Prévia do material em texto
- Educação Infantil - Ensino Fundamental - - Ensino Médio - Apostila preparatória para todos os concursos para professores: da União, do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios. 125 páginas 1. As Tendências Pedagógicas: noções básicas e um breve histórico. 2. O Financiamento da Educação Pública no Brasil. 3. Os Mais Importantes Pensadores da Educação. http://www.apostilasconcursoprofessor.com.br/ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 2 ~ 1 - Endereço Eletrônico: pafcruz@ig.com.br 2 - Telefone Celular: (021) 97307-0489 mailto:pafcruz@ig.com Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 3 ~ Normas Legais da Educação Básica - Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - - Os Mais Importantes Pensadores da Educação - - Sumário – Assunto Págin a 1. As Tendências Pedagógicas: noções básicas e um breve histórico.................................................5 2. O Financiamento da Educação Pública no Brasil...........................................................................39 3. Os Mais Importantes Pensadores da Educação............................................................................55 3.1. Anísio Teixeira, o inventor da escola pública no Brasil..............................................................56 3.2. Antonio Gramsci, um apóstolo da emancipação das massas....................................................59 3.3. Burrhus Frederic Skinner, o cientista do comportamento e do aprendizado............................61 3.4. Iohannes Amos Comenius, o pai da didática moderna.............................................................64 3.5. Édouard Claparède, um pioneiro da psicologia infantil.............................................................67 3.6. Emilia Ferreiro, a estudiosa que revolucionou a alfabetização.................................................69 3.7. Florestan Fernandes, um militante do ensino democrático......................................................71 3.8. Friedrich Froebel, o criador ds “Jardins de Infância”.................................................................74 3.9. Henri Wallon, o educador integral.............................................................................................77 3.10. Jean Piaget, o biólogo que colocou a aprendizagem no microscópio......................................79 3.11. John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco................................................................81 3.12. Johann Heinrich Pestalozzi, o teórico que incorporou o afeto à sala de aula..........................83 3.13. Karl Marx, o filósofo da revolução...........................................................................................85 3.14. Lev Vygotsky, o teórico do ensino como processo social.........................................................88 3.15. Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno.................................................................91 3.16. Ovide Decroly, o primeiro a tratar o saber de forma única......................................................93 3.17. Alexander Neill, o promotor da felicidade na sala de aula..................................................... 96 3.18. Anton Makarenko, o professor do coletivo............................................................................. 98 3.19. Émile Durkheim, o criador da Sociologia da Educação.......................................................... 101 3.20. Hannah Arendt, a voz de apoio à autoridade do professor....................................................103 3.21. Johann Friedrich Herbart, o organizador da pedagogia como ciência..................................105 3.22. Herbert Spencer, o ideólogo da luta pela vida...................................................................... 108 3.23. Jean-Jacques Rousseau, o filósofo da liberdade como valor supremo..................................110 3.24. Lawrence Stenhouse, o defensor da pesquisa do dia a dia................................................... 113 3.25. Paulo Freire, o mentor da educação para a consciência........................................................115 3.26. Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade..................................................................118 - Referências....................................................................................................................................120 - Curriculum Vitae (Extrato) do Prof. Antonio Ferreira da Cruz......................................................125 Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 4 ~ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 5 ~ 1. As Tendências Pedagógicas: noções básicas e um breve histórico. A formação humana constitui-se por uma trama de relações sociais, o que significa dizer que o ser humano emerge no seu modo de ser, como um organismo pertencente a um conjunto de relações sociais, onde: as ações, as reações, as condutas normatizadas, ou não, as censuras, as re- lações de trabalho e de consumo, dentre outras, constituem a prática social e faz do ser humano um ser histórico. A educação é uma das práticas sociais e históricas mais importantes e duradouras: quer seja do tipo escolar ou não, influencia e é influenciada por fatores políticos econômicos, sociais e cultu- rais. A concretização das condições que asseguram a realização do trabalho docente resulta da sua prática escolar e não estão reduzidas àquilo que é, estritamente, "pedagógico”, uma vez que, um estabelecimento educacional executa as funções que lhe são dadas pela socie- dade onde se insere, razões que o levam a ser constituído por classes sociais com interesses diversos, e, muitas vezes, antagônicos, resultando em práticas escolares determinadas por condicionantes sociopolíticos, configurando as diferentes concepções de ser humano e de soci- edade e, consequentemente, de diferentes pressupostos sobre o seu papel, e de tudo o que nele se faz, no dia a dia escolar, como: a aprendizagem, a relação docente-educando, as técnicas pedagógicas empregadas nas atividades educacionais etc., ficando nítido, que os conteúdos das matérias, os métodos e as técnicas de ensino, e, a avaliação da aprendizagem usados pelos docentes, em seu fazer pedagógico, são selecionados e aplicados, de acordo com certos pres- supostos teórico-metodológicos, explícita ou implicitamente. A maioria dos professores baseia as suas práticas docentes em prescrições pedagógicas que viraram senso comum, incorporadas pela sua passagem pela escola ou transmitidas por colegas mais antigos na profissão. No entanto, essaspráticas, também contêm, pressupostos teóricos implícitos. Ao longo da minha vida, como profissional da educação, pude perceber, que uma mi- noria de docentes, procura fazer um trabalho mais consequente, por ser constituída por pro- fessores preparados para perceber o sentido mais amplo da sua prática e das suas convicções, e outros professores que se apegam à última tendência da moda, sem terem quaisquer cui- dados em refletir, se essa escolha trará, de fato, as respostas que buscam e/ou que os alunos necessitam. Em duas ocasiões, muito especiais, constatei essas formas da ação pedagógica dos professores, em estabelecimentos da educação pública: - a primeira, ocorreu entre os anos de 1976 e 1983, quando exerci o cargo de Diretor do Colégio Estadual Miguel Couto, localizado no município de Cabo Frio, RJ, que, à época, abrigava duzentos e cinquenta e cinco (255) professores e quatro mil (4.000) alunos, distri- buídos pelos cursos: Pré-Escolar (Jardim de Infância), Primário e Ginasial, e os profissionali- zantes (Normal, Construção Civil, Saúde e Administração); - a segunda, deu-se entre os anos de 1978 e 1983, ao exercer o cargo de Diretor-Geral do Centro Regional de Educação e Cultura de Cabo Frio (13ª Região Escolar do Estado do Rio de Janeiro, administrando a Educação e a Cultura dos Municípios de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Araruama e Saquarema)1, com oitenta e oito (88) escolas estaduais no total, que, à época, detinham a lotação de três mil, seiscentos e setenta e cinco (3.675) professores. Nas duas experiências de trabalho citadas, constatei facilmente, que os conteúdos dos estudos , que a grande maioria dos docentes havia frequentado, em suas habilitações profis- sionais, no Curso Normal ou em cursos superiores, ou não incluíram o estudo das correntes pedagógicas, ou giraram em torno das teorias de aprendizagem e ensino, que quase nunca, 1 Nota do organizador - ainda não existiam os municípios de Arraial do Cabo e Armação dos Búzios, que só foram cria- dos, após essas datas, deixando de pertencer ao município de Cabo Frio. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 6 ~ têm a correspondência esperada com as situações concretas das atividades docentes, desen- volvidas nos ambientes escolares, como: salas de aula, quadra de esportes, ginásios esporti- vos, auditórios, laboratórios químico-físicos ou de línguas etc., deixando assim, de preparar esses futuros docentes, com um referencial básico muito importante, para orientar as suas práticas futuras, em suas atividades profissionais. Podemos verificar que o pressuposto de aprendizagem empregado nas diferentes tendên- cias pedagógicas na prática escolar brasileira vem com o intuito de contribuir, para a formação continuada de professores. Sabe-se que a prática escolar está sujeita às condicionantes de ordem sociopolítica que im- plicam em diferentes concepções de ser humano e de sociedade e, consequentemente, diferen- tes pressupostos sobre o papel da escola e da aprendizagem e o modo como os professores rea- lizam o seu trabalho na escola tem a ver com esses pressupostos teóricos, explícita ou implicita- mente. Embora se reconheçam as dificuldades do estabelecimento de uma síntese dessas diferen- tes tendências pedagógicas, cujas influências se refletem no ecletismo do ensino atual, emprega- se, neste estudo, a teoria de José Carlos Libâneo, que as classifica em dois grupos: “liberais” e “progressistas”. No primeiro grupo, estão incluídas as tendências: “tradicional”, a “renovada pro- gressivista”, a “renovada não-diretiva” e a “tecnicista”. No segundo, a tendência “libertadora”, a “libertária” e a “crítico-social dos conteúdos”. Justifica-se, também, pelo fato de que novos avanços no campo da Psicologia da Aprendi- zagem, bem como a revalorização das ideias de psicólogos interacionistas, como Piaget, Vygotsky e Wallon, e a autonomia da escola na construção de sua Proposta Pedagógica, a partir da LDB 9.394/96, exigem uma atualização constante do professor, que, através do conhecimento dessas tendências pedagógicas e dos seus pressupostos de aprendizagem, terá melhores condições de avaliar os fundamentos teóricos empregados em sua prática nas atividades docentes que desen- volver, em qualquer um dos ambientes escolares, principiando pela sala de aula. Assim, vamos tratar das concepções pedagógicas propriamente ditas, ou seja, vamos abor- dar as diversas tendências teóricas que pretenderam dar conta da compreensão e da orientação da prática educacional, em diversos momentos e circunstâncias da história humana, e, aprofun- dando a compreensão da articulação entre a filosofia e a educação, que, aqui, atinge o nível da concepção filosófica da educação, que se sedimenta em uma pedagogia. Genericamente, pode- mos dizer que a perspectiva redentora se traduz pelas pedagogias liberais e a perspectiva trans- formadora pelas pedagogias progressistas. Para desenvolver a abordagem das tendências pedagógicas utilizamos como critério a po- sição que cada tendência adota em relação às finalidades sociais da escola. 1.1. O início de tudo Em um artigo publicado em 1981, Saviani descreveu, com muita propriedade, certas confusões que se emaranham na cabeça dos docentes. Após caracterizar a pedagogia tradicional e a pedagogia nova, indicou o aparecimento, mais recente, da tendência tecnicista e das teorias critico-reprodutivistas, descrevendo: "Os professores têm na cabeça o movimento e os princípios da escola nova. A realidade, porém, não oferece aos professores condições para instaurar a escola nova, porque a realidade em que atuam é tradicional. (...) Mas o drama do professor não termina, aí. A essa contradição se acrescenta uma outra: além de constatar que as condições concretas não correspondem à sua crença, o profes- sor se vê pressionado pela pedagogia oficial que prega a racionalidade e produtividade do sistema e do seu trabalho, isto é, ênfase, nos meios (tecnicismo).(...) Aí o quadro contraditório em que se encontra o professor: sua cabeça é escolanovista a realidade é tradicional;"(...) rejeita o tecnicismo Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 7 ~ porque sente-se violentado pela ideologia oficial; não aceita a linha crítica porque não quer rece- ber a denominação de agente repressor”. (SAVIANI, 2003) Tomando como referência a educação vivenciada no espaço da escola, trataremos aqui, de muitas das questões importantes, que cercam o fazer pedagógico de um dos atores mais importan- tes no processo educacional: o docente. Só aprende aquele que se apropria do aprendido transformando-o em apreendido, com o que pode por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações exis- tentes concretas. (Paulo Freire, 2000) Os movimentos sociais deram origem às tendências pedagógicas, em épocas e contextos históricos particulares, influenciando as práticas pedagógicas e buscando atender às expectativas da sociedade, seja das classes dominantes ou dos dominados. Neste sentido, nosso objetivo, é pos- sibilitar a você professor, o conhecimento de tais tendências, a fim de que possa construir, consci- entemente, a sua própria trajetória político-pedagógica para atuar com maior eficácia, acreditando que esse conhecimento, servirá como uma valiosa ferramenta, podendo realizar mudanças signifi- cativas a fim de transformar o seu fazer e o seu saber, problematizando-os, aplicando-os no seu cotidiano, na sua prática. A partir daqui, são apresentadas as diferentes características de cadauma das correntes só- cio-filosóficas, que fundamentam as tendências pedagógicas, buscando conhecer e criticar, de forma consistente, consciente e entendendo o contexto histórico de cada uma delas, considerando como tendência pedagógica: “as diversas teorias filosóficas que pretenderam dar conta da compre- ensão e da orientação da prática educacional em diversos momentos e circunstâncias da história humana” (LUCKESI, 1990, p. 53). É muito importante esclarecer que as tendências não aparecem em sua forma pura, nem são, sempre, mutuamente exclusivas, nem conseguem captar toda a riqueza da prática escolar, limitações que se impõem a qualquer tentativa de classificação, servindo para funcionar como ins- trumento de análise, para que cada docente, possa avaliar a sua prática, nas atividades do seu dia a dia escolar. Considerando a posição que adotam em relação aos condicionantes sociopolíticos da escola, as tendências pedagógicas podem ser classificadas em liberais e progressistas, con- forme o que se segue: I - Pedagogia liberal a - Tradicional b - Renovada progressivista c - Renovada não diretiva d - Tecnicista II - Pedagogia progressista a - Libertadora b - Libertária c - Crítico-social dos conteúdos I - Pedagogia liberal Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 8 ~ A doutrina liberal apareceu para justificar o sistema capitalista que, ao defender a pre- dominância da liberdade e dos interesses individuais na sociedade, estabeleceu uma forma de organização social, baseada na propriedade privada dos meios de produção, sendo, tam- bém, denominada como sociedade de classes, sistema econômico onde o termo liberal, não tem o sentido de "avançado", ''democrático", "aberto", como costuma ser usado e a peda- gogia liberal é uma manifestação desse tipo de sociedade. A educação brasileira tem sido marcada pelas tendências liberais, na forma conserva- dora ou renovada, nos últimos cinquenta anos, manifestadas, concretamente, pelas práticas escolares, e no ideário pedagógico de muitos docentes, ainda que eles não percebam ou iden- tifiquem tal influência. A escola -, como agência cultural, por excelência -, tem a seu cargo, o preparo dos in- divíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as suas aptidões individuais, conforme propõe a ciência da pedagogia. Para isso, os indivíduos precisam aprender a adap- tar-se aos valores e às normas vigentes na sociedade de classes, através do desenvolvi- mento da sua cultura individual, ênfase no aspecto cultural que esconde a realidade das dife- renças entre as classes socias, porque, embora difunda e propague a ideia da igualdade de oportunidades, não leva em conta a desigualdade das condições. A educação liberal iniciou-se pela pedagogia tradicional que, para recompor a hegemo- nia da burguesia, evoluiu para a pedagogia renovada (também denominada escola nova ou ativa), o que não significou na substituição de uma pela outra, porque, ambas, conviveram e ainda estão presentes, na prática escolar cotidiana. A tendência tradicional, utiliza a pedagogia acentuando o ensino humanístico e a cul- tura geral, levando o aluno a alcançar, pelo próprio esforço, a sua plena realização como pes- soa, fazendo com que os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação professor-aluno não tenham nenhuma relação com o cotidiano do aluno e, muito menos, com as realidades sociais: tudo gravitando em torno da predominância da palavra do professor, com regras impostas, exclusi- vamente, pelo cultivo intelectual. A tendência liberal renovada acentua, igualmente, o sentido da cultura como desen- volvimento das aptidões individuais, diferenciando a educação como um processo interno, não externo; partindo das necessidades e dos interesses individuais necessários para a adaptação ao meio em que se vive. A educação é a vida presente, como parte da própria experiência hu- mana. A escola renovada propõe um ensino que valoriza a autoeducação (o aluno como sujeito do conhecimento), a experiência direta sobre o meio pela atividade; um ensino centrado no aluno e no grupo. No Brasil, a tendência liberal renovada apresenta-se em duas versões: a renovada pro- gressivista, ou, pragmatista, principalmente, pela forma como foi difundida pelo Movimento dos Pioneiros da Educação Nova, destacando-se, dentre eles, o pensador Anísio Teixeira, e a influência de Maria Montessori e de Decroly e, de certa forma, de Jean Piaget; a renovada não diretiva, orientada para os objetivos da autorrealização (desenvolvimento pessoal) e para as relações interpessoais, conforme a formulação do educador e psicólogo norte-ame- ricano Carl Rogers. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 9 ~ A designação progressivista vem de educação progressiva, termo utilizado por Anísio Teixeira indicando a função da educação em uma civilização em mudança, provocada pelo desenvolvimento científico, ideia que equivale, na biologia, a “evolução”. Esta tendência foi inspirada no filósofo e educador norte-americano John Dewey e, em alguns educadores que, ou foram seus alunos, ou trabalharam com ele, como Kilpatrik, que publicou Educação para uma civilização em mudança, obra publicada em 1926 e editada no Brasil ainda na década de 1930 (e reeditada mais de quatorze (14) vezes, ao longo de um período superior a trinta (30) anos, é, certamente, um dos trabalhos mais divulgados que marcou época e teve grande influência na educação brasileira. Nesta obra, Kilpatrick parte da constatação de intensas mudanças pelas quais a socie- dade moderna passava naquele momento, entre fins do século XIX e início do século XX. Analisa a natureza dessas mudanças, para, e sugere as transformações que tal situação da sociedade exige da educação. O Método de Projetos tem, como ideia principal, partir de uma situação problema, conciliar teoria e prática em uma investigação, e realizar um produto fi- nal, concedendo, nesse caminho, um papel ativo aos alunos. Estudando-se o modo pelo qual a obra de Kilpatrick desenvolve os conceitos, é possível destacar que há, de fato, proposições que seguem ao encontro das teorias mais conhecidas de John Dewey; contudo, para além dessa percepção mais inicial, é possível considerar um claro propósito na ação de Kilpatrick, perante a ideia de uma mudança social latente, quando sugere utilizar, preponderantemente, a reforma escolar como agente de tal mudança social. A tendência liberal tecnicista dispõe a educação como dependente e subordinada da sociedade, preparando os "recursos humanos", como a sua função primordial, ou seja: basi- camente, da mão de obra para a indústria, deixando bem nítida, a noção de que, a sociedade industrial e tecnológica estabelece, cientificamente, as metas econômicas, sociais e políticas, e, a educação treina os alunos, também, cientificamente, nos comportamentos que são ne- cessários para ajustá-los a alcançar essas metas. O tecnicismo acredita que a realidade, contém em si, as suas próprias leis, bastando aos seres humanos descobri-las e aplicá-las. Portanto, a essência, não é o conteúdo da reali- dade, mas as técnicas (a forma) da descoberta e da aplicação. A tecnologia, como o aproveita- mento ordenado dos recursos, com base no conhecimento científico, é o meio eficaz de obter a maximização da produção e a garantia de um ótimo funcionamento da sociedade; a educa- ção, como um recurso tecnológico por excelência,"é encarada como um instrumento capaz de promover, sem contradição, o desenvolvimento econômico pela qualificação da mão-de-obra, pela redistribuição da renda, pelo maximização da produção e, ao mesmo tempo, pelo desen- volvimento da 'consciência política' indispensável à manutenção do Estado autoritário". (KU- ENZER et al., 1988. p. 34). O tecnicismo utiliza-se, basicamente, do enfoque sistêmico, da tecnologia educacional e da análise experimental do comportamento. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 10 ~ a) Tendência liberal tradicional Escola - preparar os alunos, intelectual e moralmente, capacitando-os para ocuparem os lugares que lhes estarão reservados na sociedade, e, assumir compromissos com a cultura e com os problemas sociais, pertencentes à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem, por isso, os menos capazes devem lutar para superarem a s suas dificuldades e conquistarem o seu lugar, junto aos mais capazes; caso não consigam, devem procurar um tipo de ensino mais adequado ao seu perfil profissionalizante. Conteúdos de ensino - são elaborados e determinados pela sociedade, reunindo os conhecimentos e valores sociais acumulados pelas gerações adultas e repassados ao aluno como verdades. As matérias de estudo são ordenadas e determinadas pela sociedade através de uma legislação específica, dispondo como deve ser o preparo do aluno para a vida. Os conteúdos são separados da experiência do educando e das realidades sociais, valendo pelo valor intelectual, razão pela qual, a pedagogia tradicional é criticada como intelectualista ou enciclopédica. Métodos - baseiam-se na exposição oral da matéria e/ou na demonstração, feitas pelo docente, através das seguintes etapas: a) preparação do aluno: definição do trabalho, recordação do que foi estudado, ante- riormente, e o despertar do interesse; b) apresentação: realce de pontos chave, demonstração; c) associação: combinação do novo conhecimento com o já conhecido, por comparação e abstração; d) generalização: exposição sistematizada, partindo dos aspectos particulares chega-se ao conceito geral; e) aplicação: explicação de fatos adicionais e/ou resoluções de exercícios (A ênfase dada aos exercícios, à repetição de conceitos ou fórmulas na memorização, visa disciplinar a mente e formar hábitos de memória e repetição.). Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 11 ~ Relação docente-educando - predomina a autoridade do docente que exige uma ati- tude receptiva dos alunos e impede qualquer comunicação, entre eles, no decorrer da ativi- dade que estiver sendo desenvolvida. Para isso, transmite os conteúdos a serem memoriza- dos, na forma de verdades absolutas, que devem absorvidas, impondo uma rígida disciplina, como um meio eficaz e dissuasivo, para assegurar a atenção e o silêncio. Aprendizagem - a ideia de que o ensino consiste em repassar os conhecimentos para o espírito da criança é acompanhada de uma outra: a de que a capacidade de assimilação da criança é idêntica à do adulto, sendo, apenas, menos desenvolvida. Os programas, então, devem ser da- dos em uma progressão lógica, estabelecida pelo adulto, sem levar em conta as características próprias de cada idade, tornando a aprendizagem receptiva e mecânica, recorrendo, constante- mente, à coação. A repetição de exercícios sistemáticos e a recapitulação dos conteúdos de cada matéria, garantem a retenção do que foi ensinado. A transferência da aprendizagem depende do treino; é indispensável a retenção, a fim de que, o aluno possa responder às situações novas, de forma semelhante às respostas que haviam sido dadas em situações anteriores. A avaliação dá-se por verificações de curto prazo, como os interrogatórios orais, os exercícios que devem ser realizados pelo aluno em sua residência etc., além dos que demandam um prazo mais longo, como as provas escritas, as pesquisas para serem feitas em casa etc. Em geral, o reforço é negativo, por estar acompanhado de: uma punição ou um castigo, de notas baixas e, de apelos aos pais ou responsá- veis; doutras vezes, é positivo, com emulações2 e/ou classificações. Prática escolar - a pedagogia liberal tradicional é viva e atuante em nossas escolas, inclu- indo-se as religiosas ou leigas que adotam uma orientação clássico-humanista ou uma orientação humano-científica, sendo que esta, aproxima-se mais do modelo de escola predominante na his- tória da nossa educação. b) Tendência liberal renovada progressivista. A designação "progressivista" vem de "educação progressiva" -, termo usado por Anísio Tei- xeira para indicar a função da educação em uma civilização era mudança, decorrente do desenvol- vimento científico, que, em biologia, equivale a "evolução" -, inspirada no filósofo e educador norte-americano John Dewey e em uma obra do educador Kilpatrick, que fazia parte da sua equipe de trabalho na educação. Escola - a escola deve existir para adequar as necessidades individuais ao meio social. Para isso, ela deve organizar-se retratando a vida, o mais possível. O aluno, como todo ser vivente, dispõe de mecanismos próprios para uma adaptação progressiva ao meio, além de uma consequente integração dessas formas no seu comporta- mento, através das experiências vividas por ele, que devem satisfazer, simultaneamente, os seus interesses e as exigências do meio em que vive. 2 Emulação - 1. sentimento que leva o indivíduo a tentar igualar-se a ou a superar outro. 2. competição, disputa, concor- rência (ger. em sentido moralmente sadio, sem sentimentos baixos ou violência). Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 12 ~ O suprimento das exigências possibilita o ato da educação, em cada indivíduo, na cons- trução e na reconstrução do objeto, numa interação permanente, entre as suas estruturas cognitivas e as estruturas do meio ambiente. Conteúdos de ensino - como o conhecimento resulta da ação, a partir dos interesses e das necessidades coletivas e individuais, os conteúdos de ensino são estabelecidos em fun- ção das experiências que o sujeito vivencia, frente a desafios cognitivos e a situações proble- máticas. Dá-se, portanto, muito mais valor aos processos mentais e às habilidades cogni- tivas do que aos conteúdos organizados racionalmente. Trata-se de "aprender a aprender", ou seja: esta tendência pedagógica considera mais importante o processo de aquisição do saber, do que o próprio saber. Método de ensino - o "aprender fazendo" está sempre presente, valorizando-se as ten- tativas experimentais, a pesquisa, a descoberta, o estudo do meio natural e social, e, o método da solução de problemas. Embora os métodos variem, as escolas ativas ou novas, propostas e vivenciadas por Dewey, Montessori, Decroly, Cousinet e outros, partem sempre de ativida- des adequadas à natureza do aluno e às diferentes etapas do seu desenvolvimento. Na maioria delas, acentua-se a importância do trabalho em grupo, não apenas como técnica, mas, como condição básica do desenvolvimento mental, através dos seguintes passos: a) propiciar ao aluno uma situação de experiência, que possua um interesse, em si mesma; b) o problema proposto deve ser desafiante, como um estímulo à reflexão;c) o aluno deve dispor das informações e instruções que lhe permitam pesquisar a des- coberta das soluções que procura; d) as soluções provisórias devem ser incentivadas e ordenadas, com a ajuda discreta do docente; e) deve-se garantir a oportunidade de colocar as soluções à prova, a fim de determinar a sua utilidade para a vida. Relação docente-educando - não há lugar privilegiado para o docente; antes, o seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; se intervém, é para dar forma ao raciocínio dela. A disciplina surge de uma tomada de consciência dos limites da vida grupal; assim, um aluno disciplinado é aquele que é solidário, participante, respeitador das regras do grupo. Para a garantia de um clima harmonioso dentro da sala de aula, é indispensável, que haja um relacionamento positivo, entre os docentes e os alunos, uma forma de instaurar a "vivência de- mocrática", tal como deve ser a vida em uma sociedade. Aprendizagem - a motivação depende da força da estimulação do problema e das dis- posições internas e do interesse do educando. Assim, aprender, torna-se uma atividade de descoberta, uma autoaprendizagem, em que, o ambiente é o meio estimulador. É retido o que se incorpora à atividade do aluno pela descoberta pessoal; o que é incorporado, passa a compor a estrutura cognitiva, para ser empregado em novas situações. A avaliação é fluida, e tenta ser eficaz, à medida em que, os esforços e os êxitos, são pronta e explicitamente, reconhe- cidos pelo docente. Prática escolar - os princípios da pedagogia progressivista vêm sendo difundidos, em larga escala, nos cursos de licenciatura, e, influenciando a muitos docentes. Entretanto, a sua aplicação é muito reduzida, não somente, pela falta de condições objetivas, como também, porque se choca com uma prática pedagógica basicamente tradicional. Alguns métodos são adotados em estabelecimentos privados, como o Método Montessori, os Centros de Interesse de Decroly, o Método de Projetos. O ensino baseado na Psicologia Genética de Piaget tem larga aceitação na educação infantil. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 13 ~ Pertencem, ainda, à tendência progressivista, muitas das escolas denominadas "expe- rimentais", as "escolas comunitárias” e mais remotamente, na década de 1960, a "escola secundária moderna", na versão difundida pelo educador brasileiro Lauro de Oliveira Lima. c) Tendência liberal renovada não diretiva. Escola - acentua a formação das atitudes, razão pela qual, deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que com os pedagógicos ou sociais, concentrando todo o esforço em estabelecer um clima favorável às mudanças individuais, adequando as pessoas às solicitações do ambiente. Carl Rogers considera que o ensino é uma atividade excessivamente valorizada; para ele, os procedimentos didáticos, a competência na matéria, as aulas e os compêndios escolares têm muito pouca importância, face ao propósito de favorecer à pessoa um clima de autode- senvolvimento e de realização pessoal, o que implica, em estar bem consigo e com os seus semelhantes. O resultado de uma boa educação é muito semelhante ao de uma boa terapia. (ROGERS, 1972) Conteúdos de ensino - esta tendência enfatiza os processos do desenvolvimento das relações e da comunicação, tornando secundária a transmissão dos conteúdos. Os processos de ensino visam, muito mais, facilitar os meios para que os estudantes busquem, por si mes- mos, os conhecimentos que, no entanto, podem ser dispensados. Métodos de ensino - dispensa os métodos usuais, prevalecendo quase que, exclusiva- mente, o esforço do docente no desenvolvimento de um estilo próprio, para facilitar a aprendiza- gem dos alunos. Carl Rogers explicita algumas das características do docente “facilitador da aprendiza- gem": aceitar a pessoa do aluno, desenvolver a capacidade de ser confiável, ser receptivo e ter a plena convicção da capacidade do autodesenvolvimento do estudante. Sua função res- tringe-se a auxiliar na organização de cada aluno, utilizando técnicas de sensibilização, em que, os sentimentos individuais possam ser expostos, livres de ameaças. Deste modo, o ob- jetivo do trabalho escolar esgota-se nos processos de um melhor relacionamento interpessoal, como condição basilar para o crescimento pessoal. Relação docente-educando - a pedagogia não diretiva propõe uma educação centrada no aluno, visando a formar a formação da sua personalidade, através da vivência de experiências significativas, que lhe permitam desenvolver as características inerentes à sua natureza. O do- cente é um especialista em relações humanas, garantindo o clima de um relacionamento pessoal autêntico. “Ausentar-se” é a melhor forma de respeito e de aceitação plena do aluno, porque toda a intervenção é ameaçadora e inibidora da sua aprendizagem. Aprendizagem - a motivação é um ato interno e resulta do desejo da adequação pessoal na busca da autorrealização, que se amplia, quando o sujeito desenvolve o sentimento de que é capaz de agir, para alcançar as suas metas pessoais, isto é, desenvolve a valorização do seu "eu". Aprender, portanto, é modificar as suas próprias percepções; e só se aprende, o que estiver, sig- nificativamente, relacionado a essas percepções e a retenção se dá pela relevância do que for aprendido, em relação ao "eu", ou seja, o que não está envolvido com o "eu" não é retido, nem transferido. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 14 ~ Esta tendência pedagógica considera a avaliação escolar praticada, na maioria dos estabe- lecimentos educacionais brasileiros, usualmente, como indevida, excetuando-se os estabeleci- mentos educacionais que praticam a autoavaliação, por trabalharem alinhados às suas proposi- ções. Prática escolar - em nosso país, o inspirador da pedagogia não diretiva é Carl Rogers, que, na verdade, foi mais um psicólogo clínico, do que um docente, apesar de ter lecionado em escolas ao sul do Estados Unidos. As suas ideias influenciam um número expressivo de educadores e professores, e, principalmente, de orientadores educacionais e psicólogos esco- lares, dedicados ao aconselhamento educacional. As tendências pedagógicas similares, inspiradas na escola de Summerhill, onde o educa- dor inglês A. Neill desenvolveu as suas práticas, também podem ser citadas, como similares à pedagogia não diretiva. d) Tendência liberal tecnicista Escola - em um sistema social harmônico, orgânico e funcional, a escola funciona como modeladora do comportamento humano, através de técnicas específicas. À educação escolar compete, organizar o processo da aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específi- cos, úteis e necessários para que os indivíduos se integrem no sistema social global, que é regido por leis naturais: a sociedade contém e utiliza a mesma regularidade e as mesmas rela- ções funcionais observáreis entre os fenômenos da natureza, cientificamente descobertas. En- tão, esta tendência pedagógica afirma, que basta aplicá-las. A atividade da "descoberta" é fun- ção da educação, mas deve ser restrita aos especialistas; a “aplicação" é a competência do processo educacional comum. Assim, a escola atua no aperfeiçoamento da ordem social vi- gente (o sistema capitalista), articulando-se, diretamente, com o sistema produtivo, empre- gando, para tanto, a tecnologia comportamental, como a ciência da mudança do comporta- mento. A educação comportamental tem como interesse imediato, o de produzir indivíduos "competentes”para o mercado de trabalho, transmitindo, eficientemente, informações pre- cisas, objetivas e rápidas. A pesquisa científica, a tecnologia educacional e a análise experi- mental do comportamento garantem a objetividade da prática escolar, uma vez que os ob- jetivos instrucionais, presentes nos conteúdos, resultam da aplicação das leis naturais, que independem dos que a conhecem ou a executam. Conteúdos de ensino - são desenvolvidos através d as informações, dos princípios cien- tíficos, das leis etc., estabelecidos e ordenados em uma sequência lógica e psicológica por especialistas. O ensino reduz-se ao conhecimento observável e mensurável e, os conteúdos decorrem, da ciência objetiva, eliminando-se qualquer sinal de subjetividade. O material ins- trucional encontra-se sistematizado em manuais, livros didáticos, módulos de ensino, dispo- sitivos audiovisuais etc. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 15 ~ Métodos de ensino - são estruturados pelos procedimentos e técnicas necessárias ao arranjo e ao controle das condições ambientais que assegurem a transmissão ou a recepção de informações. Se a primeira tarefa do docente é modelar as respostas apropriadas aos ob- jetivos instrucionais, a principal delas, é conseguir o comportamento adequado pelo controle do ensino; daí, a importância da tecnologia educacional, que pode ser sintetizada como “a aplicação sistemática de princípios científicos comportamentais e tecnológicos, a problemas educacionais, em função de resultados efetivos, utilizando uma metodologia e abordagem sistêmica abrangente”. (AURICCHIO, 1976) Qualquer sistema instrucional - e, há uma grande variedade deles -, possui três compo- nentes básicos: os objetivos instrucionais operacionalizados em comportamentos observá- veis e mensuráveis, os procedimentos instrucionais e a avaliação. As etapas básicas do processo ensino-aprendizagem são: a) o estabelecimento de comportamentos terminais, através de objetivos instrucionais; b) a análise da tarefa de aprendizagem, a fim de ordenar, sequencialmente, os passos da instrução; e, c) a execução do programa, reforçando gradualmente as respostas corretas, corres- pondentes aos objetivos propostos. O essencial da tecnologia educacional, é a programação por passos sequenciais, em- pregada na instrução programada, nas técnicas de microensino, nos multimeios, nos módu- los etc. O emprego da tecnologia instrucional, na escola pública, aparece nas formas de: pla- nejamento em moldes sistêmicos, concepção de aprendizagem como mudança de compor- tamento, operacionalização dos objetivos e o uso de procedimentos científicos, como, a ins- trução programada, os materiais audiovisuais, as avaliações etc. (KUENZER e MACHADO, 1972, p. 47) Relação docente-educando - são estruturadas e objetivas, com papeis bem definidos, em que o docente administra as condições da transmissão dos conhecimentos, através das matérias ou disciplinas, em conformidade com um sistema instrucional eficiente e efetivo, em termos dos resultados da aprendizagem, e o aluno, recebe, apreende e fixa as informações. O docente é ape- nas um elo da ligação, entre a verdade científica e o educando, cabendo-lhe empregar o sistema instrucional previsto. O aluno é um indivíduo responsivo, não participa da elaboração do programa educaci- onal. Ambos são espectadores frente à verdade objetiva. A comunicação docente-aluno tem um sentido exclusivamente técnico, para garantir a eficácia da transmissão do conheci- mento. Os debates, as discussões e os questionamentos são desnecessários, assim como, pouco importam as relações afetivas e pessoais dos sujeitos que estão envolvidos no pro- cesso ensino-aprendizagem. Aprendizagem - as teorias da aprendizagem que fundamentam a pedagogia tecnicista estabelecem que, aprender é uma questão da modificação do desempenho: o bom ensino depende de uma organização eficiente das condições estimuladoras, de tal maneira, que o educando saia da situação da aprendizagem, diferente daquela que possuía ao entrar, por- que, o ensino é um processo de condicionamento, através do uso do reforço das respostas que se querem obter, e, os sistemas instrucionais visam o controle do comportamento indivi- dual, em objetivos preestabelecidos. Como se pode constatar, trata-se de um enfoque diretivo do ensino, centrado no con- trole das condições, que cercam o organismo que se comporta. O objetivo da ciência pedagó- gica, a partir da psicologia, é o estudo científico do comportamento, para alcançar a desco- berta das leis, que determinam as reações orgânicas de quem aprende, a fim de ampliar o controle das variáveis que o afetam. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 16 ~ Os componentes da aprendizagem - a motivação, a retenção e a transferência resul- tam da aplicação do comportamento operante. Para Skinner, o comportamento aprendido é uma resposta aos estímulos externos, controlados por meio dos reforços que ocorrem com a resposta, ou após a sua ocorrência: “Se a ocorrência de um (comportamento) operante é se- guida pela apresentação de um estímulo (reforçador), a probabilidade de reforçamento é aumentada". Entre os autores que contribuem para os estudos dessa aprendizagem desta- cam-se: Skinner, Gagné, Bloom e Mager. (FREITAG, 1976) Prática escolar - a influência da pedagogia tecnicista acontece desde a segunda metade dos anos de 1950, através do PABAEE - Programa Brasileiro-Americano de Auxílio ao Ensino Elementar, que, no entanto, só foi introduzido, mais efetivamente, ao final da década de 1960, objetivando a adequação da educação brasileira à orientação político econômica do regime militar, que pretendia inserir o sistema educacional brasileiro, nos modelos da racio- nalização do sistema de produção capitalista. É por esses tempos que a orientação escolanovista cede lugar à tendência tecnicista, pelo menos, nas orientações e nas determinações da política pública da educação brasileira, atra- vés dos seguintes marcos legais, que implantam o modelo tecnicista: - Lei nº 5.540/68, que reorganiza o ensino superior; e - Lei nº 5.692/71, que reorganiza o ensino de 1º e 2º graus, especialmente, com a obri- gatoriedade da profissionalização no 2º grau. A promulgação dessas novas leis educacionais, não fez com que o docente das escolas públicas brasileiras assumisse, integralmente, as novas práticas da pedagogia tecnicista, através do planejamento, dos livros didáticos programados, dos procedimentos de avaliação e etc., prosseguindo em seu exercício profissional mais eclético, em torno dos princípios pe- dagógicos assentados pelas pedagogias tradicional e renovada. (FREITAG, 1976) II - Pedagogia Progressista A pedagogia progressista tomou o termo "progressista", emprestado de Snyders, passando a designar as tendências que partiam da análise crítica das realidades sociais, sustentando as fina- lidades sociopolíticas da educação, deixando muito claro, que a pedagogia progressista, não tem como institucionalizar-se em uma sociedade capitalista, tornando-a poderosa ferramenta para as demandas sociais dos docentes, em suas lutas por melhores condições de trabalho e de salá- rios, mais condizentes com a realidade social onde vivem e atuam profissionalmente. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação)~ 17 ~ A pedagogia progressista tem-se manifestado através de três tendências pedagógicas: a li- bertadora, mais conhecida como pedagogia de Paulo Freire; a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica; e, a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente, das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos em seu confronto com as realidades sociais. As versões libertadora e libertária têm em comum, o anti-autoritarismo, a valorização da experiência vivida, como base da relação educativa e a ideia da autogestão pedagógica; ra- zões que fazem, com que, deem mais valor ao processo da aprendizagem grupal, como a par- ticipação em discussões, assembleias e votações do que, propriamente, aos conteúdos do ensino, considerando, com isso, o sentido da prática educativa como uma prática social junto ao povo, preferindo, assim, denominar as modalidades da educação popular como: “não formal”. A tendência da pedagogia critico-social dos conteúdos propõe uma síntese supera- dora das pedagogia tradicional e renovada, valorizando a ação pedagógica inserida na prática social concreta, onde a escola é percebida e considerada como agente da mediação entre o indivíduo e a sociedade, articulando a transmissão dos conteúdos e a assimilação ativa, por parte de um aluno concreto, inserido que está, em um contexto de relações sociais, e, essa articulação, é que produz o saber criticamente reelaborado. a) Tendência progressista libertadora Escola - a pedagogia libertadora não se refere ao ensino escolar, porque a sua marca é a atuação "não formal", porém, muitos educadores e docentes engajados no ensino escolar vêm adotando muitos pressupostos dessa pedagogia. Quando se fala na educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo da aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atua- rem, com o sentido da transformação social. Tanto a educação tradicional, denominada "ban- cária" - que visa apenas depositar informações sobre o aluno -, quanto a educação renovada - que pretenderia uma libertação psicológica individual - são domesticadoras, pois em nada contribuem para desvelar a realidade social da opressão. Ao contrário, a educação libertadora questiona, concretamente, a realidade das relações do ser humano com a natureza e com os outros seres, visando a transformação da realidade - daí ser uma educação crítica. (FREIRE, 1987) Conteúdos de ensino - o ensino é desenvolvido através de "temas geradores", que são extraídos da problematização da vida prática dos educandos presentes, recusando-se os con- teúdos tradicionais, porque, cada ser humano e cada grupo, dos que estão envolvidos na ação pedagógica, dispõem, em si próprios, ainda que de forma rudimentar, dos conteúdos necessários para se partir para esse ensino. O importante, não é a transmissão dos conteúdos específicos, a nova forma da relação com a experiência vivida, que foi despertada, a partir de então. A transmissão de conteúdos estruturados, a partir da vida externa ao indivíduo é Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 18 ~ considerada como uma "invasão cultural" ou um "depósito de informação", porque não emerge da sabedoria popular. Havendo a necessidade do uso de textos de leitura, eles deve- rão ser redigidos pelos próprios educandos, orientados pelo educador. Paulo Freire, inspirador da pedagogia libertadora, não deixou de mencionar o caráter, essencialmente político da sua pedagogia, o que, segundo as suas próprias palavras, impede que ela seja posta em prática, nos sistemas oficiais de ensino, antes da transformação da so- ciedade, fazendo com que a sua aplicação, se dê mais, a nível da educação extraescolar, mas isso não impede que os seus pressupostos sejam adotados e aplicados por muitos países e inúmeros docentes, em todo o mundo. No Brasil, a sua maior aplicação foi com a instalação do Programa Nacional de Alfabe- tização (PNA), criado através do Decreto nº 53.465, de 21 de janeiro de 1964. Sua instituição foi uma tentativa do Ministério da Educação e Cultura de coordenar os movimentos da educação de base e/ou alfabetização de adultos e adolescentes que vinham se multiplicando em todo o país a partir de 1961. O decreto que instituiu o programa, determinava que a Comissão do Programa Nacional de Alfabetização, que o implantaria, deveria convocar e utilizar a cooperação e os serviços de agremi- ações estudantis e profissionais, associações esportivas, sociedades de bairros, municipalidades, entidades religiosas, organizações governamentais, civis e militares, associações patronais, empre- sas privadas, órgãos de difusão, do magistério e de todos os setores mobilizáveis. O ministro da Educação (interino) Júlio Sambaqui constituiu essa comissão especial, e no- meou Paulo Freire para exercer a sua coordenação, em março de 1964, por ter sido o criador do método de alfabetização utilizado pelo programa. O ministro da Educação pretendia instalar, em 1964, 60.870 Círculos de Cultura, a fim de alfabetizar 1.834.200 adultos, atendendo assim, a 8,9% da população analfabeta (da faixa de 15 a 45 anos), que em setembro de 1963 era de 20,442 milhões de pessoas. Esses círculos, deveriam ser implantados em quatro etapas sucessivas, cada uma, com a duração de três meses, em todas as unidades da federação. A implantação do PNA deu-se através de projetos-piloto, desenvolvidos na região Sul e na região Nordeste. No Rio de Janeiro, sede do projeto da região Sul, a Baixada Fluminense foi esco- lhida como área de aplicação do plano, em virtude da impossibilidade de se trabalhar, na então Guanabara, devido a divergências políticas entre o governo federal e o estadual. Logo após a escolha da área, foram iniciados os cursos de treinamento para mil alfabetizadores. Antes mesmo da instituição do PNA por ato oficial, já havia sido feita uma pesquisa para o levantamento do universo vocabular da área. Em janeiro de 1964, os organizadores fizeram a aqui- sição do equipamento indispensável para a implantação da campanha e a programação de um ex- tenso trabalho de divulgação nos municípios escolhidos. Como no estado do Rio de Janeiro, em outras unidades da Federação — Sergipe (sede da região Nordeste), Piauí e São Paulo — os trabalhos chegaram até a fase da organização e da implan- tação dos círculos de cultura e, com os cursos recém-implantados, o PNA foi extinto, a 14 de abril de 1964. O treinamento na Guanabara foi realizado na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi)3, locali- zada à Avenida Presidente Antonio Carlos, número 40, no bairro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro. 3 FNFi - A Faculdade Nacional de Filosofia, que era localizada à Avenida Antonio Carlos, número 40, no bairro do Castelo, no Rio de Janeiro-RJ funcionou no prédio da Embaixada da Itália, que havia sido invadido por estudantes, logo que a Itália passou a fazer parte do Eixo (formado pelos países que declararam a guerra em 1939), até o ano de 1970, quando foi devolvido para o país que detinha a sua propriedade, e hoje, lá funciona o Consulado Italiano (Vide foto 1). - Em 1970, eu prestei o vestibular para o curso de Pedagogia, na FNFi, que já funcionava como a Faculdade de Educação Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 19 ~ Como eu havia sido aprovado em um concurso público para Alfabetizador do PNA, realizado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, participei desse treinamento, em fevereiro de 1964.Ao seu término, fui designado para ter exercício no bairro de Heliópolis, no distrito de Belford Roxo, que, na época, pertencia ao município de São João de Meriti, no Estado do Rio de Janeiro (hoje, Belford Roxo é um município do Estado do Rio de Janeiro). O treinamento foi excelente e aprendi muito, mesmo porque, à época, eu estava com 19 anos de idade. Ao chegar à coordenação do PNA, no município de São João de Meriti, recebi o ma- terial que utilizaria em minhas atividades docentes. De lá, fui encaminhado para um centro espírita (local que havia sido cedido para funcionar como sala de aula), localizado no bairro de Heliópolis, em Belford Roxo, onde passei a exercer as minhas funções, diariamente, a partir das 19 horas, com um grupo de adultos analfabetos. Após haver lecionado por alguns dias, recebi ordem da coordenação para devolver o material do curso, porque o governo militar havia determinado que o PNA encerrasse as suas atividades. Era o início do mês de abril de 1964. Acabara com um belo programa que só retornaria com o Mobral. 1 2 3 4 1 - Prédio que abrigou a Faculdade Nacional de Fi- losofia (FNFi), situado na Av. Antonio Carlos, 40, no Centro do Rio de Janeiro. [Arquivo PROEDES/UFRJ] 2 - Entrada do prédio da antiga Universi- dade do Brasil na Urca - Rio de Janeiro - RJ (atual UFRJ). 3 - Área interna da Fa- culdade de Educação da UFRJ, localizada na Urca - Rio de Janeiro - RJ. 4 - Corredores da Faculdade de Educação da UFRJ, localizada na Urca - Rio de Janeiro - RJ. Métodos de ensino - "Para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e educandos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os sujeitos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido” (...). “O dialogo engaja ativamente a ambos os sujeitos do ato de conhecer: educador-educando e edu- cando-educador." (FREIRE, 1987) A forma do trabalho educativo é o "grupo de discussão”, a quem cabe autogerir a aprendi- zagem, definindo o conteúdo e a dinâmica das atividades. O docente é um animador que, por princípio, deve "descer" até o nível dos alunos, adaptando-se às suas características e ao desen- volvimento próprio de cada grupo, caminhando "junto", e intervindo somente, com o necessário, embora não se negue, a fornecer uma informação importante para o que se está fazendo. da UFRJ, conforme determinava a Reforma do Ensino de 1968. Aprovado, frequentei as suas salas e aulas históricas, até o ano de 1972, quando a Faculdade de Educação - UFRJ foi transferida para um prédio na URCA, onde prossegui os estudos e me graduei. (Vide fotos: 1, 2, 3 e 4) - Em 1998, eu fui aprovado em um concurso público para Professor-substituto na Faculdade de Educação da UFRJ, atuando como regente de turmas no prédio da URCA e no prédio do Centro de Tecnologia, na Cidade Universitária - Ilha do Fundão, quando experimentei uma das maiores emoções da minha vida: lecionar nas mesmas salas de aula onde eu havia estudado, como aluno regular. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 20 ~ Os passos da aprendizagem - a codificação-decodificação e a problematização da situação permitirão aos educandos um esforço na compreensão do "vivido", até chegar a um nível mais crí- tico de conhecimento da sua realidade, sempre através da troca de experiências. em torno da prá- tica social. Consistindo isso, como o conteúdo do trabalho educativo, dispensam-se um programa previamente estruturado, os trabalhos escritos, as aulas expositivas, como, também, qualquer tipo de verificação direta da aprendizagem, formas arcaicas da “educação bancária", e, portanto, do- mesticadoras, admitindo-se, entretanto, a avaliação da prática vivenciada entre o educador e os educandos, no processo grupal e, às vezes, também se admite a autoavaliação, realizada nos termos dos compromissos assumidos com a prática social. Relação docente-educando - a relação é horizontal, tendo o diálogo como método bá- sico, permitindo que o educador e os educandos se posicionem como sujeitos do ato de co- nhecimento. O critério de um bom relacionamento é a total identificação com o povo, sem o que, a relação pedagógica perde a consistência. Toda a relação de autoridade deve ser eliminada, sob pena dela inviabilizar o trabalho de conscientização, da "aproximação das consciências", como uma "não diretividade”, jamais, no sentido do docente que se ausenta (como Rogers explicava e fazia), mas, que permanece vigilante, para assegurar ao grupo, um espaço humano para "dizer a sua palavra", exprimindo-a sem ficar neutro. Aprendizagem - a designação de "educação problematizadora", como correlata da edu- cação libertadora revela a força motivadora da aprendizagem, que se dá, a partir da codifica- ção de uma situação-problema, da qual se torna distante para analisá-la, criticamente, envol- vendo o exercício da abstração, através da qual procuramos alcançar a razão de ser dos fatos, através das representações da realidade concreta. Aprender é um ato do conhecimento da realidade concreta, da situação real, vivida pelo educando, que só tem sentido, se for o resultado de uma aproximação crítica dessa realidade: o que é aprendido não decorre de uma imposição ou de uma memorização, mas do nível crítico do conhecimento, a que se chega pelos processos da compreensão, da reflexão e da crítica. Em termos de conhecimento, o educando transfere aquilo que foi incorporado por ele, como res- posta às situações da opressão - ou seja, d o seu engajamento em uma militância política. Prática escolar - a pedagogia libertadora tem Paulo Freire como inspirador, por ter aplicado as suas ideias, pessoalmente, em diversos países: primeiro, esteve no Chile, depois na África. No Brasil, exerceu e exerce uma expressiva influência nos movimentos populares e nos sindicatos de trabalhadores e operários, confundindo-se, praticamente, com a maior parte das experiências daquilo que se denomina "educação popular". A “educação popular” compõe diversos grupos que vêm atuando, não somente no ní- vel da prática do povo, mas também, através de publicações específicas, com relativa inde- pendência em relação às ideias originais da pedagogia libertadora. Em geral, embora as for- mulações teóricas de Paulo Freire se restrinjam à educação de adultos ou à educação popular, muitos professores vêm tentando colocá-las em prática, em todos os níveis e graus do ensino formal. b) Tendência progressista libertária. Escola - escola deve exercer uma transformação na personalidade dos alunos, com um sentido libertário e autogestionário, com a finalidade de introduzir modificações institucio- nais, a partir dos níveis subalternos da sociedade, que, em seguida, deverão alcançar os níveis intermediário e superior, "contaminando" todo o sistema. Para tanto, deve funcionar e ori- entar os alunos a partir da participação grupal, de mecanismos institucionais, como, as Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 21 ~ assembleias, os conselhos, as eleições, as reuniões, as associações e outros coletivos, a fim de que produzam as mudanças, para que, um aluno, leve tudo o que aprendeu para as insti- tuições "externas". Outra forma de atuação da pedagogia libertária ocorre, com o aproveitamento da mar- gem de liberdade do sistema, ao criar grupos de pessoas, com princípios educativos autoges-tionários, como, associações, grupos informais, escolas autogestionárias e outros, para pro- por que um estabelecimento educacional funcione com um sentido expressamente político, à medida que se dispõe a produzir indivíduos como produtos do social, nos quais, o desen- volvimento individual somente se realiza no coletivo, fazendo da autogestão o conteúdo e o método, resumidos nos seus objetivos político e pedagógico. A pedagogia libertária, em sua modalidade mais conhecida, a “pedagogia institucio- nal”, pretende ser uma forma de resistência contra a burocracia, como um dos instrumentos da ação. Como dominadora do Estado, pretende controlar todo o sistema educacional: ges- tores, orientadores, técnicos, docentes, cursos, programas, avaliações etc., retirando a auto- nomia de tudo o que, atualmente, não é estatal. (LOBROT, 1973) Conteúdos de ensino - as matérias são postas à disposição do aluno, sem serem exigidas, por serem consideradas como mais um instrumento importante, considerando o conheci- mento como resultante das experiências vividas pelo grupo, especialmente, na vivência dos mecanismos da participação crítica. "Conhecimento" aqui, não é a investigação cognitiva do real, para extrair dele um sistema de representações mentais, mas a descoberta das respostas necessárias para o enfrentamento das exigências da vida. Por isso, é que os conteúdos são for- mados por necessidades e interesses, manifestados pelo grupo, não sendo, necessária nem indispensavelmente, formados pelas matérias de estudo. Método de ensino - os alunos buscarão as bases mais satisfatórias da sua própria “institui- ção”, na vivência grupal autogestionária, graças à sua própria iniciativa e sem qualquer forma de poder, argumentos que fazem com que tudo que a escola deve fazer é "colocar nas mãos dos alunos tudo o que for possível: o conjunto da vida, as atividades e a organização do trabalho no interior da escola (menos a elaboração dos programas e a decisão dos exames que não dependem nem dos docentes, nem dos alunos). Afinal, os alunos têm a plena liberdade de trabalhar ou não, reduzindo-se o interesse pedagógico à dependência das suas necessidades pessoais ou às do grupo social. O progresso da autonomia, excluída qualquer direção de fora do grupo, ocorre em um "crescendo": primeiramente, surge a oportunidade de contatos, aberturas e de relações in- formais entre os alunos; a seguir, o grupo começa a se organizar, e todos podem participar das atividades ali desenvolvidas, sejam discussões, em cooperativas, nas assembleias ou de qualquer outra forma de expressão ou participação com o uso da palavra. E, se algum mem- bro do grupo desejar ocupar-se de outras coisas, ou entra em acordo com o grupo ou se retira. No terceiro momento, o grupo se organiza, de uma forma mais efetiva e, finalmente, em um quarto momento, parte para a elaboração do trabalho ou da tarefa para os quais se organizou. Relação docente-aluno - a pedagogia progressista libertária tem como objetivo primordial "transformar a relação professor-aluno no sentido da não diretividade, isto é, considerar desde o início a ineficácia e a nocividade de todos os métodos à base de obrigações e ameaças". Embora professor e aluno sejam desiguais e diferentes, nada impede que o professor se ponha a serviço do aluno, sem impor as suas concepções e ideias, e, sem transformar o aluno em "objeto"; para isso, age como um orientador e um catalisador, misturando-se ao grupo, para participar de uma reflexão em comum. Sendo os alunos livres, frente ao professor, este, também o é, em relação aos alunos, po- dendo, por exemplo, recusar-se a responder a uma pergunta, ou a um questionamento, e Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 22 ~ permanecer calado. Entretanto, essa liberdade tem um sentido bastante claro: se um aluno resolve não participar, o faz porque não se sente integrado, mas o grupo tem responsabilidade sobre este fato e vai se colocar a questão; quando o professor se cala, diante de uma pergunta, o seu silêncio tem um significado educativo, podendo, por exemplo, funcionar como uma ajuda para que o grupo assuma a resposta ou busque e resolva a situação criada. Ao professor, ainda cabem, as funções de "conselheiro", de instrutor ou de monitor, com total disposição para o grupo, papéis, que em nenhum momento, se confundem com o de "mo- delo", porque a pedagogia libertária recusa qualquer forma de poder ou autoridade. Aprendizagem - o crescimento pessoal fica comprometido pelas formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de impessoalidade. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e a negação de toda a forma de repressão favorecem o desenvolvimento de pessoas mais livres, porque a motivação é desencadeada pelo interesse de cada um, para crescer dentro da vivência grupal, pois supõe-se que o grupo devolva a cada um dos seus membros, a satisfação das suas aspirações e necessidades. Experiências vividas ou experimentadas são incorporadas e utilizáveis em situações no- vas e o seu possível uso prático, concentra-se no critério da relevância do saber sistemati- zado, não fazendo sentido, realizar qualquer tentativa de avaliação da aprendizagem do con- teúdo desenvolvido. Outras tendências pedagógicas correlatas - a pedagogia libertária abrange quase todas as tendências antiautoritárias em educação, dentre elas, a anarquista, a psicanalista, a dos sociólogos, e também a dos professores progressistas. Embora Neill e Rogers não possam ser considerados como progressistas, conforme foi visto aqui, não deixam de influenciar alguns libertários, como Lobrot. Entre os estrangeiros devemos citar Vasquez e Oury dentre os mais recentes, Ferrer y Guardia dentre os mais antigos. Particularmente, significativo é o trabalho de C. Freinet, que tem sido muito estudado entre nós, existindo inclusive muitas escolas aplicando o seu método. (SNYDERS, 1974) Pode-se citar Mauricio Tragtemberg, dentre os estudiosos e divulgadores da tendência libertária, apesar dos seus trabalhos não serem, propriamente pedagógicos, mas de crítica das instituições, em favor de um projeto autogestionário. Em termos propriamente pedagógicos, inclusive com propostas efetivas de ação esco- lar, pode-se citar Miguel Gonzales Arroyo. c) Tendência progressista "crítico-social dos conteúdos” Escola - a sua tarefa primordial é a difusão de conteúdos vivos e concretos, indissociá- veis das realidades sociais, não os abstratos; por isso, é valorizada como um instrumento de apropriação do saber, considerado como o melhor serviço que se presta aos interesses popu- lares, eliminando a seletividade social e tornando a sociedade democrática. A escola é parte integrante do todo social, portanto, agir dentro dela, é agir para trans- formar a sociedade. A pedagogia crítica é definida pela consciência dos seus condicionantes histórico-soci- ais, e a função da “pedagogia dos conteúdos" é dar um passo à frente, no papel transforma- dor da escola, a partir das condições existentes. Deste modo, a condição primeira, para que a escola sirva aos interesses populares, é a garantia de um bom ensino para todos, através da apropriação dos conteúdos escolares básicos , que tenham ressonância na vida dos alunos. A educação, assim entendida, é "uma atividade mediadora no seio da prática social glo- bal", ou seja, uma das mediações pela qual o aluno, pela intervenção do professor e por sua própria participação ativa, passa de uma experiência, inicialmente, confusa e fragmentada (sincrética), a uma visão sintética, mais organizada e unificada. (SAVIANII, 2003) Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legaisda Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 23 ~ Em resumo: a atuação da escola, consiste na preparação do aluno para o mundo adulto, com as suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da aquisição de conteú- dos e da socialização, para que participe, organizada e ativamente, da organização democrá- tica da sociedade. Conteúdos de ensino - os conteúdos culturais universais constituíram-se como domí- nios do conhecimento incorporados pela humanidade e relativamente autônomos, que são reavaliados, permanentemente, face às realidades sociais. Embora se aceite que os conteúdos são realidades exteriores ao aluno, que devem ser assimilados e não, simplesmente, reinven- tados, como não são fechados e refratários às realidades sociais, não basta que sejam, ape- nas ensinados, sendo necessária a sua ligação indissociável, com o seu significado humano e social. Essa concepção dos conteúdos do saber, não estabelece oposição, entre a cultura eru- dita e a popular -, que é espontânea -, por criar uma relação de continuidade em que, pro- gressivamente, se passa da experiência imediata e desorganizada ao conhecimento sistemati- zado. Não que a primeira apreensão da realidade seja errada, mas é necessária a ascensão a uma forma de elaboração superior, conseguida pelo próprio aluno, com a intervenção do docente. A postura da pedagogia "dos conteúdos" - admitindo um conhecimento relativamente au- tônomo, essa pedagogia assume o saber, como tendo um conteúdo relativamente objetivo, in- troduzindo a possibilidade de uma reavaliação crítica, frente a esse conteúdo. Snyders sintetizou isso, ao mencionar o papel do professor, que, se por um lado, desenvolve as suas ações, para que o aluno tenha acesso aos conteúdos, ligando-os com a experiência concreta dele, produz-se a continuidade; por outro, proporciona elementos de análise crítica que auxiliem o aluno a ultra- passar a experiência, os estereótipos e as pressões difusas da ideologia dominante, até alcançar a ruptura. Como resultado disso tudo, pode-se ir do saber ao engajamento político, mas o inverso não é possível, sem que se corra o risco de se afetar a própria especificidade do saber ou cair-se em uma forma de pedagogia ideológica, que é o que mais se critica na pedagogia tra- dicional e na pedagogia nova. Métodos de ensino - os métodos subordinam-se à dos conteúdos: se o objetivo é privi- legiar a aquisição do saber, e de um saber vinculado às realidades sociais, é preciso que os mé- todos favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxílio ao seu esforço de compreensão da realidade (prá- tica social). Assim, nem se trata dos métodos dogmáticos da transmissão do saber da pedago- gia tradicional, nem da sua substituição pela descoberta, investigação ou da livre expressão das opiniões, como se o saber pudesse ser inventado pela criança, na concepção da pedagogia re- novada. Os métodos de ensino da pedagogia crítico-social dos conteúdos partem de uma rela- ção direta com a experiência do aluno, confrontada com o saber e relaciona a prática vivida pe- los alunos com os conteúdos propostos pelo professor, momento em que se dará a "ruptura" em relação à experiência pouco elaborada, e, não de saber artificial, depositado a partir de fora, nem do saber espontâneo. Essa ruptura, só é possível, porque o docente introduz os elementos novos da análise crítica, que será realizada pelo aluno. Funciona assim: uma aula começa pela prática real. Em seguida, há o confronto entre a experiência e a explicação do- cente, indo-se da ação à compreensão e da compreensão à ação, até a síntese, formando-se a unidade entre a teoria e a prática. Relação professor-aluno - o conhecimento resulta das trocas que se estabelecem na inte- ração entre o meio (natural, social, cultural) e o sujeito, sendo o professor o mediador, então a relação ensino-aprendizagem pode ser resumida como o provimento das condições em que Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 24 ~ professores e alunos possam colaborar para que ela se estabeleça, sendo que o papel do adulto é insubstituível, mas deve-se considerar a participação do aluno no processo, ao trazer a sua ex- periência imediata num contexto cultural, participando na busca da verdade, ao confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo professor, esforço que o professor disponibiliza para ori- entar e abrir novas perspectivas a partir dos conteúdos, implicando no envolvimento com o estilo de vida dos alunos, e, tendo plena consciência dos contrastes existentes entre a sua própria cul- tura e a do aluno. No entanto, não se deve contentar em satisfazer apenas as necessidades e carências do alunado, devendo despertar e buscar a satisfação de outras necessidades, acelerar e disciplinar os métodos de estudo, exigir o esforço de todos os participantes, propor conteúdos e modelos compatíveis com as suas experiências vividas, para que o aluno se mobilize para uma participação ativa. O papel da mediação, exercido em torno da análise dos conteúdos, exclui a não direti- vidade, como forma de orientação do trabalho escolar, porque o diálogo entre o adulto e o aluno é desigual: o mais velho possui mais experiência acerca das realidades sociais, dispõe de uma formação específica para ensinar, que o fez reunir os conhecimentos necessários à sua ação docente (é o que se deve esperar, em qualquer estabelecimento de ensino sério e comprometido), além de que, tem a seu cargo, a tarefa da análise dos conteúdos que serão estudados, em confronto com as realidades sociais. A não diretividade faz com que os alunos se entreguem aos seus próprios desejos, como se eles tivessem uma tendência espontânea, para alcançar os objetivos propostos e esperados. Ora, as tendências espontâneas e naturais, não são tributárias das condições da vida e do meio: não bastam o amor paternal ou maternal para uma ampla a aceitação, para que os filhos dos trabalhadores adquiram o desejo de estudar mais, de progredir, há a ne- cessidade da intervenção docente, a fim de que o aluno acredite em suas possibilidades, de ir mais longe, de prolongar a sua experiência de vida. Aprendizagem - o aluno identifica-se com os conteúdos e modelos sociais apresentados pelo docente, e, quando percebe isso, pode ampliar a sua própria experiência, apoiando o novo conhecimento em sua estrutura cognitiva, que já existe, ou na que é provida pelo profes- sor, se o aluno ainda não a possui. O grau de envolvimento na aprendizagem depende da prontidão e da disposição: do aluno, do professor e do contexto em que se dá a atividade educacional. A pedagogia dos conteúdos estabelece que o ato de aprender, ocorre, quando o edu- cando desenvolve a capacidade de processar informações e de lidar com os estímulos do meio, organizando os dados disponíveis da experiência. Desta maneira, admite o princípio da apren- dizagem significativa, cujo início, ocorre pela verificação daquilo que o aluno já sabe. O docente necessita compreender o que os alunos dizem ou fazem, e o aluno, precisa compreen- der o que o professor diz, ocorrendo, nesse momento, a transferência da aprendizagem, no momento da síntese, em que o aluno supera a sua visão, parcial e confusa, e adquire uma visão mais clara e unificadora. Ao fim, fica claro que o trabalho escolar precisa ser avaliado, não como um julgamento definitivo e dogmático feito pelo professor, mas como uma comprovação do que foi aprendido pelo discente, e adicionado ao seu progresso anterior, rumo a noções mais sistematizadas. Prática escolar - a elaboração de uma pedagogiados conteúdos reflete um esforço, para propor modelos de ensino, voltados para a interação conteúdos-realidades sociais, com vistas a avançar em termos de uma articulação do político com o pedagógico: aquele, como extensão deste, ou seja, para que a educação seja posta "a serviço da transformação das rela- ções de produção". Ainda que, a curto prazo, se espere do professor um maior conhecimento dos conteúdos da sua matéria e o domínio das formas de transmissão, a fim de garantir maior Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 25 ~ competência técnica, a sua contribuição "será tanto mais eficaz, quanto mais seja capaz de compreender os vínculos da sua prática com a prática social global", tendo em vista (...) "a democratização da sociedade brasileira, o atendimento aos interesses das camadas popula- res, a transformação estrutural da sociedade brasileira". (SAVIANI, 2003) A experiência pioneira mais remota da pedagogia dos conteúdos, que pode ser citada, dentro das linhas gerais que aqui foram expostas, é a do escritor e educador russo, Makarenko. Na mesma linha do escritor citado acima, também pode-se incluir: B. Charlot, Sucho- dolski, Manacorda e, de maneira especial, G. Snyders, além dos autores brasileiros que vêm desenvolvendo investigações relevantes, como Dermeval Saviani. Muitos professores da rede escolar pública, por todo o Brasil, também desenvolvem ações similares e em acordo com as propostas aqui apresentadas, ocupando-se, com grande competência, na prática de uma pedagogia dos conteúdos articulada com a adoção de méto- dos, que garantam a participação do aluno e avançando na verdadeira democratização do en- sino, para todas as camadas sociais dos que vivem e estudam no Brasil. Explicando melhor: a prática escolar e as tendências pedagógicas estão no cenário educacional para quê e para quem? O objetivo principal desta apostila é refletir o papel do educador, junto ao educando, conforme as suas práticas pedagógicas nas atividades do dia a dia de um estabelecimento educacional da Educação Básica. Saber escolher a pedagogia de trabalho a ponto de obter sucesso e um “feedback” proveitoso constitui a sua principal meta. Assim, a partir de aportes teóricos sugeridos por Libâneo e Saviani, as tendências serão elen- cadas e classificadas, adequadamente e certamente, proporcionando uma reflexão sobre a condução da prá- tica docente de cada um de nós. A Pedagogia Liberal e as suas divisões. Dentre as principais tendências propagadas no ensino brasileiro, a PEDAGOGIA LIBERAL ganha lugar de destaque. Nela ocorre a manifestação da sociedade denominada sociedade de classes. O objetivo da es- cola é preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, segundo as aptidões individuais. Divide- se essa pedagogia em tradicional, renovada progressivista, renovada não diretiva e tecnicista. Na tendência liberal tradicional, a escola prepara os alunos, intelectual e moralmente para que assu- mam seu papel na sociedade. A responsabilidade em relação aos problemas sociais é da sociedade. O saber é trabalhado da mesma forma com todos. Já a atividade de ensinar é centrada no professor que expõe e interpreta a matéria, priorizando a exposição oral. Ele acredita que o aluno ouvindo e fazendo exercícios repetitivos, “grava” a matéria para depois reproduzi-la e os conteúdos são separados da realidade do aluno. O professor repassa os conteúdos determinados pela sociedade e ordenados na legislação. A criança, por sua vez, tem a mesma assimilação que o adulto, porém menos desenvolvida. A chamada tendência liberal renovada progressivista propõe à escola uma adequação às necessida- des individuais e ao meio social, permitindo ao aluno educar-se num processo ativo de construção e recons- trução do objeto. Os conteúdos são trabalhados a partir da realidade do aluno, priorizando mais o processo de apren- dizagem do que o conhecimento. Valoriza-se o “aprender a aprender” e o centro da atividade escolar não é o professor nem a matéria, é o aluno ativo e investigador. O professor incentiva, orienta, organiza as situa- ções de aprendizagem, adequando-as às capacidades das características individuais dos alunos. Essa tendência valoriza o trabalho de grupo, as atividades cooperativas, as tentativas experimentais, a pesquisa, o estudo do meio natural e social. O método de solução de problemas e a motivação dependem da força de estimulação do problema e das disposições internas e interesses do aluno. O ambiente é apenas o meio estimulador. Quando a escola busca formar atitudes, preocupando-se mais com os problemas psicológicos do que os pedagógicos ou sociais, tem-se a tendência liberal renovada não-diretiva. Nela o professor é um “facilita- dor”, aceitando a pessoa do aluno, sendo receptivo e passando-lhe confiança. O docente também procura ajudar o aluno a se organizar, utilizando técnicas de sensibilização. Pode-se dizer que ele é o centro das Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 26 ~ atenções: sua aprendizagem resulta do desejo de adequação pessoal na busca da autorrealização e a reten- ção da aprendizagem se dá em relação ao “eu”. A escola modela o comportamento humano na tendência liberal tecnicista através de técnicas espe- cíficas, aperfeiçoando o sistema capitalista. Os conteúdos são estabelecidos e ordenados numa sequência lógica e psicológica por especialistas, sendo trabalhados através de procedimentos e técnicas necessárias ao arranjo e controle das condições ambientais, assegurando a transmissão/recepção de informações. Seguindo essa tendência, o professor administra as condições de transmissão da matéria, sendo um elo entre a verdade científica e o aluno, que recebe, aprende e fixa as informações. O ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. O papel da Pedagogia Progressista. A pedagogia progressista parte de uma análise crítica das realidades sociais, sustentando implicita- mente as finalidades sócio-políticas da educação. Ela é dividida em: libertadora, libertária e crítico-social dos conteúdos. A primeira delas questiona a realidade das relações do ser humano com a natureza e com os outros seres humanos, visando a uma transformação. Os conteúdos são extraídos da problematização da prática de vida dos educandos, despertando uma nova forma da relação com a experiência vivida. O grupo autogere a aprendizagem, definindo o conteúdo e a dinâmica utilizados. A aprendizagem se dá através da codificação-decodificação e da problematização da situação, che- gando assim a um nível mais crítico de conhecimento da realidade, através da troca de experiência em torno da prática social. Educador e educando são, portanto, sujeitos do processo. Já na libertária, a escola exerce uma transformação na personalidade num sentido libertário e auto- gestionários. Os conteúdos são colocados à disposição do aluno, mas não exigidos e resultam de necessida- des e interesses manifestos pelo grupo. O professor é um orientador e um catalisador. Deste modo, somente o vivido, o experimentado é incorporado e utilizável em situações novas. Se a escola preparar o aluno para o mundo adulto e suas con- tradições, fornecendo-lhe um instrumental para uma participação organizada e ativa na sociedade, estará trabalhando com a tendência progressista “crítico-social dos conteúdos”. A aula começa pela constatação da prática real, seguindo da consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto, confrontando aexperiência e a explicação do professor, ou seja, vai da ação à compreensão e da compreensão à ação e seu conteúdo além de ser ensinado, deve ser ligado a sua significação humana e social. A complexidade do tema “prática escolar” exige uma análise sobre o problema em toda a sua ampli- tude, em toda a sua contextualização sócio-histórica, uma vez que se visualiza a interação de variáveis con- servadoras e contemporâneas. Ultimamente, o tema educação chega aos confins da escola para passar a ser um assunto do debate em todos os setores, em particular no mundo da produção que move os maiores recursos. A sociedade reclama da educação nos aspectos relativos à recuperação da ética e dos valores e rela- cionada a uma preparação mais eficiente para a vida produtiva. Dependerá não somente da escola, mas da sociedade que esta aspiração não termine por enfraquecer a sua essência e a sua missão fundamental, ori- entando à visão do econômico e da perspectiva profissional. É necessário ter um sistema educativo eficaz, pertinente, livre, aberto e de unidade nacional. Nossa escola tem uma tradição que conferiu um estilo a ela e um espírito particular que deve ser respeitado na melhor forma, mas que se atualize nas exigências do presente. Como educadores, se nós educarmos de modo que cada um de nossos estudantes possa compreen- der o que está fazendo, possa ler e a entender, expressar o que sabe, usar a tecnologia e ser responsável por sua própria aprendizagem, acreditamos que estaremos preparando um ser humano ativo e participativa na sociedade. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 27 ~ Quadro síntese das Tendências Pedagógicas Tendência Pedagógica Papel da Escola Conteúdos Métodos Professor/ aluno Aprendizagem Manifestações Liberal Tradicional Preparação inte- lectual e moral dos alunos para assumir seu pa- pel na sociedade. São conheci- mento e valores sociais acumula- dos através dos tempos e repas- sados aos alunos como verdades absolutas. Exposição e de- monstração verbal da ma- téria e/ou por meios de modelos. Autoridade do professor que exige atitude re- ceptiva do aluno. A aprendiza- gem é recep- tiva e mecâ- nica, sem se considerar as características próprias de cada idade. Nas escolas que adotam fi- losofias huma- nistas clássicas ou científicas. Liberal Re- novadora Progressiva A escola deve adequar as ne- cessidades indivi- duais ao meio so- cial. Os conteúdos são estabelecidos a partir das experi- ências vividas pe- los alunos frente às situações pro- blemas. Por meio de ex- periências, pes- quisas e mé- todo de solu- ção de proble- mas. O professor é au- xiliador no de- senvolvimento li- vre da criança. É baseada na motivação e na estimula- ção de proble- mas. Montessori Decroly Dewey Piaget Lauro de Oliveira Lima Liberal Re- novadora não diretiva (Escola Nova) Formação de ati- tudes. Baseia-se na busca dos conhe- cimentos pelos próprios alunos. Método base- ado na facilita- ção da aprendi- zagem. Educação centra- lizada no aluno e o professor é quem garantirá um relaciona- mento de res- peito. Aprender é modificar as percepções da realidade. Carl Rogers, "Summerhill" escola de A. Neill Liberal Tecnicista É modeladora do comportamento humano através de técnicas espe- cíficas. São informações ordenadas numa sequência lógica e psicológica. Procedimentos e técnicas para a transmissão e recepção de in- formações. Relação objetiva onde o professor transmite infor- mações e o aluno vai fixá-las. Aprendizagem baseada no desempenho. Leis 5540/68 e 5692/71 Progres- sista Libertadora Não atua em es- colas, porém visa levar professores e alunos a atingir um nível de cons- ciência da reali- dade em que vi- vem, na busca da transformação social. Temas geradores. Grupos de dis- cussão. A relação é hori- zontal - de igual para igual. Resolução de situação-pro- blema. Paulo Freire Progressista Libertária Transformação da personalidade num sentido li- bertário e auto- gestionário. As matérias são colocadas, mas não exigidas. Vivência grupal na forma de auto-gestão. É não diretiva: o professor é orien- tador e os alunos livres. Aprendizagem informal, via grupo. C. Freinet Miguel Gonza- les Arroyo Gramscy Progressista "crítico so- cial dos conteú- dos” ou "histórico- crítica" Difusão dos con- teúdos. Conteúdos cultu- rais universais que são incorpo- rados pela huma- nidade frente à realidade social. O método parte de uma relação direta da experiência do aluno con- frontada com o saber sistema- tizado. Papel do aluno como participa- dor e do profes- sor como media- dor entre o saber e o aluno. Baseada nas estruturas cognitivas já estruturadas nos alunos. Makarenko B. Charlot Suchodoski Manacorda G. Snyders Demerval Savi- ani Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 28 ~ Transversalidade e Interdisciplinaridade A transversalidade e a interdisciplinaridade são modos de se trabalhar o conhecimento, bus- cando uma reintegração dos aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento discipli- nar. Com isso, busca-se conseguir uma visão mais ampla e adequada da realidade, que tantas vezes aparece fragmentada pelos meios de que dispomos para conhecê-la e não porque o seja em si mesma. Vamos exemplificar lançando mão de uma comparação: Quando a luz branca passa por um prisma, divide-se em diferentes cores (as cores do arco- íris). Ao estudarmos alguma realidade, a fim de conhecê-la, muitas vezes, torna-se necessário fazer um trabalho semelhante, enfocamos por diferentes ângulos, com a metodologia e os objetivos pró- prios das Ciências Naturais, da História, da Geografia... Podemos assim aprofundar em diferentes parcelas, fazendo um trabalho de análise. Esse aprofundamento é rico e muitas vezes necessário, mas é preciso ter consciência de que estamos fazendo um "recorte" do nosso objeto de estudo e a visão obtida, é necessariamente, fragmentada. Com a interdisciplinaridade questiona-se essa segmentação dos diferentes campos de co- nhecimento. Buscam-se, por isso, os possíveis pontos de convergência, entre as várias áreas e a sua abordagem conjunta, propiciando uma relação epistemológica entre as disciplinas. Com ela aproxi- mamo-nos com mais propriedade dos fenômenos naturais e sociais, que são, normalmente, com- plexos e irredutíveis ao conhecimento obtido quando são estudados por meio de uma única disci- plina. As interconexões que acontecem nas disciplinas são causa e efeito da interdisciplinaridade. Existem temas cujo estudo exige uma abordagem particularmente ampla e diversificada. Al- guns deles foram inseridos nos parâmetros curriculares nacionais, que os denomina Temas Trans- versais e os caracteriza como temas que “tratam de processos que estão sendo intensamente vivi- dos pela sociedade, pelas comunidades, pelas famílias, pelos alunos e educadores em seu cotidi- ano”. São debatidos em diferentes espaços sociais, em busca de soluções e de alternativas, con- frontando posicionamentos diversos, tanto em relação a intervenção no âmbito social mais amplo, quanto na atuação pessoal. São questões urgentes que interrogam sobre a vida humana, sobre a realidade que está sendo construída e que demandam transformações macrossociais e, também, de atitudes pessoais, exigindo, portanto, ensino e aprendizagem de conteúdos relativos a essasduas dimensões. Estes temas envolvem um aprender sobre a realidade, na realidade e da realidade, desti- nando-se também a um intervir na realidade para transformá-la. Outra de suas características é que abrem espaço para saberes extraescolares. Na verdade, os temas transversais prestam-se, de modo muito especial, para levar à prática a concepção da formação integral da pessoa. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 29 ~ Considera-se a transversalidade como o modo adequado para o tratamento destes temas. Eles não devem constituir uma disciplina, mas permear toda a prática educativa. Exigem um traba- lho sistemático, contínuo, abrangente e integrado no decorrer de toda a educação. Na verdade, estes temas sempre estão presentes, pois se não o estiverem explicitamente estarão implicitamente. Tomemos como exemplo a ética. Não falar de aspectos éticos, em muitos casos, é uma omissão que por si só representa uma postura. Não apenas por palavras, mas por ações, a escola sempre fornece aos alunos uma formação (quem sabe uma deformação?) ética. Po- demos dizer o mesmo com relação ao meio ambiente; o próprio tratamento dado ao ambiente es- colar caracteriza a visão das pessoas que ali trabalham e pode ser parte importante na formação dos alunos sobre essa questão. Como os temas transversais não constituem uma disciplina, seus objetivos e conteúdos de- vem estar inseridos em diferentes momentos de cada uma das disciplinas. Vão sendo trabalhados em uma e em outra, de diferentes modos. Interdisciplinaridade e transversalidade alimentam-se mutuamente, pois para trabalhar os temas transversais, adequadamente, não se pode ter uma perspectiva disciplinar rígida. Um modo particularmente eficiente de se elaborar os programas de ensino é fazer dos temas transversais um eixo unificador, em torno do qual se organizam as disciplinas. Todas se voltam para eles como para um centro, estruturando os seus próprios conteúdos sob o prisma dos temas transversais. As disciplinas passam, então, a girar sobre esse eixo. De certo modo podemos dizer que te- mos então um fenômeno similar ao observado na Física com o disco de Newton: neste, a mistura das cores recupera a luz branca; no nosso caso, a total interação entre as disciplinas faz com que possamos recuperar adequadamente a realidade, superando a fragmentação e tendo a visão do todo. Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental preveem seis Temas Transver- sais a serem trabalhados durante todo o processo de ensino/aprendizagem: ética, meio ambiente, saúde, trabalho e consumo, orientação sexual e pluralidade cultural. Sejam ou não trabalhados como um eixo unificador, tal como sugerido acima, é importante ressaltar que: 1º) Os Temas Transversais não constituem uma disciplina à parte. Isso já foi colocado, mas convém salientá-lo. Como estamos acostumados a trabalhar em uma perspectiva disciplinar, a tendência muitas vezes será ter essa visão também para os Temas Transversais. Entretanto, o próprio destes temas é exatamente permear toda a prática educativa. Usemos novamente um exemplo: se pensarmos que estamos estudando um bolo, e que cada fatia do bolo corresponde a uma disciplina, o tema transversal irá aparecer como um ingrediente totalmente diluído na massa, e não como uma fatia a mais. 2º) Devem ser trabalhados de modo coordenado e não como um intruso nas aulas. O risco de que um tema transversal apareça como um "intruso" é grande. Não sendo algo diretamente pertinente às disciplinas e principalmente não havendo o hábito do professor de ocu- par-se dele, pode acontecer que seja visto, não como um enfoque a ser colocado ao longo de toda a aprendizagem, mas como algo que aparece esporadicamente, interrompendo as demais ativida- des. Seguindo no exemplo do bolo, o tema transversal não pode ser um caroço que se encontra repentinamente e no qual corremos o risco de quebrar um dente... No máximo, pode aparecer como uma uva passa ou uma fruta cristalizada, algo que percebemos ser diferente, mas que se harmoniza- se com o restante do bolo. Entretanto, quanto mais diluído ele estiver na massa, melhor. Por exemplo, não faz sentido que um professor de História, ou de Biologia, de repente interrompa o seu assunto para dizer: agora vamos tratar de ética. Mas, sempre que estiver fazendo uma análise Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 30 ~ histórica, o professor terá a preocupação de abordar os aspectos éticos envolvidos; ao dar uma aula sobre problemas ambientais ou sobre biotecnologia, deve fazê-lo com um enfoque ético. 3º) Não aparecerão "espontaneamente", com facilidade, principalmente no começo. O modo e o momento em que serão tratados os temas transversais devem ser cuidadosa- mente programados em conjunto pelas diversas disciplinas. É preciso lembrar que cada um deles tem os seus próprios objetivos educacionais a serem atingidos, ou seja, não se trata apenas de tocar um determinado tema, mas também de verificar se será totalmente contemplado ao longo do pro- grama de ensino, podendo-se prever o cumprimento dos objetivos. 4º) "O que é de todos não é de ninguém." Temos essa experiência, infelizmente, com a maior parte das coisas que são "públicas". Se não se definem encarregados para uma determinada função, porque todos deveriam preocupar-se com aquilo, é muito frequente que na verdade aquela necessidade fique a descoberto. Por isso, convém salientar novamente, que é necessário um estudo conjunto, por parte da escola, para defi- nir como cada disciplina irá tratar os temas transversais e verificar se eles estão sendo suficiente- mente abordados. Isso não exclui, naturalmente, certa flexibilidade com o planejamento. Temas que têm ta- manha relação com a vida, com o cotidiano, certamente aparecem nos momentos mais inesperados e o professor deve estar preparado para não desperdiçar essas ocasiões que, muitas vezes, são pre- ciosas. Interdisciplinaridade e Transversalidade como Dimensões da Ação Pedagógica. Inúmeras vezes, na atividade educacional, temos feito referências à interdisciplinaridade e à transversalidade, principalmente por ocasião da elaboração dos planejamentos escolares anuais. Falamos na integração de disciplinas. Todavia, nunca chegamos a um consenso. Quase sempre a não efetivação dessas práticas decorre do equívoco na interpretação dos PCNs e dos conceitos de interdisciplinaridade e transversalidade. Para discutir essas duas dimensões do conhecimento, apre- sentaremos este capítulo em duas partes. Na primeira parte, discutiremos a interdisciplinaridade, procurando contextualizá-la dentro do ambiente escolar. No segundo momento, daremos ênfase à transversalidade sugerida pelos Parâmetros Curriculares Nacionais e suas propostas para o trabalho do professor. Interdisciplinaridade A interdisciplinaridade surgiu no final do século XIX, pela necessidade de dar uma resposta à fragmentação causada pela concepção positivista, pois as ciências foram subdivididas, surgindo vá- rias disciplinas. Após longas décadas convivendo com um reducionismo científico, a ideia da inter- disciplinaridade foi elaborada visando restabelecer um diálogo entre as diversas áreas dos conheci- mentos científicos. Podemos perceber que a interdisciplinaridade pretende garantir a construção de conheci- mentos que rompam as fronteiras entre as disciplinas. A interdisciplinaridade busca, também, en- volvimento, compromisso, reciprocidade diante dos conhecimentos, ou seja, atitudes e condutas interdisciplinares. No entanto, para que o trabalho interdisciplinar possaser desenvolvido pelos professores, há que se desenvolver uma metodologia de trabalho interdisciplinar que implica: na integração dos conhecimentos; passar de uma concepção fragmentada para uma concepção unitária de conheci- mento; superar a dicotomia entre o ensino e a pesquisa, considerando-os a partir da contribuição das diversas ciências e um processo de ensino-aprendizagem centrados numa visão de que apren- demos ao longo da vida. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 31 ~ Uma atitude especial ante o conhecimento, que se evidencia no reconhecimento das com- petências, incompetências, possibilidades e limites da própria disciplina e de seus agentes, no co- nhecimento e na valorização suficientes das demais disciplinas e dos que a sustentam. Nesse sen- tido, torna-se fundamental haver indivíduos capacitados para a escolha da melhor forma e sentido da participação e, sobretudo no reconhecimento da provisoriedade das posições assumidas, no pro- cedimento de questionar. Tal atitude conduzirá, evidentemente, à criação das expectativas de pros- seguimento e abertura a novos enfoques ou aportes. Não se pode esquecer que a metodologia interdisciplinar parte de uma liberdade científica, alicerça-se no diálogo e na colaboração, funda-se no desejo de inovar, de criar, de ir além e suscita- se na arte de pesquisar, não objetivando apenas a valorização técnico-produtiva ou material, mas sobretudo, possibilitando um acesso humano, no qual desenvolve a capacidade criativa de transfor- mar a concreta realidade mundana e histórica numa aquisição maior da educação. Nesse sentido, a ação pedagógica da interdisciplinaridade aponta para a construção de uma escola participativa, que deriva da formação do sujeito social, em articular saber, conhecimento e vivência. Para que isso se efetive, o papel do professor é fundamental no avanço construtivo do aluno. É ele, o professor, que pode perceber as necessidades do aluno e o que a educação pode proporcionar ao mesmo, e a interdisciplinaridade do professor pode envolvê-lo e instigá-lo a mu- danças na busca do saber. A interdisciplinaridade perpassa todos os elementos do conhecimento pressupondo a inte- gração entre eles, e, ainda, está marcada por um movimento ininterrupto, criando ou recriando outros pontos para a discussão. Diante disso, podemos afirmar que a interdisciplinaridade não se ensina, não se aprende, apenas vive-se, exerce-se e por isso exige uma nova pedagogia, a da comunicação , nessa perspec- tiva cabe ao professor, no momento certo articular teoria e prática, numa forma interdisciplinar sem contudo perder os interesses próprios da sua disciplina. A reflexão sobre a interdisciplinaridade na escola precisa nascer do pensamento sobre o pensamento que orienta o fazer educacional. Identificando as crenças epistemológicas que orien- tam o seu fazer e, nesse processo, buscar eliminar os procedimentos destinados a economizar pen- samento, nascendo daí, talvez, uma cultura escolar que privilegie o direito de pensar. É possível a interdisciplinaridade na escola? É possível, mas o principal problema é a cultura escolar, na qual o educando aprende do mais simples para o mais complexo, com avanços lentos que exigem pouco pensamento. Então é necessário superar essa cultura, ter uma visão mais ampla, e não fragmentada, para isso é preciso que a escola se torne um espaço de pensamento, acabando com a fragmentação do conhecimento, pois somente assim teremos uma cultura interdisciplinar. Como sabemos, os PCNs diferenciam a transversalidade e a interdisciplinaridade. A interdis- ciplinaridade é definida nos PCNs como a dimensão que “questiona a segmentação entre os dife- rentes campos do conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a inter- relação e a influência entre eles, questiona a visão compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como é conhecida”. (BRASIL, 1998, p. 30). Essa concepção pressupõe educadores imbuídos de um verdadeiro espírito crítico, aberto para a cooperação, o intercâmbio entre as diferentes disciplinas, o constante questionamento ao saber arbitrário e desvinculado da realidade. Por outro lado, exige a prática de pesquisa, a troca e sistematização de ideias, a construção do conhecimento, em um processo de indagação e busca permanente. Mas, acima de tudo, pressupõe a clareza dos fins, a certeza dos objetivos da interdis- ciplinaridade. À medida que fica claro o seu sentido com a prática que possibilita a escola investir coletivamente na elaboração de conhecimentos significativos, torna-se possível uma nova atitude pedagógica e a luta pela reformulação das estruturas de ensino. Portanto, a transversalidade e a interdisciplinaridade são nesse sentido, modos de trabalhar o conhecimento que visam a reintegração de dimensões isoladas umas das outras pelo tratamento Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 32 ~ disciplinar. Com isso, pretendemos conseguir uma visão mais ampla da realidade que, tantas vezes, aparece fragmentada pelos meios de que dispomos para conhecê-la. A interdisciplinaridade permite questionar a fragmentação dos diferentes campos de conhe- cimento. Nessa perspectiva, procuramos tecer os possíveis pontos de convergência entre as várias áreas e a relação epistemológica entre as disciplinas. Com a interdisciplinaridade adquirimos mais conhecimentos dos fenômenos naturais e sociais, que são normalmente complexos e irredutíveis ao conhecimento obtido quando são estudados por meio de uma única disciplina. As interconexões que acontecem nas disciplinas, facilitará a compreensão dos conteúdos de uma forma integrada, aprimorando o conhecimento do educando. Temas transversais são um conjunto de conteúdos educativos e eixos condutores da ativi- dade escolar que, não estando ligados a nenhuma matéria particular, pode se considerar que são comuns a todas, de forma que, mais do que criar novas disciplinas, acha-se conveniente que seu tratamento seja transversal num currículo global da escola. Sendo assim, esses temas expressam conceitos e valores fundamentais à democracia e à cidadania e correspondem a questões importantes e urgentes para a sociedade brasileira de hoje, presentes sob várias formas na vida cotidiana. São amplos o bastante para traduzir preocupações de todo o país, são questões em debate na sociedade atual e a escola deve estar na dianteira dessas discussões. Os Parâmetros Curriculares Nacionais e os Temas Transversais. Os PCNs foram definidos, em seu lançamento, como referências de qualidade para a educa- ção no ensino fundamental em todo o Brasil. Ou seja, quem os escreveu pensou neles como “uma referência curricular comum para todo o País”. O documento de introdução aos PCNs sustenta a necessidade dessa referência comum para toda a Nação, porque afirma que fortaleceria a unidade nacional e a responsabilidade do governo Federal para com a Educação. Os PCNs não se autodeno- minam um currículo acabado e obrigatório, mas o seu nível de detalhamento torna-os o currículo do ensino fundamental. Embora, haja muitas citações a respeito das “especificidades locais”, o que exigiria um trabalho de escuta e pesquisa por parte dos elaboradores do documento, a centralização é a marca dessa política educacional. Os Temas Transversais A educação para a cidadania requer, portanto, que questões sociais sejam apresentadas para a aprendizagem e a reflexão dos alunos. A inclusão de questões sociais no currículo escolar não é uma preocupação inédita. Essas temáticas já têm sido discutidas e incorporadasàs áreas ligadas às Ciências Sociais e Ciências Natu- rais, chegando mesmo, em algumas propostas, a constituir novas áreas, como no caso dos temas Meio Ambiente e Saúde. Os Parâmetros Curriculares Nacionais incorporam essa tendência e a incluem no currículo de forma a compor um conjunto articulado e aberto a novos temas, buscando um tratamento didá- tico que contemple sua complexidade e sua dinâmica, dando-lhes a mesma importância das áreas convencionais. O currículo ganha em flexibilidade e abertura, uma vez que os temas podem ser priorizados e contextualizados de acordo com as diferentes realidades locais e regionais e outros temas podem ser incluídos. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 33 ~ O conjunto de temas aqui proposto (Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde e Orientação Sexual) recebeu o título geral de Temas Transversais, indicando a metodologia proposta para a sua inclusão no currículo e o seu tratamento didático. Esse trabalho requer uma reflexão ética como eixo norteador, por envolver posicionamentos e concepções a respeito de suas causas e efeitos, de sua dimensão histórica e política. A ética é um dos temas mais trabalhados do pensamento filosófico contemporâneo, mas é também um tema presente no cotidiano de cada um e faz parte do vocabulário conhecido por quase todos. A reflexão ética traz à luz a discussão sobre a liberdade de escolha. A ética interroga sobre a legitimidade de práticas e valores consagrados pela tradição e pelo costume. Abrange tanto a crítica das relações entre os grupos, dos grupos nas instituições e perante elas, quanto a dimensão das ações pessoais. Trata-se, portanto de discutir o sentido ético da convivência humana nas suas rela- ções com várias dimensões da vida social: o ambiente, a cultura, a sexualidade e a saúde. Critérios adotados para a eleição dos Temas Transversais. Muitas questões sociais poderiam ser eleitas como temas transversais para o trabalho esco- lar, uma vez que o que os norteia, a construção da cidadania e a democracia, os norteia como ques- tões que envolvem múltiplos aspectos e diferentes dimensões da vida social. Dito isso, deve-se ter em mente que foram estabelecidos os seguintes critérios para defini- los e escolhê-los: Urgência social. Indica a preocupação de eleger como Temas Transversais questões graves, que se apresen- tam como obstáculos para a concretização. Abrangência nacional. Por ser um parâmetro nacional, a eleição dos temas buscou contemplar questões que, em maior ou menor medida e mesmo de formas diversas, fossem pertinentes a todo o País. Isso não exclui a possibilidade e a necessidade de que as redes estaduais e municipais, e mesmo as escolas, acrescentem outros temas relevantes à sua realidade. Possibilidade de ensino e aprendizagem no ensino fundamental. Esse critério norteou a escolha de temas ao alcance da aprendizagem nessa etapa da esco- laridade. A experiência pedagógica brasileira, ainda que de modo não uniforme, indica essa possi- bilidade, em especial no que se refere à Educação para a Saúde, Educação Ambiental e Orientação Sexual, já desenvolvidas em muitas escolas. Favorecer a compreensão da realidade e a participação social. A finalidade última dos Temas Transversais se expressa neste critério: Que os alunos possam desenvolver a capacidade de posicionar-se diante das questões que interferem na vida coletiva, superar a indiferença, intervir de forma responsável. Assim, os temas eleitos, em seu conjunto, de- vem possibilitar uma visão ampla e consistente da realidade brasileira e sua inserção no mundo, além de desenvolver um trabalho educativo que possibilite uma participação social dos alunos. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 34 ~ Descrição Geral dos Temas Transversais Selecionados. A seguir, serão descritos em linhas gerais os temas escolhidos. Para cada um deles existe um documento específico no qual são aprofundados e apresentados os seus objetivos, conteúdos e orientações didáticas. Ética A Ética diz respeito às reflexões sobre as condutas humanas. A pergunta ética por excelência é: “Como agir perante os outros?”. Verifica-se que tal pergunta é ampla, complexa e sua resposta implica tomadas de posição valorativas. A questão central das preocupações éticas é a da justiça, entendida como inspirada pelos valores da igualdade e da equidade. Na escola, o tema Ética encontra-se, em primeiro lugar, nas próprias relações entre os agen- tes que constituem essa instituição: alunos, professores, funcionários e pais. Em segundo lugar, o tema Ética encontra-se nas disciplinas do currículo, uma vez que, sabe-se, o conhecimento não é neutro, nem impermeável a valores de todo tipo. Finalmente, encontra-se nos demais Temas Trans- versais, já que, de uma forma ou de outra, tratam de valores e normas. Em suma, a reflexão sobre as diversas faces das condutas humanas deve fazer parte dos objetivos maiores da escola compro- metida com a formação para a cidadania. Partindo dessa perspectiva, o tema Ética traz a proposta de que a escola realize um trabalho que possibilite o desenvolvimento da autonomia moral, condição para a reflexão ética. Para isso, foram eleitos como eixos do trabalho quatro blocos de conteúdo: Respeito Mútuo, Justiça, Diálogo e Solidariedade, valores referenciados no princípio da dignidade do ser humano, um dos fundamen- tos da Constituição Brasileira. Pluralidade Cultural Para viver, democraticamente, em uma sociedade plural é preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem. A sociedade brasileira é formada não só por diferentes etnias, como por imigrantes de diferentes países. Além disso, as migrações colocam em contato grupos diferenciados. Sabe-se que as regiões brasileiras têm características culturais bastante diversas e a convivência entre grupos diferenciados nos planos social e cultural muitas vezes é marcada pelo preconceito e pela discriminação. O grande desafio da escola é investir na superação da discrimina- ção e dar a conhecer a riqueza representada pela diversidade etnocultural que compõe o patrimô- nio sociocultural brasileiro, valorizando a trajetória particular dos grupos que compõem a nossa sociedade. Nesse sentido, a escola deve ser local de diálogo, de aprender a conviver, vivenciando a própria cultura e respeitando as diferentes formas de expressão cultural. Meio Ambiente A vida cresceu e se desenvolveu na Terra como uma trama, uma grande rede de seres inter- ligados, interdependentes. Essa rede entrelaça de modo intenso e envolve conjuntos de seres vivos e elementos físicos. Para cada ser vivo que habita o planeta, existe um espaço ao seu redor com todos os outros elementos e seres vivos que com ele interagem, por meio de relações de troca de energia: esse conjunto de elementos, seres e relações constitui o meio ambiente. Explicado dessa forma, pode parecer que, ao se tratar de meio ambiente, se está falando somente de aspectos físicos e biológicos. Ao contrário, o ser humano faz parte do meio ambiente e as relações que são estabelecidas - relações sociais, econômicas e culturais - também fazem parte desse meio e, portanto, são objetos da área ambiental. Ao longo da história, o ser humano Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 35 ~ transformou-se pela modificação do meio ambiente,criou cultura, estabeleceram relações econô- micas, modos de comunicação com a natureza e com os outros. Mas é preciso refletir sobre como devem ser essas relações socioeconômicas e ambientais, para se tomar decisões adequadas a cada passo, na direção das metas desejadas por todos: o cres- cimento cultural, a qualidade de vida e o equilíbrio ambiental. Saúde O nível de saúde das pessoas reflete a maneira como vivem, numa interação dinâmica entre potencialidades individuais e condições de vida. Não se pode compreender ou transformar a situa- ção de um indivíduo ou de uma comunidade sem levar em conta que ela é produzida nas relações com o meio físico, social e cultural. Falar de saúde, implica levar em conta, por exemplo, a qualidade do ar que se respira, o consumismo desenfreado e a miséria, a degradação social e a desnutrição, formas de inserção das diferentes parcelas da população no mundo do trabalho e estilos de vida pessoal. Atitudes favoráveis ou desfavoráveis à saúde são construídas desde a infância pela identifi- cação com valores observados em modelos externos ou grupos de referência. A escola cumpre pa- pel destacado na formação dos cidadãos para uma vida saudável, na medida em que o grau de es- colaridade em si, tem associação comprovada com o nível de saúde dos indivíduos e grupos popu- lacionais. Mas a explicitação da educação para a Saúde como tema do currículo eleva a escola ao papel de formadora de protagonistas — e não pacientes — capazes de valorizar a saúde, discernir e par- ticipar de decisões relativas à saúde individual e coletiva. Portanto, a formação do aluno para o exercício da cidadania compreende a motivação e a capacitação para o autocuidado, assim como a compreensão da saúde como direito e responsabilidade pessoal e social. Orientação Sexual A Orientação Sexual na escola deve ser entendida como um processo de intervenção peda- gógica que tem como objetivo transmitir informações e problematizar questões relacionadas à se- xualidade, incluindo posturas, crenças, tabus e valores a ela associados. Tal intervenção ocorre em âmbito coletivo, diferenciando-se de um trabalho individual, de cunho psicoterapêutico e enfo- cando as dimensões sociológica, psicológica e fisiológica da sexualidade. Diferencia-se também da educação realizada pela família, pois possibilita a discussão de diferentes pontos de vista associados à sexualidade, sem a imposição de determinados valores sobre outros. O trabalho de Orientação Sexual visa propiciar aos jovens a possibilidade do exercício de sua sexualidade de forma responsável e prazerosa. Seu desenvolvimento deve oferecer critérios para o discernimento de comportamentos ligados à sexualidade que demandam privacidade e intimidade, assim como o reconhecimento das manifestações de sexualidade passíveis de serem expressas na escola. Propõem-se três eixos fundamentais para nortear a intervenção do professor: Corpo Hu- mano, Relações de Gênero e Prevenção às Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDS. A abordagem do corpo como matriz da sexualidade tem como objetivo propiciar aos alunos conhecimento e respeito ao próprio corpo e noções sobre os cuidados que necessitam dos serviços de saúde. A discussão sobre o gênero propicia o questionamento de papéis rigidamente estabeleci- dos a seres humanos e mulheres na sociedade, a valorização de cada um e a flexibilização desses papéis. O trabalho de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis/AIDS possibilita oferecer informações científicas e atualizadas sobre as formas de prevenção das doenças. Deve também combater a discriminação que atinge portadores do HIV e doentes de AIDS de forma a contribuir para a adoção de condutas preventivas por parte dos jovens. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 36 ~ Temas Locais O trabalho com temas sociais na escola, por tratar de conhecimentos diretamente vincula- dos à realidade, deve estar aberto à assimilação de mudanças apresentadas por essa realidade. As mudanças sociais e os problemas que surgem pedem uma atenção especial para estar sempre inte- ragindo com eles, sem ocultá-los. Assim, embora os temas tenham sido escolhidos em função das urgências que a sociedade brasileira apresenta, dadas as grandes dimensões do Brasil e as diversas realidades que o compõem, é inevitável que determinadas questões ganhem importância maior em uma região. Sob a denominação de Temas Locais, os Parâmetros Curriculares Nacionais pretendem contemplar os temas de interesse específico de uma determinada realidade a serem definidos no âmbito do Estado, da cidade e/ou da escola. Uma vez reconhecida a urgência social de um problema local, este poderá receber o mesmo tratamento dado aos outros Temas Transversais. Tomando-se como exemplo o caso do trânsito, vê-se que, embora esse seja um problema que atinge uma parcela significativa da população, é um tema que ganha significação principal- mente nos grandes centros urbanos, onde o trânsito tem sido fonte de intrincadas questões de na- tureza extremamente diversa. Pense-se, por exemplo, no direito ao transporte associado à quali- dade de vida e à qualidade do meio ambiente; ou o desrespeito às regras de trânsito e a segurança de motoristas e pedestres (o trânsito brasileiro é um dos que, no mundo, causa maior número de mortes). Assim, visto de forma ampla, o tema trânsito remete à reflexão sobre as características de modos de vida e das relações sociais. A Transversalidade Por tratarem de questões sociais, os Temas Transversais têm natureza diferente das áreas convencionais. Sua complexidade faz com que nenhuma das áreas, isoladamente, seja suficiente para abordá-los. Ao contrário, a problemática dos Temas Transversais atravessa os diferentes cam- pos do conhecimento. Por exemplo, a questão ambiental não é compreensível apenas a partir das contribuições da Geografia. Necessita de conhecimentos históricos, das Ciências Naturais, da Sociologia, da Demo- grafia e da Economia, entre outros. Por outro lado, nas várias áreas do currículo escolar existem, implícita ou explicitamente, ensinamentos a respeito dos temas transversais, isto é, todas educam em relação a questões sociais por meio das suas concepções e dos valores que veiculam. No mesmo exemplo, ainda que a programação desenvolvida não se refira diretamente à questão ambiental e a escola não tenha nenhum trabalho nesse sentido, Geografia, História e Ciências Naturais sempre veiculam alguma concepção de ambiente e, nesse sentido, efetivam certa educação ambiental. Considerando esses fatos, experiências pedagógicas brasileiras e internacionais de trabalho com educação ambiental, orientação sexual e saúde têm apontado a necessidade de que tais ques- tões sejam trabalhadas de forma contínua e integrada, uma vez que o seu estudo remete à neces- sidade de se recorrer a conjuntos de conhecimentos relativos a diferentes áreas do saber. Diante disso optou-se por integrá-las no currículo por meio do que se chama de transversa- lidade: pretende-se que esses temas integrem as áreas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas, relacionando-as às questões da atualidade. As áreas convencionais devem acolher as questões dos Temas Transversais de forma que os seus conteúdos as explicitem e os seus objetivos sejam contemplados. Por exemplo, na área de Ciências Naturais, ao ensinar sobre o corpo humano, incluem-se os principais órgãos e funções do aparelho reprodutor masculino e do feminino, relacionando o seu amadurecimento às mudanças Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação)~ 37 ~ no corpo e no comportamento de meninos e meninas durante a puberdade e respeitando as dife- renças individuais. Dessa forma, o estudo do corpo humano não se restringe à dimensão biológica, mas coloca esse conhecimento a serviço da compreensão da diferença de gênero (conteúdo de Orientação Se- xual) e do respeito à diferença (conteúdo de Ética). A integração, a extensão e a profundidade do trabalho podem se dar em diferentes níveis, segundo o domínio do tema e/ou a prioridade que se eleja nas diferentes realidades locais. Isso se efetiva mediante a organização didática eleita pela escola. É possível e desejável que conhecimentos apreendidos em vários momentos sejam articulados em torno de um tema em questão demodo a explicitá-lo e dar-lhe relevância. Para se saber o que é saúde e como esta se preserva, é preciso ter alguns conhecimentos sobre o corpo humano, matéria da área de Ciências. É também preciso ter conhecimentos sobre Meio Ambiente, uma vez que a saúde das pes- soas depende da qualidade do meio em que vivem. Conhecimentos de Língua Portuguesa e Mate- mática também comparecem: questões de saúde são temas de debates na imprensa, informações importantes são veiculadas por meio de folhetos; a leitura e a compreensão de tabelas e dados estatísticos são essenciais na percepção da situação da saúde pública. Portanto, o tema Saúde tem como especificidade o fato de, além de conhecimentos inerentes a ele, nele convergirem conheci- mentos de áreas distintas. Ao invés de se isolar ou de compartimentar o ensino e a aprendizagem, a relação entre os Temas Transversais e as áreas deve se dar de forma que: - As diferentes áreas contemplem os objetivos e os conteúdos (fatos, conceitos e princípios; procedimentos e valores; normas e atitudes) que os temas da convivência social propõem; - Haja momentos em que as questões relativas aos temas sejam explicitamente trabalhadas e conteúdos de campos e origens diferentes sejam colocados na perspectiva de respondê-las. - Caberá ao professor mobilizar tais conteúdos em torno de temáticas escolhidas, de forma que as diversas áreas não representem continentes isolados, mas digam respeito aos diversos as- pectos que compõem o exercício da cidadania. Indo além do que se refere à organização dos conteúdos, o trabalho com a proposta da transversalidade se define em torno de cinco pontos: - Os temas não constituem novas áreas, pressupondo um tratamento integrado nas diferen- tes áreas; - A proposta de transversalidade traz a necessidade da escola refletir e atuar, consciente- mente, na educação de valores e atitudes em todas as áreas, garantindo que a perspectiva político- social se expresse no direcionamento do trabalho pedagógico; - Influencia a definição de objetivos educacionais e orienta eticamente as questões episte- mológicas mais gerais das áreas, seus conteúdos e, mesmo, as orientações didáticas; - A perspectiva transversal aponta uma transformação da prática pedagógica, pois rompe a limitação da atuação dos professores às atividades formais e amplia a sua responsabilidade com a formação dos alunos. - Os Temas Transversais permeiam necessariamente toda a prática educativa que abarca relações entre os alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar; A inclusão dos temas implica a necessidade de um trabalho sistemático e contínuo no decor- rer de toda a escolaridade, o que possibilitará um tratamento cada vez mais aprofundado das ques- tões eleitas. Por exemplo, se é desejável que os alunos desenvolvam uma postura de respeito às diferenças, é fundamental que isso seja tratado desde o início da escolaridade e continue sendo tratado cada vez com maiores possibilidades de reflexão, compreensão e autonomia. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 38 ~ Transversalidade e Interdisciplinaridade A proposta de transversalidade pode acarretar algumas discussões do ponto de vista concei- tual, como, por exemplo, a da sua relação com a concepção de interdisciplinaridade, bastante di- fundida no campo da pedagogia. Essa discussão é pertinente e cabe analisar como estão sendo con- sideradas nos Parâmetros Curriculares Nacionais as diferenças entre os dois conceitos, bem como as suas implicações mútuas. Ambas - transversalidade e interdisciplinaridade - se fundamentam na crítica de uma con- cepção de conhecimento que toma a realidade como um conjunto de dados estáveis, sujeitos a um ato de conhecer isento e distanciado, apontando a complexidade do real e a necessidade de se considerar a teia de relações entre os seus diferentes e contraditórios aspectos. Mas diferem uma da outra, uma vez que a interdisciplinaridade refere-se a uma abordagem epistemológica dos obje- tos de conhecimento, enquanto a transversalidade diz respeito principalmente à dimensão da didática. A interdisciplinaridade questiona a segmentação entre os diferentes campos de conheci- mento produzidos por uma abordagem que não leva em conta a inter-relação e a influência entre eles - questiona a visão compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como é conhecida, historicamente se constituiu, referindo-se a uma relação entre disciplinas. A transversalidade diz respeito à possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender na realidade e da realidade de conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real (aprender na realidade e da realidade). Na prática pedagógica, interdisciplinaridade e transversalidade alimentam-se mutuamente, pois o tratamento das questões trazidas pelos Temas Transversais expõe as interrelações entre os objetos de conhecimento, de forma que não é possível fazer um trabalho pautado na transversali- dade tomando-se uma perspectiva disciplinar rígida. A transversalidade promove uma compreensão abrangente dos diferentes objetos de co- nhecimento, bem como a percepção da implicação do sujeito de conhecimento na sua produção, superando a dicotomia entre ambos. Por essa mesma via, a transversalidade abre espaço para a inclusão de saberes extraescolares, possibilitando a referência a sistemas de significado construídos na realidade dos alunos. Os Temas Transversais, portanto, dão sentido social a procedimentos e conceitos próprios das áreas convencionais, superando assim, o aprender apenas pela necessidade escolar. Como a transversalidade se apresenta nos Parâmetros Curriculares Nacionais. A problemática trazida pelos temas transversais está contemplada nas diferentes áreas cur- riculares. Está presente em seus fundamentos, nos objetivos gerais, nos objetivos de ciclo, nos con- teúdos e nos critérios de avaliação das áreas. Dessa forma, em todos os elementos do currículo há itens selecionados a partir de um ou mais temas. Com a transversalidade, os temas passam a ser partes integrantes das áreas e não externos e/ou acoplados a elas, definindo uma perspectiva para o trabalho educativo que se faz a partir delas. É preciso atentar para o fato de que a possibilidade de inserção dos Temas Transversais nas diferentes áreas (Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais, História, Geografia, Arte e Edu- cação Física) não é uniforme, uma vez que é preciso respeitar as singularidades tanto dos diferentes temas quanto das áreas. Existem afinidades maiores entre determinadas áreas e determinados temas, como é o caso de Ciências Naturais e Saúde ou entre História, Geografia e Pluralidade Cultural, em que a transver- salidade é fácil e claramente identificável. Não considerar essas especificidades seria cair num for- malismo mecânico. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais daEducação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 39 ~ 2. O Financiamento da Educação Pública no Brasil 2.1. Brasil colônia, sede do reino e do império Ano Norma Legal Conteúdo Observações 1549 · Chega ao Brasil o pri- meiro grupo de seis pa- dres jesuítas, chefiados por Manuel de Nóbrega, marcando o início da História da Educação no Brasil (nos moldes euro- peus). - O Rei de Portugal, D. João III nomeia Thomé de Sousa (com h, no original) pelo Regimento de 17 de dezembro de 1548 (in- tegrado por 41 artigos e 7 su- plementares), para ser o pri- meiro Governador-Geral do Brasil, que chegou à nossa terra para administrá-la e promover o seu desenvolvimento. - Em 29 de março de 1549, Thomé de Souza chega a Salva- dor - Bahia, acompanhado pe- los jesuítas e trazendo esse do- cumento, que é considerado como a "Primeira Constituição Brasileira", organizando, sob o império da lei, a vida no Brasil Colônia. - Nas instruções enviadas a 17 de dezembro de 1548 a Thomé de Sousa o rei explicava a di- mensão religiosa que deveria nortear a expedição: “A principal coisa que me mo- veu a mandar povoar as ditas terras do Brasil foi para que a gente dela se convertesse à nossa Santa Fé Católica vos en- comendo muito que pratiqueis com os ditos capitães e oficiais a melhor maneira que para isso se pode ter e de minha parte lhes direis que lhes agradecerei muito terem especial cuidado de os provocar a serem cristãos e para eles mais folgarem de o ser tratem bem todos os que fo- rem de paz e os favoreçam sempre e não consintam que lhes seja feito opressão nem agravo algum e fazendo-se-lhe - PADROADO - É a designação do conjunto de privilégios concedidos pela Santa Sé aos reis de Portugal e da Espanha, e que também fo- ram estendidos aos imperadores do Brasil. Tratava-se de um instru- mento jurídico tipicamente medi- eval que possibilitava um domínio direto da Coroa nos negócios reli- giosos, especialmente nos aspec- tos administrativos, jurídicos e fi- nanceiros. Porém, os aspectos re- ligiosos também eram afetados por tal domínio. Padres, religiosos e bispos eram também funcioná- rios da Coroa portuguesa no Brasil colonial. Isto implica, em grande parte, o fato de que religião e reli- giosidade eram também assuntos de Estado (e vice-versa em muitos casos). No período colonial, as atri- buições e jurisdições do padroado eram administradas e supervisio- nadas por duas instâncias juridica- mente estabelecidas no Reino por- tuguês: a Mesa de Consciência e Ordens e o Conselho Ultramarino. A primeira, criada pelo rei Dom João III em 1532, julgava, por man- dato papal e real, os litígios e cau- sas de clérigos e de assuntos liga- dos às “causas de consciência” (práticas religiosas especial- mente). A segunda tratava mais dos assuntos ligados à administra- ção civil e ao comércio. Faziam parte de ambas os delegados re- ais, geralmente doutores em teo- logia nomeados pela Santa Sé. A união indissociável entre Igreja Ca- tólica e Estado português e espa- nhol marcou a ação colonizató- ria destes dois reinos em disputa Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 40 ~ lho faça corrigir e emendar de maneira que fiquem satisfeitos e as pessoas que lhos fizerem sejam castigadas como for jus- tiça” (A Primeira Constituição do Brasil – O Regimento de Dom João III entregue a Tomé de Sousa, nº 24. In: Guia Geo- gráfico História do Brasil. Dispo- nível em: <http://www.histo- ria-brasil.com/colonia/consti- tuicao-1548.htm> Acesso em 15 de abril de 2016. pela hegemonia no comércio mun- dial no início dos Tempos Moder- nos e também as ações pastorais de atrair à fé católica os povos na- tivos das terras conquistadas, e ainda, a luta contra o avanço do protestantismo. O fim do regime de padroado no Brasil deu-se com a Proclamação da República em 1889. - Enfiteuse – No Brasil, a maioria das enfiteuses regidas pelo Código Civil são eclesiásticas e remontam às sesmarias concedidas pela Co- roa Portuguesa a jesuítas e outras ordens religiosas. A família impe- rial do Brasil tem enfiteuse de ter- ras de Petrópolis etc. - Ex.:A propriedade das terras pe- los jesuítas, até os dias atuais (Cabo Frio – RJ) e pela Família Or- leans e Bragança (Petrópolis – RJ). - Art. 49 da CF/88 e Art. 2038 do Código Civil. 1759 · Duzentos e dez anos após a chegada e de se- rem os únicos responsá- veis pela educação no Brasil, deixam a colônia cerca de 500 padres je- suítas, expulsos pelo Marquês de Pombal, Mi- nistro de D. José I, para- lisando 17 colégios, 36 missões, seminários me- nores e escolas elemen- tares. · Alvará de 28 de junho determina a instituição de aulas de gramática la- tina, aulas de grego e de retórica, além de criar o cargo de "Diretor de Es- tudos". Medidas inócuas para um sistema de en- sino fragmentado. · Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 41 ~ 1772 - Carta Régia de 10 de novembro de 1772. - Institui o "subsídio literário", imposto destinado à manuten- ção dos ensinos primário e mé- dio. 1821 - Decreto de 26 de feve- reiro de 1821. - Decreto de 30 de junho de 1821 - “Crêa logar de Inspector Geral dos estabelecimentos literários e scientificos deste Reino.” - “Permite a qualquer cidadão o ensino, a abertura de escola de primeiras letras, independente de exame ou licença.” - “...Hei por bem nomear o Conse- lheiro José da Silva Lisboa para Ins- pector Geral dos Estabelecimentos Litterarios e Scientificos deste Reino; o qual exercerá esta Commissão pelas Instruções que Eu Fôr Servido Approvar, ficando compreendida nella a direção dos estudos e escolas do Reino, que ti- nha o Desembargador do Paço Luiz José de Carvalho e Mello, e a do Museu, e outros mais estabele- cimentos scientificos, que não fo- rem especialmente commettidos por ordem Minha a outra pes- soa...” 1824 · Constituição do Impé- rio do Brazil. - Determina em seu Artigo 179 que a instrução primária era gratuita a todos os cidadãos. 1834 - Lei nº 16, de 12 de agosto de 1834. - Faz algumas alterações e adi- ções à Constituição do Império, nos termos da Lei de 12 de ou- tubro de 1832. - Esta lei tornou-se conhecida pelo EPÍTETO de “ATO ADICIO- NAL”. - O Ato Adicional da reforma constitucional determinava: “ Art. 10. Compete às mesmas Assembléias legislar: (...) § 2: ”Sobre instrução pública e estabelecimentos próprios a promovê-la, não compreen- dendo as faculdades de medi- cina, os cursos jurídicos, acade- mias atualmente existente e outros quaisquer Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 42 ~ estabelecimentos de instrução que, para o futuro, forem cria- dos por lei geral.” Ou seja: determinava que a educação primária e secundária ficaria a cargo das províncias, restando à administração naci- onal o ensino superior. 2.2. Brasil República 1891 - Constituição dos Estados Unidos do Brasil. - Determina que o ensino: a) deve ser leigo nas escolas públicas, em oposição ao ensino religioso. b) nada determina quanto à gratuidade do ensino primário; c) determina que os Estados teriam autonomia para, dentro dos seus territórios, financiar essa etapa da educação escolar. 1925 - Decreto nº 16.782/A, de 13de janeiro de 1925 (Reforma João Alves/Rocha Vaz)· - Estabelece que a União deveria participar da difusão do ensino primário. - O artigo 25 do Decreto, estabelece que a União deveria subsi- diar parcialmente o salário dos professores primários em exer- cício nas escolas rurais e caberia aos Estados pagar o restante do salário, oferecer residência, prédio para as escolas e todo o material didático necessário às atividades docentes. 1930 - Decreto nº 19.402, de 14 de novembro de 1930, cria o Mi- nistério da Educação e Saúde Pública. 1932 · Um grupo de educadores lança à nação o "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", redigido por Fernando de Azevedo. - O Manifesto dos Pioneiros contém as seguintes palavras, com referência ao financiamento da educação pública: “A autono- mia econômica não se poderá realizar, a não ser pela institui- ção de um ‘fundo especial ou escolar’, que constituído de pa- trimônios, impostos e rendas próprias, seja administrado e aplicado exclusivamente no desenvolvimento da obra educaci- onal, pelos próprios órgãos de ensino, incumbidos de sua dire- ção.” 1934 · Sucedendo a Lei de Organi- zação do Governo Provisório, vigente desde 1930, foi pro- mulgada pela Assembleia Constituinte uma nova Cons- tituição brasileira (a terceira do Brasil e a segunda da Repú- blica), de cunho liberal e - Constituição Federal de 1934 - dispõe, pela primeira vez, que a educação é direito de todos, devendo ser ministrada pela fa- mília e pelos Poderes Públicos. - A Constituição Federal de 1934, determina pelo art. 156: A União e os Municípios aplicarão nunca menos de dez por cento, e os Estados e o Distrito Federal nunca menos de vinte por cento, da renda resultante dos impostos, na manutenção e no desenvolvimento dos sistemas educativos. - E, pelo art. 157 estabelece que: A União, os Estados e o http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb07a.htm http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb07a.htm http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb07a.htm Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 43 ~ muito influenciada pela Cons- tituição alemã. - Constituição Federal de 1934. Distrito Federal reservarão uma parte de seus patrimônios ter- ritoriais para a formação dos respectivos fundos de educação § 1º As sobras das dotações orçamentárias, acrescidas de doa- ções, porcentagens sobre o produto de vendas de terras públi- cas, taxas especiais e outros recursos financeiros constituirão, na União, nos Estados e nos Municípios, esses fundos especiais, que serão aplicados exclusivamente em obras educativas de- terminadas em lei. § 2º Parte dos mesmos fundos se aplicará em auxílio a alunos necessitados, mediante fornecimento gratuito de material es- colar, bolsas de estudo, assistência alimentar, dentária e mé- dica, e para vilegiaturas. - A Constituição Federal de 1934 expressa as várias tendên- cias da época, entre as quais a importância da educação. Tor- nada gratuita e obrigatória no primário, ela só se viabilizaria com recursos próprios. Por isso, a Constituição impõe a vin- culação percentual a partir dos impostos arrecadados. - Entrementes, a fim de que tal impositividade não causasse desperdício ou vagueza de propósitos, a Constituição prevê uma lei nacional de diretrizes da educação expressa em um Plano Nacional de Educação. - O anteprojeto do Plano Nacional de Educação continha 506 artigos, o que lhe dava a característica de ser detalhado, mi- nudente e centralizador. Cobria todas as áreas de conheci- mento do ensino superior e as modalidades do ensino médio, determinando currículos, carga horária e avaliação. - O Título VI desse Plano, intitulado Da Assistência ao escolar, voltava-se para facilitar a educação aos alunos necessitados (art. 473). Assim, será reservada, anualmente, uma quota mí- nima de 10% dos fundos especiais de educação para atender aos gastos com assistência escolar (art. 474). Criava-se aí ofi- cialmente a Caixa Escolar que também receberia uma quota dos poderes públicos, além de donativos e outros recursos. O art. 479 estabelece o que seria considerado assistência ao es- colar. Entre outros itens, a letra c inclui fornecimento gratuito do material escolar, inclusive os livros didáticos indicados pe- los respectivos professores. Os art. 474 - 496 explicitavam de onde sairiam os recursos para os Fundos de Educação da União, do Distrito Federal e dos Estados. - Posteriormente, em 13 de janeiro de 1937, a União justifica, por meio da Lei nº 378, pela sua denominada ação supletiva, o desembolso de recursos para a construção e manutenção de escolas primárias e profissionais em zonas rurais, de acordo com os artigos 117 e 118 da mesma lei. - Contudo, o golpe de Estado de 1937 abortou o prossegui- mento desse ambicioso Plano.6 Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 44 ~ - Observações importantes: a) A Constituição (outorgada) de 1937 retirou a vinculação constitucional de recursos para a educação. Apesar da gravi- dade que isso representou para a manutenção e desenvolvi- mento da educação em seus efeitos, não se pode ignorar, por outro lado, certas iniciativas do Estado Novo como a raciona- lização dos dados estatísticos sob o comando de Teixeira de Freitas o qual, à frente da Secretaria de Estudos Estatísticos do Ministério da Educação e Saúde, jamais deixou de se pre- ocupar com a ausência de fundos estatais para a educação advindos de orçamentos públicos. b) À vista dos dados preocupantes revelados por um Serviço de Estatística competente, a 1a. Conferência Nacional de Edu- cação de 1941 aponta a necessidade de se retornar, após es- tudos técnicos, a vinculação orçamentária para a educação escolar. E é o que se dá com o Decreto-Lei nº 4.958 de 12 de novembro de 1942 que institui o Fundo Nacional do Ensino Primário. O fundo, advindo de tributos federais criados para esse fim, deveria voltar-se para a ampliação e melhoria do sis- tema escolar primário de todo o país. Diz o texto: Art. 1º Fica instituido o Fundo Nacional de Ensino Primário. Art. 2º O Fundo Nacional de Ensino Primário será formado pela renda proveniente dos tributos federais que para este fim vie- rem a ser criados. Parágrafo único. Os recursos e a aplicação do Fundo Nacional de Ensino Primário deverão figurar no orça- mento da receita e da despesa da União, regendo-se a matéria pela legislação federal de contabilidade. Art. 3º Os recursos do Fundo Nacional de Ensino Primário se destinarão à ampliação e melhoria do sistema escolar primário de todo o país. Esses recursos serão aplicados em auxílios a cada um dos Estados e Territórios e ao Distrito Federal, na conformidade de suas mai- ores necessidades. c) Já o Convênio Nacional do Ensino Primário, estabelecido pelo Decreto-Lei supracitado, foi assinado em 16 de novem- bro de 1942 pelo Ministro e representantes dos Estados. No entanto, o Convênio só seria acionado pelo Decreto–Lei nº 5.293 em 1o de março de 1943. A União prestaria assistência técnica e financeira no desenvolvimento deste ensino nos Es- tados, desde que estes aplicassem um mínimo de 15% da renda proveniente de seus impostos em ensino primário, che- gando-se a 20% em 5 anos. Por sua vez, os Estados se obriga- vam a fazer convênios similares com os Municípios, mediante decreto– lei estadual, visando repasse de recursos, desde que houvesse uma aplicação mínima inicial de 10% da renda ad- vinda de impostos municipais em favor da educação escolar primária, chegando-se a 15% em 5 anos. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz NormasLegais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 45 ~ Art. 1º Fica ratificado o Convênio Nacional de Ensino Primário, de que trata o art. 4º do decreto-lei n. 4.958, de 14 de novem- bro de 1942, e celebrado, a 16 de novembro de 1942, entre o Ministro da Educação e os chefes ou delegados dos governos dos Estados, do Distrito Federal e do Território do Acre. 1937 Lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937. - Constituição Federal de 1937. - A União justifica, por meio da Lei nº 378, a sua denominada ação supletiva, o desembolso de recursos para a construção e manutenção de escolas primárias e profissionais em zonas rurais, de acordo com os artigos 117 e 118 da mesma lei. - A Constituição (outorgada) de 1937 retirou a vinculação constitucional dos recursos para a educação. Apesar da gravi- dade que isso representou para a manutenção e o desenvol- vimento da educação em seus efeitos, não se pode ignorar, por outro lado, certas iniciativas do Estado Novo como a raci- onalização dos dados estatísticos sob o comando de Teixeira de Freitas o qual, à frente da Secretaria de Estudos Estatísti- cos do Ministério da Educação e Saúde, jamais deixou de se preocupar com a ausência de fundos estatais para a educação advindos de orçamentos públicos. 1942 - Decreto-Lei nº 4.958 de 12 de novembro de 1942. - Institui o Fundo Nacional do Ensino Primário. O fundo, ad- vindo de tributos federais criados para esse fim, deveria vol- tar-se para a ampliação e melhoria do sistema escolar primá- rio de todo o país. Diz o texto: Art. 1º Fica instituido o Fundo Nacional de Ensino Primário. Art. 2º O Fundo Nacional de Ensino Primário será formado pela renda proveniente dos tributos federais que para este fim vierem a ser criados. Parágrafo único. Os recur- sos e a aplicação do Fundo Nacional de Ensino Primário deve- rão figurar no orçamento da receita e da despesa da União, regendo-se a matéria pela legislação federal de contabilidade. Art. 3º Os recursos do Fundo Nacional de Ensino Primário se destinarão à ampliação e melhoria do sistema escolar primá- rio de todo o país. Esses recursos serão aplicados em auxílios a cada um dos Estados e Territórios e ao Distrito Federal, na conformidade de suas maiores necessidades. - Estabelece um Convênio Nacional do Ensino Primário, assi- nado em 16 de novembro de 1942 pelo Ministro e represen- tantes dos Estados. No entanto, o Convênio só seria acionado pelo Decreto–Lei nº 5.293 em 1º de março de 1943. A União prestaria assistência técnica e financeira no desenvolvimento deste ensino nos Estados, desde que estes aplicassem um mí- nimo de 15% da renda proveniente de seus impostos em en- sino primário, chegando-se a 20% em 5 anos. Por sua vez, os Estados se obrigavam a fazer convênios similares com os Mu- nicípios, mediante decreto–lei estadual, visando o repasse de Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 46 ~ recursos, desde que houvesse uma aplicação mínima inicial de 10% da renda advinda de impostos municipais em favor da educação escolar primária, chegando-se a 15% em 5 anos. Art. 1º Fica ratificado o Convênio Nacional de Ensino Primário, de que trata o art. 4º do decreto-lei nº 4.958, de 14 de novem- bro de 1942, e celebrado, a 16 de novembro de 1942, entre o Ministro da Educação e os chefes ou delegados dos governos dos Estados, do Distrito Federal e do Território do Acre. 1943 - Decreto nº 5.293, de 1º de março de 1943. - O Convênio Nacional do Ensino Primário, assinado em 16 de novembro de 1942 pelo Ministro e representantes dos Esta- dos só seria acionado pelo Decreto–Lei nº 5.293 em 1º de março de 1943, estabelecendo que a União prestaria assis- tência técnica e financeira no desenvolvimento deste ensino nos Estados, desde que estes aplicassem um mínimo de 15% da renda proveniente dos seus impostos em ensino primário, chegando-se a 20% em 5 anos. Por sua vez, os Estados obri- gavam-se a fazer convênios similares com os Municípios, me- diante decreto–lei estadual, visando o repasse dos recursos, desde que houvesse uma aplicação mínima inicial de 10% da renda advinda dos impostos municipais em favor da educa- ção escolar primária, chegando-se a 15% em 5 anos. - O texto estipulava o seguinte: Art. 1º Fica ratificado o Con- vênio Nacional de Ensino Primário, de que trata o art. 4º do decreto-lei n. 4.958, de 14 de novembro de 1942, e celebrado, a 16 de novembro de 1942, entre o Ministro da Educação e os chefes ou delegados dos governos dos Estados, do Distrito Fe- deral e do Território do Acre. 1944 - Decreto–Lei nº 6.785 de 11 de agosto de 1944. - Somente em 1944, por meio do Decreto–Lei nº 6.785 de 11 de agosto daquele ano, o Governo Federal porá a sua parte de contrapartida, criando a fonte federal de onde sairiam os recursos: Art. 1º Fica criado o adicional de cinco por cento (5%) sôbre as taxas do Impôsto de Consumo que incidem sôbre bebidas (art. 4º). § 2º do Decreto-lei nº 739, de 24 de setembro de 1938), para constituir receita do Fundo Nacional do Ensino Primário, instituído pelo Decreto-lei nº 4.958, de 14 de novem- bro de 1942. 1945 - Decreto nº 19.513, de 25 de agôsto de 1945. - Decreto-Lei nº 8349, de 11 de dezembro de 1945 janeiro de Disposições regulamentares destinadas a reger a concessão do auxílio federal para o ensino primário. Dá nova redação aos arts. 3º e 4º do Decreto-Lei nº 6.785, de 11 de agosto de 1944. 1946 - Decreto-Lei nº 8.529, de 2 de janeiro de 1946 - Constituição de 1946. - Lei Orgânica do Ensino Primário. - Mantém a União presente no financiamento da educação, conforme estipulava o Decreto-Lei nº 4958/42 (que instituiu o Fundo Nacional do Ensino Primário). Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 47 ~ - Faz retornar a vinculação que havia na Constituição de 1934. - O Artigo 168 trata da gratuidade do ensino primário: Art 168 - A legislação do ensino adotará os seguintes princí- pios: I - o ensino primário é obrigatório e só será dado na língua nacional; II - o ensino primário oficial é gratuito para todos; o ensino oficial ulterior ao primário sê-lo-á para quantos provarem falta ou insuficiência de recursos; III - as empresas industriais, comerciais e agrícolas, em que trabalhem mais de cem pessoas, são obrigadas a manter en- sino primário gratuito para os seus servidores e os filhos des- tes; IV - as empresas industrias e comerciais são obrigadas a ministrar, em cooperação, aprendizagem aos seus trabalhado- res menores, pela forma que a lei estabelecer, respeitados os direitos dos professores; V - o ensino religioso constitui disciplina dos horários das escolas oficiais, é de matrícula facultativa e será ministrado de acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante legal ou responsá- vel; VI - para o provimento das cátedras, no ensino secundário oficial e no superior oficial ou livre, exigir-se-á concurso de tí- tulos e provas. Aos professores, admitidos por concurso de tí- tulos e provas, será assegurada a vitaliciedade; VII - é garantida a liberdade de cátedra. - O artigo 169 estipula o porcentual da aplicação financeira da União sobre a Educação: Art 169 - Anualmente, a União aplicará nunca menos de dez por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos im- postos na manutenção e desenvolvimentodo ensino. - O artigo 171 determina as competências para a organização dos sistemas de ensino: Art 171 - Os Estados e o Distrito Federal organizarão os seus sistemas de ensino. Parágrafo único - Para o desenvolvimento desses sistemas a União cooperará com auxílio pecuniário, o qual, em relação ao ensino primário, provirá do respectivo Fundo Nacional. - O artigo 172 obriga a existência de serviços de assistência educacional em cada sistema de ensino: Art 172 - Cada sistema de ensino terá obrigatoriamente servi- ços de assistência educacional que assegurem aos alunos ne- cessitados condições de eficiência escolar. 1955 - Decreto nº 37.082, de 24 de março de 1955. - Regulamenta a aplicação dos recursos do Fundo Nacional do Ensino Primário destinados ao Fundo do Ensino Primário, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 48 ~ determinando que, dos recursos existentes: 70% seriam apli- cados em construções escolares e equipamentos; 25% seriam destinados à alfabetização de jovens e adultos e 5% para bol- sas de estudo voltadas para a capacitação do pessoal docente e técnico-administrativo, conforme regulamentação feita pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos -0 INEP. 1961 - Lei nº 4024, de 20 de de- zembro de 1961. - Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 1962 - Plano Nacional de Educa- ção. - O Plano Nacional de Educação, elaborado em 1962 por Aní- sio Teixeira, referia-se a cada fundo específico e com a exe- cução prevista dentro de um prazo determinado. As verbas seriam vinculadas a planos específicos, com metas quantita- tivas e qualitativas, de tal modo que a repartição dos encar- gos para cumprir a obrigatoriedade posta pela Constituição de 1946, seriam as seguintes: Considerando que a cada professor corresponderia uma classe de 35 alunos, Anísio calculou a despesa com a escola, por aluno, ao ano. Para isso, bastou calcular quanto cada professor receberia em 12 meses, ou seja, 1,5 x S.M. x 12 e dividir por 35 (alunos), o que resultou em 0,5143 x S.M. Como este valor sig- nifica 55% do custo total do aluno, uma evolução para chegar a 100% resulta em 0,9351 x S.M. para o custo por aluno, ao ano. Ele chama atenção para os demais ônus das despesas de pessoal (Teixeira, 1962, p. 5), de responsabilidade do emprega- dor público, o que nos leva a incorporar 14% a mais nesse valor, resultando, portanto, 1,0660 x S.M. para o custo por aluno, ao ano. A partir dessa definição, para se obter a despesa com o ensino primário por estado, ao ano, é necessário apenas multi- plicar o número total de alunos desse estado por 1,0660 x S.M. e, consequentemente, pode-se encontrar o montante de recur- sos para atender a todos os estudantes do País. Para financiar esse total de estudantes, Anísio Teixeira definiu quotas-partes dos municípios, dos estados e da União. Caso as quotas partes municipais e estaduais não fossem suficientes para completar o custo por aluno, ao ano (1,0660 x S.M.), a União entraria com a quota federal, “correspondente ao que faltar” O autor apresenta, ainda, a proposta de constituir-se conselhos de educação de composição leiga, “com um alto grau de auto- nomia administrativa OS recursos financeiros seriam gerenciados por esses conse- lhos” sob a forma de fundos de educação – nacional, estaduais e municipais 1964 - Lei nº 4.440, de 27 de outu- bro de 1964 (Regulamentada pelo Decreto nº 55.551, de 12 de janeiro de 1965, - Institui o Salário-Educação e dá outras providências. - A contribuição foi fixada em 2% do salário-mínimo e passou a ser arrecada pelos Institutos de Previdência (IAPI, IAPTEC, IAPB etc.) Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 49 ~ alterado pelo Decreto nº 58.093, de 28 de março de 1966). 1967 - Constituição de 1967. - A Carta Magna de 1967 não determina nada sobre a vincu- lação entre o financiamento da educação escolar e a porcen- tagem da receita resultante dos impostos arrecadados, am- plia o ensino primário obrigatório dos sete aos quatorze anos e gratuito nos estabelecimentos primários oficiais quanto ao financiamento da educação pública. - No artigo 167, parágrafo 3., inciso II mantém o dispositivo pelo qual a União deveria prestar assistência financeira aos Estados e ao Distrito Federal. - O Artigo 170 determina que: “As empresas comerciais, in- dustriais e agrícolas são obrigadas a manter, pela forma que a lei vier a estabelecer, o ensino primário gratuito de seus em- pregados e dos filhos destes. 1968 - Lei nº 5.531, de 13 de no- vembro de 1968. - Lei nº 5537, de 21 de novem- bro de 1968. - Cria incentivos fiscais que permitem às pessoas físicas e jurí- dicas destinarem até 2% da importância dos seus Impostos de Renda para o então Fundo Federal de Desenvolvimento da Educação (FFDE). Tais incentivos destinar-se-iam a financiar projetos educacionais em segmentos e regiões desfavorecidos, especialmente os que envolverem a preparação de mão de obra profissional. - Cria o Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação e Pesquisa (INDEP). 1969 - Emenda Constitucional de 1969. - Decreto-Lei nº 872, de 15 de setembro de 1969. - Mantém a não vinculação para a União e os Estados; no en- tanto, faz retornar a vinculação, somente para os municípios. - Transforma o Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação e Pesquisa (INDEP) em Fundo Nacional de Desen- volvimento da Educação (FNDE). 1971 - Lei nº 5692, de 11 de agosto de 1971. - Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras providências. 1983 - Emenda Constitucional nº 24/1983. -Retorna a obrigatoriedade de recursos para a educação. 1985 - Lei 7348, de 24 de julho de 1985. - Dispõe sobre a execução do § 4º do art. 176 da Constituição Federal, e dá outras providências. 1988 - Constituição da República Federativa do Brasil. - A Constituição da República de 1988 reconheceu o direito à educação como o primeiro dos direitos sociais (art. 6º) assim como um direito do cidadão e dever do Estado (art. 205). E, por essa razão, estabeleceu princípios, diretrizes, regras, re- cursos vinculados e planos de modo a dar substância a esse direito. Ao explicitar esse direito, elencou sob a forma de Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 50 ~ assinalação de formas de realizá-lo tais como gratuidade e obrigatoriedade com qualidade e com proteção legal ampli- ada, e com instrumentos jurídicos postos à disposição dos ci- dadãos para efetivá-la criando prerrogativas próprias para os cidadãos em virtude das quais eles passam a usufruir de ou exigir algo que lhes pertence como tal. - Aqui comparece esta importante mudança com relação às Constituições anteriores: a elevação dos Municípios à catego- ria de entes federativos. E ao se estruturar assim o faz sob o princípio da cooperação, de acordo com o artigo 23, § único. - Para dar conta deste modelo federado e cooperativo, a Constituição compôs um ordenamento jurídico complexo no qual coexistem competências privativas, repartidas horizon- talmente, com competências concorrentes, repartidas verti- calmente, abrindo-se espaço também para a participação das ordens parciais na esfera de competências próprias da ordem central, mediante delegação. - O art. 211, § 1º esclarece o regime de colaboração, no que toca à União, a qual detém um papel redistributivo, supletivo e equalizador com assistênciatécnica e financeira aos Esta- dos, ao Distrito Federal e aos Municípios. - Boa parte das questões relativas ao financiamento e à sua redistribuição do art. 212 da Constituição, dentro dos recur- sos vinculados pela Constituição, foi objeto de emendas cons- titucionais, como a emenda constitucional 14/96 e a emenda 53/06 que subvincularam, respectivamente, os recursos para o Fundef e Fundeb. Ou seja, no âmbito do que se poderia de- nominar cooperação cogente, estes fundos têm uma dimen- são estadual (o fundo é estadual com recursos do Estado + Municípios) e são obrigatórios para todos os Estados e o Dis- trito Federal. 1996 - Lei nº 9394, de 20 de de- zembro de 1996. - Emenda Constitucional nº 14/96 - Lei nº 9.424, de 24 de de- zembro de 1996 (Publicada no DOU em 26 de dezembro de 1996). - Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. - A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/96, reserva um capítulo dedicado ao financiamento, com especial atenção, ao que é e ao que não manutenção e desenvolvimento do ensino. - Modifica os artigos 34, 208, 211 e 212 da Constituição Fede- ral e dá nova redação ao artigo 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. - Conhecida como a Lei do FUNDEF, por ter criado o Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação e de Valorização do Magistério. - A lei do FUNDEF, para efeito de políticas educacionais do en- sino fundamental, em matéria de financiamento, tem um im- pacto tão grande ou maior do que a própria LDB. Afinal, ela Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 51 ~ tange ao mesmo tempo o pacto federativo e o sistema de fi- nanciamento do ensino obrigatório seja pela sub-vinculação, seja pelo controle dos recursos por meio dos Tribunais de Contas e dos Conselhos de Acompanhamento e Fiscalização. - Já em respeito ao art. 214 da Constituição, tem-se a Lei nº 10.172/01, mais conhecida como Plano Nacional de Educação (PNE). Sua tramitação revela a reedição entre dois projetos: o do executivo, mais sintético e menos abrangente, e o da soci- edade civil mais analítico e mais abrangente. - A lei aprovada e sancionada, a rigor uma expressão continu- ada da LDBEN em matéria de metas e objetivos, apresenta um realismo no diagnóstico da educação nacional e tem sua eficácia dependente, em maior parte, do financiamento. Con- tudo, esse último sofreu vetos presidenciais em todos os itens relativos ao financiamento. Não há dúvida que tal mutilação significou uma perda substantiva quanto ao caráter obrigató- rio do Plano podendo-se dizer que ele, praticamente, se tor- nou um Plano declaratório. - Dado o padrão federativo da República e o regime de auto- nomia dos entes federativos, o impacto maior sobre a educa- ção básica advirá da Emenda Constitucional 14/96 e da Lei nº 9.424/96 (lei do FUNDEF). - O FUNDEF representa uma chegada (polêmica) de uma longa trajetória na busca de uma vinculação financeira para a educação obrigatória no regime federativo republicano cujo disciplinamento em matéria de destinação sempre esteve na pauta de educadores. A figura de um Plano Nacional de Edu- cação, já em 1934, e o custo – aluno – ano posto no salário – educação representam iniciativas de expansão planejada das etapas do ensino e o apoio de recursos a serem bem adminis- trados. - Esse custo e essa expansão se cruzam com a demanda his- tórica dos entes federativos pela complementação financeira da União para com os ônus do ensino obrigatório. Tal de- manda se refere à efetivação implementadora de Fundos para a Educação. Pode-se afirmar que tal demanda é nítida no regime da Constituição de 1934 e vai tomando figura no regime estadonovista, desde a Conferência Nacional de Edu- cação de 1941 até a redemocratização em 1946. - Os cálculos do custo do então ensino primário se explicitam em sua ligação com os estudos relativos à figura do salário- educação, inclusive, como se viu, a respeito do custo-aluno. - Anísio Teixeira, em seu clássico Educação é um Direito, é o ponto de encontro desses dois projetos, articulando a qualifi- cação do professor e do aluno do ensino primário, com vistas a um financiamento sólido desta etapa obrigatória. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 52 ~ 2001 - Lei nº 10.172, de 9 de ja- neiro de 2001 (Plano Nacio- nal de Educação 2001-2011) - Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providên- cias. 2006 - Emenda Constitucional nº 53/2006. - Dá nova redação aos arts. 7º, 23, 30, 206, 208, 211 e 212 da Constituição Federal e ao art. 60 do Ato das Disposições Cons- titucionais Transitórias. - A Emenda Constitucional nº 53/2006, ainda sobre o art. 214 da Constituição, substituiu a Emenda Constitucional nº 14/96 e cria o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educa- ção Básica e Valorização dos Profissionais da Educação (FUN- DEB) preencheu lacunas e cuja lei regulamentadora é lei nº 11.494/2007. Ambas com grande impacto sobre o conjunto da educação básica. - Mais recentemente, em 11 de novembro de 2009, o Con- gresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional nº 59. Esta trouxe importantes modificações no capítulo da Educação da Constituição da República de 1988. Por meio dessas altera- ções, a educação básica obrigatória e gratuita passou a vigo- rar como direito público subjetivo para faixa etária de 4 a 17 anos, o atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, deve contar com os vários programas suple- mentares como material didático-escolar, transporte, ali- mentação e assistência à saúde. - Por outro lado, o art. 214, ora emendado pelo mesmo dis- positivo supracitado, estabeleceu, em seu inciso VI, que a meta de aplicação de recursos públicos em educação deverá ter o Produto Interno Bruto (PIB) como referência proporcio- nal. Tal medida confere com a ampliação de responsabilida- des por parte dos entes federativos, especialmente com a da faixa etária ínsita na emenda. Ora, em função disso tudo, a universalização do ensino obrigatório deverá contar necessa- riamente com formas de colaboração entre todos os sistemas de ensino dos entes federativos. - Ao lado disto, há agora o Piso Salarial Profissional Nacional, Lei nº 11.738/08 que, como o nome o diz, estabelece um piso salarial para os docentes da educação básica. - Este Plano comunga com vários dispositivos da Constituição de 1988, da legislação infraconstitucional, especificamente com a aprovação da lei n. 13.005/2014, lei do Plano Nacional de Educação. 2007 - Lei nº 11.494, de 20 de ju- nho de 2007. - Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Edu- cação - FUNDEB, de que trata o art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; altera a Lei no 10.195, de 14 de fevereiro de 2001; revoga dispositivos das Leis nos9.424, de 24 de dezembro de 1996, 10.880, de 9 de junho de 2004, e Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 53 ~ 10.845, de 5 de março de 2004; e dá outras providências. 2008 - Lei nº 11.738, de 16 de ju- lho de 2008. - Regulamenta a alínea “e” do inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para insti- tuir o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. 2009 - Emenda Constitucional nº 59/2009 - Acrescenta § 3º ao art. 76 do Atodas Disposições Constitu- cionais Transitórias para reduzir, anualmente, a partir do exercício de 2009, o percentual da Desvinculação das Recei- tas da União incidente sobre os recursos destinados à manu- tenção e desenvolvimento do ensino de que trata o art. 212 da Constituição Federal, dá nova redação aos incisos I e VII do art. 208, de forma a prever a obrigatoriedade do ensino de quatro a dezessete anos e ampliar a abrangência dos pro- gramas suplementares para todas as etapas da educação bá- sica, e dá nova redação ao § 4º do art. 211 e ao § 3º do art. 212 e ao caput do art. 214, com a inserção neste dispositivo de inciso VI. 2014 - Lei nº 13.005, de 25 de ju- nho de 2014. - Aprova o Plano Nacional de Educação - PNE e dá outras pro- vidências. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 54 ~ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 55 ~ 3. Os Mais Importantes Pensadores da Educação Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 56 ~ 3.1. Anísio Teixeira, o inventor da escola pública no Brasil. Anísio Teixeira propôs e executou medidas para democratizar o ensino brasileiro e defendeu a experiência do aluno como base do aprendizado. Anísio Teixeira Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a educação brasi- leira no século XX, Anísio Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam o seu objetivo de oferecer educação gratuita para todos. Como teórico da educação, Anísio não se preocupava em defender apenas as suas ideias: muitas eram inspiradas na filosofia de John Dewey (1852-1952), de quem foi aluno, ao fazer um curso de pós-graduação nos EUA. Dewey considerava a educação uma constante reconstrução da experiência. Foi esse prag- matismo, observa a professora Maria Cristina Leal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que impulsionou Anísio a se projetar para além do papel de gestor das reformas educacionais e atuar também como filósofo da educação. A marca do pensador Anísio era uma atitude de inquie- tação permanente diante dos fatos, considerando a verdade não como algo definitivo, mas como uma busca contínua. Para o pragmatismo, o mundo em transformação requer um novo tipo de ser humano cons- ciente e bem preparado para resolver os seus próprios problemas acompanhando a tríplice revolu- ção da vida atual: intelectual, pelo incremento das ciências; industrial, pela tecnologia; e social, pela democracia, concepção que exige, segundo Anísio, "uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução". Didática da ação - as novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar em vez de instruir; formar seres humanos livres em vez de dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felici- dade. Para isso, seria preciso reformar a escola, começando por dar a ela uma nova visão da psico- logia infantil. O próprio ato de aprender, dizia Anísio, durante muito tempo significou simples memoriza- ção; depois seu sentido passou a incluir a compreensão e a expressão do que fora ensinado; por último, envolveu algo mais: ganhar um modo de agir. Só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o que foi apren- dido. Para o pensador, não se aprendem apenas ideias ou fatos; também se aprendem atitudes, ideais e senso crítico - desde que a escola disponha de condições para exercitá-los. Assim, uma cri- ança só pode praticar a bondade em uma escola onde haja condições reais para desenvolver o sen- timento. A nova psicologia da aprendizagem obriga a escola a transformar-se em um local onde se vive e não em um centro preparatório para a vida. Como não aprendemos tudo o que praticamos, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 57 ~ e sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender. Por- tanto, é preciso que ele escolha as suas atividades. Por tudo isso, na escola progressiva as matérias escolares - Matemática, Ciências, Artes etc. - são trabalhadas dentro de uma atividade escolhida e projetada pelos alunos, fornecendo-lhes for- mas de desenvolver a sua personalidade no meio em que vivem. Nesse tipo de escola, o estudo é o esforço para resolver um problema ou executar um projeto, e ensinar é guiar o aluno em uma ati- vidade. Quanto à disciplina, Anísio afirmava que o ser humano educado é aquele que sabe ir e vir com segurança, pensar com clareza, querer com firmeza e agir com tenacidade. Numa escola de- mocrática, mestres e alunos devem trabalhar em liberdade, desenvolvendo a confiança mútua, e o professor deve incentivar o aluno a pensar e a julgar por si mesmo. "Estamos passando de uma civilização baseada em uma autoridade externa para uma baseada na autoridade interna de cada um de nós", diz ele em seu livro Pequena Introdução à Filosofia da Educação. Como preparar o professor para essa tarefa hercúlea da escola de hoje, ocupada por tantos alunos que não se contentam em aprender apenas as técnicas e os conhecimentos mais simples mas também as últimas conquistas da ciência e da cultura? O que fazer quando eles exigem infor- mações até mesmo sobre tendências indefinidas e problemas sem solução? Para responder a tantas questões, os educadores do mundo todo precisarão de novos elementos de cultura, de estudos e de recursos, propôs o pensador, que na prática instalou novos cursos para professores. Só assim, dizia, os mestres tentarão renovar a humanidade para "a grande aventura de democracia que ainda não foi tentada". A escola pública e integral como solução A Escola Parque de Salvador, em 1950: projeto piloto de ensino integral. Para ser eficiente, dizia Anísio, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos, como a Escola Parque criada por ele em 1950 em Salvador - BA, que mais tarde inspiraria os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) do Rio de Janeiro e as demais propostas de escolas de tempo integral que se sucederam. Cuidando desde a higiene e a saúde da criança até a sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como a solução para a educação funda- mental no livro Educação Não É Privilégio. Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser também municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. O ensino público de- veria ser articulado numa rede até a universidade. Anísio propôs ainda a criação de fundos financei- ros para a educação, mas, mesmo com o atual Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educa- ção Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), os recursos ainda são insufici- entes para sustentar esse modelo de escola. Biografia - Anísio Spínola Teixeira nasceu em 12 de julho de 1900 em Caetité (BA). Filho de fazendeiro, estudou em colégios jesuítas na Bahia e cursou direito no Rio de Janeiro. Diplomou-se em 1922, e, em 1924, já era inspetor-geraldo Ensino na Bahia. Viajando pela Europa em 1925 ob- servou os sistemas de ensino da Espanha, Bélgica, Itália e França e com o mesmo objetivo fez duas viagens aos EUA, entre1927 e 1929. De volta ao Brasil, foi nomeado diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, onde criou entre 1931 e 1935, uma rede municipal de ensino que ia da escola Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 58 ~ primária à universidade. Perseguido pela ditadura Vargas, demitiu-se do cargo em 1936 e regressou à Bahia - onde assumiu a pasta da Educação em 1947. Sua atuação à frente do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos a partir de 1952, valorizando a pesquisa educacional no país, chegou a ser considerada tão significativa quanto a Semana da Arte Moderna ou a fundação da USP. Em 1964, deixou o instituto - que hoje leva o seu nome - e foi lecionar em universidades americanas, de onde voltou em 1965 para continuar atuando como membro do Conselho Federal de Educação. Morreu no Rio de Janeiro em março de 1971. Educação como meta política Fernando de Azevedo, reformador do ensino público, com normalistas da Escola Caetano de Campos: Manifesto da Escola Nova. Nos anos 1920, com a crescente industrialização e a urbanização em todo o mundo, a neces- sidade de preparar o país para o desenvolvimento levou um grupo de intelectuais brasileiros a inte- ressar-se pela educação - vista como elemento central para remodelar o país. Os novos teóricos viam num sistema estatal de ensino livre e aberto, o único meio efetivo, de combater as desigual- dades sociais. Esse movimento ganhou força nos anos 1930, principalmente após a divulgação, em 1932, do "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", que consolidava a visão de um segmento da elite intelectual que, embora com diferentes posições ideológicas, vislumbrava a possibilidade de inter- ferir na organização da sociedade brasileira, do ponto de vista da educação. Redigido por Fernando de Azevedo, o texto foi assinado por 26 intelectuais, dentre os quais: Anísio Teixeira, Afrânio Pei- xoto, Lourenço Filho, Roquette Pinto, Delgado de Carvalho, Hermes Lima e Cecília Meireles. Ao ser lançado, em meio ao processo de reordenação política resultante da Revolução de 1930, o docu- mento tornou-se o marco inaugural do projeto de renovação educacional do país. Além de constatar a desorganização do aparelho escolar, propunha que o Estado organizasse um plano geral de edu- cação e defendia a bandeira de uma escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita. O movimento reformador foi alvo da crítica forte e continuada da Igreja Católica, porque, naquela conjuntura, era uma concorrente muito forte do Estado, na expectativa de educar a população, e tinha sob o seu controle, a propriedade e a orientação de uma expressiva parcela das escolas da rede privada. A atuação desses pioneiros estendeu-se por décadas, muitas vezes criticada pelos defenso- res da escola particular e religiosa. Mas eles ampliaram as suas ações e influenciaram uma nova geração de educadores como Florestan Fernandes. Anísio Teixeira foi o mentor de duas universida- des: a do Distrito Federal, no Rio de Janeiro (atual UERJ), que foi desmembrada pela ditadura de Getúlio Vargas, e a de Brasília, da qual era reitor em 1964. Para pensar - as escolas comunitárias americanas inspiraram a concepção de ensino de tempo integral de Anísio Teixeira. No entanto, nos EUA a jornada dificilmente tem mais do que seis horas diárias. O conceito entre nós ampliou-se consideravelmente: escola de pelo menos oito horas e, no caso dos Cieps, uma instituição que deveria dar conta de todas as necessidades das crianças, até mesmo de cuidados maternos e de moradia. Numa realidade na qual os recursos são limitados, o problema é de prioridades e decisões difíceis: manter uma escola com esse modelo para uma https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/fernando_de_azevedo https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/fernando_de_azevedo https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/anisio_teixeira https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/lourenco_filho https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/cecilia_meireles Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 59 ~ minoria ou manter um modelo menos ambicioso para a maioria? Afinal, Anísio também propunha uma escola para todos. ________________________________________________________________________________ 3.2. Antonio Gramsci, um apóstolo da emancipação das massas. O filósofo italiano atribuía à escola a função de dar acesso à cultura das classes dominantes, para que todos pudessem ser cidadãos plenos. Antonio Gramsci Cofundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci (1891-1937) foi uma das refe- rências essenciais do pensamento de esquerda no século XX. Embora comprometido com um pro- jeto político que deveria culminar com uma revolução proletária, Gramsci distinguia-se dos seus pares por não acreditar em uma tomada do poder que não fosse precedida por mudanças de men- talidades. Para ele, os agentes principais dessas mudanças seriam os intelectuais e um dos seus instrumentos mais importantes, a escola. Alguns conceitos criados ou valorizados por Gramsci são, atualmente, de uso corrente em várias partes do mundo. Um deles é o de cidadania. Foi ele quem trouxe à discussão pedagógica a conquista da cidadania como um objetivo da escola. Ela deveria ser orientada para o que o pensador chamou de elevação cultural das massas, ou seja, livrá-las de uma visão de mundo que, por assentar- se em preconceitos e tabus, predispõe à interiorização acrítica da ideologia das classes dominantes. Ao contrário da maioria dos teóricos que se dedicaram à interpretação e à continuidade do trabalho intelectual do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), concentrando as suas análises nas relações entre a política e a economia, Gramsci deteve-se, particularmente, no papel da cultura e dos intelectuais nos processos de transformação histórica, surgindo deste contexto as suas ideias sobre a educação. Para entendê-las, é preciso conhecer o conceito de hegemonia, um dos pilares do pensa- mento gramsciano. Antes, deve lembrar-se que a maior parte da obra de Gramsci foi escrita na prisão e só veio a público depois da sua morte. Para despistar a censura fascista, Gramsci adotou uma linguagem cifrada, que se desenvolve em torno de conceitos originais (como bloco histórico, intelectual orgânico, sociedade civil e a citada hegemonia, para mencionar os mais célebres) ou de expressões novas em lugar de termos tradicionais (como filosofia da práxis para designar o mar- xismo). Seus escritos têm forma fragmentária, com muitos trechos que apenas indicam reflexões a serem desenvolvidas. A mente antes do poder - hegemonia significa, para Gramsci, a relação de domínio de uma classe social sobre o conjunto da sociedade, exercido por dois elementos: a força e o consenso. A força é exercida pelas instituições políticas e jurídicas e pelo controle do aparato policial militar; o consenso diz respeito, sobretudo à cultura. Trata-se de uma liderança ideológica conquistada entre a maioria da sociedade e formada por um conjunto de valores morais e regras de comportamento. Segundo Gramsci, "toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica", isto é, de aprendizado. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação)~ 60 ~ A hegemonia é obtida, segundo Gramsci, por meio de uma luta "de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política". Ou seja, é necessário primeiro conquistar as mentes, depois o poder. Isso nada tem a ver com a propaganda ou a manipulação ideológica. Para Gramsci, a função do intelectual (e da escola) é mediar uma tomada de consciência (do aluno, por exemplo) que passa pelo autoconhecimento individual e implica reconhecer, nas palavras do pen- sador, "o próprio valor histórico". Acesso ao código dominante - o terreno da luta de hegemonias é a sociedade civil, que com- preende instituições de legitimação do poder do Estado, como a Igreja, a escola, a família, os sindi- catos e os meios de comunicação. Ao contrário do pensamento marxista tradicional, que tende a considerar essas instituições como reprodutoras mecânicas da ideologia do Estado, Gramsci via ne- las a possibilidade do início das transformações, por intermédio do surgimento de uma nova men- talidade ligada às classes dominadas. Na escola prevista por Gramsci, as classes desfavorecidas poderiam inteirar-se dos códigos dominantes, a começar pela alfabetização. A construção de uma visão de mundo que desse acesso à condição de cidadão teria a finalidade inicial de substituir o que Gramsci chama de senso comum - conceitos desagregados, vindos de fora e impregnados de equívocos decorrentes da religião e do folclore. Com o termo folclore, o pensador designa tradições que perderam o significado, mas con- tinuam se perpetuando. Para que o aluno adquira a criticidade, Gramsci defende para os primeiros anos de escola um currículo que lhe apresente noções instrumentais (ler, escrever, fazer contas, conhecer os conceitos científicos) e seus direitos e deveres de cidadão. Elogio do "ensino desinteressado" Saudação fascista diante da residência de Mussolini em 1938: escola como privilégio de classe. Uma parte importante das reflexões de Gramsci sobre a educação foi motivada pela reforma empreendida por Giovanni Gentile, ministro da Educação de Benito Mussolini, que reservava aos alunos das classes altas o ensino tradicional, "completo", e aos das classes pobres uma escola vol- tada, principalmente, para a formação profissional. Em reação, Gramsci defendeu a manutenção de "uma escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa". Para ele, a Reforma Gentile visava predestinar o aluno a um determinado ofício, sem dar-lhe acesso ao "ensino desinteressado" que "cria os primeiros elementos de uma intuição do mundo, liberta de toda magia ou bruxaria". Ao contrário dos pedagogos da escola ativa, que defendiam a construção do aprendizado pelos estu- dantes, Gramsci acreditava que, pelo menos nos primeiros anos de estudo, o professor deveria transmitir conteúdos aos alunos. A escola unitária de Gramsci é a escola do trabalho, mas não no sentido estreito do ensino profissionalizante, com o qual se aprende a operar. Em termos metafóri- cos, não se trata de colocar um torno em sala de aula, mas de ler um livro sobre o significado, a história e as implicações econômicas do torno. Biografia - nascido em Ales, na ilha da Sardenha, em 1891, numa família pobre e numerosa, Antonio Gramsci foi vítima, antes dos 2 anos, de uma doença que o deixou corcunda e prejudicou o seu crescimento. Na idade adulta, não media mais do que 1,50m e a sua saúde sempre foi frágil. Aos 21 anos, foi estudar letras em Turim, onde trabalhou como jornalista de publicações de es- querda. Militou em comissões de fábrica e ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano em 1921. Conheceu a mulher, Julia Schucht, em Moscou, para onde foi enviado como representante da Inter- nacional Comunista. Em 1926, foi preso pelo regime fascista de Benito Mussolini, ficando célebre a Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 61 ~ frase dita pelo juiz que o condenou: "Temos que impedir esse cérebro de funcionar durante 20 anos". Gramsci cumpriu 10 anos, morrendo em uma clínica de Roma em 1937. Na prisão, escreveu os textos reunidos em Cadernos do Cárcere e Cartas do Cárcere. A obra de Gramsci inspirou o euro- comunismo - a linha democrática seguida pelos partidos comunistas europeus, na segunda metade do século 20 - e teve grande influência no Brasil nos anos 1970 e 1980. A experiência prática das contradições - durante a sua curta vida, Gramsci testemunhou de perto os dois extremos totalitários do século XX. Conheceu em Moscou a Revolução Russa no calor dos seus primeiros anos e, pouco tempo depois, foi uma das vozes pioneiras a denunciar a degene- ração da política soviética para a tirania, sob Josef Stalin. No outro extremo, a ditadura fascista em seu país natal fez de Gramsci um alvo precoce de perseguição, que resultou em seu aprisionamento. A trajetória do pensador pela Itália durante a infância e a juventude - do sul atrasado, camponês e tradicionalista ao norte industrial onde se engajou na política - também não podia ter sido mais emblemática das contradições do seu tempo. A lucidez com que Gramsci refletiu sobre essas expe- riências fez o seu pensamento sobreviver, não só a ele mesmo, como ao próprio socialismo real, como era chamado o regime característico do conjunto de países comunistas do Leste Europeu, que desmoronou em bloco na virada dos anos 1980 para os anos 1990. Seu pensamento, que havia sido uma alternativa ao marxismo predominante nos meios acadêmicos de todo o mundo até então, continua atual, já que não conflita com o sistema democrático. Para pensar - muitos pensadores clássicos da educação, entre eles Comênio (1592-1670) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), subordinavam o processo pedagógico à natureza. A própria evolução das crianças daria conta de grande parte do seu aprendizado. Gramsci tinha outra ideia. "A educação é uma luta contra os instintos ligados às funções biológicas elementares, uma luta contra a natureza, para dominá-la e criar o ser humano ‘atual’ à sua época", escreveu. Você con- corda com ele ou considera equivocada a tese de que a cultura distancia o ser humano da natureza? Ou será possível conciliar as duas correntes de pensamento? ________________________________________________________________________________ 3.3. Burrhus Frederic Skinner, o cientista do comportamento e do aprendizado. Para o psicólogo behaviorista norte-americano, a educação deve ser planejada passo a passo, de modo a obter os resultados desejados para a "modelagem" do aluno. B. F. Skinner Nenhum pensador ou cientista do século XX levou tão longe a crença na possibilidade de controlar e modelar o comportamento humano como o norte-americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). Sua obra é a expressão mais célebre do behaviorismo, corrente que dominou o pen- samento e a prática da psicologia, em escolas e consultórios, até os anos de 1950, que restringe o seu estudo ao comportamento (behavior, em inglês), tomado como um conjunto de reações dos organismos aos estímulos externos. Seu princípio é que só é possível teorizar e agir sobre o que é cientificamente observável, descartando, com isso, os conceitos e as categorias centrais para outras correntes teóricas, como a consciência, a vontade, a inteligência, a emoção e a memória, como es- tados mentais ou subjetivos. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 62 ~ Os adeptos do behaviorismo costumam interessar-se pelo processo de aprendizado como um agente de mudança do comportamento. Skinner revela em várias passagens a confiança no pla- nejamento da educação, com base em uma ciência do comportamento humano,como possibilidade de evolução da cultura. Condicionamento operante - o conceito chave do pensamento de Skinner é o de condicio- namento operante, que ele acrescentou à noção de reflexo condicionado, formulada pelo cientista russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencialmente ligados à fisiologia do organismo, seja animal ou humano, como uma reação a um estímulo casual: um mecanismo que premia uma deter- minada resposta de um indivíduo até ele ficar condicionado a associar a necessidade à ação. É o caso do rato faminto que, numa experiência, percebe que ao acionar uma determinada alavanca levará ao recebimento de comida, levando-o a repetir o movimento, a cada vez, que quiser saciar a sua fome. A diferença entre o reflexo condicionado e o condicionamento operante é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo; o segundo, o hábito gerado por uma ação do in- divíduo. No comportamento respondente (de Pavlov), a um estímulo (S) segue-se uma resposta (R), e, no comportamento operante (de Skinner), o ambiente é modificado e produz consequências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante. O condicionamento operante é um mecanismo de aprendizagem de um novo comporta- mento - um processo que Skinner chamou de modelagem. O instrumento fundamental de modela- gem é o reforço - a consequência de uma ação quando ela é percebida por quem a pratica. Para o behaviorismo em geral, o reforço pode ser positivo (uma recompensa) ou negativo (ação que evita uma consequência indesejada). Skinner considerava reforço, apenas, as contingências de estímulo. "No condicionamento operante, um mecanismo é fortalecido no sentido de tornar uma resposta mais provável, ou melhor, mais frequente", escreveu o cientista. Sem livre-arbítrio - segundo Skinner, a ciência psicológica - e também o senso comum - cos- tumava, antes do aparecimento do behaviorismo, apelar para explicações baseadas nos estados subjetivos por causa da dificuldade de verificar as relações do condicionamento operante - ou seja, todas as circunstâncias que produzem e mantêm a maioria dos comportamentos dos seres huma- nos. Isso porque elas formam cadeias muito complexas, que desafiam as tentativas de análise, se elas não forem baseadas em métodos rigorosos de isolamento das variáveis. Nos usos que projetou para as suas conclusões científicas - em especial na educação -, Skin- ner pregou a eficiência do reforço positivo, sendo, em princípio, contrário a punições e a esquemas repressivos. Ele escreveu um romance, Walden II, que projeta uma sociedade considerada por ele como a ideal, em que um amplo planejamento global, incumbido de aplicar os princípios do reforço e do condicionamento, garantiria uma ordem harmônica, pacífica e igualitária. Num dos seus livros mais conhecidos, Além da Liberdade e da Dignidade, ele rejeitou noções como a do livre-arbítrio e defendeu que todo comportamento é determinado pelo ambiente, embora a relação do indivíduo com o meio seja de interação, e não passiva. Para Skinner, a cultura humana deveria rever conceitos como os que ele enuncia no título da obra. Máquinas para fazer o aluno estudar - a Educação foi uma das preocupações centrais de Skinner, à qual ele se dedicou com os seus estudos sobre a aprendizagem e a linguagem. No livro Tecnologia do Ensino, de 1968, o cientista desenvolveu o que chamou de máquinas de aprendiza- gem - a organização de material didático de maneira que o aluno o pudesse utilizar sozinho, rece- bendo estímulos, enquanto avançava no conhecimento. Grande parte dos estímulos, baseava-se na satisfação de dar respostas corretas aos exercícios propostos. A ideia começa a ser aplicada de modo sistemático e influenciou procedimentos da educação norte-americana e, por todo o mundo. A partir de março de 2020, houve no Brasil, uma grande aceleração dessas metodologias no ensino, propiciada pelo uso popular da Internet e das tecnologias educacionais, além de ter tido, uma profunda deflagração, causada pelas necessidades do isolamento social, a que a pandemia do Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 63 ~ Coronavírus levou a população mundial, nacional e local, precisando reagir ao que Skinner conside- rava como um sistema escolar fracassado, por basear-se na presença obrigatória, sob pena de pu- nição. Ele defendia que se dessem aos alunos "razões positivas" para estudar. Para Skinner, o ensino deve ser planejado para levar o aluno a emitir comportamentos progressivamente próximos do ob- jetivo final, sem que para isso precise cometer erros. A ideia é que a máquina de aprendizado se ocupe das questões factuais e deixe ao professor a tarefa fundamental de ensinar o aluno a pensar. Biografia - Burrhus Frederic Skinner nasceu em Susquehanna, no estado norte-americano da Pensilvânia, em 1904. Criado num ambiente de disciplina severa foi um estudante rebelde, cujos interesses, na adolescência, eram a poesia e a filosofia. Formou-se em língua inglesa na Universi- dade de Nova York antes de redirecionar a carreira para a psicologia, que cursou em Harvard - onde tomou contato com o behaviorismo. Seguiram-se anos dedicados a experiências com ratos e pom- bos, paralelamente à produção de livros. O método desenvolvido para observar os animais de labo- ratório e as suas reações aos estímulos levou-o a criar pequenos ambientes fechados que ficaram conhecidos como caixas de Skinner, depois adotadas para experimentos pela indústria farmacêu- tica. Quando nasceu a sua filha, Skinner criou um berço climatizado, o que originou um boato de que a teria submetido a experiências semelhantes às que fazia em laboratório. Em 1948, aceitou o convite para ser professor em Harvard, onde ficou até o fim da vida. Morreu em 1990, em ativa militância a favor do behaviorismo. Comportamento condicionado em laboratório Pombo tem o seu comportamento condicionado em laboratório: controle e planejamento Precursores da psicologia, como o filósofo norte-americano William James (1842-1910), já haviam previsto a utilidade de um ramo da ciência que estudasse os comportamentos puramente externos, mas a psicologia comportamental (behaviorismo) - como a conhecemos - começou mesmo com o médico russo Ivan Pavlov (1849-1936). Motivado por experiências com cães, Pavlov criou a teoria dos reflexos condicionados. Foi o primeiro cientista a trabalhar na área psicológica que não se utilizou de referências a estados subjetivos como instrumento teórico. O fundador do beha- viorismo como escola, porém, foi o psicólogo norte-americano John B. Watson (1878-1958), que formulou as estritas exigências metodológicas que deveriam nortear os seus seguidores. O compro- misso de verificação concreta de hipóteses e a recusa da introspecção aproximam o ideário de Wat- son do positivismo nas ciências humanas. Watson foi o principal inspirador de Skinner, que, por sua vez, foi o maior divulgador do behaviorismo, prevendo a utilização dos seus princípios na psicotera- pia, na educação e até na formulação de políticas públicas. O behaviorismo clássico abraçou a ideia de que todo comportamento humano é infalivelmente controlável por meio do padrão de estímulo- resposta. Mais recentemente, o princípio da infalibilidade estatística foi substituído pelo da proba- bilidade. No imaginário ficcional do século XX, a ênfase nos conceitos de controle e planejamento aproximou o behaviorismo e as táticas dos regimes totalitários - a terapia behaviorista, por exemplo, usou comumente choques elétricos e substâncias químicas para condicionar comportamentos. Al- gumas das principais metáforas do “terror de Estado” fizeram referências a métodos behavioristas, como os romances 1984 (de George Orwell) e A Laranja Mecânica (de Anthony Burgess, adaptadopara o cinema por Stanley Kubrick). Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 64 ~ O livro de Orwell começa assim: “Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam 13 horas.”, omite o ano da ação, mas isso seria redundante, pois ele dá nome à obra: “1984”. Só a menção ao título desencadeava uma avalanche de associações mentais: comunismo, polícia política, nazifascimo, tortura… O livro ganhou fama por tratar de forma ficcional de uma das grandes mazelas contemporâneas, o totalitarismo. Escrito por George Orwell e publicado em 1949, o texto nasceu destinado à polêmica. Foi traduzido em 65 países, virou minissérie, filmes, inspirou quadrinhos, mangás e até uma ópera. Em 1999, a produtora holandesa Endemol batizou o seu reality show (formato que chegou à TV nos anos 1970), de Big Brother, o mais sinistro personagem, ou melhor, a entidade do livro. O pai da ideia, John de Mol, nega de pés juntos a inspiração, mas há outras associações possíveis além do nome do programa. A origem do título 1984 é controversa. Orwell supostamente queria “O Último Homem da Europa”, mas o seu editor Frederick Warburg insistiu que trocasse por algo mais comer- cial. O texto foi concluído em 1948 e o nome traz os dois dígitos finais invertidos, como uma forma de dizer que a distopia descrita, não era uma ameaça distante. O enredo tem Londres como cenário, na Oceânia, onde tudo gira em torno do Grande Irmão. “Quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis”, o Big Brother é o líder máximo. Assumiu o poder depois de uma guerra de escala global (análoga à II Guerra Mundial), com mais explosões atômicas, eliminando as nações e criando três grandes estados transcontinentais totalitários: a Oceânia, que reúne a ex-Inglaterra, as ex-Américas, a ex-Austrália e a Nova Zelândia e parte da África. É um mundo sombrio e opressivo. Cartazes espalhados pelas ruas mostram a figura bisonha da autoridade suprema e o slogan: “O Grande Irmão está de olho em você”. E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas”, que estão espalhadas em todos os lugares públicos e nos recan- tos mais íntimos das residências particulares, como uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população, como um espelho duplo. Winston Smith é o protagonista da obra: funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, um dos quatro ministérios que governam Oceânia, tendo a função de falsificar registros históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico (prática, aliás, comum na União Soviética, da época). A opressão era física e mental: a Polícia das Ideias atuava como uma ferrenha patrulha do pensamento. Relações amorosas estavam entre as muitas proibições. Nesse cenário de submissão onde não há mais leis, com inúmeras regras determinadas pelo Partido, ninguém chegou a ver o Grande Irmão em pessoa (O tirano mais amedrontador é também o mais abstrato.). O personagem principal detesta o sistema, mas evita desafiá-lo além das páginas do seu di- ário, mas o amor muda tudo: ao se apaixonar por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção, o sentimento transgressor o faz acreditar que uma rebelião é possível. Mas combater o regime não é nada fácil e a “reeducação” dos amantes será brutal, enredada em uma trama política. Para pensar - ainda que Skinner considerasse importante levar em conta as diferenças entre os alunos de um mesmo professor, o behaviorismo baseia-se, fundamentalmente, na previsibilidade das reações aos estímulos e reforços. Os seus objetivos educacionais buscam resultados definidos antecipadamente, para que seja possível, diante de uma criança ou adolescente, projetar a mode- lagem de um adulto. Você considera importante, como professor, saber de antemão exatamente o que deseja dos seus alunos? É possível planejar o aprendizado em detalhes? ________________________________________________________________________________ 3.4. Comênio, o pai da didática moderna. Jan Amos Komenský, em latim, Iohannes Amos Comenius; em português, João Amós Comênio, filósofo tcheco que combateu o sistema medieval, defendeu o ensino de "tudo para todos" e foi o primeiro teórico a respeitar a inteligência e os sentimentos da criança. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 65 ~ Quando se fala de uma escola em que as crianças são respeitadas como seres humanos do- tados de inteligência, aptidões, sentimentos e limites, logo pensamos em concepções modernas de ensino. Também acreditamos que o direito de todas as pessoas - absolutamente todas - à educação é um princípio que só surgiu há algumas dezenas de anos. De fato, essas ideias consagraram-se apenas no século XX, e assim mesmo, não em todos os lugares do mundo. Mas elas já eram defen- didas em pleno século XVII por Comênio (1592-1670), o pensador tcheco que é considerado o pri- meiro grande nome da moderna história da educação. Didactica Magna é a obra mais importante de Comênio, marcando o início da sistematização da pedagogia e da didática no Ocidente, à qual o autor dedicou-se ao longo da sua vida, com grande ambição, chamando a sua didática de ‘magna’ porque ele não queria uma obra restrita, localizada; precisava ser grande, como o mundo que estava sendo descoberto naquele momento, com a ex- pansão do comércio e das navegações. No livro, o pensador realiza uma racionalização de todas as ações educativas, indo da teoria didática até as questões do cotidiano da sala de aula, considerando que a prática escolar, deveria imitar os processos da natureza. Nas relações entre professor e aluno, seriam consideradas as pos- sibilidades e os interesses da criança. O professor passaria a ser visto como um profissional, não um missionário, e seria bem remunerado por isso; além disso, a organização do tempo e do currículo levariam em conta os limites do corpo e a necessidade, tanto dos alunos quanto dos professores, de ter outras atividades. Ruptura com a escolástica Gravura do próprio Comênio para um dos seus livros de texto: aprender brincando. Comênio era cristão protestante e pertencia ao grupo religioso Irmãos Boêmios, ao qual se manteve vinculado por toda a vida, tornando-se, em 1648, bispo dos morávios. Embora profunda- mente religioso, o pensador propôs uma ruptura radical com o modelo de escola até então prati- cado pela Igreja Católica, que era voltado apenas para a elite e dedicado, primordialmente, para os estudos abstratos, porque ainda vigoravam as doutrinas escolásticas da Idade Média, subordinando as questões teóricas à teologia cristã. Comênio não foi o único pensador do seu tempo a combater o pedantismo literário e o sa- dismo pedagógico, mas ousou ser o principal teórico de um modelo de escola que deveria ensinar "tudo a todos" aí incluídos os portadores de deficiência mental e as meninas, que, na época, eram alijados da educação. Defendia o acesso irrestrito à escrita, à leitura e ao cálculo, para que todos pudessem ler a Bíblia e comerciar, respondendo assim, a duas urgências do seu tempo: o apareci- mento da burguesia mercantil, nas cidades europeias, e o direito, reivindicado pelos protestantes, à livre interpretação dos textos religiosos, proibida pela Igreja Católica. A obra de Comênio corresponde também a outras novidades, entre elas "o despertar de uma nova concepção de criança", tratando-a, em seus livros com muita delicadeza, num tempo em que a escola existia sob a égide da palmatória, e a educação era vista e praticada como um castigo e não oferecia elementos para que depois as pessoasse situassem de forma mais ampla na sociedade. Comênio reagiu a esse quadro com uma pergunta: por que não se aprende brincando?" Salvação da alma - sob a influência de seitas protestantes e do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), Comênio acreditava que a salvação da alma poderia ser alcançada durante a vida ter- rena e que o caminho para isso poderia ter a ajuda da ciência. Para ele, a criatura humana corres- pondia ao ideal de perfeição. Ele acreditava que, por ser dotado de razão, o ser humano pode en- tender a si e a todas as coisas. Portanto, deve dedicar-se a aprender e a ensinar. Seguindo esse Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 66 ~ pensamento, o educador conclui que o mais importante na vida não é a contemplação e sim a ação, o "fazer". No pensamento humanista do pedagogo tcheco, a instrução e o trabalho diferenciavam o ser humano burguês do ser humano feudal. Em sua trajetória, o novo indivíduo deveria imitar a natureza, porque, emulando Deus e respeitando as aptidões de cada um, não haveria possibilidade de erro. Comênio adotou o método empírico de explorar o mundo (de Bacon), em contraposição às verdades impostas pelo ensino medieval. Pela experimentação, ele acreditava que todos poderiam vir a enxergar a harmonia do universo sob o caos aparente. Comênio queria mudar a escola com a didática e a sociedade com a educação, Era um grande idealista. Biografia - o nome Comênio é o aportuguesamento da assinatura latina (Comenius) de Jan Amos Komensky, nascido em 1592 em Nivnice, Morávia (então domínio dos Habsburgos, hoje Re- pública Tcheca). O pensador Comênio foi filho único de um casal de membros do grupo protestante Irmãos Boêmios. Na Universidade de Heidelberg (Alemanha), entusiasmou-se com as ideias de filó- sofos que criavam uma concepção de ciência baseada no empirismo. Seguiu uma carreira religiosa e teve de fugir para a Polônia quando, no início da Guerra dos 30 Anos, em 1618, o rei Ferdinando II decidiu reimpor o catolicismo na Boêmia. Sua revolta com a situação levou-o a escrever obras filosóficas e pedagógicas satirizando a ordem vigente e propondo mudanças radicais, ideias que seduziram pensadores na Inglaterra, que o convidaram a trabalhar no país, mas o projeto foi abor- tado pela eclosão da Guerra Civil Inglesa, em 1642. Tentativas de reforma escolar, a pedido dos governos da Suécia e da Hungria, acabaram fracassando - em parte por causa da insistência do pen- sador em divulgar a sua "pansofia", sem sucesso - e ele voltou para a Polônia. Comênio teve nova- mente de fugir de uma guerra civil e estabeleceu-se em Amsterdã, onde permaneceu até morrer, em 1670. Por essa época, os seus livros de texto ilustrados para o aprendizado de línguas e ciências tinham se tornado uma bem-sucedida novidade nas escolas da Europa. Em busca da harmonia universal - Comênio viveu a maior parte da vida cercado de guerras. Algumas delas, como a Guerra dos 30 Anos, de protestantes contra católicos, diziam-lhe respeito diretamente. Toda a sua obra foi marcada profundamente por isso, uma vez que o fim último do seu pensamento era a compreensão universal, que uniria toda a humanidade. Ele perseguiu desde a juventude, a unificação da totalidade do conhecimento humano, porque imaginava que ele era finito e imutável. A construção de uma enciclopédia do saber e a sua adaptação às capacidades infantis são os grandes temas da pedagogia de Comênio; para sustentá-las ele criou uma base filo- sófica que denominou "pansofia", a procura de um princípio básico que harmonizasse todo o saber. Ao contrário do seu pensamento educacional, que suscitou interesse pela Europa afora, a pansofia não teve seguidores. Para pensar - A maior contribuição de Comênio para a educação dos dias de hoje é a ideia de trazer a realidade social para a sala de aula, fazendo uso dos meios tecnológicos mais avançados à disposição. De tão fascinado pela invenção da imprensa e pela possibilidade de disseminação do conhecimento que ela representava, Comênio criou a expressão "didacografia" para designar o mé- todo universal de ensino que ele pretendia inaugurar. Nos dias de hoje, a tecnologia da informação seria capaz de realizar essa revolução? Gráficos do século XVI na Itália, em gravura da época: a técnica a serviço do saber. ________________________________________________________________________________________________________________________ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 67 ~ 3.5. Édouard Claparède, um pioneiro da psicologia infantil. Édouard Claparède é um cientista suíço, que defendia a necessidade de estudar o funciona- mento da mente infantil e de estimular na criança, um interesse ativo pelo conhecimento. Na história da educação, o nome do psicólogo suíço Édouard Claparède (1873-1940) encon- tra-se em um ponto de confluência de várias correntes de pensamento. Em sua formação, ele ab- sorveu influências tanto da filosofia como da ciência da época. A sua obra favoreceu o desenvolvi- mento de duas das mais importantes linhas educacionais do século XX: a Escola Nova, cuja repre- sentante mais conhecida foi Maria Montessori (1870-1952), e o cognitivismo de Jean Piaget (1896- 1980), que foi seu discípulo. Muitos pensadores, anteriores a Claparède, pregaram que na prática pedagógica era impor- tante levar-se em conta os processos mentais e a evolução das crianças, mas o faziam de um ponto de vista, eminentemente, intuitivo; ao contrário, Claparède tinha formação em medicina e preten- deu construir uma teoria científica da infância. Na introdução do seu livro Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental, o psicólogo diz que o ensino precisaria basear-se no conhecimento das crianças tanto quanto a horticultura se ba- seia no conhecimento das plantas, e, a educação deveria passar por uma ‘revolução copernicana’, deixando de ter o professor como centro para gravitar em torno do aluno. Adequação ao ambiente - Claparède defendia uma abordagem funcionalista da psicologia, pela qual o ser humano é, acima de tudo, um organismo que "funciona". Os fenômenos psicológicos, para ele, deviam ser abordados "do ponto de vista do papel que exercem na vida, do seu lugar no padrão geral de comportamento num determinado momento". Com base nisso, o pensamento é tido como uma atividade biológica a serviço do organismo humano, que é acionado diante de situ- ações com as quais não se pode lidar por meio de comportamento reflexo. Claparède defendia o estudo dos processos psicológicos como funções de adaptação ao am- biente, raciocínio que o levou a formular a lei da necessidade e do interesse, ou princípio funcional, que o tornou conhecido. Segundo ela, toda a atividade desenvolvida pela criança é sempre suscitada por uma necessidade a ser satisfeita e pela qual ela está disposta a mobilizar as suas energias. O interesse é considerado a tradução psicológica da necessidade do sujeito, cabendo ao professor colocar o aluno na situação adequada para que o seu interesse seja despertado e permitir que ele adquira o conhecimento que vá ao encontro do que procura. "É a necessidade que põe em movimento os indivíduos - animais e seres humanos - e que faz vibrar os estímulos interiores para as suas atividades", escreveu Claparède. "É isso que se pode notar em todo lugar e sempre, exceto, é verdade, nas escolas, porque estas estão fora da vida.", concluiu. Aprendizado ativo - Claparède criticava a escola do seu tempo com os mesmos argumentos do filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952) - com quem compartilhava a pregação por uma escolaque chamavam de "ativa", na qual a aprendizagem dá-se pela resolução de problemas - e dos pedagogos do movimento da Escola Nova: todos condenavam a escola tradicional por consi- derar o aluno como receptáculo de informações e defendiam a prioridade da educação sobre a ins- trução. "O saber não tem nenhum valor funcional e não é um fim em si mesmo", defendia Cla- parède. Surge com esses pensadores a noção de que a atividade, e não a memorização é o vetor do aprendizado. Daí a importância que Claparède conferia à brincadeira e ao jogo, que seriam recursos na estratégia de despertar, no ambiente da escola, as necessidades e os interesses do aluno. "Seja qual for a atividade que se queira realizar na sala de aula, deve-se encontrar um meio de apresentá- la como um jogo", sugeriu Claparède. Ele sustentava a ideia, totalmente nova para a sua época, de que o sujeito psicológico é um sujeito ativo. Segundo o psicólogo, conforme a criança cresce, a ideia de jogo vai sendo substituída pela de trabalho, seu complemento natural. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 68 ~ Como os demais defensores da escola ativa, Claparède condenava o ensino do seu tempo por não dar suficiente infraestrutura aos educadores para uma prática profissional metódica, am- parada pela ciência e que permitisse a atualização constante. Mas ele tinha uma visão bem mais utilitária da escola do que seus pares: em vez de dar à criança condições de viver da melhor forma possível a infância, ele acreditava que a escola deveria priorizar o "rendimento" do aluno, ou seja, justificar os recursos fartos que, naquela época, os governos europeus começavam a canalizar para a educação. A escola, segundo Claparède, deveria formar bons quadros profissionais para servir a uma sociedade que investia nessa formação. O cientista defendia até uma atenção diferenciada para os estudantes que se revelassem mais aptos, de tal forma que pudessem ser submetidos a exigências maiores em classes constituídas apenas por "bons alunos". Escolas talhadas para os alunos - Claparède justificava a sua proposta de uma "Escola sob medida" (título de um de seus livros) dizendo que, na impossibilidade de haver uma escola para cada criança ou para cada tipo de inteligência, o sistema mais próximo disso seria o que permitisse a cada aluno "reagrupar o mais livremente possível os elementos favoráveis ao desenvolvimento das suas condutas pessoais". Para isso, o psicólogo pregava a necessidade de reduzir-se o currículo obrigatório a conteúdos suficientes para a transmissão de um conhecimento que constituísse "uma espécie de legado espiritual de uma mesma geração", deixando a maior parte do período letivo para atividades escolhidas pelo próprio aluno. Claparède recomendava ainda a adoção de outras estratégias - isoladamente ou combinadas - para o melhor aproveitamento das potencialidades intelectuais dos alunos, como as classes para- lelas: uma para os estudantes mais inteligentes, outra para aqueles com maior dificuldade de apren- dizado; e, as classes móveis: que dariam a possibilidade de um mesmo aluno acompanhar diferentes disciplinas em ritmos diferentes, mais acelerados ou mais lentos, de acordo com suas aptidões. Biografia - Édouard Claparède nasceu em Genebra, Suíça, em 1873, numa tradicional família calvinista. Logo depois de formar-se em medicina, direcionou sua carreira para o campo da psicolo- gia experimental. Alguns dos seus estudos influenciaram a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939). Em 1905, publicou Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental, que teve grande repercussão. Em 1912, criou o Instituto Jean-Jacques Rousseau (ou Academia de Genebra), para o estudo da psicologia infantil e a sua aplicação no ensino. Seu trabalho foi continuado pelo discípulo Jean Piaget, que, como chefe do instituto, reformulou-o e integrou-o à Universidade de Genebra. Em 1924, Claparède foi um dos redatores do primeiro esboço de uma carta internacional dos direitos da criança e, no ano seguinte, foi cofundador do Escritório Internacional de Educação, hoje órgão da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Em 1930, o psicólogo esteve no Brasil a convite de uma ex-aluna, a educadora Helena Antipoff, de Minas Gerais, e aqui terminou de escrever um de seus principais livros, A Educação Funcional. Morreu em Genebra em 1940. O crescimento como adaptação contínua A teoria da evolução das espécies de Charles Darwin influenciou Claparède e toda uma geração de cientistas. A infância estava em alta como objeto de investigação científica nas últimas décadas do sé- culo XIX. De um lado, a urbanização, a sofisticação dos processos industriais e a disseminação das redes públicas de ensino criavam um interesse inédito pelas crianças; de outro, as ciências da Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 69 ~ natureza viviam uma fase de euforia sob o impacto das descobertas de Charles Darwin (1809-1882). Foi o próprio Darwin o primeiro cientista a dedicar-se ao estudo do desenvolvimento das crianças, quando, em 1840, começou a observar e anotar sistematicamente o processo de crescimento de um de seus filhos. Trabalhos de acompanhamento semelhantes, típicos da psicologia experimental, foram aprofundados por outros pioneiros do estudo da criança, como o norte-americano Stanley Hall (1844-1924). Claparède faz parte dessa linhagem e é um típico representante da psicologia in- fluenciada pela biologia e pelo evolucionismo, para quem o conceito de vida corresponde a um pro- cesso de adaptação contínuo, guiado pela lógica da utilidade e da eficiência. Para Claparède, assim como para os demais representantes do movimento da Escola Nova, o desenvolvimento de cada ser humano e de toda a espécie significa uma luta ou uma procura pela conservação da vida, o que ocorre pela interação com o ambiente. Ao longo do século XX, a infância seria vista segundo outros parâmetros por diferentes escolas de pensamento. Para pensar - com a sua abordagem funcionalista, Claparède foi um dos primeiros cientistas a chegar a uma conclusão a que outros pensadores, de diferentes escolas, também chegaram: o que diferencia o ser humano dos outros animais é a capacidade de transformar a natureza (e os ambi- entes que o cercam em geral). Isso é que produz a cultura. Portanto, é preciso promover atividades na escola para que as crianças construam o seu acesso ao aprendizado. Você, professor, costuma ter isso em mente? Você tem o hábito de observar que tipo de atividades fazem com que os seus alunos transformem as necessidades em interesse? E costuma dar condições para que eles possam satisfazer a curiosidade? ________________________________________________________________________________ 3.6. Emilia Ferreiro, a estudiosa que revolucionou a alfabetização A psicolinguista argentina desvendou os mecanismos pelos quais as crianças aprendem a ler e a escrever, o que levou os educadores a rever, radicalmente, os seus métodos. Emilia Ferreiro Nenhum nome teve mais influência sobre a educação brasileira nos últimos trinta (30) anos do que o da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro. A divulgação dos seus livros no Brasil, a partir de meados dos anos 1980, causou um grande impacto sobre a concepção que se tinha do processo de alfabetização, influenciando as próprias normas do governo para a área, expressas nos Parâme- tros Curriculares Nacionais - PCN’s. As obras de Emilia - Psicogênese da Língua Escrita é a mais im- portante - não apresentam nenhum método pedagógico,mas revelam os processos de aprendizado das crianças, levando a conclusões que puseram em questão os métodos tradicionais de ensino da leitura e da escrita, fazendo com que a história da alfabetização pode ser dividida em antes e depois de Emilia Ferreiro. Emilia Ferreiro tornou-se uma espécie de referência para o ensino brasileiro e o seu nome passou a ser ligado ao construtivismo, campo de estudo inaugurado pelas descobertas a que chegou o biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), na investigação dos processos de aquisição e elaboração do conhecimento pela criança - ou seja, de que modo ela aprende. As pesquisas de Emilia Ferreiro, que estudou e trabalhou com Piaget, concentram o foco nos mecanismos cognitivos relacionados à leitura e à escrita. De maneira equivocada, muitos consideram o construtivismo um método. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 70 ~ Tanto as descobertas de Piaget como as de Emilia, levam à conclusão de que as crianças têm um papel ativo no aprendizado. Elas constroem o próprio conhecimento - daí a palavra construti- vismo e a principal implicação dessa conclusão para a prática escolar é transferir o foco da escola - e da alfabetização em particular - do conteúdo ensinado para o sujeito que aprende, ou seja, o aluno, porque, até então, os educadores só se preocupavam com a aprendizagem quando a criança parecia não aprender e, a educadora Emilia Ferreiro inverteu essa ótica com resultados surpreen- dentes.". O princípio de que o processo de conhecimento por parte da criança deve ser gradual cor- responde aos mecanismos deduzidos por Piaget, segundo os quais, cada salto cognitivo depende de uma assimilação e de uma reacomodação dos esquemas internos, que, necessariamente, levam tempo. É por utilizar esses esquemas internos, e não, simplesmente, repetir apenas o que ouvem, que as crianças interpretam o ensino recebido. No caso da alfabetização, isso implica numa trans- formação da escrita convencional dos adultos. Para o construtivismo, nada mais revelador do fun- cionamento da mente de um aluno do que os seus supostos erros, porque evidenciam como ele "releu" o conteúdo aprendido. O que as crianças aprendem não coincide com aquilo que lhes foi ensinado. Compreensão do conteúdo - com base nesses pressupostos, Emilia Ferreiro critica a alfabe- tização tradicional, porque julga a prontidão das crianças para o aprendizado da leitura e da escrita por meio de avaliações da percepção (capacidade de discriminar sons e sinais, por exemplo) e da motricidade (coordenação, orientação espacial etc.). Dessa forma, dá-se peso excessivo para um aspecto exterior da escrita (saber desenhar as letras), deixando-se de lado as suas características conceituais, ou seja: a compreensão da natureza da escrita e a sua organização. Para os construtivistas, o aprendizado da alfabetização não ocorre desligado do conteúdo da escrita. É por não levar em conta o ponto mais importante da alfabetização, que os métodos tradi- cionais insistem em introduzir os alunos à leitura com palavras aparentemente simples e sonoras (como babá, bebê, papa), mas que, do ponto de vista da assimilação das crianças, simplesmente, não se ligam a nada. Segundo o mesmo raciocínio equivocado, o contato da criança com a organi- zação da escrita é adiado para quando ela já for capaz de ler as palavras isoladas, embora as relações que ela estabelece com os textos inteiros, sejam enriquecedoras desde o início. Segundo Emilia Ferreiro, a alfabetização também é uma forma de se apropriar das funções sociais da escrita, que, em suas conclusões, explica que os desempenhos díspares apresentados por crianças de classes sociais diferentes na alfabetização, não revelam capacidades desiguais, mas o acesso maior ou menor a textos lidos e escritos, desde os primeiros anos de vida. Sala de aula vira ambiente alfabetizador - uma das principais consequências da absorção da obra de Emilia Ferreiro na alfabetização é a recusa ao uso das cartilhas, uma espécie de bandeira que a psicolinguista argentina ergue. Segundo ela, a compreensão da função social da escrita deve ser estimulada com o uso de textos da atualidade, livros, histórias, jornais e revistas. As cartilhas, ao contrário, oferecem um universo artificial e desinteressante. Em compensação, numa proposta construtivista de ensino, a sala de aula transforma-se totalmente, criando-se o que se chama de ambiente alfabetizador. Ambiente alfabetizador em escola gaúcha nos anos 1980: Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 71 ~ Emilia Ferreiro inspira políticas oficiais. Ideias adotadas no Brasil - as pesquisas de Emilia Ferreiro e o termo construtivismo come- çaram a ser divulgados no Brasil, no início da década de 1980. As informações chegaram, primeira- mente, ao ambiente de congressos e simpósios de educadores. O livro-chave de Emilia, Psicogênese da Língua Escrita, saiu em edição brasileira em 1984. As descobertas apresentadas tornaram-se as- sunto obrigatório nos meios pedagógicos e espalharam-se pelo Brasil, com muita rapidez, a ponto de a própria autora manifestar a sua preocupação quanto à forma como o construtivismo estava sendo encarado e transposto para a sala de aula. Mas o construtivismo mostrou a sua influência duradoura, ao ser adotado pelas políticas oficiais de vários estados brasileiros. Uma das experiências mais abrangentes deu-se no Rio Grande do Sul, onde a Secretaria Estadual de Educação criou um Laboratório de Alfabetização inspirado nas descobertas de Emilia Ferreiro. Hoje, o construtivismo é a fonte da qual derivam várias das diretrizes oficiais do MEC, tanto que a mudança da compreensão do processo pelo qual se aprende a ler e a escrever afetou todo o ensino da língua, produzindo uma experimentação pedagógica suficiente para construir uma didática, partindo dela. Biografia - Emilia Ferreiro nasceu na Argentina em 1936. Doutorou-se na Universidade de Genebra, sob a orientação do biólogo Jean Piaget, cujo trabalho de Epistemologia Genética (uma teoria do conhecimento centrada no desenvolvimento natural da criança) ela continuou a estudar em um campo que o mestre ainda não havia explorado: a escrita. A partir de 1974, Emilia desenvol- veu na Universidade de Buenos Aires uma série de experimentos com crianças, dando origem às conclusões apresentadas na obra Psicogênese da Língua Escrita, assinado em parceria com a peda- goga espanhola Ana Teberosky e publicado em 1979. Hoje, Emilia é professora titular do Centro de Investigação e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional, da Cidade do México, onde mora. Além da atividade de professora - que exerce também viajando pelo mundo, incluindo frequentes visitas ao Brasil -, a psicolinguista está à frente do site www.chicosyescritores.org, em que estudantes escrevem em parceria com autores consa- grados e publicam os próprios textos. ________________________________________________________________________________ 3.7. Florestan Fernandes, um militante do ensino democrático. O sociólogo não só refletiu sobre a escola brasileira, apontando o seu caráter elitista, como atuou, pessoalmente, em defesa da educação para todos. Florestan Fernandes Florestan Fernandes (1920-1995) foi um dos mais influentes sociólogos brasileiros, mas mui- tos o chamavam de educador, sem saber que isso o incomodava em sua modéstia. O equívoco tinha razão de ser: vários escritos de Florestan tiveram a educação como tema e a sua atuação na Câmara dos Deputados, já no fim da vida, concentrou-se na área do ensino. Além disso, apreocupação com a instrução era um desdobramento natural da sua obra de sociólogo. "Em nossa época, o cientista precisa tomar consciência da utilidade social e do destino prático reservado a suas descobertas", escreveu. http://www.chicosyescritores.org/ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 72 ~ Como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), Florestan militava em favor do socialismo e não separava o trabalho teórico das suas convicções ideológicas. Ainda que com abordagens dife- rentes, ambos acreditavam que a educação e a ciência têm, potencialmente, uma grande capaci- dade transformadora; por isso, deveriam ser instrumentos de elevação cultural e desenvolvimento social das camadas mais pobres da população. "Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos", disse ele, que sempre afirmava que “A escola de quali- dade, não era redentora da humanidade, mas um instrumento fundamental para a emancipação dos trabalhadores". Florestan tomou para si a tarefa de romper com a tradição de pseudoneutralidade das ciên- cias humanas e reconstruir uma análise do Brasil, abertamente comprometida, com a mudança so- cial. Segundo a sua análise, uma classe burguesa controlava os mecanismos sociais no Brasil, como acontecia em quase todos os países do Ocidente. No entanto - por causa de fatores históricos como a escravidão tardia, a herança colonial e a dependência em relação ao capital externo -, a burguesia brasileira era mais resistente às mudanças sociais do que as classes dominantes dos países desen- volvidos. Revolução incompleta - segundo Florestan, a revolução burguesa, cujo exemplo emblemá- tico é a de 1789 na França, não teria se completado no Brasil: enquanto os revolucionários franceses do século XVIII exigiam ensino público e universal, as elites brasileiras do século XX, ainda queriam controlar a educação para manter a maioria da população, culturalmente, alienada e afastada das decisões políticas. Por isso, uma das principais lutas de Florestan foi pela manutenção e pela ampli- ação do ensino público, por acreditar que o sucateamento da escola, com péssimas condições de trabalho e estudo, fazia parte das tentativas de sufocar a democratização da sociedade por meio da restrição do acesso à cultura e à pesquisa. O Brasil, dizia o sociólogo, era atrasado também em relação ao que ele chamava de cultura cívica, ou seja, um compromisso em torno do mínimo interesse comum. Para Florestan, não havia tal cultura no Brasil por dois motivos: ela estimularia as massas populares a participar politicamente e ao mesmo tempo, tiraria das classes dominantes a prerrogativa de fazer tudo o que quisessem, sem precisar dar satisfações ao conjunto restante da população. Florestan bateu-se também pela democratização do ensino, entendendo a democracia como a liberdade de educar e o direito irrestrito de estudar. Em seus dois mandatos de deputado federal, nos anos 1980 e 1990, o sociólogo esteve envolvido em todos os debates mais importantes que ocorreram no Congresso no campo da educação, participando, inclusive ativamente, da discussão, elaboração e tramitação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que só seria apro- vada em 1996, um ano depois da sua morte. Florestan defendia propostas mais radicais do que as que acabaram sendo incluídas na LDB: propunha que a lei incluísse o princípio de escola única, que abrangesse a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, conjugada com a educação profissional, e possibilitasse uma esco- laridade maior aos setores carentes da população, e, também pretendia como meio de dar autono- mia às escolas, que os diretores fossem eleitos por seus professores, pais e alunos. Ele queria ainda, incluir na LDB, um piso salarial para os professores. Contra o autoritarismo - não eram somente as condições estruturais do sistema educacional que atraíam a atenção rigorosa do cientista social. No intervalo democrático entre 1945 e 1964 no Brasil, Florestan notou que a educação havia conquistado um papel crucial na busca "do equilíbrio e da paz social", mas isso se devia a conquistas sociais e não a políticas dos governos, que, segundo ele, continuavam não investindo em educação pública. Além da destinação de verbas, o passo mais urgente então, seria integrar as escolas para que a sua função progressista se multiplicasse e ga- nhasse solidez. Ao lado do trabalho propriamente didático, as escolas deveriam formar "um sistema comunitário de instituições sociais". Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 73 ~ Florestan também se preocupou em criticar a prática em sala de aula, com ênfase em três pontos: a concepção do professor como mero transmissor do saber, que, para ele, fragilizava o pro- fissional da educação; a ideia de que o aluno é apenas receptor do conhecimento, quando o apren- dizado deveria ser construído conjuntamente na escola; e o ensino discriminatório, que trata o aluno pobre como cidadão de segunda classe, acreditando que a educação transformadora se faz com uma escola capaz de se desfazer, por si mesma, do autoritarismo, da hierarquização e das prá- ticas de servidão. Mestre de uma geração desbravadora Juscelino Kubitschek (à dir.) comemora a vitória na eleição presidencial: oásis democrático. Florestan Fernandes integrou a primeira geração de sociólogos formados pela USP, da qual também fez parte o crítico literário Antonio Candido. Foi mestre da terceira geração, que incluía Octavio Ianni e o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. De um modo ou de outro, tanto os veteranos quanto os seus discípulos, viveram grande parte da sua existência sob longas ditaduras - primeiro a de Getulio Vargas (1937-1945), que havia sido precedida de governos apenas parcial- mente democráticos, e depois o regime militar, iniciado em 1964 e encerrado com eleições indiretas em 1984. Não é de espantar que o período de liberdade civil, anterior a 1964, em especial o governo Juscelino Kubitschek (1956-1960), tenha sido tão produtivo para todos esses intelectuais. Algumas das mais importantes reflexões sobre o Brasil datam dessa época, tanto nas ciências humanas como nas artes (como, por exemplo, a Bossa Nova e o Cinema Novo). Biografia - Florestan Fernandes nasceu em 1920 em São Paulo, filho de uma imigrante por- tuguesa analfabeta, que o criou sozinha, trabalhando como empregada doméstica. Aos 6 anos, Flo- restan também começou a trabalhar, primeiro como engraxate, depois em vários outros ofícios. Mais tarde, ele diria que esse foi o início da sua aprendizagem sociológica, pelo contato que teve com os habitantes da cidade. Aos 9 anos, a necessidade de ganhar dinheiro o fez abandonar os estudos, que só recuperaria com um curso supletivo. Aos 18 anos, foi aprovado para o curso de Ciências Sociais da USP, onde iniciou a sua militância em grupos de esquerda. Em 1964, Florestan enviou uma carta à polícia protestando contra o tratamento dado a seus colegas presos e foi, ele também, para a prisão. Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sem poder trabalhar, deixou o Brasil e lecionou em universidades do Canadá e dos EUA. Depois da redemocratização, filiado ao Partido dos Trabalhadores, elegeu-se deputado federal em 1986 e 1990. Florestan morreu em 1995, de câncer. Publicou quase 80 livros durante a vida, nos campos da sociologia, da antropologia e da educação. A Revolução Burguesa no Brasil e Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento estão entre os títulos mais importantes. A briga política pela escola pública: Deputado Federal CarlosLacerda (Relator da 1ª LDB) servindo aos interesses do ensino privado e religioso. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 74 ~ Muitos intelectuais participaram, nas décadas de 1940 e 1950, da Campanha em Defesa da Escola Pública, que teve origem nas discussões para a aprovação da primeira LDB. Nenhum foi mais ativo do que Florestan Fernandes. De início, o tema principal do debate era a centralização ou a descentralização do ensino. A polêmica seguiu acirrada até que, em seu ponto máximo de tensão, o deputado Carlos Lacerda apresentou no Congresso um substitutivo para atender aos interesses das escolas particulares e das instituições religiosas de ensino, que pretendiam ganhar o direito a embolsar verbas do Estado. Florestan publicou vários escritos nessa época, combatendo as preten- sões da escola privada, desenvolvendo as suas ideias sobre a necessidade de democratizar o ensino. O substitutivo de Lacerda acabou sendo aprovado. Mas, no longo prazo, quem ganhou foi Florestan - suas ideias são, hoje, praticamente um consenso entre os dirigentes da educação pública em todo o País. Para pensar - Florestan Fernandes acreditava que a educação deveria ser para os alunos, uma experiência transformadora que desenvolvesse a criatividade, dando-lhes condições de se li- bertarem da opressão social. Mas, para isso, a escola deveria deixar de reproduzir os mecanismos de dominação de classe da sociedade. Você já se analisou sob esse ângulo? Será que, vez ou outra, já não confundiu a sua legítima autoridade de professor com o autoritarismo? ________________________________________________________________________________ 3.8. Friedrich Froebel, o criador dos “Jardins de Infância”. O criador dos jardins de infância defendia um ensino sem obrigações, porque o aprendizado depende dos interesses de cada um e se faz por meio da prática. Friedrich Froebel O alemão Friedrich Froebel (1782-1852) foi um dos primeiros educadores a considerar o iní- cio da infância como uma fase de importância decisiva na formação das pessoas - ideia hoje consa- grada pela psicologia, ciência da qual foi precursor. Froebel viveu em uma época de mudanças de concepções sobre as crianças e esteve à frente desse processo na área pedagógica, como criador dos jardins de infância, destinado aos menores de 8 anos. O nome reflete um princípio que Froebel compartilhava com outros pensadores do seu tempo: o de que a criança é como uma planta em sua fase de formação, exigindo cuidados periódicos para que cresça de maneira saudável. Crendo nisso, ele procurava na infância o elo que igualaria todos os seres humanos, a sua essência boa e divina ainda não corrompida pelo convívio social. As técnicas utilizadas até hoje em Educação Infantil devem muito a Froebel. Para ele, as brin- cadeiras são o primeiro recurso no caminho da aprendizagem: não são diversão, apenas, mas um modo de criar representações do mundo concreto com a finalidade de entendê-lo. Com base na observação das atividades dos pequenos com jogos e brinquedos, Froebel foi um dos primeiros pe- dagogos a falar em autoeducação, um conceito que só se difundiria no início do século XX, graças ao movimento da Escola Nova, de Maria Montessori (1870-1952) e Célestin Freinet (1896-1966), entre outros. Treino de habilidades - por meio dos brinquedos que desenvolveu, depois de analisar crian- ças de diferentes idades, Froebel previu uma educação, que ao mesmo tempo, permite o treino de habilidades que elas já possuem com o surgimento de novas. Dessa forma, seria possível aos alunos Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 75 ~ exteriorizar o seu mundo interno e interiorizar as novidades vindas de fora - um dos fundamentos do aprendizado, segundo o pensador. Ao mesmo tempo em que pensou sobre a prática escolar, ele se dedicou a criar um sistema filosófico que sustentasse as suas ideias. Para Froebel, a natureza era a manifestação de Deus no mundo terreno e expressava a unidade de todas as coisas. Da totalidade em Deus decorria uma lei da convivência dos contrários. Isso tudo levava ao princípio de que a educação deveria trabalhar os conceitos de unidade e harmonia, pelos quais, as crianças alcançariam a própria identidade e a sua ligação com o eterno. A importância do autoconhecimento não se limitava à esfera individual, mas seria ainda um meio de tornar melhor a vida em sociedade. Além do misticismo e da unidade, a natureza continha, de acordo com Froebel, um sistema de símbolos conferido por Deus. Era necessário desvendá-los para conhecer o que é o espírito divino e como ele se manifesta no mundo. A criança, segundo o educador, trazia em si a semente divina de tudo o que há de melhor no ser humano. Cabia à educação desenvolver esse germe e não deixar que se perdesse. Brinquedos criados para aprender Crianças de um jardim de infância brasileiro: brincadeiras para desenvolver a criatividade. Froebel considerava a Educação Infantil indispensável para a formação da criança - e essa ideia foi aceita por grande parte dos teóricos da educação que vieram depois dele. O objetivo das atividades nos jardins de infância era possibilitar brincadeiras criativas. As atividades e o material escolar eram determinados de antemão, para oferecer o máximo de oportunidades para tirar pro- veito educativo da atividade lúdica. Froebel desenhou círculos, esferas, cubos e outros objetos que tinham por objetivo, estimular o aprendizado. Eles eram feitos de material macio e manipulável, geralmente, com partes desmontáveis. As brincadeiras eram acompanhadas de músicas, versos e danças. Os objetos criados por Froebel eram chamados de "dons" ou "presentes" e havia regras para usá-los, que precisariam ser dominadas para garantir o aproveitamento pedagógico. As brin- cadeiras previstas por Froebel eram, quase sempre, ao ar livre, para que a turma interagisse com o ambiente. Deste modo, todos os jogos que envolviam os ‘dons’ começavam com as pessoas for- mando círculos, movendo-se e cantando, pois assim conseguiam atingir a perfeita unidade. Para Froebel, era importante acostumar as crianças aos trabalhos manuais, despertando-lhes a atividade dos sentidos, do corpo e o germe do trabalho, que, segundo o educador alemão, seria uma imitação da criação do universo por Deus. Educação espontânea - o caminho para isso seria deixar a criança livre para expressar o seu interior e perseguir os seus interesses. Froebel adotava, assim, a ideia contemporânea do "aprender a aprender". Para ele, a educação desenvolve-se espontaneamente: quanto mais ativa é a mente da criança, mais ela é receptiva a novos conhecimentos. O ponto de partida do ensino seriam os sentidos e o contato que eles criam com o mundo. Portanto, a educação teria como fundamento a percepção, da maneira como ela ocorre natural- mente nos pequenos. Isso não quer dizer que ele descartasse totalmente o ensino diretivo, visto como um recurso legítimo caso o aluno não apresentasse o desenvolvimento esperado. De modo geral, no entanto, a pedagogia de Froebel pode ser considerada como defensora da liberdade. O educador acreditava que as crianças trazem consigo uma metodologia natural que as leva a aprender de acordo com os seus interesses e por meio de atividades práticas. Ele combatia o ex- cesso de abstração da educação do seu tempo, argumentando que isso afastava os alunos do Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da EducaçãoPública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 76 ~ aprendizado. Na primeira infância, dizia, o importante é trabalhar a percepção e a aquisição da lin- guagem. No período propriamente escolar, seria a vez de trabalhar a religião, as ciências naturais, a matemática, a linguagem e as artes. Froebel defendia a educação sem imposições às crianças porque, segundo a sua teoria, elas passam por diferentes estágios de capacidade de aprendizado, com características específicas, an- tecipando as ideias do suíço Jean Piaget (1896-1980). Froebel detectou três estágios: primeira in- fância, infância e idade escolar, demonstrando como a brincadeira e a fala - observadas pelo adulto - permitem apreender o nível de desenvolvimento e a forma de relacionamento infantil com o mundo exterior. Froebel não fez a separação entre a religião e o ensino, consagrada atualmente, mas via a educação como uma atividade em que a escola e a família caminham juntas, outra característica que o aproxima da prática contemporânea. Biografia - filho de um pastor protestante, Friedrich Froebel nasceu em Oberweissbach, no sudeste da Alemanha, em 1782. Nove meses depois do seu nascimento, a sua mãe morreu. Adotado por um tio, viveu uma infância solitária, em que se empenhou em aprender matemática e linguagem e a explorar as florestas perto de onde morava. Após cursar informalmente algumas matérias na Universidade de Jena, tornou-se professor e ainda jovem fez uma visita à escola do pedagogo Jo- hann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), em Yverdon, na Suíça. Em 1811, foi convocado a lutar nas guerras napoleônicas. Fundou a sua primeira escola em 1816, na cidade alemã de Griesheim. Dois anos depois, a escola foi transferida para Keilhau, onde Froebel pôs em prática as suas teorias pe- dagógicas. Em 1826, publicou o seu livro mais importante, A Educação do Ser humano. Em seguida, foi morar na Suíça, onde treinou professores e dirigiu um orfanato. Todas essas experiências servi- ram de inspiração para que ele fundasse o primeiro jardim de infância, na cidade alemã de Blanken- burg. Paralelamente, administrou uma gráfica que imprimiu instruções de brincadeiras e canções para serem aplicadas em escolas e em casa. Em 1851, confundindo Froebel com um sobrinho dele, que era esquerdista, o governo da Prússia proibiu as atividades dos jardins de infância. O educador morreu no ano seguinte, mas o banimento só foi suspenso em 1860, oito anos mais tarde. Os jardins de infância se espalharam, rapidamente, pela Europa e nos EUA, onde foram incorporados aos pre- ceitos educacionais do filósofo John Dewey (1859-1952). Novo conceito de infância na Europa Retrato da família de Maximiliano I, da Áustria, do séc. 15: as crianças com feições de adultos. Duas tendências históricas são essenciais para a compreensão da obra de Froebel: uma é a valorização da infância - que passou, entre o século XVIII e o século XIX, a ser encarada como uma fase da vida com particularidades bem marcantes e com duração longa (é dessa época também o surgimento do conceito de adolescência). Havia pouco tempo, era muito comum, de meninos euro- peus de 7 anos entrarem para as Forças Armadas. Cerca de um século antes do nascimento de Froe- bel, tamanha era a mortalidade infantil, que a infância não passava de um período de "teste" para candidatos a adultos. Na Idade Média, segundo o historiador francês Philippe Ariès, a ideia de in- fância, simplesmente, não existia, porque as crianças eram adultas à espera de adquirir a estatura "normal"; a outra tendência histórica marcante do período em que Froebel viveu, foi o individua- lismo burguês, simbolizado pela figura de Napoleão, que encarnava o ideal do ser humano que se fez sozinho e tornou-se imperador da França. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 77 ~ Para pensar - Froebel chegou às conclusões, sobre a psicologia infantil, observando as brin- cadeiras e os jogos das crianças. Diante das atividades espontâneas dos seus alunos, você já pensou que tem a oportunidade de entender a psicologia de cada um e depreender algumas características da faixa etária a que eles pertencem? ________________________________________________________________________________ 3.9. Henri Wallon, o educador integral Militante apaixonado, o médico, psicólogo e filósofo francês mostrou que as crianças têm também corpo e emoções (e não apenas cabeça) na sala de aula. Henri Wallon Falar que a escola deve proporcionar formação integral (intelectual, afetiva e social) às cri- anças é comum hoje em dia. No início do século passado, porém, essa ideia foi uma verdadeira revolução no ensino, comandada por Henri Wallon (1879-1962), médico, psicólogo e filósofo fran- cês, que afirmava, com a sua teoria pedagógica, que o desenvolvimento intelectual envolve muito mais do que um simples cérebro, abalando as convicções de então, em uma época em que a me- mória e a erudição eram o máximo, em termos da construção do conhecimento. Wallon foi o primeiro a levar, não só o corpo da criança, mas também, as suas emoções para dentro da sala de aula, fundamentando as suas ideias sobre quatro elementos básicos que se co- municam o tempo todo: a afetividade, o movimento, a inteligência e a formação do eu como pessoa. Militante apaixonado (tanto na política como na educação), dizia que reprovar é sinônimo de expul- sar, negar, excluir. Ou seja, "a própria negação do ensino". As emoções, para Wallon, têm papel preponderante no desenvolvimento da pessoa, e, é por meio delas que o aluno exterioriza os seus desejos e as suas vontades; em geral, são manifestações que expressam um universo importante e perceptível, mas pouco estimulado pelos modelos tradi- cionais praticados pela educação e ensino. Afetividade - as transformações fisiológicas em uma criança (ou, nas palavras de Wallon, em seu sistema neurovegetativo) revelam traços importantes de caráter e personalidade, para quem a emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer: a raiva, a alegria, o medo, a tristeza e os sentimentos mais profundos ganham função relevante na relação da criança com o meio, além de que, a emoção causa impacto no outro e tende a propagar-se no meio social e a afetividade é um dos principais elementos do desenvolvimento humano. Wallon na escola: humanizar a inteligência Desenho ilustra a proporção do corpo: pessoa como um todo Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 78 ~ Diferentemente dos métodos tradicionais (que priorizam a inteligência e o desempenho nas atividades diuturnas da escola), a proposta walloniana põe o desenvolvimento intelectual dentro de uma cultura mais humanizada, ao considerar a pessoa como um todo, em que os elementos como afetividade, emoções, movimento e espaço físico encontram-se em um mesmo plano. Deste modo, as atividades pedagógicas e os objetos, devem ser trabalhados de formas variadas. Numa sala de leitura, por exemplo, a criança pode ficar sentada, deitada ou fazendo coreografias da his- tória contada pelo professor. Os temas e as disciplinas não se restringem a trabalhar o conteúdo, mas a propiciar a descoberta do eu no outro, relação dialética que ajuda a desenvolver a criança em sintonia com o meio. Movimento - segundo a teoria de Wallon, as emoções dependem fundamentalmente da or- ganização dos espaços para se manifestarem. A motricidade, portanto, tem caráter pedagógico tanto pela qualidade do gestoe do movimento quanto por sua representação. Por que, então, a disposição do espaço não pode ser diferente? Não é o caso de quebrar a rigidez e a imobilidade adaptando a sala de aula para que as crianças possam movimentar-se mais? Mais que isso: que tipo de material é disponibilizado para os alunos em atividades lúdicas ou pedagógicas? Infelizmente, segundo o pensador, a escola insiste em imobilizar a criança numa carteira, limitando, justamente, a fluidez das suas emoções e do seu pensamento, tão necessários para o desenvolvimento completo da sua pessoa. Estudos realizados por Wallon, com crianças entre 6 e 9 anos, mostram que o desenvolvi- mento da inteligência depende, essencialmente, de como cada uma faz as diferenciações com a realidade exterior. Primeiro, porque, ao mesmo tempo, as suas ideias são lineares e misturam-se - ocasionando um conflito permanente entre dois mundos, o interior, povoado de sonhos e fantasias, e o real, cheio de símbolos, códigos e valores sociais e culturais. Nesse conflito entre essas situações antagônicas, ganha sempre a criança. É na solução dos confrontos que a inteligência evolui. Wallon diz que o sincretismo (mistura de ideias num mesmo plano), bastante comum nessa fase, é fator determinante para o desenvolvimento intelectual. Daí se estabelece um ciclo constante de boas e novas descobertas. O eu e o outro - a construção do eu na teoria de Wallon depende, essencialmente, do outro: seja para ser referência, seja para ser negado, principalmente, a partir do instante em que a criança começa a viver a chamada crise de oposição, em que a negação do outro, funciona como uma es- pécie de instrumento da descoberta de si própria. Isso ocorre aos 3 anos de idade, a hora de saber que "eu" sou. Daí, surge a manipulação (agredir ou jogar-se no chão para alcançar o objetivo), se- dução (fazer chantagem emocional com os pais e/ou os professores) e imitação do outro são carac- terísticas comuns nessa fase, e, até mesmo a dor, o ódio e o sofrimento são elementos estimulado- res da construção do eu. Isso justifica o espírito crítico da teoria walloniana aos modelos convenci- onais de educação. Biografia - Henri Wallon nasceu em Paris, França, em 1879. Graduou-se em medicina e psi- cologia. Fez também filosofia. Atuou como médico na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), aju- dando a cuidar de pessoas com distúrbios psiquiátricos. Em 1925, criou um laboratório de psicologia biológica da criança. Quatro anos mais tarde, tornou-se professor da Universidade Sorbonne e vice- presidente do Grupo Francês de Educação Nova - instituição que ajudou a revolucionar o sistema de ensino daquele país e da qual foi presidente de 1946 até morrer, também em Paris, em 1962. Ao longo de toda a vida, dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência nas crianças. Como militante de esquerda, participou das forças de resistência contra Adolf Hitler e foi perseguido pela Gestapo (a polícia política nazista) durante a Segunda Guerra (1939-1945). Em 1947, propôs mudanças estruturais no sistema educacional francês, coordenando o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon (um conjunto de propostas equivalente à nossa Lei de Diretrizes e Bases/96), onde está escrito, por exemplo, que nenhum aluno deve ser reprovado em uma Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 79 ~ avaliação escolar. Em 1948, lançou a revista Enfance, que serviria de plataforma às novas ideias no mundo da educação, transformando-se, rapidamente, em uma espécie de “bíblia” para os pesqui- sadores e professores. Um mundo em crise Soldados celebram o fim da Primeira Guerra em Paris: conflitos em série. Crises sociais e instabilidades políticas foram fundamentais para o francês Henri Wallon construir a sua teoria pedagógica. As duas grandes guerras mundiais, o avanço dos regimes fascista e nazista na Europa, a revolução comunista na Rússia e as guerras pela libertação das colônias afri- canas, na primeira metade do século XX, serviram de estímulo para que ele organizasse as suas ideias. A valorização da afetividade (emoções) como elemento essencial no desenvolvimento da pessoa, trouxe um novo alento à filosofia da educação. Isso explica, em parte, a visão marxista que deu à sua obra e porque aderiu, no período anterior à Primeira Guerra, aos movimentos de esquerda e ao Partido Socialista Francês. "Ditadura e educação", dizia ele, "são inimigos eternos.". Para pensar - a teoria de Henri Wallon ainda é um desafio para muitos pais, escolas e pro- fessores. A sua obra faz uma resistência contumaz aos métodos pedagógicos tradicionais. Numa época de crises, guerras, separações e individualismos como a nossa, não seria melhor começar a pôr em prática nas escolas, ideias mais humanistas, que valorizem desde cedo a importância das emoções? ________________________________________________________________________________ 3.10. Jean Piaget, o biólogo que colocou a aprendizagem no microscópio. O cientista suíço revolucionou o modo de encarar a educação de crianças ao mostrar que elas não pensam como os adultos e constroem o próprio aprendizado. Jean Piaget Jean Piaget (1896-1980) foi o nome mais influente no campo da educação, durante a se- gunda metade do século XX, a ponto de quase tornar-se sinônimo de pedagogia. Não existe, entre- tanto, um método Piaget, como ele próprio gostava de frisar; ele nunca atuou como pedagogo: antes de mais nada, Piaget foi biólogo e dedicou-se a submeter à observação científica rigorosa o processo da aquisição de conhecimento pelo ser humano, particularmente a criança. Do estudo das concepções infantis de tempo, espaço, causalidade física, movimento e velo- cidade, Piaget criou um campo de investigação que denominou Epistemologia Genética: uma teoria do conhecimento centrada no desenvolvimento natural da criança. Segundo ele, o pensamento in- fantil passa por quatro estágios, desde o nascimento até o início da adolescência, quando a capaci- dade plena de raciocínio é atingida. A grande contribuição de Piaget foi estudar o raciocínio lógico-matemático, que é funda- mental na escola mas não pode ser ensinado, dependendo de uma estrutura de conhecimento da criança, mas todas as descobertas de Piaget tiveram grande impacto na pedagogia, demonstrando que a transmissão de conhecimentos é uma possibilidade limitada: se por um lado, não se pode Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 80 ~ fazer uma criança aprender o que ela ainda não tem condições de absorver, por outro, mesmo tendo essas condições, não vai interessar-se, se não for por conteúdos que lhe façam falta, em termos cognitivos, porque, para ele, o conhecimento dá-se por descobertas que a própria criança faz - um mecanismo que outros pensadores antes dele já haviam intuído, mas que ele submeteu à compro- vação na prática: vem de Piaget a ideia de que o aprendizado é construído pelo aluno e é sua a teoria que inaugura a corrente construtivista. Educar, para Piaget, é "provocar a atividade" - isto é, estimular a procura do conhecimento, donde se conclui que o professor não deve pensar no que a criança é, mas no que ela pode se tornar. Assimilação e acomodação - com Piaget, ficou claro que as crianças não raciocinam como os adultos e apenas, gradualmente, se inserem nas regras, nos valores e nos símbolos da maturidade psicológica, através de dois mecanismos: a assimilação e a acomodação. A assimilação consiste em incorporar objetos do mundo exterior a esquemas mentais pree- xistentes. Por exemplo: a criança que tem a ideiamental de uma ave como animal voador, com penas e asas, ao observar um avestruz vai tentar assimilá-lo a um esquema que não corresponde totalmente ao conhecido. A acomodação refere-se a modificações dos sistemas de assimilação por influência do mundo externo. Assim, depois de aprender que um avestruz não voa, a criança vai adaptar o seu conceito "geral" de ave para incluir as que não voam. Estágios de desenvolvimento - um conceito essencial da epistemologia genética é o egocen- trismo, que explica o caráter mágico e pré-lógico do raciocínio infantil. A maturação do pensamento rumo ao domínio da lógica consiste num abandono gradual do egocentrismo. Com isso adquire-se a noção de responsabilidade individual, indispensável para a autonomia moral da criança. Segundo Piaget, há quatro estágios básicos do desenvolvimento cognitivo: O primeiro é o estágio sensório-motor, que vai até os 2 anos, tempo em que as crianças ad- quirem a capacidade de administrar os seus reflexos básicos para que gerem ações prazerosas ou vantajosas. É um período anterior à linguagem, no qual o bebê desenvolve a percepção de si mesmo e dos objetos à sua volta. O estágio pré-operacional vai dos 2 aos 7 anos e caracteriza-se pelo surgimento da capaci- dade de dominar a linguagem e a representação do mundo por meio de símbolos. A criança continua egocêntrica e ainda não é capaz, moralmente, de colocar-se no lugar de outra pessoa. O estágio das operações concretas, dos 7 aos 11 ou 12 anos, tem como marca a aquisição da noção de reversibilidade das ações. Surge a lógica nos processos mentais e a habilidade de discrimi- nar os objetos por similaridades e diferenças. A criança já pode dominar conceitos de tempo e nú- mero. Por volta dos 12 anos começa o estágio das operações formais, que marca a entrada na idade adulta, em termos cognitivos. O adolescente passa a ter o domínio do pensamento lógico e dedu- tivo, o que o habilita à experimentação mental, implicando, dentre outras coisas, na possibilidade de relacionar conceitos abstratos e raciocinar sobre hipóteses. Ajudando o desenvolvimento do aluno Brincadeira de casinha: estímulo aos alunos na idade da representação. A obra de Piaget leva à conclusão de que o trabalho de educar crianças não se refere tanto à transmissão de conteúdos quanto a favorecer a atividade mental do aluno. Conhecer a sua obra, portanto, pode ajudar o professor a tornar o seu trabalho mais eficiente. Algumas escolas planejam Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 81 ~ as suas atividades de acordo com os estágios do desenvolvimento cognitivo. Nas classes de Educa- ção Infantil com crianças entre 2 e 3 anos, por exemplo, não é difícil perceber que elas estão em plena descoberta da representação: começam a brincar de ser outra pessoa, com imitação das ati- vidades vistas em casa e dos personagens das histórias. A escola fará bem, em dar vazão a isso, promovendo uma ampliação do repertório das referências. Mas é importante lembrar que os mo- delos teóricos são sempre parciais e que, no caso de Piaget em particular, não existem receitas para a sala de aula. Biografia - Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896. Aos 10 anos publicou o seu primeiro artigo científico, sobre um pardal albino. Desde cedo, interessado em filosofia, religião e ciência, formou-se em biologia na universidade de Neuchâtel e, aos 23 anos, mudou-se para Zuri- que, onde começou a trabalhar com o estudo do raciocínio da criança, sob a ótica da psicologia experimental. Em 1924, publicou o primeiro de mais de 50 livros, A Linguagem e o Pensamento na Criança. Antes do fim da década de 1930, já havia ocupado cargos importantes nas principais uni- versidades suíças, além da diretoria do Instituto Jean-Jacques Rousseau, ao lado do seu mestre, Édouard Claparède (1873-1940). Foi também nesse período que acompanhou a infância dos três filhos, uma das grandes fontes do trabalho de observação do que chamou de "ajustamento progres- sivo do saber". Até o fim da vida, recebeu títulos honorários de algumas das principais universidades europeias e norte-americanas. Morreu em 1980 em Genebra, Suíça. Para pensar - os críticos de Piaget costumam dizer que ele deu importância excessiva aos processos individuais e internos da aquisição do aprendizado. Os que afirmam isso, em geral, con- trapõem a obra piagetiana à do pensador bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934). Para ele, como para Piaget, o aprendizado dá-se por interação entre as estruturas internas e os contextos externos. A diferença é que, segundo Vygotsky, esse aprendizado depende fundamentalmente da influência ativa do meio social, que Piaget tendia a considerar apenas uma "interferência" na construção do conhecimento. Piaget queria abordar o conhecimento do ponto de vista de qualquer criança. Pela sua experiência em sala de aula, que peso o meio social tem nos processos propria- mente cognitivos das crianças? Como você pode influir nisso? ________________________________________________________________________________ 3.11. John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco. O filósofo norte-americano defendia a democracia e a liberdade de pensamento, como ins- trumentos para a maturação emocional e intelectual das crianças. John Dewey Quantas vezes você já ouviu falar na necessidade de valorizar a capacidade de pensar dos alunos? De prepará-los para questionar a realidade? De unir teoria e prática? De problematizar? Se você se preocupa com essas questões, já esbarrou, mesmo sem saber, em algumas das concepções de John Dewey (1859-1952), filósofo norte-americano que influenciou os educadores de várias par- tes do mundo. No Brasil, inspirou o Movimento dos Pioneiros da Educação Nova (em 1932 e 1959), liderado por Anísio Teixeira, ao colocar a atividade prática e a democracia como importantes ingre- dientes da educação. http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/lev-vygotsky-teorico-423354.shtml Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 82 ~ Dewey é o nome mais célebre da corrente filosófica que ficou conhecida como pragmatismo, embora ele preferisse o nome instrumentalismo - uma vez que, para essa escola de pensamento, as ideias só têm importância desde que sirvam de instrumento para a resolução de problemas reais. No campo específico da pedagogia, a teoria de Dewey inscreve-se na chamada educação progres- siva. Um dos seus principais objetivos é educar a criança como um todo, importando o crescimento: físico, emocional e intelectual. O princípio é que os alunos aprendem melhor realizando tarefas associadas aos conteúdos ensinados. Atividades manuais e criativas ganharam destaque no currículo e as crianças passaram a ser estimuladas a experimentar e pensar por si mesmas. Nesse contexto, a democracia ganha peso, por ser a ordem política que permite o maior desenvolvimento dos indivíduos, no papel de decidir em conjunto, o destino do grupo a que pertencem. Dewey defendia a democracia, tanto no campo institucional, como também, no interior das escolas. Estímulo à cooperação - influenciado pelo empirismo, Dewey criou uma escola-laboratório ligada à universidade onde lecionava, para testar os seus métodos pedagógicos. Ele insistia na ne- cessidade de estreitar a relação entre teoria e prática, pois acreditava que as hipóteses teóricas só têm sentido no dia a dia. Outro ponto chave da sua teoria é a crença de que o conhecimento é construído de consensos, resultantes de discussões coletivas. "O aprendizado se dá quando com- partilhamos experiências, e isso sóé possível num ambiente democrático, onde não haja barreiras ao intercâmbio de pensamento", escreveu. Por isso, a escola deve proporcionar práticas conjuntas e promover situações de cooperação, em vez de lidar com as crianças de forma isolada. O seu grande mérito foi ter sido um dos primeiros a chamar a atenção para a capacidade de pensar dos alunos. Dewey acreditava que, para o sucesso do processo educativo, bastava um grupo de pessoas comunicando-se e trocando ideias, sentimentos e experiências sobre as situações práti- cas do dia a dia. Ao mesmo tempo, reconhecia que, à medida que as sociedades foram ficando complexas, a distância entre os adultos e as crianças ampliou-se demais, daí a necessidade da es- cola, um espaço onde as pessoas se encontram para educar e serem educadas. O papel dessa insti- tuição, segundo ele, é reproduzir a comunidade em miniatura, apresentar o mundo de um modo simplificado e organizado e, aos poucos, conduzir as crianças ao sentido e à compreensão das coisas mais complexas. Em outras palavras: o objetivo da escola deveria ser ensinar a criança a viver no mundo. "Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em ou- tro, vivendo", ensinou, argumentando que o aprendizado se dá justamente, quando os alunos são colocados diante de problemas reais. A educação, na visão deweyana, é "uma constante reconstru- ção da experiência, de forma a dar-lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a res- ponder aos desafios da sociedade". Educar, portanto, é mais do que reproduzir conhecimentos, é incentivar o desejo de desenvolvimento contínuo, preparar pessoas para transformar algo. A experiência educativa é, para Dewey, reflexiva, resultando em novos conhecimentos, de- vendo seguir alguns pontos essenciais, em relação ao aluno. Que ele esteja em uma verdadeira si- tuação de experimentação, que a atividade o interesse, que haja um problema a resolver, que ele possua os conhecimentos para agir diante da situação e que tenha a chance de testar as suas ideias. Reflexão e ação devem estar ligadas, são parte de um todo indivisível. Dewey acreditava que só a inteligência dá ao ser humano a capacidade de modificar o ambiente a seu redor. Liberdade intelectual para o aluno - a filosofia deweyana remete a uma prática docente baseada na liberdade do aluno para elaborar as próprias certezas, os próprios conhecimentos, as próprias regras morais. Isso não significa reduzir a importância do currículo ou dos saberes do edu- cador. Para Dewey, o professor deve apresentar os conteúdos escolares na forma de questões ou problemas e jamais dar de antemão respostas ou soluções prontas. Em lugar de começar com defi- nições ou conceitos já elaborados, deve usar procedimentos que façam o aluno raciocinar e elaborar os próprios conceitos para depois confrontá-los com o conhecimento sistematizado. Pode-se Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 83 ~ afirmar que as teorias mais modernas da didática, como o construtivismo e as bases teóricas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN’s) e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) têm inspiração nas ideias do educador. Biografia - John Dewey nasceu em 1859 em Burlington, uma pequena cidade agrícola do estado norte-americano de Vermont. Na escola, teve uma educação desinteressante e desestimu- lante, o que foi compensado pela formação que recebeu em casa. Ainda criança, via a sua mãe confiar aos filhos pequenas tarefas para despertar-lhes o senso de responsabilidade. Foi professor secundário por três anos, antes de cursar a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Estudou artes e filosofia e tornou-se professor da Universidade de Minnesota. Escreveu sobre filosofia e educação, além de arte, religião, moral, teoria do conhecimento, psicologia e política. O seu inte- resse por pedagogia nasceu da observação de que a escola do seu tempo continuava, em grande parte, orientada por valores tradicionais, e não havia incorporado as descobertas da psicologia, nem acompanhara os avanços políticos e sociais. Fiel à causa democrática, participou de vários movi- mentos sociais. Criou uma universidade-exílio para acolher estudantes perseguidos em países de regimes totalitários. Morreu em 1952, aos 93 anos. A defesa irrestrita do experimentalismo - em quase um século, Dewey presenciou muitas transformações: viu o fim da Guerra Civil Americana, o desenvolvimento tecnológico, a Revolução Russa de 1917, a crise econômica de 1929. Em parte, nasceu dessa efervescência mundial a sua concepção mutável da realidade e dos valores, além da convicção de que só a inteligência dá ao ser humano o poder de alterar a sua existência. "Idealizar e racionalizar o universo em geral é uma confissão de incapacidade de dominar os cursos das coisas que especificamente nos dizem res- peito", escreveu. Essa perspectiva levou Dewey a rejeitar a ideia de leis morais fixas e imutáveis. Como boa parte dos intelectuais do seu tempo, o filósofo norte-americano sofreu forte influência, tanto do evolucionismo das ciências naturais, quanto do positivismo das ciências humanas. Defendia a utilização, diante dos problemas sociais, dos métodos e atitudes experimentais que foram bem- sucedidos nas ciências naturais, procurando, ele próprio, a aplicar essa abordagem em relação à investigação filosófica e à didática. A escola-laboratório criada por Dewey em Chicago: a prática acima de tudo Para pensar - Uma das principais lições deixadas por John Dewey é a de que, não havendo separação entre a vida e a educação, esta deve preparar para a vida, promovendo o seu constante desenvolvimento, por isso afirmava que: "as crianças não estão, num dado momento, sendo prepa- radas para a vida e, em outro, vivendo". Então, qual é a diferença entre preparar para a vida e para passar de ano? Como educar alunos que têm realidades tão diferentes entre si e que, provavel- mente, terão também futuros tão distintos? ________________________________________________________________________________ 3.12. Pestalozzi, o teórico que incorporou o afeto à sala de aula. O educador suíço Johann Heinrich Pestalozzi considerava os sentimentos com o poder de despertar o processo da aprendizagem autônoma na criança. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 84 ~ Pestalozzi Para a mentalidade contemporânea, amor talvez não seja a primeira palavra que venha à cabeça quando se fala em ciência, método ou teoria. Mas o afeto teve papel central na obra de pensadores que lançaram os fundamentos da pedagogia moderna. Nenhum deles deu mais impor- tância ao amor, em particular ao amor materno, do que o suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746- 1827). Antecipando as concepções do movimento da Escola Nova, que só surgiria na virada do sé- culo XIX para o século XX, Pestalozzi afirmava que a função principal do ensino é levar as crianças a desenvolver as suas habilidades naturais e inatas, considerando que o amor deflagra o processo da autoeducação. A escola idealizada por Pestalozzi deveria ser, não só, uma extensão do seu lar, como inspi- rar-se no ambiente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, o pensador suíço não concordava totalmente com o elogio da razão humana. Para ele, só o amor tinha força salvadora, capaz de levar o ser humano à plena rea- lização moral - isto é, encontrar conscientemente, dentro de si, a essência divina que lhe dá liber- dade. Para isso, chega ao ponto de afirmarque a religiosidade humana nasce da relação afetiva da criança com a mãe, por meio da sensação de providência. Inspiração na natureza - a vida e a obra de Pestalozzi estão, intimamente, ligadas à religião. Cristão devoto e seguidor do protestantismo, ele se preparou para o sacerdócio, mas abandonou a ideia em favor da necessidade de viver junto da natureza e de experimentar as suas ideias a respeito da educação. Seu pensamento permaneceu impregnado da crença, na manifestação da divindade no ser humano e na caridade, que ele praticou, principalmente, em favor dos pobres. A criança, na visão de Pestalozzi, desenvolve-se de dentro para fora - ideia oposta à concep- ção de que a função do ensino é preenchê-la de informação. Para o pensador suíço, um dos cuidados principais do professor deveria ser respeitar os estágios de desenvolvimento pelos quais a criança passa, dar atenção à sua evolução, às suas aptidões e às suas necessidades, de acordo com as dife- rentes idades, como partes de uma missão maior do educador: a de saber ler e imitar a natureza – inspirando-se nela, para aplicar o método pedagógico. Sem notas, castigos ou prêmios: Escola pestalozziana contemporânea na Suíça (Educação integral) Ao contrário de Rousseau, cuja teoria é idealizada, Pestalozzi experimentava a sua teoria e a tirava na prática, nas várias escolas que criou, aplicando em classe o seu princípio da educação in- tegral - isto é, não limitada à absorção de informações. Segundo ele, o processo educativo deveria englobar três dimensões humanas, identificadas com a cabeça, a mão e o coração. O objetivo final do aprendizado deveria ser uma formação também tripla: intelectual, física e moral, reduzindo o Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 85 ~ método de estudo a seus três elementos mais simples: som, forma e número. Só depois da percep- ção viria a linguagem. Com os instrumentos adquiridos desse modo, o estudante teria condições de encontrar em si mesmo liberdade e autonomia moral. Como alcançar esse objetivo dependia de uma trajetória íntima, pois Pestalozzi não acreditava em julgamento externo, argumentos que fize- ram com que em suas escolas não houvesse notas ou provas, castigos ou recompensas, em uma época em que chicotear os alunos era comum, substituindo a disciplina exterior pelo cultivo da dis- ciplina interior, essencial à moral protestante. Bondade potencial - tanto a defesa de uma volta à natureza, quanto a construção de novos conceitos de criança, família e instrução a que Pestalozzi se dedicou, devem muito à sua leitura do filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nome central do pensamento iluminista. Ambos consideravam o ser humano do seu tempo, excessivamente, cerceado pelas convenções so- ciais e as influências do meio, distanciado da sua índole original - que seria, essencialmente, boa para Rousseau e potencialmente fértil, mas egoísta e submissa aos sentidos, para Pestalozzi. Pestalozzi concebia a criança como um ser puro, bom em sua essência e possuidor de uma natureza divina que deveria ser cultivada e descoberta para atingir a plenitude, o que o levava a comparar o ofício do professor ao do jardineiro, que devia providenciar as melhores condições ex- ternas, para que as plantas seguissem o seu desenvolvimento natural. Ele gostava de lembrar que a semente traz em si o "projeto" da árvore toda. Desse modo, o aprendizado seria, em grande parte, conduzido pelo próprio aluno, com base na experimentação prática e na vivência intelectual, sensorial e emocional do conhecimento. É a ideia do "aprender fazendo", amplamente incorporada pela maioria das escolas pedagógicas, pos- teriores a Pestalozzi. O método deveria partir do conhecido para o novo e do concreto para o abs- trato, com ênfase na ação e na percepção dos objetos, mais do que nas palavras. O que importava não era tanto o conteúdo, mas o desenvolvimento das habilidades e dos valores. Biografia - Johann Heinrich Pestalozzi nasceu em 1746 em Zurique, na Suíça. Na juventude, ele abandonou os estudos religiosos para dedicar-se à agricultura. Quando a empreitada se tornou o primeiro de muitos fracassos materiais da sua vida, Pestalozzi levou algumas crianças pobres para casa, onde encontraram escola e trabalho como tecelãs, aprendendo a sustentar-se. Alguns anos depois, a escola inviabilizou-se e Pestalozzi passou a explorar as suas ideias em livros, entre eles, Os Crepúsculos de um Eremita e o romance Leonardo e Gertrudes. Uma nova chance de exercitar o seu método só surgiu, quando ele já tinha mais de 50 anos, ao ser chamado para dar aulas aos órfãos da batalha de Stans. Mais duas experiências seguiram-se, em escolas de Burgdorf e Yverdon. Nesta última, que existiu de 1805 a 1825, Pestalozzi desenvolveu o seu projeto mais abrangente, dando aulas para estudantes de várias origens e comandando uma equipe de professores, no entanto, divergências entre eles, levaram a escola a fechar. Yverdon projetou o nome de Pestalozzi no exte- rior e foi visitada por muitos dos grandes educadores da época. ________________________________________________________________________________ 3.13. Karl Marx, o filósofo da revolução. O pensador alemão, um dos mais influentes de todos os tempos, investigou a mecânica do capitalismo e previu que o sistema seria superado pela emancipação dos trabalhadores. Karl Marx Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 86 ~ Em uma de suas frases mais famosas - escrita em 1845 - o pensador alemão Karl Marx (1818- 1883) dizia que, até então, os filósofos haviam interpretado o mundo de várias maneiras. "Cabe agora transformá-lo", concluía. Coerentemente com essa ideia, durante a sua vida combinou o es- tudo das ciências humanas com a militância revolucionária, criando um dos sistemas de ideias mais influentes da história. Direta ou indiretamente, a obra do filósofo alemão originou várias vertentes pedagógicas, comprometidas com a mudança da sociedade. Para Marx, a educação participa do processo de transformação das condições sociais, sendo, ao mesmo tempo, condicionada pelo pro- cesso. No século XX, o pensamento de Marx recebeu numerosas interpretações, que foram agru- padas sob a classificação de "marxismo". Algumas, sustentaram regimes políticos duradouros, como o comunismo soviético (1917-1991) e o chinês (em vigor desde 1949). Muitos governos comunistas entraram em colapso, por oposição popular, nas décadas de 1980 e 1990. Em recente pesquisa da rádio BBC, que mobilizou grande parte da imprensa inglesa, Marx foi eleito o filósofo mais impor- tante de todos os tempos. Luta de classes - na base do pensamento de Marx está a ideia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade e, o conflito que explica a história é a luta de classes, porque: as socieda- des estruturam-se de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante; no capitalismo, a classe dominante é a burguesia e, o proletariado é aquela que vende a sua força de trabalho e recebe apenas, parte do valor que produz. O marxismo prevê que o proletariado irá libertar-se dos vínculos com as forças opressoras dando origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo me- dieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel cen- tral. "O moinho de vento nos dá uma sociedadecom senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial", escreveu Marx. A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões po- líticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes - como O Manifesto Comunista, em parceria com Friedrich Engels - e trabalhos de grande fôlego, como a sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro dos quatro volumes lançado antes da sua morte. A complexidade da obra de Marx, com as suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de in- terpretações feitas pelos seus seguidores. Trabalho e alienação - em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo da produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a ideia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia. Marx abordou as relações capitalistas como um fenômeno histórico, mutável e contraditó- rio, trazendo em si, impulsos de ruptura. Um desses impulsos, resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho - caracterís- tica do industrialismo, em que cabe a cada um, apenas, uma pequena etapa da produção -, o em- pregado fica alienado do processo total. Além disso, o retorno da produção de cada ser humano é uma quantia em dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo - do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário - tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 87 ~ Por outro lado, esse processo dá-se à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão de obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a bus- car produtos fora do seu alcance, o que os pressiona a querer romper com a própria alienação. Um dos objetivos da revolução prevista por Marx, é recuperar em todos os seres humanos, o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. Observando-se o mundo atual, conclui-se que a superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, com um processo de aceleração da revolução prole- tária para alcançar as metas de uma sociedade comunista. Aprendizado para a mente, o corpo e as mãos Litografia do século 19 mostra uma indústria metalúrgica italiana: Marx aprovava o uso das fábricas para o ensino. A função social da educação, para Marx, era combater a alienação e a desumanização. Para isso, seria necessário aprender as competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social. O filósofo alertava para o risco da escola ensinar conteúdos sujeitos a inter- pretações "de partido ou de classe". Ele valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrela- mento a políticas de Estado - o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instru- ção das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a serem aproveitadas para um ensino transfor- mador - principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais impor- tante, no entanto, seria ir contra a tendência "profissionalizante", que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário, para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser, ao mesmo tempo intelectual, física e técnica, concepção, que foi cha- mada de "omnilateral" (múltipla), diferente da visão de educação "integral" porque esta tem uma conotação moral e afetiva que, para Marx, não deveria ser trabalhada pela escola, mas por "outros adultos". O filósofo não chegou a fazer uma análise profunda da educação com base na teoria que ajudou a criar. Isso ficou para alguns dos seus seguidores, como o italiano Antonio Gramsci (1891- 1937), o ucraniano Anton Makarenko (1888-1939) e a russa Nadia Krupskaia (1869-1939). Biografia - Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas interessou-se mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal mudou-se para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro. Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, engajou-se cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx estabeleceu-se em Londres em 1849, onde viveu na miséria, durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels, morrendo, nesse período, dois dos seus quatro filhos. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Inter- nacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Ba- kunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris tornou-o conhecido internacionalmente. Na última Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 88 ~ década da sua vida, a sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres. Tempo de utopias e rebeliões na Europa Militares derrubam a estátua de Napoleão na Comuna de Paris: Marx chega às ruas. Marx viveu em uma época em que a Europa se debatia em conflitos, tanto no campo das ideias como no das instituições. Já na universidade, as doutrinas socialistas e anarquistas encontra- vam-se no centro das discussões dos grupos que Marx frequentava. Alguns dos pensadores, que então alimentavam as esperanças transformadoras dos estudantes, hoje são chamados de "socia- listas utópicos", como o britânico Robert Owen (1771-1858) e os franceses Charles Fourier (1772- 1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Dois momentos da história europeia foram vividos por Marx, intensamente, e tiveram importantes reflexos em sua obra: as revoltas antimonárquicas de 1848 - na Itália, na França, na Alemanha e na Áustria - e a Comuna de Paris, que, durante pouco mais de três meses em 1871, levou os operários ao poder, influenciados pelas ideias do próprio Marx. A insurreição acabou reprimida, com um saldo de 20 mil mortes, 38 mil prisões e 7 mil depor- tações. Para pensar - a alienação de que Marx fala é a consequência do afastamento entre os inte- resses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se, também, do abismo entre o que se aprende, apenas, para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação, que realmente, ajude o ser humano a exercer as suas potencialidades. Você já pensou se a educa- ção, como é praticada ao seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas, a objetivos limitados pelas circunstâncias?________________________________________________________________________________ 3.14. Lev Vygotsky, o teórico do ensino como processo social. A obra do psicólogo ressalta o papel da escola no desenvolvimento mental das crianças e é uma das mais estudadas pela pedagogia contemporânea. Lev Vygotsky O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) morreu há mais de 70 anos, mas a sua obra ainda está em pleno processo de descoberta e debate, em vários pontos do mundo, incluindo o Brasil, especialmente, porque foi um pensador complexo e tocou em muitos pontos nevrálgicos da pedagogia contemporânea, havendo muitos pontos de contato entre os estudos de Vygotsky sobre a linguagem escrita e o trabalho da argentina Emilia Ferreiro, a mais influente dos educadores vivos. A parte mais conhecida da extensa obra produzida por Vygotsky, em seu curto tempo de vida, converge para o tema da criação da cultura. Aos educadores, interessam em particular, os estudos sobre o desenvolvimento intelectual, em que o pensador atribuía um papel, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 89 ~ preponderante, às relações sociais nesse processo, tanto que a corrente pedagógica que se originou do seu pensamento é chamada de socioconstrutivismo ou sociointeracionismo. Relação ser humano-ambiente - os estudos de Vygotsky sobre o aprendizado, decorrem da compreensão do ser humano como um ser que se forma em contato com a sociedade. "Na ausência do outro, o ser humano não se constrói ser humano", escreveu o psicólogo. Ele rejeitava tanto as teorias inatistas, segundo as quais o ser humano já carrega ao nascer, as características que desen- volverá ao longo da vida, quanto as empiristas e comportamentais, que veem o ser humano como um produto dos estímulos externos. Para Vygotsky, a formação dá-se em uma relação dialética en- tre o sujeito e a sociedade a seu redor - ou seja, o ser humano modifica o ambiente e o ambiente modifica o ser humano. Essa relação não é passível de muita generalização; o que interessa para a teoria de Vygotsky é a interação que cada pessoa estabelece com determinado ambiente, a cha- mada experiência pessoalmente significativa. Segundo Vygotsky, apenas as funções psicológicas elementares caracterizam-se como refle- xos. Os processos psicológicos mais complexos - ou funções psicológicas superiores, que diferen- ciam os humanos dos outros animais - só se formam e se desenvolvem pelo aprendizado, dentre as quais, estão as funções complexas da consciência e do discernimento, conforme os exemplos que citava: uma criança nasce com as condições biológicas de falar, mas só desenvolverá a fala se apren- der com os mais velhos da comunidade. Outro conceito chave de Vygotsky é a mediação. Segundo a teoria vygotskiana, toda relação do indivíduo com o mundo é feita por meio de instrumentos técnicos - como, por exemplo, as fer- ramentas agrícolas, que transformam a natureza - e da linguagem - que traz consigo conceitos con- solidados da cultura à qual pertence o sujeito. O papel do adulto - todo aprendizado é necessariamente mediado e isso torna o papel do ensino e do professor mais ativo e determinante do que o previsto por Piaget e outros pensadores da educação, para quem cabe à escola facilitar um processo que só pode ser conduzido pelo próprio aluno. Segundo Vygotsky, ao contrário, o primeiro contato da criança com novas atividades, habili- dades ou informações deve ter a participação de um adulto. Ao internalizar um procedimento, a criança "se apropria" dele, tornando-o voluntário e independente. Desse modo, o aprendizado não se subordina, totalmente, ao desenvolvimento das estrutu- ras intelectuais da criança, mas um alimenta-se do outro, provocando saltos de nível de conheci- mento. O ensino, para Vygotsky, deve antecipar-se ao que o aluno ainda não sabe, nem é capaz de aprender sozinho, porque, na relação entre o aprendizado e o desenvolvimento, o primeiro vem antes. É a isso que se refere um dos seus principais conceitos, o de zona de desenvolvimento proxi- mal, que seria a distância entre o desenvolvimento real de uma criança e aquilo que ela tem o po- tencial de aprender - potencial que é demonstrado pela capacidade de desenvolver uma competên- cia com a ajuda de um adulto. Em outras palavras: a zona de desenvolvimento proximal é o caminho entre o que a criança consegue fazer sozinha e o que ela está perto de conseguir fazer sozinha. Saber identificar essas duas capacidades e trabalhar o percurso de cada aluno, entre ambas, são as duas principais habilidades que um professor precisa ter, segundo Vygotsky. Expansão dos horizontes mentais - como Piaget, Vygotsky não formulou uma teoria peda- gógica, embora o pensamento do psicólogo bielo-russo, com a sua ênfase no aprendizado, ressalte a importância da instituição escolar na formação do conhecimento. Para ele, a intervenção pedagó- gica provoca avanços que não ocorreriam espontaneamente. Ao formular o conceito de zona pro- ximal, Vygotsky mostrou que o bom ensino é aquele que estimula a criança a atingir um nível de compreensão e habilidade que ainda não domina completamente, "puxando" dela um novo conhe- cimento, porque ensinar o que a criança já sabe desmotiva o aluno e ir além de sua capacidade é inútil. O psicólogo considerava ainda, que todo aprendizado amplia o universo mental do aluno. O ensino de um novo conteúdo não se resume à aquisição de uma habilidade ou de um conjunto de Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 90 ~ informações, mas amplia as estruturas cognitivas da criança. Assim, por exemplo, com o domínio da escrita, o aluno adquire, também, capacidades de reflexão e controle do próprio funcionamento psicológico. Biografia - Lev Semenovitch Vygotsky nasceu em 1896 em Orsha, pequena cidade perto de Minsk, a capital da Bielo-Rússia, região então dominada pela Rússia (e que só se tornou indepen- dente em 1991, com a desintegração da União Soviética, adotando o nome de Belarus). Seus pais eram de uma família judaica culta e com boas condições econômicas, o que permitiu a Vygotsky uma formação sólida, desde criança. Ele teve um tutor particular, até entrar no curso secundário e dedicou-se, desde cedo, a muitas leituras. Aos 18 anos, matriculou-se no curso de medicina em Moscou, mas acabou cursando a faculdade de direito. Formado, voltou a Gomel, na Bielo-Rússia, em 1917, ano da revolução bolchevique, que ele apoiou. Lecionou literatura, estética e história da arte e fundou um laboratório de psicologia - área em que rapidamente ganhou destaque, graças à sua cultura enciclopédica, o seu pensamento inovador e a sua intensa atividade, tendo produzido mais de 200 trabalhos científicos. Em 1925, já sofrendo da tuberculose que o mataria em 1934, publicou A Psicologia da Arte, um estudo sobre Hamlet, de William Shakespeare, cuja origem é a sua tese de mestrado. Tempo de revolução: Lênin discursa em São Petersburgo (então Petrogrado) em março de 1917 (Agitação política e cultural) Em menos de 38 anos de vida, Vygotsky conheceu momentos políticos, drasticamente dife- rentes, que tiveram forte influência em seu trabalho. Nascido sob o regime dos czares russos, Vygotsky acompanhou de perto, como estudante e intelectual, os acontecimentos que levaram à revolução comunista de 1917. O período que se seguiu foi marcado, entre outras coisas, por um clima de efervescência intelectual, com a abertura de espaço para as vanguardas artísticas e o pen- samento inovador nas ciências, além de uma preocupação em promover políticas educacionais efi- cazes eabrangentes. Logo após a revolução, Vygotsky intensificou os seus estudos sobre a psicolo- gia. Visitou comunidades rurais, onde pesquisou a relação entre o nível de escolaridade e o conhe- cimento e a influência das tradições no desenvolvimento cognitivo. Com a ascensão ao poder de Josef Stalin, em 1924, o ambiente cultural ficou cada vez mais limitado. Vygotsky usou a dialética marxista para a sua teoria de aprendizado, mas a sua análise da importância da esfera social no desenvolvimento intelectual, era criticada por não se basear na luta de classes, como se tornara obrigatório na produção científica soviética. Em 1936, dois anos após a sua morte, toda a obra de Vygotsky foi censurada pela ditadura de Stalin e assim permaneceu por 20 anos. Para pensar - Vygotsky atribuiu muita importância ao papel do professor como impulsiona- dor do desenvolvimento psíquico das crianças. A ideia de um maior desenvolvimento, conforme um maior aprendizado não quer dizer, porém, que se deve apresentar uma quantidade enciclopédica de conteúdos aos alunos, considerando que, o importante, é apresentar às crianças formas de pen- samento, não sem antes detectar que condições elas têm de absorvê-las. E você? Já pensou em elaborar critérios para avaliar as habilidades que os seus alunos já têm e aquelas que eles poderão adquirir? Percebe que certas atividades estimulam as crianças a pensar de um modo novo e que outras não despertam o mesmo entusiasmo? ________________________________________________________________________________________________________________________ Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 91 ~ 3.15. Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno. Segundo a visão pedagógica da pesquisadora italiana, o potencial de aprender está em cada um de nós. Maria Montessori Poucos nomes da história da educação são tão difundidos fora dos círculos de especialistas como Montessori. Ele é associado, com razão, à Educação Infantil, ainda que não sejam muitos os que conhecem profundamente esse método ou a sua fundadora, a italiana Maria Montessori (1870- 1952). Primeira mulher a formar-se em medicina em seu país, foi também pioneira no campo peda- gógico ao dar mais ênfase à autoeducação do aluno do que ao papel do professor, como fonte de conhecimento, acreditando que a educação é uma conquista da criança, pois percebeu que já nas- cemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos, se nos forem dadas as condições. Individualidade, atividade e liberdade do aluno são as bases da teoria, com ênfase para o conceito de indivíduo como, simultaneamente, sujeito e objeto do ensino. Montessori defendia uma concepção de educação que se estende além dos limites do acúmulo de informações. O objetivo da escola é a formação integral do jovem, uma "educação para a vida". A filosofia e os métodos elabo- rados pela médica italiana procuram desenvolver o potencial criativo desde a primeira infância, as- sociando-o à vontade de aprender - conceito que ela considerava inerente a todos os seres huma- nos. O método Montessori é fundamentalmente biológico. Sua prática inspira-se na natureza e seus fundamentos teóricos são um corpo de informações científicas sobre o desenvolvimento infan- til. Segundo os seus seguidores, a evolução mental da criança acompanha o crescimento biológico e pode ser identificada em fases definidas, cada uma mais adequada a determinados tipos de con- teúdo e aprendizado. Maria Montessori acreditava que nem a educação nem a vida deveriam limitar-se às con- quistas materiais. Os objetivos individuais mais importantes seriam: encontrar um lugar no mundo, desenvolver um trabalho gratificante e nutrir paz e densidade interiores para ter capacidade de amar. A educadora acreditava que esses seriam os fundamentos de quaisquer comunidades pacífi- cas, constituídas de indivíduos independentes e responsáveis. A meta coletiva é vista até hoje por seus adeptos como a finalidade maior da educação montessoriana. Ambientes de liberdade - ao defender o respeito às necessidades e aos interesses de cada estudante, de acordo com os estágios de desenvolvimento correspondentes às faixas etárias, Mon- tessori argumentava que o seu método não contrariava a natureza humana e, por isso, era mais eficiente do que os tradicionais. Os pequenos conduziriam o próprio aprendizado e ao professor caberia acompanhar o processo e detectar o modo particular de cada um manifestar o seu poten- cial. Por causa dessa perspectiva desenvolvimentista, Montessori elegeu como prioridade os anos iniciais da vida. Para ela, a criança não é um pretendente a adulto e, como tal, um ser incompleto. Desde o seu nascimento, já é um ser humano integral, o que inverte o foco da sala de aula tradicio- nal, centrada no professor. Não foi por acaso, que as escolas que fundou, chamavam-se Casa dei Bambini (Casa das Crianças), evidenciando a prevalência do aluno. Foi nessas "casas" que ela explo- rou duas de suas ideias principais: a educação pelos sentidos e a educação pelo movimento. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 92 ~ Descobrir o mundo - nas escolas montessorianas, o espaço interno era (e é), cuidadosa- mente preparado, para permitir aos alunos: movimentos livres, facilitando o desenvolvimento da independência e da iniciativa pessoal. Assim como o ambiente, a atividade sensorial e motora de- sempenha função essencial - ou seja, dar vazão à tendência natural que a garotada tem de tocar e manipular tudo o que está ao seu alcance. Maria Montessori defendia que o caminho do intelecto passa pelas mãos, porque é por meio do movimento e do toque que as crianças exploram e decodificam o mundo ao seu redor, perce- bendo que: "a criança ama tocar os objetos para depois poder reconhecê-los", como disse certa vez. Muitos dos exercícios desenvolvidos pela educadora - hoje utilizados, largamente, na Educação In- fantil - objetivam chamar a atenção dos alunos para as propriedades dos objetos (tamanho, forma, cor, textura, peso, cheiro, som etc.). O método Montessori parte do concreto rumo ao abstrato. Baseia-se na observação de que meninos e meninas aprendem melhor pela experiência direta de procura e descoberta. Para tornar esse processo o mais rico possível, a educadora italiana desenvolveu os materiais didáticos que constituem um dos aspectos mais conhecidos do seu trabalho. São objetos simples, mas muito atra- entes, e projetados para provocar o raciocínio. Há materiais pensados para auxiliar todo tipo de aprendizado, do sistema decimal à estrutura da linguagem. Escola sem lugar marcado Método montessoriano na sala de aula: material específico. As salas de aula tradicionais eram vistas com desprezo por Maria Montessori. Ela dizia que pareciam coleções de borboletas, com cada aluno preso no seu lugar. Quem entra em uma sala de aula de uma escola montessoriana encontra crianças espalhadas, sozinhas ou em pequenos grupos, concentradas nos exercícios. Os professores estão misturados a elas, observando ou ajudando. Não existe hora do recreio, porque não se faz a diferença entre o lazer e a atividade didática. Nessas escolas, as aulas não se sustentam em um único livro de texto. Os estudantes aprendem a pesquisar em bibliotecas (e, hoje, na Internet) para preparar apresentações aos colegas. Atualmente, existem escolas montessorianas nos cinco continentes, agrupadas, em geral, em associações que trocam informações entre si. Biografia - Maria Montessori nasceu em 1870 em Chiaravalle, no norte da Itália. Filha única de um casal de classe média. Desdepequena interessou-se pelas ciências e decidiu enfrentar a re- sistência do pai e de todos à sua volta para estudar medicina na Universidade de Roma. Direcionou a carreira para a psiquiatria e logo se interessou por crianças com retardo mental, o que mudaria a sua vida e a história da Educação. Ela percebeu que aqueles meninos e meninas proscritos da soci- edade, por serem considerados ineducáveis, respondiam com rapidez e entusiasmo aos estímulos para realizar trabalhos domésticos, exercitando as habilidades motoras e experimentando autono- mia. Em pouco tempo, a atividade combinada de observação prática e pesquisa acadêmica levou a médica a experiências com as crianças ditas normais. Montessori graduou-se em pedagogia, antro- pologia e psicologia e pôs as suas ideias em prática na primeira Casa dei Bambini (Casa das Crianças), aberta em uma região pobre no centro de Roma, seguindo-se outras em diversos lugares da Itália. O sucesso das "casas" tornou Montessori uma celebridade nacional. Em 1922 o governo a nomeou inspetora-geral das escolas da Itália. Com a ascensão do regime fascista, porém, ela decidiu deixar Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 93 ~ o país em 1934. Continuou trabalhando na Espanha, no Ceilão (hoje Sri Lanka), na Índia e na Ho- landa, onde morreu aos 81 anos, em 1952. Efervescência intelectual - as ideias educacionais de Maria Montessori refletem a concepção positiva do conhecimento que caracterizou a época em que viveu - sobretudo a virada do século XIX para o século XX, marcada por efervescência intelectual e fascínio pela mente humana. Na primeira metade da vida dela, o mundo conheceu a luz elétrica, o rádio, o telefone, o cinema e muitas des- cobertas da ciência, criando imensas expectativas para um futuro diferente. A psiquiatria, que fas- cinou a jovem médica em Roma, encontrava-se em um ponto de inflexão, com as pesquisas tor- nando mais eficaz e mais humano o tratamento dos doentes mentais e lançando luz sobre o funci- onamento do cérebro de "loucos" e "sãos". Montessori interessou-se, em particular, pelos estudos de um dos desbravadores dos mecanismos do aprendizado infantil, o médico francês Édouard Sé- guin. Do ponto de vista dos costumes, ela também esteve na vanguarda: escolheu uma profissão "de seres humanos" e mais tarde teve um filho sem se casar - o que a obrigou a afastar-se dele, nos primeiros anos de vida, para não causar escândalo. No auge da sua carreira, a educadora viu, na ascensão do regime fascista de Benito Mussolini, o triunfo momentâneo dos valores opostos aos que defendeu, fazendo-a abandonar o seu país, mas não a batalha por uma educação melhor. Para pensar - o principal legado da italiana Maria Montessori foi afirmar que as crianças trazem dentro de si, o potencial criador, que permite que elas mesmas conduzam o aprendizado e encontrem um lugar no mundo. É o que Montessori chamou de "ajude-me a agir por mim mesmo". Outro aspecto fundamental da teoria montessoriana é deslocar o enfoque educacional do conteúdo para a forma do pensamento. As críticas mais comuns ao montessorianismo referem-se ao enfoque individualista e ao excesso de materiais e procedimentos construídos dentro da escola - o que difi- cultaria a adaptação dos alunos a outros sistemas de ensino e ao "mundo real". Os montessorianos argumentam que, ao contrário, o método volta-se para a vida em comunidade e enfatiza a coope- ração. E você? Acha que dar atenção individual aos alunos é um modo de contrabalançar a tendên- cia contemporânea à massificação, inclusive do ensino? ________________________________________________________________________________ 3.16. Ovide Decroly, o primeiro educador a tratar o saber de forma única. O médico e educador belga defendia a ideia de que as crianças apreendem o mundo com base em uma visão do todo. Ovide Decroly Entre os pensadores da educação que, na virada do século XIX para o século XX, contestaram o modelo de escola que existia até então, propondo uma nova concepção de ensino, o belga Ovide Decroly (1871-1932) foi, provavelmente, o mais combativo. Por ter sido, na infância, um estudante indisciplinado, que não se adaptava ao autoritarismo da sala de aula nem do próprio pai, Decroly dedicou-se, apaixonadamente, a experimentar uma escola centrada no aluno, e não no professor, e que preparasse as crianças para viver em sociedade, em vez de, simplesmente, fornecer-lhes co- nhecimentos destinados à sua formação profissional. Decroly foi um dos precursores dos métodos ativos, fundamentados na possibilidade do aluno conduzir o próprio aprendizado e, assim, aprender a aprender. Alguns dos seus pensamentos estão bem vivos nas salas de aula e coincidem com propostas pedagógicas difundidas atualmente. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 94 ~ É o caso da ideia da globalização de conhecimentos - que inclui o chamado método global de alfa- betização - e dos centros de interesse. O princípio de globalização de Decroly baseia-se na ideia de que as crianças apreendem o mundo com base em uma visão do todo, que posteriormente, pode organizar-se em partes, ou seja, que vai do caos à ordem. O modo mais adequado de aprender a ler, portanto, teria o seu início nas atividades de associação de significados, de discursos completos, e não do conhecimento isolado de sílabas e letras. Ele lança a ideia do caráter global da vida intelectual, o princípio de que um conhe- cimento evoca outro e assim sucessivamente. Os centros de interesse são grupos de aprendizado organizados segundo faixas de idade dos estudantes. Eles também foram concebidos, com base nas etapas da evolução neurológica infantil e na convicção de que as crianças entram na escola, dotadas de condições biológicas suficientes, para procurar e desenvolver os conhecimentos do seu interesse. "A criança tem espírito de obser- vação; basta não matá-lo", escreveu Decroly. Necessidade e interesse - o conceito de interesse é fundamental no pensamento de Decroly, ao defender a ideia de que a necessidade gera o interesse, e só este, leva ao conhecimento. Forte- mente influenciado pelas ideias sobre a natureza intrínseca do ser humano, preconizadas por Jean- Jacques Rousseau (1712-1778), Decroly atribuía às necessidades básicas a determinação da vida intelectual, enumerando-as como as quatro necessidades humanas principais: comer, abrigar-se, defender-se e produzir. A trajetória intelectual e profissional de Decroly assemelha-se à da contemporânea Maria Montessori (1870-1952). Como a italiana, o educador belga formou-se em medicina. Encami- nhando-se para a neurologia, também como ela, trabalhou com deficientes mentais, criou métodos baseados na observação e aplicou-os à educação de crianças consideradas "normais". Ambos acre- ditavam que o ensino deveria aproveitar-se das aptidões naturais de cada faixa etária. Ao contrário de Montessori, cujo método previa o atendimento individual na sala de aula, Decroly preferia o trabalho em grupos, uma vez que a escola, para ele, deveria preparar para o convívio em sociedade. Outra diferença é que a escola montessoriana recebe as crianças em ambi- entes preparados para tornar produtivos os impulsos naturais dos alunos, enquanto a escola-oficina de Decroly trabalha com elementos reais, saídos do dia a dia. Os métodos e as atividades propostos pelo educador têm por objetivo, fundamentalmente, desenvolver três atributos: a observação, a associação e a expressão. A observação é compreendida como uma atitude constante no processo educativo; a associação permite que o conhecimentoad- quirido pela observação seja entendido em termos de tempo e de espaço; e, expressão faz com que a criança externe e compartilhe o que aprendeu. Linguagens múltiplas - no campo da expressão, Decroly dedicou cuidadosa atenção à ques- tão da linguagem. Para ele, não só a palavra é meio de expressão como também, entre outros, o corpo, o desenho, a construção e a arte. Com a ampliação do conceito de linguagem, que a linguística viria a corroborar, Decroly pre- tendia dissociar a ideia de inteligência da capacidade de dominar a linguagem convencional, valori- zando expressões "concretas" como os trabalhos manuais, os esportes e os desenhos. Escolas que são oficinas: a École de l’Ermitage, de Bruxelas, fundada por Decroly (Executando trabalhos manuais) Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 95 ~ A marca principal da escola decroliana são os centros de interesse, nos quais os alunos esco- lhem o que querem aprender. São eles também que constroem o próprio currículo, segundo a sua curiosidade e sem a separação tradicional entre as disciplinas. Hoje fala-se tanto em interdisciplina- ridade e projetos didáticos. Isso nada mais é do que os centros de interesse, cujos planos de estudo podem surgir, entre as crianças menores, a partir das questões mais corriqueiras. Da necessidade de comer pode decorrer o estudo dos alimentos, da história do seu preparo, dos mecanismos econômicos da agricultura e do comércio etc. Para os estudantes, os centros de interesse estruturam-se como oficinas. As atividades manuais - entre elas, os jogos e as brincadeiras - têm destaque especial. Os exercícios, ao ar livre e em grupo, são estimulados. Decroly criticava a supervalorização do trabalho intelectual e da expressão verbal. "A escola (tradicional) engorda fisi- camente e entorpece mentalmente", escreveu. Biografia - Ovide Decroly nasceu em 1871, em Renaix, na Bélgica, filho de um industrial e de uma professora de música. Como estudante, não teve dificuldade de aprendizado, mas, por causa de indisciplina, foi expulso de várias escolas. Recusava-se a frequentar as aulas de catecismo. Mais tarde preconizaria um modelo de ensino não autoritário e não religioso. Formou-se em medicina e estudou neurologia na Bélgica e na Alemanha. Sua atenção voltou-se desde o início para as crianças deficientes mentais, interesse que o levou a fazer a transição da medicina para a educação. Por essa época criou uma disciplina, a "pedotecnia", dirigida ao estudo das atividades pedagógicas coorde- nadas ao conhecimento da evolução física e mental das crianças. Casou-se e teve três filhos. Em 1907, fundou a École de l’Ermitage, em Bruxelas, para crianças consideradas "normais". A escola, que se tornou célebre em toda a Europa, serviu de espaço de experimentação para o próprio De- croly. A partir de então, viajou pela Europa e pela América, fazendo contatos com diversos educa- dores, entre eles o norte-americano John Dewey (1859-1952). Decroly escreveu mais de 400 livros, mas nunca sistematizou o seu método por escrito, por julgá-lo em construção permanente. Morreu em 1932, em Uccle, na região de Bruxelas. Sob o efeito do terremoto darwiniano Centro de interesse: precursor do princípio da interdisciplinaridade Nos anos de formação de Decroly, as ciências naturais - e, por tabela, a filosofia e as religiões - continuavam sob o efeito do terremoto causado pela teoria da evolução das espécies, divulgada em 1859, pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882). O educador belga acreditava que o meio natural e a saúde física condicionam a evolução intelectual. A ideia de que há uma lógica no desenvolvimento dos organismos, implícita na teoria darwinista, guarda relação com a crença de que o desenvolvimento de uma criança pode ser ditado "naturalmente" por seus interesses e as suas necessidades. Decroly também defendia a universalização do ensino, como John Dewey. Ideias como as dos centros de interesses e a defesa de que o aprendizado deve ser prazeroso e responder aos interesses do aluno fizeram com que a obra de Decroly exercesse forte influência na pedagogia de Célestin Freinet (1896-1966). Para pensar - Decroly ficou chocado com a realidade que conheceu ao trabalhar com defici- entes - a maioria recentemente saída de uma experiência de marginalização e fracasso nas escolas públicas. O médico equiparava parte dos institutos de educação dos bairros pobres a hospícios a casas de correção para delinquentes. Decroly concebia as relações dentro da escola como uma so- ciedade em miniatura, com a função preventiva, de garantir uma formação intelectual, física e moral Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 96 ~ sólida para construir uma vida de cidadão. Essa formação deveria ser conduzida pelas próprias cri- anças desde os primeiros anos de escola. E você, o que acha? A melhor forma da escola organizar- se é mesmo por meio dos interesses dos alunos? ________________________________________________________________________________ 3.17. Alexander Neill, o promotor da felicidade na sala de aula. O educador escocês defendia o fim da hierarquia e da rigidez, como meios de formar indiví- duos livres e criativos. Alexander Neill Venerado pelos amantes da liberdade irrestrita, abominado pelos partidários de uma edu- cação tradicional e respeitado pelos que reconhecem a importância de flexibilizar a hierarquia es- colar. Foi assim que o educador, escritor e jornalista Alexander Sutherland Neill (1883-1973) - fun- dador da Summerhill School, na Inglaterra, onde viveu boa parte dos seus 90 anos. Sua escola tor- nou-se ícone das pedagogias alternativas, ao concretizar um sistema educativo em que o importante é a criança ter liberdade para escolher e decidir o que aprender e, com base nisso, desenvolver-se no próprio ritmo. A época em que ele viveu justifica grande parte das suas ideias: após a I Guerra Mundial, a humanidade sentiu-se desapontada consigo mesma, ao ver as grandes invenções utilizadas para a destruição e as doutrinas totalitárias como o fascismo, o nazismo e o comunismo estabeleceram- se, fazendo com que diversos pensadores começassem a clamar por liberdade de pensamento e de ação. "Nossa cultura não tem tido grande sucesso. Nossa educação, nossa política, nossa economia levam à guerra. Nossa medicina não põe fim às moléstias. Nossa religião não aboliu a usura, o roubo... Os progressos da época são progressos da mecânica, em rádio e televisão, em eletrônica, em aviões a jato. Ameaçam-nos novas guerras mundiais, pois a consciência social do mundo ainda é primitiva", escreveu Neill no livro Liberdade sem Medo. Disposto a construir um mundo melhor por meio da escola, Neill tornou-se um dos mais importantes educadores das décadas de 1960 e 1970. O seu respeito pela infância e a sua coragem em manter uma posição de independência fazem com que até hoje ele mereça ser revisto e estu- dado. Educação libertária - ser humano prático e pouco afeito a teorias, Neill desenvolveu as suas ideias pedagógicas baseando-se no filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que acreditava na bondade inata do ser humano. As descobertas no campo da psicologia no início do século XX também exerceram forte influência sobre ele, com destaque para os estudos dos psica- nalistas austríacos Sigmund Freud (1856-1939) e Wilhelm Reich (1897-1957), com quem fazia tera- pia. De acordo com Neill, a educação deveria trabalhar, basicamente, com a dimensão emocional do aluno, para que a sensibilidade ultrapassasse sempre a racionalidade. Ele acreditavaque a con- vivência com os pais, com a sua natural superproteção, impedia os filhos de desenvolverem a segu- rança suficiente para reconhecer o mundo, seja de forma intelectual, emocional ou artística. Por isso, os alunos tinham de morar em Summerhill e recebiam visitas esporádicas dos pais. Felicidade X sucesso - Neill queria que o seu método fosse utilizado como remédio para a infelicidade causada pela repressão e pelo sistema de modelos imposto pela sociedade de consumo, pela família e pela educação tradicional. Ter sucesso era, em sua opinião, ser capaz de trabalhar Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 97 ~ com alegria e viver positivamente. É célebre a sua afirmação: "Gostaria antes de ver a escola pro- duzir um varredor de ruas feliz do que um erudito neurótico". Neill acreditava que as crianças eram naturalmente sensatas, realistas, boas e criativas. Quando educadas, sem a interferência dos mais velhos, seriam capazes de se desenvolverem de acordo com a sua capacidade, os seus limites e os seus interesses, sem nenhum tipo de trauma. "Toda e qualquer interferência por parte dos adultos só as torna robôs", afirmava. As intervenções, segundo ele, roubavam a alegria da descoberta e a autoconfiança necessária para a superação de obstáculos, causando sentimentos de inferioridade e dependência: duas fortes barreiras para a felicidade completa. Gestão democrática e autoavaliação Neill na escola, nos anos 60: relação aberta entre professores e alunos. A educação em geral aproveitou muito do seu pensamento: uma relação mais aberta entre alunos e professores, que juntos, podem decidir regras de conduta, o conceito de que a educação deve ser uma preparação para a vida e a escolha de conteúdos que levem em conta o interesse prévio de cada um, são alguns dos legados da pedagogia de Summerhill. Mas esses seriam apenas detalhes, pois, na essência, os princípios desse educador estariam em xeque, como as discussões sobre as causas da violência e da indisciplina, que têm apontado para uma omissão da família e da escola em relação ao estabelecimento de limites. Procura-se hoje fazer com que pais e professores exerçam a sua autoridade, sem se sentirem culpados. Biografia - Alexander Sutherland Neill nasceu em 1883 na Escócia. Apesar de ser filho de um professor da zona rural, não fez o curso secundário no período regular como seus sete irmãos. Tí- mido e pouco amigo dos livros, adorava trabalhar com as mãos. Foi editor de arte de uma revista em Londres e diretor de uma escola primária no sul da Escócia, onde começou a aplicar os seus preceitos libertários. Com o fim da I Guerra, deu aulas em King's Alfred, um colégio londrino consi- derado progressista, mas não pôde fazer grandes transformações no ensino. Em agosto de 1921, fundou a International School. As dificuldades do pós-guerra fizeram com que a instituição mudasse de sede várias vezes, até estabelecer-se num casarão de estilo vitoriano em Leiston, no condado de Suffolk, a 160 Km da capital britânica. Seus princípios opunham-se até às propostas da Escola Nova, considerada de vanguarda. Segundo Neill, ela propunha mudanças didáticas, mas não fazia referên- cia a modificações na sociedade. Neill morreu em 1973. Summerhill: progressista aos 87 anos Alunos de Summerhill frequentam oficinas, usam ferramentas e brincam livremente: para A.S. Neill, tudo o que a criança precisava era de liberdade para criar. Fundada em 1921, Summerhill já passou por diversas ameaças de fechamento. Na última, os fiscais da rainha Elizabeth II alegaram que os alunos estavam atrasados em relação ao ensino oficial. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 98 ~ Zoe Readhead, filha de A.S. Neill e atual diretora, afirmou na época que preferia trancar as portas a trair as ideias do pai. Abaixo-assinados do mundo todo garantiram o funcionamento do lugar, e, em 2007, em uma nova inspeção, o governo deu parecer favorável ao funcionamento da escola. Os alunos assistem às aulas que querem, podendo demorar dias, semanas, meses ou anos para inte- ressar-se por um ou outro conteúdo. Testes, exames e prêmios são abominados, pois Neill acredi- tava que eles desviam o desenvolvimento da personalidade ao estabelecer modelos a seguir. "Os livros são o material menos importante da escola. Tudo que a criança precisa aprender é ler, escre- ver e contar. O resto deveria compor-se de ferramentas, argila, esporte, teatro, pintura e liberdade", escreveu ele em uma das suas publicações. Apesar do culto à liberdade total, regras devem ser seguidas, sim. As leis do país não podem ser desrespeitadas e normas de conduta são criadas e aprovadas em assembleias semanais, nas quais os alunos de todas as idades, os professores e os funcionários têm direito a voz e a voto. Enquanto diretor, Neill instituiu as lições particulares: con- versas ao lado da lareira, espécie de psicoterapia, agendadas por quem precisasse conversar. Para pensar - muitas das ideias de Neill foram incorporadas a diferentes teorias pedagógicas. Na maioria dos casos, de forma relativizada. Cada vez menos colégios mantêm um esquema total- mente rígido de controle dos alunos, mas também não são muitos os que adotam a liberdade radi- cal. No mundo violento e complexo de hoje, como conciliar o desenvolvimento da responsabilidade com a liberdade? Como educar para o bem comum e, ao mesmo tempo, respeitar a individualidade de todos? Neill diria que o importante é o indivíduo e o seu bem-estar, cabendo a cada um agir de acordo com as próprias convicções e os objetivos e valores da escola em que trabalha. ________________________________________________________________________________ 3.18. Anton Makarenko, o professor do coletivo. O mestre ucraniano Anton Makarenko concebeu um modelo de escola baseado na vida em grupo, na autogestão, no trabalho e na disciplina que contribui para a recuperação de jovens infra- tores. Anton Makarenko Imagine um educador que tem como missão dirigir um colégio interno (na zona rural) cheio de crianças e jovens infratores, muitos órfãos, que mal sabiam ler e escrever, numa época em que o modelo de escola e de sociedade estavam em xeque. Como educar? Por onde começar? Anton Semionovich Makarenko, professor na Ucrânia, país do leste europeu que era parte da União Sovi- ética na época, foi um dos seres humanos que ajudaram a responder a essas questões e a repensar o papel da escola e da família na recém-criada sociedade comunista, no início do século XX. A sua pedagogia tornou-se conhecida por transformar centenas de crianças e adolescentes marginaliza- dos em cidadãos. O método criado por ele era uma novidade, porque organizava a escola como coletividade e levava em conta os sentimentos dos alunos na busca pela felicidade. Aliás, um conceito que só teria sentido se fosse para todos. O que importava eram os interesses da comunidade e a criança tinha privilégios impensáveis na época, como opinar e discutir as suas necessidades no universo escolar. Foi a primeira vez que a infância foi encarada com respeito e direitos. Mais que educar, com rigidez e disciplina, ele quis formar personalidades, criar pessoas cons- cientes do seu papel político, cultas, sadias e que se tornassem trabalhadores preocupados com o bem-estar do grupo, ou seja, solidários. Na sociedade socialista de então, o trabalho era conside- rado essencial para a formação do ser humano, não apenas um valor econômico. Makarenko Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz NormasLegais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 99 ~ aprendeu tudo na prática, na base de acertos e erros, primeiro na escola da Colônia Gorki e, em seguida, na Comuna Dzerjinski. Cada etapa das suas experiências foi registrada em relatórios, textos e livros. As dificuldades e os desafios têm muitos paralelos com os dos professores de hoje. A saída encontrada há quase um século correspondia às necessidades da época, mas servem de reflexão para buscar soluções atuais e entender a educação no mundo. Proteger a infância - a ideia do coletivo surge como respeito a cada aluno, oposta à visão de massificação que despersonaliza a criança. O grupo estimula o desenvolvimento individual. Como a instituição familiar (e tudo o mais na então União Soviética) estava em crise, essa foi a alternativa encontrada pelo educador para proteger a infância do seu país. O sentimento de grupo não era uma ideia abstrata, tinha raízes nos ideais revolucionários e Makarenko soube como transformá-la em algo concreto. A colônia era autossuficiente e a sobrevivência de cada um dependia do trabalho de todos. Caso contrário, não haveria comida nem condições de habitação aceitáveis. Valorizar a disciplina - para que a vida em comunidade desse certo, era essencial que cada aluno tivesse claras as suas responsabilidades. "Nunca mais ladrões nem mendigos: somos os diri- gentes." Makarenko era conhecido como um educador aberto, mas rígido e duro. Ele acreditava que o planejamento e o cumprimento das metas estabelecidas por todos só se concretizariam com uma direção muito firme. Por isso, os alunos tinham consciência de que a disciplina não era um fim, mas um meio para o sucesso da vida na escola: o descumprimento de uma norma podia ser punido severamente, desde que os alunos e os professores assim o desejassem, depois de muita discussão. Envolver a família - Makarenko publicou em 1938, incompleto, o Livro dos Pais, com o obje- tivo de mostrar a importância da participação da família na escola e como educar as crianças em tempos difíceis. Alguns estudantes moravam nas escolas dirigidas por ele. O educador ucraniano fazia questão da presença dos pais, que eram estimulados a participar de atividades culturais e re- creativas. A escola tinha o papel de orientar a família, que deveria encará-la como um órgão nor- mativo. Pais muito "melosos" ou ausentes seriam incapazes de educar uma pessoa forte, madura e inteligente. "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem", dizia. Makarenko na escola: o aluno ganha voz O trabalho em oficinas fazia parte do método: recurso para a autogestão da escola Makarenko queria formar crianças capazes de dirigir a própria vida no presente e a vida do país no futuro: exercícios físicos, trabalhos manuais, recreação, excursões, aulas de música e idas ao teatro faziam parte da rotina. A escola tinha que permitir o contato com a sociedade e com a natureza, ou seja, ser um lugar para o jovem viver a realidade concreta e participar das decisões sociais. O estudo do meio já era comum na escola de Makarenko, ainda que sem esse nome. Na Colônia Gorki, meninos e meninas eram divididos em grupos de dez, de diferentes faixas etárias. Um representante de cada turma participava das assembleias e das reuniões em que se discutiam as situações da escola: um objeto roubado, a melhoria do prédio, a compra de materiais, a limpeza dos banheiros, os problemas particulares. Sexo e namoro também tinham espaço nas reuniões. Normas e decisões não podiam ser predeterminadas. O primeiro e o último voto eram sempre dos alunos. Biografia - Anton Semionovich Makarenko nasceu em 1888 na Ucrânia, filho de um operário ferroviário e de uma dona de casa. Aprendeu a ler e a escrever com a mãe, como a maioria das crianças da época, e logo depois foi matriculado numa escola primária. Lá teve acesso às disciplinas Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 100 ~ de: Língua Russa, Aritmética, Geografia, História, Ciências Naturais, Física, Desenho, Canto, Ginás- tica e Catecismo, mas não pôde estudar a sua língua materna, a ucraniana, proibida pelo império czarista na Rússia, nem Lógica e Filosofia, exclusivas da elite. Aos 17 anos, Makarenko concluiu o curso de Magistério e entrou em contato com as ideias revolucionárias de Lênin e Máximo Gorki, que influenciaram a sua visão do mundo e da educação. A sua primeira experiência em sala de aula ocorreu em 1906, na Escola Primária das Oficinas Ferroviárias, onde lecionou por oito anos. Em seguida, assumiu a direção de uma escola secundária. Mais consciente do modelo de educação que queria aplicar, ampliou o espaço cultural e mudou o currículo com a ajuda de pais e professores, e estabeleceu o ensino da língua ucraniana. A experiência mais marcante de Makarenko deu-se de 1920 a 1928, na direção da Colônia Gorki: instituição rural que atendia crianças e jovens órfãos que haviam vivido na marginalidade, onde pôs em prática um ensino que privilegiava: a vida em comunidade, a participação da criança na organização da escola, o trabalho e a disciplina. Publicou novelas, peças de teatro e livros sobre a educação, sendo Poema Pedagógico o mais importante. Morreu de ataque cardíaco durante uma viagem de trem em 1939, ano que ficaria marcado pelo início da II Guerra Mundial. Um tempo de transformações "Você já se alistou como voluntário?": cartaz convoca trabalhadores para defender a Revolução Russa. Anton Makarenko viveu as grandes transformações históricas do fim do século XIX e do co- meço do 20: o nascimento das grandes cidades e as suas indústrias, as longas jornadas de trabalho, os movimentos revolucionários contra o império do czar Nicolau II, a I Guerra Mundial e a revolução de outubro de 1917 que pôs fim à monarquia e instituiu a ditadura do proletariado na União Sovié- tica. Em meio a tantas mudanças, o papel da criança, dos pais e da escola também estava em xeque. Que ser humano formar para viver nesse novo mundo? Makarenko conhecia, na prática, as neces- sidades da grande massa pobre da Ucrânia. Os seus problemas não eram diferentes dos enfrentados hoje: a carência afetiva e material dos filhos dos operários; a audácia dos filhos dos burocratas, que não queriam fazer os trabalhos manuais e intelectuais, tão valorizados na sociedade socialista; e a ausência da família. Por isso, ele acreditava que a escola tinha que formar seres participativos por meio de uma organização coletiva e democrática, com muita disciplina e trabalho. E os pais que não conseguiam educar os seus filhos deveriam ser reeducados por essa escola. Para pensar - Makarenko talvez tenha sido o educador que levou às consequências mais radicais as questões do espírito de grupo e do trabalho coletivo: tudo era discutido entre alunos, professores e a direção da Colônia Gorki e da Comuna Dzerzinski. Por essa razão, embora tenha vivido numa época e num contexto totalmente diferentes dos atuais, vale a pena conhecer as suas ideias e pensar sobre elas. Mas será que as crianças e os jovens atuais conhecem de fato o signifi- cado de grupo? Ou a ideia de coletivo é abstrata? Os jovens sentem-se responsáveis pela escola e pelo bem-estar dos seus colegas? Estamos formando pessoas cada vez mais individualistas ou cole- tivas? Estamos realmente educando para a colaboração e a solidariedade? A obra de Makarenko provoca ainda uma reflexão sobre a disciplina - Estamos sendo per- missivos demais? Como atingir o equilíbrio entre os limites e a liberdade? Makarenko dá algumas respostas. Podemos não concordar totalmente com elas, mas é inegável que o seu trabalho Organizador: Prof. AntonioFerreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 101 ~ produziu resultados positivos, num momento de grandes dificuldades sociais. Não estaremos nós em momento equivalente? ________________________________________________________________________________ 3.18. Émile Durkheim, o criador da Sociologia da Educação. Para o sociólogo francês, a principal função do professor é formar cidadãos capazes de con- tribuir para a harmonia social. Émile Durkheim Em cada aluno há dois seres inseparáveis, porém distintos. Um deles seria o que o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) chamou de individual. Tal porção do sujeito - o jovem bruto -, segundo ele, é formada pelos estados mentais de cada pessoa. O desenvolvimento dessa metade do ser humano foi a principal função da educação até o século XIX. Principalmente, por meio da psicologia, entendida então como a ciência do indivíduo, os professores tentavam construir nos es- tudantes os valores e a moral. A caracterização do segundo ser foi o que deu projeção a Durkheim, ao ampliar o foco conhecido até então, considerando e estimulando também o que concebeu como o outro lado dos alunos, algo formado por um sistema de ideias que exprimem, dentro das pessoas, a sociedade de que fazem parte. Dessa forma, Durkheim acreditava que a sociedade seria mais beneficiada pelo processo educativo. Para ele, "a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta". E quanto mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que a escola estiver inserida. Nessa concepção durkheimiana - também chamada de funcionalista -, as consciências indi- viduais são formadas pela sociedade. Ela é oposta ao idealismo, que concebe uma sociedade mol- dada pelo "espírito" ou pela consciência humana. "A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios - sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento - que baliza a conduta do indivíduo num grupo. O ser hu- mano, mais do que formador da sociedade, é um produto dela", escreveu Durkheim. Essa teoria, além de caracterizar a educação como um bem social, relacionou-a pela primeira vez às normas sociais e à cultura local, diminuindo o valor que as capacidades individuais têm na constituição de um desenvolvimento coletivo. "Todo o passado da humanidade contribuiu para fa- zer o conjunto de máximas que dirigem os diferentes modelos de educação, cada uma com as ca- racterísticas que lhe são próprias. As sociedades cristãs da Idade Média, por exemplo, não teriam sobrevivido se tivessem dado ao pensamento racional o lugar que lhe é dado atualmente", exem- plificou o pensador. Ensino público e laico - Durkheim não desenvolveu métodos pedagógicos, mas as suas ideias ajudaram a compreender o significado social do trabalho do professor, tirando a educação escolar da perspectiva individualista, sempre limitada pelo psicologismo idealista - influenciado pelas esco- las filosóficas alemãs de Kant (1724-1804) e Hegel (1770-1831). Para ele, o papel da ação educativa é formar um cidadão que tomará parte do espaço público, não somente o desenvolvimento indivi- dual do aluno. Nas palavras de Durkheim, "a educação tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança, estados físicos e morais que são requeridos pela sociedade política no seu conjunto". Tais exigên- cias, com forte influência no processo de ensino, estão relacionadas à religião, às normas e sanções, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 102 ~ à ação política, ao grau de desenvolvimento das ciências e até mesmo ao estado de progresso da indústria local. Se a educação for desligada das causas históricas, ela se tornará apenas exercício da vontade e do desenvolvimento individual, o que para ele era incompreensível: "Como é que o indivíduo pode pretender reconstruir, por meio do único esforço da sua reflexão privada, o que não é obra do pen- samento individual?". E ele mesmo respondeu: "O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são as suas origens e as condi- ções de que depende. E não poderá sabê-lo sem ir à escola, começando por observar a matéria bruta que está lá representada". Por tudo isso, Durkheim é também considerado um dos mentores dos ideais republicanos de uma educação pública, monopolizada pelo Estado e laica, liberta da in- fluência do clero romano. Autoridade do professor - Durkheim sugeria que a ação educativa funcionasse de forma normativa. A criança estaria pronta para assimilar conhecimentos - e o professor bem preparado, dominando as circunstâncias. "A criança deve exercitar-se a reconhecer [a autoridade] na palavra do educador e a submeter-se ao seu ascendente; é por meio dessa condição que saberá, mais tarde, encontrá-la na sua consciência e aí se conformar a ela", propôs ele, afirmando que a autonomia da vontade só existe como obediência consentida O sociólogo francês foi criticado por Jean Piaget (1896-1980) e Pierre Bourdieu (1930-2002), defensores da ideia de que a criança determina os seus juízos e as relações apenas com os estímulos dos seus educadores, sem que estes exerçam, necessariamente, força autoritária sobre ela. Durkheim e a educação: padrão social Sala de aula na França: adultos como responsáveis pela socialização dos jovens. A elaboração, a adoção e a socialização dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN’s) e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foram gran- des conquistas para a educação brasileira, pela padronização na indicação dos conteúdos curricula- res e uma clara demonstração do que o governo espera dos jovens, que deixarão os bancos escola- res nos próximos anos, fatos que têm grandes relações com as concepções de Durkheim, com os currículos sugeridos para todos, esses documentos mostram as necessidades da sociedade, cabendo aos sistemas e estabelecimentos educacionais, as suas reelaborações para encaminhá-las para do- centes e alunos, pondo as pessoas certas nos lugares certos, aonde a comunidade quer e precisa. Biografia - Émile Durkheim nasceu em 1858, em Épinal, no noroeste da França, próximo à fronteira com a Alemanha. Era filho de judeus e optou por não seguir o caminho do rabinato, como era costume na sua família. Mais tarde, declarou-se agnóstico. Depois de formar-se, lecionou peda- gogia e ciências sociais na Faculdade de Letras de Bordeaux, de 1887 a 1902. A cátedra de ciências sociais foi a primeira em uma universidade francesa e foi concedida justamente àquele que criaria a Escola Sociológica Francesa. Seus alunos eram, sobretudo, professores do ensino primário. Durkheim não repartiu o seu tempo nem o pensamento entre duas atividades distintas por mero acaso, abordou a educação como um fato social: "Estou convicto de que não há método mais apro- priado para pôr em evidência a verdadeira natureza da educação", declarou. A partir de 1902, foi auxiliar de Ferdinand Buisson na cadeira de ciência da educação na Sorbonne e o sucedeu em 1906. Estava plenamente preparado para o posto, pois não parara de dedicar-se aos problemas do ensino. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 103 ~ Dentro da educação moral, psicologia da criança ou história das doutrinas pedagógicas, não há cam- pos que ele não tenha explorado. As suas obras mais famosas são: A Divisão do TrabalhoSocial e O Suicídio. Morreu em 1917, durante a I Guerra Mundial, no ano da Revolução Russa, supostamente, pela tristeza de ter perdido o filho na I Guerra Mundial, no ano anterior. Tempo de mudanças - a segunda metade do século XIX, marca o nascimento de algumas ciências humanas, como: a antropologia, a sociologia, a psicanálise e a linguística. Charles Darwin (1809-1882), Karl Marx (1818-1883) e Sigmund Freud (1856-1939), para citar apenas alguns clássi- cos, estavam formulando as ideias que reorientariam o pensamento mundial mais tarde, assim como fez Durkheim no campo da sociologia. A França vivia um período de conflitos - parte da região da Lorena, onde Durkheim nasceu, foi tomada pela Alemanha em 1871, o que levou à guerra entre os dois países. Nesse mesmo ano, foi proclamada a Terceira República Francesa, que implantou medidas políticas inovadoras, como a instituição da lei do divórcio. Na educação, devido também à influência das concepções de Durkheim, a Terceira República trouxe a obrigatoriedade escolar para crianças de 6 a 13 anos e a proibição do ensino religioso nas escolas públicas, ideais que até hoje estão entre os pilares educacionais naquele país. Tais transformações foram fundamentais para a preocupação de Durkheim com a formação de professores para a nova escola laica republicana. Ele viveu também no período da chamada Segunda Revolução Industrial, quando o motor de combus- tão interna, o dínamo, a eletricidade, o telégrafo e o petróleo tomaram a atenção do mundo todo. Para pensar - Durkheim dizia que a criança, ao nascer, trazia consigo só a sua natureza de indivíduo. "A sociedade encontra-se, a cada nova geração, na presença de uma tábua rasa sobre a qual é necessário construir novamente", escreveu. Os professores, como parte responsável pelo desenvolvimento dos indivíduos, têm um papel determinante e delicado, devem transmitir os co- nhecimentos adquiridos, com cuidado para não tirar a autonomia de pensamento dos jovens. A proposta de Durkheim levará o aluno a avançar sozinho? Esse modelo de formação externa contra- ria a independência nos estudos? Ou será uma condição para que a educação cumpra o seu papel social e político? ________________________________________________________________________________ 3.19. Hannah Arendt, a voz de apoio à autoridade do professor. Para a cientista política, os adultos devem assumir a responsabilidade de conduzir as crianças por caminhos que elas desconhecem. Hannah Arendt Hannah Arendt (1906-1975) foi uma das principais pensadoras da política no século XX, mas a sua obra inspira estudos em outras áreas, entre elas a educação. Poucos intelectuais atuaram tão diretamente em seu tempo como Arendt, que foi vítima, ainda jovem, da perseguição nazista em sua Alemanha natal. Como uma filósofa (designação que a desagradava) interessada em particular no fenômeno do pensamento e no modo como ele opera em "tempos sombrios", Arendt não poderia deixar de ocupar-se do ensino, abordado por ela em dois textos: A Crise na Educação (incluído no livro Entre o Passado e o Futuro) e, mais indiretamente, Reflexões sobre Little Rock, escritos em 1958 e 1959 respectivamente. Na época, as salas de aula nos EUA - para onde se mudou em 1940 - viam-se in- vadidas por questões sociais como: a violência, o conflito de gerações e o racismo. É no primeiro dos dois textos que Arendt apresenta, com a habitual veemência e coragem, uma visão bastante crítica do tipo de educação considerada "moderna", naquela época e, também, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 104 ~ hoje. Em poucas páginas, ela questiona em profundidade, alguns dos conceitos pedagógicos mais difundidos desde fins do século XIX, e que se originam do movimento da Escola Nova e da concepção do trabalho educativo como um aprendizado "para a vida". "A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver", escreve Arendt. A sua argumentação é a favor da autoridade na sala de aula e a sua visão educativa é assumidamente conservadora, mas não quer dizer que ela defenda um professor autoritário, nem se trata de ser favorável à escola como um agente da manutenção da ordem estabelecida; ao con- trário, Arendt acreditava que o aluno deve ser apresentado ao mundo e estimulado a mudá-lo. Educação sem política Tensão racial em Little Rock, EUA, nos anos 1950: crise inspira reflexão Arendt defendia o conservadorismo na educação, mas não na política. Para ela, o campo político deveria renovar-se constantemente, movido pelos objetivos da igualdade e da liberdade civil. Ao reivindicar a total separação entre a política e a educação, Arendt rejeita linhas de pensa- mento que partem de filósofos como Platão (427-347 a.C.) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Segundo a pensadora, a política é uma área que pertence apenas aos adultos, agindo como iguais - igualdade que não poderia existir entre crianças e adultos. Ela critica a educação moderna por ter posto em prática "o absurdo tratamento das crianças como uma minoria oprimida carente de libertação". Para Hannah Arendt, cabe aos adultos conduzir as crianças. O papel da tradição - a partir dessas considerações nasce a defesa da autoridade, uma vez que a escola deverá trazer instrução, isto é, conhecimentos que o aluno não tem. Esse processo não é apenas de aprendizado, mas de preservação do mundo, entendido como a cultura em sua totali- dade. Numa formulação ousada, a pensadora defende que é preciso proteger "a criança do mundo e o mundo da criança" - uma vez que o "assédio do novo" é potencialmente destrutivo. A preocupação com a perda da "tradição", definida como "o fio que nos guia com segurança através dos vastos domínios do passado", foi o que levou Arendt a escrever sobre educação. A rela- ção entre crianças e adultos não pode, segundo ela, ficar restrita "à ciência específica da pedagogia", já que se trata de preservar o patrimônio global da humanidade. "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele", escreve Arendt, acrescentando que "a educação é, também, onde de- cidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná- las a seus próprios recursos". O mal da irreflexão - a obra mais difundida de Hannah Arendt origina-se de uma reportagem que lhe foi encomendada pela revista New Yorker: em 1961, ela foi enviada a Israel para cobrir o julgamento do alto burocrata nazista Adolf Eichmann. No livro Eichmann em Jerusalém, a pensadora cunhou a expressão que a celebrizou: "a banalidade do mal", em referência aos códigos aparente- mente lógicos e até sensatos com que o totalitarismo se propaga e ganha poder. Durante o julgamento, chamou a atenção da pensadora, a figura prosaica do réu. Em Eich- mann, um ser humano de aparência equilibrada e comum, Arendt identificou alguém habituado a não pensar. Os perigos da irreflexão, como sinal de alienação da realidade, constituem um dos prin- cipais eixos de uma obra que pode trazer contribuições para a educação em muitos aspectos. No artigo A Crise na Educação, Arendt dá ênfase ao conceito de responsabilidade dos adultos tanto em relação ao mundo como às crianças. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 105 ~ , acreditando que formar para o mundo significa, entre outras coisas, adquirir a noção do coletivo, processo que só se realiza, em cada aluno, com a intervenção do pensamento para a criação de uma ética perante o grupo. Uma testemunha do terror de EstadoO julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém: banalidade do mal No início da sua vida acadêmica, mal saída da adolescência, Hannah Arendt era uma apaixo- nada pela filosofia de Immanuel Kant (1724-1804), filho mais célebre da cidade em que foi criada, Königsberg. Ela mesma admitia, que foram os acontecimentos - a começar pela perseguição nazista à sua família - que a fizeram migrar da filosofia mais abstrata para a ciência política e a refletir sobre as questões urgentes do seu tempo. Em As Origens do Totalitarismo, ela analisa e descreve o regime típico do século XX, representado pelo nazismo e pelo stalinismo, dois sistemas de princípios opos- tos e estratégias muito semelhantes, como: o terror, o papel marcante da ideologia e o uso de polí- cias secretas. Toda a sua obra dialogou com os dilemas morais e políticos mais graves do século XX, com ênfase nas possibilidades do indivíduo diante do poder. Para pensar - Hannah Arendt defendia que os adultos têm dois tipos de obrigação em rela- ção às crianças: uma recai sobre a família, responsável pelo "bem-estar vital" dos seus filhos; a outra fica a cargo da escola, a quem cabe o "livre desenvolvimento de qualidades e talentos pessoais". Ela acusa a educação praticada nos EUA à época da publicação do artigo, de abrir mão, da sua função ao rejeitar a autoridade que decorre dela. "Qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabi- lidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças e é preciso proibi-la de tomar parte na educa- ção", escreve Arendt. Você, professor, concorda com ela? Qual é, a seu ver, a principal responsabi- lidade da sua profissão? ________________________________________________________________________________ 3.20. Herbart, o organizador da pedagogia como ciência. O filósofo alemão do século XIX que inaugurou a análise sistemática da educação e mostrou a importância da psicologia na teorização do ensino. Herbart Com o filósofo alemão Johann Friedrich Herbart (1776-1841), a pedagogia foi formulada pela primeira vez como uma ciência, sobriamente organizada, abrangente e sistemática, com fins claros e meios definidos. A estrutura teórica construída por Herbart baseia-se numa filosofia do funciona- mento da mente, o que a torna duplamente pioneira: não só por seu caráter científico como tam- bém por adotar a psicologia aplicada como eixo central da educação. Desde então, e até os dias de hoje, o pensamento pedagógico vincula-se, fortemente, às teorias da aprendizagem e à psicologia do desenvolvimento - um exemplo é a obra do suíço Jean Piaget (1896-1980). Para Herbart, a mente funciona com base em representações - que podem ser imagens, ideias ou qualquer outro tipo de manifestação psíquica isolada. O filósofo negava a existência de faculda- des inatas. A dinâmica da mente estaria nas relações entre essas representações, que nem sempre são conscientes. Elas podem combinar-se e produzir resultados manifestos ou entrar em conflito entre si e permanecer, em forma latente, numa espécie de domínio do inconsciente. A descrição Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 106 ~ desse processo viria muitos anos depois, a influenciar a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856- 1939). Uma das contribuições mais duradouras de Herbart para a educação é o princípio de que a doutrina pedagógica, para ser realmente científica precisa comprovar-se experimentalmente - uma ideia do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) que ele desenvolveu. Dessa perspectiva, surgiram as escolas de aplicação, que conhecemos até hoje, especialmente as que dão suporte técnico e peda- gógico às turmas de alunos estagiários das faculdades de educação, por todo o país. Cada uma res- ponde à necessidade de alimentar a teoria com a prática e vice-versa, num processo de atualização e aperfeiçoamento constantes. Moral como objetivo - na teoria herbartiana, memória, sentimentos e desejos são apenas modificações das representações mentais. Agir sobre elas, portanto, significa influenciar em todas as esferas da vida de uma pessoa. Desse modo, Herbart criou uma teoria da educação que pretende interferir diretamente nos processos mentais do estudante como meio de orientar a sua formação. Embora profundamente intelectualista, a pedagogia herbartiana tem como objetivo maior nem tanto o acúmulo de informações, mas a formação moral do estudante. Por considerar a criança um ser moldado intelectualmente e psiquicamente por forças externas, Herbart dá ênfase primor- dial ao conceito de instrução: ela é o instrumento pelo qual se alcançam os objetivos da educação. Para corroborar esta afirmação, dizia que só o ignorante comete erros. A instrução é o elemento central dos três procedimentos que, para Herbart, constituem a ação pedagógica: o primeiro é o que chamou de governo, ou seja, a manutenção da ordem pelo controle do comportamento da criança, uma atribuição inicialmente dos pais e depois dos profes- sores. Trata-se de um conjunto de regras imposto de fora, com o objetivo de manter a criança ocu- pada; o segundo procedimento é a instrução educativa, propriamente dita, e o seu motor é o inte- resse, que deve ser múltiplo, variado e harmonicamente repartido, e, o terceiro é a disciplina, que tem a função de preservar a vontade no caminho da virtude. Nessa etapa fica fortalecida a autode- terminação como pré-requisito da formação do caráter. Ao contrário do governo, consiste em um processo interno do aluno. Muitas das contribuições de Herbart para a psicologia e a pedagogia continuam valiosas, mas o seu pensamento e a prática que dele se originou no século XIX tornaram-se ultrapassados, sobre- tudo com o aparecimento do movimento da escola ativa. O seu principal representante, o norte- americano John Dewey (1859-1952), fez duras críticas à doutrina herbartiana. A pedagogia contem- porânea tornou o aluno sujeito do ensino e substituiu o individualismo do século XVIII por uma visão mais complexa dos fatores envolvidos no trabalho de ensinar, admitindo-se, hoje, no plano teórico, que a mente humana é originalmente ativa, enquanto na prática, no Brasil, ainda se costuma des- pejar conhecimento sobre o aluno, como queria Herbart. Um padrão escolar para o Século XIX Classe britânica do século 19, auge do herbartianismo: disciplina e métodos rígidos. A obra pedagógica de Herbart teve enorme influência em todo o mundo ocidental (e tam- bém no Japão) na segunda metade do século XIX. Baseando-se no princípio de que a mente humana apenas apreende novos conhecimentos e só participa do aprendizado passivamente, o herbartia- nismo resultou em um ensino que hoje qualificamos de tradicional, em que as escolas herbartianas transmitiam um ensino totalmente receptivo, sem diálogo entre o professor e o aluno, além de aulas que obedeciam a esquemas rígidos e preestabelecidos. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 107 ~ Herbart previa cinco etapas para o ato de ensinar: a primeira, preparação, é o processo de relacionar o novo conteúdo a conhecimentos ou lembranças que o aluno já possua, para que ele adquira interesse na matéria; a segunda vem com a apresentação ou demonstração do conteúdo; a terceira fase é a associação, na qual a assimilação do assunto completa-se por meio de comparações minuciosas com conteúdos prévios. O quarto passo do processo, parte do conteúdo recém apren- dido para a formulação de regras globais; é especialmente importante para desenvolver a mente além da percepção imediata, e a quinta e última etapa é a da aplicação, que tem como objetivo mostrar a utilidadepara o que se aprendeu. Biografia - Johann Friedrich Herbart nasceu em Oldenburg, na Alemanha, em 1776, e conhe- ceu alguns dos mais importantes intelectuais do seu tempo. Aos 18 anos, já era aluno do filósofo Johann Fichte (1762-1814) na Universidade de Iena. Logo em seguida, trabalhou durante quatro anos como professor particular em Interlaken, na Suíça, período em que ficou amigo do educador Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). Tornou-se professor na Universidade de Göttingen em 1802. Seis anos depois, assumiu a cátedra deixada vaga por Immanuel Kant em Königsberg, onde lecionou até 1833, quando reassumiu o posto de professor de filosofia em Göttingen. Em Königsberg, fundou um seminário pedagógico com uma escola de aplicação e um internato. Os es- tudos mais importantes de Herbart foram no campo da filosofia da mente, à qual subordinou as suas obras pedagógicas (entre elas, Pedagogia Geral e Esboço de um Curso de Pedagogia). A influên- cia da sua teoria estendeu-se a uma legião de pensadores, dando origem a várias interpretações, até entrar em declínio no início do século XX. Gênios em profusão na Alemanha Goethe retratado como patinador e entre admiradoras: cultura para o bem comum. Herbart viveu numa época em que a Alemanha produziu - década após década - alguns dos mais importantes intelectuais da história da humanidade. Alguns deles, redefiniram os seus campos de atuação, como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) na literatura e Kant na filosofia. Curi- osamente, o país naquele período, era constituído por dezenas de minúsculos principados, virtual- mente independentes, mas subservientes aos grandes centros de poder, como Paris e Londres. No entanto, uma cultura sólida desenvolvia-se nas universidades alemãs. A influência protestante e a tendência dos governantes alemães de se cercarem de funcionários cultos, também ajudaram a criar um contexto em que os intelectuais costumavam ser chamados a contribuir para o bem co- mum, mesmo que o sistema político estivesse longe de ser democrático. Nas universidades, os pro- fessores de filosofia tinham de ocupar também cátedras de pedagogia. Por isso, várias gerações de intelectuais - agrupados sob as correntes idealista, romântica e realista – deixaram contribuições fundamentais para a educação. Para pensar - John Dewey criticou a teoria herbartiana dizendo que ela previa um "mestre todo-poderoso", encarregado de manipular os processos mentais do aluno por meio da instrução. Para Dewey e a maioria dos pedagogos do século XX, o pensamento de Herbart subestima e até ignora a ação do próprio aluno e a sua capacidade de se auto educar. Mas não se pode negar que Herbart foi um dos pensadores que mais se interessaram pela psicologia do educando e o modo como ela influi em seu aprendizado. Você considera satisfatório o seu conhecimento dos processos Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 108 ~ psíquicos das crianças em geral e dos seus alunos em particular? Então, de que modo pode utilizá- lo para aprimorar as suas aulas? ________________________________________________________________________________ 3.21. Herbert Spencer, o ideólogo da luta pela vida. O teórico inglês buscou no evolucionismo os mecanismos e os objetivos da sociedade, e de- fendeu o ensino da ciência para formar adultos competitivos. Herbert Spencer Tendo vivido num tempo de grandes avanços científicos, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o principal representante do evolucionismo nas ciências humanas. Ele intuiu a exis- tência de regras evolucionistas na natureza antes do seu compatriota, o naturalista Charles Darwin (1809-1882), formular a revolucionária teoria da evolução das espécies. É ele o autor da expressão "sobrevivência do mais apto", que muitas vezes foi atribuída a Darwin. O filósofo aplicou à sociologia, ideias que retirou das ciências naturais, criando um sistema de pensamento muito influente a seu tempo. As suas conclusões levaram-no a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo a ver- dade moral. No campo pedagógico, fez campanha pelo ensino da ciência, combateu a interferência do Estado na educação e afirmou que o principal objetivo da escola era a construção do caráter, afirmando que os conhecimentos úteis, que serviriam para formar os seres humanos de negócios e produzir o bem estar pessoal, eram desprezados em favor do ensino das humanidades, que davam mais prestígio. Para Spencer, havia uma lei fundamental da matéria, que ele chamou de lei da persistência da força, segundo a qual, a tendência natural de todas as coisas é, desde a primeira interação com forças externas, sair da homogeneidade rumo à heterogeneidade e à variedade; e, à medida que as forças vindas de fora continuam a agir sobre o que antes era homogêneo, maior se torna o grau de variedade. Conhecer, só pela razão - baseado nessa observação, Spencer deduziu um princípio para todo o desenvolvimento, que é a lei da multiplicação dos efeitos, causada por uma força absoluta que não pode ser conhecida pelo entendimento humano. Trata-se, para Spencer, de uma lei da natureza, uma vez que ele se recusava a levar em conta, para efeito científico, a possibilidade de existirem as forças sobrenaturais. O filósofo, herdeiro da linhagem empirista britânica, além de ser influenciado pelo positivismo, era agnóstico e combatia a influência religiosa no ensino e na ciência. O próprio termo agnosticismo para referir-se a uma postura filosófica, que só admite os conheci- mentos adquiridos pela razão, foi criado por um amigo e defensor de Spencer e Darwin, o naturalista Thomas Huxley (1825-1895). Spencer afirmava que o processo de desenvolvimento segue a mesma lei em todos os cam- pos, da formação do universo à transformação das espécies. O seu entendimento inicial da evolução biológica baseava-se na concepção errônea de que, as sucessivas gerações de uma mesma espécie, herdam das anteriores as características adquiridas do ambiente. Essa era a teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), derrubada por Darwin. Ele mostrou que o mecanismo da evolução é a seleção natural, pela qual sobrevivem as variedades animais e vegetais mais adap- táveis às condições ambientais. Logo que conheceu as conclusões de Darwin, Spencer reformulou a sua teoria. Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 109 ~ Perfeição industrial - aplicado à sociedade, o princípio evolucionista universal do filósofo o levou a perceber um processo de individuação permanente, que levaria à crescente divisão do tra- balho nos agrupamentos humanos. Desse modo, hordas primitivas e indiferenciadas, evoluem para se tornarem civilizações cada vez mais complexas, nas quais a especialização e a cooperação avan- çam lado a lado. A história dos povos, segundo Spencer, contrapõe sociedades guerreiras, mantidas coesas à força, e sociedades industriais, fundamentadas na competição, mas também na coopera- ção espontânea. Um prolongamento da dicotomia entre as sociedades guerreiras e as industriais, para Spen- cer, seria o contraste entre o despotismo, associado a estágios primitivos, e o individualismo, asso- ciado ao avanço civilizador. A sociedade industrial corresponderia, assim, a um aperfeiçoamento natural do sistema econômico e das instituições. O pensamento de Spencer corresponde a um desejo, muito vivo em sua época, de explica- ções globais que organizassem os fatos de modo a simplificá-los. No período, foram produzidas nu- merosas teorias quehoje chamamos de deterministas, por almejarem, no campo das ciências hu- manas, a exatidão matemática. A noção de que tudo se encaminha para resultados previsíveis e inevitáveis, uma vez que deixadas ao sabor do seu suposto curso natural, levou Spencer e muitos dos seus contemporâneos, e, também, alguns pensadores de outros tempos, anteriores e posterio- res, a supor que esses resultados eram também moralmente desejáveis. Nasce daí a ideia, ainda hoje vigorosa, de que a interferência do Estado na vida cotidiana impede os desenvolvimentos con- siderados normais. Spencer acreditava que a lei da oferta e da procura devia estender-se da esfera econômica para a esfera educacional. Ensino dependia da iniciativa privada Escola britânica do fim do século XIX: novidades da ciência influenciam uma nova mentalidade. Ao contrário do que acontecia na Europa continental, na Grã-Bretanha do início do século XIX, o ensino era um assunto privado. A primeira ingerência pública na educação foi uma resolução aprovada pelo Parlamento em 1802, pedindo aos empregadores que providenciassem instrução para os seus funcionários - como não havia obrigação atrelada, o efeito foi nulo. Quando não era paga, a educação britânica dependia da filantropia. Só na década de 1830 o governo passou a re- servar uma parte do orçamento para o ensino. Na virada para o século XX, no entanto, quase toda a formação elementar (equivalente ao Ensino Fundamental) já era provida pelo Estado. Herbert Spencer defendeu a escola privada até o fim da vida, porque considerava que a interferência do Estado, sendo igual para todos, poderia sustentar estudantes que não estariam, por natureza, aptos a competir em sociedade. Para o pensador, seria fatal se o regime da família, em que a solidariedade faz com que o mais apto ajude o menos apto, regulasse a sociedade, onde o que conta é a luta pela vida. Seguindo outra tradição britânica, Spencer acreditava que a função principal da educação era formar o caráter. A sua defesa do ensino prioritário da ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento sobre o funcionamento da natureza, que lhes dessem meios de ajustarem- se às exigências do mundo. Biografia - Herbert Spencer nasceu em Derby, Inglaterra, em 1820, e desde a adolescência mostrou ter uma personalidade anticonformista: aos 13 anos, tentou fugir da educação oferecida por um tio que era pastor protestante, mas teve que voltar à escola, onde se manteve até os 16. Depois disso, sozinho, deu continuidade à sua formação, com leituras que se concentraram acima de tudo em ciências. Queria ser inventor e acabou, pelo conhecimento que adquiriu sozinho, Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 110 ~ trabalhando como engenheiro ferroviário. Paralelamente, começou a publicar artigos em que já de- fendia ideias liberais, argumentando que a ação dos governos não deveria ir além de garantir os direitos naturais dos cidadãos. Em 1848, tornou-se subeditor da revista The Economist, onde traba- lhou até 1853, quando recebeu uma herança do tio e passou a dedicar-se apenas a escrever livros - atividade que manteve até a morte, em 1903. Spencer relacionou-se com os principais intelectuais ingleses do seu tempo e manteve um romance com a escritora George Eliot (pseudônimo de Marian Evans). A sua obra teve enorme re- percussão dentro e fora da Grã-Bretanha. Alguns dos principais livros de Spencer são: Filosofia Sin- tética (que publicou em série, com pagamento de assinatura antecipada por seus admiradores), O Ser humano contra o Estado, Educação Intelectual, Moral e Física e Autobiografia. Período vitoriano marca fim de uma era A rainha Vitória: governante de uma época famosa pelo puritanismo. Herbert Spencer foi, com John Stuart Mill (1806-1873), um dos dois mais importantes pen- sadores ingleses da era vitoriana, e o que melhor encarnou as características, tradicionalmente, relacionadas ao período. O reinado da rainha Vitória (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e governou até a morte, gerou o adjetivo "vitoriano", ao qual se associam o puritanismo, a austeri- dade, o otimismo e a autoridade. Politicamente, o vitorianismo costuma ser lembrado como um tempo de hegemonia do liberalismo. Na realidade, o período foi bem mais complexo, principal- mente, depois da década de 1880, quando vieram à tona os contrastes sociais, as revoltas operárias, o questionamento das religiões e do imperialismo e as ideias socialistas, antes mantidas mais ou menos na obscuridade - e que inauguraram uma nova era. O período vitoriano assistiu a um acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, com a expansão das ferrovias e do telégrafo. Mas nada se comparou ao impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin, que pôs em xeque, tanto as explicações religiosas para a criação da vida, quanto a ideia de que o ser humano ocuparia posição central no Universo. Um dos méritos do pensamento de Herbert Spencer foi propor novas posturas filosóficas com base nesse conhecimento. Para pensar - atualmente, é muito difícil encontrar seguidores fiéis do evolucionismo de Her- bert Spencer, mas muito se fala de uma tendência de pensamento bem semelhante, que é chamada, um pouco caricaturalmente, de darwinismo social. A educação voltada, sobretudo para formar jo- vens competitivos costuma estar relacionada a essa concepção de mundo. Você já pensou até que ponto a sua atuação profissional está vinculada à ideia de formar jovens para a competição? ________________________________________________________________________________ 3.22. Jean-Jacques Rousseau, o filósofo da liberdade como valor supremo. O pensador suíço prega o retorno à natureza e o respeito ao desenvolvimento físico e cog- nitivo da criança, em sua obra sobre a educação. Jean-Jacques Rousseau Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 111 ~ Na história das ideias, o nome do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) liga-se, inevita- velmente, à Revolução Francesa. Dos três lemas dos revolucionários - liberdade, igualdade e frater- nidade -, apenas o último não foi objeto de exame profundo na obra do filósofo, e os mais apaixo- nados líderes da revolta contra o regime monárquico francês, como Robespierre, o admiravam com devoção. O princípio fundamental de toda a obra de Rousseau, pelo qual ela é definida até os dias atuais, é que o ser humano é bom por natureza, mas está submetido à influência corruptora da sociedade. Um dos sintomas das falhas da civilização em atingir o bem comum, segundo o pensador, é a desigualdade, que pode ser de dois tipos: a que se deve às características individuais de cada ser humano e aquela causada por circunstâncias sociais. Entre essas causas, Rousseau inclui desde o surgimento do ciúme nas relações amorosas até a institucionalização da propriedade privada como pilar do funcionamento econômico. O primeiro tipo de desigualdade, para o filósofo, é natural; o segundo deve ser combatido. A desigualdade nociva teria suprimido gradativamente a liberdade dos indivíduos e em seu lugar restaram artifícios como o culto das aparências e as regras da polidez. Ao renunciar à liberdade, o ser humano, nas palavras de Rousseau, abre mão da própria qualidade que o define como humano. Ele não está apenas impedido de agir, mas privado do ins- trumento essencial para a realização do espírito. Para recobrar a liberdade perdida nos descaminhos tomados pela sociedade, o filósofo preconiza um mergulho interior por parte do indivíduo rumo ao autoconhecimento. Mas isso não se dá por meio da razão,e sim da emoção, e traduz-se numa en- trega sensorial à natureza. Bom selvagem - até aqui o pensamento de Rousseau pode ser tomado como uma doutrina individualista ou uma denúncia da falência da civilização, mas não é bem isso. O mito criado pelo filósofo em torno da figura do bom selvagem - o ser humano em seu estado natural, não contami- nado por constrangimentos sociais - deve ser entendido como uma idealização teórica. Além disso, a obra de Rousseau não pretende negar os ganhos da civilização, mas sugerir caminhos para recon- duzir a espécie humana à felicidade. Não basta a via individual: como a vida em sociedade é inevitável, a melhor maneira de ga- rantir o máximo possível de liberdade para cada um é a democracia, concebida como um regime em que todos são submetidos à lei, porque ela foi elaborada de acordo com a vontade geral. Não foi por acaso que Rousseau escolheu publicar, simultaneamente, em 1762, suas duas obras princi- pais, Do Contrato Social - em que expõe a sua concepção de ordem política - e Emílio - minucioso tratado sobre educação, no qual prescreve o passo a passo da formação de um jovem fictício, do nascimento aos 25 anos; tudo com o objetivo de formar o ser humano como o cidadão. Constata- se que, a dimensão política é crucial em seus princípios de educação. Não há escola em Emílio, mas a descrição, em forma vaga de romance, dos primeiros anos da vida de um personagem fictício, filho de um ser humano rico, entregue a um preceptor para que obtenha uma educação ideal. O jovem Emílio é educado no convívio com a natureza, resguardado ao máximo das coerções sociais. O objetivo de Rousseau, revolucionário para o seu tempo, é não só planejar uma educação com vistas à formação futura, na idade adulta, mas também com a intenção de propiciar felicidade à criança enquanto ela ainda é criança. Dependência das coisas - Rousseau via o jovem como um ser integral, e não uma pessoa incompleta, e intuiu na infância várias fases de desenvolvimento, sobretudo cognitivo. Foi, portanto, um precursor da pedagogia de Maria Montessori (1870-1952) e John Dewey (1859-1952), sistema- tizando toda uma nova concepção de educação, depois chamada de ‘escola nova’ e que reúne vários pedagogos dos século XIX e XX. Para Rousseau, a criança devia ser educada, sobretudo em liberdade e viver cada fase da infância na plenitude dos seus sentidos - mesmo porque, segundo o seu entendimento, até os 12 anos o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda se Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 112 ~ forma. Liberdade não significa a realização dos seus impulsos e desejos, mas uma dependência das coisas (em oposição à dependência da vontade dos adultos). "Vosso filho nada deve obter porque pede, mas porque precisa, nem fazer nada por obediência, mas por necessidade", escreveu o filó- sofo em Emílio. Um dos objetivos do livro era criticar a educação elitista do seu tempo, que tinha nos padres jesuítas os expoentes. Rousseau condenava em bloco os métodos de ensino utilizados até ali, por se escorarem, basicamente, na repetição e na memorização de conteúdos, e pregava a sua substi- tuição pela experiência direta por parte dos alunos, a quem caberia a condução do aprendizado, pelo seu próprio interesse. Mais do que instruir, no entanto, a educação deveria, para Rousseau, preocupar-se com a formação moral e política. Método natural e educação negativa - Rousseau dividiu a vida do jovem - e seu livro Emílio - em cinco fases: lactância (até 2 anos), infância (de 2 a 12), adolescência (de 12 a 15), mocidade (de 15 a 20) e início da idade adulta (de 20 a 25). Para a pedagogia, interessam particularmente os três primeiros períodos, para os quais Rousseau desenvolve a sua ideia de educação como um processo subordinado à vida, isto é, à evolução natural do discípulo, e por isso chamado de método natural. O objetivo do mestre é interferir o menos possível no desenvolvimento próprio do jovem, em espe- cial até os 12 anos, quando, segundo Rousseau, ele ainda não pode contar com a razão. O filósofo chamou o procedimento de educação negativa, que consiste, em suas palavras, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro. Desse modo, quando adulto, o ex-aluno saberá defender-se sozinho de tais perigos. Biografia - Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, em 1712. Sua mãe morreu no parto. Viveu primeiro com o pai, depois com parentes da mãe e aos 16 anos partiu para uma vida de aventureiro. Foi acolhido por uma baronesa benfeitora na província francesa de Savoy, de quem se tornou amante. Converteu-se à religião dela, o catolicismo (era calvinista). Até os 30 anos, alter- nou atividades que foram de pequenos furtos à tutoria de crianças ricas. Ao chegar a Paris, ficou amigo dos filósofos iluministas e iniciou uma breve, mas bem-sucedida carreira de compositor. Em 1745, conheceu a lavadeira Thérèse Levasseur, com quem teria cinco filhos, todos entregues a ado- ção - os remorsos decorrentes desse ato marcariam grande parte da sua obra. Em 1756, já famoso por seus ensaios, Rousseau recolheu-se ao campo, até 1762. Foram os anos em que produziu as obras mais célebres (Do Contrato Social, Emílio e o romance A Nova Heloísa), que despertaram a ira de monarquistas e religiosos. Viveu, a partir daí, fugindo de perseguições até que, nos últimos anos da vida, recobrou a paz. Morreu em 1778 no interior da França. Durante a Revolução Francesa, 11 anos depois, foi homenageado com o translado dos seus ossos para o Panteão de Paris. Um pensamento rebelde na Era da Razão Já adulto, Emílio, o personagem de Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. (Ilustração: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil) Havia mais desacordo do que harmonia entre Rousseau e os outros pensadores iluministas que inspiraram os ideais da Revolução Francesa (1789). Voltaire (1694-1778), Denis Diderot (1713- 1784) e seus pares exaltavam a razão e a cultura acumulada ao longo da história da humanidade, mas Rousseau defendia a primazia da emoção e afirmava que a civilização havia afastado o ser hu- mano da felicidade. Enquanto Diderot organizava a Enciclopédia, que pretendia sistematizar todo o saber do mundo de uma perspectiva iluminista, Rousseau pregava a experiência direta, a Organizador: Prof. Antonio Ferreira da Cruz Normas Legais da Educação Básica (Tendências Pedagógicas - Financiamento da Educação Pública - Os Mais Importantes Pensadores da Educação) ~ 113 ~ simplicidade e a intuição em lugar da erudição - embora, mesmo assim, tenha se encarregado do verbete sobre música na obra conjunta dos filósofos das luzes. Também o misticismo os opunha: Rousseau rejeitava o racionalismo ateu e recomendava a religião natural, pela qual cada um deve buscar Deus em si mesmo e na natureza. Com o tempo, as relações entre Rousseau e os seus con- temporâneos chegou ao conflito aberto. Voltaire fez campanha pública contra ele, divulgando o fato de que ele havia entregado os filhos à adoção. Os seguidores mais fiéis de Rousseau seriam os ar- tistas filiados ao Romantismo: por meio deles, as suas ideias influenciaram profundamente o espí- rito da época. No Brasil, por exemplo, José de Alencar escorou os seus romances indigenistas no mito rousseauniano do bom selvagem. Para pensar - por incrível que pareça, Rousseau, ao criar o mito do bom selvagem, acabou dando argumentos para negar a importância ou o valor da educação. Afinal, a educação é antes de tudo ação intencional para moldar o ser humano de acordo com um ideal ou um modelo que a sociedade, ou um segmento dela, valoriza. A educação aceita a natureza,