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Manual Esquemático de Criminologia - Nestor Sampaio Penteado Filho - 2020

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à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, à estatura, aos
distúrbios metabólicos e, às vezes, às malformações físicas, mas também
determinaria forte influência sobre seu temperamento e suas relações com
o mundo.
Hoje em dia é inapropriado pensar na personalidade humana como
consequência inarredável do meio ambiente. Não pode, tampouco, ser
considerado um punhado de genes, resultando em uma máquina
programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido
exatamente os seus ascendentes biológicos. Daí inferir que em sua
composição interagem elementos biológicos, psicológicos e sociais.
Entende-se por “personalidade” a síntese de todos os elementos que
concorrem para a conformação mental de uma pessoa, de modo a lhe
conferir fisionomia própria (Porot).
É a organização dinâmica dos aspectos ou elementos cognoscitivos,
conativos, afetivos, fisiológicos e morfológicos do indivíduo (Sheldon).
Esquema da Personalidade:
A personalidade apresenta alguns traços característicos, quais
sejam a unidade e a identidade (todo coeso e organizado); a vitalidade
(conjunto animado); a consciência (intra e extrainformação do mundo); e
as relações com o meio ambiente (limites do “eu” com o meio).
Como já se pontuou, não existe uma personalidade normal, mas sim
várias personalidades normais, conforme os tipologistas esclarecem.
Segundo Kretschmer48, há três tipos somáticos: o leptossômico, o
pícnico e o atlético, conforme desenhos e tabela a seguir:
 
Tabela Biopsicotípica de Kretschmer
Tipo
Constitucional
Características
Psíquicas
Características
Físicas
Pícnico
(ciclotímico)
Oscilação entre euforia e depressão; elevada
capacidade de sintonia com as pessoas;
desenvolvimento da inteligência concreta;
realista e prático; presunçoso e atuante;
correlação com psicose maníaco-depressiva
Baixa estatura; membros
curtos; tronco desenvolvido e
adiposo; pescoço largo e curto;
tipo físico de Sancho Pança;
contornos arredondados
Leptossômico
(esquizotímico)
Oscilação entre anestesia e hipersensibilidade;
baixa capacidade de sintonia com as pessoas;
idealista e sonhador; tímido (introvertido) e
retraído; facilidade para inteligência abstrata e
conceitual; correlação com esquizofrenia
Alto; magro; pele seca e pálida;
tórax estreito; costelas visíveis;
músculos e ossos delgados;
pescoço, pernas e braços
longos; tipo físico de D. Quixote
Atlético
(epileptoide)
Perseverante; combativo; sem grande relevo
intelectual; alta tolerância à dor; agressivo;
interesse por esportes e correlação com a
epilepsia
Viscoso; ombros largos; pelve
estreita; ossos e músculos
desenvolvidos; queixo grande;
face angular; proeminências
ósseas na face; porte marcial
Por sua vez, Sheldon desenvolveu uma tipologia na qual haveria uma
correspondência entre certos tipos físicos (denominados endomorfo,
mesomorfo e ectomorfo) e determinados temperamentos,
respectivamente chamados de endotônico, mesotônico e ectotônico. Esses
nomes derivam das camadas embrionárias realçadas em cada um:
endoderma (sistema digestivo), mesoderma (músculos, ossos, sangue) e
ectoderma (sistema nervoso, pele, órgãos dos sentidos). Assim, observem-
se os desenhos esquemáticos e a tabela biopsicotípica respectiva:
Biopsicotipologia de Sheldon
Corpo Endomórfico Mesomórfico Ectomórfico
Forma
Predominante Redonda Retangular Linear
Características
Básicas
Barriga saliente,
membros curtos,
cabeça esférica
Ossos e músculos
desenvolvidos, tórax
proeminente, cabeça cúbica
Ossos finos,
músculos leves,
membros longos,
face triangular
Temperamento Endotônico Mesotônico Ectotônico
Prefere Conforto físico Aventura Tempo para simesmo
Em grupo Mistura-se Comanda Isola-se
Qualidade Tolerância e amorpelas pessoas Amor ao poder e liderança
Consciência de si bem
desenvolvida
2.2 Personalidade e crime
Alguns autores partem da constatação de que não existem diferenças de
personalidade entre delinquentes e não delinquentes, não se podendo,
portanto, conceituar ou dividir a personalidade em normal e anormal (Odon,
Ayush, Marlet).
A pesquisa atual se orienta cada vez mais para a compreensão dos
processos complexos pelos quais uma pessoa se envolve numa conduta
delinquente, adquire uma identidade criminosa e adota, finalmente, um
modo de vida delinquente (Samuel Yochelsom, A personalidade criminal,
1976).
A criminalidade moderna, entretanto, levando em conta as execuções em
escolas, a atuação de snipers, a ação de crianças-bombas, o tráfico de
órgãos etc., exige o desenvolvimento de outros modelos criminais.
Dessa forma, não estaríamos diante de um conjunto de traços de
personalidade determinantes de uma conduta criminosa, mas diante de
uma ação delituosa resultante da interação entre determinados contextos e
situações do meio, juntamente com um conjunto de processos cognitivos
pessoais, afetivos e vivenciais, os quais acabariam por levar a pessoa a
interpretar a situação de forma particular e a agir (criminosamente) de
acordo com o sentido que lhe atribui.
Aqui também se pensa em determinada personalidade criminosa,
personalidade essa produzida não apenas pelo arranjo genético, mas
sobretudo pelo desenvolvimento pessoal.
De acordo com as modernas teorias da personalidade, seriam sete os
sistemas que a constituem:
A inter-relação entre personalidade e conduta dá-se da seguinte forma: a
personalidade é a matriz de produção da ação e define as
condições e modalidades do agir, enquanto a conduta é o processo
de materialização da personalidade.
Hoje em dia, alguns pesquisadores da criminalidade comum (agentes
primários e reincidentes) não têm encontrado neles déficits ou
psicopatologias suficientemente relevantes para se associar ao que se
entende por personalidade criminosa ou comportamento criminal,
verificando-se, pelo contrário, que esses sujeitos não se distinguem
significativamente dos indivíduos ditos normais.
Atualmente é difícil aceitar a existência de uma personalidade
tipicamente criminosa, composta por traços imutáveis e predefinidos.
Advoga-se, sim, a existência de diferentes formas de organização e
estruturação da personalidade, de diferentes maneiras de integrar os
estímulos do meio e os processos psíquicos, e de diferentes maneiras de
relação com o mundo exterior.
Seguindo esse raciocínio, o criminoso, como qualquer pessoa, estabelece
uma representação da realidade, desenvolve uma ordem de valores e
significados, na qual a transgressão adquire determinado sentido e se torna,
em dado momento de sua história de vida, uma modalidade de vida.
Pode-se afirmar que os homens são essencialmente iguais e
funcionalmente diferentes, ou seja, podem se considerar iguais uns aos
outros quanto à essência humana (ontologicamente), entretanto funcionam
diferentemente uns dos outros.
Todas as tendências ideológicas que enfatizam a igualdade dos seres
humanos, em total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam aos
ouvidos despreparados com eloquente beleza retórica, romântica, ética e
moral.
Transpondo tais ideais do papel para a prática, sucumbem diante de
incontáveis evidências em contrário: não resistem à constatação das
flagrantes e involuntárias diferenças entre os indivíduos, e não explicam a
indomável característica humana que é a perene vocação do homem de se
diferenciar do outro.
3o Capítulo
As modernas teorias antropológicas
3.1 Modernas teorias antropológicas
Sabe-se que a criminologia deita raízes históricas nos estudos
antropológicos, que de início se ligavam à antropometria (estudo das
características corporais e de sua correlação com a criminalidade).
Embora recusada a teoria do criminoso nato de Lombroso, os estudos
antropológicos modernos acabaram por herdar um pouco daquela análise
positivista.
Benigno di Tullio desenvolveu o método biotipológico constitucionalista,
em que se dava maior crédito ao processo dinâmico de formação da
personalidade em contraposição ao enfoque estático lombrosiano.
Resumidamente, para Di Tullio (apud GOMES; MOLINA, 2008, p. 225), “a
hereditariedade, sem embargo, não transmite a criminalidade,