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a criança logo após o parto.
Na civilização greco-romana o Estado tinha o direito de não permitir que cidadãos “disformes ou 
monstruosos” vivessem, ordenando ao pai que matasse o filho que nascesse nessas condições. 
Isso indica que era legal (no sentindo jurídico da palavra) a marginalização de pessoas com 
deficiências, consideradas verdadeiras aberrações e, por isso, não tinham o direito à vida.
Na Idade Média, a visão cristã correlacionava a deficiência à culpa, ao pecado ou a qualquer 
transgressão moral e/ou social. A deficiência era vista como um castigo, marcando filhos de 
pecadores física, sensorial ou mentalmente. Essas marcas impediam a família do contato com 
a divindade. 
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MARCOS POLÍTICOS, SOCIAIS E LEgAIS DA EDUCAçãO ESPECIAL SOB A ÓTICA DA EDUCAçãO InCLUSIvA • CAPÍTULO 1
A primeira tentativa científica de estudo das pessoas com deficiência surgiu no século XVI, com 
Paracelso e Cardano, médicos alquimistas que defendiam a possibilidade de tratamento da 
pessoa com deficiência.
Foi apenas no século XIX que alguns cientistas, como Phillip Pinel, começaram a dar um caráter 
científico para as deficiências. Além de Pinel, Down, Itard, Esquirol, dentre outros, passaram a 
descrever, cientificamente, a etiologia de cada deficiência, em uma perspectiva clínica. Contudo, 
observamos um retrocesso no começo do século XX, quando os governos nazistas exterminaram 
milhares de pessoas com deficiência. 
Apesar de, atualmente, observarmos progressos na concepção científica das deficiências, muitas 
atitudes e concepções se assemelham às concepções da antiguidade. Em relação à Educação 
Especial, três atitudes sociais marcam a história no tratamento à pessoa com deficiência: 
marginalização, assistencialismo e reabilitação.
A marginalização caracteriza-se por atitudes de descrença nas possibilidades e potencialidades 
da pessoa com deficiência. Consequentemente, há uma completa omissão da sociedade em 
relação à organização de serviços para essa população. 
O assistencialismo é marcado por atitudes paternalistas na medida em que se acredita na 
incapacidade da pessoa com deficiência. A partir de princípios cristãos de solidariedade, 
busca-se, apenas, a proteção dessas pessoas.
Já na educação focada na reabilitação, há a crença na capacidade de mudança do indivíduo e 
as ações resultantes são voltadas para a organização de serviços educacionais. Aqui, o foco da 
aprendizagem não é o crescimento do sujeito, e, sim, “adestrá-lo” para que se adeque melhor às 
exigências da sociedade. 
Entendemos que tais atitudes sociais são frutos das representações que carregamos desde a 
antiguidade. Associando a trajetória da Educação Especial com as representações simbólicas 
da deficiência, é possível afirmar que até o começo do século XX a educação da pessoa com 
deficiência era excludente, visto que a pessoa era considerada indigna e incapaz de receber uma 
educação escolar como os outros, chamados, hoje em dia, de “típicos”. Mesmo com os estudos 
científicos da época que demostravam as possibilidades de tratamento clínico e adequação à 
vida em sociedade, predominavam as concepções filosóficas de marginalização e segregação 
dessas pessoas.
Foi a partir da década de 1950 que começaram as surgir as primeiras escolas especializadas e as 
turmas especiais. A Educação Especial se consolidava como um subsistema da Educação Comum. 
Nessa época, a atitude social assistencialista, presente na Idade Média, era predominante nas 
instituições, de maioria filantrópica, de atendimento aos alunos com deficiência.
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CAPÍTULO 1 • MARCOS POLÍTICOS, SOCIAIS E LEgAIS DA EDUCAçãO ESPECIAL SOB A ÓTICA DA EDUCAçãO InCLUSIvA
Foi a partir da década de 1970, com o surgimento da proposta de integração, que alunos com 
deficiência passaram a frequentar as classes comuns das escolas. Os avanços nos estudos da 
Psicologia e Pedagogia demonstravam as possibilidades educacionais desses alunos. Contudo, 
ainda predominava a atitude social da educação como reabilitação, considerado o novo paradigma 
educacional. Os alunos com deficiência ainda vivenciavam a marginalização no sistema 
educacional, uma vez que as escolas não ofereciam as condições necessárias para que o aluno 
com deficiência alcançasse sucesso na escola regular. A dita integração caracterizava-se, apenas, 
pela inserção física desses alunos na rede comum de ensino.
Os alunos só eram considerados integrados quando conseguiam se adaptar à classe comum 
da forma como ela se apresentava, sem que houvesse adequação no sistema educacional já 
estabelecido. Ou seja, era a pessoa com deficiência que precisava “se encaixar” naquela classe, 
dita comum, e não a escola se adequar às necessidades daquela pessoa. Verifica-se outra vez, a 
coexistência das atitudes de educação/reabilitação e de marginalização no contexto educacional.
Foi nessa época que surgiu o conceito “necessidades educacionais especiais”, no então chamado 
Relatório Warnock (1978), apresentado ao Parlamento do Reino Unido. Esse relatório, organizado 
pelo primeiro Comitê do Reino Unido, presidido por Mary Warnock, foi constituído para rever 
o atendimento aos deficientes. Os resultados evidenciaram que uma em cada cinco crianças 
apresentava necessidades educacionais especiais em algum período do seu percurso escolar, no 
entanto, não existe essa proporção de deficientes. Daí o surgimento no relatório da proposta de 
adotar o conceito de necessidades educacionais especiais. (BRASIL, MEC, 2010). Essa terminologia 
tem o intuito de deslocar o foco de atenção do aluno com necessidades educacionais especiais 
para as respostas educativas da escola, com o firme propósito de promover uma educação de 
qualidade para todos.
Na década de 1990, o conceito de necessidade educacional especial foi ampliado, abrangendo não 
só as crianças e jovens com deficiência, mas, também, as com altas habilidades/superdotadas, 
crianças em situação de rua, de populações remotas ou nômades, de minorias étnicas ou culturais 
e crianças de áreas ou grupos desfavorecidos ou marginalizados. A Declaração de Salamanca, um 
dos documentos mais importantes da história sobre os direitos à Educação, e que estudaremos 
mais à frente, traz um novo conceito, o de “educação para todos”.
Foi entre as décadas de 1980 e 1990 que teve início a proposta de inclusão dos alunos com 
necessidades educacionais especiais em uma perspectiva inovadora em relação à proposta 
de integração da década anterior. Nessa nova proposta, os sistemas educacionais passam a 
ser responsáveis por criar condições para promover uma educação de qualidade para todos, 
adequando sua estrutura física e curricular para atender às necessidades de cada aluno. Ou seja, 
há uma quebra de paradigma, uma vez que não é mais o aluno que tem que se adequar à escola 
comum, e, sim, a escola deve atender às necessidades educacionais de cada aluno.
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MARCOS POLÍTICOS, SOCIAIS E LEgAIS DA EDUCAçãO ESPECIAL SOB A ÓTICA DA EDUCAçãO InCLUSIvA • CAPÍTULO 1
No Movimento de Educação Inclusiva, os alunos são respeitados em suas diversidades. Aqui, 
a deficiência é entendida como diferença, que faz parte da diversidade humana e não pode 
ser negada, porque é essa diferença que caracteriza cada pessoa, sua forma de agir, sentir e 
ser. Segundo a Declaração de Salamanca, para promover uma Educação Inclusiva, os sistemas 
educacionais devem assumir que 
“as diferenças humanas são normais e que a aprendizagem deve se adaptar 
às necessidades das crianças ao invés de se adaptar a criança a assunções 
preconcebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem” 
(BRASIL, 1994, p. 4).
A Educação Inclusiva tem como objetivo reduzir as pressões que levem à exclusão e a todas as 
desvalorizações, sejam elas relacionadas à capacidade, ao desempenho cognitivo, à raça, ao gênero, 
à classe social, à estrutura familiar, ao estilo de vida ou à sexualidade. Então, não podemos falar 
em Educação Inclusiva sem pensar na realidade social de exclusão a que a maioria dos povos

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