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OBSERVATÓRIO DE POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA DO SUDESTE (OPAAS)

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Ensino Superior (IES). Isto se deu de 
maneira voluntária em algumas IES e de forma compulsória 
noutras. Acreditamos que a posição do Brasil na Conferência 
da África do Sul foi determinante, pois passou a respaldar a 
reivindicação antiga e, também, a exigir de maneira mais con-
tundente a adoção de tais políticas. (2002, p.290)
A conjuntura política da implantação das primeiras 
experiências das ações afirmativas no Brasil sofreu grande 
4 Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Ra-
cial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada na cidade de Durban, 
África do Sul, em 2001. Esta conferência recomendou que os Estados, 
“apoiados na cooperação internacional, considerassem positivamente 
a concentração de investimentos adicionais nos serviços de educação, 
saúde pública, energia elétrica, água potável e controle ambiental, bem 
como outras iniciativas de ações afirmativas ou de ações positivas, 
principalmente, nas comunidades de origem africana”. (ONU, 2001)
Nos países em que foram adotadas, as políticas de ação afirmativa 
procuram minimizar os pesados custos sociais para as populações 
que foram colonizadas. No Brasil, onde a sociedade é multirracial 
e pluriétnica, procuram pautar-se pela construção e pelo aprofun-
damento dos ideais democráticos. 
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influência da Conferência de Durban. As discussões durante o 
processo de mobilização e preparação da delegação brasileira 
para participar desta Conferência e os reflexos dos debates na 
África do Sul contribuíram para criar uma atmosfera de ques-
tionamento da discriminação racial nos meios de comunica-
ção de massa e a adoção de programas de reserva de vagas 
por vários órgãos do governo. Pela primeira vez, a adoção de 
programas de ação afirmativa por reserva de vagas era tema 
de debate público, mobilizando instâncias administrativas nas 
IES. E isso ocorreu sob muita polêmica entre os que eram a 
“favor” e os que eram “contra” essas medidas. 
O marco histórico, e grande momento desta polêmi-
ca, foi o processo desencadeado no Supremo Tribunal Federal 
(STF) a partir de uma Ação de Descumprimento de Preceito 
Fundamental 186 (ADPF 186) impetrada pelo partido político 
Democratas (DEM) contra o programa de cotas raciais para 
ingresso no processo seletivo instituído pela Universidade de 
Brasília (UnB). O debate promovido pela mais alta corte jurídica 
do país, mediante audiência pública com a participação de re-
presentantes do movimento negro, do Ministério da Educação 
(MEC), universidades, sindicatos, intelectuais, entre outros, 
permitiu que os ministros tomassem conhecimento da pro-
blemática étnico-racial brasileira e da necessidade de adoção 
de políticas de ação afirmativa para diminuir as desigualdades 
sociais e raciais. A decisão contra a ação do DEM confirmou 
a constitucionalidade do sistema de cotas e foi extremamente 
relevante sob o ponto de vista político-institucional e, sobretu-
do, jurídico para o país, impulsionando a adoção deste tipo de 
políticas pelas próprias IES.5
Soma-se a isso as ações do governo federal no cam-
po da educação superior, como o estímulo à ampliação das 
matrículas na rede privada através do Programa Universidade 
Para Todos (PROUNI), criação de novas instituições federais 
de ensino superior (IFES) e o estímulo a políticas de inclusão 
como diretriz do Programa de Apoio aos Planos de Reestrutu-
ração e Expansão das Universidades Federais (REUNI).
Nesse contexto, depois de treze anos em tramitação 
no Congresso Nacional, foi promulgada e sancionada a Lei 
Federal nº 12.711/2012, conhecida como “Lei de Cotas”, re-
gulamentada pelo Decreto nº 7.824 e a Portaria do MEC nº 18 
no mesmo ano. A partir desta legislação, as universidades 
públicas federais e os institutos técnicos federais passaram 
a ser obrigados a reservar em cada concurso seletivo para 
ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mí-
nimo 50% das vagas, para estudantes que tenham cursado 
integralmente o ensino médio em escolas públicas. 
5 Audiência Pública realizada entre os dias 3 e 5/3/2010. 
Desta reserva, 50% devem ser para estudantes 
oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário 
mínimo per capita (art. 1º). 
Em seu art. 3º, diz a lei:
Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de 
que trata o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso 
e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas, 
em proporção no mínimo igual à de pretos, pardos e indí-
genas na população da Unidade da Federação onde está 
instalada a instituição, segundo o último censo do Insti-
tuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Parágrafo 
único. No caso de não preenchimento das vagas segundo os 
critérios estabelecidos no caput deste artigo, aquelas rema-
nescentes deverão ser completadas por estudantes que te-
nham cursado integralmente o ensino médio em escolas pú-
blicas.6 [grifos nossos]
Esta lei prevê o prazo de dez anos para que o Po-
der Executivo faça uma “revisão do programa especial para o 
acesso de estudantes pretos, pardos e indígenas, bem como 
daqueles que tenham cursado integralmente o ensino médio 
em escolas públicas, às instituições de educação superior” 
(art. 7º), e poderá decidir a sua continuação ou não. Ainda, 
estabelece um prazo de, no máximo, quatro anos para que 
as instituições a cumpram integralmente, mas relativiza este 
processo de implantação na medida em que flexibiliza o prazo 
para o seu cumprimento, permitindo que as instituições pos-
sam cumpri-lo gradativamente, com um mínimo de 25% da 
reserva de vagas prevista, a cada ano (art. 8º). 
Apesar de ser reconhecida como uma conquista no 
campo das ações afirmativas, no que diz respeito ao aces-
so à educação superior, e de que esta conquista deve ser 
comemorada por todos nós, é preciso atentar para a forma 
como o processo de implantação desta legislação tem se de-
senvolvido e quais têm sido os seus efeitos práticos numa 
estrutura universitária cuja dinâmica de produção e difusão do 
conhecimento científico ainda ocorre sob a lógica perversa 
do racismo e da exclusão social. Chamamos atenção para o fato 
de que a reserva de vagas estabelecida por esta lei de cotas 
é no fundo social, com subcota econômica, privilegiando es-
tudantes de escolas públicas e de baixa renda. Segmentos et-
nicamente discriminados e historicamente excluídos, como os 
6 Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cotas/legislacao.html>. 
Acesso em: 25/8/2015.
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CADERNOS DO GEA, N. 8, JUL.-DEZ. 2015
negros (pretos e pardos) ou afro-brasileiros são contemplados 
com subcotas no interior das variáveis escola pública e renda, 
o que é no mínimo um contrassenso numa sociedade onde as 
desigualdades sociais recaem com maior peso na população 
afro-brasileira, com prejuízos históricos, psicológicos, sociais, 
culturais e econômicos.
Se considerarmos os três anos de tramitação des-
sa lei e o fato de que ela ainda implanta um programa de 
ação afirmativa por cotas gradativo e apenas nas IFES, temos 
que destacar a lentidão desse processo por parte justamente 
daqueles que deveriam agilizá-lo. Isso também se evidencia 
na criação da comissão para o acompanhamento e avaliação 
do programa de reserva de vagas instituído pela legislação 
federal prevista em seu artigo 6º, que diz: “o Ministério da 
Educação e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção 
da Igualdade Racial, da Presidência da República, serão res-
ponsáveis pelo acompanhamento e avaliação deste programa, 
ouvida a Fundação Nacional do Índio (FUNAI)”. Somente dois 
anos depois, os membros da Comissão Consultiva da Socie-
dade Civil sobre a Política de Reserva de Vaga nas IFES fo-
ram nomeados pela Portaria Interministerial MEC-SEPPIR nº 
7/2014,7 com o “objetivo de contribuir para a implementação 
da Lei nº 12.711/2012, e elaborar propostas de ações que 
promovam a concretização efetiva da reserva de vagas junto 
àquelas Instituições”. (Art. 1º)8
7 Os membros (titulares e suplentes) que formam a comissão repre-
sentam