O Presidente Negro - Monteiro Lobato
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O Presidente Negro - Monteiro Lobato


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vir	 trazê-lo	 O	 progresso	 foi
grande,	mas	repare	que	atraso	ainda!
\u2014	 Mobilizar	 um	 homem,	 isto	 é,	 uma	massa	 de	 60	 ou	 70	 quilos	 de
carne,	fazê-lo	dar	mil	ou	cinco	mil	passos,	gastando	vinte	ou	trinta	minutos
da	 sua	 vida.	 só	 para	 transportar	 um	 simples	 charuto!	 Chega	 a	 ser
grotesco...
\u2014	Realmente.	Mas	no	futuro?
\u2014	 No	 futuro	 o	 senhor	 Ayrton	 fumará	 á	 distancia. 	 Veja	 quanta
economia	de	tempo	e	esforço	humano!
Julguei	 que	 miss	 Jane	 estivesse	 a	 caçoar	 comigo	 e	 até	 hoje
permaneço	 na	 duvida.	 Em	 seu	 rosto,	 porém,	 não	 vi	 a	 menor	 sombra	 de
motejo.
\u2014	Pode	ser,	mas...	duvidei.
\u2014	 Esse	 mesmo	 "pode	 ser,	 mas..."	 diria	 um	 romano	 do	 tempo	 de
César	 se	 alguém	 lhe	 predissesse	 que	 um	 romano	 do	 tempo	 do	 óleo	 de
rícino	não	precisaria	 sair	de	sua	casa	para	conversar	com	um	cidadão	de
Paris.	Sabe	o	senhor	Ayrton,	no	entanto,	que	isso	é	\u2013	comezinho	hoje	e	nem
sequer	admira	a	ninguém.
\u2014	Falar	é	uma	coisa	e	fumar	é	outra.
\u2014	Hoje,	 que	 só	 temos	 a	 radiocomunicação	 Mas	 chegará	 o	 dia	 da
radio	 sensação	 e	 do	 radio	 transporte,	 com	 radical	 mudança	 do	 nosso
sistema	 de	 vida.	 Os	 veículos	 ao	 sistema	 corrente	 desaparecerão	 um	 por
um.	Voltará	o	homem	a	 caminhar	 a	pé,	 por	prazer,	 e	 as	 ruas	 se	 tornarão
uma	delicia.	O	senhor	Ayrton	sabe	o	que	quer	dizer	uma	rua	hoje...
\u2014	 Ninguém	melhor	 do	 que	 eu,	 miss	 Jane,	 pois	 desde	menino	 vivo
nelas.	 Que	 angustia,	 que	 permanente	 inquietação!	 Temos	 que	 andar	 com
cinquenta	olhos	arregalados,	para	prevenirmos	trancos	e	atropelamentos.
\u2014	 Tudo	 isso	 desaparecerá,	 e	 adquirirão	 as	 cidades	 uma	 calma
deliciosa,	 como	 hoje	 a	 de	 certas	 aldeias.	 Vi	 New	 York	 nesse	 período.	 Que
diferença	do	atropelado	e	doido	formigueiro	de	agora!
\u2014	Deve	miss	Jane	ter	observado	coisas	maravilhosas!...
\u2014	Menos	maravilhosas	do	que	desnorteantes	para	as	nossas	 ideias
atuais.	As	 invenções	vão	sobrevivendo	no	decurso	do	 tempo,	umas	saídas
das	outras,	e	as	coisas	tomam	ás	vezes	rumo	muito	diverso	do	que	a	logica,
com	ponto	de	partida	no	estado	atual,	nos	faria	prever,
O	professor	Benson	reapareceu	nesse	momento	e	a	conversa	tomou
outro	 rumo.	 Eu	 me	 achava	 na	 situação	 de	 um	 homem	 que	 ingerisse	 um
estupefaciente	 desconhecido.	 Estava	 com	 a	 minha	 capacidade	 de
assimilação	de	ideias	esgotada	e	já	com	uma	ponta	de	dor	de	cabeça	a	dar
sinal	 de	 que	 o	 cérebro	 exigia	 repouso.	 Sem	 que	 eu	 o	 dissesse,	 o	 velho
sábio,	mais	sua	 ilha,	compreenderam-no	perfeitamente	e	dali	até	o	 jantar
só	me	falaram	de	coisas	repousantes.
Á	 noite	 custei	 a	 conciliar	 o	 sono,	 o	 que	 era	 natural.	 Mas
sinceramente	 o	 digo:	 o	 que	 mais	 me	 dançava	 na	 cabeça	 não	 era	 o
desvendamento	do	futuro	nem	as	suas	abracadabrantes	maravilhas,	e	sim
a	 imagem	 de	 miss	 Jane.	 A	 estranha	 criatura	 loura,	 de	 olhos	 tão	 azues,
impressionara	por	igual	meu	cérebro	e	meu	coração.	Comecei	a	ver	nela	o
verdadeiro	tudo;	e	se	me	dessem	a	opinar	entre	a	posse	da	descoberta	do
professor	Benson	e	o	tê-la	ao	meu	lado	para	o	resto	da	vida,	não	vacilaria
um	instante	na	escolha.
Dormi	por	 im	e,	em	vez	de	sonhar	com	o	mundo	 futuro	entrevisto
na	 palestra	 da	 moça,	 sonhei	 no	 encanto	 do	 presente,	 todo	 resumido	 em
conjugal	convivência	com	o	meigo	anjo	sábio.
CAPÍTULO	VIII
A	Luz	que	se	Apaga
No	 dia	 seguinte,	 logo	 pela	 manhã,	 soou-me	 aos	 ouvidos	 uma
novidade	desagradável.	Não	passara	bem	a	noite	o	professor	Benson.
\u2014	Estou	velho,	meu	caro	senhor	Ayrton,	disse-me	ele	ao	encontrar-
se	comigo.	Já	sinto	cá	dentro	a	maquina	funcionar	com	esforço.	Jane	ignora
o	meu	estado,	mas	a	pobre	menina	não	me	terá	por	muito	tempo	na	terra.
Ficará	só.	Dei-lhe,	entretanto,	tal	educação,	e	possue	ela	tais	qualidades	de
caráter,	 que	 morrerei	 feliz.	 Saberá	 agir	 no	 mundo	 como	 se	 contasse
sempre	comigo.
Veio-me	 aos	 lábios	 um	 ímpeto	 de	 con idencia.	 Quis	 apresentar-me
ao	professor	como	o	braço	 forte	que	se	oferecia	a	miss	 Jane	quando	o	de
seu	 pai	 viesse	 a	 faltar.	 Contive-me	 a	 tempo.	 Lembrei-me	 da	 minha
insigni icância	e	do	pouquíssimo	que	eu	ainda	era	naquele	lar.	Limitei-me,
pois,	a	confirmar	as	ideias	do	velho	em	relação	á	filha,	dizendo:
\u2014	 Pelo	 que	 com	 ela	 conversei	 ontem	 tive	 a	 mesma	 impressão.	 É
miss	 Jane	uma	criatura	superior,	uma	madame	Curie	capaz	de	prosseguir
nos	trabalhos	de	seu	pai,	se	o	quiser.
\u2014	 Jane	 o	 quereria	 talvez,	mas	 não	 posso	 consentir	 nisso.	 Bastam-
lhe,	 para	 lhe	 encher	 a	 vida,	 as	 visões	 que	 já	 teve	 e	 a	 superioridade	 que
adquiriu	 conhecendo	 o	 futuro	 próximo.	 Isso	 lhe	 permitirá	 por-se	 a	 salvo
das	 contingencias	 da	 necessidade.	 Possue	 Jane	 um	 caderninho	 onde
anotou	 a	 cotação	 dos	 principais	 valores	 de	 bolsa	 nestes	 próximos
cinquenta	 anos.	 Está	 assim	 habilitada	 a	 ser	 detentora	 do	 dinheiro	 que
quiser.	O	dinheiro	ainda	é	tudo	para	os	homens.	O	estranho	dote	que	deixo
á	minha	 ilha	 se	 resume	 nesse	 caderninho	 de	 notas...	 Mas	 conheço	 Jane.
Extremamente	 imune	 ás	 ambições	 que	 atormentam	 o	 comum	 das
mulheres,	 levará	 um	 viver	 apagado,	 sem	 exterioridade,	 toda	 entregue	 á
vida	cerebral,	que	a	tem	intensíssima.
O	professor	fez	uma	pausa,	como	se	o	esforço	daquelas	con idencias
o	tivesse	cansado.		Depois,	disse:
\u2014	Realizei	o		que		jamais		sonhara		nos		delirantes	sonhos	da	minha
mocidade	\u2014	e	me	vejo	 forçado	a	 levar	para	o	 tumulo	o	 grande	 segredo...
Jane	não	o	revelará	a	ninguém	e	ainda	que	o	 faça	não	estará	na	posse	da
solução	 técnica.	 O	 senhor	 Ayrton,	 única	 testemunha	 presencial	 de	 tudo,
também	o	não	revelará	a	ninguém.
\u2014	Proibe-mo,	professor?
\u2014	Não,	não	proíbo,	já	disse.	Mas	se	algum	dia	tiver	a	ingenuidade	de
o	revelar	a	alguém,	passará	por	 louco,	e	se	 insistir,	por	 louco	varrido,	dos
que	 os	 homens	 metem	 nos	 hospícios.	 O	 instinto	 de	 conservação	 e	 de
sociabilidade	é	que	o	vai	impedir	de	revelar	o	que	está	vendo	aqui.
Miss	 Jane	 entrou	 nesse	 momento	 e	 notei	 que	 o	 velho	 sábio	 se
contrafazia	 diante	 da	 moça	 para	 não	 denunciar	 o	 seu	 estado	 de	 saúde.
Apesar	disso	ela	observou.
\u2014	Um	pouco	pálido,	meu	pai...
\u2014	Sim,	mas	estou	perfeitamente	bem.	Temos	aqui	o	senhor	Ayrton	e
compete	 a	 ti,	 minha	 ilha,	 organizar	 o	 programa	 do	 dia.	 Pouco	 posso
acompanhá-los.	 Uma	 delicada	 experiência	 vai	 absorver-me	 por	 algumas
horas.
Miss	Jane	olhou-me	com	os	seus	lindos	olhos	claros	e	disse:
\u2014	Escolha,	 senhor	Ayrton.	Ontem	 foi	 a	 teoria,	 hoje	 começa	 a	 ser	 a
pratica.	Vai	estudar	uns	córtex.	Escolha	um	momento	da	vida	futura	que	o
interessa.
Miss	 Jane	 estava	 linda	 como	 uma	 rosa	 desabrochada	 naquela
manhã	na	roseira	próxima	do	meu	quarto.	Meus	olhos	envolveram-na	num
véu	 de	 enlevo	 e	 se	 o	 coração	 pudesse	 falar	 ter-lhe-ia	 eu	 dito	 que	 só	me
interessava	o	presente	nela	concentrado.	Mas	respondi	de	outro	modo.
\u2014	 Sou	 um	 leigo	 em	 matéria	 de	 futuro,	 miss	 Jane,	 e	 nem	 escolher
posso.	Deixo	isso	ao	seu	inteligente	critério.
\u2014	Não	tem	vontade	de	ver	o	que	se	passará	aqui,	neste	lugar	onde
estamos,	no	ano	3000?
\u2014	Já	fizeste	esse	corte,	Jane,	interveio	o	professor.
\u2014	 Fiz,	 sim,	 meu	 pai,	 mas	 será	 curioso	 repeti-lo	 para	 o	 senhor
Ayrton.
\u2014	Perfeitamente,	concordei.	Ha	sempre	mais	interesse	para	nós	em
ver	assim	futurizado	um	ponto	nosso	conhecido	do	que	um	desconhecido.
\u2014	 Pois	 então,	 resolveu	 o	 professor	 Benson,	 comecem	 por	 aí	 e	 não
contem	comigo.	Vou	trabalhar.
Ergueu-se	 e	 saiu.	Miss	 Jane	 acompanhou-o	 até	 á	 porta	 e	 ao	 tornar
me	disse:
\u2014	Acho	meu	pai	um	 tanto	abatido	hoje.	 Já	 está	nos	 setenta	anos	e
velhice	é	doença...
Uma	nuvem	de	melancolia	sombreou-lhe	os	lindos	olhos	azues	e	um
breve	suspiro	lhe	escapou	do	peito.	Também	eu	no	intimo	me	sombreei	de
tristeza,	 embora	mentisse	 exteriormente,	nesse	 intuito	de	 consolação	 fácil
que	tais	lances	impõem.
\u2014	 Qual!	 exclamei.	 O	 professor	 é	 rijo.	 E	 com	 a	 vida	 calma	 que	 leva
ainda