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livro questao social

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de casos mais extremos, 
enquanto a relativa permite comparar com outros dentro da própria 
comunidade. (FREITAS, 2010, p. 8). 
Assim, a pobreza não consiste apenas em rendimentos ou numa ração 
calórica insuficiente, especificamente tem a ver com a recusa de oportunidades 
e de escolhas que são de um modo geral consideradas essenciais para ter uma 
existência longa, saudável e criativa, bem como gozar de um nível de vida razoável, 
de liberdade, de lazer, de dignidade, de respeito com as pessoas, com os bens 
públicos, de cuidado de si e do outro. 
Para Robert Chambers (2006 apud RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO 
HUMANO 2014, p. 15) “vulnerabilidade não é o mesmo que pobreza. Não significa 
estar carente ou necessitado, mas sim indefeso, inseguro e exposto a múltiplos riscos, 
choques e estresse”. Assim, vamos percebendo que a vulnerabilidade é muito mais 
complexa e ampla que a pobreza em si. Estar em situação de vulnerabilidade é 
estar em uma das diversas situações ou condições diversas de insegurança, riscos, 
pressão, estresse, entre outras inúmeras.
FIGURA 27 – VALORES DE RENDA NO BRASIL E POBREZA (2013)
FONTE: Datafolha/nov.2013. Disponível em: <www.google.com.
brsearch?q=má+distribuiçã o+de+renda&biw. Acesso em: 17 mar. 2015.
Analisando a pirâmide que demonstra a renda mensal das famílias no 
Brasil, tendo como fonte a Datafolha/nov.2013, vamos perceber que não tem 
como sobrar dinheiro para uma vida digna, de liberdade, com lazer, enfim, com 
qualidade de vida. Estamos vivendo em uma época que, a renda mensal está sendo 
direcionada apenas para o básico do básico ou seja, para as necessidades básicas 
de sobrevivência, isso quando a família consegue pagar os impostos e as contas em 
dia, como, por exemplo, a conta de energia elétrica que teve aumentos absurdos 
neste ano no país. 
Constatamos que mesmo trabalhando, a pessoa não consegue ter qualidade 
de vida, especificamente um lazer digno, assim a TV se torna a única opção, um 
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UNIDADE 3 | REDISCUTINDO AS QUESTÕES SOCIAIS E SUAS EXPRESSÕES 
 NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA ORDEM SOCIETÁRIA
mal necessário que aliena e aprisiona as mentes humanas e a capacidade de crítica 
e reflexão. 
Segundo Junho (2015, p. 49), “O sistema capitalista transformou o 
trabalhador num verdadeiro escravo do tempo, sem ter condições de lazer ou, em 
muitos casos, de receber um salário digno e proporcional a suas horas de dedicação 
ao emprego”.
Assim, nós percebemos que a falta de recursos e renda para as diversas 
satisfações do ser humano, por vezes, inexistem ou se existem, se fazem valer de 
forma fragmentada ou ineficiente, bem como a falta de participação e poder nas 
decisões do país de forma efetiva, da sociedade, da cidade, no seu bairro, assim, 
aqueles que deveriam representar os interesses da população, na maioria dos casos 
se preocupam em defender interesses que irão lhes garantir no poder.
Refletindo, vamos compreender então que, se faltam recursos e renda para 
as pessoas, se elas não participam e não decidem politicamente sobre seus destinos, 
da sua cidade e da sociedade, bem como, se sofrem com a falta de segurança em 
todos os níveis na sociedade e, percebem que não possuem capacidades e formas 
para o enfrentamento e para as resoluções dos problemas que os afligem, vamos 
constatar que estas pessoas se encontram em situação de pobreza e de injustiça 
social.
Relembrando o que foi discutido na Unidade 1 – Tópico 3, segundo Machado 
(2014), compreender a questão social representa uma perspectiva de análise da 
sociedade, pois não vemos a questão social em si, mas sim suas expressões, ou 
seja, percebemos as inúmeras e incômodas manifestações e expressões sociais na 
sociedade. 
FIGURA 28 – REFLEXÃO SOBRE A JUSTIÇA E A INJUSTIÇA SOCIAL
FONTE: Disponível em: <www.google.com.
brsearch?q=má+distribuição+de+renda&biw>. Acesso em: 18 mar. 2015. 
Agora, refletindo mais profundamente, quantos milhões de brasileiros 
não estão nessa situação de pobreza, nessas condições de vulnerabilidade social 
e de risco social? Se a miséria diminui no Brasil, segundo as estatísticas, de fato 
podemos concluir sem dados números que a pobreza aumentou e muito no nosso 
país.
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TÓPICO 1 | POSSIBILIDADES E ALTERNATIVAS DE REVERSÃO DO AGRAVAMENTO 
DAS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL
FONTE: Disponível em: <http://www.google.de/imgres?imgurl=https>. Acesso em: 
19 mar. 2015.
Nesse sentido podemos enfatizar, de forma real e atual, que querendo ou 
não, sofremos pressão todos os instantes em nossa vida, sendo um problema crucial 
e está cada vez mais difícil recarregar as energias, forças, ânimos e motivações, bem 
como até tempo para refletir e decidir sobre o que seria melhor para nós mesmos. 
Nessa lógica de se ter tempo apenas para ganhar dinheiro, mesmo que de 
forma multifacetada e informal, o lazer, o descanso, o happy hour estão se tornando 
Sabemos que a pobreza não é uma questão somente vivenciada no Brasil, 
mas no mundo, visto que ela existe em muitos países industrializados e caracteriza 
regiões inteiras do mundo em desenvolvimento. As causas da pobreza residem 
numa complicada teia de situações locais conjugadas com circunstâncias nacionais 
e internacionais. É o produto de processos econômicos que se registram a diversos 
níveis, bem como de uma série de condições sociais e econômicas que parecem 
estruturar as possibilidades das pessoas (ANNAN, 2014).
Do mesmo modo, para ampliar ainda mais a discussão sobre a amplitude 
da pobreza em relação ao sistema capitalista na contemporaneidade, não apenas 
presenciamos, mas vivenciamos a falta de lazer e tempo para recarregar as energias 
e ter saúde em sua plenitude, principalmente aquela chamada saúde psíquica, que 
nos garante uma reflexão real, crítica e consciente sobre os fatos e a realidade na 
qual vivemos. 
Somos forçados a sobreviver, diga-se de passagem, uma vivência pobre, 
nesse sentido, com uma qualidade de vida ilusória, sem dignidade, liberdade, 
autonomia e respeito, num ambiente hostil onde a falta de segurança é geral e em 
todos os sentidos. Estamos coagidos na sociedade atual e não temos medo apenas 
do ladrão, mas de tudo e de todos, pois o mapa da violência é bem maior do que 
imaginamos.
FIGURA 29 – AMPLITUDE DA PRESSÃO DA VIOLÊNCIA 
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UNIDADE 3 | REDISCUTINDO AS QUESTÕES SOCIAIS E SUAS EXPRESSÕES 
 NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA ORDEM SOCIETÁRIA
o prolongamento do trabalho, quando se tem. Segundo o sociólogo Junho (2015), 
que se baseia no pensador venezuelano Ludovico Silva, discute a questão da mais-
valia no sentido de apropriação indevida de nosso tempo que deveria se ter para 
o lazer e bem-estar. 
FIGURA 30 – TRABALHO EM DEMASIA: APROPRIAÇÃO DO TEMPO
FONTE: Disponível em: <www.google.de/search?q=correndo+atrás+do+temp 
o>. Acesso em: 18 mar. 2015.
Essa chamada mais-valia se faz presente em tudo, não ocorre, somente, 
dentro das empresas, mas o roubo do tempo acontece, também, de forma simbólica, 
por meio da mais-valia ideológica, assim igualmente ocorre a exploração material 
e a exploração simbólica. O sistema capitalista nos aprisiona, tornando-nos servos 
de uma sociedade que somente tem “olhos” para a cultura do trabalho (JUNHO, 
2015). 
No entanto, como compreender e se “livrar” dessa mais-valia ideológica na 
qual estamos aprisionados? 
 
Sobre a mais-valia ideológica, Silva (2013, p. 164, apud JUNHO, 2015, p. 52), 
descreve que: “A mente do homem, tal como chega a configurá-la o capitalismo 
mediante suas armas de comunicação diária, está repleta de valores de troca: a 
força do trabalho espiritual se mercantilizou, se fez mercadoria; [...]”. Interessante 
ressaltar que o capitalismo procura explorar, por meio de uma indústria ideológica, 
aquilo que o ser humano tem de mais precioso, que é a sua consciência, o seu 
pensar.
Um dos exemplos mais comuns na atualidade é a preocupação