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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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fenômeno e aquele que carrega a maior carga simbólica. Assim, procurar-se-á traçar um 
paralelo entre a ascensão da moda e a mudança do vestuário feminino na Idade Média, 
consolidando-se o advento de uma sociedade reestruturada pela sedução, pela distinção de 
gênero, pelo efêmero e pela própria lógica da moda. “A moda não é mais um enfeite estético, 
um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou 
estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo de seu poder, conseguiu remodelar a 
sociedade inteira à sua margem [e para entender seu processo é necessário] compreender o 
seu estabelecimento, as etapas e o apogeu de seu império.”5 
O vestuário feminino esteve atrelado a um sistema de poder e, nesse caso específico, 
ao poder masculino representado pelos clérigos. A vestimenta teve seu papel no universo do 
exercício do poder masculino sobre o feminino. Além de observarem-se aspectos da moda 
apropriados pela Igreja e pela sociedade como um mecanismo em prol de uma cultura de 
opressão, contraditória e paradoxal no que diz respeito ao sexo feminino, pode-se dizer que na 
verdade, apesar de vestirem a moda com estereótipos grotescos, também, contribuíram para 
arrancar as mulheres do obscurantismo e para instituir um espaço a elas como indivíduos 
singulares. A moda colaborou para instituir um espaço público aberto para uma humanidade 
mais legalista, mais cética, mais estética. 
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5 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 12. 
 15
Em pesquisa realizada sobre a história da moda, Lipovetsky aponta fatos que 
desencadearam a emergência do fenômeno da moda ao final da Idade Média, em meados do 
século XIV, que pode ser considerada a “fase inaugural da moda, onde o ritmo precipitado das 
frivolidades e o reino das fantasias instalaram-se de maneira sistemática e durável”.6 E, é 
partindo dessa constatação que se pretende levantar as questões que envolveram o contexto 
histórico-cultural feminino da Europa Ocidental. Procura-se enfocar, no presente estudo, além 
da moda, as influências sofridas pelo vestuário na história das mulheres, buscando 
compreender como este assumiu um papel importante como mecanismo de manipulação do 
pensamento e do corpo feminino, refletindo as idéias misóginas do medievo. A história das 
mulheres, tema que foi por muito tempo desprestigiado pelos historiadores, vem atraindo 
muitos estudiosos. Além dos medievalistas, teólogos, sociólogos, antropólogos se 
interessarem com a posição social da mulher na Idade Média, os designers têm buscando 
explicação para o caráter “mutante” que a moda assumiu a partir desse período histórico. 
A moda, no decorrer do tempo, interferiu no cotidiano e transformou-se devido ao 
contato entre povos de culturas diferentes que acabaram adquirindo novos gostos. 
Diferentemente da Alta Idade Média que esteve associada ao campo, ao sistema feudal e à 
escassez de recursos econômicos, a Baixa Idade Média caracterizou-se pelo restabelecimento 
da economia urbana, pelo ressurgimento de uma autoridade central, pelas novas técnicas 
agrícolas desenvolvidas, pelo reaparecimento do comércio citadino, ou seja, pela 
revalorização dos centros urbanos na Europa. Isso acarretou um novo modo de vida 
intrinsecamente ligado ao comércio e à vida cultural. As monarquias européias se 
consolidaram e a Igreja aumentou o seu poder. 
Do século XI ao XV, a Europa Ocidental unificada, agora órfã de Carlos Magno, 
imperador cristão que privilegiava o ensino e as artes, vê surgir a Igreja dominando toda a 
produção intelectual e cultural sob o julgo das questões religiosas cristãs. Questões estas que 
levaram o Ocidente Europeu às Cruzadas e diversos reinos europeus a se unirem. Entre outras 
coisas, trouxe certa uniformidade aos povos na maneira de se trajar. Considerando-se esse 
contexto, pretende-se levantar os aspectos mais importantes do processo de construção da 
moda e expô-los de maneira a levá-los a um reposicionamento específico, não se detendo a 
uma análise precisa e detalhada de cada parte do traje, mas considerando-o como um todo 
significativo. 
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6 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 25. 
 
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Um dos intuitos da presente dissertação é também de procurar mostrar graficamente a 
indumentária através do corte. As roupas usadas por senhores ou servos tinham nos tecidos e 
ornamentos suas principais diferenças, visto que, no corte, eram muito semelhantes. Devido à 
acessibilidade a um maior número de informações e registros, será dada ênfase à análise da 
vestimenta aristocrática, procurando-se salientar o discurso misógino, de opressão e de 
aversão ao corpo feminino em vigor no século XII. Para isso, tomaram-se como base os 
estudos de Köhler que afirma que é no corte de um traje que está descrita sua intenção, 
tornando-se o reflexo de uma pretensão que, com o passar do tempo, cada vez mais evidencia 
a dicotomia entre o esconder e o mostrar do corpo da mulher. Na verdade, o vestuário 
feminino torna-se o reflexo da época, na qual há contradição entre o pensamento dos clérigos 
que abominavam o corpo feminino e queriam levá-lo à clausura, e o pensamento dos homens 
que lutavam contra o desejo de desvendar os seus mistérios. 
No primeiro capítulo, faz-se uma conceituação da moda, uma contextualização 
histórica e teórica dos principais pensamentos e forças que nortearam e condicionaram a 
criação da moda feminina na Baixa Idade Média. Apresenta-se a moda como fenômeno 
surgido na Europa Ocidental, especificamente na França, por encontrarem-se dados de fontes 
históricas em obras de autores importantes como James Laver que considera que essa região 
representa a origem do pensamento Ocidental e a da própria moda. Lipovetsky serviu-se de 
estímulo no sentido de redinamizar as inquietações que cercam as investigações da moda tida 
como objeto fútil, contraditório por excelência, e portanto ainda mais instigante. 
Dedica-se, no capítulo seguinte, à definição da roupa, a seu simbolismo e a seu caráter 
de funcionalidade. Fala-se da roupa como proteção e orna, como signo de identificação de um 
povo e de uma cultura. Estabelecem-se parâmetros de comparação entre a vestimenta 
tradicional e a vestimenta que sofre um processo de constante mutação, adquirindo novas 
formas, dando origem a algo que veio a ser denominado: moda. Parte-se então da exposição e 
análise da vestimenta feminina no contexto histórico e cultural da Idade Média, bem como, 
seu posicionamento face ao desenrolar do processo de desenvolvimento e estabelecimento da 
moda. 
Com o propósito de investigar a questão da moda e sua origem, deparou-se com a 
necessidade de adentrar o universo medieval repleto de questões que levaram à consolidação 
da moda, tendo o vestuário como signo de manipulação e de opressão nas mãos dos que 
detinham o poder. 
Apresenta-se um quadro de opressão, no terceiro capítulo, que traduz o pensamento 
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misógino que imperava na Baixa Idade Média sobre a mulher no Ocidente Europeu. Tal 
colocação foi baseada na historiografia das mulheres. A princípio, colocou-se o problema da 
opressão como um assunto tratado no âmbito do universo masculino, no entanto, concluiu-se 
que a maioria das idéias e dos conceitos tinha sido elaborada pelos eclesiásticos. “Homens de 
Igreja que possuíam uma visão dicotômica da mulher, ao mesmo tempo em que a tinham 
como culpada pelo Pecado Original, tinham-na como imagem da Virgem Maria, a mulher que 
gerou o Salvador e redentor dos pecados.”7 
A invenção incessante e a obsolescência planejada inerentes à moda tornaram-se cada 
vez mais associadas ao caráter feminino. Isso

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