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produtivos do trabalho. A distinção entre os diversos 
ofícios e profissões parece ter-se realizado em consequência 
desta vantagem. Também se verifica que esta distinção é, 
1755), s. v. Epingle. O artigo é atribuído a M. Delaire, «qui décrivait ' 
la fabrication de l'épingle dans les ateliers même des ouvriers», 
p. 807. Em algumas fábricas a divisão era ainda levada mais longe. 
E. Chambers, Cyclopaedia, voI. lI, 2.a edição, 1738, e 4.a edição, 
1741, s. v. Pin, refere vinte e cinco operações distintas]. 
[80 ] 
em geral, levada mais longe nos países que gozam de um 
mais elevado grau de actividade e progresso; o que cons-
titui trabalho de um homem num estado primitivo da 
sociedade, equivale normalmente ao de vários numa 
sociedade mais avançada. Em todas as sociedades avan-
~~~as, o agricultor é geralmente aperias-ag:t:lcult()~~ / 
o artesã!] apenas artesão. Além disso, o trabalho neces-
sário à produção de qualquer obra completa divide-se, 
quase sempre, entre grande número de operários. Quan-
tos oficios distintos se ocupam em cada um dos ramos das 
indústrias do linho e da lã, desde os cultivadores do linho 
e da lã, até aos branqueadores e fiadeiros do linho, e aos 
tintureiros e aos que fazem os acabamentos dos tecidos I 
É verdade que, por natureza, a agricultura não admite 
tantas subdivisões do trabalho como a indústria, nem 
uma tão completa separação entre as diferentes tarefas. 
É impossível separar tão· inteiramente a actividade do 
criador de gado da do cultivador de cereais, quanto se 
distinguem normalmente os trabalhos do carpinteiro e 
do ferreiro. O trabalho de fiação é quase sempre executado 
por uma pessoa diferente da que se encarregada tece-
lagem; mas o amanho da terra, a sementeira v e a ceifa sã~ 
em geral, levados a cabo pelo mesmo homem. Uma vez 
que as épocas em que estes trabalhos devem ,ser realizados 
se situam em diferentes estações do ano, seÍTia impossível 
manter um homem constantemente empregado, ocupan-
do-se de um só. É provavelmente devido a esta impossi-
bilidade de estabelecer uma tão completa e absoluta 
separação entre as diferentes tarefas que integram a 
agricultura, que o aumento da capacidade produtiva 
do trabalho nesta actividade nem sempre acompanha os 
acréscimos registados nas indústrias. É certo que as 
nações mais opulentas habitualmente superam todos os 
seus vizinhos na agricultura, tal como na indústria; 
mas distinguem-se, em geral, mais pela sua superioridade 
[ 81 ] 
nesta que naquela. As suas terras estão geralmente mais 
bem cultivadas e, porque mais trabalho e dinheiro lhes 
são dedicadas, produzem mais em relação à extensão e 
fertilidade do solo. Mas esta 7 superioridade da produção 
é raramente muito mais do que proporcional ao excedente 
de trabalho e de dinheiro com elas despendido. Na agri-
cultura, o trabalho de um país rico nem sempre é muito 
mais produtivo que o dum pobre; ou, pelo menos, a dife-
rença não é tão grande como é normalmente nas indús-
trias. Consequentemente, os cereais dos países ricos 
não chegarão obrigatoriamente mais baratos ao mercado 
que os dos países pobres, se a qualidade for idêntica. 
Os cereais da Polónia, para o mesmo grau de qualidade, 
são tão baratos como os franceses, apesar da maior riqueza 
e progresso da França. Os cereais em França, nas regiões 
cereaHferas, atingem exactamente a mesma qualidade e, 
na maior parte dos anos, praticamente o mesmo preço 
que os cereais ingleses, embora, em opulência e progresso, 
a França seja talvez inferior à Inglaterra. As terras cerea-
líferas da Inglaterra estão, todavia, mais bem cultivadas 
que as da França, e diz-se que os terrenos cerealíferos 8 
da França estão muito mais bem cultivados que os da 
Polónia. Mas, embora o país pobre possa, apesar da 
inferioridade do seu cultivo, rivalizar, em certa medida, 
com os ricos no preço e qualidade dos seus cereais, 
ele não poderá aspirar a uma tal concorrência no que 
respeita às indústrias; pelo menos se essas indústrias forem 
adequadas ao solo, clima e situação do pais rico. As 
sedas de França são melhores e mais baratas que as ingle-
sas porque a produção de seda, pelo menos enquanto se 
mantiverem os elevados direitos que actualmente incidem 
[Na primeira edição lê-se «a»]. 
[Na primeira edição lê-se «as terras» aqui e na linha ante-
rior]. 
[82 ] 
sobre a importação da seda em bruto, não é tão apropriada 
ao clima da Inglaterra como ao da França 9. Mas as 
ferragens e as lãs grosseiras inglesas são incompara-
velmente superiores às francesas, e também muito mais 
baratas, quando de idêntica qualidade l0. Na Polócia 
parece não haver praticamente quaisquer indústrias, seja 
de que espécie for, à excepção de algumas das mais 
rudimentares indústrias domésticas sem as quais nenhum 
país pode subsistir. 
O grande aumento da quantidade de trabalho que, 
em consequência da divisão do trabalho, o mesmo número 
de pessoas é capaz de executarll, deve-se a três circuns-
tâncias: primeira, o aumento de destreza de cada um dos 
trabalhadores; segunda, a possibilidade de poupar o 
tempo que habitualmente se perdia ao passar de uma 
tarefa a outra; e, finalmente, a invenção de um grande 
número de máquinas que facilitam e reduzem o trabalho, 
e tornam um só homem capaz de realizar o trabalho 
de muitos 12. 
[Lê-se na primeira edição: «porque a produção de seda 
não se adapta ao clima inglês»]. 
10 [Nas Lições, p. 164, a comparação é entre «brinquedos», 
isto é, pequenos artigos de metal, ingleses e franceses]. 
11 [Na primeira edição «em consequência da divisão do. 
trabalho» aparece aqui e não na linha acima]. 
12 [«Pour la célérité du travail et la perfection de l'ouvrage, 
elles dépendent entil:rement de la multitude des ouvriers rassem-
blés. Lorsqu'une manufacture est nombreuse, chaque opération 
occupe un homme different. Tel ouvrier ne fait et ne fera de sa 
vie qu'une seule et unique chose; tel autre une autre chose: d'ou 
il arrive que chacune s'exécute bien et promptement, et que l'ouvrage 
le mieux fait est encore celui qu'on a à meilleur marché. D'ailleurs 
le gout et la façon se perfectionnent nécessairement entre un grand 
nombre d'ouvriers, parce qu'i! est difficile qu'i! ne s'en rencontre 
quelques-uns capables de réfléchir, de combiner, et de trouver 
enfia le seul moyen qui puisse les mettre au-dessus de leurs sembla-
bles; le moyen ou d'épargner la matil:re, ou d'allonger le temps, 
[83 ] 
A vantagem é 
devida a três 
circunstâncias 
(1) maior 
destreza 
Em primeiro lugar, o acréscimo de destreza do tra-
balhador faz necessariamente aumentar a quantidade de 
trabalho que ele pode realizar, e a divisão do trabalho, 
ao reduzir a actividade de cada homem a uma simples 
tarefa, e ao tornar essa tarefa na única _ocupação de toda 
a sua vida, faz necessariamente aumentar muito a des-
treza de cada trabalhador. Se um vulgar ferreiro que, 
embora acostumado a manejar o martelo, nunca tenha 
feito pregos, for, numa dada ocasião obrigado a tentar 
fazê-los, mal conseguirá, estou certo disso, produzir 
mais de duzentos ou trezentos pregos por dia e, com cer-
teza, de muito má qualidade 13. Um ferreiro que tenha 
sido habituado a fazer pregos, mas cuja actividade única 
ou principal não tenha sido o fabrico de pregos, dificil-
mente conseguirá, ainda que use da máxima diligência, 
fabricar mais de oitocentos a mil pregos num dia. Tive 
ocasião de ver alguns rapazes de menos de vinte anos de 
idade, que nunca tinham exercido qualquer outra pro-
fissão para além do fabrico de pregos, e que, quando se 
esforçavam, conseguiam fazer, cada um deles, mais de 
dois mil e trezentos pregos num dia 14. O fabrico de 
um prego não é, todavia, de maneira nenhuma, uma das_' 
tarefas mais simples. A mesma pessoa utiliza o folé, 
atiça ou corrige o fogo, conforme o necessário, aquece 
o ferro e forja as diferentes partes do prego: para forjar 
ou de surfaire l'industrie, soit par une machine nouvelle, soit 
par une manoeuvre plus commode». - Encyclopédie, tomo I (1751), 
p. 717,