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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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perspectiva. Além disso, através das ilustrações, dos desenhos e dos moldes dos trajes tentou-
se apresentar uma faceta da história da moda que realça a dicotomia do pensamento da Idade 
Média envolvendo a vestimenta e o corpo feminino. Apesar das lacunas substanciais, no que 
se refere às informações sobre a indumentária, a abordagem desse estudo justificou-se pela 
observação muitas vezes confirmada de que havia uma intenção na elaboração do traje. 
Confirmaram-se aqui as dificuldades de se remontar ou de se reproduzir trajes históricos sem 
eliminar suas particularidades de estilo. Através da bibliografia estudada, foi possível fazer 
um levantamento de imagens que permitiu analisar e avaliar a consistência da hipótese 
levantada: a roupa e a moda como opressão do corpo feminino. Por se tratar da Idade Média, 
quando muitas fontes foram destruídas, o retrocesso no tempo tornou mais difícil a 
catalogação de modelos originais. 
Posicionamentos importantes foram levantados diante das mudanças às quais a moda 
se submeteu, tendo como pano de fundo a cultura misógina da Idade Média, abordando-se 
duas questões básicas: a evolução da moda e a relação específica desta com a cultura no 
contexto histórico do Baixo Medievo. Confirmou-se no vestuário feminino o reflexo da 
época, na qual há contradição entre o pensamento dos clérigos que abominavam o corpo 
feminino e queriam levá-lo à clausura, e o pensamento dos homens que lutavam contra o 
desejo de desvendar os seus mistérios. Ressalta-se então a secular lentidão processada pelas 
mudanças na evolução da moda devido a uma repressão inerente à detenção do poder na 
sociedade e culturalmente violentada nas mentes, tanto dos homens como das mulheres. 
Formaram-se características de um inconsciente coletivo culposo que retardou as mudanças 
necessárias à evolução de toda sociedade e somente perceptíveis pela lupa dos séculos. 
O processo de concepção da moda enquanto técnica de construção da roupa, no que 
diz respeito à forma, evidenciou o grande diferencial do corte que determinava o talhe , ou 
seja, o caimento perfeito no corpo. A quantidade de tecidos e ornamentos, os detalhes e 
enfeites usados para elaborá-la tinham, todos, um significado particular de distinção. 
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Partindo-se da moda como fenômeno surgido na Europa Ocidental, especificamente na 
França, iniciou-se um estudo, focando-se também outros povos do Ocidente Europeu como: 
ingleses, alemães, espanhóis e italianos, procurando traços estilísticos comuns na 
indumentária que pudessem justificar o pensamento predominante da época e um possível 
padrão estético que surgia, provavelmente, proveniente do sentimento de busca de identidade 
que crescia por toda a Europa. 
Köhler foi fonte inspiradora para uma abordagem da história da indumentária, onde se 
teve acesso a uma descrição precisa sobre o corte de cada peça do vestuário Evidenciou-se, 
através dos moldes, a evolução da vestimenta que partiu de um simples retângulo para, então, 
apresentar formas elaboradas onde a intenção estava clara, evidenciar os contornos do corpo 
feminino. Neste sentido, enfatizou-se que o vestuário realmente denotava uma intenção, 
provavelmente para além da sedução, de camuflar o aprisionamento do corpo feminino. É no 
corte de um traje que está descrita sua intenção e sua expressão torna-se o reflexo dessa 
intenção. 
Com o passar do tempo, a roupa e os adereços do vestuário feminino evidenciavam 
cada vez mais uma dicotomia entre o esconder e o mostrar do corpo da mulher. Na verdade, o 
vestuário feminino tornou-se o reflexo de uma época quando todo esse universo de 
contradições desencadeou um processo de criação e de diferenciação entre os sexos que pode 
ser visto nos trajes. Esse processo veio a se estabelecer como moda no final do século XIV. 
Quando se chega ao termino de uma empreitada como foi o presente trabalho, não se 
pode, de maneira franca, afirmar que uma conclusão foi dada ao assunto. Bem ao contrário, o 
sentimento é de que poder-se-ia indefinidamente percorrer os labirintos da história na busca 
de explicações às inúmeras questões levantadas. Cabe destacar a questão da relação de poder 
existente entre homens e mulheres: dentro de que medida, toda uma linguagem de desprezo, 
de subjugo, de desvalorização desenvolvida durante séculos a fio contra a imagem da mulher, 
também não tenha sido instrumentalizada e mantida com a participação, pelo menos passiva, 
desta? Essa depreciação foi inculcada a gerações de mulheres que defendiam, elas próprias, a 
desigualdade em nome de um discurso imobilista e moralizador em um mundo de razões 
masculinas que lhes garantia a autoridade. Da dualidade de tantos pontos em aparência 
contraditórios que se encontram em filigrana nesse trabalho, sobressai finalmente que, apesar 
da incontestável opressão da mulher pela vestimenta, a moda também está na origem de sua 
liberação e que, em um mundo coletivista, espiritualista e alienador da personalidade, a 
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individualidade foi-se afirmando e dando espaço à expressão da mulher num mundo 
masculino de poder. 
O significado da moda se tornou tão mutável quanto a própria moda, exigindo 
permanentemente não só o reconhecimento mas a interpretação. As mulheres se aproveitaram 
da moda para deixarem de ser meros joguetes e símbolos de valor social, para então, 
participarem como agentes de negociação social. A roupa que enclausurou e sufocou o corpo 
feminino acabou se tornando uma arma em seu favor. Foi por meio dela que a mulher 
modelou sua identidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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