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DISSERTAÇÃO-PEDAGOGIA-HOSPITALAR

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de São Cristovão, Laranjeiras, Estância e a Vila de Maruim 
(NUNES, 2008, p.104). 
 
Outro título importante é o de “Berço da Cultura e Arte”, pela contribuição da 
cidade a aspectos educacionais, culturais e artísticos. Um exemplo é o surgimento do 
primeiro jornal da província em Estância. “Em Estância, onde a imprensa sergipana 
lançara as raízes com o Recopilador Sergipano (1832-1834) e com instalação da 
Tipografia do Silveira, circulam [sic], nos primeiros anos de 1850” (NUNES, 2008, 
p.90). 
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 Como cita a historiadora Thetis Nunes, no cenário educacional, eram criadas “na 
Vila Constitucional de Estância as cadeiras de Filosofia e Moral, Retórica e Francês. 
Comprovava-se, assim, a importância que essa Vila assumia não só na área econômica 
como no setor cultural da Província.” (NUNES, 2008, p.60). 
Na cidade dos sobrados azulejados, os casarões antigos receberam influência 
portuguesa em sua arquitetura; nas tradicionais festas juninas, a cultura do povo se 
evidencia através das batucadas, quadrilhas e reisados, e do barco de fogo
2
, único no 
Brasil e símbolo dos festejos juninos. A cidade também apresenta um belo acervo 
arquitetônico, apesar das constantes perdas provocadas por destruições em seus prédios 
históricos, em nome da modernidade. 
 
 
 
Figura 2: Barco de Fogo 
 
Durante o século XIX, Estância transformou-se em uma das mais prósperas e 
populosas devido a sua localização, que facilitava o intercâmbio de mercadoria e de 
pessoas, e por ser vizinha de uma das províncias mais importantes da época, a Bahia. 
Os habitantes da cidade são, em sua maioria, de classe média, operários das 
fábricas que compõem o distrito industrial, onde mobilizam o sistema econômico da 
 
2
 Trata-se de um barco que percorre um arame esticado de um lado ao outro de uma avenida, como se 
voando, alimentado por rojões. 
 
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cidade. Nesse contexto, de acordo com nossas pesquisas, está localizado o hospital mais 
antigo do estado de Sergipe em pleno funcionamento. 
 
 
1.3 O Hospital: dos lazaretos à Casa de Saúde. 
 
De acordo com Clodoaldo Ferreira Filho (2002), médico que desenvolveu 
pesquisas sobre os hospitais mais antigos do Estado de Sergipe, as belezas visíveis aos 
olhos da comitiva real escondiam nos bastidores as tragédias das epidemias e 
insalubridades que acometiam grande número da população sergipana. 
Segundo Ferreira Filho (2002), em 1856 o governo provincial resolveu instalar 
em Estância, por um período curto de tempo, um lazareto de enfermos, lugar onde as 
pessoas com suspeita de contágio ficavam de quarentena, por ocorrência da epidemia da 
“cholera morbus”. Assim que o surto foi controlado e os casos reduzidos, o local foi 
desativado. 
O médico higienista Antônio Correa de Lacerda (1932) assim o diagnosticava a 
doença que acometia o Brasil e a província de Estância: 
 
é esta baixa temperatura, por sua vez, que penetra pela pele, pelo 
nariz, pela boca, e pelos pulmões e vai afetar o calor natural do corpo 
e a própria “economia animal”. Prejudicados em seu equilíbrio 
térmico, os vários sistemas orgânicos perdem suas propriedades vitais 
e deixam os órgãos vacilantes. Quando o principal órgão atingido é o 
fígado, onde se processa a bílis, a doença se manifesta, é a cholera 
(SANJAD, 2004, p. 12). 
 
 Segundo Ferreira Filho (2002), Estância foi a principal via de entrada da doença 
na província sergipana, devido ao movimento de navios em seu porto, vindos do Sul do 
país, e como era considerada um populoso núcleo comunitário, e muito distante da sede 
do governo provincial, este se antecipou em tomar as providências cabíveis, no sentido 
de evitar o alastramento do mal. 
No final de século XIX as pragas assolavam a província e mais uma epidemia 
chega, desta vez a varíola. A varíola, como a cólera, também chegou a Sergipe a partir 
de Estância, e lá se fixou de forma mais intensa do que no restante da província. 
De acordo com Ferreira Filho, os relatos históricos da época mostram que a 
maioria das doenças chegava às províncias através dos navios que atracavam em seus 
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portos, trazendo escravos em condições subumanas, muitos já doentes, contaminando a 
população local. Segundo registros no relatório anual de 1856 do Provedor Dr. 
Francisco Sabino Sampaio, a varíola chegou à Estância de navio, através de uma 
escrava africana contaminada da doença, comprada na Bahia, que se fixou na cidade. 
Em 1857 os primeiros casos de varíola começaram a aparecer, um ano após a 
epidemia da cólera, deixando não só a população alarmada, mas também as autoridades, 
tanto em termos locais como as do Governo da Província, através da sua Provedoria de 
Saúde Pública. 
O então Presidente da Província de Sergipe, Dr. João Dabney d‟Avellar Brotero, 
determinou a instalação de outro lazareto em Estância, para prestar atendimentos de 
saúde às vítimas da varíola; para comandar os trabalhos, designou o médico Antônio 
Ribeiro Lima, que já havia trabalhado no primeiro lazareto, cuidando das vítimas da 
cólera, e que também fazia parte da junta de Higiene Pública da Província. 
As determinações do Presidente da Província eram no sentido de se economizar 
ao máximo as despesas públicas naquele lazareto, mas, ao mesmo tempo, que se 
obtivesse o maior sucesso possível no combate à varíola. 
Percebe-se que ainda não existia um pensamento voltado para uma política 
pública destinada à saúde; os lazaretos eram abertos para suprir uma necessidade 
momentânea, tão logo fossem sanados os problemas, estes seriam fechados. 
De acordo com Ferreira Filho (2002), após dois meses de trabalho exaustivo, o 
Dr. Antônio Ribeiro teve o prazer do dever cumprido, com um total de 30 enfermos 
internados, e todos curados da varíola. Em seu relatório final ao Presidente Dr. João 
Dabney, em 02 de janeiro de 1858, Dr. Antonio Ribeiro escreveu: 
 
Vou apresentar a V. Exª o relatório do que se fez para a criação do 
Hospital de Bexiguentos, que V Exª me autorizou a criar nesta cidade, 
de sua marcha e economia, de sua despesa e dos doentes que nele se 
trataram, enfim, dos resultados e de seus curativos [...] Abriu-se o 
hospital no dia 28 de setembro de 1857, e encerrou-se no dia 28 de 
novembro de 1857, tendo recebido durante esse tempo trinta doentes... 
todos saíram restabelecidos, apesar da gravidade e período da moléstia 
com que entravam alguns no hospital [...] (FERREIRA FILHO, 2002, 
p. 8). 
 
Anexo ao relatório, o médico encaminhou o mapa dos doentes que se tratavam 
do mal da varíola nesse lazareto em Estância, em 1857, com a seguinte observação: 
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Todos os doentes foram curados pelo sistema Hannemonico 
homeopático, com os medicamentos que a sintomatologia indicava, e 
que seria muito longo enumerar aqui. A gravidade das complicações, 
que se observaram em alguns doentes, provinha, quer da demora em 
recorrer aos meios curativos, deixando-se os doentes ficarem em suas 
casas, quer de já haverem tomado medicamentos contrários à sua 
moléstia (FERREIRA FILHO, 2002, p. 9). 
 
As observações feitas pelo Dr. Antônio Ribeiro em seu relatório indicam que a 
gravidade e as implicações da doença procediam da falta de informação das pessoas, 
tanto em buscar em tempo hábil um tratamento correto, bem como por utilizarem 
medicamentos errados. 
Além do Dr. Antônio Ribeiro Lima, a cidade de Estância dispunha de outro 
médico, o Dr. José Lourenço de Magalhães, ambos reconhecidos pelo espírito 
humanitário, tanto pelas autoridades da Província, como pela população da região. 
Ferreira Filho (2002) diz que o médico Antônio Ribeiro e as enfermeiras não 
receberam nenhuma remuneração por terem realizado seus trabalhos no “lazareto dos 
variólicos” de Estância. 
Observa-se que os trabalhos realizados por esses profissionais da saúde, 
especialmente nesse caso, tinham um aspecto de caridade, já que não receberam 
benefícios

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