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Aula 08

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Meta da aula 
Expor os principais fatores envolvidos no 
estabelecimento da coerência textual.
Esperamos que, ao fi nal desta aula, você seja 
capaz de:
1. explicar a interação de diferentes fatores no 
estabelecimento da coerência dos textos;
2. reescrever textos, de modo a alterar sua 
focalização;
3. avaliar a coerência de textos.
Para bom entendedor, 
um só fator de 
coerência não basta
Helena Feres Hawad 8AULA
Língua Portuguesa Instrumental | Para bom entendedor, um só fator de coerência não basta
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INTRODUÇÃO Você certamente já leu frases de para-choque de caminhão, não é? Algumas 
têm uma mensagem moral ou religiosa, outras são apenas divertidas. Veja 
este exemplo:
Fonte: htpp://www.sxc.hu/photo/252886
Mesmo se tratando de um texto bem curto e aparentemente muito simples, 
a compreensão do humor contido nele exige uma série de conhecimentos, 
além de operações mentais complexas. Para compreender esse texto, isto é, 
para calcular seu sentido de forma adequada e reconhecer sua coerência, o 
leitor precisa:
• conhecer as palavras da língua portuguesa que integram o texto;
• saber que é comum, na cultura brasileira, os motoristas de caminhão escre-
verem frases engraçadas no para-choque de seus veículos;
• conhecer a imagem caricatural das sogras existente na cultura popular 
brasileira, e saber que muitas brincadeiras são feitas a partir dessa ideia de 
que as sogras são desagradáveis, inconvenientes;
• saber o que é o Instituto Butantan – famoso, no Brasil, principalmente 
por suas pesquisas com animais peçonhentos e pela produção de soro 
antiofídico;
• conhecer o sentido fi gurado da palavra cobra em referência a pessoas 
maledicentes, perversas, ardilosas e traiçoeiras;
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8• inferir a classifi cação da sogra como uma “cobra”. (Observe que, embora 
a palavra cobra não esteja no texto, inferir essa associação e conhecer o 
sentido fi gurado da palavra é indispensável para a compreensão da frase 
citada.)
Esse exemplo permite perceber com clareza que o estabelecimento da coe-
rência textual na leitura (ou na compreensão de um texto oral) é um processo 
complexo. Exige não apenas que o leitor mobilize diferentes tipos de conhe-
cimento, inclusive muitos referentes a aspectos externos ao texto em si, mas 
também que correlacione todos esses conhecimentos em um todo unifi cado.
Nesta aula, detalharemos e aprofundaremos o estudo da coerência textual, 
examinando os principais fatores que contribuem para sua construção.
FATORES DE COERÊNCIA
Vimos na aula anterior que a coerência se traduz na interpreta-
bilidade de um texto, isto é, na possibilidade de o destinatário calcular 
um sentido para ele. Sendo assim, ela não está circunscrita ao material 
textual em si, mas se constrói no ato de leitura, no ato de compreensão, 
quando o destinatário (ou receptor) articula diferentes conhecimentos e 
estratégias para construir sentido. A coerência é, portanto, resultado de 
um trabalho do leitor/receptor na interação com o material textual. Esse 
trabalho é realizado por meio de vários fatores conjugados. Apresenta-
mos, a seguir, os principais desses fatores, de acordo com a exposição 
de Ingedore Koch e Luiz Carlos Travaglia no livro A coerência textual.
Elementos linguísticos
A língua usada no texto – suas palavras e estrutura gramatical – 
não é, como já vimos, sufi ciente para estabelecer a coerência de um texto, 
mas é importante. O material linguístico que o texto contém fornece as 
pistas de que precisamos para ativar diferentes tipos de conhecimento, 
para orientar nossas inferências, para guiar o relacionamento entre as 
diferentes ideias. Todo o contexto linguístico (o cotexto) contribui para 
a construção do sentido do texto.
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Conhecimento de mundo
Como vimos ao analisar a frase de para-choque de caminhão 
citada na introdução desta aula, mesmo na compreensão de textos curtos 
e simples, o conhecimento de informações externas ao texto precisa ser 
ativado pelo leitor. No caso daquele exemplo, é evidente a necessidade 
de conhecimento do contexto cultural em que o texto ganha vida. Ima-
gine que aquela frase fosse lida por um estrangeiro que tivesse estudado 
a língua portuguesa e dominasse bem seu vocabulário e sua gramática, 
mas não conhecesse as ideias e os valores associados à fi gura da sogra 
na cultura brasileira, nem soubesse o que é o Instituto Butantan. Ele 
compreenderia satisfatoriamente o texto?
O conhecimento de mundo abarca todo o conhecimento que uma 
pessoa acumulou em sua vida por meio de suas diferentes vivências – 
incluindo o estudo. É fácil reconhecer, assim, que ele é único para cada 
pessoa: não existem duas pessoas que tenham igual conhecimento de 
mundo. Por essa razão, o mesmo texto pode ser de fácil compreensão 
para uma pessoa e não para outra. Todos nós já tivemos a experiência 
de deparar com um texto que nos pareceu impossível de compreender 
por nos faltar conhecimento prévio do assunto abordado nele.
Uma parte importante de nosso conhecimento de mundo inclui 
informações sobre tipos e gêneros de texto, sobre formas possíveis de 
organização textual, e sobre os veículos em que os textos circulam. Esse 
tipo de conhecimento é adquirido, principalmente, por meio da prática 
de leitura de diferentes textos. Aprendemos por nossa experiência com 
textos, por exemplo, que um manual de instruções para operar um 
aparelho é diferente de um jornal ou de um livro de poesia. Esse conhe-
cimento permite-nos ter expectativas adequadas sobre os materiais de 
leitura que se apresentam a nós, e tais expectativas contribuem para o 
estabelecimento da coerência textual.
Sendo assim, quanto mais uma pessoa lê, mais seu conhecimento 
de mundo se amplia – e mais ela estará em condições de ler cada vez 
melhor!
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Atende ao Objetivo 1
1. Nas anedotas transcritas abaixo, a compreensão do efeito humorístico 
depende do reconhecimento da ambiguidade (isto é, do duplo sentido) de 
certas expressões linguísticas. Além disso, depende também da interação 
entre o conhecimento da língua e o conhecimento de mundo do receptor. 
Identifi que as expressões ambíguas em cada anedota. Depois, explique 
como o conhecimento da língua e o conhecimento de mundo interagem 
(ou se combinam) para produzir o efeito de humor nessas anedotas.
Um menino num programa de TV. Fala o apresentador:
– Você tem irmãos?
– Tenho um mais novo.
– Ele está na escola?
– Não. Está em casa, fi ngindo de doente para me ver na televisão.
Ziraldo. Novas anedotinhas do bichinho da maçã. São Paulo: Melho-
ramentos, 1993, p. 27. Adaptado.
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A procissão imensa passava pelas ruas da cidadezinha. Um viajante 
recém-chegado, curioso, se aproximou de um bêbado que seguia o 
enterro e perguntou:
– Quem é o morto?
E o bêbado disse, apontando para o caixão:
– É aquele ali.
Ziraldo. Novas anedotinhas do bichinho da maçã. São Paulo: Melho-
ramentos, 1993, p. 30. Adaptado.
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ATIVIDADE
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RESPOSTA COMENTADA
Na primeira anedota, a expressão ambígua é “Ele está