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SILVA, Denise Ferreira da divida impagavel

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de corpos e territórios negros, os quais ela só pode conceber 
como excessivamente violentos, e desde aí prosseguir com uma 
exploração das possibilidades abrigadas por esta construção. 
Nesta recomposição, este livro também ativa um modo de 
intervenção, a poética negra feminista, o qual não somente expõe 
a perversidade da lógica que transubstancia os resultados da 
violência total característica da arquitetura colonial em atributos 
naturais significados por corpos negros, mas identifica e mobiliza 
o excesso que sustenta a lógica como um índice de uma outra 
imagem do mundo e das possibilidades que esta abriga. Este modo 
de intervenção, porque pre-ocupado com/pelos limites da justiça, 
não precisa levar em consideração as limitações do pensar impostas 
pelos pilares ontoepistemológicos do pensamento moderno. Porque 
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tornar também um descritor das condições humanas, assim 
constituindo uma ameaça letal ao ideal da liberdade humana. 
Porém, dois elementos entrelaçados do programa kantiano 
continuam a influenciar projetos epistemológicos e éticos 
contemporâneos: (a) separabilidade, isto é, a ideia de que tudo 
o que pode ser conhecido sobre as coisas do mundo deve ser 
compreendido pelas formas (espaço e tempo) da intuição e as 
categorias do Entendimento (quantidade, qualidade, relação, 
modalidade) –, todas as demais categorias a respeito das coisas do 
mundo permanecem inacessíveis e, portanto, irrelevantes para 
o conhecimento; e ,consequentemente, (b) determinabilidade, 
a ideia de que o conhecimento resulta da capacidade do 
Entendimento de produzir conceitos formais que podem ser 
usados para determinar (isto é, decidir) a verdadeira natureza 
das impressões sensíveis reunidas pelas formas da intuição. 
Algumas décadas depois da publicação das principais obras 
de Kant, Hegel (1777-1831) tratou da ameaça à liberdade com 
um sistema filosófico responsável por inverter o programa 
kantiano através de um método dialético que atingiu dois 
objetivos: (a) a noção de atualização [actualization] em que 
corpo e mente, espaço e tempo, Natureza e Razão, são duas 
manifestações da mesma entidade, a saber, o Espírito, ou a 
Razão enquanto Liberdade, e (b) a noção de sequencialidade, 
que descreve o Espírito como movimento no tempo, um 
processo de autodesenvolvimento, e a História como a trajetória 
do Espírito. Com essas manobras, ele introduz uma versão 
temporal da diferença cultural representada pela atualização 
dos diferentes momentos do desenvolvimento do Espírito e 
postula que as configurações sociais da Europa pós-Iluminista 
são o ápice do desenvolvimento do Espírito. 
duas rupturas com a filosofia escolástica. Em primeiro lugar, os 
filósofos do século XVII, que se autodenominavam “modernos”, 
criaram um programa do conhecimento preocupado como o que 
chamaram de “causas secundárias (eficientes)” do movimento – 
que geram transformações na aparência das coisas na natureza 
– e não com as “causas primordiais (finais)” das coisas ou com o 
propósito (finalidade) de sua existência. Em segundo, em vez de 
se basearem na necessidade lógica de Aristóteles (384-322 a.C.) 
para garantirem a exatidão de suas descobertas, filósofos como 
Galileu se apoiaram na necessidade característica da matemática, 
ou, mais precisamente, nas demonstrações geométricas como base 
para a certeza. Indiscutivelmente, esses filósofos herdaram textos 
anteriores sobre a excepcionalidade do Homem – sua alma, seu 
livre arbítrio, sua capacidade de raciocínio, etc. No século XVII, 
contudo, Descartes introduziu uma separação entre a mente e o 
corpo em que a mente humana, por causa de sua natureza formal, 
adquire a capacidade de determinar a verdade tanto sobre o corpo 
do homem quanto sobre qualquer coisa que compartilhe seus 
atributos formais, como solidez, extensão e peso. 
Essa separação é justamente o que o sistema filosófico de Kant, 
desenvolvido a partir do programa de Newton, consolida, 
especialmente a ideia de que o conhecimento é responsável 
por identificar as forças ou leis limitantes que determinam o 
que ocorre nas coisas e eventos (fenômenos) observados.1 A 
arquitetura de um sistema que era sustentado primordialmente 
pelos poderes da razão e não pelo divino criador, justamente o 
objetivo alcançado por Kant, incomodou seus contemporâneos. 
Os últimos viam a possibilidade da determinação formal se 
1 Ver KANT, Immanuel – Critique of Pure Reason, (Cambridge: Cambridge 
University Press, 1998). Em português: KANT, Immanuel – Crítica da razão 
pura, 7a. ed. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, 
(Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010). 
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do homem. Além dos traços externos usados no mapeamento da 
natureza conduzido pela História Natural, os autoproclamados 
cientistas do homem desenvolveram suas próprias ferramentas 
formais, isto é, ferramentas matemáticas como o índice facial para 
medir corpos humanos, esta que se tornaria a base da descrição e da 
classificação dos atributos mentais dos homens, tanto morais quanto 
intelectuais, em uma escala que supostamente registraria o grau de 
desenvolvimento cultural. 
Segundo, no século XX, o físico convertido em antropólogo 
Franz Boas (1858-1942), previsivelmente executa uma mudança 
importante no conhecimento da condição humana ao argumentar 
que os aspectos sociais, em vez dos biológicos, explicam a variação 
dos conteúdos mentais (morais e intelectuais). Dessa maneira, ele 
articula um conceito da diferença cultural que abriga aspectos 
temporais e espaciais. Segundo Boas, o estudo dos conteúdos 
mentais deveria abordar as “formas culturais”, ou “padrões de 
pensamento”, que surgiram nos primeiros momentos da existência 
de uma coletividade e foram manifestados pelas crenças e práticas 
de seus integrantes. Ao irromper e consolidar-se no tempo, ele 
argumenta, as “formas culturais”, não físicas, explicam as diferenças 
mentais perceptíveis (morais e intelectuais). A escola antropológica 
inaugurada por ele, ou seja, a antropologia cultural, marcou 
uma mudança metodológica, isto é, uma ruptura com as visões 
etnocêntricas da diferença humana, que ecoa com uma mudança 
importante na física, a saber, o princípio da relatividade de Einstein.2
Na segunda metade do século XX, em meados da década 
de 1970, encontramos a física de partículas no trabalho do 
filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), abrindo novas 
perspectivas para o pensamento crítico. Foucault estabelece, 
2 KROEBER, Alfred – Anthropology, (Nova York: Harcourt and Brace, 1948), 
p.1. 
O Pensar da Diferença Cultural 
 
Desde a consolidação do programa kantiano no contexto pós-
Iluminista, a física forneceu modelos para estudos científicos 
sobre as condições humanas – uma tarefa facilitada pela 
narrativa de Hegel sobre o tempo enquanto a força produtiva 
e o teatro do conhecimento e da moralidade. Infelizmente, 
esses modelos foram bem-sucedidos justamente devido ao fato 
desses textos sobre o humano como uma coisa social terem 
como base as mesmas rupturas em relação à filosofia medieval, 
precisamente o que sustentou a reivindicação dos filósofos 
modernos por um conhecimento com certeza, isto é, a partir de 
causas eficientes e demonstrações matemáticas, que são a base 
do texto moderno. 
A dialética racial ativada pelas reações ao fluxo de refugiados em 
direção à Europa é apenas uma repetição do texto moderno. Além 
de persistir na reivindicação da certeza, seus enunciados sobre 
a verdade firmam-se sobre os mesmos pilares – separabilidade, 
determinabilidade e sequencialidade – montados por filósofos 
modernos para sustentar seu programa de conhecimento. Deixe-
me rever brevemente dois momentos de confecção das ferramentas 
da dialética racial. Primeiro, a ciência da vida, tal como definida 
inicialmente por George Cuvier (1769-1832), embora modelada 
a partir da filosofia natural de Newton, ainda se baseava tanto no 
modelo descritivo

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