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Norma Culta

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Variação linguística: o que é? 
A língua sofre variações ao longo do tempo, conforme o espaço geográfico, a estrutura 
social e a situação ou o contexto de uso. Isso significa dizer que uma língua está 
sujeita a passar por modificações no tempo e no espaço a fim de satisfazer às 
necessidades de expressão e de comunicação, individuais ou coletivas, de seus 
usuários. 
 
 
 
 
 
 
Essas perguntas evidenciam que nossa fala pode variar de acordo com a situação 
ou com o contexto, conforme o falante e as pessoas que ouvem (interlocutores), o 
assunto tratado ou a intenção da mensagem. Perceba que a variação 
linguística corresponde a diferentes ocorrências de uma mesma língua. 
 
Tipos de variações linguísticas 
Sem nos preocuparmos muito com classificações técnicas e exaustivas, próprias 
da Sociolinguística, podemos dizer que a variação linguística pode ser de, pelo 
menos, três tipos: 
 
 
 
Abordaremos cada um desses tipos a seguir. 
 
Regional 
Variações da língua numa perspectiva geográfica, originando os regionalismos. Manifestam-se, 
principalmente, pelo sotaque e por palavras ou expressões utilizadas pelos falantes de 
determinada região. Um exemplo desse tipo de variação são os falares ou dialetos. 
Veja a diferença entre alguns falares no Brasil: 
Cearense: 
Êta que esse curso é bem arretado! 
Carioca: 
Caraca! Esse curso é muito maneiro! 
Mineiro: 
Nossinhora! Esse curso é bom demais da conta, sô! 
Gaúcho: 
Bah, esse curso é tri! 
As diferentes designações no Brasil para um mesmo referente ou aspecto da realidade é outro 
exemplo de variação linguística na dimensão geográfica: macaxeira no nordeste, mandioca em 
São Paulo e aipim no Rio de Janeiro correspondem à mesma raiz utilizada na culinária 
nacional. 
 
 
 
Sendo o português uma língua falada por diversas nações, em diferentes continentes, é 
interessante lembrar que a língua também varia de um país para outro, tanto na fala quanto 
na escrita. Ainda que o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa procure padronizar a 
grafia das palavras, há alguns aspectos na escrita que são peculiares em Portugal e outros no 
Brasil. 
 
 
De registro 
Variações relacionadas com modalidades expressivas adotadas por um mesmo falante ou 
segmento social em função do contexto, do interlocutor e das expectativas sociais. 
De acordo com Coseriu (1980, p. 110-111), os registros linguísticos, ou estilos, são diferentes 
porque as situações e os interlocutores diferem muito, bem como as expectativas sociais, 
influenciadas pela cultura. Por isso, podemos perceber que, além dos registros individuais, há 
aqueles que expressam a identidade de grupos profissionais ou biológicos (homens, mulheres, 
jovens, crianças). 
Os registros ou estilos se classificam em pelo menos três tipos: 
 
Grau de formalismo 
Representa uma escala de formalidade no uso dos recursos da língua. Podemos ir de um estilo 
muito informal e popular (troca despretensiosa de mensagens no WhatsApp, por exemplo) até 
um excessivo grau de formalidade no uso da língua (redação de um ofício, por exemplo). 
Simplificando, podemos afirmar que há pelo menos dois registros alusivos à 
formalidade: formal e informal. Logo, os diferentes estilos corresponderão ao grau de 
formalismo do contexto comunicativo, determinando as diferentes maneiras de usar a língua. 
 
Modo 
Representa as duas modalidades da língua: a oral e a escrita. A língua falada pode usar 
recursos como entonação, ênfase de termos ou sílabas, duração dos sons, velocidade em que 
se dizem as sequências linguísticas etc. Além disso, a oralidade se caracteriza pelas hesitações, 
repetições, retomadas, correções e outras marcas que não são comuns à escrita. A escrita 
tende a ser mais formal e a fala mais informal, embora existam exceções; há textos altamente 
formais na língua falada e outros extremamente informais na língua escrita. 
 
Sintonia 
Representa o ajustamento na estruturação das mensagens do falante, com base em 
informações específicas acerca do ouvinte ou leitor (status do interlocutor, tecnicidade do 
conteúdo da mensagem, necessidade de cortesia no trato com o outro, norma a ser seguida 
etc.). 
 
Imagine que um profissional da saúde, ao preparar ou orientar uma criança para determinado 
procedimento, usará um registro ou estilo de linguagem distinto da linguagem usada com um 
paciente adulto. Com a criança, por exemplo, o vocabulário será mais simples, com algumas 
palavras no diminutivo, e o tom de voz mais afetivo. 
 
Pense em outra situação: você precisa recusar dois convites que recebeu, um da pessoa que 
você namora e outro do diretor da empresa em que trabalha. Faz sentido usar as mesmas 
expressões ou estilo ao responder a pessoas com as quais você tem diferentes graus de 
intimidade? Certamente vamos usar estilos ou registros diferentes. 
 
 
Social 
As diferentes formas de falar marcam os grupos sociais ou, até mesmo, a faixa etária de 
determinado conjunto de pessoas. Ao ouvir alguém falando “percurá” (no lugar de procurar), 
“iorgute” (em vez de iogurte), “os hôme” (e não os homens) ou “pra mim fazer” (no lugar 
de para eu fazer), certamente você associará esse falante a um grupo social com baixa ou 
nenhuma escolaridade. 
A falta de domínio da língua padrão, prestigiada socialmente, é um indicador de 
pertencimento a determinado grupo social. 
As gírias usadas por um falante podem revelar também a que grupo social e à qual faixa etária 
ele pertence. Do mesmo modo, os jargões técnicos podem indicar a atividade profissional de 
quem os utiliza. 
 
*Juridiquês é uma palavra criada para designar o uso rebuscado e exagerado de jargão e termos 
técnicos da área jurídica. 
**Economês designa os termos técnicos ou jargões utilizados pelos economistas. 
 
Aula de Português 
(Oswald de Andrade)
 
Para dizerem milho dizem mio 
Para melhor dizem mió 
Para pior pió 
Para telha dizem teia 
Para telhado dizem teiado 
E vão fazendo telhados 
 
Note que o poema apresenta construções da língua portuguesa que são típicas de falantes de 
classes sociais menos escolarizadas, revelando pronúncias contrárias à ortoepia, ou seja, 
distintas do que a norma gramatical determina. As pronúncias fora da norma gramatical, no 
entanto, não impedem a comunicação e muito menos a construção dos telhados. 
Embora se trate de uma variedade linguística desprestigiada socialmente, o poema não 
estigmatiza essa variante linguística, pois sugere uma valorização do trabalho das pessoas mais 
simples com o verso final: “E vão fazendo telhados”. 
 
 
A linguagem da Internet 
Além das variações linguísticas que você acabou de conhecer, também é importante prestar 
atenção às alterações que a língua portuguesa apresenta nos meios digitais. 
Com a Internet e os diversos recursos para escrever e falar usando um computador ou celular, 
surge uma variedade linguística que recebeu o nome de Internetês. 
Algumas características da variedade linguística na Internet são: 
 
 
 
A informalidade e a irreverência da linguagem na Internet acabam se distanciando da 
formalidade da língua que utilizamos nos documentos, nos livros, na escola ou nas relações 
mais formais no trabalho. Por isso mesmo, haverá inadequação no uso da língua quando 
escrevermos um trabalho acadêmico ou redigirmos um e-mail na empresa em que 
trabalhamos com a informalidade ou alguma característica do Internetês. 
Para o gramático Evanildo Bechara (2000), a Internet não se constitui em uma inevitável 
ameaça à língua. Na verdade, a Internet coloca a necessidade de um uso adequado da língua 
portuguesa: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Constatar que a língua varia, seja em seu uso na Internet ou na diversidade de espaços e 
situações comunicativas, deve nos levar a reconhecer a legitimidade das diferentes linguagens 
e evitar o preconceito ou a estigmatização de falares, dialetos ou qualquer variedade 
linguística. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que a língua aprendida na escola 
constitui a normapara comunicação e convívio no ambiente acadêmico e profissional, além 
daqueles espaços e das interações sociais em que a língua padrão é a mais adequada. 
 
No próximo módulo, você conhecerá algumas características da língua padrão, também 
chamada norma culta, além de refletir sobre seu uso nas situações em que ela é necessária. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Contextualização 
Quando constatamos que a língua portuguesa varia em função da diversidade dos falantes, do 
espaço, do tempo, da situação de comunicação e de outros fatores, podemos nos perguntar se 
toda forma de usar a língua é válida, desde que as pessoas se entendam; ou indagar se esses 
diferentes usos da língua não seriam desvios e incorreções da língua padrão, da norma culta. 
Tais questionamentos são importantes porque todos nós aprendemos na escola a chamada 
língua culta, mas convivemos boa parte do tempo com usos da língua distantes ou diferentes 
da norma padrão, que estudamos nos livros de gramática. 
É preciso entender o que é a norma culta e qual o objetivo da gramática no aprendizado da 
língua para, então, respondermos sobre que tipo de língua usar nas diversas situações de 
comunicação do dia a dia. 
 
 
Norma culta 
A norma culta é aquela formada por um conjunto de estruturas concebidas como corretas, que 
podem ser usadas tanto para falar quanto para escrever. Trata-se da chamada variante padrão 
ou norma padrão. Ela é tão valorizada socialmente que, quando estão em um ambiente mais 
formal, os indivíduos com alto nível de escolaridade procuram monitorar sua fala. 
Como você pôde perceber, os registros informais e distintos da norma culta caracterizam o 
papel social do falante da língua. Se o falante tem baixa escolaridade e pertence a uma 
comunidade linguística que se comunica dessa forma, o uso que ele faz da língua evidencia 
exatamente o grupo social ao qual pertence. Nesse caso, não deve haver uma expectativa de 
uso da língua padrão. 
Por outro lado, se o falante teve acesso à educação formal e possui alto grau de escolaridade, 
a expectativa é de que ele utilize a norma culta como a opção mais adequada para se 
expressar em situações formais de comunicação. Caso isso não aconteça, ele frustrará a 
expectativa em função da classe social e comunidade linguística às quais pertence. 
Imagine um professor universitário em uma videoaula dizendo o seguinte: 
 
Embora o uso do pronome ELA como objeto direto seja comum na fala de muitas pessoas – 
mesmo escolarizadas –, não é prescrito pela gramática. 
 
Logo, a forma adequada conforme a norma culta é: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Essa imagem ou comparação da língua com o guarda-roupa nos ajuda a compreender o conceito 
de adequação no uso da língua. 
 
É adequado usar a norma culta quando essa é a expectativa da sociedade ou da comunidade 
linguística em função do nosso status, classe social, formação acadêmica ou atividade 
profissional. Também é adequado o seu uso nas situações de comunicação formais, oficiais, nas 
atividades escolares e acadêmicas, na atividade profissional etc. 
Em situações mais informais ou quando a expectativa da comunidade linguística em que 
interagimos for de uma comunicação coloquial, então usaremos a língua num registro menos 
formal, ainda que não inteiramente distante da norma culta. 
É preciso cuidado com as escolhas linguísticas que fazemos para que nosso interlocutor não as 
interprete como erro ou grosseria. Também devemos atentar para a escrita, pois algumas 
liberdades ou licenças numa fala mais informal podem ser inadequadas na escrita. Por exemplo, 
não fica bem escrever nas redes sociais ou num e-mail expressões ou incorreções gramaticais 
muito comuns na fala coloquial ou descuidada. 
 
O que define a norma culta da língua? 
De acordo com o professor e linguista Luiz Travaglia (2001, p. 25-26), os argumentos ou as 
justificativas para o estabelecimento da norma culta são os seguintes: 
Estéticos 
Uso de critérios como elegância, colorido, beleza, finura, expressividade. Rejeição de vícios 
como a cacofonia, colisão, eco, pleonasmo etc. 
Elitistas ou aristocráticos 
Opção pelo uso da língua pertencente à classe de prestígio em detrimento do uso das classes 
populares. 
Políticos 
Critério de purismo e vernaculidade. Rejeição de estrangeirismo ou qualquer aspecto que 
“ameace” a identidade ou soberania da nação ou da cultura nacional. 
Comunicacionais 
Critérios relacionados com a facilidade de comunicação e compreensão. As construções e o 
léxico devem resultar na “expressão do pensamento”. 
Históricos 
Recorre-se à tradição para critérios de exclusão e permanência de usos da língua. 
 
A norma culta ou língua padrão é dependente da observância e uso das regras estabelecidas 
pela gramática normativa. Por isso, vale entender um pouco melhor o que é e como ela funciona. 
 
 
 
Gramática normativa 
A gramática normativa é a gramática da escola, por meio da qual você aprendeu as principais 
regras ou normas da língua padrão, principalmente da modalidade escrita. Ela prescreve o que 
é considerado correto e reprova o que é errado de acordo com a norma culta, a única 
considerada como válida. Por isso mesmo, a gramática normativa também é denominada 
“gramática prescritiva”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Oswald de Andrade (1890-1954), no poema Pronominais, publicado em 1925, já retratava de 
forma irreverente e provocativa a imposição das regras da gramática normativa e a dificuldade 
de seu uso na fala das pessoas despreocupadas com a norma culta ou mesmo sem o seu 
domínio. Vamos ler o poema a seguir: 
 
Pronominais 
(Oswald de Andrade) 
 
Dê-me um cigarro 
Diz a gramática 
Do professor e do aluno 
E do mulato sabido 
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira 
Dizem todos os dias 
Deixa disso camarada 
Me dá um cigarro 
 
O poema é um interessante registro literário da variação linguística em função de diferentes 
modalidades (escrita e oralidade) e diferentes grupos ou classes sociais (letrados e não 
letrados). 
 
O poema opõe os usos do pronome “me”: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
*Ênclise: Quando o pronome é colocado após o verbo. 
*Próclise: Quando o pronome é colocado antes do verbo. 
 
Segundo Travaglia (2001, p. 24), a gramática normativa pode ser entendida, também, como 
“um manual com regras de uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se 
expressar adequadamente”. Assim, somente é abonado ou aceito pela gramática o que 
obedece às normas do bom uso da língua, configurando o falar e o escrever corretamente. Por 
isso, todas as outras formas de uso da língua são consideradas desvios, erros, deformações ou 
degenerações. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como temos visto, a gramática normativa está mais voltada para a variedade escrita da língua 
e se ocupa com a manutenção de regras consideradas próprias da língua culta ou de prestígio. 
Há, sem dúvida, uma tradição em se prestigiar a língua escrita. Possivelmente por ter 
características mais conservadoras, transformar-se mais lentamente e estar sob a proteção da 
ortografia. 
A escrita manifesta-se sempre em descompasso com as transformações da fala, cuja dinâmica 
do uso lhe traz alterações contínuas, naturais e bem mais velozes. Mas, como você aprendeu 
aqui, tanto a escrita quanto a fala de uma língua apresentam variações e mudam com o tempo 
e com os inúmeros estímulos que recebem. 
Estudar a língua portuguesa levando em conta o fenômeno da variação linguística e o 
entendimento do que vêm a ser a norma culta e a gramática normativa ajudará, certamente, 
você a se apropriar cada vez mais dos recursos da língua para um uso adequado às diversas 
situações comunicativas. 
 
 
Conteudista 
Luís Cláudio Dalier 
 
Referências bibliográficas 
BAGNO, M. A língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2005. 
BECHARA, E. 3 questões sobre língua portuguesa. In: Folha de S. Paulo. São Paulo, 2 jul. 2000. 
Mais!, p. 3 
COSERIU, E. Liçõesde linguística geral. Rio de Janeiro: Ao livro técnico, 1980. 
SALDANHA, L. C. D. Bibliotecas imaginárias e o livro eletrônico: possiblidades do texto no 
ciberespaço. In: Revista Philologus, Rio de Janeiro, v. 21, p. 26-37, 2001. 
TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. 9. ed. rev. 
São Paulo: Cortez, 2003. 
 
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