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SILVA, Denise Ferreira da divida impagavel

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(isto é, todas as partículas existentes) 
existem umas com as outras, sem espaçotempo. Embora os 
comentários de Kant sobre o que na Coisa é irrelevante para o 
conhecimento dispensem considerações metafísicas, também 
sugerem que a realidade descrita na física de Newton (e mais 
tarde na de Einstein, 1879-1955) é um retrato limitado d’o 
Mundo porque se refere apenas aos fenômenos, em outras 
Sobre Diferença Sem Separabilidade
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do excesso, nos moldes da gramática do Sujeito, o argumento 
move-se em direção a A Coisa, diante da qual a indiferença ética 
que justifica o excesso que é violência racial, revela-se como uma 
resposta à possibilidade de existir e pensar outramente. Aqui, o 
corpo sexual da nativa/escrava figura a posição desde a qual o 
pensamento atende a A Coisa. Não como um significante, mas 
por ser sistematicamente rejeitado como significante de qualquer 
expressão ou atualização do Sujeito. O capítulo seguinte, Para Uma 
Poética Negra Feminista: A Questão da Negridade Para o (Fim do) 
Mundo, prossegue com a exploração desta possibilidade indicada 
pelo corpo sexual da nativa/escrava através da delimitação da 
postura de intervenção que atende ao Mundo Ordenado, mas 
em vez de tentar recompô-lo como tal, a poética negra feminista 
retraça enunciados que exibem como este emerge desde uma 
premissa de profunda separação do Sujeito do Mundo. Lendo a 
negridade contra a corrente de sua função como categoria, torna 
possível atender à separabilidade que inaugura o Sujeito, mas 
em vez de uma manobra que tentaria recuperar suas promessas 
universalistas ou transcendentais, a poética negra feminista 
retorna ao Mundo e experimenta com a descrição da existência sob 
a imagem do Mundo Implicado, ou Corpus Infinitum.
Os capítulos seguintes prosseguem com a ativação da capacidade 
dual da negridade, como categoria e referente, através de 
experimentos de pensamento que atendem às duas cenas do 
Sujeito – a cena ética e a cena econômica –, onde a dialética racial 
opera como um mecanismo dos pilares do pensamento moderno. 
O terceiro capítulo, 1 (VIDA) ÷ 0 (NEGRIDADE) = ∞ – ∞ OU ∞ / 
∞: (Sobre a) Matéria para Além da Equação de Valor, confronta a 
violência racial diretamente. Em vez de registrar e tentar deslocar 
a indiferença à mobilização de violência total contra corpos e 
territórios negros, aqui eu ativo a capacidade interruptiva da 
negridade, e torno sua falta de valor (ético) em uma ferramenta 
analítica – a qual mobiliza a determinabilidade – capaz de 
expressão de uma implicação elementar. Isto é, quando o social 
reflete o Mundo Implicado, a socialidade não é mais nem causa 
nem efeito das relações envolvendo existentes separados, mas 
a condição incerta sob a qual tudo que existe é uma expressão 
singular de cada um e de todos os outros existentes atuais-
virtuais do universo, ou seja, como Corpus Infinitum. 
 
Os ensaios que compõem A Divida Impagável não fazem mais do 
que aproximar a esta imagem do Mundo sem separabilidade e os 
outros pilares ontoespistemológicos que esta necessita, e através 
dos quais opera. Por isso, este volume não oferece nem uma teoria 
nem um método. Em vez desses elementos comuns no pensamento 
moderno, o modelo de intervenção que o organiza simplesmente 
manifesta uma postura de pensamento que não move para 
aprender, decidir, e dominar o que contempla. Ao contrário, 
porque já começa com a premissa de uma implicabilidade 
fundamental a todos os níveis, o olhar analítico manifestado 
nestes textos é mobilizado pelo o que atende, e por isso sua 
intencionalidade já esta também mediada, ou seja, cada movimento 
do texto, cada elemento articulado para formar um argumento está 
profundamente afetado. 
Desde esta posição, já comprometido com o que ainda está para 
oferecer e com aquilo do qual parte, cada capítulo endereça e 
enfoca de uma maneira específica num aspecto da ordem do 
pensamento moderno. O primeiro capítulo, A Ser Anunciado: Uma 
Práxis Radical ou Conhecer (n)os Limites da Justiça, começa por 
situar a questão da justiça no momento do conhecer, mas o faz num 
movimento contrário ao do conhecimento moderno. Quero dizer, 
em vez de seguir o procedimento usual e tentar reconstituir o que 
examina, a saber, a violência contra o outro racial como expressão 
Pela Frente
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desfazer o texto ético moderno. Aqui também, esta capacidade 
interruptiva não leva à delimitação de um outro terreno onde a 
aplicação das formalizações que constituem o Mundo Ordenado 
poderia finalmente tornar a justiça universal. Porque a coerência 
do texto moderno depende da oclusão da negridade como índice 
ético e econômico, quando esta última é ativada na decomposição 
da formulação ética (a equação do valor), não faz mais do que 
sinalizar a possibilidade de figurar o Mundo sem determinação 
ou ∞ – ∞. O último capítulo, A Dívida Impagável: Lendo Cenas 
de Valor Contra a Flecha do Tempo, dá prosseguimento ao 
engajamento com as cenas ética e econômica do Sujeito. O 
experimento de pensamento aqui também enfoca as formalizações 
do pensamento moderno mas, em vez da matemática, o foco 
aqui é no processo analítico e, em particular, na construção dos 
conceitos e na delimitação do escopo da teoria do capital, à qual 
estes pertencem. Numa confrontação direta com o materialismo 
histórico, volto minha atenção a como a sequencialidade opera na 
delimitação do conceito que compreende a totalidade do modo 
capitalista de produção, a saber, o trabalho assalariado. O foco 
central aqui é como a temporalidade linear opera na construção 
dos conceitos do materialismo histórico de forma a ocluir a 
colonialidade e a escravidão – quero dizer, a rejeitar seu poder 
explanatório do funcionamento do capital propriamente dito –, 
mesmo quando aparentemente os inclui. 
Como tudo no Mundo Implicado, os ensaios que compõem A Dívida 
Impagável são nada mais do que um momento, o qual registra uma 
certa configuração de um processo sem fim. Eu paro aqui, diante 
deste momento, desta versão de um texto que comecei a escrever 
há mais de trinta anos atrás; um texto que continua a ser escrito 
cada vez que eu compartilho ou outras pessoas compartilham as 
propostas, exercícios, e formulações que o compõe. 
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Abro com Hegel e Fanon:
“Os europeus escravizam os negros e os vendem nas 
Américas. Embora isso seja ruim, sua situação em suas 
próprias terras é ainda pior, porque lá uma escravidão 
tão absoluta existe; o princípio essencial da escravidão, 
o fato do homem ainda não ter obtido consciência de sua 
liberdade e, consequentemente, afunda-se até tornar-se 
uma mera Coisa – um objeto sem valor...”
 - HEGEL, G.W.F. – Lectures on the Philosophy of History
“Foi necessário mais de um nativo dizer “Basta”; mais 
do que uma revolta campesina ser esmagada, mais do 
que um protesto ser dizimado antes que pudéssemos, 
hoje, nos manter firme na certeza da nossa vitória. Nós, 
que decidimos por quebrar a espinha do colonialismo, 
nossa missão histórica é sancionar todas as revoltas, 
todos os atos desesperados, todas as tentativas abortadas 
afogadas em rios de sangue.”
- FANON, Frantz – Os Condenados da Terra
Labaredas espalharam-se pelas zonas norte, leste e sul de 
Londres assim como em outras cidades inglesas, de Leicester até 
Birmingham. Fogaréus alastraram-se em Watts, em 1965, e em 
Los Angeles, em 1992, apenas para lembrar duas outras ocasiões 
que também testemunharam o alastrar de incêndios. Todos sabem 
o que aconteceu: um jovem negro foi assassinado pela polícia5. 
5 As revoltas ocorreram entre 6 e 10 de agosto de 2011 e começaram após 
um protesto em Tottenham em relação ao assassinato de Mark Duggan, 
morto pela polícia em 4 de agosto. As revoltas espalharam-se por diversas 
regiões de Londres (especialmente nas regiões Leste, Norte e Sul) e 
I.
A SER ANUNCIADO
Uma Práxis Radical ou Conhecer 
(n) os Limites da Justiça*
* Texto primeiramente publicado em Social Text 114 • Vol. 31, No. 1 • Spring 
2013 DOI 10.1215/01642472-1958890, © 2013 Duke University

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