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Maria Martins: metamorfoses

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METAMORFOSES
10 de julho a 15 de setembro
Curadoria: Veronica Stigger
A IA MART NS: METAMORFOSES
veronica Stigger
Em 22 de março de 1943, Maria Martins inaugurou sua terceira expo-
sição individual, na Valentine Gallery, em Nova York. Maria: New Sculp-
tures dividia o espaço da galeria com Mondrian: New Paintings. Às límpidas
linhas verticais e horizontais, então coloridas e fragmentadas, de Mon-
drian, Maria contrapunha suas escuras formas enredadas. Era a Amazônia
que ela buscava figurar nesta mostra, não só em imagens, mas também em
palavras: para acompanhar a exibição das peças, preparou um catálogo, em
inglês, no qual narrava brevemente os mitos que envolviam as oito per-
sonagens apresentadas: Amazônia, Cobra Grande, Boiuná, Yara, Yemenjá,
Aiokâ, Iacy e Boto. Este conjunto de esculturas marca uma mudança de-
cisiva na concepção formal dos trabalhos de Maria Martins. Se, em suas
duas exposições anteriores, em 1941 e 1942, suas peças tendiam a uma re-
presentação mais tradicional da figura humana, com contornos definidos,
mesmo quando já explorava temas brasileiros como Samba, Macumba e
Yara\ agora suas personagens, embora ainda reconhecíveis, se fundem a
um emaranhado de folhas e galhos que fazem as vezes da floresta tropical.
Iacy está no alto de um pedestal feito do entrelaçamento de ramos, alguns
dos quais sobem até seus braços e se enredam a eles; a Çobra Grande é cir-
cundada pela vegetação; e o cabelo de Yemenjá, transformado em "algas de
todos os oceanos'", recobre-a como se fosse um manto.
Foi justamente uma aproximação do homem à natureza - tão cara ao
surrealismo" - que André Breton encontrou nessas oito esculturas quando
as viu na mostra de 1943. No texto que produziu sobre a artista para o
catálogo da exposição na Julien Lévy Gallery, em Nova York, quatro anos
depois, anotou: "Percebe-se facilmente que o que a distingue de todos os
outros é o contato que, em todas as peças, ela restabelece entre o homem
e a terra (em nossos dias, pelo menos em todas as grandes aglomerações
humanas, esse contato se perdeu), é o perpétuo recurso que ela impõe às
fontes vitais (do espírito bem como do corpo), que residem na natureza, é o
cuidado constante de buscar fundar o psicológico sobre o cosmológico, por
oposição à tendência contrária que comumente domina e engaja a huma-
nidade numa via de sofismas cada vez mais perígosos'". Em 1950, em texto
1A primeira exposição
individual de Maria Martins
foi realizada em 1941na
Corcoran Gallery. em
Washington; a segunda. na
Valentine cauery, em Nova
Vork. Grande parte das
figuras expostas em ambas
as exposições provêm
do imaginário cristão.
como Christ. St. Francis,
Eve e Salomé.
2 Martins. Maria. "Vemenjá".
ln: Amazonia, Nova Vork,
Valentine Gallery, 1943.s/p.
3 No artigo "Criaturas
híbridas", Dawn Ades chama
atenção justamente para
como a estreita relação
entre homem e natureza.
evidenciada em certos
trabalhos de Maria Martins.
desperta o interesse
de representantes do
surreallsmo, como André
Breton e Aimé Césaire. ln:
cosac, Charles (org.l. Maria.
São Paulo: Cosac Naify. 2010.
pp.l07-111.
4 Breton, André. Le
surréalisme et Ia peinture.
Paris: Gallimard. 2002.
p.409.
17
Cobra Grande, 1943
5 Benjamin Péret. em
texto para o catálogo da
exposição de Maria Martins
no Museu de Arte Moderna
de São Paulo, em 1950,
reproduzido em Maria
Martins. São Paulo:
Fundação Maria Luisa e
Oscar Americano, 1997,p. 31.
6 Péret. Benjamin, op. cít.,
p. 31.
18
para a primeira mostra de Maria Martins no Brasil, Benjamin Péret faria
eco a Breton: "Nada evoca tanto as mensagens da natureza quanto a obra
de Maria; não que entre uma e outra se possa impor uma filiação direta,
mas, sobretudo, porque ela age sobre a matéria um pouco como a própria
natureza". Acrescentaria ainda: "Maria [... ] tende a provocar a natureza, a
estimular nela novas metamorfoses, cruzando o cipó com o monstro len-
dário de onde ela provém, a pedra com o pássaro fóssil que dela se evade'".
§
É significativo que a série que marca uma reviravolta na concepção for-
mal de Maria Martins tenha como tema a selva amazônica, que ela nunca co-
nheceu de perto. Desde os primeiros viajantes, a Amazônia vinha sendo vista
como uma terra fora do tempo, ainda não de todo acabada, em estado pri-
•
mitivo", uma visão que se preserva na modernidade e que, de algum modo,
pode ser estendida à natureza em geral (sendo a Amazônia, para tal concep-
ção, uma espécie de natureza primordial e prototípica): o que está vivo con-
tinua em formação e, portanto, inacabado. Euclides da Cunha, compadre do
pai de Maria Martins e uma das testemunhas que assinaram sua certidão de
nascimento, descreve a Amazônia como "a terra moça, a terra infante, a terra
em ser, a terra que ainda está crescendo': O que a caracteriza, acima de tudo,
é seu contínuo movimento de formação. Por isso, a terra "agita-se, vibra,
arfa, tumultua, desvaira', em busca de um equilíbrio que ainda não foi alcan-
çado (e talvez nunca o seja): "As suas energias telúricas obedecem à tendên-
cia universal para o equilíbrio, precipitadamente. A sua fisionomia altera-se
diante do espectador imóvel'". Não há como fixá-Ia numa forma definida:
"De seis em seis meses, cada enchente, que passa, é uma esponja molhada
sobre um desenho mal feito: apaga, modifica, ou transforma, os traços mais
salientes e firmes, como se no quadro de suas planuras desmedidas andasse
o pincel irrequieto de um sobre-humano artista incontentável. .."9. É também
com um "artista incontentável" que Euclides compara a inconstância do rio,
o qual se mostra "sempre desordenado, e revolto, e vacilante, destruindo e
construindo, reconstruindo e devastando, apagando numa hora o que erigiu
em decênios - com a ânsia, com a tortura, com o exaspero de monstruoso
artista incontentável a retocar, a refazer e a recomeçar perpetuamente um
quadro indefinido?".
Qual Euclides, Raul Bopp percebe a selva em seu constante movimen-
to de formação: "As florestas da Amazônia não descansam. Estão em elabo-
ração constante, dentro do seu arcabouço gigantesco?". Mas, ao contrário
do escritor-engenheiro, vê, no processo de auto constituição da floresta, a
elaboração mágica: ''A natureza inteira sente-se dominada por uma trama
de forças ocultas. As raízes trabalham no processo de crescimento, com
as suas fórmulas cifradas. Alimentam células, de um conteúdo mágico.
Percebe-se, com sentidos transcendentes, a batalha silenciosa da química
orgânica. No seu misterioso laboratório, elaboram novos elementos para
enriquecer a escola de formas?". É nesse "misterioso laboratório" amazô-
7 Aprofundo essa questão
no ensaio "Amazônia: dos
primeiros viajantes aos
modernistas" (no prelo).
8 Cunha. Euclides da.
"Prefácio a Inferno verde".
rn. Umparaíso perdido.
Petrópolis: Vozes: Instituto
Nacional do Livro. 1976.p. 290.
91d.. ibid.
10Cunha. Euclides da. op.
cit.. p. 106.
11sopp. Raul. Samburá
(Notas de viagens & saldos
literários). Brasllia: Rio de
Janeiro. Brasília. s/d [1973],
p. 22. Raul Antelo já atentara
para o fato de que "a decisiva
experiência do poeta
vanguardista Raul Bopp,
explorando a parte maldita
brasileira. seu dispêndio
inesgotável. é um
antecedente indispensável
para o imaginário amazônico
de Maria Martins e. em
consequência. para sua
superação do cânone
modernista" (Maria con
MareeI: Duchamp en los
trópicos. Buenos Aires:
Siglo XXI.2006. p. 1841.
12Id.. ibid.
19
------- ------ --
-
131d.. ibid.
14sopp, Raul. Cobra Norato.
Rio de Janeiro: José Olympio.
1994. 17'ed.. p. 27.
15Ibid .. p. 19.
16 Ibid .. p. 24.
17Ibid .. p. 10.
18Euclides da Cunha. em
carta a José Veríssimo.
de 13de janeiro de 1905.
volta ao tema: "É uma terra
que ainda se está preparando
para o homem - para o
homem que a invadiu fora de
tempo. impertinentemente.
em plena arrumação de um
cenário maravilhoso"
(coligida em Umparaíso
perdido. op. cit.. p. 313).
19Andrade. Mário de.
"Louvação da tarde". ln:
Poesias completas. ed. crit.
Diléa Zanotto Manfio.