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LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO JURÍDICA Todos os conteúdos (1)

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1 
 
DISCIPLINA: LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO JURÍDICA 
PROFESSORA: RAQUEL PFAHL 
ACADÊMICO: EMERSON MARCOS FURTADO 
 
MÓDULO 0 – APRESENTAÇÃO 
Introdução/Objetivos 
Nesta nossa disciplina trataremos da linguagem jurídica, disciplina de 
grande importância para todos aqueles que trabalham com o Direito, tendo em 
vista a necessidade de diuturna argumentação. Abordaremos, neste estudo, os 
seguintes tópicos: características do texto argumentativo jurídico; teses 
argumentativas; audiência particular e universal; lugares da argumentação; 
hierarquia de valores; retórica e oratória; argumentação jurídica. 
Considerando-se que será você quem administrará seu próprio tempo, 
nossa sugestão é que se dedique ao menos três horas por semana para esta 
disciplina, estudando os textos sugeridos e realizando os exercícios de 
autoavaliação. Uma boa forma de fazer isso é já ir planejando o que estudar, 
semana a semana. 
Para facilitar seu trabalho, apresentamos na tabela abaixo os assuntos que 
deverão ser estudados e, para cada assunto, a leitura fundamental exigida e a 
leitura complementar sugerida. No mínimo, você deverá buscar entender muito 
bem o conteúdo da leitura fundamental, só que essa compreensão será maior se 
você acompanhar também a leitura complementar. Você mesmo perceberá isso 
ao longo dos estudos. 
 
1 - CONTEÚDOS E LEITURAS SUGERIDAS 
MÓDULO BIBLIOGRAFIA BÁSICA 
BIBLIOGRAFIA 
COMPLEMENTAR 
Módulo 1: 
Característica do texto 
argumentativo jurídico. 
O Discurso do Tribunal do 
Júri: uma análise do percurso 
argumentativo do Tribunal do 
Júri do Caso Izabella Nardoni 
– realizada pelo programa de 
bolsa docente na 
Universidade Paulista. 
 
Módulo 2: 
Teses argumentativas primárias 
e secundárias. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
2 
 
Módulo 3: 
Audiência particular e universal. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
Módulo 4: 
Lugares da argumentação. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
Módulo 5: 
Hierarquia de valores. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
Módulo 6: Retórica e Oratória. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
 
PERELMAN, Chaim. Lógica 
jurídica: nova retórica. São Paulo: 
Martins Fontes, 2004. NS 
SICHES, Luíz Recaséns Tratado 
General de Filosofia del Derecho, 
México, Ed. Porrua, 1959. 
ALEXY, Robert. Teoria da 
Argumentação Jurídica: a teoria 
do discurso racional como teoria 
da justificação jurídica. Trad. 
Zilda H. S. Silva. São Paulo: 
Landy Editora, 2005. 
Módulo 7: 
Argumentação Jurídica. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
 
PERELMAN, Chaim. Lógica 
jurídica: nova retórica. São Paulo: 
Martins Fontes, 2004. NS 
SICHES, Luíz Recaséns Tratado 
General de Filosofia del Derecho, 
México, Ed. Porrua, 1959. 
ALEXY, Robert. Teoria da 
Argumentação Jurídica: a teoria 
do discurso racional como teoria 
da justificação jurídica. Trad. 
Zilda H. S. Silva. São Paulo: 
Landy Editora, 2005. 
3 
 
Módulo 8: Lógica Jurídica. 
 
ABREU, Antonio Suarez. A 
arte de argumentar: 
gerenciando razão e emoção. 
São Paulo, Ateliê Editorial, 
2007. 
 
PERELMAN, Chaim. Lógica 
jurídica: nova retórica. São Paulo: 
Martins Fontes, 2004. NS 
SICHES, Luíz Recaséns Tratado 
General de Filosofia del Derecho, 
México, Ed. Porrua, 1959. 
ALEXY, Robert. Teoria da 
Argumentação Jurídica: a teoria 
do discurso racional como teoria 
da justificação jurídica. Trad. 
Zilda H. S. Silva. São Paulo: 
Landy Editora, 2005. 
Nota: ver abaixo as referências bibliográficas, para maior detalhamento das 
fontes de consulta indicadas. 
 
2 - AVALIAÇÕES 
Como é de seu conhecimento, você estará obrigado a realizar uma série de 
avaliações (NP1, NP2, SUB e EXAME), cabendo a você tomar conhecimento do 
Calendário Escolar dessas avaliações divulgado no campus e do agendamento 
das datas das suas provas através deste sistema on line, dentro dos períodos 
especificados. Na data e horário agendados para a sua avaliação dirigir-se ao 
Laboratório de Informática ou outro setor designado pela Instituição para a 
realização da prova em sistema on line. 
Por outro lado, é importante destacar que uma das formas de você se 
preparar para as avaliações é realizando os exercícios de autoavaliação, 
disponibilizados para você neste sistema de disciplinas on line. O que tem de ficar 
claro, entretanto, é que os exercícios que são requeridos em cada avaliação não 
são a mera repetição dos exercícios da autoavaliação. 
Para sua orientação, informamos na tabela a seguir, os conteúdos e 
exercícios que serão requeridos em cada uma das avaliações às quais você estará 
sujeito: 
2.1-CONTEÚDOS EXIGIDOS NAS AVALIAÇÕES 
AVALIAÇÕES CONTEÚDOS EXERCÍCIOS 
NP1 Módulos 1 a 4 Exercícios on line respectivos 
NP2 Módulos 5 a 8 Exercícios on line respectivos 
SUB Módulos 1 a 8 Todos os exercícios 
EXAME Módulos 1 a 8 Todos os exercícios 
 
 
4 
 
3 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Bibliografia Básica: 
ABREU, Antonio Suarez. A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. São 
Paulo, Ateliê Editorial, 2007. 
O Discurso do Tribunal do Júri: uma análise do percurso argumentativo do 
Tribunal do Júri do Caso Izabella Nardoni – realizada pelo programa de bolsa 
docente na Universidade Paulista. 
Bibliografia Complementar: 
ALEXY, Robert. Teoria da Argumentação Jurídica: a teoria do discurso racional 
como teoria da justificação jurídica. Trad. Zilda H. S. Silva. São Paulo: Landy 
Editora, 2005. 
AUMAN, Z. Identidade. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 2005. 
BITTAR, Eduardo C.B; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de Filosofia do 
Direito. 4ª ed., São Paulo: Atlas, 2005. 
COELHO, Fábio Ulhôa. Roteiro de Lógica Jurídica. , São Paulo: Max Limonad, 
1996. 
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: ser, saber, fazer: elementos da 
história do pensamento ocidental. 11ª ed., São Paulo: Saraiva, 1995. 
FERRAZ JR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito: técnica, decisão, 
dominação. 4ª ed., São Paulo: Atlas, 2003. 
FRONDIZE, R. ¿ Que són los valores?. México: Fondo de Cultura Econômica, 
1968. 84 Vera Rudge Werneck Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 2, n. 4, p. 73-
86, jan./abr. 2010 
GOBRY, Y. De la valeur. Louvain, Paris: Vander; Vauwelaerts, 1975. 
PERELMAN, Chaim. Lógica jurídica: nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 
2004. NS SICHES, Luíz Recaséns Tratado General de Filosofia del Derecho, 
México, Ed. Porrua, 1959. 
SCHELER, M. Ética: nuevo ensaio de una fundamentacion de un personalismo 
ético: termo 1. Tradução Hilário Rodrigues Sanz. Madri, 1941. SCHELER, M. Da 
reviravolta dos valores. Tradução Marco Antônio dos Santos. Petrópolis, RJ: 
Vozes, 1972. 
TOMASZEWSKI, Adauto de Almeida. A lógica do razoável e o negócio jurídico: 
reflexões sobre a difícil arte de julgar. Disponível na Internet: em 
http://www.mundojuridico.adv.br/sis_artigos/artigos.asp?codigo=86 . Acesso 
em 25 de junho de 2007. 
5 
 
VENOSA, Silvio de Salvo. Introdução ao Estudo do Direito: Primeiras linhas. São 
Paulo: Atlas, 2004. 
WERNECK, V. R. Educação e sensibilidade. Rio de Janeiro: Forense 
Universitária, 1996. 
 
 
MÓDULO I – CARACTERÍSTICAS DO TEXTO ARGUMENTATIVO 
JURÍDICO[1] 
Tendo em vista que nossa proposta é analisar as características do gênero 
discurso jurídico, enquanto estrutura argumentativa, para que possamos 
compreender que o livre convencimento dos integrantes do Conselho de 
Sentença fica comprometido,na medida em que estes são envolvidos em um todo 
discursivo no qual vários discursos se mobilizam, passamos a discutir 
considerações de pesquisadores que se dedicaram à análise da eficácia da 
argumentação. 
Iniciaremos com um apanhado teórico sobre as formações imaginárias e a 
antecipação, segundo Pêcheux (1969), para, posteriormente, discorrermos sobre 
a nova retórica, segundo Perelman (1982). 
Para que o processo subjacente à estrutura argumentativa do discurso 
jurídico enunciado no Tribunal do Júri se faça revelar, procedemos a articulações 
teóricas que nos permitirão refletir sobre o processo de argumentação em si. 
 
2.1. Formações Imaginárias (PÊCHEUX, 1969) 
Para que a nossa discussão sobre a construção do percurso argumentativo 
do gênero discursivo jurídico, nos concentraremos na enunciação do Tribunal do 
Júri, na medida em que essa enunciação reúne todos os elementos que nos são 
necessários para compreender com clareza os aspectos teóricos que discutiremos. 
Considerando que o discurso que se realiza na enunciação do Tribunal do 
Júri tem como esteio os autos do processo e estes têm como condições de 
produção um contexto marcado por diferentes etapas constituídas por 
documentos, laudos periciais, necroscópicos, provas, depoimentos de altíssimo 
valor persuasivo em função da própria legitimidade dos diferentes sujeitos que 
neles se inscrevem, consideramos que seu percurso argumentativo tenha sido 
estruturado na relação de imagens: Eu - OUTRO e Referente (PÊCHEUX, 1969). 
Segundo o autor, o processo discursivo supõe a existência de formações 
imaginárias que, de forma sistemática, poderiam ser assim 
representadas:(PÊCHEUX, 1990, p.83) 
https://online.unip.br/conteudo/detalhes/105020#_ftn1
6 
 
 
SIGNIFICAÇÃO DA EXPRESSÃO 
QUESTÃO IMPLÍCITA CUJA 
"RESPOSTA" SUBENTENDE A 
 FORMAÇÃO IMAGINÁRIA 
CORRESPONDENTE 
Imagem do lugar de A para 
o sujeito colocado em A 
"Quem sou eu para lhe falar assim?" 
Imagem do lugar de B 
para o sujeito colocado em A 
"Quem é ele para que eu lhe fale 
assim?" 
Imagem do lugar de B 
para o sujeito colocado em B 
"Quem sou eu para que ele me fale 
assim?" 
Imagem do lugar de A para o sujeito 
colocado em B 
"Quem é ele para que me fale assim?" 
 
Quanto ao referente (PÊCHEUX, 1990, p.84), podemos entender que, no 
contexto de enunciação do discurso do júri sobre o qual esta pesquisa se debruça, 
o referente se dá na realidade física da própria enunciação do Tribunal do Júri 
(réu, vítima, em casos de tentativa), enquanto o crime em si já se assemelhe a um 
objeto imaginário, assim como a vítima, no caso de homicídio consumado. 
 
SIGNIFICAÇÃO DA 
EXPRESSÃO 
QUESTÃO IMPLÍCITA CUJA "RESPOSTA" 
SUBENTENDE A FORMAÇÃO IMAGINÁRIA 
CORRESPONDENTE 
“Ponto de vista" 
de A sobre R: 
"De que lhe falo assim?" 
"Ponto de vista" 
de B sobre R: 
"De que ele me fala assim?" 
 
Considerando-se a função social do autor que perpassa laudos 
necroscópicos, periciais, documentos e depoimentos constitutivos o discurso 
enunciado no Tribunal do Júri, entendemos pertinente, para a compreensão do 
processo que envolve a argumentação desse discurso, estabelecer articulação 
entre Pêcheux (1969), no que tange às formações imaginárias, e Orlandi (1988), 
no que se refere ao fato de o texto apresentar um leitor virtual no ato da escrita. 
7 
 
Há um leitor virtual inserido no texto. Um leitor constituído no 
próprio ato da escrita. Em termos do que denominamos 
'formações imaginárias' em análise do discurso, trata-se do 
leitor imaginário, aquele que o autor imagina (destina) para o 
seu texto e para quem ele se dirige. Tanto pode ser um seu 
'cúmplice' quanto um seu 'adversário'" (ORLANDI, 1988, p.9). 
 
A nosso ver, tal recurso favorece o sujeito enunciador promotoria ou 
defensoria no sentido de permitir que seus argumentos sejam mais eficazes, já 
que eles se fundamentam no grau de aceitabilidade das propostas que o sujeito, 
por meio das formações imaginárias, pode considerar relevantes e, 
consequentemente, aceitáveis por seu interlocutor virtual. 
É possível, ainda, que o sujeito enunciador se sirva de um contra-
argumento à sua proposta, e, por antecipação, negocie com seu interlocutor 
imaginário de modo a buscar a adesão de seu interlocutor à sua proposta. Assim, 
no próximo tópico, estaremos abordando especificamente as considerações de 
Pêcheux (1969) no que tange à antecipação. 
 
Antecipação (PÊCHEUX, 1969) 
Entender a questão da estrutura argumentativa do discurso jurídico, a 
nosso ver, implica considerar as formações imaginárias, segundo Pêcheux (1969), 
e, igualmente, reconhecer a necessidade de o sujeito antecipar o contra-
argumento de seus interlocutores, de modo a minimizar que seu argumento 
venha a ser refutado. 
A questão da antecipação fundamenta-se na necessidade de "A" 
(entendido pelo sujeito/autor) trabalhar antecipadamente sobre as possíveis 
respostas de "B" (interlocutor). 
O autor enfatiza a "distância" entre uma e outra parte, já que é a partir da 
"distância" existente entre os discursos que se abre a possibilidade de o "orador 
transformar o ouvinte (tentativa de persuasão)", ou, ainda, identificar-se com o 
"seu ouvinte (fenômeno da cumplicidade cultural), manifestando acordo". 
Considera ainda esse aspecto demonstrável por meio de gestos (o "piscar de 
olhos", por exemplo) que traduzem a cumplicidade cultura. 
Em nosso entender, a questão da estrutura argumentativa pode ser 
contemplada a partir da antecipação com enfoque nas formações imaginárias, em 
função dos mecanismos das imagens - Eu - OUTRO e Referente.. 
O fato de o autor conceber que "todo processo discursivo supõe, por parte 
do emissor, uma antecipação das representações do receptor, sobre a qual se 
8 
 
funda a estratégia do discurso" nos permite entender que o sujeito possa trazer 
para o seu discurso, por antecipação, o argumento do OUTRO, (seu interlocutor), 
de maneira a enfraquecê-lo ou refutá-lo antes que o OUTRO tenha direito de voz 
para contra-argumentar. Esse percurso nos parece permitir que o sujeito silencie 
o OUTRO antecipadamente. 
Assim, entendemos que, a partir das relações de imagens: Eu - OUTRO e 
Referente, o sujeito possa lidar com um interlocutor imaginário e elencar seus 
argumentos em função desse mesmo interlocutor. Logo, priorizando seus 
objetivos, o sujeito seleciona criteriosamente os referentes a serem abordados e 
traslada de uma formação discursiva para outra. 
Fundamentados nessas particularidades, consideramos ser possível, 
ainda, estabelecer articulação teórica entre a proposta de Pêcheux (1969), acerca 
da antecipação, e a de Orlandi (1983-1990), sobre a paráfrase. 
Segundo pudemos depreender desses dois enfoques teóricos, à medida 
que o sujeito antecipa os argumentos de seu interlocutor, por intermédio da 
relação de imagens: Eu - OUTRO e Referente, ele procede a apagamentos e a 
reformulações que lhe possibilitam mesclar diferentes vozes em um mesmo 
texto. Assim, o sujeito retoma o OUTRO de maneira a atingir seus objetivos, sem, 
no entanto, explicitá-lo, e, ao deslocá-lo, passa a significá-lo diferentemente, dada 
as condições de produção constitutivas do que é retomado. 
Entretanto, não entendemos como mero descuido os momentos em que o 
sujeito permite a presença de marcas que evidenciam os limites entre diferentes 
outros discursos que constituem a sua argumentação. Ao contrário, tudo indica 
que tais marcas têm sua razão de ser no fato de o sujeito poder significá-las, 
convenientemente, seja para denunciá-las, refutá-las ou reafirmá-las, para em 
seguida, negá-las, porém sempre em conformidade com seus interesses. 
Portanto, para garantir a eficácia de sua estratégia, o sujeito necessita, em 
primeiro lugar, atingir o próprio objetivo da argumentação, e, para tanto, deve 
selecionar os referentes envolvidos em suas propostas, fundamentado nas 
formações imaginárias, constitui-secomo condição de produção do discurso. Daí 
ser preciso selecionar o referente criteriosamente. 
A posição do sujeito em relação ao interlocutor é igualmente relevante na 
perspectiva discursiva. Ao discutir esta questão, Orlandi (1983, p.126) considera 
que "para o locutor, o seu interlocutor ou concorda ou não concorda com ele (ou 
é seu cúmplice ou seu adversário); daí a posição do locutor ser a de influenciar, 
transformar, inculcar, etc." 
A autora recorre à "antecipação", emprestando o termo de Pêcheux (1969), 
para justificar o fato de que é sobre a antecipação que se define a natureza de um 
discurso de direção argumentativa, uma vez que o recurso "permite ao locutor a 
possibilidade de experimentar o lugar do seu ouvinte". (p.129). 
9 
 
Ao discutir a peculiaridade da argumentação de um discurso cujas 
condições de produção apontam para uma pluralidade de interlocutores, temos 
de considerar que o sujeito traz para o seio do discurso o argumento de seu 
interlocutor para significá-lo de outro lugar, alterando, assim, a direção de 
sentidos em seu próprio benefício. 
Desta forma, ao elencar seus argumentos, o locutor tem diante de si a 
conveniente possibilidade de se apresentar perante seus interlocutores 
discutindo diferentes lados de uma mesma questão, e, assim procedendo, 
transmite-lhes a impressão, pelo menos a princípio, de que possui ampla visão 
da realidade, um fator que lhe permite significar a segurança de sua proposta e 
destruir, de antemão, as possíveis críticas de seus interlocutores. 
O discurso enunciado no Tribunal do Júri nos dá claros exemplos desse 
movimento, quando o sujeito enunciador promotor ou defensor se dirige aos 
interlocutores jurados tanto nos debates como na réplica ou na tréplica. Não raro 
se observa que o sujeito se vale do não verbal emitido pelos jurados, por meio de 
gestos denotativos de desinteresse ou surpresa, para transformar seu dizer, 
reformulando sua fala, ajustando-a mais ao que entende ser mais conveniente. 
Retifica seu dizer com a pretensão de tornar mais claro o que enuncia aos seus 
interlocutores, mas, ao fazê-lo, imprime um novo argumento ao seu dizer de 
modo que a primeira impressão dos jurados seja desfeita, mantendo, sempre, 
contudo, a direção argumentativa condizente com sua tese, pois é o que 
determina o lugar social do sujeito. 
À luz das considerações apresentadas pelas autoridades consultadas, no 
que se refere a uma relação estreita entre aquele que argumenta e o argumento 
em si – o referente - e aqueles a quem o argumento é apresentado - interlocutores 
podemos concluir que o papel desempenhado pelo interlocutor é o de quem julga 
a validade do argumento que lhes é submetido. 
Logo, a habilidade do sujeito depende da sua condição para recorrer ao 
argumento adequado antes que o mesmo argumento pelo seu oponente para 
questioná-lo. Um contra-argumento à proposta do sujeito será enfraquecido se 
ele puder antecipá-lo. 
Assim, aumentam as possibilidades de entendermos que esse tipo de 
mecanismo geralmente favorece o sujeito que detém essa habilidade, na medida 
em que lhe permite silenciar seu arguidor em potencial já em seu espaço 
discursivo. 
Considerando que o objeto de nossa análise é o discurso enunciado no 
Tribunal do Júri e seu caráter altamente persuasivo, sobretudo em função de o 
interlocutor jurado que detém o poder de definir a questão ser leigo em assuntos 
concernentes ao Direito, a relação entre sujeito enunciador promotor ou defensor 
10 
 
e interlocutores jurados torna-se ainda mais pertinente, principalmente, por ser 
o referente desse discurso a vida – o maior bem jurídico tutelado pelo Estado. 
A possibilidade de refutar a crítica antecipadamente é discutida por 
Osakabe (1979) com enfoque na argumentação aplicada ao discurso político. O 
autor concebe o ato de argumentar fundamentado em três atos distintos: "ato de 
promover" - o sujeito promove o interlocutor a uma instância do poder - 
(reafirma o poder que o ouvinte aspira ter); "ato de envolver" - o sujeito/ anula 
antecipadamente a possibilidade de crítica no interlocutor -, e o "ato de engajar" 
- o sujeito transforma o interlocutor em seu coenunciador para conquistar (1979, 
p.82). 
O ato de promover de que nos fala Osakabe (1979) pode ser claramente 
observado no momento em que o sujeito enunciador tanto da promotoria como 
da defensoria se dirige às testemunhas. Costumeiramente estabelecem empatia 
com a testemunha, dizendo-lhe entender o quanto aquele ato lhe causa dor e 
desconforto, principalmente, se a testemunha guarda alguma relação com o réu 
ou com a vítima, contudo, acentuam o valor do depoimento para o 
convencimento dos jurados. Em outras palavras, pela empatia mostram conhecer 
os sentimentos da família. 
Nos cumprimentos, antes dos debates, enunciadores da promotoria e da 
defensoria esmeram-se em buscar elogios de toda sorte ao presidente do tribunal 
– o magistrado. Exaltam os serventuários da justiça e não medem esforços para 
elevar os jurados ao plano de seres absolutamente nobres, sem os quais a justiça 
não se faria de forma inequívoca. 
Desse percurso argumentativo, podemos depreender que ambos 
enunciadores, promotor e defensor buscam cativar a simpatia dos jurados, 
porque sabem que a cumplicidade do interlocutor será de inestimável valor para 
que alcancem o resultado desejado, ou seja, a sua colaboração ao longo dos 
depoimentos. 
No "ato de envolver", segundo o Osakabe, permite ao sujeito anular a 
crítica do interlocutor, reconhecemos a eficácia de o locutor antecipar o contra-
argumento do ouvinte, antes que este possa enunciá-lo. 
O “ato de envolver” é muito utilizado nos debates e, principalmente, na 
réplica e na tréplica. O sujeito enunciador promotor ou defensor antecipa os 
possíveis questionamentos que os interlocutores jurados podem fazer face aos 
trabalhos já apreciados até o momento dos debates, quando as testemunhas e o 
réu já foram ouvidos. Sabiamente, enunciam a dúvida para dirimi-la ou até 
destruí-la. Antecipa questionamentos próprios daquele momento da enunciação 
porque sabe que, à luz dos depoimentos, os interlocutores jurados começam a 
formar uma ideia da culpabilidade do réu. Do mesmo modo, que antecipam 
11 
 
dúvidas, antecipam possíveis argumentos que serão usados pelo seu oponente e 
procuram refutá-los de pronto. 
Ex: Certamente a defesa lhe dirá que o Sr. xxxx é mais uma 
vítima de um amor não correspondido, de uma mulher que 
primeiro lhe tira o que de melhor ele podia lhe dar, para depois 
trocá-lo por uma aventura qualquer. A defesa, senhores, 
transformará o Sr. xxxx em vítima, quando, na verdade, foi por 
orgulho ferido, movido por um desenfreado sentimento de posse 
e de ódio, por não aceitar o rompimento, por pura vaidade que 
o Sr. xxxx, não permitiu que sua ex-mulher seguisse seu 
caminho, desferindo contra ela cinco tiros no peito e no rosto 
(enunciador promotor na réplica em um caso de crime 
passional). 
Ex: Os senhores ouviram o nobre promotor dizer que Sr. xxx agiu 
com frieza. Devem estar pensando que alguém que age assim 
não pode alegar violenta emoção. Afinal, frieza e violenta 
emoção não combinam. O nobre representante do Ministério 
Público se equivoca. Não havia frieza nos atos do Sr. xxx, havia 
desespero, havia angústia, havia muito medo. Medo de perder. 
Levado pelo desespero atirou, sem sequer se dar conta de 
quantas vezes atirava ou para onde atirava. Naquele momento, 
ele não matava a mulher amada, matava apenas a dor 
insuportável de perdê-la” (enunciador defensor na tréplica em 
um caso de crime passional). 
Podemos observar que uma parte dialoga com a outra, como se 
conversasse com os jurados com o objetivo de antecipar e refutar o argumento 
contrário à sua tese. Essa estratégia é comum na réplica e na tréplica por serem 
estas as últimas falas da promotoria e da defesa respectivamente. Na 
impossibilidade de ter novamenteo direito a palavra, o sujeito promotor busca 
antecipar os argumentos da defesa o que lhe confere grande valor persuasivo 
porque prova o grande conhecimento que detém do caso. Já à defesa somente 
resta refutar sobre o que já foi dito, porque a ela cabe a última fala. 
 
[1] O Discurso do Tribunal do Júri: uma análise do percurso argumentativo do 
Tribunal do Júri do Caso Izabella Nardoni – realizada pelo programa de bolsa 
docente na Universidade Paulista 
 
https://online.unip.br/conteudo/detalhes/105020#_ftnref1
12 
 
MÓDULO II - TESES ARGUMENTATIVAS: PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA 
Todo e qualquer texto argumentativo visa à conquista da adesão dos 
interlocutores, ou seja, o convencimento de seu interlocutor, o referente que 
apresenta não goza da aceitação das partes no todo ou em algum aspecto, razão 
pela qual a argumentação se faz necessária, ou ainda, no caso do gênero 
discursivo jurídico a intervenção do Estado na voz do juiz. 
Assim, a marca essencial do texto argumentativo jurídico é a de recorrer a 
uma série de estratégias para fazer cumprir seu objetivo norteador – a conquista 
de adesão à tese que o sujeito apresenta ao interlocutor. 
A estrutura geral de um texto argumentativo consiste de introdução, 
desenvolvimento e conclusão, nesta ordem. Cada uma dessas partes tem como 
objetivo orientar o interlocutor para que este possa fazer uma leitura tranquila 
do texto: 
Introdução: é a parte do texto argumentativo que apresenta ao interlocutor 
o tema que será tratado, pode conter uma breve menção aos valores que estão em 
jogo, para acentuar a responsabilidade dos interlocutores. Um elogio à 
responsabilidade, ao comprometimento do interlocutor/jurado, no caso de um 
Tribunal do Júri tem cunho persuasivo, o mesmo se dá em relação do magistrado 
e à outra parte – defesa ou promotoria. Por vezes, na Introdução podemos 
começar uma importante conquista em relação aos nossos interlocutores. O 
contrário é verdadeiro, daí a nossa preocupação. 
Desenvolvimento: digamos que este seja o momento mais crucial da 
argumentação propriamente dita, é nele que derrubamos contra-argumentos, 
mas é também nela que corremos o risco de alimentar nosso oponente em função 
dos desdobramentos que a tese pode sofrer em função de declarações ou 
depoimentos e até mesmo dos atos e falas do próprio réu quando submetido ao 
interrogatório. O estado de alerta é contínuo, porque também compete ao sujeito 
buscar contradições no discurso do outro. 
Conclusão: a parte final do texto em que retomamos a tese central, agora 
já respaldada pelos argumentos desenvolvidos ao longo do texto, é, nesse etapa, 
que o sujeito retoma de forma breve o discurso, favorecendo aspectos que mais 
lhe interessa. 
A conclusão, no entanto, tem de demonstrar que o sujeito aprendeu com 
sua reflexão e se move na direção de buscar novos desafios despertados pelo 
percurso que ora termina, mas não se fecha, porque a busca do conhecimento é 
uma busca incessante, 
 
 
13 
 
MÓDULO III – AUDIÊNCIA PARTICULAR E UNIVERSAL 
A nova retórica, segundo a proposta de Perelman (1982), tem por objetivo 
estudar a argumentação, bem como as condições de sua apresentação, e, a partir 
daí ampliar e estender o trabalho de Aristóteles. 
A argumentação, segundo Platão e Aristóteles, resume-se na "busca da 
verdade e no desenvolvimento de uma crença". Platão denominou este sistema 
de "dialético", pois, afirmava que "para cada questão existe uma verdade", sendo 
o "processo dialético", na ótica do filósofo, "um método que permite chegar à 
verdade e não à persuasão pessoal". Para Aristóteles, a "dialética leva à 
descoberta da verdade, enquanto a retórica se presta a assegurar a aceitação da 
audiência" (apud RIEKE & SILLARS, 1984, p. 87). 
Na leitura de Osakabe (1979), para Aristóteles, o êxito do discurso está 
atrelado às "provas da demonstração" para conduzir o "ouvinte" a concordar com 
a "verdade" postulada pelo "locutor". Segundo Aristóteles, o discurso é 
persuasivo por parecer "demonstrado, por razões persuasivas e dignas de 
crença", ou seja, pela "demonstração que se dá logicamente" (OSAKABE, 1979, p. 
158). 
Ao defender a tese da nova retórica, Perelman (1982) discute a 
argumentação formal, apontando que, se por um lado, a demonstração tende a 
levar a conclusões fundamentadas em premissas, por outro, os argumentos 
fornecidos para sustentar uma tese não dão (necessariamente) conta de fazê-lo 
porque são submetidos à apreciação da "audiência". 
No que se refere à transformação de um argumento em uma 
"demonstração completa", Perelman (1982) observa que o sujeito deve 
analisar cuidadosamente o perfil de sua audiência à medida que elenca os 
argumentos que sustentam sua tese à luz dessa análise.. 
Para o autor, a argumentação não se limita à dedução de consequências a partir 
de determinadas premissas. A seu ver, a argumentação tem o objetivo de 
aumentar a adesão da audiência às teses que são submetidas à sua apreciação. O 
autor enfatiza que "a audiência deixa de ter papel passivo quando a 
argumentação tem por objetivo a adesão; ao contrário, a audiência passa a 
assumir uma posição ativa quando a persuasão não pode deixar de ser 
contemplada". Segundo o autor, "negligenciar a reação da audiência significa 
incorrer em falhas graves" (PERELMAN, 1982, p.14). 
Julgamos pertinente esclarecer que, em suas considerações, o autor 
estabelece diferenças entre os atos de "convencer" e "persuadir", 
definindo que o "ato de convencer" implica uma adesão intelectual 
e, em função desse aspecto, é dirigido a uma audiência universal 
que, por sua vez, demanda uma argumentação calcada em 
premissas mais universais (PERELMAN, 1982). 
14 
 
No entanto, temos algumas ressalvas a fazer quanto às diferenças entre os atos 
de convencer e de persuadir estabelecidas por Perelman (1982). Segundo o autor, 
o "ato de convencer" volta-se para uma "audiência universal", e é sustentado em 
premissas universais com o objetivo de conduzir à adesão intelectual. 
Entendemos que o ato de convencer, de certa forma, está voltado para um 
interlocutor que ainda não se posicionou frente à proposta que lhe é apresentada 
pelo sujeito, mas que deverá validá-la a partir de seus critérios, cabendo, assim, 
ao sujeito a tarefa de torná-la factível e necessária para seu interlocutor. 
Assim, consideramos que o ato de convencer se dá a partir do momento 
em que o interlocutor reconhece a validade das propostas apresentadas pelo 
sujeito em função das formações imaginárias. 
Quanto ao ato de persuadir, nosso ponto de vista também diverge 
da concepção de Perelman (1982), para quem a persuasão é dirigida à uma 
"audiência específica, constituída de 'leigos", uma característica que, aliás, 
na ótica do autor, leva o sujeito a servir-se de apelo emocional para 
conquistar a adesão de interlocutores. 
A definição do autor não se coaduna com a nossa abordagem, pois, se 
levarmos em conta que determinados interlocutores têm um perfil que os 
distinguem dos demais, em função de suas diferentes particularidades que, por 
sua vez, assumem perante o sujeito, das propostas a eles submetidas e das 
condições de produção constitutivas do discurso do sujeito, poder-se-ia dizer que 
toda audiência é "específica". 
No entanto, segundo Perelman (1982), a especificidade da audiência advém 
principalmente do fato de ser ela constituída de "leigos", o que viabilizaria a 
persuasão por meio do "apelo emocional". Concordamos com o autor quando 
este afirma que o ato de persuadir leva à ação, mas entendemos que a ação resulta 
de um processo que não se sustenta apenas no "apelo emocional" ou no fato de o 
locutor ter uma "audiência de leigos". 
Se pensadas as considerações do autor no contexto de nossa pesquisa, o 
fato de os interlocutores jurados serem leigos ao conhecimento técnico jurídico, 
a argumentação do discurso do júri se resumiria no apelo emocional, quando, na 
realidade,o apelo emocional é recurso argumentativo, mas não um fim, pois a 
lógica é um dos recursos mais usados para o comprometimento da legitimidade 
das provas. 
De acordo com nossa perspectiva, os interlocutores a quem o discurso é 
endereçado são definidos pelo mesmo locutor no próprio ato da elaboração do 
discurso, a partir das formações imaginárias. Como vimos, tais formações 
permitem ao sujeito selecionar argumentos que podem levá-lo a conquistar 
adesão às propostas que vier a submeter aos interlocutores previamente 
determinados. 
15 
 
Em nosso entender, o ato de persuadir contempla uma mudança de 
posicionamento por parte do interlocutor, em relação a um posicionamento 
tomado anteriormente. É pertinente perceber que a mudança de opinião que o 
locutor objetiva deverá ser sustentada por argumentos que gozem de 
credibilidade junto ao interlocutor, pois aderir à proposta que lhe é apresentada 
implica uma mudança de posicionamento contrário ao anterior. Logo, é preciso 
que o locutor argumente contra os argumentos que, em um momento anterior, 
haviam convencido o interlocutor a aderir a uma outra proposta, para, 
concomitantemente, levá-lo a tomar um outro posicionamento a favor da 
proposta que ele (locutor) lhe submete. 
Por outro lado, não poderíamos deixar de considerar que, de 
maneira a obter a adesão de seus interlocutores, o sujeito da enunciação 
do Tribunal do Júri tem de trabalhar sentidos capazes de mobilizar 
mecanismos que envolvem o ato de dissuadir, que, aliás, Perelman (1982) 
não chega a discutir, mas que, a nosso ver, se trata de um ato constitutivo 
da estrutura argumentativa, em função das condições de produção do 
discurso que tem o Tribunal do Júri como lugar de enunciação. 
O ato de dissuadir, conforme pudemos depreender do próprio contexto em que 
se insere o discurso sobre o qual nos debruçamos neste estudo, também, se realiza 
a partir dos valores constitutivos da formação ideológica e das formações 
discursivas nas quais se inscrevem determinados interlocutores. Trata-se de um 
ato que, em nosso entender, antes de buscar a adesão de determinados 
interlocutores, tem como principal objetivo "bloquear" pré-julgamentos feitos sob 
a influência da mídia e de grupos da convivência dos jurados. 
Consideramos que a conquista do objetivo do sujeito enunciador 
promotor ou defensor implica uma mudança de posicionamento, 
principalmente, no que se refere à tese da defesa. Afinal, o homem é educado 
para não matar alguém, condena a priori essa ação em relação a determinados 
valores constitutivos da formação imaginária e ideológica, bem como dos 
elementos constitutivos da memória do sujeito. 
Assim, tendo em vista que a necessidade de conquistar a adesão é 
determinante na enunciação do júri, o sujeito enunciador promotor e defensor, 
legitimados pelo rito, buscam, muitas vezes, a possibilidade de vir a silenciar seu 
oponente, ao refutar, antecipadamente, os possíveis contra-argumentos de seus 
interlocutores jurados e oponente em seu próprio espaço discursivo. 
Compreendemos que os atos de convencer, de persuadir e de dissuadir 
caracterizam-se por atuar na direção dos valores constitutivos das formações 
ideológicas e discursivas dos interlocutores endereçados. Consideramos que 
entre esses três atos, são os atos de persuadir e de dissuadir que requerem 
16 
 
mudança de posicionamento por parte dos interlocutores, apontando, portanto, 
outra direção em relação à anteriormente tomada. 
Contudo, consideramos que entre o ato de persuadir e o de dissuadir, este 
último é o que exige do interlocutor uma tomada de posição que tende a 
desencadear conflitos, na medida em que pode vir a questionar elementos 
constitutivos das formações discursivas nas quais os inscrevem. 
No que diz respeito à audiência, optamos por entendê-la como uma 
comunidade de interlocutores, representada por interlocutores previamente 
delineados pelo locutor, em função da conquista de seu objetivo. 
Segundo pudemos depreender das considerações dos autores, as 
propostas não podem ser vistas como elementos isolados da comunidade de 
interlocutores, cabendo, portanto, ao sujeito prever os possíveis contra-
argumentos e relevar cuidadosamente seu interlocutor virtual a partir das 
formações imaginárias no momento em que se dedica à escolha dos argumentos 
que deverão sustentar sua estrutura argumentativa, e, finalmente, garantir a 
conquista da adesão de seus interlocutores às propostas que submete à 
apreciação dessa comunidade de interlocutores. 
 
 
MÓDULO IV - LUGARES DA ARGUMENTAÇÃO: ORDEM, PESSOA, 
EXISTENTE, QUANTIDADE, QUALIDADE E ESSÊNCIA. 
Num processo persuasivo, a maneira como o AUDITÓRIO 
HIERARQUIZA os seus valores chega a ser, às vezes, até mais importante do que 
os próprios valores em si. O que caracteriza um auditório não são os valores que 
ele admite, mas como ele os hierarquiza. 
• As hierarquias de valores variam de pessoa para pessoa, em função da cultura, 
das ideologias e da própria história pessoal. 
• Escrever uma tese implica em entender a hierarquia a ser desenvolvida em cada 
capítulo. Devemos saber privilegiar os valores mobilizados em função do 
auditório de forma participativo da proposto que se coloca. 
 
Para hierarquizar os valores do nosso auditório, podemos utilizar lugares da 
argumentação. São premissas de ordem geral utilizadas para reforçar a adesão a 
determinados valores. 
 
 
17 
 
1. LUGAR DE QUANTIDADE 
2. LUGAR DE QUALIDADE 
3. LUGAR DE ORDEM 
4. LUGAR DE ESSÊNCIA 
5. LUGAR DE PESSOA 
6. LUGAR DO EXISTENTE 
 
1. LUGAR DE QUANTIDADE 
Uma coisa vale mais que outra em função de razões quantitativas. Um 
bem que serve a um número muito grande de pessoas tem mais valor do que um 
bem que serve apenas a um pequeno grupo. Um bem mais durável é superior a 
um bem menos durável e assim por diante. 
 • É no LUGAR DE QUANTIDADE que encontramos alguns dos fundamentos 
da democracia: ganha uma eleição aquele que tiver maior quantidade de votos; 
uma lei, para ser 
Afirma a superioridade do anterior sobre o posterior, das causas sobre os 
efeitos, dos princípios sobre as finalidades etc. Uma conhecida marca de cerveja 
no Brasil utilizava em suas peças publicitárias o slogan: a primeira cerveja 
brasileira em lata. Com tantas marcas de cerveja no mercado, de igual qualidade, 
o lugar de ordem aparece como um elemento hierarquizador. 
 
• Foi feita também certa vez a propaganda de uma peça íntima feminina: O 
primeiro sutiã a gente nunca esquece! 
• As grandes invenções da humanidade também são valorizadas pelo lugar de 
ordem. 
 
2. LUGAR DE QUALIDADE 
Valoriza o único, o raro. O exemplo clássico do lugar de qualidade é o de 
um animal de estimação. Um cão é, de um ponto de vista geral, apenas mais um 
exemplar da sua espécie, mas, para a criança a quem pertence, é um exemplar 
único. 
 • Tudo aquilo que é ameaçado ganha valor iminente. Podem ser as baleias, o 
urso panda ou o mico-leão-dourado. 
18 
 
• Por que é que um original de Picasso alcança milhares de dólares em um leilão, 
se podemos ter uma cópia idêntica em casa, por três dólares? Pelo lugar de 
qualidade. Aquele quadro é o único que foi pintado diretamente por Picasso. 
 
 3. LUGAR DE ORDEM 
• Afirma a superioridade do anterior sobre o posterior, das causas sobre os 
efeitos, dos princípios sobre as finalidades etc. Uma conhecida marca de cerveja 
no Brasil utilizava em suas peças publicitárias o slogan: a primeira cerveja 
brasileira em lata. Com tantas marcas de cerveja no mercado, de igual qualidade, 
o lugar de ordem aparece como um elemento hierarquizador. 
• Foi feita também certa vez a propaganda de uma peça íntima feminina: O 
primeiro sutiã a gente nunca esquece! 
• As grandes invenções da humanidade também são valorizadas pelo lugar de 
ordem. 
 
 4. LUGAR DA ESSÊNCIA 
 Valoriza indivíduos como representantes bem caracterizados de uma 
essência..Os galãs e as ”estrelas” de cinema são valorizados pelo LUGAR DA 
ESSÊNCIA. Eles são os representantes da essência daquilo que seria um homem 
capaz de conquistar todas as mulheres e daquilo que seria uma mulher capaz de 
conquistar todos os homens. 
• Os objetos de marcas famosas são verdadeiros ícones da sociedade de consumo. 
• Quando alguém pensa em um bom automóvel, o lugar de essência traz à sua 
mente marcas como Mercedez, BMW, Ferrari, Jaguar. 
• Quando alguém pensa em um bom relógio, o lugar de essência sugere marcas 
como Rolex. 
 
5. LUGAR DA PESSOA 
 Afirma a superioridade daquilo que está ligado às pessoas. Primeiro as 
pessoas, depois as coisas! é o slogan que materializa esse lugar. O LUGAR DA 
PESSOA exerce importante função no percurso argumentativo. Quando um 
candidato a governador diz, por exemplo, que, se for eleito, construirá trinta 
escolas, seu opositor dirá, utilizando o lugar de pessoa, que não construirá 
escolas. Procurará, isto sim, dar condições mais humanas ao trabalho do 
19 
 
professor, melhores salários, programas de reciclagem etc. Dará preferência ao 
homem, não aos tijolos. 
 
6. LUGAR DO EXISTENTE 
O LUGAR DO EXISTENTE dá preferência àquilo que já existe, em 
detrimento daquilo que não existe. Quando o namorado de uma garota diz que 
no ano seguinte arrumará um novo emprego e que, então, terá condições de 
financiar um excelente apartamento para poderem se casar, a garota diz, 
utilizando o LUGAR DO EXISTENTE: - “Não me interessa o que você terá 
condições de fazer se conseguir um novo emprego! - Quero saber que tipo de 
apartamento você é capaz de alugar agora, com o que você tem, para podermos 
nos casar em seis meses”. O emprego que já existe é hierarquizado acima do 
emprego que ainda não existe. 
Argumentar é, em primeiro lugar, vencer junto com o outro, caminhando ao seu 
lado, utilizando, com ética, as técnicas argumentativas, para remover os 
obstáculos que impedem o consenso. 
• Argumentar é também saber persuadir, preocupar-se em ver o outro por 
inteiro, ouvi-lo, entender suas necessidades, sensibilizar-se com seus sonhos e 
emoções. 
• No caso da tese o uso variado de lugares de argumentação demonstra que você 
conseguiu justificar a sua pesquisa a partir de diferentes perspecticas (lugares). 
Somos nós que temos de nos adaptar às condições intelectuais e sociais 
daqueles que nos ouvem, e não o contrário. Temos de ter um especial cuidado 
para não usar termos de informática para quem não é da área de informática, ou 
de engenharia, para quem não é da área de engenharia... e assim por diante. 
 • Devemos argumentar com o outro, de forma honesta e transparente. Caso 
contrário, argumentação fica sendo sinônimo de manipulação. Logo, é preciso 
escolher com consciência as fontes, ou o argumento ético, para que sua pesquisa 
tenha credibilidade. 
• Escrevemos a tese para um público que entende que o texto acadêmico é uma 
fonte ética de consulta, pois se sustenta em argumentos lógicos e patéticos. 
Hierarquia de valores 
• Num processo persuasivo, a maneira como o auditório hierarquiza os seus 
valores chega a ser, às vezes, até mais importante do que os próprios valores em 
si. O que caracteriza um auditório não são os valores que ele admite, mas como 
ele os hierarquiza. 
20 
 
• As hierarquias de valores variam de pessoa para pessoa, em função da cultura, 
das ideologias e da própria história pessoal. 
• Escrever uma tese implica em entender a hierarquia a ser desenvolvida em cada 
capítulo. Que valores você quer privilegiar em cada capítulo, para manter o 
auditório participando da sua proposta de leitura. 
 
 
MÓDULO V - HIERARQUIA DE VALORES 
Muito se fala nos novos valores da sociedade atual, da juventude e do 
mundo globalizado. Como compreender essa criação, essa invenção a partir do 
nada, de novos valores para guiar a humanidade? Um aprofundamento da 
questão mostra que, talvez, ela esteja deslocada. 
Ao que parece, o que se está percebendo, não são propriamente valores 
novos, inéditos, mas uma mudança no modo de hierarquizá-los. Valores muito 
prezados no passado, hoje, não são nem tanto considerados e vice-versa. 
Entende-se por valor aquilo que de algum modo possa satisfazer a uma 
necessidade, a um anseio humano e por bem de valor, os entes materiais que 
portam algum valor. A primeira pergunta é sempre sobre quem é o homem e 
quais são as suas necessidades. As primordiais e as secundárias. São as questões 
fundamentais da antropologia filosófica. 
A resposta a essas perguntas vai permitir que, pelo conhecimento de suas 
necessidades e da hierarquia, segundo a qual se apresentam o estabelecimento 
dos valores que podem satisfazê-las. 
De início, podem-se focalizar as exigências ligadas à própria vida material, 
ao seu bem estar físico, ou seja, as ligadas à natureza equilibrada, ao ecossistema. 
Da consciência de sua importância para a vida humana resulta uma nova ordem 
de bens de valor. Vão ser valorizadas a água potável, o ar puro, a preservação 
das matas e do solo. Somente quando esses bens se tornaram escassos foram 
valorizados evidenciando a relação falta x valor. É o sentimento de falta, de 
necessidade que define o valor como o que pode supri-lo. Consideram-se, a 
seguir, as necessidades ligadas ao próprio corpo: a saúde, o bem estar, a força, a 
resistência entre outros, até apontar os valores capazes de satisfazê-los. A 
alimentação saudável, os medicamentos, os exercícios físicos. Novos valores ou 
nova hierarquia de valores? 
Os exercícios físicos, por exemplo, no momento em que foram 
considerados essenciais para saúde pela ciência, subiram na escala de valores do 
homem atual ao contrário do que ocorria num passado não muito distante. Os 
valores da utilidade como que unem o material e o não material. A inteligência 
21 
 
do homem, interferindo na matéria, inventa bens de valor que vão suprir suas 
necessidades. 
Bens que portam valores que facilitam o seu viver e surgem os veículos 
que trazem a rapidez e a mobilidade, os meios de comunicação social que 
possibilitam o entendimento, a televisão e a internet que permitem a visão do 
longínquo enfim, desenvolve-se toda a tecnologia com seus bens portadores de 
valores. Contemplam-se, então, os valores que vão corresponder aos anseios não 
materiais da pessoa humana: o anseio pela verdade, pelo bem, pelo belo, pelo 
afeto, pelo sagrado, por exemplo. Sendo o valor o que tem condição de satisfazê-
los, podem-se registrar múltiplas modalidades. 
O valor lógico, buscado pela razão em sua constante procura pela verdade 
por meio da pesquisa e da ciência. Não são considerados “valores” os conteúdos 
do conhecimento humano, mas a verdade que encerram e que pode satisfazer à 
natural necessidade de saber. A humanidade não se contenta com qualquer 
conhecimento, mas quer o que de algum modo e sob algum aspecto e em algum 
tempo, corresponda ao real, ou seja, a verdade. 
A aceitação da relatividade do conhecimento em relação ao sujeito não 
implica no abandono da busca da verdade. O relativismo sim, que nega a 
possibilidade do conhecimento da verdade tomando-o o interesse do sujeito 
como único referencial no processo da razão, é incompatível com o incontestável 
progresso da ciência. 
Os valores éticos correspondem à carência humana pelo bem moral. Ao 
seu anseio por respeito e justiça. Por liberdade, lealdade, honestidade, 
responsabilidade e por todos os demais valores decorrentes do princípio da 
moralidade que exige que se faça o bem e evite o mal. Há ainda o anseio pelo 
belo, pelo harmônico que é satisfeito pelo valor estético. 
A beleza encontrada na natureza, nas paisagens, no mar, nas florestas, na 
luminosidade do sol, no canto dos pássaros e na arte, que manifesta o belo 
instaurado na matéria pelo homem. A beleza da dança feita com o próprio corpo, 
da música produzida pela combinação dos sons, das artes plásticas, da pintura, 
daescultura, da arquitetura. 
A poesia, a prosa e as que unem a palavra à ação como o teatro e o cinema, 
enfim, as mil formas que descobre o homem para inserir valores na natureza e 
em si mesmo. Os valores afetivos correspondem à natural carência de afeto: o 
amor, a amizade, o carinho, a dedicação, a doação de si entre outros. 
O ser humano precisa do “outro” não só fisicamente, mas ainda 
afetivamente querendo sempre, com ele, constituir uma comunidade. O “outro” 
torna-se então valor por satisfazer uma necessidade, uma carência do sujeito. Ao 
anseio pelo transcendente, pelo que ultrapassa a dimensão natural e humana, 
corresponde o valor do sagrado que se expressa na religiosidade humana. 
22 
 
Ocorre, portanto, não a invenção, a criação de novos valores, mas a sua 
implantação onde antes não existiam. 
Nesse sentido, sim, podem ser considerados como “novos”. Novos em 
determinado lugar ou situação, mas não pelo seu ineditismo. Pode ainda 
acontecer, uma mudança no processo de hierarquização. Embora o termo valor 
tenha uma forte ligação com a área econômica, não se pode confundir “valor” 
com “bem de valor”. Os “bens” de valor portam valores que satisfazem as 
necessidades humanas. 
A clássica pergunta sobre a subjetividade ou objetividade dos valores 
corresponde ao interesse de cada um ou se o interesse existe porque eles valem 
por si mesmos. Primeiramente, há que se admitir a existência de um aspecto 
universal no ser humano. A pessoa humana considerada como a corporalidade, 
a racionalidade, a sensibilidade e a vontade apresenta necessidades iguais às 
quais correspondem valores universais. O bem estar físico, a saúde, a busca do 
conhecimento pelo desenvolvimento intelectual, a vida afetiva, o livre arbítrio 
com os seus valores do respeito e da justiça, do bem moral, enfim são exigências 
de todo ser humano, independentemente, de tempo ou de espaço. 
O fato de, em determinadas épocas e culturas, essas necessidades e esses 
valores não terem sido ou não serem respeitados, em nada os invalida como 
exigências fundamentais e universais da pessoa humana. Não há como relativizá-
los sem discriminação, violência ou acomodação. Em segundo lugar, ao 
entender-se que cada pessoa humana é portadora de uma “personalidade” única, 
própria e individual, chega-se a novos valores ou nova hierarquia de valores. 
Hierarquias de valores correspondentes às suas necessidades. Isso é 
variável não só no tempo e no espaço, mas ainda de acordo com as circunstâncias. 
Essa mudança no escalonamento dos valores merece uma reflexão. Será ela feita 
de modo espontâneo e fortuito sem que se possa nela perceber nenhum 
direcionamento? Será apenas a transformação de um mundo sólido de valores 
estáveis e predeterminados para um mundo líquido, em constante mutação de 
rumos, sem que seja possível perceber nenhuma direção constante e definida 
como pensa Bauman (2005). 
É difícil avaliar. É o autor quem diz: “É nisso que nós, habitantes do 
líquido mundo moderno somos diferentes. Buscamos, construímos e mantemos 
as referências comunais de nossas identidades em movimento lutando para nos 
juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos 
e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo” 
(BAUMAN, 2005, p. 32). 
Na escala da atualidade “subiram” os valores “capacidade de mudança” 
e de “adaptação”, “inovação”, “experimentação”, aceitação do “novo” e outros 
semelhantes. E é novamente esse autor quem completa: “no admirável mundo 
23 
 
novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as identidades ao estilo 
antigo, rígidas e inegociáveis simplesmente não funcionam” (BAUMAN, 2005, p. 
33). 
Apesar de toda essa valorização do “novo” pode-se perceber, 
especialmente no ocidente cristão, uma direção, um ordenamento que, embora 
na prática se apresente constantemente com falhas e retrocessos, mostra-se 
estável e constante: a permanente busca dos valores do “respeito”, da “justiça” e 
da “igualdade de deveres e direitos”. Todos os movimentos culturais se fazem 
no sentido de garantir ao ser humano cada vez mais igualdade de gênero, etnia, 
idade e classe social. 
Percebe-se que o valor “igualdade”, pelo menos teoricamente, está no topo 
da escala. O “respeito” pelo outro seja ele quem for que modalidade de vida 
tenha escolhido, e a prática da “justiça social” são valores almejados atualmente 
como nunca antes tinham sido. Esses valores, trazidos pelo Cristianismo, nem 
sempre, mesmo no mundo cristão, foram considerados primordiais. Com o 
passar dos anos, cada vez mais, em todas as culturas são postos como objetivos a 
alcançar. Diante da recorrente pergunta sobre se a humanidade está 
aprimorando-se ou retrocedendo embora, num primeiro momento, diante das 
dificuldades do presente a impressão seja de piora, de degradação, inclusive do 
meio ambiente. 
Constata-se uma reordenação dos valores de modo que seja dada maior 
ênfase, pelo menos teoricamente, à igualdade, ao respeito e à justiça. Ao mesmo 
tempo, pode-se constatar a descida na escala, de outros valores como: a 
fidelidade, a constância, o espírito de sacrifício, a humildade, a obediência. 
No âmbito da educação, valoriza-se especialmente a capacidade de 
comunicação que se revela pela importância dada ao conhecimento de idiomas e 
pela utilização da internet. Pelo conhecimento de emprego prático e eficiente, 
pelas diversas modalidades de tecnologia, ao contrário das reflexões metafísicas 
e abstratas. Ressalta a ênfase dada ao conhecimento que possa gerar valor 
econômico. Fica bem clara a importância dada à independência, à 
autossuficiência, como mostra o relevo atualmente dado a conhecimentos que 
levem à profissionalização e até em áreas específicas como gastronomia e 
artesanato. 
O conhecimento é visto como grande valor que pode promover a 
valorização das personalidades, permitindo a sua ascensão no plano pessoal, 
profissional, econômico e social. Uma característica fundamental dos valores é a 
polaridade. 
Os valores apresentam-se sempre como positivos e com os seus 
correspondentes negativos ou contra valores. Diante deles, a reação é sempre de 
busca, de aproximação, de amor ou de afastamento, repulsa e ódio. É impossível 
24 
 
a neutralidade. Mostra Risieri Frondizi (1968, p. 18) que “os valores estão, ainda, 
ordenados hierarquicamente, isto é, há valores inferiores e superiores. Não se 
deve confundir a ordenação hierárquica dos valores com a sua classificação. Uma 
classificação não implica, necessariamente, uma ordem hierárquica”. 
As diversas classificações de valores que os diferenciam pela modalidade 
de atendimento às necessidades humanas, não implicam em nenhum 
escalonamento. Vêm-se então os valores materiais que correspondem às 
necessidades físicas de bem estar e saúde, os valores lógicos, os éticos, os 
estéticos, os afetivos, os sociais, os religiosos. A hierarquização não se prende à 
modalidade, mas à capacidade de satisfazer com maior plenitude e durabilidade 
aos anseios humanos. Embora se possa reconhecer a existência de uma hierarquia 
de valores, não é fácil definir com clareza qual a melhor nem a mais perfeita. O 
processo de hierarquização vai depender do critério adotado. Novos valores ou 
nova hierarquia de valores? 
São incontáveis as propostas de escalas de valores apresentadas pelos 
vários pensadores resultantes de diferentes concepções, que vão de uma 
antropologia naturalista, que vê o espírito como simples derivação da natureza, 
como a de Freud, por exemplo, até as espiritualistas que consideram a matéria 
como empecilho para o desenvolvimento humano como a de Platão. 
São inúmeras as dificuldades para a hierarquização dos valores. A 
primeira liga-se a questão da sua objetividade ou subjetividade. Sendo eles 
objetivos, sua hierarquia adviria deles próprios, independendo da vontade 
humana; caso contrário, ela seria diferente e especial paracada homem. 
É extremamente difícil demonstrar a objetividade dos valores. Mais fácil é 
perceber as necessidades universais do ser humano, o que naturalmente levaria 
a uma escala de valores que pudesse satisfazê-las segundo o seu nível de 
exigência e prioridade. Considerar os valores subjetivos, como criações humanas 
significa desvalorizá-los, relativizá-los e assim a minimizar a sua importância 
para o homem. A hierarquia de valores feita por um critério empírico só teria 
validade particular e temporal. Seria variável e não universalmente válida e 
assim todos os comportamentos humanos igualmente admitidos. 
O subjetivismo tem seu foco no processo de valoração, na interferência do 
homem no processo. O objetivismo, ao contrário parte das necessidades humanas 
e aceita a independência dos valores como o modo ideal de supri-las. Para as 
doutrinas subjetivistas, o sujeito cria o valor e não apenas o aprende. Para uns, 
seria o prazer, para outros, o interesse; para outros, ainda seria o desejo a fonte 
do valor, mas, seria ele sempre uma criação humana variando somente com o 
tempo, as culturas e as situações. 
Para o objetivismo, os valores são independentes dos bens e dos sujeitos 
que os valoram. São absolutos ou imutáveis, variando apenas quanto à sua 
25 
 
hierarquia. Max Scheler (1941, p. 39), em sua Ética condena “toda doutrina que 
reduza os valores em sua própria essência aos homens e à sua organização, seja 
esta psíquica (psicologismo) ou psicofísica (antropologismo), quer dizer que 
pretenda por o ser dos valores em relação com o homem e sua organização”. 
É a posição extremada que entende os valores como totalmente 
independente do homem com suas carências e necessidades. O homem, no 
entanto, não apenas tende para os valores que o podem completar e dos quais 
sente necessidade, mas é ele próprio, em si mesmo, valor. Para determinadas 
concepções de antropologia, como a cristã, por exemplo, o homem não é apenas 
o indivíduo, mas uma pessoa com caráter próprio e, portanto, valor em si mesmo. 
Não só porta valores, mas, é um valor enquanto pessoa, ser racional, capaz 
de agir livremente e de vida afetiva. Enquanto indivíduo é o homem limitado 
pelo seu corpo, suas necessidades físicas, sua condição geográfica e histórica, 
suas circunstâncias enfim. No entanto, além de indivíduo, é ele um ser pessoal 
com dignidade própria, e assim com direitos e deveres. A pessoa é o ser capaz de 
dar sentido às coisas, de valorar e de instaurar o valor. 
A natureza só serve para o homem na medida em que ele lhe dá um 
sentido. O homem, sim, importa sempre para o homem. O “outro” o 
“semelhante”, vale por si mesmo, por ser aquele que vai revelar e transmitir os 
valores. Do ponto de vista subjetivo, é certo que o sujeito reconhece de início o 
valor puro e se conhece negativamente como privado de valor. 
Na hierarquia a ser constituída sobreleva-se o valor da pessoa e o valor de 
“outro” enquanto “pessoa”. Não se pode prescindir do “outro”, valor por si 
mesmo, pois ele vai ocupar um lugar primordial em qualquer escala. Nada mais 
ofensivo do que olhá-lo como “coisa” destituindo-o de sua dignidade. Nada pior 
para o ser humano do que a indiferença que é o mesmo que negar a sua 
humanidade. 
O homem chega então à consciência de si mesmo pelo conhecimento do 
valor de que se sente privado. Por meio dele, conhece a sua destinação ao valor 
pleno e absoluto que fundamenta assim o seu referencial para a sistematização 
dos múltiplos valores que vão satisfazer suas inúmeras necessidades. 
O “outro” é portador dos valores dos quais se tem necessidade. É ele que 
possui a bondade, a inteligência, a beleza, o afeto que se deseja. No entanto, 
embora se revelando pelos valores ou pelos contra valores que carrega o “outro” 
vale por si mesmo, como pessoa humana e não apenas por ser portador de 
valores. 
Nada pode agredi-lo mais do que considerá-lo como simples coisa, objeto 
ou mesmo como uma ideia. O “outro” além de pessoa é também uma 
personalidade, ou seja, um conjunto estruturado de carências e de valores e como 
26 
 
tal, objeto de experiência e apreensão. Novos valores ou nova hierarquia de 
valores? 
Constitui-se então como um conjunto orgânico de carências e de valores 
espontâneos e instaurados. A personalidade engloba valores e contra valores que 
se estruturam de modo a fazê-la original, própria, individual, diferente uma da 
outra. Há sempre a necessidade da opção por valores e, ao mesmo tempo, em 
que essa opção decorre da personalidade, ela a forma e a constitui. A 
hierarquização dos valores depende da personalidade e das escolhas feitas que 
constroem essa mesma personalidade. 
O outro não apenas revela o valor, mas, traz o contra valor pelo que nega 
e prejudica. Ele apresenta-se, ao mesmo tempo, como promessa e ameaça, como 
força e fraqueza, como verdade e erro, como bondade e maldade. Como fonte de 
satisfação e de decepção, mas sempre como ser de referência, como modelo a ser 
copiado ou condenado. O “outro” enquanto pessoa é sempre valor, mas 
enquanto personalidade é mensageiro do valor e do contra valor. 
Gobry (1975 p. 71) mostra que “é o “outro” que, no início da existência traz 
o amor, a alegria e a segurança. Na infância, o outro é a fonte do valor que, 
enquanto autoridade na qual se têm fé, é certeza. Essa segurança da infância, no 
entanto, não é duradoura. Bem cedo, o “outro” torna-se a ocasião das decepções. 
Se por meio dele conheceu a bondade é, por meio dele, que vai conhecer a 
maldade. Se conheceu o interesse, vai conhecer o desinteresse”. Chega-se então 
à necessidade do estabelecimento de um critério que permita a avaliação do 
valor. 
Pode-se admitir a perenidade e a universalidade como tal. Os valores 
seriam verdadeiros se valessem no universalmente embora variando de 
importância na escala de acordo com o tempo e com o espaço. A pessoa seria 
então o valor por excelência. A desconsideração, a desvalorização do homem que 
ocorreu em todos os tempos através da história é tida como agressão, como 
violência, como erro, não podendo nunca ser admitida como possível, como fato 
natural ou cultural em determinado tempo e espaço. 
Nas coisas encontram-se participações do valor, mas não o valor 
propriamente dito. Nelas, por exemplo, encontra-se alguma beleza, mas não a 
própria “beleza”. Não se criam e não se inventam valores. Eles se encontram ou 
são instaurados nas coisas conferindo-lhes uma significação. A hierarquização 
dos valores, embora feita pelos juízos de valor depende, em grande parte, da 
personalidade de cada um: nas de sensibilidade mais desenvolvida prepondera. 
 O interesse pelo nobre, pelo bom, pelo verdadeiro. Outras dão maior valor 
ao estético até mesmo sobrepondo-o ao ético. Há as que prezam mais a vida em 
sociedade e a afetividade. O que mais querem é a presença do “outro”. 
Abominam a solidão que é considerada como grande contra valor. Há as que 
27 
 
priorizam o sagrado, a saúde, a família, o conhecimento ou outros valores da 
escala. A preferência pelos valores aparece mais como tendências do que como 
atitudes exclusivas. A predominância de uma delas decorre não só da 
personalidade de cada, mas ainda da educação recebida nos seus primeiros anos. 
Essa dominância deve ser claramente conhecida por cada um para que 
consiga estabelecer o equilíbrio e o respeito por outras formas de hierarquia. 
Priorizar os valores independentemente das pessoas que os sustentam leva à 
admissão de sectarismos, a desrespeitar a liberdade humana, a condenar as 
variações das culturas, a dogmatizar ideologias. 
Ao contrário, priorizar as pessoas e as suas personalidades desvinculando-
as dos valores que portam, a aceitar o arbitrário, o relativismo que acaba 
prejudicando os interesses dessas mesmas pessoas. Refletindo um pouco sobre a 
hierarquização de valores do momento atual podem permitir algumas 
considerações. 
É de Max Scheler (1972,p. 146) a seguinte afirmação: “nos iniciamos nossas 
considerações com uma regra preferencial, que se tornou determinante para a 
moral do mundo moderno. Esta regra chama-se: um valor ético só advém às 
propriedades, ações, etc, que o homem enquanto indivíduo adquire, se estas 
aquisições forem feitas através de suas forças e trabalho”. 
No pensar de Scheler (1941), o trabalho como processo de agregação de 
valor à matéria e à autonomia do sujeito são valores que, na atualidade, subiram 
na escala em detrimento de outros. São inúmeras as modalidades e os critérios 
de hierarquização de valores. Alguns muito prezados no passado, hoje, estão em 
segundo plano e outros pouco valorizados são atualmente muito considerados. 
Não é possível se definir uma hierarquia perfeita e ideal válida para todos 
os tempos e todos os lugares. A saída está no estabelecimento dos critérios 
justificáveis, segundo os quais vai ser feita a hierarquização. Propõem-se aqui as 
noções de “pessoa humana” e de “personalidade” como referências justificáveis 
para hierarquização dos valores. Novos valores ou nova hierarquia de valores. 
Os valores universais, que devem ser priorizados, são os que atendem às 
necessidades da pessoa humana. Os variáveis e secundários são aqueles que 
correspondem às múltiplas personalidades com suas características próprias e 
individuais. Com o objetivo de promover a reflexão sobre essa questão se 
apresenta apenas como ilustração, um questionário, que pode ajudar ao 
reconhecimento da própria escala de valores. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
AUMAN, Z. Identidade. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 2005. 
28 
 
GOBRY, Y. De la valeur. Louvain, Paris: Vander; Vauwelaerts, 1975. 
FRONDIZE, R. ¿ Que són los valores?. México: Fondo de Cultura Econômica, 
1968. 84 Vera Rudge Werneck Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 2, n. 4, p. 73-
86, jan./abr. 2010 
SCHELER, M. Ética: nuevo ensaio de una fundamentacion de un personalismo 
ético: termo 1. Tradução Hilário Rodrigues Sanz. Madri, 1941. SCHELER, M. Da 
reviravolta dos valores. Tradução Marco Antônio dos Santos. Petrópolis, RJ: 
Vozes, 1972. 
WERNECK, V. R. Educação e sensibilidade. Rio de Janeiro: Forense Universitá 
 
 
MÓDULO VI – RETÓRICA E ORATÓRIA 
Quando pensamos a retórica no gênero discursivo jurídico, não podemos 
desviar da qualidade e do campo de possibilidade que a intertextualidade ou a 
heterogeneidade discursiva nos permite em termos de conquista de um percurso 
argumentativo sólido. 
Essa particularidade se revela interessante à medida que denota que é em 
função da ilusão de origem do sujeito que esse jogo de vozes, que ora se 
completam, ora se contradizem, mas que partilham do mesmo espaço discursivo, 
instauram sentidos a partir do discurso do Outro, constitutivo do discurso que o 
sujeito acredita ser seu. 
Considerando o Outro como constitutivo do discurso do sujeito que o 
enuncia, entendemos que a possibilidade de analisá-lo reside na historicidade 
representada pela materialidade discursiva que permite ao analista chegar à 
noção de diferença, uma vez que, ao apropriar-se do discurso do Outro, o sujeito 
não o demarca dado ao próprio desconhecimento da heterogeneidade 
constitutiva de seu discurso, e com a qual se relaciona através de diferentes 
modos de denegação, conforme pudemos depreender da proposta de Authier-
Revuz (1982 e 1984). 
Ao contemplarmos a questão da heterogeneidade mostrada, 
consideramos que este tipo de heterogeneidade possa ser entendido como 
resultado de uma espécie de acordo imaginário que se estabelece entre o sujeito 
e seu leitor virtual, já no ato da elaboração do texto, seja ele escrito ou oral, a 
partir das formações imaginárias, quando então, o sujeito enunciador recorre a 
determinadas demarcações para reafirmar seu lugar de enunciação como fonte e 
origem do discurso que enuncia. 
Assim, à medida que o sujeito se apresenta ao seu interlocutor virtual no 
domínio das normas que o regulam, ele acentua sua ilusão de onipotência e 
29 
 
independência, como o "dono de seu pensamento" que, em nosso entender, 
reafirma a ilusão de "controlador" que o perpassa, pois ao demarcar o discurso 
do outro que retoma, o sujeito demonstra ser conhecedor das normas éticas de 
modo ao não se apropriar do dizer do outro. 
Ao proceder a demarcações, o sujeito, provavelmente, tem a ilusão de 
"burlar" as normas que o regulam, sem, no entanto, perceber que o próprio 
percurso o remete ao mesmo assujeitamento que lhe é imputado pela instituição, 
e que ele somente tem ilusão de controlar. 
Consideramos que o sujeito demarque o discurso do outro movido pelo 
desejo de atribuir maior credibilidade ao seu próprio dizer e, assim, tornar 
irrefutável seu argumento. Essa demarcação se concretiza em função da 
aceitabilidade que o outro possa ter perante o seu interlocutor virtual. 
Uma outra possibilidade que, a nosso ver, justifica esse procedimento do 
sujeito, remete-nos novamente à questão da ilusão de origem que perpassa o 
sujeito (PÊCHEUX & FUCHS, 1975), somada à sua ilusão de onipotência. 
Entendemos que, perpassado pela ilusão, o sujeito se entende investido do 
direito de corroborar ou refutar o dizer do outro, que, em algum outro momento 
de enunciação, possa ter dito o que ele não se permite estar repetindo como 
plágio. Assim, é exatamente por se entender na origem do seu discurso que o 
sujeito entende que o outro possa ter dito o que ele (sujeito) não repete, mas 
também diz. 
Entendemos, ainda, que os sentidos instaurados a partir do outro, que o 
sujeito parece autorizar em seu espaço discursivo, favorecem o argumento do 
sujeito, independentemente do fato de a demarção ter se dado em função de 
normas institucionalizadas de autoria. 
Nossas considerações nesse sentido se dão em relação ao fato de 
entendermos que o sujeito, no cumprimento das normas que lhes são impostas, 
serve-se das mesmas regras que o controlam para escamotear formas do dizer 
que lhe permitem proceder aos atos de convencer, persuadir e/ou dissuadir na 
direção de seus objetivos. 
Esse aspecto, em nosso entender, favorece o sujeito a consolidar a 
estrutura argumentativa que, lhe permite atingir o objetivo delineado por ele, 
objetivo este que se sobrepõe à sua própria resistência em partilhar com outro 
enunciador do discurso do qual se entende "senhor". 
Entendemos a pertinência de estabelecer algumas articulações teóricas 
entre Authier-Revuz (1982, 1984 e 1990) no que tange à heterogeneidade 
discursiva e outras teorias de maneira a elucidar como a heterogeneidade 
mostrada e constitutiva funcionam enquanto estrutura argumentativa do 
discurso jurídico enunciado no Tribunal do Júri. 
30 
 
Apresentaremos articulações teóricas entre a heterogeneidade discursiva 
e outras teorias que, em nosso entender, nos permitem refletir como o processo 
da heterogeneidade discursiva se viabiliza de maneira a consolidar a estrutura 
argumentativa do discurso jurídico sobre a qual nos debruçaremos nesta 
pesquisa. 
Os autores que fundamentam as articulações que passamos a tecer não 
trataram a questão da heterogeneidade discursiva quando da proposta das 
teorias que passamos a apresentar, nossa opção por proceder a essas articulações 
teóricas surge da necessidade de compreendermos como a heterogeneidade 
discursiva se relaciona com essas teorias de modo a funcionar como estrutura 
argumentativa do discurso jurídico, que é o objeto deste estudo. 
Pensar o percurso argumentativo do discurso jurídico enunciado no 
Tribunal do Júri de maneira a entender os sentidos que esse discurso instaura nos 
imputa a necessidade de definir a discursividade própria dessa enunciação. E, 
nesse sentido, temos de partir do fato de que todo discurso é por excelência 
heterogêneo na medida em que outras vozes se fazem ouvir no discurso do 
sujeito que ora as retoma de forma marcada, na ilusão de que o espaçodemarcado é do outro enquanto o espaço não-demarcado é seu, ora as repete 
imiscuindo-as no seu dizer como se as escamoteasse ou ainda se não se permitisse 
reconhecer as fronteiras que demarcam o seu dizer e o dizer do Outro 
(AUTHIER-REVUZ, 1982 e 1984). 
A impossibilidade de se conceber um discurso homogêneo, encontra 
ainda, respaldo em Pêcheux (1969), a partir da sua concepção de discurso 
enquanto "efeito de sentidos entre locutores". Trata-se da ilusão de poder que 
toma o sujeito no tocante ao seu dizer, de modo que acaba se reafirmando, a tal 
ponto que, perpassado pela ilusão de ser o "senhor" do seu discurso, o sujeito 
pensa controlar o sentido do seu dizer. 
É pertinente, portanto, entender que a aparente homogeneidade que o 
sujeito busca dar ao texto, na realidade, parte de normas já institucionalizadas 
que exigem que o autor o alcance de uma aparente unidade de sentidos imputada 
pelo princípio da autoria que, segundo Orlandi & Guimarães (1988), imputa ao 
autor responsabilidade social pelo seu dizer. 
À medida que se vê limitado por normas, o sujeito busca atingir uma 
aparente homogeneidade, que, na realidade, nada mais é que uma espécie de 
"maquilagem" cujo fim é o de esconder as diferenças dos seus diferentes lugares 
de enunciação, muitas vezes determinados cursivas que dividem o mesmo 
espaço discursivo. 
A intensidade do conflito leva o sujeito a criar mecanismos discursivos 
mais eficazes para atingir seu objetivo primeiro. Buscamos compreender a 
questão do sujeito descentrado a partir da "função do desconhecimento do 'eu' 
31 
 
enquanto uma espécie de 'ilusão-fantasma' de que o sujeito é o centro do 
discurso, remetendo-nos à “teoria do descentramento do sujeito falante que pode 
ser o senhor de sua morada" (FREUD, apud BRANDÃO,1988). 
O papel da ilusão de origem que perpassa o sujeito, no momento 
discursivo, (PÊCHEUX & FUCHS, 1975), é fundamental para que se compreenda 
melhor o fato de o sujeito enunciar o Outro, sem fazer qualquer referência a ele, 
significando-o enquanto constitutivo de seu discurso. 
Contudo, não podemos pensar que a ilusão de origem possa ser superada 
pelo sujeito no momento em que este demarca o discurso do outro em seu espaço 
discursivo, uma vez que, em nosso entender, o simples fato proceder a 
demarcações permite ao sujeito reafirmar sua ilusão de origem porque se entende 
"senhor" do discurso que enuncia, inclusive, em relação àquele com quem divide 
seu espaço discursivo. 
No tocante ao discurso jurídico enunciado no Tribunal do Júri, há que se 
considerar que o princípio da autoria é, igualmente, regulador do dizer de todos 
que têm o direito a voz neste particular lugar de enunciação, uma vez que todos 
são regulados pela responsabilidade do seu dizer, na medida em que as 
consequências decorrentes do que é dito em um tribunal dessa ordem são 
norteadoras do veredicto ao qual os jurados devem chegar ao final dos trabalhos. 
A tensão que perpassa todo dizer o rito do júri toma conta de toda 
enunciação. Ao juiz compete presidir a enunciação do júri dentro do que 
preceitua a normatização do direito processual penal e do direito penal, 
provendo garantias para que o devido processo legal não seja comprometido, 
dando ao réu concretas condições de ampla defesa em toda sua plenitude. Ao 
promotor e ao defensor impõe-se a necessidade premente de manter a coerência 
com as teses que defendem. Às testemunhas compete o dever de dizer a verdade, 
exigência que, se não cumprida, gera consequências legais, conforme lhes orienta 
o juiz, na medida do compromisso que prestam. Ao réu cabe pensar cada palavra 
ou rever cada gesto e beneficiar-se do momento em que tem a chance de ser 
ouvido pelos jurados naquela enunciação, responsáveis que são pelo destino que 
será dado à sua vida ao final. 
Entendemos que a tensão própria da enunciação do Tribunal do Júri 
aumenta o conflito a ser superado pelas partes (promotoria e defensoria) na 
conquista da adesão dos jurados às suas teses. Quanto maior o conflito, mais 
heterogêneo o discurso se mostra, porque o sujeito enunciador recorre a toda 
sorte de argumentos para estruturar o percurso que escolhe para atingir o fim 
desejado, qual seja a conquista da adesão de seus interlocutores à tese que lhes 
submete. 
No Tribunal do Júri, a adesão se materializa pela votação que dará ao caso 
julgado o destino. Considerando-se que o voto dos jurados é soberano e que estes 
32 
 
são leigos ao conhecimento técnico envolvido, os sujeitos enunciadores/defesa ou 
promotoria esmeram-se para dar ao seu dizer marcas da irrefutabilidade. Valem-
se de lógica no que se refere às provas, laudos e depoimentos. Esmeram-se na 
retórica forense no momento de tecer suas considerações quando se dirigem aos 
interlocutores/jurados, sobretudo durante os debates e na fase da réplica 
(promotoria) ou tréplica (defensoria). 
As várias vozes que estruturam o percurso discursivo das partes formam 
a heterogeneidade discursiva que, por sua vez, se manifesta de duas formas, a 
mostrada que, segundo Authier-Revuz (1984), é constituída por formas 
linguísticas que representam as diferentes maneiras de o sujeito falante negociar 
com o dizer do outro que ele (sujeito) permite que constitua o seu discurso. E a 
forma constitutiva que reúne outros dizeres que se misturam ao discurso do 
sujeito sem que sejam por ele demarcados. 
Na concepção da autora, a heterogeneidade mostrada pode se manifestar 
sob "uma forma de denegação", ou seja, uma espécie de proteção do sujeito em 
relação à heterogeneidade constitutiva de seu discurso. Trata-se de um 
procedimento resultante do fato de o sujeito desconhecer o que é constitutivo do 
seu discurso em função da ilusão de origem que o perpassa. 
A autora acrescenta que esse tipo de heterogeneidade pode se dar por 
intermédio de formas marcadas por conotação autonímica, que, ao contrário das 
formas marcadas por autonímia simples, caracterizam a presença do outro no fio 
discursivo sem qualquer ruptura sintática. 
O fragmento designado como um outro é integrado à 
cadeia discursiva sem ruptura sintática: de estatuto 
complexo, o elemento mencionado é inscrito na 
continuidade sintática do discurso ao mesmo tempo que, 
pelas marcas, que neste caso não são redundantes, 
remetido ao exterior do discurso (AUTHIER-REVUZ, 1990, 
pp. 29 e 30). 
 
A autora chama a nossa atenção para o fato de que toda compreensão e 
interpretação de marcas como: aspas e itálico no glosado passa por uma 
especificação da alteridade de natureza implícita a que remete devido ao seu 
ambiente discursivo - "(...) uma outra língua, variedade de língua, um outro 
discurso diferente, um discurso oposto, etc." 
(...) no sentido específico de um conjunto infinito de 
expressões - de glosas, retoques, comentários sobre um 
fragmento de cadeia", que, independentemente de se 
apresentarem demarcadas por aspas ou itálico, fornecem 
33 
 
"parâmetros, ângulos, pontos de vistas através dos quais 
um discurso põe explicitamente uma alteridade em relação 
a si próprio (AUTHIER-REVUZ, 1990, p.30). 
 
Segundo a autora, as formas que acenam para o exterior do discurso a 
ponto de interferir na cadeia enquanto forma de heterogeneidade são: 
(...) - uma outra língua - um outro registro discursivo - um 
outro discurso caracterizado como discurso dos outros. - 
uma outra palavra potencial ou explícita nas figuras de 
reserva, de hesitação e de retificação, de confirmação; - um 
outro interlocutor, diferente do locutor e a este título 
suscetível de não compreender (exemplo: você entende o 
que eu quero dizer) (AUTHIER-REVUZ, 1990, p.30). 
Segundo o que nos foi possível compreender, a outra modalidade de 
tomada de sentido, à qual a autora se refere, se dá através "de uma palavra, que 
recorre explicitamente ao exterior de um outro discurso especificado, ou aquele 
da língua como lugar de polissemia, homonímia, metáfora, etc,

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