira, as ações seriam de conhecimento, cautelar e de execução. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 55 A ação de conhecimento busca uma decisão sobre alguma situação jurídica disciplinada no Direito Penal, e se subdivide em condenatória, constitutiva e declaratória; a primeira é a que deduz em juízo a pretensão punitiva, por meio da denúncia ou da queixa, imputando-se ao acusado uma conduta típica, ilícita e culpável, visando uma sentença que torne concreta a sanção que a lei prevê em abstrato; a segunda visa criar, modificar ou extinguir uma situação jurídica (por exemplo, revisão criminal, pedido de homologação de sentença penal estrangeira e hábeas corpus para anular determinado processo por ausência de citação); a terceira pretende a declaração da existência ou não de uma relação jurídica (hábeas corpus buscando a declaração da extinção da punibilidade, nos termos do artigo 648, VII do CPP). Não temos no processo penal uma ação cautelar estruturada e sistematizada; não se enxerga autonomia e disciplina própria de um processo cautelar (como havia no processo civil). Quando muito, podemos falar em medidas cautelares que tutelam situações pontuais e específicas, em variados temas do processo penal. A lei prevê, como faz no artigo 319 do Código de Processo Penal, diversas medidas cautelares, mas elas estão espalhadas e sem sistematização. São exemplos de medidas cautelares a prisão preventiva, a busca e apreensão, a fiança, o monitoramento eletrônico, dentre outras (Lima, 2018). Temos processo de execução na área criminal - a pena deve ser executada -, só que ele é diferente em relação ao que conhecemos do processo civil. Na área criminal a execução não se submete ao princípio da demanda, o início não depende da iniciativa da parte. A expedição da guia é suficiente para isso. Vejamos a Lei de Execução Penal: Art. 105. Transitando em julgado a sentença que aplicar pena privativa de liberdade, se o réu estiver ou vier a ser preso, o Juiz ordenará a expedição de guia de recolhimento para a execução. Art. 171. Transitada em julgado a sentença que aplicar medida de segurança, será ordenada a expedição de guia para a execução. A execução das penas restritivas de direitos pode ser iniciada mediante requerimento do Ministério Público, mas a lei também prevê que o juiz pode dar início a sua execução de ofício. Art. 147. Transitada em julgado a sentença que aplicou a pena restritiva de direitos, o Juiz da execução, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, promoverá a execução, podendo, para tanto, requisitar, quando necessário, a colaboração de entidades públicas ou solicitá-la a particulares. Temos, ainda, a execução da pena de multa, com a ressalva de que a legitimidade não é do Ministério Público mas sim da Fazenda Pública, nos termos da súmula 521 do STJ: A legitimidade para a execução fiscal de multa pendente de pagamento imposta em sentença condenatória é exclusiva da Procuradoria da Fazenda Pública. 3.1 Classificação das ações penais de acordo com o processo penal No âmbito do processo penal, a doutrina costuma classificar a ação penal a partir da legitimação ativa, tomando em conta a natureza do crime praticado. Duas grandes espécies se colocam num primeiro momento: a ação penal pública e a ação penal privada. A primeira subdivide-se em condicionada e incondicionada, muito embora haja segmento doutrinário que refira, ainda, uma terceira modalidade de ação pública rotulada de ação penal pública subsidiária da pública; já a segunda subdivide-se em privada exclusiva, privada subsidiária da pública e privada personalíssima. Sem embargo dessa divisão clássica, um terceiro gênero ainda precisa ser mencionado, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 56 consistente na chamada ação penal popular, de constitucionalidade bastante questionável, sendo refutada pela maioria dos autores (Avena, 2017). Veja-se o quadro elaborado por NORBERTO AVENA: Ação penal pública - gênero utilizado para designar a ação penal intentada pelo Ministério Público. Se subdivide: incondicionada - quando a atuação do Ministério Público não depende de nenhuma condição; é a regra no processo penal brasileiro; condicionada - nos casos em que a atuação do Ministério Público é dependente de uma condição normativa; é exceção e só vai existir diante de previsão expressa; subsidiária da pública - essa classificação não é pacífica na doutrina e, a grosso modo, representa situações em que um órgão do Ministério Público atua diante da omissão de outro. Para os adeptos dessa orientação, a referida modalidade de ação penal encontra-se prevista nas seguintes situações: Primeira:Hipótese do art. 2.º, § 2.º, do Decreto-Lei 201/1967. Versando sobre crimes praticados por prefeitos, preceitua o dispositivo que, se o Ministério Público Estadual, ciente da ocorrência dessa natureza de infração, não adotar as providências necessárias à instauração da ação penal, poderão estas ser requeridas ao Procurador-Geral da República (chefe do Ministério Público Federal). Apesar dessa normatização, entendemos que essa forma de ação penal não subsiste no ordenamento jurídico. Na realidade, não parece ter sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988, já que, ao permitir uma indevida ingerência do Ministério Público Federal no âmbito das atribuições próprias dos Ministérios Públicos Estaduais, viola a autonomia dos Estados. Ademais, a hipótese prevista no art. 2.º, § 2.º do DL 201/1967 não se enquadra entre aquelas que permitem deslocamento de competência autorizado pelo art. 109, § 5.º, da Carta Ação Penal Pública Incondicionada Condicionada À representação do ofendido À requisição do Ministro da Justiça Subsidiária da Pública Esta modalidade de ação penal é referida apenas por parcela doutrinária, não integrando a divisão clássica da ação penal Privada Exclusiva Personalíssima Subsidiária da Pública Popular Embora prevista no art. 14 da Lei 1.079/1950, possui constitucionalidade questionável, sendo refutada pela maioria doutrinária. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 57 Republicana, mesmo porque, nesse último caso, o que leva o Procurador-Geral da República a suscitar perante o STJ o deslocamento de competência não é a inércia do Ministério Público Estadual, mas, sim, o objetivo de assegurar o fiel cumprimento dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte, quando detectada hipótese de grave violação de direitos humanos. Segunda: Hipótese do art. 357, §§ 3.º e 4.º, da Lei 4.737/1965 (Código Eleitoral). Preceitua-se, nos mencionados parágrafos, que se o órgão do Ministério Público não oferecer a denúncia no prazo legal, o juiz solicitará ao Procurador Regional a designação de outro promotor, que, no mesmo prazo, oferecerá a denúncia. Embora isto ainda seja possível na atualidade, cremos que a demanda criminal, nesse caso, enquadra-se na classificação tradicional da ação pública (uma ação penal pública incondicionada, por força do que estabelece o art. 355 do Código Eleitoral), já que não importa em modificação de titularidade, apenas sendo a inicial oferecida por outro agente do Ministério Público diante da inércia daquele que primeiro recebeu o inquérito policial ou peças de informação (Avena, 2017). Terceira. Nos casos de incidente de deslocamento da competência da Justiça Estadual para a Justiça Federal (IDC). Referida medida [...] foi inserida na Constituição Federal pela Emenda Constitucional nº 45/04 [...], estando o deslocamento da competência subordinado à presença de dois requisitos: 1) crime com grave violação aos direitos humanos; 2) risco de descumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, em virtude da inércia do Estado- membro em proceder à persecução penal. Como o IDC importa em deslocamento da competência da Justiça Estadual, onde atua o Ministério Público dos Estados, para a Justiça Federal, onde funciona o Ministério Público Federal, tem-se aí mais uma espécie de ação penal pública subsidiária da pública (Lima, 2018). Ações penais privadas – aquelas cuja iniciativa foi outorgada ao particular, considerando a existência de interesse ou direito muito próprio da vítima; o desencadeamento do processo vai depender e passar, necessariamente, pela vontade da vítima ou de seu representante. São exceção, e a escolha dos crimes de iniciativa privada observa critérios de política criminal, tendo em conta, preponderantemente, os bens jurídicos atingidos pelo delito e os interesses do ofendido. Se subdividem, conforme segue. Ação penal privada exclusiva - o desencadeamento do processo depende da própria iniciativa da vítima ou de seu representante legal. Não há inicial legitimidade para o Estado atuar. É que, em tais hipóteses, a vítima, já afetada pela prática do crime, pode sentir-se ainda mais prejudicada em razão do constrangimento natural causado pela natureza da infração e pela exposição da sua intimidade provocada pela amplitude dos debates que ocorrem na esfera judicial. A ação penal privada exclusiva é intentada mediante queixa-crime, a qual poderá ser proposta pelo ofendido (se maior de 18 anos e capaz); por seu representante legal (se o ofendido for menor de 18 anos ou incapaz), pelo seu cônjuge, ascendente, descendente ou irmão, no caso de morte ou de declaração judicial de ausência (art. 31 do CPP). Ação penal privada personalíssima - a titularidade compete única e exclusivamente ao próprio ofendido; não é cabível a sucessão processual; o representante legal da vítima não poderá atuar. Destarte, falecendo a vítima, nada haverá a ser feito a não ser aguardar-se a extinção da punibilidade do réu. Neste caso, são inaplicáveis os arts. 31 e 34 do CPP. Na atualidade, há um só caso dessa espécie de ação penal, qual seja o crime de induzimento a erro essencial ou ocultação de impedimento, previsto no art. 236, parágrafo único, do Código Penal, ao tratar dos crimes contra o casamento. Outra espécie consistia no crime de adultério, o qual, porém, foi revogado pela Lei 11.106/2005, sendo abolida essa figura do ordenamento penal pátrio. Cabe ressaltar que, nessa modalidade de ação penal, sendo incapaz o ofendido (v.g., por enfermidade mental), a queixa não poderá ser exercida, tendo em vista sua incapacidade de estar em juízo e a impossibilidade de ser representado no polo ativo da ação penal por representante legal ou curador nomeado pelo juiz. Assim, a única alternativa que lhe resta será aguardar a cessação da Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 58 incapacidade, salientando-se que, enquanto isto não ocorrer, o prazo decadencial para o ajuizamento da queixa não terá fluência (Avena, 2017). Ação penal privada subsidiária da pública ou ação penal acidentalmente privada - "corresponde a uma ação penal privada ajuizada em relação a crime de ação pública, justificando-se quando, esgotado o prazo do Ministério Público, este não ofereceu a competente denúncia. O início do processo criminal, neste caso, ocorrerá mediante a dedução da queixa-crime subsidiária". Eis a previsão constitucional, no art. 5º: LIX - será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal; Doutrina Complementar Classificação das ações penais. FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO (Processo penal, vol. 1, 32ª ed., São Paulo: Saraiva, 2010): “Alguns autores, decerto pela influência que sofreram dos processualistas civis, procuraram e procuram adaptar ao Processo Penal a moderna classificação das ações do Processo Civil, classificação esta que se baseia na tutela jurisdicional invocada. [...] A ação se diz de conhecimento porque obriga o Juiz ao exame da lide ‘para o fim de descobrir e formular a regra jurídica concreta que deve regular o caso’, como bem diz Liebman (cf. Processo de execução, 2. ed., Saraiva, 1963, p, 32). Tomando conhecimento da pretensão deduzida e da resposta do réu, colhe as provas, analisa-as, interpreta a norma, desenvolvendo, assim, intensa atividade para poder aplicai a lei àquele caso concreto. [...] Essa ação de conhecimento pode ser condenatória, constitutiva ou declaratória. Diz- se condenatória quando visa a uma sentença de condenação. Nesses casos, o Juiz declara a existência da relação jurídico-material e, ao mesmo tempo, impõea sanctio juris ao transgressor da norma. [...] Constitutiva é aquela destinada a criar, extinguir ou modificai uma situação jurídica. [...] Finalmente, declaratórias, também denominadas meramente declaratórias, que visam apenas à declaração da existência ou inexistência de uma relação jurídica. Já se disse que a tarefa do Juiz, antes de mais nada, é necessariamente declaratória. Mas, nas denominadas ações declaratórias, objetiva-se tão só uma providência jurisdicional meramente declaratória, Quando o pedido visa à declaração da existência da relação jurídica, a ação se diz declaratória positiva; quando objetiva a declaração da inexistência da relação jurídica, é denominada declaratória negativa. [...] Ação cautelar. A decisão, no processo de conhecimento, é, muitas vezes, demorada, e tal demora pode carretar prejuízos à parte. Assim, para assegurar os efeitos de uma providência principal, a parte pode solicitar, por meio da ação cautelar, medidas urgentes e provisórias. [...] Ação executiva. Quando o Juiz, na ação de conhecimento de tipo condenatório, declara o direito em favor do autor e impõe a sanctio juris ao réu, se este não atender ao preceito sancionador contido na sentença condenatória, restar á ao vencedor, para tornar efetiva a sanctio juris, promover ‘ação executiva’, em que se realizam atos executórios visando satisfazer o direito do exequente, já proclamado na sentença final da ação de conhecimento”. [...] Após esse panorama, o autor questiona acerca da possibilidade de agregar-se esse tipo de classificação ao processo penal (o que é questão polêmica), citando vários doutrinadores, dentre os quais será transcrito trecho de Frederico Marques, que bem ilustra, por meio de exemplos, como essas diversas espécies de ações estariam incorporadas ao processo penal: “Isto posto, pergunta-se: Tal classificação — feita em razão da tutela jurisdicional invocada — pode ser adaptada ao Processo Penal? Frederico Marques, que tem sido, entre nós, o defensor da adaptação dessa classificação ao Processo Penal, dá como exemplo de ação declaratória o pedido de habeas corpus com fundamento no art. 648, VII. Como exemplos de ação constitutiva, a revisão criminal, o pedido de homologação de sentença penal estrangeira e o pedido de extradição passiva; como ação cautelar, o habeas corpus com fundamento no art. 648, V, e as medidas a que se referem os arts. 311 a 316 do CPP. Quanto às ações executivas, diz ele, o único caso é o do art. 688, I, do CPP, que equivale, afirmamos agora, ao art. 164 da Lei de Execução Penal, que trata da ação de execução da pena de multa. Aceitando essa classificação, teremos a ação penal no sentido restrito, compreendendo aquela disciplinada nos arts. 100 a 106 do CP, que seria a ação penal condenatória, e a ação penal em sentido amplo, abrangendo todas as modalidades de ação penal, desde a condenatória até a executória”. VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Quanto à natureza do provimento pretendido, a ação penal pode ser declaratória, constitutiva e condenatória. Será declaratória, positiva ou negativa, se o pedido limitar-se à definição de uma situação jurídica vinculada ao direito penal, eliminando a incerteza que possa existir sobre ela, como por exemplo um habeas corpus para declarar a extinção Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 59 da punibilidade de um fato em face da ameaça de em relação a ele instaurar-se procedimento penal. Será constitutiva se a pretensão for a de alterar situações jurídicas, como, por exemplo, um habeas corpus para o trancamento de ação penal condenatória ou uma revisão criminal para desfazer sentença de condenação. Será condenatória se o pedido for de aplicação de sanção, pena ou medida de segurança. Há ações originalmente civis que, por questionarem decisões do processo penal, tornam-se penais porque seu reflexo será naquele processo, como, por exemplo, o mandado de segurança contra atos do juiz penal ou os embargos de terceiro contra a decisão que determinou o sequestro (CPP, art. 129). Entendo não ser cabível, no processo penal, a distinção entre ações de conhecimento, execução e cautelares, porque a única existente é a de conhecimento. A execução penal não é ação, porque não há pedido de tutela jurisdicional específica. Trata-se de um procedimento complementar à sentença com incidentes próprios. A execução se realiza por força da própria sentença, que já tem carga executiva. Executa-se por ordem do juiz, per officium iudicis, independentemente da instauração de nova relação processual. A situação assemelha-se à execução imprópria do processo civil, das chamadas sentenças de força. Também inexiste ação ou processo cautelar. Há decisões ou medidas cautelares, como a prisão preventiva, o sequestro e outras, mas sem que se promova uma ação ou se instaure um processo cautelar diferente da ação ou do processo de conhecimento. As providências cautelares são determinadas como incidentes do processo de conhecimento. Não se deve confundir, contudo, a função acautelatória de certas ações de conhecimento que são definitivas, como o habeas corpus preventivo. Essa finalidade acautelatória, de prevenir litígios, é uma das características ou aspectos da jurisdição, mas o pedido e consequentemente o provimento são definitivos”. Classificação das ações penais condenatórias. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “A par da tradicional classificação das ações em geral, levando-se em conta a natureza do provimento jurisdicional invocado (de conhecimento, cautelar e de execução), no processo penal é corrente a divisão subjetiva das ações, isto é, em função da qualidade do sujeito que detém a sua titularidade. Segundo esse critério, as ações penais serão públicas ou privadas, conforme sejam promovidas pelo Ministério Público ou pela vítima e seu representante legal, respectivamente. É o que diz o art. 100, caput, do Código Penal: A ação penal é pública, salvo quando a lei, expressamente, a declara privativa do ofendido’. Dentro dos casos de ação penal pública (exclusiva do Ministério Público), ainda há outra subdivisão, em ação penal pública incondicionada e condicionada. No primeiro caso, o Ministério Público promoverá a ação independentemente da vontade ou interferência de quem quer que seja, bastando, para tanto, que concorram as condições da ação e os pressupostos processuais. No segundo, a sua atividade fica condicionada também à manifestação de vontade do ofendido ou do seu representante legal. [...] Há outros que, por sua vez, atingem imediata e profundamente o interesse do sujeito passivo da infração. Na maioria desses casos, pela própria natureza do crime, a instrução probatória fica, quase que por inteiro, na dependência do concurso do ofendido. Em face disso, o Estado lhe confere o próprio direito de ação, conquanto mantenha para si o direito de punir, a fim de evitar que a intimidade, devassada pela infração, venha a sê-lo novamente (e muitas vezes com maior intensidade, dada a amplitude do debate judicial) pelo processo. São os casos de ação penal privada”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012) aponta para o que considera como impropriedade na nomenclatura das ações, dentro de sua classificação subjetiva: “Conquanto o uso corrente tenha consagrado essa terminologia, tem-se que as expressões ‘ação penal pública’ e ‘ação penal privada’ não coadunam de forma precisa com os conceitos que representam. Com efeito, conforme se viu anteriormente, a ação penal é sempre um direito público. Não é, dessa forma, de todo correto afirmar a existência de uma ação penal privada. Privada não é a ação, mas sim a qualificação do sujeito que irá exercê-la. A ação, seja enquanto direito, seja enquanto poder, é públicamesmo quando exercida por um acusador que não atue em nome do Estado. Dessarte, onde a lei fizer referência à ação penal pública e à ação penal privada, deve- se compreender que as expressões mais adequadas para designá-las seriam ‘ação penal de iniciativa pública’ e ‘ação penal de iniciativa privada’. De fato, entre um e outro tipo de ação não há diferenças essenciais. O que varia é tão somente o sujeito legitimado para a propositura da ação: no caso da ação penal pública, somente o Ministério Público poderá ajuizá-la. Por outro lado, a ação penal privada é aquela ajuizada por um sujeito privado.” Em seguida, o autor dispõe sobre a classificação das ações em relação à titularidade do direito de ação: “Feita a ressalva — e admitindo o uso corrente da nomenclatura que resulta na distinção entre ação penal pública e privada —, é de destacar também que cada um desses gêneros contém espécies. A ação penal pública Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 60 pode ser incondicionada ou condicionada, enquanto a ação penal privada poderá ser principal (ou exclusiva), subsidiária da ação penal pública ou personalíssima”. VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012), a respeito das ações penais privadas, assevera: “A ação penal de iniciativa privada pode ser exclusivamente privada, privada subsidiária e popular. A ação é exclusivamente de iniciativa privada quando a lei expressamente consigna que ‘se procede mediante queixa’ ou outra regra de igual conteúdo. [...] A ação penal privada será subsidiária, se, nos crimes de ação pública, o Ministério Público não intentá-la no prazo legal (CPP, art. 29). A possibilidade da queixa subsidiária ocorre somente no caso de inércia do órgão do Ministério Público. Se este agiu, pedindo o arquivamento, não tem cabimento a ação subsidiária. Essa interpretação, pacificamente acolhida, do art. 29 do Código de Processo Penal continuará vigorando diante do texto da Constituição de 1988, que repetiu o preceito: ‘será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal’. [...] A ação penal popular propriamente dita, ou seja, a possibilidade de qualquer pessoa promover a ação penal foi repelida pelo texto da Constituição, em termos gerais, de modo que não é o caso de aprofundar a polêmica sobre sua conveniência”. Jurisprudência pertinente Superior Tribunal de Justiça [...] a peça acusatória apenas delimita a qual espécie de ação penal responde o paciente, valendo-se de uma das classificações existentes na doutrina, que comumente subdivide as ações penais de conhecimento em declaratórias, constitutivas e condenatórias. [...] Não obstante essas ponderações, não há constrangimento na utilização da nomenclatura 'ação penal condenatória'. Isso porque essa é a classificação dada à ação penal instaurada pelo Estado contra o acusado. [...] (HC 88.448/DF, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEXTA TURMA, julgado em 06/05/2010, DJe 02/08/2010) 4. Princípios da ação penal As ações penais têm os seus contornos delineados e suas bases definidas por uma miríade de diferentes princípios. Esses mandamentos nucleares variam de acordo com a classificação das ações em públicas ou de iniciativa privada. Vejamos, então, esses princípios. 4.1 PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE DA AÇÃO PENAL PÚBLICA Como a própria nomenclatura já manifesta, a atuação do Ministério Público nas ações penais públicas, das quais é o titular, é obrigatória. Perceba o que dispõe o art. 24 do Código de Processo Penal: Art. 24. Nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo. Perceba que o dispositivo legal prescreve um verdadeiro comando: ‘será promovida’; a atuação não é faculdade conferida ao parquet. Isso significa que, apurados elementos de informação suficientes que deem conta da existência de um fato típico, ilícito e culpável, e presentes as condições da ação, o Ministério Público deve oferecer a competente denúncia (Lima, 2017). A contrario sensu, estando o membro do Ministério Público convicto da ausência de um dos substratos do crime ou das condições da ação penal, poderá (deverá, em respeito à boa prática) promover o arquivamento do inquérito e deixar de oferecer a denúncia, invocando as razões que o conduziram a tal atitude. Isso se constata da leitura do art. 28 do CPP: Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima ==12fc7c== 61 as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz obrigado a atender. Além disso, note que o mesmo artigo ainda se apresenta como mecanismo de controle do referido princípio, como bem lembra MARCÃO: “Note-se que em sede de art. 28 do CPP incide fenômeno estranho, em que o juiz de direito passa a funcionar como fiscal do princípio da obrigatoriedade da ação penal pública, tarefa que segue complementada pela atuação específica do Procurador-Geral de Justiça” (Marcão, 2017). Importante registrar que o princípio da obrigatoriedade nas ações penais públicas não é absoluto, havendo previsão de sua mitigação (ou mera contemporização, para alguns), na própria Constituição Federal, em relação aos crimes de menor potencial ofensivo e aos institutos próprios dos juizados especiais criminais, como bem salienta FERNANDO CAPEZ: Atualmente, o princípio sofreu inegável mitigação com a regra do art. 98, I, da Constituição da República, que possibilita a transação penal entre Ministério Público e autor do fato, nas infrações penais de menor potencial ofensivo (...). [...] A possibilidade de transação (proposta de aplicação de pena não privativa de liberdade) está regulamentada pelo art. 76 da Lei n. 9.099/95, substituindo, nestas infrações penais, o princípio da obrigatoriedade pelo da discricionariedade regrada (o Ministério Público passa a ter liberdade para dispor da ação penal, embora esta liberdade não seja absoluta, mas limitada às hipóteses legais) (Capez, 2018). No mesmo sentido, PAULO RANGEL: Porém, diante das chamadas infrações penais de menor potencial ofensivo (cf. art. 61 da Lei do JECRIM), o princípio tem atenuado este caráter e passa a ter um valor relativo, pois, para nós, ele foi mitigado. O legislador da Lei nº 9.099/1995, ao estabelecer a transação penal (cf. art. 76), permitiu ao Ministério Público deixar de propor ação penal, mesmo que o fato seja típico, ilícito e culpável, e presentes todas as condições para o regular exercício da ação penal pública. Nesse caso, deve sim, o Ministério Público oferecer proposta de transação penal, desde que ausente qualquer condição negativa do § 2º do art. 76 da mencionada lei (Rangel, 2017). Nas lições de BRASILEIRO, todavia, para além da transação penal, há outras hipóteses de exceção ao princípio da obrigatoriedade. Vale a transcrição: b) termo de ajustamento de conduta: [...] Para além disso, não se pode perder de vista que o cumprimento das penas restritivas de direitos a que estão submetidas as pessoas jurídicas (interdição temporária de direitos, suspensão parcial ou total de atividades e prestação pecuniária – Lei nº 9.605/98, art. 8º) pode ser obtido por meio do termo de ajustamento de conduta, sema necessidade de se iniciar um processo penal, com todos os custos dele decorrentes, seja para o acusado, que se livraria das cerimônias degradantes do processo penal, seja para o próprio Ministério Público, que passaria a se preocupar com os delitos mais graves. Portanto, lavrado um termo de ajustamento de conduta, e desde que o acordo esteja sendo cumprido, o oferecimento de denúncia em razão de ilícito ambiental praticado perde completamente o sentido e, em especial, a utilidade, condição da ação penal sem a qual não é possível a deflagração da persecutio criminis in judicio. Logo, pelo menos enquanto houver o cumprimento do quanto acordado no termo de ajustamento de conduta, o Ministério Público está impedido de oferecer denúncia. [...] c) parcelamento do débito tributário: o parcelamento do débito tributário também figura como exceção ao princípio da obrigatoriedade, já que a sua formalização antes do recebimento da denúncia é causa de suspensão da pretensão punitiva, impedindo, pois, o oferecimento da peça acusatória pelo Ministério Público (Lei nº 9.430/96, art. 83, § 2º). d) acordo de leniência: também conhecido como acordo de brandura ou doçura, este acordo é uma espécie de colaboração premiada prevista na Lei que dispõe sobre o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência. [...] Nos crimes contra a ordem econômica, tipificados na Lei nº 8.137/90 e nos demais crimes diretamente relacionados à prática de cartel, tais como os tipificados na Lei nº 8.666/93 e os tipificados no art. 288 do Código Penal, a celebração de acordo de leniência determina a suspensão do curso do prazo prescricional e impede o oferecimento da denúncia com relação ao agente Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 62 beneficiário da leniência. Ademais, cumprido o acordo de leniência pelo agente, extingue-se automaticamente a punibilidade dos crimes acima referidos; e) colaboração premiada na nova Lei das Organizações Criminosas: consoante disposto no art. 4º, § 4º, da Lei nº 12.850/13, se da colaboração do agente resultar um ou mais dos seguintes resultados – identificação dos demais coautores e partícipes da organização criminosa e das infrações penais por eles praticadas, a revelação da estrutura hierárquica e da divisão de tarefas da organização criminosa, a prevenção de infrações penais decorrentes das atividades da organização criminosa, a recuperação total ou parcial do produto ou do proveito das infrações penais praticadas pela organização criminosa ou a localização de eventual vítima com sua integridade física preservada –, o Ministério Público poderá deixar de oferecer denúncia se preenchidos dois requisitos concomitantemente: I – o colaborador não for o líder da organização criminosa; II – o colaborador for o primeiro a prestar efetiva colaboração nos termos deste artigo (Lima, 2017). As exceções ao princípio em testilha não constituem matéria pacífica. NESTOR TÁVORA, por exemplo, discorda do supracitado autor em relação ao termo de ajuste de conduta como exceção ao princípio da obrigatoriedade, afirmando que esse instrumento não afetaria a atuação do parquet na esfera criminal: Entendemos que o termo de ajustamento de conduta em procedimento civil para apuração de infração ambiental não impede a atuação do Ministério Público na esfera criminal pelo crime ambiental residual ou subjacente. RENATO BRASILEIRO DE LIMA pondera que o ajuste de conduta teria o condão de evitar que o acusado se submetesse a cerimônias degradantes (status-degradation ceremony: procedimentos ritualizados que ofendem o status dignitatis do agente, despojando-o de sua identidade ao ser condenado, e recebendo outra, degradada), restando impedido o Ministério Público de ofertar denúncia enquanto pender o cumprimento do ajuste. No entanto, não há previsão legal para autorizar a mitigação à obrigatoriedade. Ao contrário, o princípio da proteção máxima ao meio ambiente permite concluir que a providência civil, fixada no termo de ajuste de conduta, só impede a propositura de ação civil pública, não sendo capaz de paralisar a jurisdição criminal. O mesmo autor, ainda, discorda de compor a transação penal dos juizados especiais uma verdadeira exceção à obrigatoriedade, porquanto esse instituto constituiria, em verdade, uma espécie anômala de ‘ação penal’ dotada de obrigatoriedade própria, guardadas as suas peculiaridades. Veja o que afirma TÁVORA: Como se depreende, a transação penal não é propriamente exceção ao princípio da obrigatoriedade da ação penal, como sustenta parte da doutrina. A transação penal é ação penal pública não convencional tendente a propor a aplicação imediata de pena restritiva de direito, seguindo um “devido processo legal” abreviado. Convencional é a denúncia, petição inicial da ação penal pública. Daí que se o Ministério Público estiver diante dos pressupostos para o oferecimento da transação penal, nos termos do art. 76, da Lei nº 9.099/1995, estará compelido a propor essa espécie de “ação penal” (transação penal), incidindo o princípio da obrigatoriedade (Távora, 2017). Fato é que o princípio da obrigatoriedade está longe de ser absoluto, havendo mitigações, contemporizações e exceções a esse mandamento espalhados pelo ordenamento jurídico. Esses mecanismos legais de controle tendem a evitar a instauração desenfreada de processos penais, mormente em casos nos quais tal deflagração demonstre-se inoportuna e até mesmo desaconselhável quando analisada conjuntamente aos objetivos e balizas do direito processual penal. 4.2 PRINCÍPIO DA OPORTUNIDADE DA AÇÃO PENAL DE INICIATIVA PRIVADA Se a ação penal pública é regida pela obrigatoriedade, tendo em vista o compromisso assumido pelo Estado de monopolizar a atividade jurisdicional e a prestação da justiça, evitando-se a o exercício da autotutela; nas ações penais de iniciativa privada a deflagração Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 63 do processo depende exclusivamente da vontade, conveniência e oportunidade do ofendido ou de seus representantes. Desta forma, a existência ou não de uma ação penal de iniciativa privada fica vinculada a um juízo de valoração interno do ofendido (ou representantes legais), que é livre para ponderar acerca da conveniência de sujeitar tanto o autor da infração quanto a si mesmo às consequências, incômodos e desgostos próprios de uma demanda penal. Nas palavras de RANGEL: (...) a de iniciativa privada dá a faculdade ao ofendido para verificar se vale a pena o escândalo do processo para a punição do criminoso, ou se é melhor a impunidade em vez da publicidade de um fato que diz mais respeito à vida íntima do ofendido (Rangel, 2017). Acaso decida por não exercer o direito de ação, a vítima pode quedar-se inerte e deixar transcorrer in albis o prazo decadencial de seis meses para o oferecimento da queixa- crime ou mesmo renunciar a esse direito expressa ou tacitamente, conforme artigos 49 e 50 do CPP (Távora, 2017). Esses conceitos serão estudados mais adiante; mas servem para demonstrar, desde já, de que modo o princípio da oportunidade pode se manifestar no processo penal. De qualquer sorte, segue a transcrição dos citados artigos, bem como do art. 38 – que dispõe sobre o referido prazo decadencial – para conferir maior familiarização com a matéria: Art. 38. Salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante legal, decairá no direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de seis meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. Art. 49. A renúncia ao exercício do direito de queixa, em relação a um dos autoresdo crime, a todos se estenderá. Art. 50. A renúncia expressa constará de declaração assinada pelo ofendido, por seu representante legal ou procurador com poderes especiais. 4.3 PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DA AÇÃO PENAL PÚBLICA Pelo princípio da indisponibilidade da ação penal pública, uma vez exercido o direito de ação, não pode dela o Ministério Público dispor, por força da clara e simples previsão do art. 42 do CPP: Art. 42. O Ministério Público não poderá desistir da ação penal. Por mais que detenha a titularidade das ações penais públicas, o processo penal deflagrado não está ao alvedrio do parquet, o qual, além de não poder desistir da ação, também não tem legitimidade para transigir quanto ao seu objeto. Justamente nesse sentido, a lição de MOUGENOT BONFIM: Com efeito, o órgão do parquet, ao ajuizar a ação e conduzir a acusação, não age em interesse próprio. Representa o Estado, titular do direito defendido, que em última análise pertence à sociedade como um todo. Assim, não tem o Ministério Público poder para transigir, abrindo mão de interesse que não lhe pertence (Bonfim, 2013). Convém notar que, naturalmente, essas regras comportam mitigações, e, novamente, as peculiaridades dos crimes de menor potencial ofensivo nos juizados especiais criminais as representam (transação, suspensão condicional do processo). A esse respeito, AVENA: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 64 Mitigando estas regras, contudo, permite a Lei 9.099/1995, nos crimes de menor potencial ofensivo, a transação penal mesmo após o ajuizamento da denúncia (art. 79). Outra regra que também flexibiliza o princípio da indisponibilidade, igualmente prevista na Lei 9.099/1995, respeita à previsão do art. 89 desse mesmo diploma. Esse artigo, referindo-se aos crimes cuja pena mínima cominada seja igual ou inferior a um ano de prisão, faculta ao Ministério Público propor ao acusado suspensão do processo mediante certas condições cujo cumprimento acarretará a extinção da punibilidade (Avena, 2017). 4.4 PRINCÍPIO DA DISPONIBILIDADE DA AÇÃO PENAL DE INICIATIVA PRIVADA Ao contrário das ações penais públicas – indisponíveis, como vimos – ao ofendido (ou seus representantes legais), nas ações penais de iniciativa privada, é conferida a faculdade de prosseguir ou não até o final do processo após deflagrada a ação; ou seja, dela pode dispor a qualquer momento. Nessa esteira, assevera TOURINHO FILHO: O direito de ação, nesses casos, é exclusivo do particular, isto é, do ofendido. Poderá exercê-lo, se quiser. [...] E, mesmo que venha a promover a ação penal, poderá a todo instante dispor do conteúdo material do processo (lide), quer perdoando o ofensor, quer abandonando a causa, dando lugar à perempção. Perdão e perempção, nos crimes de exclusiva ação penal privada, são, também, causas de extinção da punibilidade (Filho, 2011). Percebe-se, então, que o perdão e a perempção constituem maneiras pelas quais o ofendido, não mais verificando conveniência na continuidade do processo penal após ter exercido o seu direito de ação, pode dar fim a ele antes do seu natural desfecho (trânsito em julgado da sentença ou acórdão). Essas causas de extinção da punibilidade serão estudadas em tópico próprio, mais adiante. RENATO BRASILEIRO concebe, ainda, uma outra hipótese de disponibilidade da ação penal: a conciliação no procedimento dos crimes contra a honra de competência do juiz singular. Nas palavras do autor: (...) grande parte dos crimes contra a honra é tida como infração de menor potencial ofensivo, e, portanto, da competência do Juizado Especial Criminal, já que a pena máxima privativa de liberdade não é superior a 2 (dois) anos. É o que ocorre, por exemplo, com os crimes de calúnia, difamação e injúria, previstos nos arts. 138, 139 e 140 do Código Penal, respectivamente. [...] logo, da competência do juiz singular, o procedimento a ser observado é aquele compreendido entre os arts. 519 e 523 do CPP. Ali está previsto que, antes de receber a queixa, o juiz oferecerá às partes oportunidade para se reconciliarem, fazendo-as comparecer em juízo e ouvindo-as, separadamente, sem a presença dos seus advogados, não se lavrando termo. Se, depois de ouvir o querelante e o querelado, o juiz achar provável a reconciliação, promoverá entendimento entre eles, na sua presença. No caso de reconciliação, depois de assinado pelo querelante o termo da desistência, a queixa será arquivada (CPP, art. 522) (Lima, 2017). 4.5 PRINCÍPIO DA (IN)DIVISIBILIDADE DA AÇÃO PENAL PÚBLICA A (in)divisibilidade da ação penal pública não é tema pacífico na doutrina. Uma parcela sustenta que, havendo elementos probatórios suficientes a respeito dos participantes do fato delituoso, deve a ação penal ser proposta contra todos; ou seja, a ação penal pública seria indivisível. Já a outra parte da doutrina afirma que o parquet poderia denunciar apenas alguns dos envolvidos, enquanto busca amealhar elementos suficientes para denunciar os demais, em momento posterior; a ação seria, portanto, divisível. TOURINHO FILHO, adepto da visão da indivisibilidade da ação penal pública, sustenta: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 65 Se A, B e C praticam um crime de ação pública, o órgão do Ministério Público é obrigado a oferecer denúncia contra todos os partícipes do crime, salvo se em relação a algum deles houver empecilho à propositura da ação penal, como, por exemplo, extinção da punibilidade pela morte, impossibilidade absoluta de se conseguir, ao menos, seus sinais característicos Caso contrário, a denúncia será oferecida contra todos. Aliás, vigorando no Direito pátrio o princípio da legalidade, quanto aos crimes de ação pública, seria superfluidade salientar o legislador que a denúncia contra um dos autores do crime obrigaria ao processo de todos (Filho, 2011). Compartilhando dessa visão, leciona BRASILEIRO: Afinal, se vigora, quanto à ação penal pública, o princípio da obrigatoriedade, não se pode admitir que o Parquet tenha qualquer margem de discricionariedade quanto aos acusados que figurarão no polo passivo da demanda. Se há elementos de informação em face de duas ou mais pessoas, o Ministério Público se vê obrigado a oferecer denúncia contra todos eles (Lima, 2017). Do lado contrário, adepto da visão da divisibilidade da ação penal pública, NORBERTO AVENA afirma: Divisibilidade: havendo mais de um suposto autor do crime, nada impede que venha o Ministério Público a optar pelo ajuizamento da ação penal com relação a um ou alguns deles, relegando-a justificadamente, quanto aos demais, para momento posterior em vista da necessidade de serem buscados maiores elementos para amparar o processo penal (Avena, 2017). Também pela divisibilidade, a lição de GRECO FILHO: Divisibilidade. No caso de ação pública, o processo pode sempre ser desmembrado, tendo em vista a conveniência da instrução criminal, sem que, com isso, haja qualquer interferência na situação penal de cada um dos agentes. É certo que o princípio da necessidade impõe sempre a ação penal contra todos os autores da infração, mas havendo denúncia contra um apenas não significa que haja renúncia contra o outro, ou que essa omissão possa interferir na situação penal do primeiro. Havendo omissão, enquanto não extinta a punibilidade, pode ser suprida pela adequada denúncia (Filho, 2012). Se há divergências consideráveis na doutrina a respeito do tema, na jurisprudência dos tribunais superiores isso se trata de matéria pacífica; tanto para o STF quanto para o STJ a ação penal pública é divisível. Para visualizar o pronunciamento dos referidos tribunais sobre o assunto, remetemos o aluno ao item ‘jurisprudênciapertinente’ deste tópico. 4.6 PRINCÍPIO DA INDIVISIBILIDADE DA AÇÃO PENAL DE INICIATIVA PRIVADA Conquanto haja discussões a respeito da indivisibilidade ou não das ações penais públicas, nas ações penais de iniciativa privada não há quaisquer dúvidas: trata-se de ação indivisível. Isso decorre de expressa previsão legal, conforme art. 48 do CPP: Art. 48. A queixa contra qualquer dos autores do crime obrigará ao processo de todos, e o Ministério Público velará pela sua indivisibilidade. Segundo TOURINHO FILHO: “O que se não concebe, sob pena de serem desvirtuados aqueles motivos de política criminal que determinaram a adoção da ação penal privada, é poder o ofendido processar somente um dos culpados”. E continua o autor: Tão importante é esse princípio que, se o ofendido renunciar ao direito de queixa, isto é, se abdicar do direito de promover a ação penal quanto a um dos culpados, a todos se estenderá sua abdicação, conforme Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 66 dispõe o art. 49 do CPP. Por outro lado, se o ofendido perdoar um dos culpados, a punibilidade será declarada extinta em relação a todos os corréus, salvo quanto àquele que recusar o perdão, segundo dispõe o art. 51 do CPP, e, nessa hipótese, o processo terá andamento em relação ao querelado recusante (Filho, 2011). Convém registrar que o âmbito de atuação do Ministério Público, ao ‘velar pela indivisibilidade’ da ação penal de iniciativa privada, é motivo de divergência doutrinária. A celeuma reside na possibilidade ou não de intervenção direta do parquet na peça acusatória, aditando a queixa para incluir os réus faltantes, e se isso poderia constituir temerária intromissão no direito de ação do particular ofendido. A respeito dessa discussão, MOUGENOT BONFIM resume as divergências, elencando três diferentes visões adotadas sobre o tema. O trecho é bem elucidativo e vale a transcrição integral: Desrespeitado o princípio da indivisibilidade, deve o Ministério Público, como fiscal da lei, agir para que sejam processados todos os infratores. A doutrina e a jurisprudência divergem, nesse ponto, acerca da possibilidade de que o Ministério Público venha a aditar a queixa para incluir os autores indevidamente excluídos da lide. Sobre essa questão, existem três posições: a) Para alguns, o membro do parquet, cumprindo ex officio seu dever de agir como fiscal da lei, deverá aditar a peça acusatória, de forma a incluir os agentes que haviam sido omitidos. b) Para outros, o aditamento da queixa por parte do Ministério Público representaria usurpação ao direito de ação, que, no caso específico da ação penal privada, cabe exclusivamente ao particular. Dessa forma, seria vedado ao órgão do parquet aditar a queixa para nela incluir outros coautores ou partícipes. Para os adeptos desse entendimento, portanto, a omissão do autor da ação em incluir esses coautores ou partícipes deverá ser interpretada como o exercício de renúncia em relação a eles. Ocorre, entretanto, que, por força do mencionado art. 49 do Código de Processo Penal, a renúncia exercida em face de uns necessariamente aproveita aos demais, de modo que a hipótese redundaria na renúncia do querelante com relação a todos os coautores ou partícipes, equivalendo, em seus efeitos, à renúncia à ação penal como um todo. c) Finalmente, uma terceira corrente, posicionando-se entre as duas anteriores, defende que, muito embora seja vedado ao membro do parquet substituir-se ao ofendido para incluir os outros autores, existe a possibilidade de que o representante do Ministério Público, ao deparar- se com a situação de que um ou mais agentes tenham sido omitidos pelo querelante, suscite a ocorrência da omissão, de modo a abrir a oportunidade para que o querelante proceda, desejando, ao seu aditamento. Somente a recusa do querelante em proceder, por conta própria, ao aditamento da queixa consubstanciar- se-ia em renúncia ao direito de queixa, nos termos do art. 49 do Código de Processo Penal. O autor conclui a feliz passagem, trazendo a solução proposta para o problema: Assim, a solução proposta pela doutrina é no sentido de que a queixa seja oferecida, tão logo o deseje o querelante, em face daqueles acerca de quem já existam indícios suficientes de autoria. Mais tarde, a queixa poderá vir a ser aditada para que constem os demais autores da prática delituosa, conforme venham estes a ser conhecidos. Se já iniciada a instrução, deverão ser novamente realizados os atos a ela referentes, ao menos com relação aos novos querelados. Se, no entanto, já houver sido prolatada sentença, somente restará a possibilidade de que se ajuíze nova ação, que deverá tramitar perante o mesmo juízo que houver julgado os demais querelados. Encontra-se, nessa hipótese, uma exceção ao princípio da indivisibilidade da ação penal privada (Bonfim, 2013). 4.7 PRINCÍPIO DA INTRANSCENDÊNCIA No âmbito do Direito Penal, o art. 5º, XLV da CF estabelece o mandamento da responsabilidade pessoal ou pessoalidade da pena: XLV - nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido; Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 67 O princípio da intranscendência no processo penal é simples antecedente lógico dessa regra material e preceitua que a ação penal não pode recair sobre pessoas alheias ao fato criminoso, mas apenas sobre o seu autor, coautor e partícipes. Nesse sentido, leciona AURY LOPES JR., de maneira simples e objetiva: A regra não possui maior relevância processual, pois a situação vem circunscrita, previamente, pelo Direito Penal. A acusação está limitada, na sua abrangência subjetiva, aos limites impostos pelo Direito Penal no que se refere à autoria, coautoria e participação. Não havendo o vínculo concursal, não há que se falar em transcendência da pena ou da acusação. Assim, a acusação somente pode recair sobre autor, coautor ou partícipe do delito (Júnior, 2018). Outrossim, AVENA bem sintetiza o tema: “a ação penal será ajuizada contra o responsável pela autoria ou participação no fato típico, não se incluindo corresponsáveis civis cuja ação do ponto de vista penal foi irrelevante” (Avena, 2017). Importante frisar que esse princípio se aplica tanto às ações penais públicas quanto às de iniciativa privada. 4.8 PRINCÍPIO DA OFICIALIDADE A ação penal pública apenas pode ser deflagrada por órgão oficial do Estado; e essa incumbência recai sobre o Ministério Público. Trata-se, inclusive, de função institucional do parquet positivada no art. 129, I da CF: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei; Em verdade, como bem anota PACELLI, tal princípio constitui mera derivação do princípio da obrigatoriedade: Ora, se há obrigatoriedade da ação, somente o Estado pode responder por ela. Pensamos ser inimaginável uma ordem jurídica que obrigue o particular a promover a ação penal contra quem quer que seja. E se o Estado é o responsável, nada mais óbvio que a função ser destinada aos seus órgãos (art. 129, CF) (Pacelli, 2018). Como mitigação desse princípio, AVENA aponta a figura da ‘ação penal privada subsidiária da pública’: “Excetua-se este princípio, contudo, na faculdade conferida ao ofendido pelo art. 29 do CPP e pelo art. 5. º, LIX, da CF no sentido de ajuizar a ação penal privada subsidiária da pública, quando inerte o Ministério Público em oferecer denúncia no prazo legal” (Avena, 2017). Ou seja, por mais que a titularidade da ação penal pública sejado Ministério Público, e por mais que a deflagração dessa ação seja de sua competência privativa, a própria Constituição Federal, no seu art. 5º, LIX, previu importante hipótese de exceção ao princípio em comento. Veja-se o que o artigo dispõe: LIX - será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal; A ação penal subsidiária da pública conta com várias peculiaridades e detalhes; será melhor analisada em momento oportuno desta aula. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 68 4.9 PRINCÍPIO DA AUTORITARIEDADE Esse simples princípio estabelece que os órgãos de persecução penal são caracterizados como autoridades públicas. Para PACELLI, trata-se, em verdade, de regra atinente à própria oficialidade e de mero aspecto do princípio da obrigatoriedade: No campo da oficialidade, mencionam-se, ainda, as regras da autoritariedade e da oficiosidade, a primeira dizendo respeito ao exercício das funções persecutórias por autoridades estatais e a segunda explicitando o dever de procedimento ex officio das apontadas autoridades. Como se percebe, todas essas regras encontram sua raiz comum no princípio da obrigatoriedade da ação penal pública, sendo, na realidade, meras derivações ou aspectos do mesmo conceito (Pacelli, 2018). Por derradeiro, sustenta MUCCIO: Por este princípio, corolário do princípio da oficialidade, acolhido e citado por parte da doutrina, os encarregados da persecução penal, seja na sua primeira fase (persecutio criminis), seja na segunda fase (persecutio criminis in judicio), são autoridades públicas. O delegado de polícia (autoridade policial), a quem se deferiu à persecutio criminis, como o Ministério Público, a quem se conferiu a persecutio criminis in judicio, ou seja, no processo, em juízo, constitui uma autoridade pública (sic) (Muccio, 2000). 4.10 PRINCÍPIO DA OFICIOSIDADE Em se tratando de crimes de ação penal pública incondicionada, a persecução penal deve desenvolver-se ex officio pelos órgãos dotados dessa incumbência; ou seja, devem esses órgãos agir independentemente de provocação. Esse princípio é mitigado nos casos das ações penais públicas condicionadas, nas quais tanto a autoridade policial quanto o Ministério Público dependem da prévia representação por parte do ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça para agir (Lima, 2017). Decorre essa visão de expressa previsão legal, conforme o já citado art. 24 do CPP: Art. 24. Nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo. Portanto, nessas espécies de ação, caso não seja implementada a condição específica (representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça), não há se falar em instauração de inquérito policial tampouco em oferecimento da denúncia ou consequente deflagração da ação penal. Doutrina Complementar Obrigatoriedade da ação penal pública. NORBERTO AVENA (Processo Penal, 9ª edição, Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017), a respeito da relação entre o princípio da obrigatoriedade e a amplitude da análise, pelo Ministério Público, dos elementos do crime para oferecimento ou não da denúncia, assevera: “A presença de causa excludente de ilicitude no agir do indiciado pode justificar o não ajuizamento da ação penal pública? As excludentes de ilicitude ou de antijuridicidade são as previstas no art. 23 do Código Penal, quais sejam: legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento do dever legal e exercício regular de direito. Em tese, aspectos relativos à ilicitude ou não da conduta do agente são irrelevantes no momento do ajuizamento da denúncia. A consideração a ser realizada pelo Ministério Público deve respeitar, unicamente, à existência de indícios de autoria e prova da materialidade de uma infração penal (fato típico), descabendo adentrar nas órbitas da ilicitude. No entanto, parte da doutrina aceita a possibilidade de não ajuizamento da ação penal pública em situações nas quais a presença de excludentes da ilicitude seja absolutamente irrefutável, vale dizer, totalmente estreme de dúvidas. Isto se justifica em questões de economia Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 69 processual e também para não submeter ao constrangimento de responder a um processo criminal a pessoa que, embora tenha praticado conduta típica, agiu evidentemente ao amparo de uma das causas excludentes de ilicitude previstas em lei. [...] E quando presente causa excludente de culpabilidade? A culpabilidade envolve fatores de três ordens: potencial consciência da ilicitude, exigibilidade de conduta diversa e imputabilidade. Logo, excluem a culpabilidade as seguintes causas: • Erro de proibição inevitável (art. 21, caput, 1ª parte, do CP); • Coação moral irresistível e estrita obediência à ordem não manifestamente ilegal de superior hierárquico (art. 22 do CP); • Doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado totalmente incapacitantes (art. 26, caput, do CP); • Idade inferior a 18 anos (art. 27 do CP); e • Embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior (art. 28, § 1º, do CP). Pois bem, tocante à possibilidade de ajuizamento da ação penal pública quando presentes essas causas, é preciso distinguir: a) Jamais será lícito ao Ministério Público deixar de oferecer denúncia contra o agente ao fundamento da sua inimputabilidade por doença mental ao tempo do fato (art. 26, caput, do CP), pois, embora se trate esta de uma excludente da culpabilidade, e, desse modo, imponha a absolvição (art. 386, VI, 2ª parte, do CPP), permite a lei a imposição de medida de segurança (art. 386, parágrafo único, III, do CPP). [...] b) Em se tratando de inimputabilidade decorrente de menoridade penal (art. 27 do CP), não há de se cogitar dedução de ação penal, a qual resta inviabilizada pela manifesta ilegitimidade ad causam passiva do autor do ato infracional. c) Quanto às outras dirimentes (erro de proibição inevitável, coação moral irresistível, obediência hierárquica à ordem não manifestamente ilegal e embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior) assim como ocorre em relação às excludentes de ilicitude, cremos que somente a absoluta certeza quanto à sua existência, e ainda assim em caráter excepcional, poderá justificar o não ajuizamento da ação penal pelo Ministério Público e o consequente pedido de arquivamento do inquérito policial”. VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “A relação entre a infração penal e a propositura da ação penal é uma relação de obrigatoriedade e não de eventualidade. Isto não quer dizer, porém, que o Ministério Público não tenha que examinar a existência de dados probatórios sobre os elementos da infração. Para oferecer denúncia é preciso que existam elementos probatórios sobre todos os aspectos da infração, sob pena de inexistir justa causa. No passado, entendia-se que haveria justa causa na simples imputação de fato típico. Hoje, contudo, reconhece-se que, para haver justa causa, exige-se um juízo de probabilidade da ocorrência da infração penal quanto a todos os seus elementos, inclusive a antijuridicidade e a culpabilidade. Para a instauração do inquérito bastou um juízo de possibilidade. Para a ação exige-se a probabilidade, porque a ação penal já é um constrangimento que depende de base para submeter qualquer pessoa. Se estiver, por exemplo, cabalmente demonstrada a inexistência de dolo ou culpa, ou a ocorrência de excludente, não pode o promotor denunciar. Deve pedir o arquivamento.Na dúvida, porém, deve o promotor denunciar em virtude do princípio da necessidade e da defesa da sociedade”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Assim, tem-se entendido que, para o início da ação penal pública, basta a presença de indícios suficientes de autoria e prova da materialidade delitiva. Portanto, o Ministério Público não deverá sequer adentrar o mérito da existência de causas excludentes de ilicitude ou de culpabilidade. Todavia, em situações específicas em que se afigure inequívoca e evidente a presença das referidas causas excludentes, entende-se ser possível que o Ministério Público deixe de ingressar com a ação penal, propondo o arquivamento do inquérito policial”. Oportunidade da ação penal de iniciativa privada. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “O ofendido tem a faculdade de propor ou não a ação de acordo com a sua conveniência, ao contrário da ação penal pública, informada que é pelo princípio da legalidade, segundo o qual não é dado ao seu titular, quando da sua propositura, ponderar qualquer critério de oportunidade e conveniência. Diante disto, se a autoridade policial se deparar com uma situação de flagrante delito de ação privada, ela só poderá prender o agente se houver expressa autorização do particular (CPP, art. 5º, § 5º)”. Indisponibilidade da ação penal pública. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016) trata de algumas questões adjacentes, mas interessantes, dentro do princípio: “Não pode o órgão ministerial, sequer, desistir do recurso interposto (art. 576, CPP), afinal, a fase recursal é um desdobramento do direito de ação. Perceba que o MP não é obrigado a recorrer. Contudo, se o fizer, não poderá desistir do recurso manejado. Esse princípio tem lugar também na ação penal privada subsidiária da pública na hipótese de abandono da causa pelo querelante, fato que enseja a tomada da ação pelo Ministério Público com parte autora principal. Cumpre ainda observar que o Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 70 MP não é um colecionador de condenações, assumindo o relevante papel de guardião da sociedade e fiscal da justa aplicação da lei. Apesar de não poder dispor da ação, pode validamente, em sede de alegações finais, pleitear a absolvição do réu, impetrar habeas corpus em favor deste, e até recorrer para beneficiá-lo”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017): “O jus puniendi pertence ao Estado, que em seu aparelhamento outorga ao Ministério Público o jus persequendi in judicio, mas não o total e desregrado assenhoramento da ação penal. Na irretocável expressão de Vicente de Azevedo, o Ministério Público não é o proprietário da ação penal. A necessidade de solução de litígios e pacificação social, finalidades mediata e imediata do processo penal, reclama a instauração de processo sempre que presente justa causa para tanto, daí não se admitirem certas liberalidades ao órgão público incumbido de postular em juízo a prestação jurisdicional nas ações penais públicas”. Disponibilidade da ação penal de iniciativa privada. PAULO RANGEL (Direito processual penal, 26ª ed., São Paulo: Atlas, 2018): “Uma vez decidido pelo ofendido propor a ação penal de iniciativa privada (conveniência ou oportunidade), poderá ele a todo tempo dispor do conteúdo material do processo, desistindo do seu prosseguimento. Esse princípio é contrário ao da indisponibilidade da ação penal pública. Assim, o fato de ter iniciado a ação penal, porque lhe era conveniente e oportuno, não significa que, durante o curso desta ação, o ofendido não possa dela desistir. Pode. Pois, a qualquer tempo, ser-lhe-á lícito conceder ao réu (querelado) o perdão ou abandonar o processo, perimindo a ação”. VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012) trata de ponto interessante, que é a impossibilidade de o querelante transigir quanto ao objeto da lide penal: “Significa que o querelante pode renunciar, desistir, quer da ação, quer do recurso. Não pode, porém, transigir, porque a transação envolveria o próprio jus puniendi, que não é seu, mas do Estado. Aliás o querelante é substituto processual do Estado, porque age em nome próprio sobre direito de terceiro. O querelante tem disponibilidade sobre a ação, não sobre o direito de punir. É certo que a disponibilidade sobre a ação pode levar à não punição, mas se o legislador deu ao crime a ação penal privada, optou conscientemente pela possibilidade de não punir, a critério da iniciativa do ofendido. Não há, porém, possibilidade de se transacionar sobre o conteúdo da punição”. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “O particular é o exclusivo titular dessa ação, porque o Estado assim o desejou, e, por isso, é-lhe dada a prerrogativa de exercê-la ou não, conforme suas conveniências. Mesmo o fazendo, ainda lhe é possível dispor do conteúdo do processo (a relação jurídica material) até o trânsito em julgado da sentença condenatória, por meio do perdão ou da perempção (CPP, arts. 51 e 60, respectivamente)”. (In)divisibilidade da ação penal pública FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “A ação penal pública deve abranger todos aqueles que cometeram a infração. A regra é desdobramento do princípio da legalidade: se o Ministério Público está obrigado a propor a ação penal pública, é óbvio que não poderá escolher, dentre os indiciados, quais serão processados, pois isso implicaria necessariamente a adoção do princípio da oportunidade em relação ao perdoado”. EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Há discordância acerca da aplicabilidade, no caso de ação penal pública, do princípio da indivisibilidade da ação penal, insculpido no art. 48 do Código de Processo Penal. Tourinho Filho defende a indivisibilidade da ação penal pública, o que equivaleria a dizer que a ação penal obrigatoriamente deverá ser ajuizada contra todos os autores da infração penal, havendo exceção somente nos casos de separação do processo. Em posicionamento contrário, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça reconhece expressamente (RSTJ, 23/145) a divisibilidade da ação penal pública, tendo decidido no sentido de que ‘o fato de o Ministério Público deixar de oferecer denúncia contra quem não reconheceu a existência de indícios de autoria na prática do delito não ofende o princípio da indivisibilidade da ação penal, pois o princípio do art. 48 do Código de Processo Penal não compreende a ação penal pública, que, não obstante, é inderrogável’. [...] Dessa forma, especialmente em casos complexos em que estejam envolvidos diversos investigados, o Ministério Público poderá oferecer denúncia em face daqueles acerca dos quais houver reunido indícios suficientes de autoria. Com a continuidade das investigações, poderá, mais tarde, aditar posteriormente a denúncia para a inclusão de corréu(s), ou mesmo propor, separadamente, nova ação penal contra os indivíduos cuja autoria somente venha a ser suficientemente esclarecida em ocasião Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 71 posterior. O que não pode ocorrer, evidentemente, é o Ministério Público, de forma discricionária, deixar de oferecer denúncia em face de um ou outro suspeito contra o qual militem provas significativas”. HIDEJALMA MUCCIO (Curso de processo penal, vol. 1, 1ª ed., São Paulo: EDIPRO, 2000): “Na ação penal pública, não há disposição legal direta assegurando-lhe a indivisibilidade. Ela, no entanto, decorre da adoção do princípio da legalidadeou obrigatoriedade. Por força desse princípio, não pode o órgão do Ministério Público deixar de promover a ação penal contra todos os autores do fato (nec delict maneant impunita). O autor da ação penal não pode excluir, sem motivo legal, qualquer partícipe ou autor do fato. A ação penal pública é, pois, indivisível. Dessa forma, se o delito foi praticado por João e José, ambos devem ser processados. Se cinco são os autores do fato, contra os cinco deve a ação penal ser iniciada. Não tem o Ministério Público poder discricionário para escolher, entre os autores, aqueles contra quem promoverá o processo e os que ficarão dele excluídos”. Indivisibilidade da ação penal de iniciativa privada. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “O ofendido pode escolher entre propor ou não a ação. Não pode, porém, optar dentre os ofensores qual irá processar. Ou processa todos, ou não processa nenhum. O Ministério Público não pode aditar a queixa para nela incluir os outros ofensores, porque estaria invadindo a legitimação do ofendido. No caso, a queixa deve ser rejeitada em face da ocorrência da renúncia tácita no tocante aos não incluídos, pois esta causa extintiva da punibilidade se comunica aos querelados (CPP, art. 49). Convém notar que, na hipótese de não ser conhecida a identidade do coautor ou partícipe do crime de ação penal privada, não será possível, evidentemente, a sua inclusão na queixa. Nesse caso, não se trata de renúncia tácita, com a consequente extinção da punibilidade de todos os demandados, porque a omissão não decorreu da vontade do querelante”. PAULO RANGEL (Direito processual penal, 26ª ed., São Paulo: Atlas, 2018), a respeito da atuação do Ministério Público ao velar pela indivisibilidade da ação penal de iniciativa privada, assevera: “Entendemos que a lei legitima o Ministério Público a propor a ação penal pública, que é a regra; porém, excepcionalmente, permite ao ofendido substituí-lo, processualmente, diante de determinados crimes que dizem mais respeito ao particular do que ao Estado, sem descuidar que esta legitimidade não é para ser usada como instrumento de vingança e sim de justiça. Assim, no momento em que a queixa-crime for oferecida, e no curso da instrução, se descobrirem novos elementos de culpabilidade de outros indivíduos, deve o Ministério Público aditar (acrescentar) a queixa para incluí-los, pois, do contrário, não haveria a indivisibilidade necessária da ação penal que é exigida por lei. Entretanto, se o ofendido deixou de oferecer a queixa em relação a um dos indivíduos, de forma expressa ou praticando um ato incompatível com o desejo de instaurar a ação, ocorre a renúncia expressa ou tácita, respectivamente e, consequentemente, dar-se-á a extinção da punibilidade. [...] Não se diga que o aditamento pelo Ministério Público seria uma intervenção do mesmo na esfera de disponibilidade do ofendido. Não. Pois o ofendido, se quiser dispor do conteúdo da ação, poderá fazê-lo através do instituto do perdão, mesmo com o aditamento do MP, pois o que não se admite é a divisibilidade da ação penal que quis o legislador fosse indivisível”. HIDEJALMA MUCCIO (Curso de processo penal, vol. 1, 1ª ed., São Paulo: EDIPRO, 2000): “O titular da ação penal privada, o ofendido ou seu representante legal (querelante), não pode escolher, seja por qual razão for, contra quem oferecerá a queixa-crime. Ou inicia a ação, o processo, contra todos os autores do fato (querelados), ou simplesmente não promove a ação. Com isso, proíbe-se a vingança privada. Ao órgão do Ministério Público compete o aditamento da queixa para incluir o querelado excluído, e, no prazo de 03 (três) dias (art. 46, § 2º, do CPP). O perdão na ação penal privada, causa extintiva da punibilidade do querelado, pode excepcionar o princípio da indivisibilidade. Nos termos do art. 51 do CPP, o perdão concedido a um dos querelados aproveitará a todos, sem que produza, todavia, efeito em relação ao que o recusar”. Intranscendência. FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018): “A ação penal só pode ser proposta contra a pessoa a quem se imputa a prática do delito. Salienta-se esse princípio em virtude do fato de que há sistemas em que a satisfação do dano ex delicto faz parte da pena, devendo, por isso, ser pleiteada pelo órgão da acusação em face do responsável civil. A ação engloba, assim, além do provável sujeito ativo da infração, também o responsável pela indenização. Não é o sistema adotado no Brasil, como se vê. Entre nós vigora a intranscendência da ação penal, seja pública ou privada”. Oficialidade. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 72 VICENTE GRECO FILHO (Manual de processo penal, 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “A oficialidade tem dois aspectos. Significa que a ação pública é de iniciativa de um órgão público, o Ministério Público, e, também, que ela se desenvolve por impulso oficial. As partes não precisam requerer a prática de atos processuais, que serão determinados de ofício pelo juiz. Recebida a denúncia, independentemente de pedido, o juiz designa interrogatório, mandando citar o réu etc.”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017): “A instauração do processo e a prestação jurisdicional ocorrem no âmbito do Poder Judiciário, que para tanto x’dispõe de seus órgãos Constitucionalmente delineados (CF, art. 92). Como se vê, a persecução penal em sentido amplo – da investigação ao término da prestação jurisdicional – é monopólio do Estado, que desenvolve todas as atividades correspondentes por meio de seus órgãos Constitucionalmente dispostos. Os órgãos incumbidos da persecução penal são oficiais, daí a ação penal encontrar-se envolvida pelo princípio da oficialidade”. HIDEJALMA MUCCIO (Curso de processo penal, vol. 1, 1ª ed., São Paulo: EDIPRO, 2000): “De fato, quem promove a ação penal pública incondicionada é o órgão do Ministério Público. Esse órgão pertence ao Estado- Administração. É, portanto, um órgão estatal. É público, oficial, porque pertence ao Estado, tanto que não age em nome próprio, e sim em nome daquele. [...] Como o Estado não pode estar em juízo pessoalmente, foi instituído o Ministério Público, que, em seu nome, deduz sua pretensão punitiva por meio da ação penal, instrumento que viabiliza a atuação do Direito Penal objetivo”. Oficiosidade. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017): “Na ação penal pública incondicionada, os órgãos incumbidos da persecução devem agir de ofício – ex officio –, pois não dependem de provocação de quem quer que seja. De ver, entretanto, que o sistema acusatório adotado e regras expressas impedem que o juiz proceda de ofício em determinadas situações, mesmo diante de ação penal pública incondicionada. É o que ocorre, por exemplo, com a impossibilidade de decretação de prisão preventiva ou imposição de medida cautelar restritiva ex officio na fase de investigação, a teor do disposto nos arts. 282, § 2º, e 311, do CPP”. Jurisprudência pertinente Supremo Tribunal Federal Princípio da divisibilidade da ação penal pública incondicionada. Não obrigatoriedade da denúncia contra todos os infratores em idêntico tempo e ato processual. [...] (RHC 126423 AgR, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 07/10/2016, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-029 DIVULG 13-02-2017 PUBLIC 14-02-2017) O Supremo Tribunal Federal possui clara orientação no sentido de que a regra da indivisibilidade da ação penal tem campo de incidência específico à ação penal privada (art. 48 do Código de Processo Penal). Precedentes. [...] (Inq 3979, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Segunda Turma, julgado em 27/09/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-267 DIVULG 15-12-2016 PUBLIC 16-12- 2016) A indisponibilidade da ação penal pública nãoproíbe que o Ministério Público possa opinar pela absolvição do réu, mas exclui a vinculação do juízo à manifestação do Parquet, tendo em vista a vedação inscrita nos artigos 42 e 576 do Código de Processo Penal, que impedem o Ministério Público de desistir da ação penal ou do recurso que haja interposto. [...] (AP 921, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 20/06/2017, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-143 DIVULG 29-06-2017 PUBLIC 30-06-2017) Tratando-se de ação penal privada, o oferecimento de queixa-crime somente contra um ou alguns dos supostos autores ou partícipes da prática delituosa, com exclusão dos demais envolvidos, configura clara hipótese de violação ao princípio da indivisibilidade (CPP, art. 48), implicando, por isso mesmo, renúncia tácita ao direito de querela (CPP, art. 49), cuja eficácia extintiva da punibilidade estende-se a todos quantos alegadamente hajam intervindo no cometimento da infração penal (CP, art. 107, V, c/c o art. 104). Doutrina. Precedentes. (Inq 2139 AgR, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 13/09/2006, DJe-047 DIVULG 28-06-2007 PUBLIC 29-06-2007 DJ 29-06-2007 PP-00029 EMENT VOL-02282-01 PP-00118 RTJ VOL- 00202-03 PP-00956) Superior Tribunal de Justiça A litispendência guarda relação com a ideia de que ninguém pode ser processado quando está pendente de julgamento um litígio com as mesmas partes (eadem personae), sobre os mesmos fatos (eadem res), e com a mesma pretensão (eadem Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 73 petendi), que é expressa por antiga máxima latina, o ne bis in idem (HC 229.650/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 8/3/2016, DJe 15/3/2016) Doutrina e jurisprudência não admitem o chamado "arquivamento implícito" em sede de ação penal pública incondicionada, porquanto não vigora para o Ministério Público o princípio da indivisibilidade, não sendo o Parquet obrigado a denunciar todos os investigados em uma só oportunidade. [...] (RHC 87.894/RN, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 03/10/2017, DJe 09/10/2017) Não há inépcia da denúncia por uma eventual separação da acusação, assim como violação ao princípio da indivisibilidade da ação penal, porquanto na ação penal pública incondicionada é permitido, a qualquer tempo, o aditamento ou até o posterior oferecimento de outra denúncia pelo Parquet (precedentes). [...] (RHC 46.296/BA, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 16/03/2017, DJe 23/03/2017) O princípio da indivisibilidade da ação penal privada não se aplica à ação penal pública incondicionada, pois nesta é permitido, a qualquer tempo, o aditamento ou até o posterior oferecimento de outra denúncia pelo Parquet (precedentes). Assim, o não oferecimento imediato da exordial acusatória em relação aos demais investigados não implica em renúncia tácita ao direito de ação, como ocorre na ação penal privada, não gerando, dessa forma, nulidade a ser reclamada. [...] (AgRg no Ag 1433513/RN, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 15/12/2016, DJe 10/02/2017) O acórdão recorrido encontra-se no mesmo sentido da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça e do Supremo Tribunal Federal de que o princípio da indivisibilidade não se aplica à ação penal pública, podendo o Ministério Público, como 'dominus litis', aditar a denúncia, até a sentença final, para inclusão de novos réus, ou ainda oferecer nova denúncia, a qualquer tempo (STF, HC 71.538/SP, 1ª Turma, Rel. Min. Ilmar Galvão, DJ de 15/03/1996). [...] (AgRg no AREsp 1019674/BA, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 02/02/2017, DJe 10/02/2017) Não vigora o princípio da indivisibilidade na ação penal pública. O Parquet é livre para formar sua convicção incluindo na increpação as pessoas que entenda terem praticados ilícitos penais, ou seja, mediante a constatação de indícios de autoria e materialidade, não se podendo falar em arquivamento implícito em relação a quem não foi denunciado. [...] (RHC 34.233/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 06/05/2014, DJe 14/05/2014) [...] DUPLA IMPUTAÇÃO. DENÚNCIAS OFERECIDAS CONTRA O PACIENTE. OBJETOS DISTINTOS. AUSÊNCIA DE BIS IN IDEM. INEXISTÊNCIA DE IMPUTAÇÃO NA PRIMEIRA DENÚNCIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CARACTERIZADO. ORDEM DENEGADA. [...] A titularidade conferida constitucionalmente ao Ministério Público permite a promoção da persecução penal, atendidos os ditames da ampla defesa, do contraditório, do due process of law e da celeridade na prestação jurisdicional, da melhor forma a deslindar o processo, como nos casos complexos, marcados pela prática de diversos crimes, em tese, em apuração. [...] O ordenamento processual possibilita ao Ministério Público cindir as imputações em diversas denúncias na tutela do bem jurídico. [...] "Em se evidenciando que as imputações deduzidas nas denúncias oferecidas referem-se a fatos distintos, inexiste violação do princípio ne bis in idem, e, por conseguinte, constrangimento ilegal qualquer a ser sanado" (HC 27.142/RS). [...] (HC 91.403/RJ, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, QUINTA TURMA, julgado em 17/06/2010, DJe 02/08/2010) [...] VIOLAÇÃO À COISA JULGADA. PROIBIÇÃO DO NE BIS IN IDEM. PACIENTE CONDENADO DUAS VEZES PELOS MESMOS FATOS. FLAGRANTE ILEGALIDADE. [...] Não obstante as nuances constantes dos decretos condenatórios relativamente aos bens subtraídos pelo paciente, é evidente que as condenações incidiram sobre o mesmo fato criminoso, implicando em indevido bis in idem em desfavor do paciente. [...] Malgrado o roubo cometido contra a vítima Paulo José de Oliveira, gerente do estabelecimento bancário, não tenha sido apreciado na primeira ação, vindo à tona apenas no segundo processo, ele também se encontra sob o âmbito de incidência do princípio ne bis in idem, porque fora praticado no mesmo contexto fático da primeira ação, podendo ser levado ao conhecimento do juízo de origem já naquela oportunidade, o que não ocorreu. [...] Não há se falar em arquivamento implícito, rechaçado pela doutrina e pela jurisprudência pátria, porque não se cuida, in casu, de fatos diversos, mas sim de um mesmo fato com desdobramentos diversos e apreciáveis ao tempo da instauração da primeira ação penal. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para anular a ação penal n. 04504661-2, que tramitou perante o d. Juízo de Direito da 2ª Vara Criminal da Comarca de Belo Horizonte/MG, por violação ao princípio ne bis in idem. (HC 285.589/MG, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 04/08/2015, DJe 17/09/2015) 5. Ação penal pública incondicionada Essa modalidade de ação penal é pública porque quem pode intentá-la é somente o Estado, através do Ministério Público, não havendo inicial possibilidade de o particular promovê-la. Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 74 I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei; É incondicionada porquanto não está sujeita a requisito especial algum, que não aqueles genéricos de toda e qualquer ação penal. Observado o sistema acusatório concebido pela Constituição Federal, estabeleceu-se o Ministério Público como dominus litis, que, na maioria dos casos (sempre que a ação for incondicionada), pode instaurar o processo independentemente da vontade de quem quer que seja, aliás, até mesmo contra a vontade da vítima. Esse tipo de ação penal constitui a regra no nosso sistema. Veja-se o Código Penal: Art. 100 - A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a declara privativa do ofendido. § 1º - A ação pública é promovida peloMinistério Público, dependendo, quando a lei o exige, de representação do ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça. Sendo assim, sempre que a lei silenciar, quando a norma nada trouxer sobre exigência de condição específica ou, enfim, qualquer disposição contrária (e normalmente isso é feito na parte final de cada capítulo do Código Penal), a ação será pública e incondicionada – procedendo-se, portanto, pelo Ministério Público, mediante denúncia e sem que dependa da vontade de outrem. Assim, para que se possa saber a espécie de ação penal referente a determinado delito, deve-se analisar se o Código Penal ou se a lei especial dispõe em sentido contrário, seja no próprio artigo onde o delito está tipificado, seja nas disposições finais do capítulo ou do título onde o crime estiver inserido. Quando o delito depende de representação, portanto, hipótese de crime de ação penal pública condicionada à representação, costuma-se usar a expressão "somente se procede mediante representação"; se o delito depende de requisição, logo, crime de ação pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça, utiliza-se a expressão "procede-se mediante requisição do Ministro da Justiça"; por fim, quando se trata de crime de ação penal de iniciativa privada usa-se a expressão "somente se procede mediante queixa". Estando presentes as condições da ação e havendo justa causa, o Ministério Público pode oferecer denúncia e prescinde da atuação de qualquer cidadão. Na medida em que a Constituição Federal, no artigo 129, inciso I, estabelece competência privativa do Ministério Público para a propositura da ação penal pública, conclui a doutrina que qualquer dispositivo legal que permita a outro agente, como o delegado de polícia ou o juiz, por exemplo, a instauração de um processo, não foi recepcionado pela Constituição Federal. Veja-se que não foi recepcionado pela Constituição Federal o denominado procedimento judicialiforme, previsto no art. 26 do CPP, no qual se permitia que a ação penal pública nas contravenções penais fosse iniciada por auto de prisão em flagrante ou por meio de portaria expedida pelo juiz ou pela autoridade policial (Avena, 2017). Ação penal pública não está sujeita a representação; com isso, o único prazo que sobre ela incide, para efeito de fulmina-la, é o da prescrição, em relação à pretensão punitiva. O prazo de denúncia (que é outra coisa) é impróprio e não implica em preclusão. Vejamos lição de NORBERTO AVENA nesse ponto: Quanto ao prazo para o oferecimento da denúncia, estabelece o art. 46 do CPP que é de cinco dias, quando se tratar de indiciado preso, e de quinze dias, quando estiver em liberdade, contados, em qualquer caso, da data em que o órgão do Ministério Público receber os autos do inquérito policial ou das peças de informação. Ressalvam-se determinadas exceções previstas em leis ou procedimentos especiais contemplando prazos diferenciados. É o caso, por exemplo, dos crimes eleitorais, em que o prazo para oferecimento da denúncia é de dez dias (art. 357 do Código Eleitoral); dos crimes contra a economia Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 75 popular, cujo prazo é de dois dias (art. 10, § 2.º, da Lei 1.521/1951); dos crimes de abuso de autoridade, em que a denúncia deve ser proposta em quarenta e oito horas (art. 13 da Lei 4.898/1965); e dos crimes relacionados a drogas, em que este prazo é de dez dias (art. 54 da Lei 11.343/2006). Mas, atenção: a despeito dessas disciplinas, pode ocorrer que o descumprimento do prazo legal para o oferecimento da denúncia não se revele desarrazoado, justificando-se, por exemplo, na complexidade do caso ou das provas produzidas. Nestes casos, ainda que esteja preso o indiciado, a delonga no ajuizamento da ação penal, desde que não excessiva, não implica, necessariamente, a conclusão de constrangimento ilegal passível de enfrentamento por meio de habeas corpus, devendo ser ponderada, no caso concreto, sob o princípio da razoabilidade. Há divergências quanto ao efetivo dies a quo dos prazos mencionados. Indaga-se, enfim: Ao dispor o art. 46 do CPP que o prazo para oferecimento da denúncia conta-se da data em que o Ministério Público receber os autos do inquérito policial, referido dispositivo está determinando a inclusão do dia da vista efetiva do inquérito, ou, ao contrário, ordenando que o prazo tenha início no primeiro dia útil seguinte ao da referida vista? A solução desta questão passa, necessariamente, pela definição da natureza processual ou material dos prazos estabelecidos em lei para o oferecimento da exordial. Veja-se que os prazos processuais contam-se na forma prevista no art. 798, § 1.º, do CPP, excluindo-se o dia do começo, incluindo-se, porém, o do vencimento. Além disso, não se iniciam e não se finalizam em dias não úteis, o que acarreta a prorrogação do dies a quo e do dies ad quem para o primeiro dia útil seguinte na hipótese, por exemplo, de recaírem em final de semana ou feriado. Por essa linha de raciocínio, aportassem os autos do inquérito policial junto ao Ministério Público no dia 1.º (sexta-feira) e se encontrando preso o indiciado, o prazo para oferecimento da denúncia iniciar-se-ia no dia 4 (segunda-feira), encerrando-se no dia 8 (sexta- feira). Por outro lado, os prazos materiais têm a sua forma de contagem regrada pelo art. 10 do CP, incluindo-se o dia do começo, independentemente de tal data recair ou não em dia útil, pois essa modalidade de prazo não está sujeita a interrupção ou suspensão. Assim, chegando os autos do inquérito na promotoria de justiça no dia 1.º (sexta-feira) e estando o réu preso, teríamos como dies a quo o próprio dia 1.º e, como dies ad quem, o dia 5 (terça-feira). Embora não possamos ignorar a circunstância de que a última posição (natureza material) possibilita a contagem do prazo de forma mais benéfica para o investigado, aderimos à primeira corrente, qual seja, a de que a natureza desses prazos é processual, devendo ser contados com exclusão do dia do começo, mesmo porque esta é a regra estipulada pelo art. 798, § 1.º, do CPP para contagem dos prazos previstos no Código de Processo Penal. Perceba-se, finalmente, que o prazo para oferecimento da denúncia é impróprio, o que significa que seu escoamento não acarreta preclusão. Logo, ainda que esgotado o prazo legal do Ministério Público, se a vítima ou quem tenha qualidade para representá-la não ajuizar a ação penal privada subsidiária da pública nos termos do art. 29 do CPP, poderá a denúncia ser apresentada pelo Promotor em qualquer tempo, desde que antes da extinção da punibilidade pela prescrição ou outra causa (Avena, 2017). Doutrina Complementar EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “No silêncio da lei, a ação penal pública será incondicionada. Vale dizer, a regra em nosso direito é que a ação penal pública não dependa da manifestação de terceiros. A exigência de prévia manifestação, portanto, somente existirá se for expressamente prevista em lei, por meio de expressões como ‘somente se procede mediante representação’, ou ‘somente se procede mediante requisição do Ministro da Justiça’. Se a lei nada prevê, o Ministério Público, convencendo-se da prática de crime, ajuizará a ação ex officio, oferecendo a denúncia”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017) assevera que: “Observada a indiscutível relevância dos bens jurídicos tutelados e o correspondente interesse do Estado em solucionar os litígios e promover a paz social que se espera advenha da regulação e efetivação desse complexo sistema de distribuição de Justiça, na generalidade dos casos os crimes são de ação penal pública incondicionada. [...] Não foram recepcionados pela vigente Constituição Federal os arts. 26 e 531 (redação original, antes da Lei n. 11.719/2008)do CPP, que autorizavam, nas contravenções penais, o início da ação penal pública pelo auto de prisão em flagrante ou por meio de portaria expedida pela autoridade judiciária ou policial. Não subsiste no ordenamento, portanto, o procedimento judicialiforme que autorizava a ação penal ex officio e tornava concorrente a titularidade da ação penal nas infrações indicadas”. Ainda, o autor expõe sobre uma situação atípica em relação ao crime contra a honra de funcionário público em razão de seu ofício: “Apesar da existência de expressa disposição de lei em sentido contrário (CP, art. 145, parágrafo único), na hipótese de crime contra a honra praticado contra funcionário público em razão de suas funções (propter officium), para o qual a ação Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 76 penal é pública condicionada à representação do ofendido, a Súmula 714 do STF admite legitimação concorrente e permite ao ofendido o ajuizamento de ação penal privada, independentemente do escoamento do prazo outorgado ao Ministério Público”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016): “A ação penal pública incondicionada é aquela titularizada pelo Ministério Público e que prescinde de manifestação de vontade da vítima ou de terceiros para ser exercida. Ela constitui a regra em nosso ordenamento e será a ação cabível quando do silêncio da lei acerca da ação penal cabível. A parte inicial do caput do art. 24 do CPP assevera que ‘nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público...’, ao passo que o § 2º, do mesmo artigo, reza que ‘seja qual for o crime, quando praticado em detrimento do patrimônio ou interesse da União, Estado e Município, a ação penal será pública’. A Constituição tem no Ministério Público o órgão acusador oficial do Estado e, na esmagadora maioria das infrações, atuará o promotor incondicionalmente, ex officio, sem a necessidade de autorização ou manifestação de vontade de quem quer que seja. Portanto, o chamado processo judicialiforme, encampado pelos artigos 26 e 531 do CPP, prevendo a possibilidade de, em algumas infrações, o início da ação ocorrer através do auto de prisão em flagrante ou por portaria emanada da autoridade policial ou judiciária, encontra-se revogado pelo inciso I, do art. 129 da CF, afinal, a titularidade da ação penal pública foi conferida ao Ministério Público pela Carta de 1988, sendo impensável o exercício da ação por iniciativa do delegado ou do magistrado. Com o advento da Lei nº 11.719/08, o art. 531 ganhou nova redação, sendo sepultado expressamente o antigo instituto. A seu turno, assevera-se no art. 257, inc. I, que cabe ao MP a promoção privativa da ação pública. Nada mais se fez do que adequar o código aos ditames constitucionais”. 6. Ação penal pública condicionada É pública porque a titularidade é exclusiva do Ministério Público; condicionada porquanto, diferentemente da modalidade anterior, está sujeita a condição específica – acaba por depender da manifestação de outrem exigida expressamente na norma: representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça. Código Penal, art. 100: § 1º - A ação pública é promovida pelo Ministério Público, dependendo, quando a lei o exige, de representação do ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça. Lembre que essas condições se aproveitam inclusive para o inquérito policial, que não vai poder ser instaurado e desenvolvido sem elas, conforme art. 5º, § 4º do CPP10. 6.1 REPRESENTAÇÃO TORNAGHI assim define: "representação é o ato pelo qual o ofendido manifesta a vontade de não se opor ao procedimento". Andou mal a lei ao usar a palavra representação para significar o consentimento do ofendido ou de quem lhe supra a incapacidade. A mesma palavra é usada em outro sentido dentro do Código. Os italianos usam o termo querella e os franceses plainte. Poderíamos ter empregado autorização, permissão, consentimento, anuência, admissão, licença ou qualquer outra palavra melhor (Tornaghi, 1977). Em relação à representação vigora o princípio da oportunidade e conveniência. O ofendido ou seu representante podem optar por iniciar ou não a ação penal. Apesar disso, doutrina e jurisprudência entendem que, pelo menos em regra, não é possível a ocorrência de renúncia à representação, já que o artigo 104 do Código Penal refere-se apenas à renúncia do direito de queixa. Logo, não é cabível a renúncia do direito de representação, sob pena de se acrescentar uma hipótese de extinção da punibilidade sem previsão legal. A exceção a essa regra fica por conta da Lei dos Juizados que prevê que, tratando-se de ação penal pública condicionada à representação, a homologação 10 Falamos sobre isso na aula anterior. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 77 do acordo de composição dos danos civis acarreta a renúncia ao direito de representação (Lei nº 9099/95, art. 74, parágrafo único) (Lima, 2018). Razões de ‘política criminal’ que justificam a existência dessa condição específica - a representação. As agruras do processo, da produção da prova, em determinadas situações, podem representar danos equivalentes aos da conduta criminosa. Por outro lado, existem crimes que atingem mais o interesse particular do que propriamente o interesse do Estado. A repressão passa a não ser tão importante. Nessas condições, por razoabilidade, nosso ordenamento jurídico permitiu à vítima se opor à persecução penal. Em outras palavras: deixou para a vítima a definição sobre a existência ou não da persecução penal. 6.1.1 Forma e natureza jurídica Assim estabelece o Código de Processo Penal: Art. 24. Nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo. Em sentido oposto ao da norma, portanto, podemos pensar que a ação penal não ocorrerá sem o implemento dessa condição específica ou condição de procedibilidade. Eventual denúncia do Ministério Público sem o preenchimento dessa condição específica da ação seria rejeitada, nos termos do artigo 395, inciso II do Código de Processo Penal. RENATO BRASILEIRO sustenta que a necessidade superveniente da representação no trâmite do processo, por alteração Legislativa, a transformaria em condição de prosseguibilidade. Na visão do autor, isso teria acontecido em relação aos crimes de lesão corporal leve e lesão corporal culposa que estavam em andamento quando a Lei dos Juizados Especiais Criminais (nº 9.099) entrou em vigor, em 1995, nos termos do artigo 91. Atualmente é corrente o entendimento de que a representação não exige forma específica ou disciplinada em lei. Essa manifestação de vontade do ofendido pode ganhar, dentro dos procedimentos, as mais variadas roupagens. Isso acontece justamente porque a exigência é estabelecida em favor e não contra os interesses da vítima. CPP: Art. 39. O direito de representação poderá ser exercido, pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral, feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial. § 1º A representação feita oralmente ou por escrito, sem assinatura devidamente autenticada do ofendido, de seu representante legal ou procurador, será reduzida a termo, perante o juiz ou autoridade policial, presente o órgão do Ministério Público, quando a este houver sido dirigida. § 2º A representação conterá todas as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria. § 3º Oferecida ou reduzida a termo arepresentação, a autoridade policial procederá a inquérito, ou, não sendo competente, remetê-lo-á à autoridade que o for. § 4º A representação, quando feita ao juiz ou perante este reduzida a termo, será remetida à autoridade policial para que esta proceda a inquérito. § 5º O órgão do Ministério Público dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia no prazo de quinze dias. “Embora longa a disposição do artigo, é de curto alcance o seu conteúdo. Não ultrapassa o estabelecimento de regras, óbvias, sobre a forma da representação, cuja essência, Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 78 como vimos, tem natureza de autorização. E por isso, exatamente porque se trata de simples autorização, não poderiam ser exigidas formalidades que exorbitem a necessidade de sua constatação” (Pacelli, et al., 2018). Daí por que: (a) pode ser feita pessoalmente ou por procuração, com poderes especiais, é claro, já que se trata de mandato especificamente outorgado; (b) pode ser apresentada a quaisquer dos poderes públicos envolvidos na persecução penal (juiz, membro do Ministério Público ou autoridade policial), oralmente ou por escrito; quando feita oralmente, a autoridade pública que a presenciou fará a sua redução a termo; (c) embora a lei se refira à autenticação da assinatura na declaração prestada por escrito, pensamos desnecessária a medida, se e quando se puder constatar, por quaisquer meios, a idoneidade do escrito, relativamente à sua autoria. A importância da observação que ora se faz diz respeito à hipótese de risco de decadência, se não apreciada a representação feita por escrito, sem a autenticação da assinatura. Deve- se, portanto, presumir a validade da manifestação da vontade, ainda que, posteriormente, se chegue à conclusão diversa. Do mesmo modo, a exigência atinente aos esclarecimentos e informações acerca dos fatos não pode ser rigorosa. O que há de se exigir é a especificação do fato, ainda que indisponíveis elementos relativos à autoria. Delimitado o fato, deve a autoridade policial envidar esforços no seu esclarecimento, avançando sobre todas as circunstâncias e elementares que o constituam ou o circundem, ainda que inicialmente não vislumbradas pelo representante. Se o representante dispuser também de elementos comprobatórios do fato, e que se mostrem suficientes também ao esclarecimento da autoria, nada impede a formação do convencimento do Ministério Público, independentemente da instauração de inquérito policial. Como já vimos, o inquérito não é indispensável à propositura da ação penal, destinando- se, precipuamente, à formação da opinio delicto, qualquer que seja a sua modalidade (ação pública ou privada) e seu autor (Ministério Público ou querelante) (Pacelli, et al., 2018). A exigência quanto à forma é praticamente nenhuma, senão aquela ligada à segurança jurídica sobre aquilo e por quem se manifestou, no sentido de se afastar eventual dúvida. Havendo segurança na interpretação e sobre a origem, as mais variadas formas de representação são admitidas pela vítima ou seu representante. Sem embargo do que dispõe o art. 39, caput e parágrafos, do CPP, tem-se entendido que a representação, confeccionada sob a forma de petição escrita ou feita oralmente, com redução a termo perante a autoridade policial, não exige forma específica, bastando que contenha a narrativa, ainda que sucinta, do fato a ser apurado e que traduza a inequívoca vontade da vítima ou de seu representante em ver responsabilizado criminalmente o autor do fato. A representação da vítima ou de seu representante legal pode constituir- se em registro de ocorrência policial? Embora a questão não seja pacífica, entendemos que nada impede esteja a representação incorporada à comunicação de ocorrência policial, desde que dela se possa extrair a vontade efetiva na apuração da infração penal. “A representação nos crimes de ação penal pública condicionada prescinde de qualquer formalidade, sendo necessária apenas a vontade inequívoca da vítima ou de seu representante legal, mesmo que realizada na fase policial” (HC 46.455/RJ). Evidentemente, em casos tais, não bastará o simples relato da vítima quanto ao crime, impondo-se que contenha o registro de ocorrência, expressamente, a manifestação de vontade de que a investigação seja realizada, apurando-se a responsabilidade penal do infrator (Avena, 2017). E o que ocorre se o juiz recebeu a denúncia em crime de ação penal pública condicionada sem a representação? Considere-se, porém, a hipótese de que tenha o magistrado, por lapso, recebido a denúncia em crime de ação penal pública condicionada, sem representação ou com representação subscrita por quem não seja o ofendido e nem seu representante legal. Haverá, nesta hipótese, nulidade insanável dos atos praticados? Haverá nulidade, sem dúvida, mas não necessariamente insanável, tudo dependendo das peculiaridades do caso concreto. Assim: • Se oferecida ou regularizada a representação ainda dentro do prazo decadencial de seis meses, cujo dies a quo se iniciou com o conhecimento acerca da autoria do fato praticado, é plenamente possível o prosseguimento do processo com o aproveitamento dos atos já realizados. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 79 • Se a ação penal iniciou-se sem representação ou com representação ilegítima, sendo a falha suprida apenas após o decurso do prazo legal, neste caso, é impossível ter-se como sanado o processo, impondo- se a extinção da punibilidade e o consequente arquivamento do processo a teor do art. 107, IV, do CP (decadência). Este entendimento, que vem sendo adotado pela maioria da jurisprudência, decorre da exegese do art. 568 do CPP, ao dispor que “a nulidade por ilegitimidade do representante da parte poderá ser a todo tempo sanada, mediante ratificação dos atos processuais”. Enfim, a expressão “a todo tempo sanada” mencionada no art. 568 do CPP deve ser limitada, no caso da representação, ao prazo máximo de seis meses previsto em lei para o seu exercício. Neste sentido, foi o entendimento do STJ, quando, analisando tema análogo, decidiu que “o vício da representação processual do querelante é sanável, desde que dentro do prazo decadencial” (Avena, 2017). 6.1.2 Destinatário da representação Mais um vez, por objetividade e clareza, o artigo 39 do CPP: Art. 39. O direito de representação poderá ser exercido, pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral, feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial. A lei legitimou os três principais atores de uma persecução penal como destinatários da representação, manifestação que, nos termos do § 2º do art. 39, conterá todas as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria. Nos termos do art. 39 do CPP, a representação poderá ser dirigida ao juiz, ao Ministério Público e à autoridade policial, indistintamente. Se realizada por escrito, deverá estar com a firma reconhecida. Feita oralmente ou apresentada por escrito sem reconhecimento de firma, deverá ser reduzida a termo perante a autoridade a que destinada. Sendo oferecida à autoridade policial, será a representação a peça inicial do inquérito, dispensando portaria de instauração (art. 5.º, § 4.º, do CPP). Formalizada perante o Ministério Público, poderá este, desde logo, oferecer denúncia se estiver acompanhada dos elementos necessários ao ajuizamento da ação penal (art. 39, § 5.º, do CPP) ou, então, requisitar a instauração de inquérito policial por meio de ofício acompanhado de cópia da representação que lhe foi dirigida. Deduzida peranteo juiz, incumbirá a este encaminhá-la ao Ministério Público para as providências cabíveis (denúncia ou requisição de inquérito), nada impedindo que o próprio magistrado requisite, diretamente, a instauração de inquérito policial (Avena, 2017). A Lei dos Juizados Especiais (nº 9.099/1995) prevê uma oportunidade judicial para oferecimento da representação na audiência preliminar: Art. 75. Não obtida a composição dos danos civis, será dada imediatamente ao ofendido a oportunidade de exercer o direito de representação verbal, que será reduzida a termo. Parágrafo único. O não oferecimento da representação na audiência preliminar não implica decadência do direito, que poderá ser exercido no prazo previsto em lei. Importante pontuar que a representação tem um prazo (6 meses, art. 38 do CPP), mas não necessariamente uma oportunidade – prova disso é que diz o parágrafo único do artigo transcrito. Desde que dentro do prazo decadencial, ela pode ser oferecida a qualquer momento. Nesse sentido, cumpre observar que caso a audiência preliminar se realize depois de escoado o prazo decadencial, o procedimento poderá ter continuidade caso ela já tenha sido apresentada anteriormente, por exemplo, quando se lavrou o termo circunstanciado. Aliás, isso é mais recomendável. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 80 6.1.3 Titularidade ou legitimidade para o oferecimento Tudo que aqui for estudado se aplica ao oferecimento da queixa – o regime jurídico da titularidade, como bem aponta BRASILEIRO. Mais uma vez a lei, com destaques diferentes, porque é de lá que extraímos todas as conclusões jurídicas: Art. 39. O direito de representação poderá ser exercido, pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral, feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial. § 1º A representação feita oralmente ou por escrito, sem assinatura devidamente autenticada do ofendido, de seu representante legal ou procurador, será reduzida a termo, perante o juiz ou autoridade policial, presente o órgão do Ministério Público, quando a este houver sido dirigida. Não se exige, perceba, que o procurador tenha capacidade postulatória ou que seja advogado. Todavia, a procuração deve conter poderes especiais. São titulares do direito de representação: a) ofendido maior e capaz – se a vítima for maior de 18 anos e mentalmente capaz, somente ela poderá exercer a representação. Tem “legitimidade exclusiva” ou “capacidade processual autônoma”. A capacidade é avaliada nos termos do art. 5º do Código Civil: Art. 5º A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil. Diante dessa norma civil, ao completar 18 anos a vítima é completamente capaz, “não havendo a possibilidade de o direito de representação ou de queixa ser exercido por seu ascendente, já que este não é mais seu representante legal. Conclui-se, então, que os arts. 34 e 50, parágrafo único, ambos do CPP, e igualmente a súmula 594 do STF, estão tacitamente revogados, não tendo mais qualquer aplicação prática” (Lima, 2018). b) Representante legal do ofendido menor ou incapaz – quando a vítima for menor de 18 anos ou portadora de deficiência mental, a representação passará a ser do seu representante legal, independentemente da vontade daquela. “Devido ao informalismo que impera em sede de representação, a jurisprudência entende que qualquer pessoa que, de alguma forma, seja responsável pelo menor, poderá oferecer representação, tais como avós, irmãos, pessoa de quem dependa economicamente, etc.” (Lima, 2018). Pode ocorrer que o incapaz não possua representante legal ou que haja conflito de interesses entre um e outro. Nesse caso, assim disciplina o CPP: Art. 33. Se o ofendido for menor de 18 (dezoito) anos, ou mentalmente enfermo, ou retardado mental, e não tiver representante legal, ou colidirem os interesses deste com os daquele, o direito de queixa poderá ser exercido por curador especial, nomeado, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, pelo juiz competente para o processo penal. O curador poderá ser qualquer pessoa, advogado ou não, desde que maior de 18 anos. Daí a indagação: nomeado o curador, ele está obrigado a oferecer a representação? Há duas posições: uma, espelhando a maioria doutrinária e à qual nos filiamos, no sentido de que a nomeação de curador não impõe a este a obrigação de oferecer representação contra o autor do crime, incumbindo-lhe analisar a conveniência deste procedimento segundo os interesses do incapaz (art. 33 do CPP, por analogia); outra, entendendo em sentido oposto, vale dizer, no sentido da obrigatoriedade de o curador nomeado representar em prol da vítima, já que está agindo como substituto processual, ou seja, defendendo interesse alheio em nome próprio (Avena, 2017). Norberto Avena ainda levanta outra questão interessante: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 81 E se mais de um entre os legitimados do art. 24, § 1.º, comparecer para representar? Neste caso, terão preferência os primeiros em prol dos demais, na ordem enumerada em lei. Se um dos primeiros representar, nada haverá aos demais a fazer, a menos que haja a retratação da representação por parte de quem a fez. Em caso de discordância entre os legitimados – um querendo representar e o outro não –, deve prevalecer a vontade daquele que deseja representar. c) Pessoa jurídica – nos termos do art. 37 do Código de Processo Penal: Art. 37. As fundações, associações ou sociedades legalmente constituídas poderão exercer a ação penal, devendo ser representadas por quem os respectivos contratos ou estatutos designarem ou, no silêncio destes, pelos seus diretores ou sócios-gerentes. “É o caso, por exemplo, da pessoa jurídica que venha a sofrer furto de coisa comum, previsto no art. 156 do CP, cuja ação penal é pública condicionada” (Avena, 2017). BRASILEIRO ainda traz duas situações peculiares: 1ª) ofendido maior de 16 e menor de 18 anos casado: Segundo o artigo 1.517 do Código Civil, após os 16 anos os menores podem se casar com autorização dos pais ou responsáveis legais, vindo a adquirir a capacidade civil plena. A despeito da aquisição da capacidade civil plena, entende-se que ainda não é dotado de capacidade para oferecer representação ou queixa. Como ele não pode exercer seu direito pessoalmente, não possuindo representante legal por conta da emancipação, há duas possibilidades: 1) nomeação de curador especial, nos termos do artigo 33 do CPP; 2) aguarda-se que atinja a idade de 18 (dezoito) anos, quando, então, poderá exercer seu direito de queixa ou de representação. Nesse caso, não há falar em decadência, porquanto o prazo decadencial não flui para aquele que não pode exercer seu direito por conta da incapacidade. Esse mesmo raciocínio é aplicável às demais hipóteses de emancipação (Lima, 2018). 2ª) morte da vítima: especial hipótese de legitimação anômala, sendo que o direito de oferecer queixa ou representação ou de prosseguir na ação penal de iniciativa privada passará aos indicados, conforme art. 24, § 1º e art. 31 do CPP. § 1º No caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de representação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. Art. 31. No caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de oferecer queixa ou prosseguir na ação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. Existe aí uma preferência de acordo com a ordem estipulada na lei, com a prevalência da vontade daquele que deseja dar início ou continuar com a persecução criminal. E ocompanheiro, deve ser inserido nesse rol por forma do disposto no art. 226, § 3º da Constituição Federal?11 Grande parte da doutrina insere no rol dos sucessores o companheiro. [...] A nosso ver, não se pode incluir o companheiro nesse rol, sob pena de indevida analogia in malam partem. A inclusão do companheiro ou da companheira nesse rol de sucessores produz reflexos no direito de punir do Estado, já que, quanto menos sucessores existirem, maior é a possibilidade de que o não exercício do direito de representação ou de queixa no prazo legal acarrete a extinção da punibilidade pela decadência. Portanto, cuidando-se de regra de direito material, não se pode querer incluir o companheiro, sob pena de indevida analogia in malam partem, malferindo o princípio da legalidade (CF, art. 5º, XXXIX) (Lima, 2018). 6.1.4 Prazo da representação A regra está no art. 38 do Código de Processo Penal: 11 Constituição Federal, art. 226, § 3º. Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 82 Art. 38. Salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante legal, decairá no direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de seis meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. “Trata-se prazo de natureza material, fatal e improrrogável, a ser contado nos termos do artigo 10 do CP” (Lima, 2018): Art. 10 - O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum. Contagem do prazo: Embora se trate de prazo formalmente processual, é de se ver que tem ele consequência no âmbito da punibilidade, como sói ocorrer em relação a determinados ônus e faculdades processuais (perempção, renúncia, perdão, por exemplo). [...]. Assim, e tendo em vista as consequências da contagem do prazo decadencial no que toca à extinção da punibilidade com base nela (art. 107, IV, Código Penal), deve-se aplicar a norma contida no art. 10 do Código Penal [...] (Pacelli, et al., 2018). Exemplo: um crime de estupro cometido contra uma pessoa capaz com 18 anos completos (ou mais) em data de 26 de março de 2010. A representação deve ser oferecida até o dia 25 de setembro de 2010, às 23h59min, sob pena de decadência e consequente extinção da punibilidade, nos termos do artigo 107, inciso IV, segunda figura, do Código Penal. Não deve haver suspensões nem interrupções, também não se admitindo prorrogação do prazo, mesmo que expirado num domingo ou feriado (Lima, 2018). Em regra, o decurso do prazo decadencial só começa a fluir a partir do conhecimento da autoria. E isso por uma razão muito óbvia: só se pode falar em decadência de um direito que pode ser exercido. Se o ofendido não sabe quem é o autor do delito, não pode exercer seu direito. Mas como se comprova que o titular do direito de representação ou de queixa-crime só tomou conhecimento da autoria nesta ou naquela data? A nosso ver, a fim de se evitar o reconhecimento da decadência, caso a queixa ou representação sejam apresentadas após o decurso do prazo de 6 (seis) meses da data do crime, recai sobre o autor da representação ou da queixa-crime o ônus de comprovar que só tomou conhecimento da autoria do delito em momento posterior, e em lapso temporal inferior a 6 (seis) meses, contados da queixa ou da representação, para trás. Muito se discute acerca da decadência do direito de queixa ou de representação nas hipóteses de inércia do representante legal do menor de 18 (dezoito) anos, mentalmente enfermo ou retardado mental. Parte da doutrina entende que, tratando-se de incapaz, o prazo decadencial de 6 (seis) meses não flui para ele enquanto não cessar a incapacidade, já que não se pode falar em decadência de um direito que não pode ser exercido. Logo, ainda que o representante legal, tendo tomado conhecimento da autoria do fato delituoso, não ofereça representação (ou queixa), subsiste para o menor o direito de oferecê- la, a partir do momento em que atingir 18 (dezoito) anos, logicamente desde que não extinta a punibilidade por outra causa, como, por exemplo, a prescrição. Com a devida vênia, pensamos que o prazo decadencial é um só. O representante legal exerce na plenitude o direito de queixa ou de representação, como já se podia inferir do revogado art. 50, parágrafo único, do CPP, quando, implicitamente e a contrario sensu, permitia concluir que a renúncia do representante legal da pessoa com menos de 18 (dezoito) anos de idade privaria esta do direito de queixa. Logo, o decurso do prazo decadencial para o representante legal também afetaria o direito do menor, do mentalmente enfermo ou do retardado mental. De todo modo, esse raciocínio só é válido se o representante legal tiver conhecimento acerca da autoria do crime (Lima, 2018). Sustenta BRASILEIRO que de qualquer forma o prazo decadencial deve ser uno, mesmo nos casos de sucessão processual (CPP, art. 31), aquilo que contou para um desconta do prazo do outro (vítima e representante), sempre observando que o início do prazo só acontece com o conhecimento da autoria. Vale a referência, também, à contagem do prazo nos crimes continuados, permanentes e habituais, segundo a visão de renomados doutrinadores: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 83 [...] o prazo decadencial nos crimes continuados e nos crimes permanentes, isto é, naquelas hipóteses em que a ação delituosa se prolonga no tempo, segue a regra geral, ou seja, começa a correr da data em que conhecida a autoria, renovando-se (a contagem) com a renovação da conduta delituosa, enquanto for a mesma – e também conhecida – a autoria. Esse entendimento, registre-se, alinha-se com aquele emanado da Súmula 711 do Supremo Tribunal Federal, cujos termos são os seguintes: “A lei penal mais grave aplica- se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência” (Pacelli, et al., 2018). Sendo hipótese de crime continuado, o prazo decadencial de seis meses deve ser contado individualmente, vale dizer, na medida em que o ofendido vai tomando ciência da autoria em relação a cada um dos delitos cometidos. Já em se tratando de crime permanente, há duas orientações: uma, no sentido de que o prazo decadencial seja computado na forma estabelecida no art. 38 do CPP, ou seja, da data em que a vítima souber quem é o autor do crime; e outra, compreendendo que o prazo decadencial deve fluir do dia em que cessar a permanência, por interpretação extensiva do art. 111, III, do CP (dispositivo que estabelece o cômputo do prazo prescricional nessa ordem de crime). Por fim, no caso de crime habitual, predomina o entendimento de que o lapso é computado, igualmente, com a ciência da autoria do crime pela vítima ou demais legitimados. Lembre-se de que nos crimes habituais cada conduta isoladamente considerada é irrelevante penalmente, apenas havendo repercussão criminal quando a reprovabilidade decorre da reiteração de uma série de condutas indicativas de estilo ou hábito de vida do indivíduo (Avena, 2017). 6.1.5 Retratação da representação A questão é disciplinada (de forma idêntica no que se refere ao conteúdo) tanto pelo Código Penal quanto pelo Código de Processo Penal, respectivamente: Art. 102 - A representação será irretratável depois de oferecida a denúncia. Art. 25. A representação será irretratável, depois de oferecida a denúncia. E repare bem paranão confundir: é do ‘oferecimento’ e não do ‘recebimento’ da denúncia que estamos tratando; é da apresentação da peça acusatória e não do momento em que o juiz decide sobre o recebimento dela. Sabemos que o processo penal nasce com o recebimento da denúncia (aliás, é daí que se interrompe a prescrição, nos termos do art. 117, I do Código Penal) e se completa com a citação (art. 363 do CPP). Ok, mas só poderá haver retratação da representação até antes do ‘oferecimento’ da denúncia. “Logo, oferecida a denúncia, o ofendido ou seu representante legal já não podem mais se retratar sob a alegação de que o juiz ainda não teria recebido a peça acusatória” (Lima, 2018). Questão debatida na doutrina é quanto à possibilidade de retratação da retratação. É possível que isso ocorra? Considere-se, pois, que, uma vez oferecida a representação pela vítima, esta, antes do oferecimento da denúncia, venha a se retratar. Posteriormente, ainda dentro do prazo decadencial, volta atrás e retrata-se da retratação antes apresentada, desejando ver processado o autor do crime. Tal atitude é válida? Parte considerável da doutrina, à qual nos filiamos, entende possível que isto ocorra, desde que não fique evidenciada a ocorrência de má-fé da vítima (v.g., pretensão de extorquir o autor do delito, usando, para tanto, a possibilidade de retratar-se e depois voltar atrás neste seu ato) e que ainda não se tenha escoado o prazo de seis meses contados da ciência do autor do fato. Neste sentido, GUILHERME DE SOUZA NUCCI e JULIO FABBRINI MIRABETE. Outros, porém, consideram que a retratação da representação importa em renúncia ao direito de ação, acarretando a extinção da punibilidade, não sendo possível ao ofendido voltar atrás (Avena, 2017). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 84 6.1.6 Extensão e eficácia Segundo sustenta a doutrina majoritária, a representação se dá em relação ao fato criminoso em não em relação aos seus autores. Em razão do princípio da obrigatoriedade da ação penal pública, não há como se fracionar subjetivamente a representação nos casos de concurso de agentes; quando a vítima representa em relação a um, a medida se estende em relação aos demais, autorizando o Ministério Público a denunciar todos os envolvidos. Claro, denunciar se houver justa causa, nada impedindo o arquivamento do inquérito policial em relação a uns e a denúncia em relação a outros por motivo diverso dessa condição de procedibilidade (representação). Existe, também, como aconteceria em outros casos (e segundo doutrina majoritária), a possibilidade de aditamento da denúncia. Sinale-se, contudo, a existência de posição minoritária no sentido de que não haveria possibilidade de o Ministério Público aditar a denúncia para incluir pessoa distinta daquelas visadas na peça representatória. Pode o Ministério Público denunciar apenas alguns dos indivíduos nominados na representação? Sim, assiste esta possibilidade ao parquet. Nada impede que compreenda o promotor de justiça que existem indícios de autoria apenas em relação a alguns dos representados, ajuizando em relação a eles a ação penal e postulando o arquivamento da representação ou do inquérito relativamente aos demais. Observe-se que não se está, aqui, aventando a possibilidade de arquivamento implícito em relação aos indivíduos que, nominados na representação ou investigados no inquérito, não tenham integrado o polo passivo da denúncia, o que ocorreria se o Ministério Público oferecesse denúncia contra um ou alguns indiciados e simplesmente silenciasse quanto aos demais. Esta prática não encontra amparo em lei. Assim, cogitando não ser o caso de acionar a todos os representados ou indiciados, incumbirá ao Ministério Público promover quanto a estes, fundamentadamente, perante o juízo, o respectivo arquivamento com vistas à devida homologação (Avena, 2017). A vítima não pode escolher a quem o Ministério Público vai processar; o que ela pode é definir qual caso, qual fato criminoso será passível de processo pelo Estado, através do Ministério Público. Veja-se o exemplo de RENATO BRASILEIRO: Portanto, se, num crime contra a honra praticado contra funcionário público no exercício de suas funções, limitar-se ofendido a oferecer representação no sentido de que o autor do delito seja processado apenas em relação a um delito (v.g. injúria), poderá o Ministério Público denunciar todos os envolvidos na prática do referido delito. Todavia, não poderá o órgão ministerial, em ação pública condicionada à representação, extrapolar os limites materiais previamente traçados na representação, procedendo a uma ampliação objetiva indevida para oferecer denúncia, por exemplo, pela prática de calúnia, difamação e injúria. Se assim o fizer, deverá o magistrado rejeitar a peça acusatória em relação aos crimes de calúnia e difamação, ex vi do artigo 395, inciso II, do CPP, haja vista a ausência de uma condição específica da ação penal em relação a tais delitos: a representação” (Lima, 2018). 6.1.7 Retratação da representação na Lei Maria da Penha Conforme destaca BRASILEIRO, o legislador não foi feliz na expressão utilizada no art. 16 da Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha: Art. 16. Nas ações penais públicas condicionadas à representação da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à representação perante o juiz, em audiência especialmente designada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e ouvido o Ministério Público. “Retratar-se significa voltar atrás, arrepender-se; pressupõe o prévio exercício de um direito. Não se confunde, portanto, com a renúncia, quando alguém abre mão de um direito que ainda não fora exercido”. Normalmente, crimes dessa natureza e de ação penal pública condicionada, nos termos da lei, devem ter a representação reduzida a termo logo no registro da ocorrência: Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 85 Art. 12. Em todos os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade policial adotar, de imediato, os seguintes procedimentos, sem prejuízo daqueles previstos no Código de Processo Penal: I - ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tomar a representação a termo, se apresentada; Sendo assim, quando o caso chega na Justiça, ordinariamente já vem acompanhado da representação da vítima. Na oportunidade da audiência prevista no art. 16 da Lei 11.340/2006 o direito da vítima já foi exercido, de maneira que não é tecnicamente correto falar em renúncia. Voltando atrás a vítima – o que só poderá fazer em audiência perante o juiz – o que faria seria uma retratação. Detalhe: a retratação, como vimos, só pode ocorrer, na generalidade dos casos, até o oferecimento da denúncia; no caso de crimes de violência doméstica, isso pode acontecer até depois, desde que perante o juiz, em audiência, antes do recebimento da peça acusatória. A audiência a que se refere o dispositivo não é de designação obrigatória e não deve ser indistintamente marcada como uma fase necessária de confirmação das representações já apresentadas; não é condição de recebimento da denúncia e não pode ser determinada pelo juiz como forma de constranger a vítima a ratificar sua manifestação de vontade já externada. Na verdade, sua realização só deve ser determinada pela autoridade judiciária nos casos de crime de ação penal pública condicionada à representação (v.g., ameaça, estupro, etc), e desde que tenha havido prévia manifestação da parte ofendida antes do recebimento da denúncia, a demonstrar sua intenção de retratar- se da representação oferecida para o para o ajuizamento da ação penal contra o autor da violência doméstica, cabendoao magistrado verificar a espontaneidade e a liberdade na prática de tal ato. logo, caso não tenha havido qualquer manifestação da vítima quanto ao seu interesse em se retratar, não há qualquer nulidade decorrente da não realização da referida audiência, já que a lei não exige a realização ex officio de uma audiência para ratificação da representação anteriormente oferecida (Lima, 2018). 6.2 REQUISIÇÃO Inicialmente, pontue-se o mesmo: estamos diante de uma condição de procedibilidade; condição sine qua non para a instauração de inquérito policial e para o oferecimento de denúncia. Razões de política criminal ditaram sua exigência: “evitar o strepitus judicii ou strepitus processus, quer no sentido de se evitar que o processo penal cause maiores prejuízos que o próprio delito, quer no sentido de se evitar inconvenientes políticos ou diplomáticos para o Brasil” (Lima, 2018). Vigora o princípio da oportunidade e conveniência diante dessa faculdade do Ministro da Justiça. Os exemplos são escassos no nosso processo penal. Um deles é o de crimes contra a honra contra o Presidente da República ou contra chefe de governo estrangeiro, nos termos do Código Penal: Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido: I - contra o Presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro; Art. 145 – [...] Parágrafo único. Procede-se mediante requisição do Ministro da Justiça, no caso do inciso I do caput do art. 141 deste Código, [...] Outra hipótese, lembrada por BRASILEIRO, é o de crime cometido contra brasileiro fora do Brasil (Código Penal, art. 7º, § 3º, ‘b’). Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 86 A requisição do Ministro da Justiça é dirigida ao chefe do Ministério Público: Procurador-Geral de Justiça ou Procurador-Geral da República, com as informações necessárias para apuração do fato. O parquet, diante da sua independência funcional, não está obrigado a oferecer a denúncia; formará sua opinio delicti, como normalmente o faz. Não existe prazo decadencial (como na representação); a lei não fala nada sobre isso, de maneira que o único prazo que pode fulminar com a pretensão punitiva é o da prescrição ou outra hipótese de extinção da punibilidade. No tocante à possibilidade de retratação da requisição, há controvérsias. Há doutrinadores, como TOURINHO FILHO, que entendem que, diante do silêncio do artigo 25 do CPP, que faz menção apenas à retratação da representação, esse silêncio eloquente deve ser compreendido no sentido de se considerar a retratação irrevogável, irretratável. A despeito dessa orientação, prevalece o entendimento doutrinário de que, nos mesmos moldes da representação, também é cabível a retratação da requisição do Ministro da Justiça, enquanto não oferecida a denúncia (Lima, 2018). Há dúvidas quanto a poder ou não o Ministro da Justiça retratar-se da requisição que tenha realizado, posicionando-se alguns no sentido da impossibilidade dessa retratação, já que, em primeiro lugar, trata- se de ato administrativo oriundo do governo mediante atitude do Ministro da Justiça, revestindo-se, pois, de seriedade; e, em segundo, inexiste previsão legal de que possa ser reconsiderado. Particularmente, não pensamos assim, acreditando que, exatamente por cuidar a requisição de um ato administrativo, é que deve admitir retratação eficaz, desde que realizada esta reconsideração antes do ajuizamento da ação penal (após o ajuizamento é indisponível a ação penal pública). Justificamos esse ponto de vista na simples razão de que atos administrativos, modo geral, podem ser revistos, inclusive de ofício, por quem os editou (Avena, 2017). Doutrina Complementar Ação penal pública condicionada FERNANDO CAPEZ (Curso de processo penal, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 2018) elenca os crimes cujas ações penais públicas dependem de representação: “Crime de lesão corporal leve (CP, art. 129, caput, c/c o art. 88 da Lei n. 9.099/95, exceto para os casos de violência contra a mulher – Lei n. 11.340/2006); crime de lesão corporal culposa (CP, art. 129, § 6º, c/c art. 88 da Lei n. 9.099/95; sobre o delito de lesão corporal culposa no trânsito, vide art. 291, § 1º, do CTB); perigo de contágio venéreo (CP, art. 130, § 2º); crime contra a honra de funcionário público, em razão de suas funções (art. 141, II, c/c o art. 145, parágrafo único); ameaça (art. 147, parágrafo único); violação de correspondência (art. 151, § 4º), correspondência comercial (art. 152, parágrafo único); furto de coisa comum (art. 156, § 1º); tomar refeição em restaurante, alojar-se em hotel ou utilizar-se de transporte sem ter recursos para o pagamento (art. 176, parágrafo único)”. Representação NORBERTO AVENA (Processo Penal, 9ª edição, Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017), a respeito do instituto da representação nas ações penais públicas condicionadas, trata sobre suas diversas nuances: “Forma. Sem embargo do que dispõe o art. 39, caput e parágrafos, do CPP, tem-se entendido que a representação, confeccionada sob a forma de petição escrita ou feita oralmente, com redução a termo perante a autoridade policial, não exige forma específica, bastando que contenha a narrativa, ainda que sucinta, do fato a ser apurado e que traduza a inequívoca vontade da vítima ou de seu representante em ver responsabilizado criminalmente o autor do fato. Extensão. A representação não se dá em relação a este ou àquele autor do delito, mas se refere ao fato praticado. Assim, praticada em concurso de agentes determinada infração penal cuja apuração esteja condicionada à vontade do vitimado (ofendido), ainda que oferecida representação nominal tão somente em relação a um ou alguns dos autores, os efeitos dessa representação alcançarão os autores remanescentes para o fim de legitimar o Ministério Público ao ingresso da ação penal contra todos. Titular do direito de representação. Sendo o ofendido menor de 18 anos ou portador de deficiência mental, a representação, quando exigida, deverá ser oferecida pelo seu representante legal, independentemente da vontade da vítima. Não possuindo o ofendido representante legal ou, ainda que o possua, se colidirem os seus interesses com a vontade desse representante, deverá o juiz, ex officio ou a requerimento do Ministério Público, proceder à nomeação de Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 87 curador, que analisará a conveniência ou não de ser deduzida a representação (art. 33 do CPP, por analogia). Tratando-se, contudo, de ofendido maior de 18 anos e capaz mentalmente, somente ele poderá decidir pela conveniência de oferecer representação ou não. Tendo em vista a vigência do novo Código Civil, equiparando a 18 anos as maioridades civil e penal, encontra-se absolutamente prejudicada a regra incorporada ao art. 34 do CPP (que se aplicava também à representação nos crimes de ação pública condicionada), segundo a qual, sendo maior de 18 e menor de 21 anos, poderiam agir tanto o ofendido como o seu representante legal. [...] E no caso de morte da vítima ou declaração judicial de ausência? Neste caso, o direito de representação passará ao seu cônjuge, ascendente, descendente ou irmão, ex vi do art. 24, § 1. º, do CPP. [...] Prazo. O art. 38 do CPP estabelece o prazo para o oferecimento da representação, dispondo que, salvo disposição em contrário, será de seis meses, contados do dia em que o ofendido, seu representante legal ou cada uma das pessoas do art. 31 (no caso de morte ou de ausência da vítima) vierem a saber quem foi o autor do crime, sob pena de decadência. E se a vítima for menor de 18 anos ou mentalmente incapaz? Nesse caso, o prazo decadencial flui apenas parao representante legal. Esgotando-se, não poderá mais este exercer o direito de representação. Alcançada a maioridade pelo ofendido, ou restabelecida a capacidade mental, a partir deste momento, para ele, terá início o prazo de seis meses para representar. [...] Destinatário. Nos termos do art. 39 do CPP, a representação poderá ser dirigida ao juiz, ao Ministério Público e à autoridade policial, indistintamente. Poderá ser feita por escrito, caso em que deverá estar com a firma reconhecida. Realizada oralmente ou apresentada por escrito sem reconhecimento de firma, deverá ser reduzida a termo perante a autoridade a que destinada. [...] Não vinculação do Ministério Público. Como já dissemos, a representação dá-se em relação à conduta praticada, não vinculando de forma alguma o Ministério Público, que, assim, não apenas poderá se inclinar pelo respectivo arquivamento, como também oferecer denúncia atribuindo ao mesmo fato definição jurídica diversa daquela que restou incorporada à representação antes realizada”. RENATO MARCÃO (Curso de processo penal, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017), sobre a natureza jurídica da representação, afirma: “A representação é instituto de natureza processual que exterioriza manifestação positiva de vontade que pode ser feita pelo ofendido ou outro legitimado com vistas à instauração de inquérito pela autoridade policial e oferecimento de denúncia pelo representante do Ministério Público, constituindo verdadeira delatio criminis postulatória”. A respeito da forma pela qual deve revestir-se a representação, assevera: “Nada obstante o disposto no art. 39 do CPP, que reclama certo formalismo, doutrina e jurisprudência pacificaram o entendimento no sentido de que não há forma rígida para a representação, que pode ser formulada por meio de singela manifestação de vontade, mas é certo que, na medida do possível, deverá vir acompanhada de todas as informações que possam servir à apuração do fato e de sua autoria, dispensada a correta capitulação jurídica do delito”. Em relação ao prazo da representação: “Salvo disposição em contrário, o ofendido decairá do direito de representação se não o exercer dentro do prazo de 6 (seis) meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do delito (CPP, art. 38; CP, art. 103). Importante destacar que o prazo não flui a partir da data do delito, mas da data em que o ofendido tomar conhecimento de quem fora seu autor, e nem sempre tais datas coincidem. [...] Se o ofendido for menor de dezoito anos, teremos situação excepcional em que serão dois os prazos: um para seu representante legal e outro para o ofendido. Para o representante legal, o prazo fluirá conforme a regra geral: a partir da data em que tomou conhecimento de quem foi o autor do delito. Para o ofendido menor: fluirá a partir da data em que completar dezoito anos, visto que antes disso não poderá, por iniciativa sua, formular representação”. Concernente aos destinatários da representação: “(...) resta acrescentar que a representação poderá ser endereçada ao juiz, ao órgão do Ministério Público ou ao delegado de polícia, embora na prática seja mais comum e também mais célere endereçá-la diretamente ao último, pois, se o fato depender de esclarecimentos, o juiz ou o membro do Ministério Público que tenha recebido a representação deverá encaminhá-la à autoridade policial, mediante ofício, requisitando a instauração de procedimento investigatório para a completa apuração dos fatos (CPP, art. 39, § § 3º, 4º e 5º)”. NESTOR TÁVORA (Curso de direito processual penal, 11ª ed., Salvador: JusPodivm, 2016), a respeito da retratação da representação e a chamada ‘retratação da retratação’, assevera: “(...) enquanto não oferecida a denúncia, a vítima pode retratar-se da representação, inibindo o início do processo. Como a representação está adstrita à conveniência do ofendido, uma vez apresentada, é possível que ele se arrependa, volte atrás. Só é possível até a apresentação da inicial acusatória na secretaria da vara criminal ou na distribuição, pois após este ato, a representação é irretratável (art. 25 do CPP c/c art. 102 do CP). Para a doutrina majoritária, a vítima pode retratar-se e reapresentar a representação quantas vezes entender conveniente. Tal significa que pode retratar- se da representação e, em se arrependendo, reapresentá-la, respeitando apenas o marco do oferecimento da Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 88 denúncia e o prazo decadencial dos seis meses, pois, uma vez oferecida a peça acusatória, a representação passa a ser irretratável. Assim, num pequeno jogo de palavras, com a vênia do leitor, concluímos que cabe retratação da retratação da representação, ou seja, a vítima que representa e se retrata, pode novamente representar”. FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO (Processo penal, vol. 1, 32ª ed., São Paulo: Saraiva, 2010), em posição minoritária, afirma acerca do instituto da ‘retratação da retratação’: “Havendo retratação da representação, poderá o Promotor de Justiça requerer o arquivamento dos autos do inquérito policial ou das peças de informação? A retratação, na hipótese, assemelha-se, em tudo e por tudo, à renúncia, e, assim, devem os autos ser arquivados, em face da ausência de representação, condição a que se subordina, às vezes, o jus accusationis. Permitir a retratação da retratação é entregar ao ofendido arma poderosa para fins de vingança ou outros inconfessáveis”. [...] Data venia, pensamos que a retratação da representação, embora não elencada entre as causas extintivas da punibilidade, apresenta idêntica consequência.. Sabemos que o art. 107 do CP não esgota todas as causas extintivas ao jus puniendi. A morte do cônjuge inocente não constitui causa extintiva da punibilidade no crime de adultério? Assim também a retratação da representação não deixa de ser causa extintiva ao jus puniendi, equivalente que é à renúncia”. HIDEJALMA MUCCIO (Curso de processo penal, vol. 1, 1ª ed., São Paulo: EDIPRO, 2000), em relação à eficácia objetiva da representação, sustenta: “Feita a representação, o ofendido ou seu representante legal anui à persecução penal. [...] Autorizou os órgãos incumbidos da persecução a agirem para apurar o fato e a autoria. Por isso, ainda que não conste da representação um ou alguns dos autores ou partícipes do crime, ela alcançará a todos, pouco importando qual tenha sido o motivo da exclusão. [...] O Estado não deixou a critério do ofendido o processo contra este ou aquele autor, e, sim, o julgamento da conveniência e oportunidade do processo”. Requisição do Ministro da Justiça EDILSON MOUGENOT BONFIM (Curso de processo penal, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012): “Requisição é a autorização, fundamentada em razões políticas, para que o Ministério Público promova a ação penal pública. A requisição é prevista como condicionante para o exercício da ação penal em certos crimes de cunho eminentemente político (crimes contra a honra praticados contra o Presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro, por exemplo), motivo pelo qual se justifica que a persecução penal fique condicionada ao prudente arbítrio do Ministro da Justiça, que julgará a conveniência e oportunidade de que seja ajuizada ação penal para cada caso que se lhe apresente. Não obstante o termo requisição signifique ordem, esta não vincula o órgão do Ministério Público, sendo mera autorização para que o Parquet promova a ação penal. A requisição, como a representação, não exige forma especial. Deve, entretanto, conter, quando possível, informações acerca do fato e sua autoria. Diferentemente da representação, o exercício da requisição não está sujeito à decadência. Poderá ser exercida a qualquer tempo, enquanto não surgir causa extintiva da punibilidade (prescrição da pretensão punitiva, por exemplo). Quanto à possibilidade de retrataçãoda requisição, a doutrina divide-se em duas correntes. Há os que defendem a possibilidade de retratação, aplicando-se por analogia, nesse caso, os dispositivos referentes à retratação da representação. Outros, ao contrário, entendem que a retratação não é possível, por inexistir expressa disposição legal acerca da possibilidade de retratação da requisição, não havendo, no caso, possibilidade de analogia com os dispositivos legais referentes à representação em face da diferença essencial entre esta e a requisição, ato político de autoridade do Estado que é o Ministro da Justiça”. FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO (Processo penal, vol. 1, 32ª ed., São Paulo: Saraiva, 2010) elenca os crimes que necessitam do implemento dessa condição específica para deflagração da ação penal: “A requisição, na espécie, é um ato político, porque ‘há certos crimes em que a conveniência da persecução penal está subordinada a essa conveniência política’. São raras as hipóteses em que a lei subordina a persecução àquele ato político: a) Nos crimes cometidos por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil (CP, art. 7º, § 3º, b). b) Nos crimes contra a honra cometidos contra Chefe de Governo estrangeiro (CP, art. 141, I, c/c o parágrafo único do art. 145). [...] c) Nos crimes de injúria praticados contra o Presidente da República (cf. art. 141, I, c/c o parágrafo único do art. 145 do CP e art. 26 da Lei de Segurança Nacional). Nos crimes de calúnia e difamação contra o Presidente da República, se presentes as condições expostas nos arts. 1º e 2º da Lei de Segurança Nacional, a ação penal independerá de requisição ministerial. Será pública incondicionada, e a competência é da Justiça Federal. Entretanto, se não atingirem a segurança interna ou externa do País, serão crimes comuns, cuja ação penal fica subordinada à requisição ministerial. Na Lei de Imprensa havia outras hipóteses que admitiam a ação penal condicionada à requisição do Ministro da Justiça, mas como o referido diploma foi revogado pelo STF na sessão plenária de 30- 4-2009, ao julgar procedente a ADPF 130-7, deixamos de fazer-lhe referência”. Ainda, o autor registra a razão Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 89 de existência dessa condição: “Com esse poder de julgar da conveniência quanto à propositura da ação penal, o governo, representado pelo Ministro da Justiça, evita, quando convém, ‘a repercussão pouco favorável que poderiam ter certos episódios’. Assim, a requisição nada mais é senão mera autorização para proceder, permissão para ser instaurado o processo, manifestação de vontade que tende a provocar a atividade processual. Ela é, por assim dizer, a representação política”. Por fim, aduz acerca do conteúdo necessário da requisição: “Qual o conteúdo da requisição? O CPP silenciou a respeito. É natural, entretanto, deva indicar a qualidade da vítima, a qualificação, se possível, do autor da infração penal e a exposição do fato. Se se tratar de crime praticado fora do Brasil por estrangeiro contra brasileiro, a requisição deverá, também, referir-se a tais circunstâncias. Se, com a requisição, forem fornecidos elementos que possibilitem a propositura da ação penal, esta será promovida”. Jurisprudência pertinente Súmula 234, STJ: A participação de membro do Ministério Público na fase investigatória criminal não acarreta o seu impedimento ou suspeição para o oferecimento da denúncia. Supremo Tribunal Federal Nos crimes de ação penal pública condicionada, como a ameaça, descabe impor forma especial relativamente à representação. A postura da vítima, a evidenciar a vontade de ver processado o agente, serve à atuação do Ministério Público. [...] (Inq 3714, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 15/09/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-194 DIVULG 28-09-2015 PUBLIC 29-09-2015) A representação, nos crimes de ação penal pública condicionada, é ato que dispensa maiores formalidades, bastando a inequívoca manifestação de vontade da vítima, ou de quem tenha qualidade para representá-la, no sentido de ver apurados os fatos acoimados de criminosos. [...] (Inq 3438, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 11/11/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-027 DIVULG 09-02-2015 PUBLIC 10-02-2015) Nos crimes de ação penal pública condicionada, a decadência do direito à representação conta-se da data em que a vítima tomou conhecimento dos fatos ou de quem é o autor do crime. Hipótese em que, à míngua de elementos probatórios que a infirme, deve ser tida por verídica a afirmação da vítima de que somente tomou conhecimento dos fatos decorridos alguns meses. [...] (Inq 3672, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 14/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-229 DIVULG 20-11- 2014 PUBLIC 21-11-2014) [...] OFENSAS RECÍPROCAS. REPROVABILIDADE DA CONDUTA DO OFENDIDO. RETORSÃO IMEDIATA. PERDÃO JUDICIAL. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. 1. A representação do ofendido é ato que dispensa maiores formalidades, bastando a inequívoca manifestação de vontade da vítima, ou de quem tenha qualidade para representá-la, no sentido de ver apurados os fatos acoimados de criminosos (INQ 3438, de minha relatoria, Primeira Turma, DJe 10/2/2015). Preliminar de ofensa ao art. 44 do CPP rejeitada. [...] Ofensor e ofendido, ao projetarem deliberadamente ofensas recíprocas - incitando um ao outro -, devem suportar as aleivosias em relação de vice e versa. Hipótese de perdão judicial, nos termos do artigo 140, § 1º, do CP. Extinção da punibilidade declarada com fundamento no artigo 109, IX, do CP. (AP 926, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 06/09/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-257 DIVULG 01-12-2016 PUBLIC 02-12-2016) Superior Tribunal de Justiça Admite-se a reconsideração da retratação da representação, desde que observado o prazo decadencial de 6 meses previsto no art. 38, caput, do Código de Processo Penal - CPP. [...] (AgRg nos EDcl nos EDcl no AgRg no AREsp 493.015/MG, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 06/10/2016, DJe 17/10/2016) [...] Poderá o ofendido se retratar da representação, ou melhor, se arrepender de ter representado em desfavor do ofensor até o momento antes de ser oferecida pelo Ministério Público a denúncia, que é o início da ação penal. [...] A doutrina e a jurisprudência admitem a retração de retratação dentro do prazo decadencial. Em outros termos, a decisão de arquivamento não implica extinção da punibilidade do autor da conduta delitiva, inclusive não faz coisa julgada material, podendo o órgão ministerial, diante da reconsideração da vítima, antes do termo final do prazo decadencial, requerer o desarquivamento. [...] (AgRg no REsp 1131357/DF, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 05/11/2013, DJe 28/11/2013) É pacífica a jurisprudência desta Corte, nos termos dos arts. 25 do Código de Processo Penal e 102 do Código Penal, de que a representação será irretratável depois de oferecida a denúncia. [...] (AgRg no AREsp 66.021/PR, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 06/09/2016, DJe 15/09/2016) REPRESENTAÇÃO DA VÍTIMA. AÇÃO PÚBLICA CONDICIONADA. INCLUSÃO DE OUTROS ENVOLVIDOS QUE NÃO CONTAVAM NA REPRESENTAÇÃO. POSSIBILIDADE. PERSECUÇÃO PENAL CONTRA TODOS OS POSSÍVEIS AUTORES DO FATO. LEGALIDADE. EFICÁCIA OBJETIVA DA REPRESENTAÇÃO. DECADÊNCIA PARA REPRESENTAÇÃO. NÃO Leonardo Ribas Tavares Aula 02 Direito Processual Penal p/ PC-AL (Delegado) www.estrategiaconcursos.com.br 1244284 01341295478 - Ana Karolyne Montezuma Lins Lima 90 OCORRÊNCIA. [...] A questão controvertida cinge-se a saber se, em decorrência da eficácia objetiva da representação, é possível, na denúncia, o envolvimento de outro agente que não tenha sido apontado desde o início na representação do ofendido. [...] Por eficácia objetiva da representação, entende-se