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André Botelho - Essencial Sociologia-Penguin-Companhia (2013)

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pensante, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, de um modo que difere da apropriação desse mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático. Antes como depois, o objeto real conserva a sua independência fora do espírito; e isso durante o tempo em que o espírito tiver uma atividade meramente especulativa, meramente teórica. Por consequência, também no emprego do método teórico é necessário que o objeto, a sociedade, esteja constantemente presente no espírito como dado primeiro.
 Mas as categorias simples não terão também uma existência independente, de caráter histórico ou natural, anterior à das categorias mais concretas? Depende.9 Hegel, por exemplo, tem razão em começar a filosofia do direito pelo estudo da posse, constituindo esta a relação jurídica mais simples do problema. Mas não existe posse antes de existir a família ou as relações entre senhores e escravos, que são relações muito mais concretas. Pelo contrário, seria correto dizer que existem famílias, comunidades de tribos, que estão ainda apenas no estágio da posse e não no da propriedade. Em relação à propriedade, a categoria mais simples surge, pois, como a relação de comunidades simples de famílias ou de tribos. Na sociedade num estágio superior, ela aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida. Mas pressupõe-se sempre o substrato concreto que se exprime por uma relação de posse. Podemos imaginar um selvagem isolado que tenha uma posse, mas esta não constitui, no caso, uma relação jurídica. Não é exato que historicamente a posse evolua até a forma familiar. Pelo contrário, ela supõe sempre a existência dessa “categoria jurídica mais concreta”. Entretanto, não deixaria de ser menos verdadeiro que as categorias simples são a expressão de relações em que o concreto ainda não desenvolvido pôde realizar-se sem ter ainda dado origem à relação ou conexão mais complexa que encontra sua expressão mental na categoria mais concreta, enquanto o concreto mais desenvolvido deixa subsistir essa mesma categoria como uma relação subordinada. O dinheiro pode existir, e de fato existiu historicamente, antes de existirem o capital, os bancos, o trabalho assalariado etc. Nesse sentido, podemos dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido ou, pelo contrário, relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que existiam já historicamente antes que o todo se desenvolvesse no sentido que encontra a sua expressão numa categoria mais concreta. Nessa medida, a evolução do pensamento abstrato, que se eleva do mais simples ao mais complexo, corresponderia ao processo histórico real.
 Por outro lado, podemos dizer que há formas de sociedade muito desenvolvidas, mas a que falta historicamente maturidade, e nas quais descobrimos as formas mais elevadas da economia, como, por exemplo, a cooperação, uma divisão do trabalho desenvolvida etc., sem que exista nenhuma forma de moeda: o Peru, por exemplo. Também entre os eslavos, o dinheiro e a troca que o condiciona não aparecem, ou aparecem pouco, no interior de cada comunidade, mas aparecem nas suas fronteiras, no comércio com outras comunidades. Aliás, é um erro colocar a troca no centro das comunidades, fazer dela o elemento que está na sua origem. A troca surge nas relações das diversas comunidades entre si, muito antes de aparecer nas relações dos membros no interior de uma só e mesma comunidade. Além disso, embora o dinheiro apareça muito cedo e desempenhe um papel múltiplo, é na Antiguidade que ele aparece, como elemento dominante, apanágio de nações determinadas unilateralmente, de nações comerciais. E mesmo na Antiguidade de menor duração, entre os gregos e os romanos, o dinheiro só atinge seu completo desenvolvimento, postulado da sociedade burguesa moderna, no período da sua dissolução. Essa categoria, apesar de tão simples, só aparece portanto historicamente, com todo o seu vigor, nos estados mais desenvolvidos da sociedade. Não abre caminho através de todas as relações econômicas. No Império Romano, por exemplo, no apogeu do seu desenvolvimento, o tributo e as prestações em gêneros continuavam a ser fundamentais. O sistema monetário propriamente dito só estava completamente desenvolvido no Exército. E nunca se introduziu na totalidade do trabalho. Assim, apesar de historicamente a categoria mais simples poder ter existido antes da mais concreta, ela pode pertencer, no seu completo desenvolvimento — em compreensão e em extensão —, precisamente a uma forma de sociedade complexa,10 enquanto a categoria mais concreta se achava já completamente desenvolvida numa forma de sociedade mais atrasada.
 O trabalho parece ser uma categoria muito simples. A ideia de trabalho nessa universalidade — como trabalho em geral — é, também, das mais antigas. No entanto, concebido do ponto de vista econômico nessa forma simples, o “trabalho” é uma categoria tão moderna como as relações que essa abstração simples engendra. O sistema monetário, por exemplo, situa ainda de forma perfeitamente objetiva, como coisa exterior a si, a riqueza no dinheiro. Em relação a esse ponto de vista, fez-se um grande progresso quando o sistema industrial ou comercial transportou a fonte de riqueza do objeto para a atividade subjetiva — o trabalho comercial e fabril —, concebendo ainda essa atividade apenas sob a forma limitada de produtora de dinheiro. Em face desse sistema, o sistema dos fisiocratas admite uma forma determinada do trabalho — a agricultura — como a forma de trabalho criadora de riqueza, e admite o próprio objeto não sob a forma dissimulada do dinheiro, mas como produto enquanto produto, como resultado geral do trabalho. Esse produto, em virtude do caráter limitado da atividade, continua a ser ainda um produto determinado pela natureza — produto da agricultura, produto da terra por excelência.11
 Um enorme progresso é devido a Adam Smith, que rejeitou toda a determinação particular da atividade criadora de riqueza, considerando apenas o trabalho puro e simples, isto é, nem o trabalho industrial, nem o trabalho comercial, nem o trabalho agrícola, mas todas essas formas de trabalho no seu caráter comum. Com a generalidade abstrata da atividade criadora de riqueza, igualmente se manifesta então a generosidade do objeto na determinação de riqueza, o produto considerado em absoluto, ou ainda o trabalho em geral, mas enquanto trabalho passado, objetivado num objeto.
 O exemplo de Adam Smith, que pende por vezes para o sistema dos fisiocratas, prova quanto era difícil e importante a transição para essa nova concepção. Poderia assim parecer que desse modo se encontrara simplesmente a expressão abstrata da relação mais simples e mais antiga que se estabeleceu — seja qual for a forma de sociedade — entre os homens considerados produtores, o que é verdadeiro num sentido, mas falso em outro. A indiferença em relação a um gênero determinado de trabalho pressupõe a existência de uma totalidade muito desenvolvida de gêneros de trabalhos reais, dos quais nenhum é absolutamente predominante. Assim, as abstrações mais gerais só nascem, em resumo, com o desenvolvimento concreto mais rico, em que um caráter aparece como comum a muitos, como comum a todos. Deixa de ser possível, desse modo, pensá-lo apenas sob uma forma particular. Por outro lado, essa abstração do trabalho em geral não é somente o resultado mental de uma totalidade concreta de trabalhos. A indiferença em relação a esse trabalho determinado corresponde a uma forma de sociedade na qual os indivíduos mudam com facilidade de um trabalho para outro, e na qual o gênero preciso de trabalho é para eles fortuito, logo indiferente. Aí o trabalho tornou-se, não só no plano das categorias, mas na própria realidade, um meio de criar a riqueza em geral e deixou, como determinação, de constituir um todo com os indivíduos, em qualquer aspecto particular. Esse estado de coisas atingiu o seu mais alto grau de desenvolvimento na forma de