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André Botelho - Essencial Sociologia-Penguin-Companhia (2013)

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existência mais moderna das sociedades burguesas, nos Estados Unidos. Só aí, portanto, a abstração da categoria “trabalho”, “trabalho em geral”, trabalho “sans phrase”,12 ponto de partida da economia moderna, torna-se verdade prática.
 Assim, a abstração mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece no entanto sob essa forma abstrata como verdade prática, enquanto categoria da sociedade mais moderna. Poder-se-ia dizer que essa indiferença em relação a uma forma determinada de trabalho, que se apresenta nos Estados Unidos como produto histórico, manifesta-se na Rússia, por exemplo, como uma disposição natural. Mas, por um lado, que extraordinária diferença entre os bárbaros, que têm uma tendência natural para se deixarem empregar em todos os trabalhos, e os civilizados, que empregam a si próprios. E, por outro lado, a essa indiferença em relação a um trabalho determinado corresponde na prática, entre os russos, a sua sujeição tradicional a um trabalho bem determinado, do qual só influências exteriores podem arrancá-los.
 Esse exemplo do trabalho mostra com toda a evidência que até as categorias mais abstratas, ainda que válidas — precisamente por causa da sua natureza abstrata — para todas as épocas, não são menos, sob a forma determinada dessa mesma abstração, o produto de condições históricas, e só se conservam plenamente válidas nessas condições e no quadro delas.
 A sociedade burguesa é a organização histórica da produção mais desenvolvida e mais variada que existe. Por esse fato, as categorias que exprimem as relações dessa sociedade e que permitem compreender a sua estrutura permitem, ao mesmo tempo, perceber a estrutura e as relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos ela se edificou, que certos vestígios, parcialmente ainda não apagados, continuam a subsistir nela, e que certos signos simples, desenvolvendo-se nela, se enriqueceram de toda a sua significação. A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. Nas espécies animais inferiores só se podem compreender os signos denunciadores de uma forma superior quando essa forma superior já é conhecida. Da mesma forma a economia burguesa nos dá a chave da economia antiga etc. Mas nunca à maneira dos economistas que suprimem todas as diferenças históricas e veem em todas as formas de sociedade as da sociedade burguesa. Podemos compreender o tributo, o dízimo etc. quando conhecemos a renda imobiliária. Mas não se devem identificar essas formas. Como, além disso, a sociedade burguesa é apenas uma forma antitética do desenvolvimento histórico, há relações que pertencem a formas de sociedade anteriores que só poderemos encontrar nela completamente debilitadas ou até disfarçadas. Por exemplo, a propriedade comunal. Se, portanto, é certo que as categorias da economia burguesa possuem certa verdade válida para todas as outras formas de sociedade, isso só pode ser admitido cum grano salis [com um grão de sal]. Elas podem encerrar essas formas desenvolvidas, debilitadas, caricaturadas etc., mas sempre com uma diferença essencial. O que se chama desenvolvimento histórico baseia-se, ao fim e ao cabo, no fato de a última forma considerar as formas passadas como jornadas que levam ao seu próprio grau de desenvolvimento, e dado que ela raramente é capaz de fazer a sua própria crítica, e isso em condições bem determinadas — não estão naturalmente em questão os períodos históricos que consideram a si próprios como épocas de decadência —, concebe-as sempre sob um aspecto unilateral. A religião cristã só pôde ajudar a compreender objetivamente as mitologias anteriores depois de ter feito, até certo grau, por assim dizer dünámei [virtualmente], a sua própria crítica. Igualmente a economia política burguesa só conseguiu compreender as sociedades feudais, antigas e orientais no dia em que empreendeu a autocrítica da sociedade burguesa. Na medida em que a economia política burguesa, criando uma nova mitologia, não se identificou pura e simplesmente com o passado, a crítica que fez às sociedades anteriores, em particular à sociedade feudal — contra a qual tinha ainda que lutar diretamente —, assemelha-se à crítica do paganismo feita pelo cristianismo, ou à do catolicismo feita pela religião protestante.
 Do mesmo modo que em toda a ciência histórica ou social em geral, é preciso nunca esquecer, a propósito da evolução das categorias econômicas, que o objeto — nesse caso a sociedade burguesa moderna — é dado tanto na realidade como no cérebro; não esquecer que as categorias exprimem portanto formas de existência, condições de existência determinadas, muitas vezes simples aspectos particulares dessa sociedade determinada, desse objeto, e que, por conseguinte, essa sociedade de maneira nenhuma começa a existir, inclusive do ponto de vista científico, somente a partir do momento em que ela está em questão como tal. É uma regra a fixar, porque dá indicações decisivas para a escolha do plano a adotar. Nada parece mais natural, por exemplo, do que começar pela renda imobiliária, pela propriedade fundiária — dado que está ligada à terra, fonte de toda a produção e de toda a existência —, e por ela à primeira forma de produção de qualquer sociedade que atingiu certo grau de estabilidade: a agricultura. Ora, nada seria mais errado. Em todas as formas de sociedade são uma produção determinada e as relações por ela produzidas que estabelecem, a todas as outras produções e às relações a que elas dão origem, sua categoria e sua importância. É como uma iluminação geral em que se banham todas as cores e que modifica as tonalidades particulares destas. É como um éter particular que determina o peso específico de todas as formas de existência que aí se salientam. Tomemos como exemplo os povos de pastores. (Os simples povos de caçadores e pescadores estão aquém do ponto em que começa o verdadeiro desenvolvimento.) Entre eles aparece certa forma de agricultura, uma forma esporádica. É o que determina entre eles a forma de propriedade fundiária. Trata-se de uma propriedade coletiva que conserva mais ou menos essa forma enquanto esses povos continuam mais ou menos ligados à sua tradição: por exemplo, a propriedade comunal dos eslavos. Entre os povos em que a agricultura está solidamente implantada — implantação que constitui já uma etapa importante —, em que predomina essa forma de cultura, como acontece nas sociedades antigas e feudais, a própria indústria, assim como sua organização e as formas de propriedade que lhe correspondem, têm mais ou menos o caráter da propriedade fundiária. Ou a indústria depende completamente da agricultura, como entre os antigos romanos, ou, como na Idade Média, imita na cidade e nas suas relações a organização rural. Na Idade Média, o próprio capital — na medida em que não se trata apenas de capital monetário — tem, sob a forma de aparelhagem de um ofício tradicional etc., esse caráter de propriedade fundiária. Na sociedade burguesa é o contrário. A agricultura torna-se cada vez mais um simples ramo da indústria e acha-se totalmente dominada pelo capital. O mesmo acontece com a renda imobiliária. Em todas as formas de sociedade em que predomina a propriedade fundiária, a relação com a natureza é predominante. Naquelas em que o capital domina é o elemento social formado ao longo da história que prevalece. Não se pode compreender a renda imobiliária sem o capital. Mas podemos compreender o capital sem a renda imobiliária. O capital é a força econômica da sociedade burguesa que tudo domina. Constitui necessariamente o ponto de partida e o ponto de chegada e deve ser explicado antes da propriedade fundiária. Depois de os ter estudado a cada um em particular, é necessário examinar a sua relação recíproca.
 Seria portanto impossível e errado classificar as categorias econômicas pela ordem em que foram historicamente determinantes. A sua