Colecao Histria do Tempo Presente - Volume I (1)
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Colecao Histria do Tempo Presente - Volume I (1)


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das sociais, mas também a interrogações metodológicas suscitadas pela tarefa 
de compreensão da contemporaneidade. Neste texto procura-se apontar pa-
noramicamente algumas possibilidades de abordagem e acentuar que a cha-
mada História do Tempo Presente é fundamentalmente parte de uma trajetó-
ria de reflexão historiográfica que a situa no campo da História propriamente 
dito, não constituindo uma ruptura com o ofício, como muitas vezes parece 
ser percebida, mas que desafia a historiografia ao debate político e demanda, 
assim, a análise constante de posições que pareciam definitivas.
De qualquer modo, a História do Tempo Presente demarca tempora-
lidades em construção, as quais correspondem ao vivido e aos vivos. Trata-se 
não de uma prática do que pode ser chamado de luto social, como se apenas o 
mundo dos mortos coubesse à historiografia, mas do envolvimento com as lu-
tas pela sobrevivência e seus conflitos em sociedades marcadas pelo capitalis-
mo e pelas desigualdades sociais. Mesmo que não seja uma outra história, tri-
butária que é dos movimentos que vêm discutindo em abrangência o ofício de 
historiadores e historiadoras profissionais há décadas, uma escrita da história 
voltada ao tempo presente tem como significado básico uma atitude política 
na qual a historiografia se expõe ao debate público em um momento em que 
diferentes narrativas buscam reescrever o passado com vistas a utilizá-lo como 
arma política. Mais do que nunca, uma história comprometida e interpelada 
pelo presente está diante de questionamentos que envolvem a interação en-
tre narrativa histórica e campo político. Do ponto de vista das abordagens e 
métodos disponíveis, tal atitude leva ao que Marshall Sahlins (1987, p. 181) 
aponta como a necessidade de questionar \u201coposições calcificadas\u201d, incluindo a 
estrita fronteira antes tomada como intransponível entre um passado apresen-
tado como \u201cradicalmente diferente do presente\u201d. Trata-se de engajar conceitos 
em métodos no mundo e na ação.
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Henry Rousso (2016, p. 188-194) indica que a própria denominação 
História do Tempo Presente surgiu de ações que podem ser tomadas como 
propriamente políticas, quando historiadores franceses buscaram legitimida-
de institucional para investigações que questionavam a História da França 
da Segunda Guerra Mundial e a descolonização, principalmente a Guerra da 
Argélia. Como meio adequado para a discussão de temas espinhosos, como 
o colaboracionismo com o ocupante nazista e as violências perpetradas nas 
colônias, algumas estratégias acadêmicas, mas que também envolviam uma 
compreensão do campo político, levaram à construção de um novo âmbito de 
reflexões historiográficas com a fundação do Instituto de História do Tempo 
Presente em 1978. Voltando-se para movimento históricos em andamento 
e ainda em candentes debates, historiadores e historiadoras submeteram-se 
ao crivo não só de seus pares, mas da política, tomada não apenas como me-
canismo de mediação de conflitos, mas como exercício do debate público o 
mais amplo possível. Rousso afirma que \u201cos historiadores do Tempo Presente, 
tendo trabalhado sobre questões terrivelmente sensíveis, tiveram de inventar, 
senão métodos, pelo menos uma maneira de se colocar na paisagem\u201d (2016, 
p. 186).
A historiografia francesa passou a desenvolver então um trabalho que 
de algum modo remetia ao que se fazia na Alemanha, no Institut für Zeitges-
chichte de Munique, desde 1949 (Rousso, 2016, p. 212-213). Cabe acentuar 
que, menos por uma decisão baseada em profundas e notórias rupturas teó-
ricas, mas principalmente pela busca da institucionalização e, assim, por um 
acúmulo de aportes políticos, a entrada do tempo presente no âmbito das 
preocupações de quem escreve história apresentou-se desde cedo na forma de 
projetos de investigação que se anteciparam a conceitos rígidos e predefinidos. 
De tal forma, atitudes metodológicas abertas possibilitaram estratégias para 
trazer a experiência do vivido e do político para a escrita da história. No Brasil, 
pode-se mencionar a obra de Carlos Fico, que vem chamando a atenção para 
um tipo de narrativa sobre a aparato repressivo da última ditadura militar no 
Brasil que favorece uma \u201cmemória traumática\u201d do período, tendencialmente 
reduzida aos episódios da luta armada (Fico, 2017, p. 42-51).
Sabe-se que os laços entre a historiografia e a política não são uma no-
vidade, havendo uma larga e conhecida trajetória de imbricamento entre a 
história conhecimento e o poder, seja este religioso, militar, imperial, mo-
nárquico ou nacionalista. Sabe-se das práticas de intervenções na História de 
forças políticas interessadas em legitimar posições conquistadas. Dadas tais 
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condições, uma História política considerada elitista e metodologicamente 
presa a parâmetros factuais, lineares e deterministas, foi alvo de profundas 
críticas provenientes de movimentos renovadores da historiografia ao longo 
do século XX (Julliard, 1976, p. 182). Mas, tanto um conjunto de mudanças 
sociais ocorridas nas últimas décadas, em vários âmbitos e envolvendo trans-
formações históricas importantes, quanto as pressões sobre o conhecimento 
historiográfico decorrentes da interdisciplinaridade (Borges, 1992), trouxe-
ram à cena novas e ampliadas reflexões sobre o campo do político, tornando 
necessárias as pesquisas sobre períodos mais recentes, de modo a pensar as 
implicações culturais de longo alcance dos fenômenos políticos contemporâ-
neos. Por outro lado, o tempo presente continua a ser incômodo para a his-
toriografia, dado que significa problemáticas que evidenciam percepções de 
tempo histórico em disputa política, quando os objetos estudados muitas ve-
zes envolvem o investigador e suas opções e posições. Paul Ricoeur (2007, p. 
456) é mais objetivo: a História do Tempo Presente é \u201caquela onde esbarram 
uma na outra a palavra dos testemunhos ainda viva e a escrita em que já se 
recolhem os rastros documentários dos acontecimentos considerados\u201d. Além 
disso, a partir das perspectivas de Reinhart Koselleck (2014, p. 267-276), é 
possível avançar para abordagens acerca da temporalidade em que diferentes 
estratos de experiências e expectativas se justapõem nas estruturas de repetição 
que conformam práticas sociais e vivências.
Apresentada ao tempo presente, a historiografia é levada então a cons-
truir testemunhos em perspectiva e interpretativos dos acontecimentos e pro-
cessos que marcam o vivido. Ao atribuir sentidos e relativizar a profusão de 
imagens e informações dispersas dos meios de comunicação, as quais tendem 
a esvaziar a temporalidade, a historiografia volta-se aos fenômenos políticos 
e ao presente de modo a oferecer densidade à análise social. Isso ocorre na 
medida em que a percepção de se estar debruçado criticamente e com uma 
perspectiva histórica sobre o tempo vivido alargou as possibilidades de inter-
pretá-lo, demandando a discussão sobre a temporalidade. Isso ampliou signi-
ficações que se justapõem e se combinam, alterando a própria representação 
da História, como totalidade abstrata que reuniria experiências particulares 
e dispersas (Koselleck, 1992), ordenadas em passado, presente e futuro. É 
este presente extenso que se afigura como um novo fenômeno cultural, o 
qual tem sido alvo de inúmeras interpretações que sugerem a inviabilidade 
e o esgotamento de projetos políticos e sua incapacidade para provocar mu-
danças históricas nas sociedades capitalistas ocidentais. Verifica-se então que, 
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paradoxalmente, quando a historiografia volta-se para o político, o início do 
século XXI seria marcado pela desagregação dessa esfera, na esteira da alegada 
perda de importância do Estado-Nação, saturado de pluralidades comuni-
tárias que recusariam o contratualismo impessoal do espaço público e alme-
jariam o presente vivido e imeditado, levando de roldão a Polis, substituída 
pelo apego às