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Material de Estudo antropologia

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Prévia do material em texto

1 
Marketing Estratégico 
GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-
RACIAIS 
 
 
 
 
 
1 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
APRESENTAÇÃO 
 
Prezado(a) Acadêmico(a), 
 
Você está participando da disciplina de ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-
RACIAIS na modalidade a distância, ofertada pelo Centro Universitário Dinâmica 
das Cataratas - UDC. Sabemos que o seu percurso de aprendizagem necessita 
ser acompanhado e orientado, para que você obtenha sucesso nos estudos e 
construa um conhecimento relevante à sua formação profissional. 
Preparamos este material didático com os conteúdos teóricos e as orientações de 
atividades planejadas pelo professor, possibilitando, assim, guiá-lo no autoestudo 
ao longo do semestre. Além disso, você conta com o ambiente virtual de 
aprendizagem como espaço de estudo e de participação ativa no curso. Nele você 
encontra as orientações para realizar atividades e avaliações online, além de 
recursos que vão enriquecer a proposta deste material didático, tais como links para 
sites da Internet, vídeos gravados pelo professor e outros por ele sugeridos, textos, 
animações, ilustrações, dentre outras mídias. 
Lembre-se, no entanto, de que você deve se organizar para criar sua própria 
autonomia de estudo. Isso inclui o planejamento do seu tempo de dedicação ao 
estudo individual e de participação colaborativa no ambiente virtual. 
Este material é o seu livro-texto e apoio importante no desenvolvimento de sua 
aprendizagem no curso. 
 
Bom estudo! 
Direção UDC On-line 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
 
 
2 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
 
APRESENTAÇÃO ..................................................................................................... 1 
UNIDADE I – INTRODUÇÃO ..................................................................................... 3 
1.1 O HUMANO: NATUREZA E CULTURA ............................................................... 4 
1.2 CULTURA E TRABALHO ..................................................................................... 8 
1.3 CULTURA E FORMAS DE TRABALHO ............................................................. 11 
UNIDADE II – DEFINIÇÕES DE CULTURA ............................................................ 22 
2.1 CULTURA OU CULTURAS ................................................................................ 25 
2.2 A CENTRALIDADE DA CULTURA..................................................................... 34 
 
 
 
 
 
 
3 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
 UNIDADE I – INTRODUÇÃO 
 
 
Quando se trata de organizações ou relações empresariais surge logo a 
perspectiva multifacetária que é própria das organizações. Quanto maior for uma 
empresa, quanto maior for o campo de atuação de uma organização, tanto maior é o 
lastro de pessoas, culturas e relações interpessoais e interculturais sobre o qual suas 
ações incidem. 
É fundamental que o planejamento de tais ações contemple os diferentes 
aspectos envolvidos nas questões culturais. Na atualidade, uma empresa que atua 
em qualquer ramo há de se preocupar com questões que envolvem a cultura, as 
relações de gênero, sexo, etnia, etárias e outras. 
Esse texto produz um olhar sobre esses diferentes aspectos que envolvem as 
questões culturais, ciente de que a cultura assumiu uma posição central em qualquer 
fórum da sociedade atual. Para entender essa centralidade faz-se necessário 
estabelecer os conceitos que permitam visualizar os fluxos das diferentes 
compreensões, por um lado, e os dados que apontam para a intensidade como fatores 
culturais atuam sobre o cotidiano tanto nas instâncias de dimensões micro quanto nas 
de dimensões macro. 
As organizações percebem-se como agentes num mundo globalizado, isto é, 
multicultural, plural, e, simultaneamente, interligado. Entender de cultura globalizada 
e de culturas localizadas não é apenas um desafio, mas uma grande possibilidade de 
entender as possibilidades de negócios, mas também os riscos que são, cada vez 
mais, igualmente globalizados. 
Por outro lado, entender de cultura reflui para dentro da empresa. Pois, 
quando há uma percepção da cultura dos colaboradores mais diretos da empresa e 
das representações que os mesmos fazem da sua posição de sujeito naquela 
organização, pode se aprimorar o planejamento bem como se criar uma sinergia maior 
que possibilite potencializar ao máximo a participação desses colaboradores em 
direção aos objetivos da empresa. 
Ainda pode se afirmar que um melhor entendimento das questões culturais é 
imprescindível para a percepção das questões sociais que envolvem a empresa no 
que se refere a sua responsabilidade social. 
 
 
 
 
4 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Dito isso, vale lembrar que ao se fazer uma abordagem antropológica da 
cultural, levando em conta a contribuição das demais ciências, bem como das 
contribuições da filosofia, se evoca uma série de conceitos que se entrecruzam e, por 
isso, precisam ser tratados em bloco. 
Desde já quero disponibilizar aqui um conceito de cultura, facilmente 
localizável na internet, que pode servir de base para um entendimento preliminar para 
os enunciados seguintes. 
O significado mais simples desse termo afirma que cultura abrange todas as 
realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em 
outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no 
plano concreto ou no plano imaterial, desde artefatos e objetos até ideais e 
crenças. Cultura é todo complexo de conhecimentos e toda habilidade 
humana empregada socialmente. Além disso, é também todo 
comportamento aprendido, de modo independente da questão biológica. 
(SILVA, 2006, p. 1). 
 
Bons estudos! 
 
 
1.1 O HUMANO: NATUREZA E CULTURA 
 
Somos seres humanos, seres naturais e culturais simultaneamente. Há em 
nós aspectos naturais que amamos (como o prazer de ver, degustar, etc.) e outros 
que não gostamos tanto (envelhecer, morrer, etc.). Os aspectos naturais da nossa 
existência nos dão potencialidades – o ser humano nasce com uma capacidade inata 
para desenvolver as linguagens, possui em cérebro altamente desenvolvido, pode 
dispor da utilização do polegar opositor, só para citar alguns exemplos - por outro lado, 
nossa natureza nos coloca infinitas limitações, somos totalmente dependentes dos 
adultos por amplo espaço de tempo, no início de nossas vidas; nosso aparto biológico 
não nos permite voar; nossas forças físicas e o volume de nossa voz estão aquém do 
que desejamos. Na ânsia de vencermos tais limitações criamos objetos e crenças, 
transformamos espaços e modificamos nosso corpo, impomos um comportamento 
que parece mais adequado ao que entendemos ser. A natureza que há em nós está 
permeada pela cultura, de tal forma que não nos damos conta onde uma começa e a 
outra termina. 
 
 
 
 
5 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Normalmente falamos de natureza sem sabermos muito bem a que nos 
referimos. Uns entendem natureza como o lugar ou o elemento que não sofreu 
alteração da ação humana. Outros a entendem como o princípio gerador da vida 
dentro de uma essência pré-estabelecida. Outros atrelam a natureza a um elemento 
definidor de atributos: “o homem é naturalmente”. Independente da concepção que 
possamos ter, a ciência tem mostrado que aquilo que definimos como natureza, 
depende de nossas concepções. Portanto, o que entendemos por natureza depende 
da cultura na qual estamos inseridos e dos discursos aos quais nos filiamos. Ou seja, 
até o que entendemos sobre “natureza”passa a depender da nossa cultura. 
Quando afirmo - estou com vontade de ir ao banheiro. O que estou a dizer? 
Que preciso suprir minhas necessidades fisiológicas (natureza?) ou que só consigo 
realizá-las no espaço “banheiro” (um espaço culturalmente criado para essa 
finalidade)? Uma pessoa que passou por transplantes tem uma vida possibilitada pela 
natureza ou pela cultura? Mesmo depois de até os nossos dentes sofrerem constantes 
intervenções da cultura odontológica que desenvolvemos, continuamos tendo um 
corpo natural? 
Nossos espaços são apenas naturais? Mesmo os mais belos bosques que 
visitamos são alterados por nossas ações e também por nossas interpretações. Assim 
uma árvore (aparentemente apenas natural) para alguns pode significar um elemento 
sagrado e para outro um valor comercial, ou artístico. 
Com isso pode se afirmar que o homem enquanto um ser cultural, intervém 
em si mesmo e no mundo modificando, transformando as coisas e a interpretação das 
coisas. O mundo (e nele o homem) está assim enredado na compreensão, na 
percepção que a cultura produz. Tanto que pode se afirmar que sem o homem não 
haveria mundo, uma vez que o mundo existe de fato na compreensão que o homem 
tem. Um mundo sem o homem seria um mundo sem definição, sem conceito. 
Vale aqui a leitura da poesia de Carlos Drummond de Andrade – 
Especulações em trono da palavra homem. Citamos abaixo um excerto da mesma, 
destacando apenas os versos que mais contribuem com esse texto: 
“Como se faz um homem? 
Apenas deitar, 
copular, à espera 
de que do abdômen 
 
 
 
 
6 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
brote a flor do homem? 
......Quanto vale o homem? 
Menos, mais que o peso? 
Hoje mais que ontem? 
Vale menos, velho? 
Vale menos morto? 
Menos um que outro, 
se o valor do homem 
é medida de homem? 
Como morre o homem, 
como começa? 
Sua morte é fome 
que a si mesma come? 
Morre a cada passo? 
Quando dorme, morre? 
Quando morre, morre? 
.... Tem medo de morte, 
mata-se, sem medo? 
Ou medo é que o mata 
com punhal de prata, 
laço de gravata, 
pulo sobre a ponte? 
Por que vive o homem? 
Quem o força a isso, 
prisioneiro insonte? 
Como vive o homem, 
se é certo que vive? 
.... Por que mente o homem? 
mente, mente, mente, 
desesperadamente? 
Por que não se cala, 
se a mentira fala, 
em tudo que sente? 
 
 
 
 
7 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Por que chora o homem? 
... Para que serve o homem? 
para estrumar flores, 
para tecer contos? 
Para servir o homem? 
Para criar Deus? 
Sabe Deus do homem? 
E sabe o demônio? 
....Mas existe o homem? 
Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 428 (Nova Aguilar) 
 
Disponível em: 
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-
palavra-homem/ acesso em 12/07/2014. 
 
A poesia de Drummond nos leva a pensar que somos nós que definimos 
“como se faz um homem”, igualmente definimos “o valor do homem”; “o sentido da 
vida do homem”; “o que é mentira na fala do homem”; “a serventia de um homem”; “o 
que é a morte de um homem”; etc. 
Somos seres naturais no sentido que nosso equipamento biológico obedece 
a determinações sobre as quais podemos interferir, mas não conseguimos (pelo 
menos até o momento) anulá-las. Tais determinações nos desafiam a transformar o 
mundo para impedir que elas nos embarguem de vivenciarmos uma vida com mais 
satisfação. 
Essa realidade fez com que a humanidade em todos os tempos buscasse 
mecanismos de ampliação do seu próprio equipamento biológico, potencializando-o 
ao máximo para alcançar suas realizações. Desde a criação da alavanca, da roda, 
dos óculos ou do telefone, o que o ser humano buscou foi ampliar-se em suas 
possibilidades. Assim a tecnologia transformou o próprio homem. Eis um paradoxo, o 
homem cria o objeto transformando a natureza e o objeto transforma o homem 
tornando-o mais capaz. 
Nesse primeiro momento já podemos afirmar que o humano é um ser que se 
autoproduz na cultura. Disso pode se depreender que homem e cultura são 
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-palavra-homem/
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-palavra-homem/
 
 
 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
reciprocamente criatura e criador. Por esse motivo há quem pergunte: quem veio 
primeiro o homem ou a cultura? Se o homem é um ser cultural e ao mesmo tempo 
produtor da cultura, só se pode conceber o homem e a cultura como simultaneamente 
nascidos. 
Mesmo nos mitos da fundação do mundo, nas mais diferentes culturas, o ser 
humano aparece transpassado pela cultura, seja na forma de comportamento que 
apresenta, na crença que demonstra ou na forma de legalidade que propõe. 
 
 
1.2 CULTURA E TRABALHO 
 
O que está afirmado acima já aponta para o que aqui irá se tratar: o homem, 
desde sempre, é um ser que trabalha e ao trabalhar se produz. 
Mas o que é trabalho? Primeiro vamos nos afastar da ideia de trabalho como 
sinônimo de emprego. Pois trabalhamos mesmo fora de nossos postos de trabalho. 
Trabalho é tudo o que fazemos para transformar o mundo e a nós mesmos. O 
ser humano deseja transformar o mundo. Ele dispõe da capacidade de pensar – 
prefigurar – o mundo já transformado. Cria em sua mente o mundo que ainda não é, 
e põe-se a trabalhar para que esse mundo que ainda não é passe a sê-lo. 
O trabalho humano é teleológico. Antes de nos pormos a agir já visualizamos 
os resultados. Investimos esforço físico, energia e tempo para que o que está 
preconcebido se torne realidade. Antes de lavarmos o carro já o imaginamos limpo e 
nos pomos a trabalhar para que o carro limpo aconteça. 
Talvez a melhor maneira de se definir o que é trabalho humano seja definindo 
o seu contrário. O que é trabalho desumano. Muitas vezes se define como trabalho 
desumano o que produz grande fadiga, ou o que traz um desgaste físico ou emocional 
significativo. Assim, se caracteriza como trabalho desumano o do pedreiro ou o do 
camponês. Como então entender que muito trabalho fatigante e desgastante, em 
muitos casos, produz satisfação e realização pessoal? Imagine a satisfação do 
pedreiro que trabalhou todo seu feriado na construção de sua casa, jamais 
concordaria que aquele trabalho foi desumano. 
Sem entrar nesse mérito. Quero definir aqui como trabalho desumano aquele 
que dispensa as características próprias do ser humano. Então, trabalho desumano 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
seria aquele que anula a criatividade, o trabalho no qual a pessoa que o exerce não 
tem condições de pré-determinar, de divergir, de interferir na lapidação da obra sobre 
a qual atua. 
Assim o trabalho pode ser cansativo e fatigante mas vivenciado como obra 
sobre a qual o ser humano exerceu toda sua humanidade, aplicando sua criatividade, 
sua capacidade de fazer escolhas e de planejar o resultado que buscava. 
 
Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma 
aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha 
supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que 
distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente 
sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do 
processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes 
idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas 
o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que 
tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do 
seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa 
subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que 
trabalham, é mister a vontade adequada que se manifesta através da 
atenção durante totóo curso do trabalho. E isto é tanto mais 
necessário quanto menos se sinta o trabalhador atraído pelo conteúdo 
e pelo método de execução de sua tarefa, que lhe oferece por isso 
menos possibilidade de fruir da aplicação das suas próprias forças 
físicas e espirituais (MARX, K. p. 1). 
 
Quando Karl Marx definia o trabalho como algo teleológico, não dizia 
nenhuma novidade. O ser humano ao se pôr a trabalhar já tem “pré-figurado” o 
resultado do seu trabalho. Assim, o camponês antes de arar a terra já visualiza a 
plantação crescendo e o processo pelo qual seu terreno irá passar para tornar-se 
verde novamente. Da mesma forma o pedreiro em sua construção e todos outros 
trabalhadores que podem participar do planejamento e da criação de sua obra. 
O trabalho humano guarda assim o sentido de transcendência. Nele o homem, 
projeta-se a um “ainda não”, a um momento que ele ainda não vivenciou, buscando 
fugir do seu estado atual. A vontade de romper com seu estado atual impulsiona o ser 
humano a trabalhar para criar um momento outro, uma nova situação em outras 
bases. Nessa nova situação, não apenas as coisas serão outras, ele “o próprio 
homem” será outro. 
Portanto, o que caracteriza verdadeiramente o trabalho é seu status de 
atividade voltada a uma finalidade pré-estabelecida, pré-figurada. A finalidade última 
 
 
 
 
10 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
do trabalho é sempre transformar o mundo, permitindo ao homem adentrar em uma 
nova realidade ainda não vivida. 
 
Se o trabalho é a ação transformadora da realidade, na verdade o 
animal não trabalha, mesmo quando cria resultados materiais com 
essa atividade, pois sua ação não é deliberada, intencional. O trabalho 
humano é a ação dirigida por finalidades conscientes, a resposta aos 
desafios da natureza na luta pela sobrevivência. Ao reproduzir 
técnicas que outros homens já usaram e ao inventar outras novas, a 
ação humana se torna fonte de ideias e ao mesmo tempo uma 
experiência propriamente dita. O trabalho, ao mesmo tempo que 
transforma a natureza, adaptando-a às necessidades humanas, altera 
o próprio homem, desenvolvendo suas faculdades. Isso significa que, 
pelo trabalho, o homem se autoproduz. Enquanto o animal permanece 
sempre o mesmo na sua essência, já que repete os gestos comuns à 
espécie, o homem muda as maneiras pelas quais age sobre o mundo, 
estabelecendo relações também mutáveis, que por sua vez alteram 
sua maneira de perceber, de pensar e de sentir. (ARANHA, 1999. p. 
5) 
 
O trabalho é transformador da natureza e do próprio homem, portanto 
elemento fundamental na manutenção e na criação da cultura humana e da cultura de 
cada povo. Mas o próprio processo de trabalho, a execução dos nossos projetos 
subjetivos, é produtor de cultura, em múltiplos sentidos. É, nele, que o humano toma 
inúmeras decisões, portanto precisa fazer complexas inferências, aprimorando sua 
forma de pensar, sentir e determinar. É durante o processo de trabalho que o homem 
busca agregar forças, seja ela dos instrumentos inanimados (alavanca, roda d’água, 
etc.), ou dos animais que consegue dominar e colocar a seu serviço. 
No mesmo processo de trabalho o ser humano busca parcerias e estabelece 
relações com outros humanos para conseguir sucesso em seus empreendimentos 
mais amplos. Assim o trabalho, enquanto ação teleológica, desperta o homem para a 
coletividade e a comunhão de objetivos. 
 
Por ser uma atividade relacional, o trabalho, além de desenvolver 
habilidades, permite que a convivência não só facilite a aprendizagem 
e o aperfeiçoamento dos instrumentos, mas também enriqueça a 
afetividade resultante do relacionamento humano: experimentando 
emoções de expectativa, desejo, prazer, medo, inveja, o homem 
aprende a conhecer a natureza, as pessoas e a si mesmo. 
O trabalho é a atividade humana por excelência, pela qual o homem 
intervém na natureza e em si mesmo. O trabalho é condição de 
transcendência e, portanto, é expressão da liberdade (ARANHA, 1999. 
p. 6). 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
 
 
 
Para pensar 
I – Em todos os postos de trabalho, a pessoa que trabalha participa ativamente do 
planejamento de suas atividades? 
II – O desenvolvimento tecnológico utilizado nas organizações tem contribuído para a 
humanização do trabalho? 
III – A globalização da economia tem possibilitado uma maior troca de conhecimento 
entre os trabalhadores? 
IV – As organizações, enquanto espaços de trabalho, tornam mais efetivos os 
intercâmbios e as formas de solidariedade entre os trabalhadores? 
 
 
1.3 CULTURA E FORMAS DE TRABALHO 
 
Se o trabalho produz a cultura e é por excelência uma atividade humana, 
conforme o humano foi mudando também mudaram as formas de trabalho. 
Reciprocamente, alteradas as formas de trabalho, essas causaram transformações no 
ser humano. Isto é, não só o exercício do trabalho, mas a forma de organizá-lo 
produziu transformações na cultura. MARX (op. cit. p.1) dirá: 
 
“O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, 
mas como, com que meios e trabalho se faz. Os meios de trabalho 
servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho e, 
além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o 
trabalho”. 
 
Os primeiros grupos humanos não contavam com a noção de propriedade 
privada. Entre eles, tudo era de todos. Lá o trabalho era visto como tarefa de todos e 
as formas de divisão do trabalho respeitavam apenas as capacidades físicas de cada 
um. Mais do que isso, grande parte das atividades visavam à mera sobrevivência o 
que exigia o empenho de todos e de cada um. 
Com isso não está se afirmando que não houvesse uma hierarquia das 
competências individuais, onde alguns se destacavam como caçadores e outros como 
artesões, etc. Porém, a cumplicidade e solidariedade eram formas concretas de 
 
 
 
 
12 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
resolver problemas e garantir a sobrevivência, assim, um caçador em tempos de 
migração assumiria qualquer outra tarefa. Pois sua função primeira era defender e 
apoiar o grupo na busca de melhores condições de vida. 
Com o surgimento da agricultura, descoberta principalmente pelas mulheres, 
o ser humano pode planejar melhor suas atividades, pois havia agora uma nova 
atividade, a do cultivo, que ao mesmo tempo em que possibilitou mais alimentação, 
melhor nutrição, ampliou significativamente a quantidade de indivíduos em cada 
grupo. Desde então, incipientes formas de divisão de trabalho começam a acontecer, 
se atribuindo aos homens mais a caça e a pesca e às mulheres, crianças e velhos o 
cultivo. Com a domesticação dos animais, essa divisão torna-se novamente tênue, 
pois a atividade pastoril irá ocupar tanto mulheres como homens. 
É com o início da “civilização” que a divisão do trabalho torna-se evidente. 
Com o surgimento da propriedade privada dos meios de produção as formas de 
trabalho passam a ser organizadas de outra forma. Vale lembrar que a principal forma 
de propriedade privada era a terra, fonte dos bens essenciais à sobrevivência. Desde 
então, o foco não é mais a sobrevivência e conforto do grupo, mas a sobrevivência e 
conforto dos proprietários. Logo, o trabalho passa a ser dividido conforme seus 
critérios. Assim vemos, por exemplo, no Egito Antigo o faraó estabelecer quem seria 
escriba, quem seria agricultor, quem seria construtor. 
A legitimação da propriedade privada e, consequentemente, da autoridade do 
faraó dar-se-á pela religião e por outros mecanismos. Mas a imposição dessa mesma 
autoridade se dará pelo uso da força. Quando os mecanismos de persuasão não 
funcionam se apela à coação. Por esse motivo, fica evidente a divisão do trabalho que 
privilegia sacerdotes e escribas, num primeiro escalão. Pois são eles que assegurarãoa ideologia que sustentará a estrutura social. 
A forma de se conceber e de se organizar o trabalho passa por profundas 
transformações. Surgem atividades realizadas em forma de mera exploração do outro 
ser humano como instrumento de trabalho, desumanizando o processo, pois quem 
realiza o trabalho não participa do seu planejamento, nem pode colocar nele sua 
criatividade. 
O trabalho não é mais realizado pelo sujeito como uma estratégia de 
transformação da realidade, mas passa a ser mera execução de ordens desprovidas 
de sentido para quem as obedece. O que se questiona aqui não é a fadiga do 
 
 
 
 
13 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
trabalhador, nem a insalubridade de seu trabalho, mas o fato de ele não participar do 
planejamento do mesmo, nem poder, no processo de trabalho, determinar-se. 
Tal realidade levará os gregos a repudiarem o trabalho e exaltarem o “ócio”, 
o tempo livre, a possibilidade de estarem disponíveis para guerrear, criar, fazer política 
e filosofar. A filosofia grega logo irá estabelecer a distinção entre os que devem 
trabalhar e os que foram apartados para o “ócio”. Entenda-se que ócio não é sinônimo 
de descanso ou tempo para nada fazer, mas a total liberação das atividades que visam 
à sobrevivência, para a realização das atividades tidas como dignas. 
É importante enfatizar que a palavra escola deriva da palavra ócio, ou seja, a 
escola é o lugar dos que estão liberados das atividades indignas e passam a ocupar-
se com seu aprimoramento nos campos da arte, da política e da guerra (Paidéia). Por 
outro lado, os que estão destinados as atividades indignas aprenderão o necessário 
lá no próprio processo de trabalho (Douléia). 
Não podemos confundir, por um lado, ócio com improdutividade, visto que 
cidadãos gregos que usufruíam do ócio dedicavam-se às artes, ao estudo, ao ensino, 
à política e à guerra. Por outro lado, não se pode pensar a cultura grega a partir de 
concepções capitalistas atuais centradas num consumo infinito, portanto numa 
produção infinita, onde tudo deve ser transformado em mercadoria e onde todos são 
valorizados, apenas, pela sua participação no crescimento da economia. Essa, com 
certeza, não era uma preocupação dos gregos. Nem seus escravos eram avaliados 
pela produtividade, bastava que possibilitassem ao seu senhor conforto e lhe tivessem 
respeito. 
Entre os gregos, portanto, o trabalho estava associado ao esforço físico, 
fadiga e penalização; trabalhar era uma atividade indigna reservada aos escravos. Os 
romanos seguirão a mesma lógica. Mesmo que eles não dediquem, com tanto afinco, 
o tempo livre ao estudo, à filosofia e à arte; o dedicarão à arte da guerra, à política e 
à elaboração de leis. 
Do que até aqui foi exposto pode se perceber que não houve uma 
preocupação com o desenvolvimento da técnica, uma vez que a distância entre os 
que trabalhavam e os que estudavam era grande. Mesmo assim, não se pode afirmar 
que os gregos não tiveram grandes avanços técnicos, pois, mesmo havendo essa 
distância entre trabalho e ócio, os gregos conseguiram avanços significativos tanto no 
 
 
 
 
14 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
fabrico de armas, como na arte da arquitetura. A construção da Acrópole parece ser 
uma prova irrefutável do avanço da tecnologia entre os gregos. 
O cristianismo trará nova compreensão do trabalho. Visto como um mal 
necessário, o trabalho servirá para afastar o homem dos “maus pensamentos”. O 
cansaço e a fadiga afastarão os humanos dos pensamentos pecaminosos, associados 
à gula e ao sexo. Por isso, mesmo nos mosteiros o tempo deve ser dividido entre: 
“tempo de contemplação” e “tempo de trabalho”. Nos relatos dos mosteiros 
beneditinos é comum se ler sobre o trabalho exercido pelos monges sob ordenação 
de seus superiores. 
Nesse período a organização do trabalho sé dá a partir da ideologia da 
nobreza articulada com a doutrina da Igreja. Na doutrina se consagram três formas de 
atividade: 
I – Os Belatores - nobres destinados à arte da guerra – são os nobres 
destinados desde a infância a arte da guerra. Ou seja, todos nascidos nobres, 
permaneceriam nobres para sempre e sua função social seria defender os seus contra 
os inimigos externos que poderiam atacar. Seu esforço físico estava associado aos 
constantes treinamentos para as guerras, além do preparo para a vida de cavaleiro. 
II – Os Oratores – nobres destinados à vida eclesial - os bispos, padres, 
monges, freiras e demais pessoas destinadas à vida religiosa. Sua tarefa era orar pelo 
lugar onde viviam para defender as pessoas contra os ataques da forças espirituais 
do mal, além de preservarem a própria santidade e desenvolverem todos os trabalhos 
eclesiásticos. Nos mosteiros, bem como nos conventos, o trabalho manual era visto 
como parte da preservação da vida religiosa. 
II – Os Laboratores – os camponeses – destinados ao trabalho que garantirá 
todos os recursos destinados à sobrevivência dos seus e dos nobres desenvolverão 
todas as atividades, desde o cultivo das terras até a fabricação de armas, jóias e 
vestimentas talares. Portanto, cuidarão de toda a produção de bens materiais. No 
trabalho servil, serão explorados pelos nobres (clérigos ou não), que lhes imporão um 
trabalho árduo, mas em suas terras terão o direito de planejar e executar conforme 
seus próprios critérios. 
 
 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Para pensar 
 
Embora tenhamos em alguns locais trabalho escravo, você já deve ter 
notado que nenhuma das formas de organizar o trabalho, listadas acima, são 
amplamente utilizadas hoje. Então, antes de continuar a leitura tente responder as 
seguintes questões: 
I – Existem hoje pessoas que não trabalham por acharem o trabalho algo desprezível? 
II – A camada mais rica da sociedade atual vive o ócio ou trabalha arduamente para 
ampliar seus lucros e suas fortunas? 
III – Atualmente uma pessoa é valorizada por viver no “ócio”? 
 
Acima vimos que na escravidão o trabalho árduo e fatigante era imposto aos 
que precisavam obedecer. Vimos também que tanto o escravo grego como o servo 
medieval (este apenas quando trabalhava em suas terras) tinham certa participação 
na condução de suas atividades, bem como a possibilidade de aprender e desenvolver 
novas técnicas, independente das determinações de seus senhores. 
A forma de se organizar o trabalho interfere na forma de se organizar a 
sociedade. A organização das formas de trabalho é fundamental para a produção 
cultural de um povo. Pois, nela aparecem as formas de organização social, a forma 
de se desenvolverem as técnicas de trabalho, a forma de se ter acesso aos bens e a 
forma hierarquizada ou não das pessoas e das atividades a serem desenvolvida. 
Na tabela abaixo apresento algumas considerações bem conhecidas dos 
historiadores e dos cientistas das ciências humanas, mas que podem nos ajudar a 
entender o texto posterior a ela. 
Período 
Histórico 
Exemplo de 
Pessoas de 
Destaque 
Fator de destaque – status - de uma pessoa em 
determinada sociedade. 
Período 
anterior a 
Antiguidade 
Clássica 
Idosos 
 
Eram pessoas que se destacavam por conhecerem as 
tradições do seu povo, sua história, seus remédios, suas 
doutrinas, seu corpo moral. Pelo conhecimento histórico 
que tinham e pela experiência de vida, eram respeitadas 
e valorizadas como pessoas sábias, que mantinham a 
unidade do grupo. 
 
 
 
 
16 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Grécia 
Clássica 
600 a.C – 
400 a.C 
Filósofo e 
outros 
estudiosos de 
forma geral 
 
As pessoas mais respeitadas eram as que tinham melhor 
argumento. Os filósofos, matemáticos e outros 
conseguiam comprovar suas teorias ou validar seus 
enunciadose, por isso, tornavam-se pessoas de 
destaque social. Também políticos que faziam bom uso 
da retórica, produzindo argumentos sólidos eram tidos 
como dignos de respeito. Exemplos: Platão, Aristóteles, 
Pitágoras... 
Roma 
Republicana 
e Império 
Romano 
O homem 
cívico – 
Político ou 
Soldado. 
 
Nesse período, em Roma, todo o respeito e status 
elevado se dirigia ao homem que demonstrasse ter por 
Roma amor maior que por si próprio. Alguém que 
demonstrasse estar disposto abrir mão de seus 
privilégios para bem servir Roma. Exemplos: Júlio César, 
Marco Aurélio, Trajano, etc... 
 
Período 
Medieval 
470 d.C – 
1453 d.C 
O Homem da 
Fé 
Nesse período as pessoas que tinham um status mais 
elevado eram os clérigos, além de serem nobres, 
entendiam dos desígnios de Deus. Exemplos: Agostinho, 
Tomás de Aquino, Bento de Núrcia, Francisco de Assis. 
Modernidade 
Período 
Cientistas 
Desde a renascença, mas em especial no século XVIII e 
XIX, os homens que ganharam destaque são os que 
atuaram no mundo da ciência, assim destacaram-se 
Descartes, Rousseau, Newton, Galileu e outros. 
Na atualidade Os mais úteis. 
Na atualidade as pessoas são avaliadas e valorizadas 
por sua utilidade. Quais pessoas, que vindo ao nosso 
bairro, encontrariam muitos admiradores querendo fotos 
e autógrafos? Não necessariamente as pessoas mais 
ricas ou mais poderosas, mas as pessoas que se 
mostram mais úteis para o mundo dos negócios, mais 
úteis em campanhas publicitárias, mais úteis no 
desenvolvimento de determinada tecnologia. 
Basta pensarmos num grande jogador de futebol, ele é 
assediado por todos como um ícone do momento. Mas 
se problemas físicos lhe tirarem definitivamente do 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
campo, em meses não terá mais utilidade e será 
esquecido. 
Fonte: Elaborado pelo autor (2014) 
 
Partindo-se da tabela acima temos que nos perguntar como se construiu a 
ideia de que nossa utilidade é aquilo que nos define como pessoa de maiores ou 
menores status. 
Na primeira metade do século XVI, quando nem a modernidade havia ainda 
se constituído, Martim Lutero já exaltava o trabalho, em qualquer profissão. Para ele, 
o trabalho era o exercício do amor ao próximo e a Deus. Contrariando o catolicismo 
da época, Lutero dirá que a vida sacerdotal ou monástica não é mais elevada do que 
a vida em outra ocupação. Assim eleva o valor do trabalho como forma de serviço a 
Deus. 
Acontece então uma mudança radical na forma de ver o trabalho, o exercício 
da profissão. Antes trabalhar era apenas uma forma de cumprir com os deveres de 
fidelidade ao senhor feudal e de conseguir a subsistência. Lutero exaltará o trabalho 
atribuindo a ele um valor espiritual. Trabalhar torna-se uma forma de agradar a Deus. 
 
Sugestão de Vídeo 
Filme: Lutero 
Ficha técnica: 
Diretor: Eric Till 
Elenco: Joseph Fiennes, Alfred Molina, Bruno Ganz, Jonathan Firth, Peter 
Ustinov, Claire Cox e Uwe Ochsenknecht. 
Produção: Dennis A. Clauss,Brigitte Rochow, Christian P. Stehr e 
Alexander Thies. 
Duração: 121 min 
 
Ano: 2003 
País: Alemanha Gênero: Drama 
SINOPSE DO FILME LUTERO 
Após quase ser atingido por um raio, Martinho Lutero acreditou ter recebido 
um chamado e se juntou ao Monastério. Ainda jovem e admirado, logo se 
vê atormentado pelas práticas da Igreja Católica da época. As tensões se 
intensificam quando prega suas 95 teses na porta da Igreja. Obrigado a se 
redimir publicamente, se recusa a negar os seus escritos até que a Igreja 
Católica consiga provar que suas palavras contradizem a Bíblica. Preso e 
excomungado, foge. Mesmo vivendo como um criminoso numa aventura 
emocionante, mantém sua fé e luta para que todas as pessoas 
tenham acesso a Deus 
http://www.sinopsedofilme.com.br/mostrar.php?q=124
http://www.sinopsedofilme.com.br/mostrar.php?q=124
 
 
 
 
18 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Tenha mais informações sobre o filme em: 
http://www.eduardostefani.eti.br/blogs/blog1. 
php/2012/11/13/resenha-do-filme-lutero-2003 - acesso em 12/07/2014. 
 
 
João Calvino irá tirar consequências das ideias de Lutero, em parte, 
contrariando ao próprio pensamento de Lutero. Calvino irá defender a doutrina na qual 
o trabalho não é apenas uma forma de se servir a Deus. Segundo ele, quando uma 
pessoa com seu trabalho consegue riquezas, demonstra que está sendo abençoada 
por Deus naquilo que faz. Portanto, acumular riquezas advindas do esforço pessoal, 
do trabalho dedicado, é uma forma de provar que está sendo abençoado por Deus. 
Toda doutrina da predestinação desenvolvida por Calvino reforçará a noção de que o 
trabalho é uma forma de louvor a Deus. Também que a burguesia emergente, que 
buscava acumular através da dedicação ao trabalho, mostrava-se abençoada ao 
ampliar suas posses. 
 
O Renascimento cultural e científico e o Mercantilismo abriram os 
horizontes da Europa, a partir de 1450. A reforma de João Calvino 
(1509-1564), exaltando o individualismo, a atividade econômica e o 
êxito material, deu grande impulso à economia. Enriquecer não 
constituía mais um pecado, desde que a riqueza fosse obtida 
honestamente e pelo trabalho. A cobrança de juro e a obtenção de 
lucro passaram a ser permitidas. Entre os protestantes, o verdadeiro 
pecado veio a ser a ociosidade, quando a mente desocupada passa a 
se ocupar do mal. Como a leitura da Bíblia tornou-se fundamental no 
culto, incentivou-se a educação, o que se repercutiu na melhoria da 
produtividade do trabalho e no desenvolvimento econômico (Souza, 
s.d, p.4). 
 
Como muito bem mostrou Max Weber, em sua obra “A ética protestante e o 
espírito do capitalismo”, a doutrina desenvolvida pelos reformadores foi exaltadora do 
trabalho e do acúmulo de bens que dele possa derivar. A classe burguesa preocupada 
com a escassez de mão de obra para suas fábricas, nos séculos seguintes, irá se 
utilizar dessa doutrina. A consonância entre a doutrina dos reformadores e os 
interesses da burguesia instituiu o trabalho como um valor supremo e o não trabalho, 
o ócio ou a preguiça, como um mal, um pecado, um crime a ser punido. 
A ideia de que o homem é pleno de capacidades e deve colocá-las a serviço 
dos outros homens na transformação do mundo já estava presente na Europa com o 
http://www.eduardostefani.eti.br/blogs/blog1
 
 
 
 
19 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
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advento do humanismo, mas vai se aprofundar rapidamente na doutrina religiosa e 
mesmo na literatura. Vejamos as palavras de Hamlet na obra de William Shakespeare: 
 
Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Como é 
infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e 
maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na 
inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! O 
padrão de todos os seres criados! (Hamlet, William Shakespeare, 
trad., São Paulo: Martin Claret, 2002, p.47). 
 
O trabalho como obra humana será exaltado e toda a recusa ao trabalho ou o 
pouco afinco na execução do mesmo serão vistos como condenáveis. O rico será visto 
como abençoado e o pobre como aquele a quem Deus não deu o dom de saber tirar 
bons resultados de seu trabalho. Portanto, nessa visão, o pobre é culpado pela sua 
pobreza. Tal ideologia legitimou a exploração do trabalho nas fábricas, inclusive de 
crianças de pouca idade. 
 
Sugestão de Vídeo 
Filme: Daens - Um Grito de Justiça 
Ficha técnica 
(Daens) 
Drama, Biografia, Histórico, Bélgica, França, Holanda, 1992, 138min; 
Colorido. Direção: Stijn Coninx. 
 
Sinopse 
Drama indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1993. Narra a 
história do padre belga Adolf Daens(Jan Decleir), um pioneiro na luta pelos 
direitos dos trabalhadores em seu país na virada do século. Nessa época, 
as tecelagens do norte da Bélgica decidiram substituiros operários por 
mulheres e crianças, a quem pagavam salários menores. Impressionado 
pela miséria que presencia, o religioso lidera um movimento de protesto. 
Um filme, que partindo de seu tema, o trabalho das mulheres (e a 
comparação dos salários dos Homens) e do trabalho do menor, se mantém 
atualíssimo. 
Tenha mais informações sobre o filme em 
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?con
teudo=678# Acesso em 12/07/2014. 
 
O maior representante do liberalismo clássico, Adam Smith, em sua principal 
obra - "A Riqueza das Nações" -, afirmou que a riqueza dos países não residiria no 
ouro, na prata ou na agricultura, mas sim no trabalho, capaz de transformar matéria 
bruta em produtos com valor de mercado. Para ele o trabalho era o fator gerador de 
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
 
 
 
 
20 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
riquezas e o estado não devia interferir na economia, isto é, entre outras coisas, na 
relação entre patrão e empregado. Portanto, as fábricas se tornaram livres para 
explorar a mão de obra e extrair o máximo do trabalho para a produção e obtenção 
de lucros. 
O filme - “Deans: um grito de justiça” –, sugerido acima, mostra como as 
fábricas, tendo liberdade, extraíram o máximo dos trabalhadores, em especial de 
mulheres e crianças. Para legitimar essa exploração criou-se toda uma ideologia de 
exaltação do trabalho e de condenação aos que se negavam a trabalhar, mesmo nas 
piores condições de trabalho. 
Ao contrário dos gregos que viam no ócio um direito dos cidadãos mais 
dignos, aqui a ociosidade será vista como desprezível. Aquele que se nega a trabalhar 
é pessoa de má índole, ofende a Deus e deixa de contribuir como o crescimento da 
riqueza. Daí a frase “o trabalho dignifica o homem”. 
 
O capitalismo caracteriza-se pelo emprego de trabalhadores 
assalariados, juridicamente livres, que vendem a sua força de trabalho 
aos proprietários dos meios de produção, denominados empresários, 
que os contratam para produzir bens ou serviços a serem destinados 
ao mercado, com o fim de obter lucro. Para gerar esse lucro, definido 
como a diferença entre as receitas totais e os custos totais, o 
capitalista aluga ou constrói prédios, compra máquinas e matérias-
primas e contrata trabalhadores, incluindo-se pessoal de escritório e 
técnicos de nível médio e superior. (Souza, s.d, p.7). 
 
Atualmente, a forma como a economia tem se organizado, coloca o trabalho 
como fator decisivo para a sobrevivência de cada um. Ter acesso ao trabalho torna-
se fundamental para se manter a qualidade de vida. 
 
No Brasil, a distribuição de renda piorou entre 1960 e 1985 e melhorou 
entre 1985 e 1993. O índice de Gini do Brasil passou de 0,50, em 1960, 
para 0,66, em 1985, caindo para 0,60 em 1993. Com o advento do 
Plano Real, estudos recentes mostram que a distribuição de renda 
melhorou entre 1994 e 1997, mas piorou nos últimos anos, pelo 
aumento do desemprego. 
A população brasileira de menor renda, entretanto, empobreceu. Em 
1960, os 10% mais pobres detinham 1,9% da renda, percentual que 
caiu para 0,7% em 1993; enquanto 1% da população mais rica, que 
detinha 12,1% da renda nacional, em 1960, passou para 15,5%, em 
1993 (cfe. IBGE) (Souza, s.d, p.24). 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Com a reestruturação produtiva, o desenvolvimento de novas tecnologias e a 
produção baseada na demanda, ter acesso a um posto de trabalho tornou-se uma 
conquista. Tudo isso coloca o trabalhador numa nova relação como o seu trabalho, 
onde além de obter o acesso ao posto de trabalho ele deve manter-se como o mais 
apto para ocupá-lo, além de estar preparado para a versatilidade que o mundo do 
trabalho lhe exige. 
Síntese da unidade I 
 
 O Homem se produz através da cultura. 
 No trabalho o homem transforma o mundo e a si mesmo. 
 Trabalho humano é o que não inibe as potencialidades criativas do homem. 
 Diferentes culturas forjaram suas formas de organizar e conceber o trabalho. 
 O trabalho produz cultura, pois altera as relações dos homens com o meio e 
com os outros homens. 
 A concepção do que é o trabalho irá sempre depender dos interesses em jogo 
em determinada sociedade. 
 Na cultura atual a tecnologia desafia o homem a cavar seu espaço na esfera 
produtiva. 
 
 
 
 
 
 
22 
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
UNIDADE II – DEFINIÇÕES DE CULTURA 
 
Acima já se tratou de alguns elementos que estão envolvidos quando falamos 
de cultura. Aqui queremos problematizar o conceito de cultura para podermos 
entender melhor sua relevância para a sociedade atua. Edgar Morin discute as 
questões culturais da perspectiva da filosofia para estabelecer um conceito que dê 
conta dos desafios atuais que se apresentam para a humanidade. Ele entende que: 
 
A cultura é constituída pelo conjunto dos saberes, fazeres, regras, 
normas, proibições, estratégias, crenças, ideias, valores, mitos, que se 
transmite de geração em geração, se reproduz em cada indivíduo, 
controla a existência da sociedade e mantém a complexidade 
psicológica e social. Não há sociedade humana, arcaica ou moderna, 
desprovida de cultura, mas cada cultura é singular. Assim, sempre 
existe a cultura nas culturas, mas a cultura existe apenas por meio das 
culturas (MORIN, 2000. p. 56). 
 
LARAIA (2009. p.68) entende que a cultura produz em nós atitudes, 
comportamentos e posturas por nos oferecer uma cosmovisão. Diz ele: “o modo de 
ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes 
comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma 
herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura. 
Destaco abaixo sete contribuições de KROEBER apresentadas por LARAIA 
(2009, p. 48-49), para ampliação do conceito de cultura. 
1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento 
do homem e justifica as suas realizações. 
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos 
foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou 
[...]. 
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em 
vez de modificar para isso seu aparato biológico, o homem modifica o seu 
equipamento superorgânico. 
4) Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper com 
as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu 
habitat. 
 5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do 
aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. 
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este 
processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o 
termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou 
profissional. 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência 
história das gerações anteriores, Este processo limita ou estimula a ação 
criativa do indivíduo. 
 
Disso temos que admitir que ao nascermos em um grupo humano toda a carga 
cultural desse grupo perpassará nossa forma de perceber e viver, moldando nosso 
caminhar, escolhendo nossas palavras. Pois, nos comunicaremos com a língua desse 
grupo e aprenderemos os movimentos aprovados e reprovados, etc., antes mesmo 
de termos qualquer possibilidade de negá-los. 
Como veremos mais adiante, a cultura é resultado de uma infinidade de 
intercâmbiosentre gerações e entre culturas, esses intercâmbios possibilitaram um 
processo de humanização, pois quanto mais produzimos cultura mais nos 
distanciamos do homem natural, uma vez que superamos os limites que a natureza 
nos colocava. 
A cultura se tornou possível porque, em nossa inteligência abstrata, 
conseguimos trabalhar com símbolos assim criamos, por exemplo, as leis, as moedas 
e uma infinidade de conceitos com os quais trabalhamos sem nos darmos conta que 
são meras abstrações. Tais símbolos fazem sentido quando conectados a cultura que 
lhe atribui sentido. 
 
Vimos que um símbolo é alguma coisa que se apresenta no lugar de 
outra e presentifica algo que está ausente. Quando dizemos que a 
Cultura é a invenção de uma ordem simbólica, estamos dizendo que 
nela e por ela os humanos atribuem à realidade significações novas 
por meio das quais são capazes de se relacionar com o ausente: pela 
palavra, pelo trabalho, pela memória, pela diferenciação do tempo 
(passado, presente, futuro), pela diferenciação do espaço (próximo, 
distante, grande, pequeno, alto baixo), pela diferenciação entre o 
visível e o invisível (os deuses, o passado, o distante no espaço) e 
pela atribuição de valor às coisas e aos homens (bom, mau, justo, 
injusto, verdadeiro, falso, belo, feio, possível, impossível, necessário, 
contingente) (CHAUI, 1998. p.293). 
 
Todas as organizações trabalham com pessoas, dirigem-se às pessoas, 
buscam convencer ou persuadir pessoas, atuam no sentido de motivar pessoas. 
Interagem com outras organizações comandadas por diferentes pessoas. Quanto 
mais amplo for lastro de relações de uma organização maior será a necessidade de 
seus agentes entenderem a cultura das outras organizações e das outras pessoas. 
Internamente, o clima organizacional pode ganhar qualidade quando se entende a 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
cultura das pessoas ali envolvidas. Se relacionar com as pessoas exige conhecer as 
pessoas, mas para conhecermos as pessoas precisamos entender a cultura na qual 
se inscrevem, bem como entender o processo pelo qual essa cultura está passando. 
 
Para pensar 
I – Muitas pessoas só existem na cultura - na linguagem. Você concorda 
com quem diz que a Branca de Neve é real porque serve de modelo para 
algumas mulheres? 
II – Segundo as contribuições de Kroeber, apresentadas por Laraia, o 
homem se adapta ao meio ou adapta o meio a ele, para não precisar se 
adaptar? 
III – Qual a sua definição do conceito de cultura? 
IV – Afirmamos que nossa forma de ser é definida pela cultura, na qual 
estamos inseridos. Com as organizações acontece o mesmo? Por que? 
 
Desafio: Na coluna nº 01 você encontra uma poesia dirigida a um educador. 
Transcreva a mesma para a coluna nº 02, dirigindo-a a um executivo. Para tal você 
precisará se colocar no lugar de alguém que está lidando com o executivo. 
 
Coluna 01 - PARA VOCÊ ME EDUCAR... Coluna 02 – Seu texto 
Para você me educar, 
você precisa me conhecer, 
precisa saber da minha vida, 
meu modo de viver e sobreviver; 
conhecer a fundo as coisas nas quais eu 
creio e às quais me agarro nos momentos de 
solidão, desespero, sofrimento. 
Precisa saber e entender 
as verdades, pessoas e fatos 
aos quais me entrego 
quando preciso ir além de mim mesmo. 
 
Para você me educar, 
precisa me encontrar lá onde eu existo, 
quer dizer, no coração das coisas, 
nos mitos e nas lendas, 
nas cores e nos movimentos, 
nas formas originais e fantásticas, 
na Terra, nas estrelas, 
nas forças dos astros, do sol e da chuva. 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Para você me educar, 
você precisa estar comigo onde eu estou, 
mesmo que você venha de longe e 
que esteja muito adiante. 
Só há um adiante para mim: 
aquele que eu construo e conquisto. 
Só há uma forma de construí-lo: 
a partir de mim mesmo e do meio em que 
vivo. 
 
Para você me educar, 
precisa compreender a cultura do contexto 
em que se dá meu crescimento. 
Pois suas linhas de força 
são as minhas energias. 
Suas crenças e expectativas 
são as que passam a construir o meu credo 
e as minhas esperanças. 
Mas eu também estou aberta para as outras 
culturas. 
Identidade cultural não significa prisão ao 
espaço que ocupo 
mas abertura ao que é autenticamente nosso 
e ao que, vindo de fora, nos pode fazer mais 
nós mesmos. 
A cultura universal é produto de todos os 
homens, 
Mas como posso contribuir com essa 
fraternidade 
se não constituí o meu eu 
e não tenho minha expressão cultural 
própria? ..... 
(Autor Desconhecido) Disponível em: 
http://profonodete.blogspot.com.br/2011/01/p
ara-voce-me-educar.html, acesso em 
12/07/2014. 
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2.1 CULTURA OU CULTURAS 
 
Muitas vezes ouvimos vozes inflamadas defendendo a superioridade dessa 
ou daquela cultura. Alguns falam de culturas como se houvesse uma linha ascendente 
que parte lá dos primatas, como ponto mais baixo (mais atrasado) e se estende até o 
povo “mais evoluído”, normalmente, um povo associado ao maior desenvolvimento 
tecnológico. 
Outras vozes falam de determinada cultura como se ela fosse propriedade de 
um povo, construída por elementos criados por esse povo e demonstrasse a 
http://profonodete.blogspot.com.br/2011/01/para-voce-me-educar.html
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
capacidade inventiva somente daquele povo. Nessa mesma direção alguns pensam 
a cultura como algo fechado, embora reconheçam que dentro de um povo sempre 
existem os que se desviam da “verdadeira cultura” daquele povo. Assim defendem 
que um “verdadeiro alemão” está associado à cerveja (Bier), às salsichas (Wurst) e 
ao Strudel e ao Knedel. Logo, um alemão que prefere uma feijoada, seria uma espécie 
de pseudo alemão. Neste caso, a incorporação de novos hábitos ou novos elementos 
numa cultura, seria uma forma de descaracterizá-la, de empobrecê-la. 
Seguindo essa lógica pode se encontrar alguém que diga que um indígenado 
povo Guarani (que convive a mais de 500 anos com a cultura europeia) não é bem 
índio por estar usando uma camiseta da Coca-Cola. Verdade é que a camiseta da 
Coca-Cola representa toda uma tentativa de colonização cultural, mas a introdução 
do uso de camisetas da Coca-Cola numa tribo, não apaga a cultura local, apenas traz 
mais um elemento que ali será utilizado e interpretado segundo o momento atual 
daquela cultura. 
Situação semelhante acontece com os imigrantes alemães que povoaram 
partes do sul do Brasil. É fácil definir alguns traços que ligam esses imigrantes ao 
velho continente. Tais traços vão desde a dedicação ao trabalho até as formas de 
organizarem e conduzirem os rituais religiosos. Por outro lado, é comum você chegar 
à casa de agricultores imigrantes, ou mesmo numa reunião de senhoras alemãs na 
igreja, e encontrá-los comendo uma “cuca” (pão doce, com recheio ou cobertura 
igualmente doce) acompanhada de um chimarrão, bebida oriunda da cultura indígena. 
A presença do chimarrão na casa dos imigrantes ou da camiseta da Coca-
Cola na tribo indígena demonstra apenas que a cultura desse grupo agregou um novo 
elemento, mas não que ela se desfez ou se enfraqueceu. Tal realidade comprova que 
uma cultura não é estática, nem estável, ela se faz e se refaz num processo dinâmico 
e até contraditório, incluindo novos elementos, secundarizando outros elementos e, 
até abandonando elementos que a constituíam. 
O estudo de qualquer cultura irá apontar para a origem estrangeira de muitos 
de seus elementos, quanto maior for o interesse de um grupo humano de agregar 
elementos de outras culturas e dar-lhes um sentido peculiar, tanto mais complexa 
torna-se essa cultura. Assim, o chimarrão indígena e o chimarrão do imigrante, mesmo 
sendo o mesmo elemento, revestem-se de sentidos diferentes, próprios daquela 
cultura. Seria possível imaginar um líder de uma tribo defender o uso do chimarrão 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
como elemento propiciador de maior saúde aos seus consumidores e um imigrante 
defender o mesmo uso afirmando que o chimarrão cria vínculos na família e entre 
vizinhos reforçando laços comunitários. 
No mundo globalizado a cultura tornou-se um elemento central, as formas de 
comunicação e as trocas de bens e de concepções têm possibilitado um apagamento 
das fronteiras entre uma e outra cultura, bem como desafiado cada cultura local 
apresentar suas peculiaridades, deixando claro o que lhe caracteriza como única 
dentro da aldeia global. 
Cito na íntegra o texto do antropólogo Ralph Linton - “o Cidadão norte-
americano” - por ele permitir que se perceba como uma cultura é profundamente 
permeada por elementos de outras culturas, mesmo que numa atitude costumeira – 
pouco reflexiva – não percebamos isso. 
 
O cidadão norte-americano 
 “O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão 
originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes 
de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, 
cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, 
um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi 
descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por 
processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos 
“mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos 
Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura 
de invenções europeias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o 
pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi 
inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico 
que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito. 
Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira 
do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a 
forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus 
sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo 
Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas 
do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é 
sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. 
Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua através da vidraça feita de 
vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha 
descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva 
inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material 
inventado nas estepes asiáticas. 
De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com 
moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de 
elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie 
de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez 
na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um 
original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
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ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia 
africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do 
gado bovino e a ideia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente 
Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois 
das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo 
uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se 
tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple 
inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como 
prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada 
na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia 
Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da 
Europa. 
Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado 
pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; 
fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente 
do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, 
transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. 
Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados 
pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo 
inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas 
estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade 
hebraica, numa língua indo-europeia, o fato de ser cem por cento 
americano.” (LINTON, citado por LARAIA, 2003, p.106-108) 
 
 
Para Pensar 
Antes de continuar a leitura dedique-se a responder as seguintes 
questões: 
Questão I - Tente elencar o maior número de elementos de outras culturas 
que interferiram, ou interferirão, neste seu dia. 
Questão II - A cultura na qual você vive é herdeira principalmente de quais 
culturas? 
Questão III - Com a globalização todas as culturas se tornarão iguais? 
Questão IV - Quais elementos você pode identificar como típicos, 
específicos, de sua cultura? 
 
O texto de LINTON aponta para a variedade de elementos de múltiplas 
culturas em uma só cultura, essa se faz herdeira de todo um lastro de descobertas de 
outros povos. Isso poderia nos levar ao equívoco de pensar que esse texto está 
tratando de uma unificação ou planificação das culturas e do total apagamento das 
fronteiras entre uma cultura e outra. Caso pensássemos assim entraríamos em 
sintonia com as vozes que criticamos acima. Insisto que alguns alimentam 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
preconceituosamente a ideia de que estamos num processo de evolução e que uma 
cultura mais evoluída irá seduzira todos para adotarem seus elementos e 
procedimentos. 
Mas não é isso que LINTON está afirmando, apenas mostra em sua narrativa 
que o cidadão norte americano, possivelmente sem perceber, está imerso numa 
miscelânea de heranças das mais diversas fontes culturais e que seu estilo de vida só 
se tornou possível graças ao aprendizado que seu povo recebeu de outras culturas. 
O fato de haver uma intensa comunicação entre as diferentes regiões do 
planeta e uma troca tanto de bens materiais como de tecnologias e de outros 
conhecimentos nas mais diversas áreas e isso estar tornando menos vivíveis a 
fronteira entre uma cultura e outra, não é sinal de que iremos viver numa cultura 
unificada. Vejamos alguns exemplos: 
As línguas – Muitos pensavam que com a globalização a língua inglesa se 
tornaria uma língua predominante de tal forma que as outras línguas iriam perder seu 
prestígio. De fato a língua inglesa hoje é fundamental para os intercâmbios próprios 
dos tempos globalizados. Mas ao contrário do que se esperava, outras línguas, entre 
elas o Português e o Espanhol, ganham mais prestígio. Existe hoje todo um trabalho 
de divulgação dessas línguas com vistas a sua expansão, ora esse trabalho abre porta 
para relações comerciais e políticas, ora as relações comerciais e políticas abrem 
porta para a expansão da língua. 
O mesmo poderia se dizer da culinária, das danças ou das religiões. O velho 
pensamento homogeneizador - que acreditava que as grandes religiões seriam 
amplamente dominantes - vê de um lado a preservação de religiões tradicionais, como 
a Umbanda no Brasil, bem como o ressurgimento de antigos cultos como os das 
antigas religiões célticas. Além disso, as religiões dominantes como o cristianismo 
agregam dentro de si uma variedade de doutrinas que aponta mais para uma 
pluralidade de cultos e crenças do que para uma unificação. 
Frente a essas constatações pode ser que alguém simplifique tudo 
defendendo que há uma cultura mundial e que essa cultura é a própria pluralidade, a 
vida permeada por um variado conjunto de elementos culturais que cada indivíduo 
elege como seus e que a vida se dá em relações multiformes, dependendo das 
escolhas individuais. 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Diversos estudiosos debruçaram-se sobre essa temática e apontam para um 
caminho diferente. Tentarei demonstrar isso utilizando aqui algumas contribuições de 
Stuart Hall e Edgar Morin. Na próxima unidade demonstrarei que cada cultura é 
peculiar em suas representações e na forma como constrói a identidade dos 
indivíduos. 
 
Um efeito desta compressão espaço-tempo é a tendência à 
homogeneização cultural — a tendência [...] de que o mundo se torne 
um lugar único, tanto do ponto de vista espacial e temporal quanto 
cultural: a síndrome que um teórico denominou de McDonaldização do 
globo. É, de fato, difícil negar que o crescimento das gigantes 
transnacionais das comunicações, tais como a CNN, a Time Warner e 
a News International tende a favorecer a transmissão para o mundo 
de um conjunto de produtos culturais estandardizados, utilizando 
tecnologias ocidentais padronizadas, apagando as particularidades e 
diferenças locais e produzindo, em seu lugar, uma ‘cultura mundial’ 
homogeneizada, ocidentalizada. Entretanto, todos sabemos que as 
consequências desta revolução cultural global não são nem tão 
uniformes nem tão fáceis de ser previstas da forma como sugerem os 
‘homogeneizadores’ mais extremados. É também uma característica 
destes processos que eles sejam mundialmente distribuídos de uma 
forma muito irregular — sujeitos ao que Doreen Massey (1995) 
denominou de uma decisiva “geometria do poder” — e que suas 
consequências sejam profundamente contraditórias. Há, certamente, 
muitas consequências negativas — até agora sem solução — em 
termos das exportações culturais do ocidente tecnologicamente super 
desenvolvido, enfraquecendo e minando as capacidades de nações 
mais antigas e de sociedades emergentes na definição de seus 
próprios modos de vida e do ritmo e direção de seu desenvolvimento 
[...]. Há também diversas tendências contrapostas impedindo que o 
mundo se torne um espaço culturalmente uniforme e homogêneo [...]. 
A cultura global necessita da “diferença” para prosperar — mesmo que 
apenas para convertê-la em outro produto cultural para o mercado 
mundial (como, por exemplo, a cozinha étnica). É, portanto, mais 
provável que produza “simultaneamente” novas identificações (Hall, 
ibid.) “globais” e novas identificações locais do que uma cultura global 
uniforme e homogênea. (HALL, Stuart, 1997, p.3) 
 
Ao mesmo tempo em que uma cultura global, uniforme e homogênea transita 
pelo planeta instalando produtos culturais que se tornam hegemônicos, uma infinidade 
de expressões culturais autóctones, locais e peculiares (re) aparecem. Os fatores que 
as faz (re) surgir podem ser variados. Como já citado acima, um produto cultural local 
pode ser rebuscado como insumo para as estratégias do mercado que visa 
transformar tudo, inclusive questões culturais, em mercadoria. Assim a dança de um 
determinado grupo local pode ser fator de atração de turistas e tornar-se fonte de lucro 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
para uma rede de investidores em turismo. Portanto, para estes é fundamental que se 
volte às origens e se encontre as peculiaridades dessa antiga dança para que ela, 
parecendo mais exótica, seja mais atraente para o público já enfadado com os ritmos 
globalizados. 
Também a culinária local pode tornar-se fator de atração turística bem como 
incrementar o comércio de determinados ingredientes de menor aceitação no 
mercado. Da mesma forma a cultura religiosa local que exalta um espaço sagrado ou 
um santo, ali estabelecido, pode ampliar o lucro de quem investe na exploração desse 
negócio. Vale lembrar que a exploração mercadológica de um produto cultural, não 
necessariamente afeta as concepções que o envolvem. 
Outro fator que pode fazer ressurgirem produtos culturais peculiares a um 
grupo social é a necessidade de reforçarem sua identidade e estabelecerem vínculos 
internos mais robustos, a massificação tende a apagar as fronteiras que estabelecem 
as identidades e as diferenças, tema que trataremos na próxima unidade. A 
resistência a essa massificação pode se dar através da valorização daquilo que é 
próprio daquele grupo humano, que “resgata” o seu passado, sua história, seus 
costumes. Vale lembrar que toda forma de “rebuscar” o passado é sempre uma forma 
de se manter a memória do grupo apenas naquilo que ela é desejada. Ou seja, se 
busca no passado os elementos, os fatos que servem para organizar a vida no 
presente. 
A destruição das culturas locais, além de serem improváveis, seria um 
empobrecimento do legado de gerações que, em cada tempo, produziram 
elaborações significativas. Produção que se mantém viva em cada povo e que 
transgrediram fronteiras inserindo-se desapercebidamente em outras culturas, como 
nos mostrou LINTON em seu belo texto, já citado. 
 
As técnicas podem migrar de uma cultura para outra, como foi o caso 
da roda, da atrelagem, da bússola, da imprensa. Foi assim também 
com determinadas crenças religiosas, depois com ideias leigas que, 
nascidas em uma cultura singular, puderam se universalizar. Mas 
existe em cada cultura um capital específico de crenças, ideias, 
valores, mitos e, particularmente, aqueles que unem uma comunidade 
singular a seus ancestrais, suas tradições, seus mortos. 
Os que veem a diversidade das culturas tendem a minimizar ou a 
ocultar a unidade humana; os que veem a unidade humana tendem a 
considerar como secundária a diversidade das culturas. Ao contrário, 
é apropriado conceber a unidade que assegure e favoreça a 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIAE RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
diversidade, a diversidade que se inscreve na unidade (MORIN, 2000. 
p. 56). 
 
Atualmente se constata, cada vez com mais intensidade, a presença de 
grupos que, por se sentirem agredidos pela globalização e homogeneização da 
cultura, reagem a ela produzindo espaços e estratégias de resistência. Em muitos 
casos essa resistência é pautada naquilo que MORIN chama de racionalização. Ou 
seja, naquilo que acontece quando determinado grupo social ou toda uma sociedade 
se fecha em torno de uma verdade tida como absoluta, quando o pensamento se fecha 
sobre si mesmo, impedindo questionamentos ou reflexões. 
A racionalização possibilita a criação de grupos fundamentalistas que se 
organizam para produzir uma identidade pautada na absoluta concordância com as 
verdades formuladas por aquele grupo. Assim, determinado grupo se compacta 
internamente, fortalece seus vínculos e assume uma atitude proselitista por um lado 
e maniqueísta por outro. 
 
Proselitista: Aquele que zelosamente busca novos adeptos para sua doutrina. Pessoa ou 
grupo que se empenha em convencer ou persuadir outros a frequentarem o mesmo grupo, 
aderindo às mesmas crença e valores. 
Maniqueísta: Prática de dividir pessoas ou atitudes entre as que pertencem ao bem e as 
que pertencem ao mal. Diz-se daqueles que só conseguem ver maldade ou engano, nas 
pessoas que não são do seu grupo e não conseguem refletir criticamente sobre as práticas 
e crenças do seu grupo. 
Fundamentalistas são os que se valendo de uma interpretação literal dos livros sagrados, 
impõem internamente seus dogmas, impedindo discordância; e alimentam um profundo 
desprezo, quando não ódio, pelas doutrinas ou procedimentos contrários ao de seu grupo. 
 
O próprio ritmo e a irregularidade da mudança cultural global 
produzem com frequência suas próprias resistências, que podem, 
certamente, ser positivas, mas, muitas vezes, são reações defensivas 
negativas, contrárias à cultura global e representam fortes tendências 
a “fechamento” (ver Woodward, 1997). Por exemplo, o crescimento do 
fundamentalismo cristão nos EUA, do fundamentalismo islâmico em 
regiões do Oriente Médio, do fundamentalismo hindu na Índia, o 
ressurgimento dos nacionalismos étnicos na Europa Central e 
Oriental, a atitude anti-imigrante e a postura eurocética de muitas 
sociedades do ocidente europeu, e o nacionalismo cultural na forma 
de reafirmações da herança e da tradição [...], embora tão diferentes 
entre si, podem ser considerados como reações culturais 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
conservadoras, fazendo parte do retrocesso causado pela 
disseminação da diversidade efetuada pelas forças da globalização 
cultural. (HALL, Stuart, 1997, p.4) 
 
Embora as diferentes formas de reação a globalização, homogeneização e 
uniformização da cultura possam ser criticadas, em especial as caracterizadas como 
formas de fundamentalismo, todas elas aparecem como reação a um poder que tenta 
atuar através da dominação cultural. 
Se retrocedermos até as décadas de 1960 e 1970, ou já na década de 1930, 
perceberemos o poder da cultura norte americana no Brasil. Os EUA, em especial, 
nos tempos de Guerra Fria, elaborou todo um plano de divulgação de seu estilo de 
vida para ser adotado nos países capitalistas. Na figura do Superman, o herói defensor 
da liberdade e do bem, projetou uma imagem positiva dos EUA, fazendo-nos crer que 
deveríamos nos aculturar e adotar seu estilo de vida – conhecido como “american way 
of life”. 
É normal que um povo viva, defenda e tente divulgar seu estilo de vida. Todos 
acreditam que sua forma de ver e viver a vida faz sentido. A imposição de determinada 
cultura ou a hierarquização das mesmas que são problemáticas. Existem aqueles que 
banalizam a cultura do outro, ou até acreditam que o outro não tenha cultura. Quando 
superamos nosso preconceito e assumimos uma postura de alteridade percebemos 
que cada grupo humano tem sua cultura e que todas elas são complexas. 
Em cada cultura encontraremos sentidos atribuídos aos conceitos que em 
nossa cultura chamamos de, saudade, luto, amor, paz, belo, dor, ódio, deus, medo, 
vida, morte, parto, etc. Nesse “etc.” cabem páginas de conceitos que existem em cada 
cultura. Mas não só conceitos, costumes, crenças, valores, tradições, a língua (todas 
as línguas são complexas) e a produção material que pressupõe conhecimento dos 
elementos da natureza, dos meios de ordená-los e utilizá-los, dos instrumentos de 
trabalho, da organização do trabalho e da distribuição de seus resultados. Um simples 
camponês semianalfabeto, além de tudo isso, domina o conhecimento do nome, 
forma, comportamento e utilidade de milhares de espécies animais e vegetais. Talvez 
haja quem diga que ele não tem cultura! 
 
Num país como o nosso, dizer que alguém é inculto porque é 
semianalfabeto deixa transparecer que Cultura é algo que pertence a 
certas camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas, 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
enquanto a incultura está do lado dos não-privilegiados socialmente, 
portanto, do lado do povo e do popular (CHAUI, 1998, p.291). 
 
 
Sugestão de Vídeo 
Filme: A Excêntrica Família de Antonia 
Ficha Técnica 
Gênero: Drama 
Direção: Marleen Gorris 
Roteiro: Marleen Gorris 
Elenco: Dova Van Der Groe, Marina De Graa, Wileque Van Ammel Rooy 
Duração: 102 min. 
Ano: 1995 
País: Bélgica / Holanda / Inglaterra 
Cor: Colorido 
Sinopse 
Comandada por Antonia, a saga familiar atravessa três gerações, falando 
de força, de beleza e de escolhas que desafiam o tempo. Nesse universo 
conhecemos curiosos personagens, como o filósofo pessimista, a netinha 
superdotada, a filha lésbica, a avó louca, o padre herege, a amiga que 
adora procriar, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos que 
são acolhidos por sua generosidade. 
 
 
2.2 A CENTRALIDADE DA CULTURA 
 
A percepção da centralidade da cultura pode se dar a partir da observação 
das nossas experiências cotidianas, experiência aqui entendida como aquilo que nos 
acontece, aquilo que se passa conosco. 
 
A expressão “centralidade da cultura” indica aqui a forma como a cultura penetra em cada 
recanto da vida social contemporânea, fazendo proliferar ambientes secundários, mediando 
tudo. A cultura está presente nas vozes e imagens incorpóreas que nos interpelam das telas, 
nos postos de gasolina. Ela é um elemento chave no modo como o meio ambiente doméstico 
é atrelado, pelo consumo, às tendências e modas mundiais. É trazida para dentro de nossos 
 
 
 
 
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ESTRATÉGIA EMPRESARIAL 
 
PÓS-GRADUAÇÃO 
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
lares através dos esportes e das revistas esportivas, que frequentemente vendem uma 
imagem de íntima associação ao "lugar" e ao local através da cultura do futebol 
contemporâneo. Elas mostram uma curiosa nostalgia em relação a uma “comunidade 
imaginada”, na verdade, uma nostalgia das culturas vividas de importantes “locais” que foram 
profundamente transformadas, senão totalmente destruídas pela mudança econômica e pelo 
declínio industrial. (HALL, Stuart, 1997, p.5) 
 
Há uma consciência de que a cultura interfere nas relações de poder, 
propiciando um lugar privilegiado de comando a quem dispor de meios e estratégias 
para interferir no processo de sua produção e controle. 
 
Em meio a toda conversa sobre “desregulamentação” (…) tem 
ocorrido um processo de sofisticação e intensificação dos meios de 
regulação e vigilância: o que alguns têm denominado “o governo pela 
cultura”. Neste diferentes exemplos reconhecemos que a “cultura” não 
é uma opção soft. Não pode mais ser estudada como uma variável 
sem importância, secundária ou dependente em relação ao que faz o 
mundo mover-se; tem de ser vista como algo fundamental, 
constitutivo,

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