Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock - Lobão
365 pág.

Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock - Lobão


DisciplinaMúsica5.893 materiais33.868 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Copyright	©	2017,	Lobão
Copyright	©	2017,	Casa	da	Palavra/LeYa
Todos	os	direitos	reservados	e	protegidos	pela	Lei	9.610,	de	19/2/1998.	
É	proibida	a	reprodução	total	ou	parcial	sem	a	expressa	anuência	da	editora.	
Este	livro	foi	revisado	segundo	o	Novo	Acordo	Ortográfico	da	Língua	Portuguesa.
Pesquisa	RICARDO	PIERALINI
Preparação	de	textos	LINA	ROSA
Diagramação	FILIGRANA
Capa	LEANDRO	DITTZ
Ilustrações	de	capa	e	de	miolo	LAMBUJA
Revisão	ANA	KRONEMBERGER	E	BÁRBARA	ANAISSI
CIP-Brasil.	Catalogação	na	Publicação.	
Sindicato	Nacional	dos	Editores	de	Livros,	RJ.
L776g	 Lobão,	1957-
\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002Guia	politicamente	incorreto	dos	anos	80	pelo	rock	/
\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002Lobão	;	[ilustração	Lambuja]	.	\u2013	Rio	de	Janeiro	:	LeYa,	2017.
\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002il.
\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002Inclui	índice
\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002\u2002ISBN:	978-85-441-0563-4
\u2002\u2002\u2002\u20021.	Rock	-	Brasil	\u2013	História	e	crítica.	2.	Música	e	história	\u2013	Brasil.	I.	Título.
17-42307
CDD:	782.420981
CDU:	78.067.26(81)
	
	
Todos	os	direitos	reservados	à
EDITORA	CASA	DA	PALAVRA
Avenida	Calógeras,	6	|	sala	701
20030-070	\u2013	Rio	de	Janeiro	\u2013	RJ
www.leya.com.br
Este	livro	é	dedicado	ao
meu	gato-filho,	Lampião
dos	Olhos	Cor	de	Céu,
que	nos	deixou	em
agosto	de	2016.
SUMÁRIO
PRÓLOGO
CAPÍTULO	1	
1976	\u2013	O	Brasil	e	a	modorra	bicho-grilo
CAPÍTULO	2	
1977	\u2013	Pro	Brasil	ficar	odara	do	jeito	que	sempre	ficara
CAPÍTULO	3	
1978	\u2013	Surgindo	os	primeiros	sinais
CAPÍTULO	4	
1979	\u2013	O	punk	na	periferia,	Inocentes,	Cólera,	Lira	Paulistana	e	maisgeleca	geral
CAPÍTULO	5	
1980	\u2013	Enfim!	O	rock	acerta,	nasce	a	Blitz
CAPÍTULO	6	
1981	\u2013	A	Gang	90	inaugura	os	anos	80,	nasce	o	punk	no	Rio
CAPÍTULO	7	
1982	\u2013	O	ano	em	que	tudo	aconteceu...	e	que	não	acabou
CAPÍTULO	8	
1983	\u2013	Ritchie,	Lulu,	Os	Ronaldos,	Barão	Vermelho	e	Os	Paralamas	do	Sucesso
CAPÍTULO	9	
1984	\u2013	O	Brasil	transpira	roquenrou!
CAPÍTULO	10	
1985	\u2013	Rock	In	Rio,	Tancredo,	RPM,	Legião,	Ultraje,	Cazuza	e	Décadence
CAPÍTULO	11	
1986	\u2013	Declare	Guerra,	Rádio	Pirata	ao	vivo,	Pânico	em	SP,	O	 futuro	évórtex,	Cabeça
Dinossauro,	O	rock	errou	e	outros	acertos	e	desacertos
CAPÍTULO	12	
1987	 \u2013	 Que	 país	 é	 este?,	 Sexo!!,	 Jesus	 não	 tem	 dentes	 no	 país	 dos	 banguelase	 Vida
bandida
CAPÍTULO	13	
1988	\u2013	O	início	do	fim
CAPÍTULO	14	
1989	\u2013	E	nos	estertores	de	uma	era	vigora	uma	beleza	intensa
CAPÍTULO	15	
1990/1991	\u2013	Esse	é	o	fim,	meus	amigos
POSFÁCIO	
\u201cUm	outro	 toque	 do	 tambor\u201d,	 ou:	 como	 a	 ideologia	 política	 destruiu	 tudoo	 que	 você
sabe	sobre	os	anos	80,	por	Martim	Vasques	da	Cunha
AGRADECIMENTOS
ÍNDICE	REMISSIVO
PRÓLOGO
Por	minha	formação	e	alma	serem	setentistas,	sempre	me	senti	um	outsider	nos	anos	80.	De	tal
forma	que,	só	de	ouvir	falar	nessa	época	me	dá	um	arrepio	na	nuca.
Com	 toda	 a	 certeza,	 foi	 a	 década	 que	 mais	 me	 causou	 decepções,	 perdas	 trágicas,
desentendimentos,	prisões,	brigas	e	discordâncias	estéticas	irreconciliáveis.
Tudo	 isso	misturado	com	enorme	esperança	de	 fazer	uma	música	própria,	de	pertencer	a	 uma
rapaziada	que	pudesse	mudar	o	panorama	presunçoso	e	medíocre	desse	arraial	de	cu	do	mundo	que
é	 o	 coronelato	 da	 música	 brasileira	 (cujos	 protagonistas	 imperam	 até	 os	 dias	 de	 hoje),	 além	 da
possibilidade	grande	de	vivenciar	aventuras	inacreditáveis.
Sendo	assim,	para	ser	possível	escrever	este	livro	(escrever	um	guia	de	uma	época	fazendo	parte
dela	não	é	fácil)	foi	necessário	o	devido	distanciamento	temporal	dos	acontecimentos,	para	que	eu
pudesse	formular	um	relato	da	forma	mais	equilibrada,	clara	e	honesta	possível	sobre	essa	década
que	produziria	tantas	façanhas	na	mesma	proporção	que	engendraria	seu	próprio	aniquilamento.
Em	suma:	este	é	o	relato	da	saga	de	jovens	músicos	e	compositores	na	luta	para	conquistar	um
lugar	no	cancioneiro	popular	brasileiro	enfrentando	os	vícios	do	mainstream.
Portanto,	 além	 dos	 inquestionáveis	 fatos	 documentais,	 trata-se	 de	 um	 livro	 baseado	 em
experiências	próprias	 (afinal	de	contas,	sou	um	dos	sócios-fundadores	do	rock	dessa	década),	que
concedem	à	atmosfera	da	narrativa	uma	perspectiva	inteiramente	pessoal.
O	que	mais	impressionará	(e	aterrorizará)	neste	excruciante	exercício	de	memória	no	transcorrer
do	 livro	é	verificar	que	se	trata	de	uma	década	de	esplendor,	 talento	e	criatividade	em	termos	de
produção	de	músicas	e	discos	primordiais,	não	somente	para	o	 tal	 cancioneiro	da	música	popular
brasileira,	mas	para	o	âmago	do	inconsciente	coletivo	de	um	povo.
Vamos	trilhar	juntos	os	passos	dos	vestígios	e	tentar	encontrar	as	causas	que	fizeram	esse	rico	e
alvissareiro	 cenário	 desmoronar	 e	 transmigrar	 para	 o	 imaginário	 do	 cidadão	 comum	 como	 uma
década	trash,	perdida,	cafona,	na	qual	simplesmente	prevaleceram	os	mullets,	o	gel,	terninhos	com
ombreiras,	 os	 Smurfs,	 He-Man,	 MacGyver,	 Turma	 da	 Xuxa,	 hiperinflação,	 ORTNs,	 Sarney,	 Nova
República,	calças	bag,	lambada	e	rock	brega.	Por	que	o	melhor	dessa	década	se	evanesceu?	Por	que
será	 que	 não	 deixou	 nenhum	 legado,	 nenhuma	 continuidade?	 Foram	 as	 mortes	 de	 artistas
fundamentais	um	fator	decisivo?	Certamente	isso	contribuiu	de	forma	dramática	para	a	derrocada...
Mas	será	que	foi	só	isso?	É	o	que	veremos.
E	 para	 iniciar	 essa	 aventura	 que	 será	 uma	 espécie	 de	 busca	 à	 década	 perdida,	 vamos	 nos
confrontar	 com	 as	 idiossincrasias	 estético-comportamentais	 dos	 anos	 80,	 com	 a	 sua	 atmosfera
política,	com	o	desinteresse	da	nova	geração	que	surgia	pela	desgastada	e	empolada	linguagem	da
presunçosa	e	reacionária	MPB.
Vamos	também	verificar	o	papel	das	drogas,	pois	os	anos	80	se	celebrizariam	como	a	década	da
droga	mais	 careta	 de	 todas,	 a	 cocaína,	 quando	 cheirar	 um	 pozinho	 traçado	 era	 de	 bom-tom,	 era
bacana,	era	normal	e	apreciável	(até	o	padeiro	da	esquina,	a	dona	de	casa,	o	corretor	de	bolsa	de
valores	e	o	contínuo	do	cafezinho	cafungavam	umas	carreirinhas	socialmente).
Verificaremos	a	influência	das	danceterias,	dos	programas	de	auditório,	das	Diretas	Já,	da	Aids,
das	 loucuras	 ingênuas,	 da	 caretice	 travestida	 de	 loucura,	 do	 agigantamento	 da	 indústria
fonográfica,	do	 jabá	como	 forma	de	poder	e	de	censura,	da	 imprensa	especializada	que	veio	a	 se
desenvolver	a	partir	da	segunda	metade	da	década,	no	vácuo	do	sucesso	da	implementação	do	Rock
in	Rio,	quando	ambos,	Rock	in	Rio	e	imprensa	especializada,	terão	um	peso	bastante	significativo	no
desaparecimento	do	rock	como	gênero	determinante	na	cultura	nacional.
E	para	que	tenhamos	uma	real	noção	de	como	tudo	começou,	optei	por	iniciar	este	relato	no	ano
de	1976,	com	o	evento	do	Festival	de	Saquarema,	onde	se	 reuniram	os	principais	nomes	daquele
embrionário,	aleatório	e	caótico	movimento	daquilo	que	viria	a	ser	chamado	de	\u201crock	dos	anos	80\u201d.
Perceberemos	 que,	 naquele	 exato	momento,	 estávamos	 diante	 de	 uma	 fértil	 estufa	 de	 futuros
new	wavers	das	noites	da	Pauliceia	Desvairada,	dos	fundadores	do	lendário	Circo	Voador,	daqueles
que	se	tornariam	os	mais	novos	superastros	das	paradas	de	sucesso	e,	muito	em	breve,	quebrariam
todos	 os	 recordes	 de	 execução	 em	 rádio	 e	 vendas	 de	 discos.	 Isso	 resultaria	 numa	 total
transformação	da	cultura	brasileira	e	colocaria	os	caciques	da	canção	de	cabelo	em	pé	(pelo	menos
por	alguns	anos),	que,	em	 tempo,	corrigiriam	essa	 rota	desvairada	para	não	perderem	o	 controle
total	do	poder	sobre	a	cultura	nacional,	poder	esse,	mais	tirânico	ainda	nos	dias	de	hoje.
E	para	enxergarmos	esse	 incrível	 cenário	 seremos	obrigados	a	mergulhar	 fundo	nesse	período
pré-inaugural	dos	anos	80.
Faremos	 uma	 panorâmica	 nas	 cenas	 incipientes	 dos	 hippies	 da	 época	 quando	 proto-hipsters
começavam	a	se	unir	alegremente	aos	protopunks	que	já	pululavam	nas	periferias	das	cidades.
Sobrevoaremos	 resolutos	 os	 idos	 do	 Frenetic	 Dancin\u2019	 Days	 com	 suas	 anacrônicas	 tigresas
sessentistas,	algumas	egressas	do	Hair,	 outras	 saídas	da	 luta	armada	de	araque;