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A Parúsia e os Juízos
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1. OBJETIVOS
• Compreender a doutrina e a teologia sobre a segunda
vinda de Jesus e os eventos que a acompanham.
• Analisar a simbologia presente nos enunciados escatoló-
gicos e obter chaves de leitura e de interpretação.
2. CONTEÚDOS
• Parúsia.
• Novo Céu e nova Terra.
• Juízo universal.
• Juízo particular.
• Misericórdia é a marca do juiz.
• Misericórdia é a medida da justiça.
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3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Não esqueça que o aproveitamento do estudo da disci-
plina, depende exclusivamente de você mesmo.
2) Nesta unidade, ao ir desenvolvendo os diversos conte-
údos, aprofunde-os, também, utilizando as referências
bibliográficas indicadas no final da unidade.
3) Faça sempre suas anotações, sínteses e observações
pessoais ao texto e às novas ideias que você vai adqui-
rindo.
4) Quando não entender um texto ou uma ideia, releia e
procure descrever o assunto com palavras próprias.
5) Procure ter clareza nos diversos conceitos.
6) Procure refletir, antes de iniciar este estudo, sobre o con-
ceito de parúsia. Ao final desta unidade, procure con-
frontar o conceito estudo com aquele que você já tinha.
7) Sugerimos que você leia o capítulo referente ao Julga-
mento de Deus da obra; LIBÂNIO, J. B.; BINGEMER, M. C.
Escatologia cristã: o novo Céu e a nova Terra. Petrópolis:
Vozes, 1985.
4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Na unidade anterior, foram apresentados os conceitos esca-
tológicos e à especificidade da reflexão desta disciplina teológica.
Nesta unidade, estudaremos sobre a Parúsia, sobre o Juízo
universal e o particular e sobre o novo Céu e a nova Terra.
Bons estudos!
51© A Parúsia e os Juízos
5. PARÚSIA
Na Escatologia coletiva, o evento deflagrador da reordena-
ção universal é a segunda vinda de Jesus, que consigo trará o Jul-
gamento Final, que, por sua vez, apresentará à humanidade toda
aquilo que se deu no Juízo particular de cada indivíduo. Os eventos
assim encadeados podem dar a ideia de sucessão, o que não é
possível, uma vez que já está inaugurada a condição de eternida-
de, na qual o tempo e o espaço inexistem.
Deus visita-nos: a Parúsia
"A palavra parousia (parousia) significa tanto 'presente'
quanto 'vinda'. Na escatologia, 'parúsia' refere-se à segunda vinda
de Cristo no fim dos tempos e pela qual tudo será transformado"
(SCHNEIDER, 2000, p. 347).
A Bíblia apresenta que, ao longo de toda a história, Deus vem
ao encontro do homem de muitas formas e em muitos momentos.
Assim, desde os tempos áureos do profetismo até as narrativas do
evangelho, o tema da visitação é recorrente. Deus quer estar com
seu povo e está disposto a fazer aliança com ele.
Quando da encarnação do Verbo, essa visita, que é tão al-
mejada, efetivamente acontece; significativos são os pontos de
contato que o texto de 2Sm 6,1-15 possui com a visitação de Ma-
ria à sua parenta Isabel (Lc 1,39,56): a Arca da Aliança, contendo
as "Palavras de Deus" (deka = dez; logos = palavra) é levada para
uma cidade nas montanhas de Judá. Maria, tendo em seu ventre
o "Verbo, a Palavra de Deus", vai para uma cidade nas montanhas
de Judá. A Arca é recebida com aclamações de alegria, assim como
Maria. Na cidade, o rei pergunta-se: "Como posso receber em mi-
nha casa a Arca de Deus?"; Isabel, ao ver Maria, diz: "Donde me
vem que a mãe do meu Senhor me visite?"; a Arca permanece três
meses naquele lugar. Maria fica três meses na casa de Isabel.
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Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento mostram Deus vi-
sitando seu povo: "Deus vos visitará, vos fará subir deste país para
o país que ele prometeu com juramento a Abraão, Isaac e Jacó"
(Gn 50,24s). A oração feita por Zacarias, pai do precursor do Mes-
sias, João Batista, inicia-se com a exaltação: "Bendito seja o Deus
de Israel, porque visitou e redimiu seu povo" (Lc 1,68) e termina
agradecendo pelo "Sol nascente nos vir visitar" (Lc 1,78s).
Emblemática, também, é a presença e a atuação de Jesus
nas bodas de Caná (Jo 2,1-12), em que as situações e os discursos,
se interpretados à luz da Escatologia, vão apontar para a Parúsia.
As ações e as relações gravitam em torno do elemento "vinho":
o vinho (oinos) simboliza desde a época dos profetas até o amor
conjugal. Desse modo, faltar vinho em um casamento equivale a
efetuar um rito destituído de sentido, pois não está imbuído de
afeto. Apesar de o rito acontecer, é apenas uma encenação, sem
comportar o valor que exteriormente manifesta.
A segunda interpretação para o vinho é a alegria. Partindo da
constatação empírica, a noção de que o vinho é sinônimo de rego-
zijo foi forjada. O vinho atenua a ansiedade das pessoas e torna-as
mais desenvoltas e receptivas, alterando, muitas vezes, até mesmo
o humor daquele que o bebeu. Diante disso, vinho e alegria são
associados no pensamento bíblico.
Entretanto, o vinho evoca a ideia de amor e de alegria; em Jo
2,1-12, ele passa a ser sinal de comunhão com Deus. Assim, ele é
elemento essencial em uma festa, especialmente em casamentos,
que, por sua vez, simbolizam o banquete escatológico; a comu-
nhão com Deus na eternidade funde-se, aqui, como um símbolo
da própria comunhão de vida com Deus, nascida no amor, orienta-
da na alegria e orientada para a eternidade.
Em Jl 4,18; Am 9,13, é dito que, no "dia do Senhor", irrupção
definitiva de Cristo em Sua segunda vinda, o "vinho escorrerá das
montanhas"; portanto, na visão apocalíptica, por vezes, o vinho
representa o próprio Deus e Sua presença geradora de comunhão,
53© A Parúsia e os Juízos
de amor e de alegria. Deus é o vinho escatológico. Nas bodas em
Caná, não sabiam donde vinha esse vinho novo (Jo 2,9) porque
não haviam reconhecido em Jesus o Cristo, mas o vinho é Jesus.
Utilizando-se desse evento, João demonstra a surpreenden-
te entrada de Jesus na história do povo fazendo aceno discreto
para o conteúdo escatológico da Parúsia.
Ao longo de sua vida, Jesus passou pela história de muitas
pessoas (Mc 10,46-52: cego Bartimeu), hospedou-se em suas ca-
sas (Lc 9,38: em Betânia), visitou (Lc 19,5: casa de Zaqueu) e ce-
lebrou a vida com elas (Jo 2, 1ss). A passagem de Jesus pela vida
de alguém sempre foi um convite, uma provocação para que este
aderisse à sua proposta. Muitos aceitaram, mas nem todos. O
quarto evangelho sublinha a resposta negativa que muitos deram
a Jesus: "Ele veio aos seus e os seus não o receberam" (Jo 1,11).
De forma poética, a Bíblia mostra o drama daquela que quer
estar com o amado, mas que, indolente, tem preguiça de abrir a
porta para que ele entre e que, quando consegue vencer o abati-
mento, o amado já tinha passado e ido embora (Ct 5,2-6).
A expectativa para a vinda do Senhor no final dos tempos
deve colocar cada indivíduo em preparação para essa "visita", pois
o Senhor está à porta e bate, quem abrir fará comunhão com ele
(Ap 3,2) e, quando ele aparecer uma segunda vez aos que o aguar-
dam, dará-lhes a salvação (Hb 9,28). Este é o itinerário que está
presente na doutrina e no imaginário religioso dos cristãos. Cris-
to virá, e sua Parúsia desencadeará acontecimentos inéditos que
reordenarão toda a história humana e que darão novo sentido à
criação e às criaturas.
6. NOVO CÉU E NOVA TERRA
A reordenação universal alcançada pela Parúsia não alcança,
somente, à humanidade, mas a todo Cosmos e a todas as criatu-
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ras. Essa doutrina fundamenta-se na tradição bíblica vétero e ne-
otestamentária:
1) Is 65,17: "Eis que faço novos céus e nova terra; e nin-
guém mais se recordará das coisas passadas; elas já não
voltarão à mente".
2) Is 66,12: "Assim como os novos céus e a nova terra que
hei de criar, subsistirão diante de mim – palavra do Se-
nhor –, assimsubsistirão a vossa posteridade e o vosso
nome".
3) 2Pd 3,13: "Aguardamos, segundo a promessa de Deus,
céus novos e terra nova, em que a justiça habitará".
4) Ap 21,1: "Vi então um novo céu e uma nova terra – pois
o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já
não existe".
Portanto, todas as realidades criadas, criação e criatura,
aguardam a manifestação de Cristo na Parúsia, quando tudo alcan-
çará a plenitude a que se destina, conforme diz Paulo aos romanos
(Rm 8,18-25). Consequentemente, a harmonia entre os seres e a
criação será plena:
Então o lobo morará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com
o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho andarão juntos
e um menino pequeno os guiará. A vaca e o urso pastarão juntos,
juntas se deitarão as suas crias. O leão se alimentará de forragem
como o boi. A criança de peito poderá brincar junto a cova da áspi-
de, a criança pequena porá a mão na cova da víbora. Ninguém fará
o mal nem destruição alguma em todo o meu monte santo, porque
a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as água en-
chem o mar (Is 11,6-9).
Uma vez alcançado esse objetivo final da criação, cada ser viverá
com Deus conforme a sua natureza e suas características. O cosmo
inteiro se tornará espelho de seu Criador. Eis a parúsia em plenitu-
de, o triunfo definitivo de Jesus, o Cristo: o êxito total e definitivo da
obra criadora de Deus. Neste estágio, a esperança escatológica en-
fim chega ao seu fim, porque Deus a torna realidade. Mas, ele não a
concretiza num âmbito espiritualizado e alienado, e sim dentro do
cosmo que nós conhecemos (BLANK, 2002, p. 366).
Desde a poesia da criação, apresentada pela tradição em
Gn 1,1-2,4a, o "dia do Senhor" é o ponto de contraste ao "dia de
55© A Parúsia e os Juízos
Iahweh", uma vez que este remete à ideia de vingança e de dor
enquanto aquele indica o olhar benevolente de Deus sobre a obra
da criação.
Essa primeira narrativa da criação termina sublinhando que,
após o hexamerom, Deus "retomou o fôlego" ou "folgou". Na po-
esia, Deus descansa no dia seguinte ao término de sua obra (Gn
2,2-3). "É um dia de protesto contra as escravidões do trabalho
e o culto ao dinheiro", ensina o Catecismo da Igreja Católica, nº
2172 (Ne 13,15-22; 2Cor 36,21). É o shabbat, palavra hebraica que
significa "descanso". O acento do texto, portanto, recai sobre o
descanso, não sobre o dia da semana.
Assim, do primeiro ao sexto dia da semana, o homem do
Antigo Testamento trabalhava. No sétimo, descansava. Com o ad-
vento do Messias, muda o prisma, mas não a observância do man-
damento. Em Mt 5,17-48, Jesus afirma não querer revogar a Lei,
mas dá uma nova aplicação a ela. Sem alterar o que foi anterior-
mente prescrito, Jesus busca o sentido mais profundo na aplicação
dos mandamentos. Sobre o quinto mandamento, Ele ensina que a
ofensa à dignidade já é uma forma de matar (Mt 5,21-23). Quanto
à observância do sábado, Ele diz: "o sábado foi feito para o ho-
mem, e não o homem para o sábado" (Mc 2,27).
Dessa maneira, Jesus Cristo é quem "faz novas todas as coi-
sas" (Ap 21,5), toda a criação é renovada nele e em sua ressur-
reição – ressurreição essa que aconteceu no "primeiro dia da se-
mana" (Mt 28,1). A ressurreição é o divisor de águas na vida da
comunidade. Diante de um acontecimento singular como este, a
comunidade passa a guardar o primeiro dia da semana e consagra-
-o em vista da ressurreição. Em At 20,7, é atestado que, no primei-
ro dia da semana, acontece a reunião litúrgica e a Eucaristia.
A expressão "dia do senhor", utilizada para o primeiro dia da
semana, aparece em Ap 1,10: "No dia do senhor fui movido pelo
Espírito [...]" e evolui do grego kiriake hemera para o latim dies
domini e para o português "domingo".
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Portanto, seguindo essa concepção escatológica do shabbatt,
o domingo passa a ser visto, também, como o "oitavo dia", porque
o número oito é usado para simbolizar o mundo definitivo. O
próprio algarismo, desenhado no plano horizontal, é símbolo
matemático de infinito (∞).
O dia do senhor é um tempo que na história se celebra o
que, para a eternidade, se espera.
A história é o sacramento do Espírito. O sinal cruza com a graça: sig-
nifica-a e realiza-a. A graça insere-se, por assim dizer, no sinal. Mas
transcende-o. É-lhe juiz crítico. Assim o Espírito em relação à histó-
ria. Inscreve-se na série dos eventos históricos, sem, porém, deixar
identificar-se, esgotar-se, reduzir-se a esses eventos. Transcende-
-os. Por isso, pode consumá-los com nova ação transformadora na
escatologia final (LIBÂNIO, 1985, p. 222).
7. JUÍZO UNIVERSAL
A Parúsia será marcada pela instauração do Juízo universal, a
prerrogativa necessária para a manifestação incontestável da jus-
tiça divina sobre as interpretações subjetivas das ações humanas.
O Juízo universal não se caracteriza em um segundo julga-
mento, mas na apresentação pública, de forma privada e pessoal,
do juízo acontecido, quando da morte de cada indivíduo (BETTEN-
COURT, [s.d]).
Essa exigência por uma atestação comunitária das razões
pelas quais cada um terá sua destinação eterna é decorrência do
aspecto comunitário em que a humanidade está inserida e que,
por isso, vincula e repercute no próximo suas opções e ações que
livremente decidiu assumir.
Numa palavra, o juízo final quer significar que a última palavra
sobre a história, o último juízo sobre as realidades humanas, não
virá de nenhuma potência mundial, de nenhum soberano terres-
tre, mas de Jesus, constituído Juiz Supremo pelo próprio Deus, seu
Pai. E esse juízo já está acontecendo de milhares de maneiras no
interior de nossa história. Só que de modo escondido. Na morte de
cada um se lhe revela em clareza tal julgamento. Pode-se enten-
der que em cada morte toda a história aparece na sua total clareza
57© A Parúsia e os Juízos
diante de Deus. Por isso é já juízo final, ainda que processual e não
encerrado (LIBÂNIO, 1985, p. 231).
Na literatura bíblica
O Juízo universal, que acontecerá quando da segunda vinda
de Cristo, é apresentado na literatura bíblica com requintes de de-
talhe (BÍBLIA DE JERUSALÉM, Rm 2,6):
1) O "Dia de Iahweh", anunciado pelos profetas como dia
da ira e da salvação (Am 5,18), encontrará sua plena rea-
lização escatológica no "Dia do Senhor" quando da volta
gloriosa de Cristo (1Co 1,8).
2) Neste "Dia do Julgamento" (Mt 10,15; 11,22-24; 12,36;
2Pd 2,9; 3,7; 1Jo 4,17), os mortos ressuscitarão (1Ts
4,13-18; 1 Cor 15,12-23.15s).
3) Todos os homens comparecerão perante o tribunal de
Deus (Rm 14,10) e de Cristo (2Cor 5,10; Mt 25,31s).
4) Julgamento inevitável (Rm 2,3; Gl 5,10; 1Ts 5,3).
5) Julgamento imparcial (Rm 2,11; Cl 3,25; 1Pd 1,17).
6) Julgamento que pertence só a Deus (Rm 12,19; 14,10;
1Cor 4,5; Mt 7,1).
7) Deus, por seu Cristo (Rm 2,16; 2Tm 4,1; Jo 5,22; At 17,31).
8) Deus julgará os vivos e os mortos (2Tm 4,1; At 10,42; 1Pd
4,5).
9) Ele, que sonda os corações (Rm 2,16; Jr 11,20; 1Cor 4,5;
Ap 2,23) e prova pelo fogo (1Cor 3,13-15).
10) Ele retribuirá a cada um segundo suas obras (1Cor
3,8.13-15; 2Cor 5,10; 11,15; Ef 6,8; Mt 16,27; 1Pd 1,17;
AP 2,23; 20,12; 22,12).
11) O homem colherá o que tiver semeado (Gl 6,7-9; Mt
13,39; Ap 14,15).
12) Ira e perdição (Rm 9,22) para as potências do Mal (1Cor
15,24-26; 2Ts 2,8) e para ímpios (2Ts 1,7-10; Mt 13,41; Ef
5,6; 2Pd 3,7; Ap 6,17; 11,18).
Para os eleitos, que terão praticado o bem:
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1) redenção (Ef 4,30; cf. Rm 8,23);
2) descanso (At 3,20; cf. 2Ts 1,17; Hb 4,5-11);
3) recompensa (cf. Mt 5,12; Ap 11,18);
4) salvação (1Pd 1,5);
5) exaltação (1Pd 5,6);
6) louvor (1Cor 4,5);
7) glória (Rm 8,18s; 1Cor 15,43; Cl 3,4; cf. Mt 13,43).
No Catecismo da Igreja Católica
O CaIC apresenta o Juízo Final. Quando? Entre a Parúsia e aressurreição:
A ressurreição de todos os mortos, "dos justos e dos injustos" (At
24,15), antecederá o Juízo Final. Este será "a hora em que todos os
que repousam nos sepulcros ouvirão a voz e sairão; os que tiverem
feito o bem, para a ressurreição de vida; os que tiverem praticado o
mal, para a ressurreição de julgamento" (Jo 5,28-29). Então o Cristo
"virá em sua glória, e todos os anjos com Ele [...]. E serão reunidas
em sua presença todas as nações e ele há de separar os homens
uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e
porá as ovelhas em sua direita e os cabritos à sua esquerda [...]. e
estes irão para o castigo eterno, e os justos irão para a Vida Eterna"
(Mt 25,31.32.46) (CaIC 1038).
Por quê? Para que a verdade vença toda e qualquer mentira
ou dúvida:
É diante de Cristo – o qual é a Verdade – que será definitivamente
desvendada a verdade sobre a relação do homem com Deus. O Ju-
ízo Final há de revelar até as últimas consequências o que um tiver
feito de bem ou deixado de fazer durante a sua vida terrestre [...]
(CalC 1039).
Conheceremos então o sentido último de toda a obra da criação e
de toda a economia da salvação, e compreenderemos os caminhos
admiráveis pelos quais a sua providência terá conduzido tudo para
o seu fim último. O Juízo Final revelará que a justiça de Deus triunfa
de todas as injustiças cometidas por suas criaturas e que seu amor
é mais forte que a morte (CalC 1039).
A justiça divina não apenas retribui com sanções ou prêmios
as opções do ser humano como também dá a conhecer a toda a
humanidade o que cada indivíduo realizou e quais foram as inten-
59© A Parúsia e os Juízos
ções que nortearam suas decisões e seus atos. Como consequên-
cia dessa revelação, tanto aqueles que em vida foram tidos como
beneméritos quando na verdade não foram, como aqueles que
morreram deixando a impressão de que não eram bons e na ver-
dade eram terão todos seus atos revelados à humanidade inteira.
8. JUÍZO PARTICULAR
Como a morte encerra esse estado de vida, o ser humano
alcança um novo estado: o definitivo. Por ter passado o tempo da
provisoriedade, as realidades escatológicas são definitivas e imu-
táveis; daí que essa mudança supõe um discernimento, uma ava-
liação das escolhas feitas no tempo para a consumação na eterni-
dade. Dessa crise (crisis = juízo, julgamento), emergirá a destinação
final, consoante às escolhas feitas em vida.
Deus derrama sua luz sobre a alma logo após a morte, de modo
que ela toma nítida consciência do que foi realmente a sua vida
terrestre; reconhece o sentido e o valor, os méritos e deméritos da
sua existência; torna-se-lhe claro tudo que ela fez e omitiu, de bem
e de mal, até os últimos pormenores. Assim, portanto, pode-se di-
zer que o homem, logo após a sua morte, se torna seu próprio juiz.
Ele se identifica com o juízo retíssimo que Deus, a todo momen-
to formula a seu respeito [...]. De uma intuição tão clara procede
inevitavelmente a sentença que tem por autores Deus e o próprio
homem (BETTENCOURT, [s/d], p. 38).
O Juízo particular ou especial, que segue o evento da morte,
possui três aspectos, que devem ser considerados, segundo Theo-
dor Schneider:
• É um autojulgamento, não externo a si.
• É libertador, pois a pessoa passa a se ver e a se apresentar
como ela é verdadeiramente.
• É portador de esperança.
Portanto, também o discurso do julgamento especial poderia ex-
pressar uma esperança, a esperança de libertação de inveracidade
alienadora e de purificação, bem como a esperança de poder ver o
resultado bom da vida (SCHNEIDER, 2000, p. 413).
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A esperança do "bom ladrão" concretiza-se nas palavras que
Jesus lhe dirigiu na cruz (Lc 23,43). Imediatamente após o julga-
mento particular, a alma encontra-se com sua destinação final e
eterna (CaIC 1021).
Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a
partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua
vida em relação à vida de Cristo, seja através de uma purificação,
seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para conde-
nar-se de imediato para sempre. No ocaso de nossa vida, seremos
julgados quanto ao amor (CaIC 1022).
9. MISERICÓRDIA É A MARCA DO JUIZ
Enquanto o arrependimento caminha, a misericórdia corre.
Pecador e juiz encontram-se. O juízo divino traz a marca do próprio
Deus, que não se desfigura, mas que se mostrará na plenitude de
suas potências. O temor que possa haver do juízo é equivalente às
opções feitas, não à falta de clemência por parte de Deus. É o que
Jesus ensinou por meio de discursos e de ações, e, destas, a para-
digmática é a parábola final do capítulo da misericórdia (Lc 15). O
filho, pecador, vai para a casa paterna.
Os textos bíblicos, em seus originais, não foram escritos ten-
do títulos; por isso, podem variar conforme a edição da Bíblia. A
parábola de Lc 15,11-32 recebe o título de "Filho pródigo"; "O filho
perdido e o filho fiel: o 'filho pródigo'"; "O pai misericordioso e
seus dois filhos", entre outros. Joachim Jeremias diz que a parábo-
la deveria chamar-se "A parábola do amor do pai".
O personagem central é o pai, que aparece nas primeiras ce-
nas, no centro da dramaticidade do texto e que acompanha até o
final.
O filho mais novo solicita do pai a sua herança, fazendo um
pedido nada convencional: pede que o pai faça uma exceção à Lei.
Na realidade da época, a herança era passada de pai para filho
por duas modalidades: por testamento ou por doação. O que o fi-
61© A Parúsia e os Juízos
lho pede, na parábola, porém, não é a doação simplesmente, mas
quer dispor dos bens transformando-os em moeda, considerando
o pai, desde então, como morto.
Então, partiu, foi para uma terra longínqua. Afastou-se do
pai. Na verdade, estando em casa, já estava ele distante do pai, o
que se compreende pelo pedido feito. Mas, agora, ele está longe
voluntariamente.
Em "outras terras", ele põe a perder sua herança; antes, tão
bem servido em casa, agora, passa fome. Desprovido de sua he-
rança, perde, também, a possibilidade de opção, já não é possível
ter escolhas. Perde sua dignidade e até sua identidade, pois de
filho do patrão passa a ser servo. É quando ele "cai em si", o que
equivale a tomar consciência, a olhar para dentro de si e rever seus
atos, dando um redirecionamento em sua vida. O filho percebe
que, enquanto queria ser feliz sem o pai, perdeu todas as possi-
bilidades de alcançar o bem-estar mínimo, quanto mais a felicida-
de. Ele tinha em casa muito mais do que supunha encontrar longe
dela.
O pecado do filho atinge a esfera celeste. Enquanto muitos
sofrem a perda de seus pais, este decide, voluntariamente, tratá-
-lo como se já não mais existisse. Seu maior pecado: não aceitar
o amor do pai. A alegria da volta do filho também atinge a esfera
celeste, pois há "mais alegria no céu por um só pecador que se
arrependa, do que por noventa e nove justos que não precisam de
arrependimento" (Lc 15, 7-10).
A última palavra de amor, portanto, é Deus.
10. MISERICÓRDIA É A MEDIDA DA JUSTIÇA
A misericórdia que o homem espera de Deus no juízo é a mi-
sericórdia que Deus espera que o homem tenha tido em sua vida,
e esta é expressa pela justiça que se faz ao que mais necessita.
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O evangelho de Lucas afirma que o Reino de Deus é dos po-
bres. Aqueles que procuravam Jesus eram necessitados de pão,
de saúde e de amor. Logo, estes eram pobres. O termo ptochoi
(pobre) aparece 24 vezes no NT, sendo dez em Lc, termo esse que
designa uma pessoa que necessita de bens, que tem necessidades
materiais, mas que também abrange a todo aquele que tem algu-
ma carência (de afeto, de dignidade, de instrução, de liberdade
etc.). A salvação é oferecida a estes. Os destinatários do anúncio
de Jesus são os deserdados, os prisioneiros, os escravos. Em Jesus,
os pobres (ptochoi) encontrarãosalvação.
Dessa maneira, Jesus pede renúncia total e faz exigências se-
veras com relação às riquezas. Muitas são as citações em Lc sobre
esse pensamento: "Ai dos ricos" (6,24ss), "não entesourar" (1,13-
21), "renúncia" (14,33), "não buscar os primeiros lugares" (14,9),
"vender tudo e dar aos pobres" (18,22), "parábola do rico e Láza-
ro" (16,19), "a riqueza não prepara para o juízo" (12,16), "não se
pode servir a dois senhores" (16,13), "Jesus não tem onde recli-
nar a cabeça" (9,58), "seus discípulos deixaram tudo" (5,11), "mas
Deus provê" (12,22ss).
Em Lucas 4,18 e 7,22, Jesus diz que os "pobres serão evan-
gelizados". Para eles, é destinada uma boa notícia: a superação
de todo mal. E muitos são os males na vida do pobre. Doença e
pobreza são inseparáveis.
O Reino de Deus pertence a esses porque Jesus intervém
para salvá-los. Lucas mostra a identidade entre quem é pobre e
quem é disponível a Deus: o pobre não tem bens que o absorva,
e isto o coloca em uma situação de maior abertura para aderir ao
plano de Deus. Lucas apresenta a riqueza acumulada como iníqua.
A salvação é oferecida a todos, mas os pobres, por terem menos
esperanças históricas, acolhem melhor esse dom. Para os ricos, o
risco de aceitar, parcialmente, a salvação é maior; por isso, Jesus
insiste na prática da generosidade.
63© A Parúsia e os Juízos
Para João Batista (3,11), a salvação está na distribuição de
bens e de roupas. Para os discípulos, a esmola é o melhor meio
para seguir a Jesus (12,33). Para Jesus, os pobres são intercessores
daqueles que são generosos (16,9), e a esmola purifica e é sinal de
renúncia (11,41); daí que o amor ao próximo é a maneira de amar
a Deus.
No evangelho, "esmola" é sinônimo de justiça, é colocar os
bens a serviço do outro. Esmola não é resto. É justiça. Há doações
que humilham e benesses que ofendem, que diminuem e que ex-
cluem, mas esmola (elemousine) é justiça, é amor. O novo modo
de amar a Deus, que Jesus ensina, é a solidariedade com o pró-
ximo, por isso, aquele que tem bens acumulados tem o que é do
outro. Entretanto, o homem novo deve viver para resgatar a digni-
dade dos menos favorecidos.
Diante de todas as injustiças que se cometem diariamente contra
milhares de seres humanos, poderá Deus ficar impassível? Aque-
les que, satanicamente, transformam num inferno a vida de seus
semelhantes, não estarão construindo para si próprios um inferno
eterno? Não será, realmente, o inferno uma 'necessidade' para que
a justiça, afinal, se faça? (LIBÂNIO, 1985, p. 250).
No pensamento de Jesus expresso no evangelho de Lucas,
não existe seguimento sem generosidade; portanto, o serviço ab-
negado é a essência do ofício da Igreja. As coisas ou as pessoas que
a pessoa ama indicam o Deus que ela tem.
Na parábola dos operários da vinha (Mt 20,1-16), Jesus sub-
verte a lógica da retribuição e, especialmente, da justiça retributi-
va. No entender dos antigos monoteístas, havia uma sanção para
cada delito e, para cada virtude, um prêmio. Jesus desestrutura
essa máxima e diz que, para todos os pecados, existe o perdão.
Perdão total. Perdão irrestrito e definitivo.
Por meio da parábola em que o vinhateiro iguala a retribui-
ção a todos os operários independentemente da quantidade de
horas que trabalharam, Jesus causa comoção em seus ouvintes.
Como paga o mesmo tanto se "nós" suportamos o cansaço do dia
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inteiro? Ou poderia dizer: como salva àquele que não observou as
Leis assim como salva a nós, que fizemos, estritamente, o pedido
pela Lei?
Como você pode notar, o verbo usado desde o início para
falar do contrato de trabalho é "pagar", mas, ao responder aos que
se sentiam lesados, o verbo utilizado é "dar". Deus não compra a
amizade e a fidelidade, por isso não paga por elas. Em Deus, tudo
é gratuidade, e, graciosamente, ele dá, não retribui àqueles que a
ele se voltam.
Portanto, o contexto quer pôr em evidência que a retribui-
ção póstuma e a salvação não seguem a lógica humana e que Deus
quer salvar a todos mesmo que só no ocaso da vida aceitem ser da
"vinha" do Senhor.
Contudo, há quem se sinta traído em seu esforço diário para
ser correto ao pensar na possibilidade de alguém que, ao longo da
vida, não tenha vivido de forma não ortodoxa e que mesmo assim
seja salvo.
Quem reage mal diante da possibilidade de anistia de Deus
para com um grande pecador não busca o próprio Deus em suas
boas ações, mas quer, por meio de atos de justiça, conquistar por
seus méritos a própria salvação. Este já excluiu Deus de sua vida e
espera de Deus apenas o reconhecimento por seus atos meritórios
ou, talvez, ele tenha inveja ("olho gordo", no grego ofqalmo,j ou
ponhro,j = olho mau) da condição do exculpado que recebe per-
dão! A estes, Jesus diz, explicitamente: "Amigo, em que fui injusto
contigo? Acaso não posso dispor de meus bens como me agrada?
Ou vês com maus olhos que eu seja bom" (Mt 20,15).
Diz Jesus, por meio de símbolos, que a misericórdia de Deus
excede, infinitamente, aos padrões humanos de justiça, e que, se
fosse de outra forma, não haveria salvação.
65© A Parúsia e os Juízos
11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar seu de-
sempenho no estudo desta unidade:
1) Complete as lacunas das frases com os termos e expressões a seguir:
justiça de Deus – sentido escatológico – parúsia
manifestação de Cristo – juízo particular – possibilidade de anistia
decorrência do aspecto comunitário – todo o Cosmo e a todas as criaturas
dia do Senhor – Juízo particular
a) A Parúsia refere-se à _______________ no fim dos tempos e pela qual
tudo será transformado.
b) ______________ desencadeará acontecimentos inéditos que reordena-
rão toda a história humana e que darão novos sentidos à criação e às
criaturas.
c) Todas as realidades criadas, criação e criatura, aguardam a
_______________ na Parúsia.
d) A reordenação universal alcançada pela Parúsia não alcança, somente, à
humanidade, mas a ________________.
e) O _____________ é um tempo que na história se celebra o que, para a
eternidade, se espera.
f) O Juízo universal é _____________ em que a humanidade está inserida
e que, por isso, vincula e repercute no próximo suas opções e ações que
livremente decidiu assumir.
g) O Juízo universal não se caracteriza em um segundo julgamento, mas
na apresentação pública ___________ acontecido, quando da morte de
cada indivíduo.
h) Pode-se entender que em cada morte toda a história aparece na sua
total clareza diante de Deus. Por isso, é já _____________, ainda que
processual e não encerrado.
i) O Juízo Final revelará que a _______________ triunfa de todas as in-
justiças cometidas por suas criaturas e que seu amor é mais forte que a
morte.
j) A parábola dos vinhateiros (Mt 20, 1-16) aponta para _________________
de que Deus não compra a amizade e a fidelidade, por isso não paga por
elas. Em Deus, tudo é gratuidade, e, graciosamente, ele dá, não retribui
àqueles que a ele se voltam.
k) ________________, que segue o evento da morte, possui três aspectos,
que devem ser considerados, como autojulgamento, libertador e porta-
dor de esperança.
l) Quem reage mal diante da __________________ de Deus para com um
grande pecador não busca o próprio Deus em suas boas ações, mas quer,
por meio de atos de justiça, conquistar por seus méritos a própria salva-
ção.
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Gabarito
Confira, a seguir, as respostas corretas para a questão auto-
avaliativa proposta:
a) Segunda vinda de Cristo.
b) Parúsia.
c) Manifestação de Cristo.
d) Todo Cosmos e a todas as criaturas.
e) Dia do senhor.
f) Decorrência do aspecto comunitário.
g) Do Juízo particular.
h) Juízo final.
i) Justiça de Deus.
j) Sentido escatológico.
k) O Juízo particular.
l) Possibilidade de anistia.
12. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, estudamos os temas: Parúsia;novo Céu e
nova Terra; Juízo particular e Juízo universal.
Na próxima unidade, abordaremos os aspectos relativos à
morte, à ressurreição e à vida eterna.
Até lá!
13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BETTENCOURT, E. Curso de Escatologia. Escola Mater Ecclesiae. Rio de Janeiro: Última
Cor, [s/d].
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______. Nosso mundo tem futuro. São Paulo: Paulinas, 1993.
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FÄRBER, S. S. Morte na Teologia e na Literatura. Porto Alegre: Pallotti, 2009.
LIBÂNIO, J. B.; BINGEMER, M. C. Escatologia cristã: o novo Céu e a nova Terra. Petrópolis,
1985.
QUEIRUGA, A. T. Repensar a ressurreição: a diferença cristã na continuidade das religiões
e da cultura. São Paulo: Paulinas, 2004.
67© A Parúsia e os Juízos
RAHNER, K. Curso fundamental da fé. Paulinas: São Paulo, 1989.
SUSIN, L. C. Assim na Terra como no Céu. Petrópolis: Vozes, 1995.
SCHNEIDER, T. (Org.). Manual de Dogmática. Petrópolis: Vozes, 2000. v. 2.
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