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Direção de Arte (Cenografia) e Produção de Arte em Minisséries (Parte I)

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DIREÇÃO DE ARTE – CENOGRAFIA E PRODUÇÃO DE ARTE DAS MINISSÉRIES 
DA TV GLOBO – PARTE II 
 Myriam Pessoa Nogueira
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Palavras-Chave: Comunicação 
 Televisão 
 Minissérie 
 Cenografia 
 Direção de Arte 
 Produção de Arte 
 
 
 RESUMO 
 Entre 1992 e 1993, entrevistei dois dos maiores diretores de arte, isto é, dos 
responsáveis pela cenografia e desenho de produção das minisséries brasileiras da TV 
Globo, a sua maioria adaptadas de literatura. Entrevistei também uma produtora de arte, 
pessoa subordinada ao diretor de produção, que cuida da decoração do cenário e detalhes de 
figurino, auxiliando no complexo e cuidadoso trabalho de verdadeira engenharia de 
produção que é o das séries brasileiras. Também aparecem depoimentos de um diretor de 
fotografia e do gerente de produção de efeitos especiais da Rede Globo. 
 
 
 
 
 
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 Bacharel em TV pela FAFICH/UFMG, mestre em Literaturas em Língua Portuguesa pela 
Faculdade de Letras da PUC – MG e atualmente doutoranda em Artes (Cinema) pela 
EBA/UFMG. 
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 Entrevistando Mário Monteiro, Diretor de Arte da TV Globo e cenógrafo de O 
Primo Basílio, ele nos conta que ela foi a minissérie que levou mais tempo para ser 
gravada, e talvez a mais sofisticada que a Globo tenha feito até então: 
A gente inclusive foi viajar para Portugal para fazer levantamento do local todo; os 
ambientes e a maioria dos cenários foram reproduzidos aqui, como a rua principal, e o 
Passeio Público. Montamos também a rua completa com as personagens – um trabalho 
que durou três meses, bastante sofisticado, bastante real, porque tinha a casa de um 
personagem construída na rua e a casa dele construída no estúdio, também. Foi um 
cenário básico, que a gente ambientava em função de cada personagem, teste para a 
roupa, para a câmera, para a iluminação. 
 
 Edgar Moura, diretor de fotografia da série, fala do cenário: “Construíram um 
edifício de três andares real no estúdio, a gente podia descer pela escada do terceiro andar e 
chegar ao primeiro.” 
Mário Monteiro explica que seu trabalho foi baseado no livro, e não do roteiro de 
Gilberto Braga. Através da leitura de Eça de Queiroz, que descreveu detalhes do cenário, e 
que, apesar de ser um autor realista-naturalista, criou muita coisa na ficção: 
Achei que ele não teria assim a consciência de uma casa como um todo, porque a 
planta que ele armava era estranhíssima. Mas em Portugal, a gente verifica que isso 
existe, porque a casa do Jorge (Tony Ramos), por exemplo, o personagem principal, 
ela tinha três níveis e a gente não conseguia relacioná-los. O Eça falava sempre: tinha 
uma cozinha, da cozinha uma escada que saía num corredor, e daí na sala de jantar. Era 
um labirinto! Então, um trabalho terrível para você montar esse cenário e eu acabei 
descobrindo realmente que tinha três níveis e a gente fez uma maquete de cenário e 
teve que construir, evidentemente, em três níveis separados. A gente tinha que ter uma 
ligação entre um nível e outro. E isso a gente só conseguiria abrindo um fosso no 
estúdio. Então a gente teve que abrir uma cratera de oito metros de profundidade, pra 
poder fazer a saída de cada nível. Era a escada que descia pelo fosso como se você 
estivesse descendo para outro andar. Daí foi uma mão-de-obra terrível, porque tinha 
um rio que passava embaixo do estúdio e a gente teve que drenar a água toda, teve que 
desviar o curso do rio para poder fazer esse cenário. 
 
Em Portugal, a equipe tiveram a ajuda de um cenógrafo português os assessorando, 
Casimiro, que fez o roteiro de todas as ruas e ambientes que o Eça de Queiroz descrevia no 
livro, como o Clube Literário, a Rua da protagonista toda com cada detalhe – um vendedor 
de carvão, um antiquário, os vizinhos, a saída pra rua do Machado. Queiroz, porém, fez 
uma colcha de retalhos de várias ruas, nos conta Monteiro: 
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E a gente foi construir a rua ideal. E uma vez construída a rua, teve um episódio 
engraçado, porque eu mostrei as fotos para um cônsul português que deu cobertura pra 
gente. Eu perguntei se ele conhecia aquela rua. Ele disse: ‘Essa é a rua tal, no bairro 
tal, minha mãe mora aqui perto.’ Isso daí foi o maior elogio que a gente ouviu sobre o 
cenário. 
 
Cristina Médicis, produtora de arte da TV Globo, define produção de arte com as 
palavras detalhe e adequação: “...é a roupa adequada, é o traje adequado, o lençol 
adequado, o quadro adequado, o uniforme adequado.” Esse foi o caso de outro trabalho de 
Daniel Filho que, segundo elogio de Paulo Affonso Grisolli, “...exigiu um minucioso 
trabalho de produção”. Segundo Cristina, 
O Primo Basílio foi muito fácil, porque o Eça de Queiroz é absolutamente descritivo. 
Ele descrevia a cor da cortina, que era verde. Ele dizia: ‘você entra, tem uma lareira. 
Em cima da lareira tem o retrato dos avós do marido dela.’ O retrato da avó era em 
cima da lareira e o do avô na sala de jantar. Aí ele dizia que tinha um armário com 
serviço de prata portuguesa dentro. Então eu fui catando as coisas. Eu descobri um 
amigo português que tinha umas fotos lindas da bisavó dele – portuguesa mesmo, com 
aquela rendinha na cabeça – aí ele me emprestou, mandamos pra Arte da Globo, eles 
fizeram um quadro como se fosse a óleo; o piano tinha aquele paninho em cima do 
telhado, feito com ponto ‘arraiolo’; eu consegui um urinol daqueles com tampa de 
porcelana em antiquário; Como a Marília Pêra fazia a empregada, eu consegui uma 
portuguesa para ensiná-la a passar roupa com ferro de carvão; a Louise Cardoso era 
uma cozinheira; então arrumei pra ela uma cozinheira portuguesa para ensiná-la a 
depenar galinha; na hora em que a Louise tinha cena de depenar galinha, ela sabia. 
 
De acordo com o Departamento de Divulgação e Imprensa da TV Globo, Cristina 
Médicis, em O Primo Basílio, pesquisou, desde o cerimonial que envolve um enterro, até 
os jogos de rua e de salão, os cachorros e outras particularidades. Quando havia saraus na 
casa de Luíza (Giulia Gam), houve um trabalho detalhado para conhecer todo o 
comportamento numa reunião como esta, como as pessoas agiam, como se servia o chá. Os 
banhos de Luiza receberam uma atenção especial e Cristina encomendou esponjas de 
Londres e fez vir de Sabará, Minas Gerais, um sabão preto, em forma de bola, muito usado 
na época. Lenços de seda para o Conselheiro Acácio (Sérgio Viotti), um charuteiro para 
Basílio (Marcos Paulo), penicos de porcelana em rosa para Luíza (Giulia Gam) e em verde 
para Jorge (Tony Ramos); lírios amarelos e flores do campo, toalhas e lençóis com 
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monogramas bordados, enfim, todos os objetos foram cuidados pela produção de arte, que 
se baseou em pesquisas no Gabinete Real Português, no Instituto Histórico-Geográfico, no 
Museu Imperial de Petrópolis e em diversos livros de e sobre Eça de Queiroz e sobre a 
Lisboa da época. 
Mário Monteiro trabalhou numa das primeiras minisséries da Globo, Quem Ama 
não Mata, também dirigida por Daniel Filho: 
Era uma minissérie contemporânea com moradores de classe média. O que a gente fez 
foi reproduzir os apartamentos em função das locações que foram conseguidas. Os 
personagens moravam na Barra da Tijuca (os protagonistas) e a gente reproduzia o 
interior em função da fachada já existente. 
 
 Cristina Médicis falou sobre Quem Ama Não Mata, cuja direção de arte era também 
assinada por Caligiuri, cenógrafo que começou auxiliando Mário Monteiro. Ela nos conta 
que o personagem de Dionísio Azevedo – que era o pai de Marília Pêra, Denise Dumont e 
Suzana Vieira – era um militar reformado, e Daniel Filho queria uma casa no Grajaú, que 
era um bairro de militares: 
 
Tinha que ter uma prioridade: um jardim atrás, porque no primeiro capítulo tinha um 
churrasco, já que o personagem era gaúcho. Eu e o Álvaro, que era o produtor, 
passamos quinze dias mapeando o Grajaú, fazendo quarteirão por quarteirão

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