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em vez de se adian-
tar ao seu curso e de mudar a sua direção”, e continua 
dando como exemplo “a concepção – extremamen-
te completa e interessante – de Piaget, que estuda o 
desenvolvimento do pensamento da criança de forma 
completamente independente do processo de apren-
dizagem” (1988, p. 103)
 Não é por meio da aprendizagem escolar que a crian-
ça desenvolve sua capacidade de raciocinar. Esta tese 
defende que a aprendizagem ocorre depois do desen-
volvimento, assim como é preciso que haja maturação 
para que haja aprendizagem; o processo de aprendi-
zagem vem sempre depois. Vygotsky (1998b) cita um 
dos clássicos da literatura psicológica, adepto desta ca-
tegoria, afirmando: “(...) Binet e outros admitem que 
o desenvolvimento é sempre um pré-requisito para o 
aprendizado e que, se as funções mentais de uma crian-
ça (operações intelectuais) não amadurecem a ponto de 
ela ser capaz de aprender um assunto particular, então 
nenhum instrumento se mostrará útil” (p. 104).
 Para Vygotsky (1998a), os adeptos desta categoria con-
sideram que o educador deve encontrar um momento 
no qual uma nova instrução possa ser possível.
2. Outra proposição é a de que aprendizagem é desen-
volvimento. Essa é uma tese que se contrapõe à tese 
da independência. Há um valor atribuído à apren-
dizagem superior ao desenvolvimento da criança. 
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No entanto, as duas teses têm em comum conceitos 
fundamentais e são parecidas. James (in Vygotsky, 
1988, p. 105) define a educação “como a organização 
de hábitos de comportamento e de inclinação para a 
ação”. O desenvolvimento seria assim “uma acumu-
lação de reações”. Contudo, Vygotsky considera uma 
diferença fundamental entre as duas teses: a relação 
temporal entre o processo de aprendizagem e o pro-
cesso de desenvolvimento. Esta tese não superpõe 
um tempo entre o processo de desenvolvimento e o 
processo de aprendizagem. Aqui, o desenvolvimento 
é paralelo à aprendizagem, mas há uma identificação 
entre desenvolvimento e aprendizagem tão exagerada, 
que pouco se diferencia da tese da independência.
3. Essa tese procura conciliar as duas anteriores. Considera 
que há uma independência, mas também há uma coin-
cidência entre aprendizagem e desenvolvimento. É, 
portanto, uma teoria dualista do desenvolvimento, 
ou seja, independente, mas coincidente dos dois pro-
cessos. Dessa teoria, o exemplo de defensor, citado 
por Vygotsky, é o de Koffka, que apesar de ter dei-
xado inconclusa sua teoria, defende que o processo 
de maturação prepara e torna possível um processo 
específico de aprendizado (Vygotsky, 1988, p. 106).
 Para Vygotsky, já no nascimento da criança, há 
uma relação entre aprendizagem e desenvolvimen-
to. Mesmo concordando que o desenvolvimento é 
construído, em parte, pelo processo de maturação do 
sujeito, assegura que é a aprendizagem que viabiliza o 
surgimento dos processos psicológicos internos, e que 
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estes ocorrem graças à interação do indivíduo com o 
ambiente cultural.
 O exemplo do aprendizado da leitura e da escrita é bem 
característico desta abordagem vygotskiana. Se o sujeito 
se isola num ambiente cultural, onde não se faça uso da 
escrita, ele não será alfabetizado. Isso porque o processo 
de aprendizado da leitura/escrita somente seria possível 
num ambiente sociocultural viável, onde poder-se-ia 
despertar processos de desenvolvimento internos do 
sujeito capazes de permitir a aquisição da leitura e da 
escrita, conforme nos diz Oliveira (1993, p. 56).
Vygotsky (1988), ao rejeitar as três posições teóricas aci-
ma referidas, afirma a complexidade do problema em discussão, 
reacende o fato de que o aprendizado da criança não começa na 
escola, que toda situação de aprendizagem escolar se defronta 
sempre com uma história de aprendizagem prévia. Com estes 
preâmbulos, Vygotsky retoma o tema da zona de desenvolvi-
mento proximal e sua relação com a aprendizagem.
A zona de desenvolvimento proximal é a mola mestra da 
teoria vygotskiana. Com ela, conecta-se o processo de desenvol-
vimento do indivíduo por meio de sua interação com o contexto 
social e cultural, fortalecendo o organismo que se desenvolve 
pelo contato com as suas circunstâncias. Quando o sujeito se 
encontra num momento no qual ele já é capaz de resolver pro-
blemas sozinho, em que é capaz de elaborar mentalmente um 
problema, a ação externa não se faz tão necessária. No entanto, 
é na zona de desenvolvimento proximal que mais o sujeito re-
cebe influência propulsora de seu desenvolvimento. Por outro 
lado, é preciso que o sujeito se encontre exatamente nesta fase 
para que possa usufruir de suas circunstâncias.
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É aí, pois, que mais se observa, que mais se faz sentir a 
relação existente entre o desenvolvimento do indivíduo e seu 
processo de aprendizagem. O professor, atento a estas questões, 
dá à escola um papel de fundamental importância na construção 
e na elaboração dos processos mentais do indivíduo adulto. Daí 
afirmar Vygotsky que “o único tipo de aprendizado é aquele 
que caminha à frente do desenvolvimento, servindo-lhe de guia; 
deve voltar-se não tanto para as funções já maduras, mas princi-
palmente para as funções em amadurecimento” (1987, p. 89);
A idéia do autor sobre a zona de desenvolvimento proxi-
mal é trabalhada na escola constante e intencionalmente, por 
ser na escola onde se observa uma situação estruturada e com-
prometida com a evolução dos processos de desenvolvimento 
e da aprendizagem do aprendente. Porém, Vygotsky trabalha 
também com outras situações, nas quais se dá a relação com 
o desenvolvimento infantil, no caso, o brinquedo. O autor faz 
uma comparação entre a situação escolar e a situação de brin-
cadeira que, mesmo sem função clara de desenvolver as funções 
superiores, cria uma zona de desenvolvimento proximal, não só 
pela situação imaginária, como também ao definir regras especí-
ficas, propiciando uma nova aprendizagem.
Assim é que Vygotsky (1988) retoma a palavra neste tra-
balho, para dizer que: “A relação entre ambos os processos pode 
representar-se esquematicamente por meio de dois círculos con-
cêntricos; o pequeno representa o processo de aprendizagem e 
o maior, o do desenvolvimento, que se estende para além da 
aprendizagem (p. 109).
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considerações finais
Retomaremos alguns aspectos que ressaltamos como de 
fundamental importância para o tema aqui descrito. De acor-
do com o pensamento vygotskiano, há uma transformação do 
homem, como ser biológico, em homem como ser social, que 
se efetua por meio de um processo de internalização de suas 
atividades, de seus comportamentos e dos símbolos que ele ad-
quire ao longo de uma relação com a cultura. Como o próprio 
Vygotsky não deixou resolvida a questão da relação do desen-
volvimento cognitivo com as questões da educação, o estudo de 
sua obra nos leva a refletir sobre como funciona o pensamento 
humano e como se aplica este estudo à ação pedagógica.
Na relação entre desenvolvimento e aprendizagem, 
Vygotsky esquematiza três categorias fundamentais. A pri-
meira pressupõe a independência que existe entre o processo 
de desenvolvimento e o processo de aprendizagem. Aqui, a 
aprendizagem é um processo exterior, paralelo ao processo de 
desenvolvimento da criança. A aprendizagem utiliza os resul-
tados do desenvolvimento, como no caso do estudo feito por 
Piaget