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Literatura de Cordel

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 Salomão Rovedo 
 
 
 
 
 
 
 
Literatura de cordel: 
 
 
O poeta é sua essência 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro, 2009 
(Escrito em 1985) 
 
 
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Este livro 
é dedicado 
aos poetas, 
repentistas, 
xilogravadores, 
violeiros, 
folheteiros 
e todos aqueles 
que fizeram 
e fazem 
da Feira de São Cristóvão 
no Rio de Janeiro 
o reduto 
inquebrantável 
da cultura 
do nordeste, 
com os quais 
desfrutei 
por muitos anos 
o prazer 
da convivência 
dominical. 
 
Vai também 
em memória 
dos que se foram 
e deixaram 
naquele reduto 
nordestino 
pedaços 
da existência, 
ora sofrida, 
ora alegre, 
sempre apaixonada, 
dedicada 
à cultura 
e à poesia 
popular. 
 
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Índice 
 
1-O poeta princeps: Leandro Gomes de Barros, pg. 6 
 
a) O primeiro humorista brasileiro, pg. 48 
 
b) Amor por anexins, pg. 65 
 
c) Uma entrevista no céu, pg. 74 
 
 2-O poeta e o seu elemento: poesia de cordel, pg. 84 
 
 3-O poeta em seu terreiro: a feira de São Cristóvão, pg. 97 
 
 4-O poeta canta a sua história: altas biografias, pg. 115 
 
 5-O poeta e o Reino Encantado: Som Saruê, pg. 130 
 
 6-O poeta diante da morte: réquiem sem dó, pg. 145 
 
 7-O poeta imortal: academias e acadêmicos, pg. 173 
 
 8-O poeta do absurdo: o absurdo do poeta, pg. 190 
 
 9-Apêndice necessário: alguns mestres, pg. 205 
 
10-O pessoal citado, pg. 243 
 
11-Bibliografia e folhetos, pg. 245 
 
 
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UMA HISTÓRIA 
 
Este livro tem uma história própria. Ele foi escrito em 1985 (portanto há 
24 anos), resultado de uma vivência de mais de dez anos na feira dos paraíbas, 
como era conhecida a Feira Nordestina que acontecia todos os domingos no 
Campo de São Cristóvão. Portanto, o que o leitor encontra aqui não é fruto de 
pesquisa elaborada, nem o estabelecimento da história da poesia popular, 
tampouco um ensaio sobre Literatura de Cordel. É a simples tradução de uma 
vivência no tempo. 
 
Devido à grande freqüência que ocorria aos domingos, a Feira de São 
Cristóvão passou a funcionar a partir dos sábados e, logo em seguida, iniciava 
sexta-feira à noite e assim se fixou a sua antiga freqüência: começava sexta-feira 
à noite, varava o sábado e terminava no domingo às 15:00hs. 
 
Foi um tempo rico de conhecimentos em que fui cair nos braços de 
amigos que cultivavam a cultura nordestina. Poetas populares, xilogravadores, 
cantadores, repentistas, artistas plásticos, uma plêiade de artistas de várias 
áreas que ali apareciam para mostrar os últimos trabalhos. 
 
A feira dos paraíbas não era só forró e desfile de repentistas, tinha 
também a parte cultural, fruto de vários segmentos artísticos. Uma frequência 
que inclui pessoas de todo o país que vão ali beber conhecimento, batidas de 
frutas regionais, cerveja gelada e cachacinhas! Tudo se resume num aglomerado 
de gente que namora a cultura nordestina, complementada com o artesanato e 
a culinária. 
 
De lá pra cá muita coisa mudou, claro. A feira dos paraíbas não só se 
transferiu de local – passou da encosta das paredes do Pavilhão de São 
Cristóvão para o seu interior que, inteiramente reformado, urbanizou o espaço 
e organizou as barracas que se aglomeravam caóticas ao redor do pavilhão – 
como também tomou feição turística. 
 
Os restaurantes atualizaram o atendimento, o cardápio e o próprio local. 
Hoje lá se encontra espaços com ambientes climatizados, as comidas não são 
mais o disparate e o rigor do prato típico, para o qual nem sempre o gosto se 
adapta, as instalações sanitárias ganharam feição nova e tratamento higiênico 
especial. 
 
Este manuscrito tem mais história em seu currículo: das duas cópias que 
datilografei, uma foi entregue ao escritor Umberto Peregrino, a outra foi parar 
nas mãos de Orígenes Lessa, já octogenário, que dirigia uma Diretoria na 
Fundação Casa de Ruy Barbosa. Preciso dizer que as duas vias sumiram de 
 
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repente, como bolhas de sabão e todas as tentativas de recuperá-las foram 
inúteis. 
 
Orígenes Lessa, grande apaixonado pela Literatura de Cordel, faleceu no 
Rio de Janeiro em 1986. Ao consultar a Casa de Rui Barbosa sobre o manuscrito 
que tinha deixado com Orígenes Lessa, soube que todo o acervo do escritor 
tinha sido transferido para sua terra natal, Lençóis Paulista (SP). É que ele, antes 
de completar 80 anos, já tinha planejado tornar a biblioteca de Lençóis Paulista 
uma das maiores do Brasil. 
 
Para realizar esse sonho, além de doar todo seu acervo ao município, ele 
fez uso da influência que tinha entre os amigos e escritores, angariando 
milhares de livros, autógrafos, manuscritos e outras preciosidades para o seu 
projeto. A biblioteca hoje é o Centro Cultural Orígenes Lessa, teve sua função 
modernizada, indo muito além dos sonhos do escritor. 
 
Enfim, contando com a sorte e com esse milagre chamado internet, fui 
presenteado com a informação de que a Casa de Rui Barbosa estava com uma 
cópia do meu livrinho. Animado com a recuperação dele, fui lá e – depois de 
pagar para copiar meu próprio livro! – tive o prazer de rever e reler esse velho 
amigo, 24 anos depois de tê-lo escrito! 
 
A alegria do reencontro logo se transformou em frustração. O longo 
período de hibernação serviu para pôr a nu algumas falhas do texto, para 
mostrar que a realidade era outra e trazer à tona a triste memória de muitos 
poetas citados, que tinham morrido no decorrer do tempo. O mundo girou, o 
trem andou e para o ser humano, se uma obra de arte pode crescer com o 
tempo, por outro lado pode dizimar toda uma população de pessoas, de 
registros e de fatos. 
 
Então, feita a ressalva, pode o leitor passar a vista nestas mal traçadas 
linhas, sabendo que foram escritas num tempo que se evaporou, que relatam 
fatos e imagens de uma paisagem que já se perdeu. Os ditos cujos personagens 
ou já não são os mesmos ou já deixaram esta vida para outra melhor ou já não 
representam a mesma dinâmica daquele tempo. 
 
Rio de janeiro, janeiro/março de 2009. 
 
 
 
 
 
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O poeta princeps: 
Leandro Gomes de Barros 
 
 
 
 
 
 
 
 “Poeta como Leandro 
Inda o Brasil não criou”. 
 
 João Martins de Athayde 
 “A pranteada morte de Leandro Gomes de Barros” – Folheto. 
 
“Não foi o príncipe dos poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da 
poesia do sertão, e do Brasil em estado puro.” 
 
 Carlos Drummond de Andrade 
 “Leandro, o poeta” – Crônica no Jornal do Brasil de 09/09/1976. 
 
 
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Leandro Gomes de Barros [Pombal, PB. 1865 – Recife, PE. 1918] é, 
sem sombra de dúvida, o maior dos poetas populares do Brasil, que 
costumamos chamar de cordelista. É o nome mais representativo da 
Literatura de Cordel de todos os tempos. A sua posição dentro da poesia 
popular é um marco, porque justamente é o nome de Leandro Gomes de 
Barros que surge quando se busca localizar o exato tempo em que a 
poesia de cordel se fixa ganhando espaço e força em todo o nordeste 
brasileiro e alguns arredores interioranos do Pará, Mato Grosso e Goiás. 
 
Essa qualificação, pois, obteve justo merecimento, porque Leandro 
Gomes de Barros pôde arregimentar em torno do seu nome e do 
complexo produtivo que ele fundou todos os maiores expoentes da 
Literatura de Cordel da época, incluindo cantadores, editores, poetas, 
violeiros e folheteiros. Com sua organização e trabalho conseguiu 
implantar e por ordem no mundo caótico que era a poesia popular do seu 
tempo e assim dar, a todos que viviam do ramo, qualificação e dignidade. 
 
Por isso Leandro Gomes de Barros é um nome que sobreviveu ao 
seu tempo e espaço. No entanto, situar Leandro Gomes de Barros 
simplesmente entre cordelistas é negar a existência do poeta dentro do 
poeta. Com efeito, Leandro teve o cuidado de entremear histórias 
populares com poemas de feição erudita, no que fazia muito bem. 
 
São poemas geralmente de inspiração satírica, algumas beirando as 
margens da literatura do absurdo, mas sem perder o romântico lirismo de 
seu tempo. É fato corrente entre poetas de cordel, devido à exclusão

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