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ociosos e indolentes, que gostam de uma vida retirada, detestam 
o labor e se deliciam com a especulação; ao passo que, na primeira, 
os que alcançam êxito com maior frequência são os homens activos, 
mexidos e laboriosos, os que metem mãos à charrua, tentam todas 
as experiências e dão toda a sua atenção àquilo que estão a fazer». 
- Fábula das Abelhas, parte II (1729), diálogo IlI, p. 151. E passa 
a dar como exemplos os progressos no fabrico do sabão, nos 
processos de tingir os tecidos, etc.]. 
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Cada indivíduo se torna mais perito no ramo que lhe 
compete, acresce-se o volume de trabalho realizado, e a 
ciência progride consideravelmente graças a isso 2y 
É a grande multiplicação das produções de todas as Dai A • 
A • d di . - d b Ih . . a opulencla artes, consequencia a Visao o tra a o, que origina, universal 
numa sociedade bem administrada, a opulência generali- numa sociedade 
d d 
' d .. r' d bem za a que se esten e as cama as maiS inl.e!1ores a popu- administrada, 
lação. Cada trabalhador dispõe de unfLquantidade de 
trabalho próprio muito superior àquela que pode utilizar; 
e, uma vez que todos os outros trabalhadores estão 
exactamente na mesma situação, é-lhe possível trocar 
uma grande quantidade dos seus próprios produtos por 
uma grande quantidade, ou, o que vem a dar no mesmo, 
pelo preço de uma grande quantidade dos deles. Forne-
ce-lhes em abundância aquilo de que necessitam e eles 
fornecem-lhe, com igual profusão, tudo o que ele pre-
tende, difundindo-se a abundância pelas diferentes cama-
das sociais. 
Observe-se o suprimento do mais vulgar artífice 
ou jornaleiro num país civilizado e próspero, e veri-
ficar-se-á que o número de pessoas cuja actividade, 
ainda que só numa pequena parte, foi necessário empre-
gar para lhe proporcionar esse suprimenw, excede todas 
as possibilidades de cálculo. Por exemplo, o casaco de 
lã que cobre um jornaleiro, por mais grosseiro e tosco que 
22 [É reconhecida adiante, p. 761, a vantagem de p~oduzir 
certos bens inteiramente ou p-rincipalmente nos países mais natu-
ralmente adaptados a essa produção, mas o facto de que a divisão 
do trabalho é necessária para a s~a consecução não é verificado. 
O facto de que a divisão do trabalho permite que diferentes traba-
lhadores se entreguem exclusivamente ao tipo de trabalho a que 
melhor se adaptam graças a qualidades não adquiridas pelo ensino 
ou pela prática, tais como a idade, o sexo, a altura e a força, é em 
parte ignorado e em parte negado adiante, pp. 96, 97. A desvan-
tagem da divisão do trabalho ou especialização é tratada no 
voI. lI, Livro V, capo I, parte IH, art. 2]. 
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onde mesmo o 
casaco de um 
jornaleiro é o 
produto da 
actividade de 
um grande 
número de 
homens. 
possa parecer, é o produto do labor combinado de grande 
número de trabalhadores. O pastor, o classificador da 
lã, o cardador, o tintureiro, o fiandeiro, o tecelão, 
o pisoeiro, o curtidor, e muitos outros, têm de reunir 
as suas diferentes artes para que seja possivel obter-se 
mesmo este produto comezinho. E quantos mercadores 
e carreteiros hão-de, além disso, ter sido empregados no 
transporte dos materiais de uns desses trabalhadores 
para os outros, que, muitas vezes, vivem em regiões 
do paIs muito distantes I Quanto comércio e quanta 
navegação especialmente, quantos construtores navais, 
marinheiros, fabricantes de velas e de cordas terão sido 
precisos para reunir as diferentes drogas usadas pelo 
tintureiro, que muitas vezes provêm dos mais remotos 1\ 
cantos do mundo I E que variedade de trabalho é ainda 
necessário para produzir as ferramentas do mais infimo 
desses trabalhadores I Para já não falar de máquinas tão 
complicadas como o navio do marinheiro, a prensa 
do pisoeiro, ou mesmo o tear do tecelão, consideremos 
tão-somente a variedade de trabalho requerida para 
originar essa máquina tão simples, a. tesoura com que o 
pastor tosquia os carneiros. O mineiro, o fabricante da 
fornalha para fundir o minério, o lenhador, o carvoeiro 
que produziu o carvão que a fundição utiliza, o fabri-
cante de tijolos, o assentador de tijolos, os operários que 
trabalham com a fornalha, o operário da fundição, 
o ferreiro, todos têm de juntar as suas artes para as pro-
duzir. Se examinássemos da mesma forma as diferentes 
partes que compõem o seu vestuário e a mobilia da sua 
casa, a camisa de linho que usa junto à pele, os sapatos 
que lhe protegem os pés, a cama em que se deita, e as 
várias partes de que se compõe, o fogão de cozinha 
em que prepara os seus alimentos, o carvão que utiliza 
para esse fim, arrancado às entranhas da terra e trazido 
até ele provavelmente depois de uma longa viagem por 
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terra e por mar, todos os outros utensilios da sua cozinha, 
tudo aquilo que utiliza na sua mesa, as facas e os garfos, 
os pratos de barro ou de estanho, nos quais serve e divide 
os seus alimentos, as várias mãos necessárias para pro-
duzir o seu pão e a sua cerveja, a vidraça que deixa entrar 
o calor e a luz e o protege do vento e da chuva, com 
todo o saber e arte exigidos pelo fabrico dessa bela e 
feliz invenção sem a qual dificilmente se poderia propor-
cionar locais de habitação muito confortáveis nestas 
zonas frias do mundo, e ainda todas as ferramentas a 
que os operários empregados na produção de todos esses 
bens têm de recorrer; se examinarmos todas estas coisas, //~ 
Oi dizia eu, e considerarmos a variedade de activi~ad~s . .?/ 
incorporada em cad~ uma delas, ~~~noS-â ~ 
que, sem a ajuda e cooperação de muitos milhares, as 
necessidades do cidadão mais ínfimo de um pais civilizado 
não poderiam ser satisfeitas, nem mesmo de acordo com 
aquilo que nós muito falsamente imaginamos ser a forma 
simples e fácil como elas são habitualmente satisfeicas .. 
Na verdade, comparadas ao mais extravagante luxo dos 
grandes, as suas necessidades parecem, sem dúvida, 
extremamente simples e chãs; e, no entanto, talvez 
seja verdade que a satisfação das necessidades de um prin-
cipe europeu não excede tanto a de um camponês indus-
trioso e frugal, como a deste excede a de muitos reis 
africanos, senhores absolutos da vida e da liberdade de 
dez mil selvagens nus 23. 
23 [Provavelmente este parágrafo foi tirado integralmente 
do manuscrito das lições do autor. Parece basear-se em Mun, 
England's Treasure by Forraign Trade, capo lII, final; Locke, Civil 
Government, § 43; Mandeville, Fable 01 lhe Bm, parte I, Nota P, 
2." edição, 1723, p. 182, e talvez Harris, Essay upon Money and 
Coins, par~e I, § 12. Ver Lições, pp. 161-162 e notas]. 
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